CONCLUSÃO
Deveres dos fiéis e das Igrejas particulares
91. Tudo
o que, tirado dos tesouros da doutrina da Igreja, é proposto por este sagrado
Concílio, pretende ajudar todos os homens do nosso tempo, quer creiam em Deus,
quer não o conheçam explicitamente, a que, conhecendo mais claramente a sua
vocação integral, tornem o mundo mais conforme à sublime dignidade do homem,
aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos
pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências
da nossa era.
Certamente, perante a imensa diversidade de situações e de
formas de cultura existentes no mundo, esta proposição de doutrina reveste
intencionalmente, em muitos pontos, apenas um caráter genérico; mais ainda: embora
formule uma doutrina aceita na Igreja, todavia, como se trata freqüentemente de
realidades sujeitas a constante transformação, deve ainda ser continuada e
ampliada. Confiamos, porém, que muito do que enunciamos, apoiados na palavra de
Deus e no espírito do Evangelho, poderá proporcionar a todos uma ajuda válida,
sobretudo depois de os cristãos terem levado a cabo, sob a direção dos
Pastores, a adaptação a cada povo e mentalidade.
Diálogo entre todos os homens
92. Em
virtude da sua missão de iluminar o mundo inteiro com a mensagem de Cristo e de
reunir em um só Espírito todos os homens, de qualquer nação, raça ou cultura, a
Igreja constitui um sinal daquela fraternidade que torna possível e fortalece o
diálogo sincero.
Isto exige, em primeiro lugar, que, reconhecendo toda a
legítima diversidade, promovamos na própria Igreja a mútua estima, o respeito e
a concórdia, em ordem a estabelecer entre todos os que formam o povo de Deus,
Pastores ou fiéis, um diálogo cada vez mais fecundo. Porque o que une entre si
os fiéis é bem mais forte do que aquilo que os divide: haja unidade no
necessário, liberdade no que é duvidoso, e em tudo caridade.1
Abraçamos também em espírito os irmãos que ainda não vivem
em plena comunhão conosco, e suas comunidades, com os quais estamos unidos na
confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo e pelo vínculo da caridade,
lembrados de que a unidade dos cristãos é hoje esperada e desejada também por
muitos que não crêem em Cristo. Com efeito, quanto mais esta unidade progredir na
verdade e na caridade, pela poderosa ação do Espírito Santo, tanto mais será
para o mundo um presságio de unidade e de paz. Unamos, pois, as nossas forças
e, cada dia mais fiéis ao Evangelho, procuremos, por modos cada vez mais
eficazes, alcançar este fim tão alto, cooperar fraternalmente no serviço da
família humana, chamada, em Jesus Cristo, a tornar-se a família dos filhos de
Deus.
Voltamos também o nosso pensamento para todos os que
reconhecem Deus e guardam nas suas tradições preciosos elementos religiosos e
humanos, desejando que um diálogo franco nos leve a todos a receber com
fidelidade os impulsos do Espírito e segui-los com ardor.
Por nossa parte, o desejo de tal diálogo guiado apenas
pelo amor pela verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém; nem
aqueles que cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda conhecerem
o seu Autor; nem aqueles que se opõem à Igreja, e de várias maneiras a
perseguem. Como Deus Pai é o princípio e o fim de todos eles, todos somos
chamados a sermos irmãos. Por isso, chamados com esta mesma vocação humana e
divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na
edificação do mundo na paz verdadeira.
Mundo a construir e levar à sua finalidade
93. Lembrados
da palavra do Senhor “nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos
amardes uns aos outros” (Jo 13,35), os cristãos nada podem desejar mais
ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens
do mundo de hoje. E assim, fiéis ao Evangelho e graças à sua força, unidos a
quantos amam e promovem a justiça, têm a realizar aqui na terra uma obra
imensa, da qual prestarão contas àquele que a todos julgará no último dia. Nem
todos os que dizem “Senhor, Senhor” entrarão no reino dos céus, mas aqueles que
cumprem a vontade do Pai e põem seriamente mãos à obra. Ora a vontade do Pai é
que reconheçamos e amemos efetivamente em todos os homens a Cristo, por palavra
e obras, dando assim testemunho da verdade e comunicando aos outros o mistério
do amor do Pai celeste. Deste modo, em toda a terra, os homens serão
estimulados à esperança viva, dom do Espírito Santo, para que finalmente sejam
recebidos na paz e felicidade infinitas, na pátria que refulge com a glória do
Senhor.
“Àquele, cujo poder, agindo em nós, é capaz de fazer muito
além, / infinitamente além de tudo o que nós podemos pedir ou conceber, / a ele
seja a glória na Igreja e em Cristo Jesus, / por todas as gerações dos séculos
dos séculos! Amém” (Ef 3,20-21).
Promulgação
Todo o conjunto e cada um dos pontos que foram
enunciados nesta Constituição pastoral agradaram aos Padres. E nós, pela
autoridade apostólica por Cristo a nós confiada, juntamente com os veneráveis
Padres, no Espírito Santo os aprovamos, decretamos, e estatuímos. Ainda
ordenamos que o que foi determinado em Concílio seja promulgado para a glória
de Deus.
Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de dezembro de 1965.
Eu, PAULO, Bispo da Igreja Católica
(Seguem-se as assinaturas dos Padres Conciliares)
7 de dezembro de 1965:
HOMILIA DO PAPA PAULO VI NA CONCLUSÃO SOLENE DO
CONCÍLIO
Veneráveis irmãos.
Concluímos hoje o Concílio Ecumênico Vaticano II e
concluímo-lo na plenitude do seu vigor e da sua eficiência. A vossa presença
tão numerosa demonstra-o, a ordenada estruturação desta assembléia atesta-o, o
legítimo epílogo dos trabalhos conciliares confirma-o, e a harmonia de sentimentos
e propósitos proclama-o. Se não poucas questões, postas no decorrer do
Concílio, ainda aguardam uma solução conveniente, isto indica sem dúvida que o
Concílio não conclui os seus trabalhos no meio do esgotamento de forças, mas
antes no meio do entusiasmo que despertou; no período pós-conciliar, se Deus
quiser, ele voltar-se-á de novo para estas questões com todo o empenho. Este
nosso Concílio deixará à posteridade a imagem da Igreja que esta Aula
representa, assim repleta de pastores que professam a mesma fé, e respiram a
mesma caridade; que estão unidos pela comunhão de oração, de disciplina, de
entusiasmo; como isto é maravilhoso, todos desejarem uma só coisa: oferecer-se
como Cristo, nosso mestre e Senhor, pela vida da Igreja e pela salvação do
mundo. O Concílio, porém, não deixa apenas à posteridade a imagem da Igreja,
mas também o patrimônio da sua doutrina e dos seus mandamentos, isto é, o
depósito que Cristo lhe confiou; depósito que no decurso dos tempos os homens
sempre meditaram, transformaram, por assim dizer, no próprio sangue e
exprimiram de algum modo no seu viver; depósito que agora, aclarado em muitos
pontos, foi estabelecido e ordenado na sua integridade. Este depósito, vivo
pela divina virtude da verdade e da força que o constituem, deve ser
considerado apto para vivificar todo o homem que o acate piedosamente e dele
alimente a sua própria vida.
O que foi este Concílio, e o que fez, seria o tema desta
nossa meditação final. Mas isso pediria demasiada atenção e tempo, e não
ousamos nesta hora última e solene fazer uma síntese de tão importante matéria.
Preferimos reservar estes graves momentos para um pensamento que
simultaneamente nos convide à humildade e nos eleve o ânimo para os maiores
ideais. Preferimos perguntar a nós mesmos qual foi a importância religiosa do
nosso Concílio. Com esta expressão, entendemos significar as nossas relações
com Deus, que bem declaram a razão da existência da Igreja, a sua fé, a sua
esperança, o seu amor, o que ela é, o que ela faz.
Podemos confessar que demos glória a Deus, que buscamos o
seu conhecimento e o seu amor, que adiantamos no esforço da sua contemplação,
na ânsia da sua celebração, na arte de o dar a conhecer aos homens que nos
olham como pastores e mestres dos caminhos do Senhor?
Acreditamos sinceramente que sim, até porque foi esta a
intenção inicial e fundamental onde nasceu o propósito de celebrar o Concílio.
Ressoam ainda, nesta basílica de São Pedro, as palavras pronunciadas no
discurso inaugural do mesmo Concílio, pelo nosso predecessor de feliz memória,
João XXIII, em quem, com toda a razão, podemos ver o autor deste Concílio
Ecumênico. Dizia então aquele Pontífice: “O que mais importa ao Concílio
Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado
e ensinado de forma mais eficaz… O Senhor disse: Procurai primeiro o reino de
Deus e a sua justiça (Mt 6,33). Esta palavra exprime, antes de mais, em que
direção devem mover-se os nossos pensamentos e as nossas forças”. (AAS 54
[1962], p. 790).
E o acontecimento correspondeu exatamente àquela idéia.
Para o apreciarmos devidamente, é necessário recordar o tempo em que se levou a
cabo este acontecimento: foi num tempo em que, como todos reconhecem, os homens
estão voltados mais para a conquista da terra do que para o reino de Deus; foi
num tempo em que o esquecimento de Deus se torna habitual, como se os
progressos da ciência o aconselhassem; foi num tempo em que o ato fundamental
da pessoa humana, mais consciente de si e da sua liberdade, tende a exigir uma
liberdade total, livre de todas as leis que transcendam a ordem natural das
coisas; foi num tempo em que os princípios do laicismo aparecem como a
conseqüência legítima do pensamento moderno e são tidos quase como norma
sapientíssima segundo a qual a sociedade humana deve ser ordenada; foi num
tempo em que a razão humana pretende exprimir o que é absurdo e tira toda a
esperança; foi num tempo, finalmente, em que as religiões étnicas estão
sujeitas a perturbações e transformações jamais experimentadas. Foi neste tempo
que se celebrou o nosso Concílio para glória de Deus, em nome de Cristo, com a
inspiração do Espírito Santo que “tudo perscruta” e que continua a ser a alma
da Igreja, “para que conheçamos os dons de Deus” (cf. 1Cor 2,10-12), quer
dizer, fazendo com que a Igreja conheça profundamente sob todos os aspectos a
vida humana e o mundo. Mercê deste Concílio, a doutrina teocêntrica e teológica
sobre a natureza humana e sobre o mundo atrai a si a atenção dos homens, como
se desafiasse aqueles que a julgam anacrônica e estranha; e tais coisas se
arroga que o mundo qualificará, de início, como absurdas, mas que depois, assim
o esperamos, reconhecerá espontaneamente como humanas, como prudentes e
salutares, a saber: Deus existe. Sim, Deus é; realmente existe; vive; é pessoal;
é providente, dotado de infinita bondade, não só bom em si mesmo mas
imensamente bom para nós; é o nosso criador, a nossa verdade, a nossa
felicidade, de tal modo que o homem, quando procura fixar em Deus a sua mente e
o seu coração, entregando-se à contemplação, realiza o ato que deve ser
considerado o mais alto e mais perfeito; ato, que mesmo hoje pode e deve
hierarquizar a imensa pirâmide da atividade humana.
Dirá alguém que o Concílio, mais do que das verdades
divinas, se ocupou principalmente da Igreja, da sua natureza, da sua estrutura,
da sua vocação ecumênica, da sua atividade apostólica e missionária. Esta
secular sociedade religiosa que é a Igreja esforçou-se por pensar sobre si
mesma, para melhor se conhecer, melhor se definir e, conseqüentemente, melhor
dispor os seus sentimentos e os seus preceitos. Isto é verdade. Mas esta
introspecção não foi o único fim que teve em vista, não foi uma ostentação de
pura cultura terrena. A Igreja, com efeito, entrando em si mesma, penetrou no
íntimo da sua consciência não para se comprazer em eruditas análises sobre a
psicologia religiosa ou a história das suas experiências, ou para
intencionalmente reafirmar os seus direitos ou formular as suas leis: fez isto
para encontrar em si a palavra de Cristo, viva e operante no Espírito Santo, e
para sondar mais profundamente o mistério, ou seja, o desígnio e a presença de
Deus fora e dentro de si, e para reavivar em si a chama da fé, que é o segredo
da sua segurança e da sua sabedoria, e reavivar o fogo do amor, que a obriga a
cantar sem descanso os louvores de Deus, porque, como diz santo Agostinho: Cantar
é próprio do amante. (Serm. 336; PL 38, 1472). Os documentos conciliares,
principalmente os que tratam da revelação divina, da liturgia, da Igreja, dos
sacerdotes, dos religiosos, dos leigos, permitem ver diretamente esta
primordial intenção religiosa e demonstram quão límpida, jovial e rica é a
vertente espiritual que o vivo contato com Deus vivente faz irromper no seio da
Igreja e correr sobre as áridas glebas da nossa terra.
Mas não é lícito omitir algo que é da maior importância
quando investigarmos o vigor religioso deste Concílio: interessou-se vivamente
em perscrutar o mundo deste nosso tempo. Nunca talvez como no tempo deste
Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar, julgar
retamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica, e, por assim
dizer, atingir a sociedade humana que a rodeia, seguindo-a na sua rápida e
contínua mudança. Esta atitude, nascida pelo fato de a Igreja, no passado e
sobretudo neste século, ter estado ausente e afastada da civilização profana,
esta atitude, sempre inspirada pela essencial missão salvadora da Igreja,
esteve presente eficaz e continuamente no Concílio. Por isso é que alguns
suspeitaram que nos homens e nos atos do Concílio tinha dominado, mais do que
era justo e com demasiada indulgência, a doutrina do relativismo que se
encontra no mundo externo, nas coisas que passam fugazmente, nas novas modas,
nas necessidades contingentes, nos pensamentos dos outros; e isto à custa da
fidelidade devida à doutrina tradicional e com prejuízo da orientação religiosa
que necessariamente é própria de um Concílio. Julgamos que não lhe deve ser
atribuída esta atitude perniciosa, se bem atendermos às suas verdadeiras e
misteriosas intenções e aos seus atos autênticos.
Desejamos antes notar que a religião do nosso Concílio
foi, antes de mais, a caridade; por esta sua declarada intenção, o Concílio não
poderá ser acusado por ninguém de irreligiosidade, de infidelidade ao
Evangelho, se nos lembrarmos que o próprio Cristo nos ensina que todos
conhecerão que somos seus discípulos, se nos amarmos mutuamente (Jo 13,35); se
deixarmos igualmente que estas palavras do Apóstolo se façam ouvir dentro das
nossas almas: “A religião pura e imaculada junto de Deus Pai é esta: visitar os
órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e conservar-se imaculado neste mundo”
(Tg 1,27); e mais estas: “Quem… não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar
alguém que não vê?” (1Jo 4,20).
Na verdade, a Igreja, reunida em Concílio, entendeu
sobretudo fazer a consideração sobre si mesma e sobre a relação que a une a
Deus; e também sobre o homem, tal qual se apresenta realmente no nosso tempo: o
homem que vive; o homem que se esforça por cuidar só de si; o homem que não só
se julga digno de ser o centro de todo e qualquer interesse, mas também não se
envergonha de afirmar que é o princípio e a razão de ser de tudo. Todo o homem
fenomênico, para usarmos o termo moderno, revestido dos seus inúmeros hábitos,
com os quais se revelou e se apresentou diante dos Padres conciliares que são
também homens, todos pastores e irmãos, e por isso atentos e cheios de amor é o
homem que lamenta corajosamente os seus próprios dramas; o homem que não só no
passado mas também agora julga os outros inferiores, e, por isso, sempre frágil
e falso, egoísta e feroz; o homem que vive descontente de si mesmo, que ri e
chora; o homem versátil, sempre pronto a representar; o homem rígido, que
cultiva apenas a realidade científica; o homem que como tal pensa, ama,
trabalha, sempre espera alguma coisa, à semelhança do “filius accrescens”
(Gn 49,22); o homem sagrado pela inocência da sua infância, pelo mistério da
sua pobreza, pela piedade da sua dor; o homem individualista, dum lado, e o
homem social, do outro; o homem “laudator temporis acti”, e o homem que
sonha com o futuro; o homem por um lado sujeito a faltas, e por outro adornado
de santos costumes; e assim por diante. O humanismo laico e profano apareceu,
finalmente, em toda a sua magnitude, desafiando o Concílio. A religião do Deus
que se fez homem encontrou-se com a religião (porque tal é) do homem que se faz
Deus. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas
de fato não se deu. Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e
norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. Com efeito, um imenso amor
para com os homens penetrou totalmente o Concílio. A descoberta e a
consideração renovada das necessidades humanas, que são tanto mais molestas
quanto mais se levanta o filho desta terra, absorveram toda a atenção deste
Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades
transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso
humanismo novo: também nós, e nós mais do que ninguém, somos cultores do homem.
Que viu na humanidade este augusto senado? Que se propôs
ele estudar à luz da divindade? Quis considerar profundamente a sua dupla
fisionomia: a miséria e a grandeza do homem, o seu mal profundo, mal sem dúvida
incurável, e o seu bem, que permanece, sempre marcado de misteriosa beleza e
singular poder. Precisamos reconhecer que este nosso Concílio, ao fazer o seu
juízo a respeito do homem, se deteve mais nos seus aspectos felizes que nos
desditosos. Nisto ele tomou uma atitude claramente otimista. Uma corrente de
interesse e de admiração saiu do Concílio sobre o mundo atual. Rejeitaram-se os
erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado
sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim
se fez, para que em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios
cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo atual não com
presságios funestos, mas com mensagens de esperança e palavras de confiança.
Não só respeitou, mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas
iniciativas, e depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços.
Vede, por exemplo, como inumeráveis línguas foram
admitidas para exprimir liturgicamente a palavra dos homens a Deus e a Palavra
de Deus aos homens; como foi reconhecida ao homem enquanto homem a sua vocação
fundamental a tantos direitos e a um destino transcendente; como as suas
supremas aspirações à vida, à dignidade da pessoa, à honrada liberdade, à cultura,
à renovação da ordem social, à justiça, à paz, foram purificadas e estimuladas;
como a todos os homens foi dirigido o convite pastoral e missionário para
receberem em si a luz do Evangelho. Tocamos muito rápido tantos e tão
complicados problemas relativos ao bem-estar humano, de que o Concílio se
ocupou. O Concílio não pretendeu resolver todas as questões mais urgentes da
vida atual; algumas ficaram reservadas para estudos mais profundos, que a
Igreja levará depois a cabo; muitas outras foram tratadas em termos demasiado
breves e gerais, e por isso admitem explicações mais profundas e aplicações
diversas.
Mas convém notar uma coisa: o magistério da Igreja, embora
não tenha querido pronunciar-se com sentenças dogmáticas extraordinárias sobre
nenhum capítulo doutrinal, propôs, todavia, o seu ensinamento autorizado acerca
de muitas questões que hoje comprometem a consciência e a atividade do homem. O
magistério, por assim dizer, desceu para dialogar com o homem; e conservando
sempre a sua autoridade e a sua virtude, adotou a maneira de falar acessível e
amiga que é própria da caridade pastoral. Quis fazer-se ouvir e entender por
todos. Por isso, não se preocupou só com falar à inteligência do homem, mas
exprimiu-se no modo hoje usado na conversação corrente, em que o recurso à
experiência da vida e o emprego dos sentimentos cordiais dão mais força para
atrair e para convencer. Isto é, falou aos homens de hoje, tais quais são.
Outra coisa julgamos digna de consideração: toda esta
riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as
circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas
necessidades. A Igreja declarou-se como que a escrava da humanidade,
precisamente no momento em que tanto o seu magistério eclesiástico como o seu
governo pastoral adquiriram maior esplendor e vigor devido à solenidade
conciliar; a idéia de serviço ocupou o lugar central.
Tudo isto e tudo o mais que poderíamos dizer acerca do
Concílio, terá porventura desviado a Igreja em Concílio para a direção
antropocêntrica da cultura moderna? Desviado, não; resolvido, sim. Mas quem
observa honestamente este interesse prevalecente do Concílio pelos valores
humanos e temporais, não pode negar que tal interesse se deve ao caráter
pastoral que o Concílio escolheu como programa, e deverá reconhecer que esse
mesmo interesse jamais está separado do interesse religioso mais autêntico,
devido à caridade que é a única a inspirá-lo (e onde está a caridade, aí está
Deus), ou à união dos valores humanos e temporais com os especificamente
espirituais, religiosos e eternos, afirmada e promovida sempre pelo Concílio;
este debruça-se sobre o homem e sobre a terra, mas eleva-se ao reino de Deus. A
mentalidade moderna, habituada a julgar todas as coisas sob o aspecto do valor,
isto é, da utilidade, deverá admitir que o valor do Concílio é grande ao menos
por isto: todo ele se orientou à utilidade humana. Portanto, ninguém chame
inútil a uma religião como a católica, que, ao exprimir a forma mais consciente
e mais eficaz da sua ação, isto é, ao celebrar um Concílio Ecumênico, se
declara toda em favor e em serviço do homem. A religião católica e a vida
humana reafirmam assim a sua aliança, a sua convergência para um só bem humano,
a saber: a religião católica é para a humanidade; e, por assim dizer, é a vida
da humanidade. É a vida da humanidade, pela doutrina sublime e de todo perfeita
que oferece a respeito do homem (não é, porventura, o homem, deixado a si
mesmo, um mistério para si mesmo?); e oferece-a precisamente em virtude da sua
ciência a respeito de Deus: para conhecer o homem, o homem verdadeiro, o homem
integral, é necessário conhecer a Deus; para o provar, basta-nos por agora
recordar as palavras inflamadas de Santa Catarina de Sena: “Na tua natureza, ó
Deus eterno, conhecerei a minha natureza” (Or. 24). A religião católica é a
vida da humanidade porque descreve a natureza e o destino do homem, e dá-lhe o
seu verdadeiro sentido. É a vida da humanidade, finalmente, porque constitui a
lei suprema da vida, e à vida infunde a misteriosa energia que faz dela uma
vida verdadeiramente divina.
E se recordamos, veneráveis irmãos e amados filhos, todos
vós que estais aqui presentes, como no rosto de todo o homem, sobretudo se se
tornou transparente pelas lágrimas ou pelas dores, devemos descobrir o rosto de
Cristo (Mt 25,40), o Filho do Homem; e se no rosto de Cristo devemos descobrir
o rosto do Pai celestial, segundo aquela palavra: “quem me vê a mim, vê também
o Pai” (Jo 14,9), o nosso humanismo muda-se em cristianismo, e o nosso
cristianismo faz-se teocêntrico, de tal modo que podemos afirmar: para conhecer
a Deus, é necessário conhecer o homem.
Estaria, então, destinado este Concílio, que dedicou ao
homem a sua principal e esforçada atenção, a propor de novo ao mundo moderno a
libertação e a consolação a que gradualmente pode subir? Não será, em resumo,
um modo simples, novo e solene de ensinar a amar o homem para amar a Deus? Amar
o homem, dizemos, não como instrumento, mas como que primeiro fim, que nos leva
ao supremo fim transcendente. Por isso, todo este Concílio se resume no seu
significado religioso, não sendo outra coisa senão um veemente e amistoso
convite em que a humanidade é chamada a encontrar, pelo caminho do amor
fraterno, aquele Deus “de quem afastar-se é cair, a quem dirigir-se é
levantar-se, em quem permanecer é estar firme, a quem voltar é renascer, em
quem habitar é viver”. (Santo Agostinho, Solil. I,3: PL 32, 870.)
Assim nós o esperamos, no final deste Concílio Ecumênico Vaticano
II, e no início da renovação humana e religiosa que ele se propôs estudar e
promover; assim o esperamos para nós, irmãos e Padres do Concílio; assim o
esperamos para a humanidade inteira, que aqui aprendemos a amar mais e a servir
melhor.
E enquanto para tal invocamos de novo a intercessão dos
santos João Batista e José, padroeiros do Concílio Ecumênico, dos santos
apóstolos Pedro e Paulo, fundamentos e colunas da santa Igreja, e com eles a de
santo Ambrósio, bispo, cuja festa hoje celebramos, como que juntando por meio
dele a Igreja do Oriente e do Ocidente, imploramos igualmente de todo o coração
a proteção da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Cristo, por nós chamada
também Mãe da Igreja, e com uma só voz, um só coração, damos graças e glorificamos
a Deus vivo e verdadeiro, a Deus único e sumo, ao Pai, ao Filho e ao Espírito
Santo. Amém.
CARTA APOSTÓLICA COM A QUAL SE ENCERRA O CONCÍLIO
paulo vi, papa
para perpétua memória
O Concílio Ecumênico Vaticano II, reunido no Espírito
Santo e sob a proteção da bem-aventurada Virgem Maria, a quem declaramos Mãe da
Igreja, de são José seu ínclito esposo, e dos santos apóstolos Pedro e Paulo,
deve ser contado sem dúvida entre os maiores acontecimentos da Igreja. Com
efeito, foi o maior pelo número de Padres, vindos de todas as partes da terra,
mesmo daquelas onde só há pouco foi constituída a hierarquia; foi o mais rico
pelos temas que, durante quatro sessões, foram tratados com empenho e
perfeição; foi o mais oportuno, enfim, porque, tendo em conta as necessidades
dos nossos dias, atendeu sobretudo às necessidades pastorais e, alimentando a
chama da caridade, esforçou-se muito por atingir com afeto fraterno não só os
cristãos ainda separados da comunhão da Sé Apostólica, mas também toda a
família humana. Assim pois, com a graça de Deus, estando neste momento
concluído tudo quanto diz respeito ao mesmo sagrado Concílio Ecumênico e tendo
sido aprovadas por deliberação conciliar e por nós promulgadas todas as
constituições, decretos, declarações e votos, com a nossa autoridade apostólica
decidimos e estabelecemos encerrar, para todos os efeitos, o mesmo Concílio
Ecumênico, convocado pelo nosso predecessor de feliz memória, João XXIII, no
dia 25 de dezembro de 1961, inaugurado no dia 11 de outubro de 1962, e por nós
continuado depois da sua piíssima morte. Mandamos também e ordenamos que tudo
quanto foi estabelecido conciliarmente seja observado santa e religiosamente
por todos os fiéis, para glória de Deus, honra da santa mãe Igreja,
tranqüilidade e paz de todos os homens. Isto sancionamos e estabelecemos,
decretando que a presente Carta apostólica seja e permaneça plenamente firme,
válida e eficaz; que tenha e consiga os seus efeitos plenos e íntegros; que
seja apoiada por aqueles a quem, agora ou no futuro, dizem ou poderão dizer
respeito; que assim se deve julgar e definir; e que desde este momento se deve
ter como nulo e sem valor tudo quanto se fizer em contrário, por qualquer
indivíduo ou autoridade, conscientemente ou por ignorância.
Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o anel do
pescador, no dia 8 de dezembro, na festa da Imaculada Conceição da
bem-aventurada Virgem Maria, de 1965, terceiro ano do nosso Pontificado.
Paulo PP. VI