"A MINHA CARNE É
VERDADEIRA COMIDA... MEU SANGUE, VERDADEIRA COMIDA" - O SANTÍSSIMO
CORPO E O PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE NOSSO SENHOR E SALVADOR JESUS CRISTO, REI DO
UNIVERSO
Rafael Vitola Brodbeck
“‘Eu
sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o
pão, que eu dei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.’ A essas
palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: ‘Como pode este homem
dar-nos d comer a sua carne?’ Então Jesus lhes disse: ‘Em verdade, em verdade
vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu
sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu
sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha
carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim
como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que
comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desce do céu. Não como o
maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá
eternamente.’” (Evangelho de São João, VI, 51-58)
Aparecendo a Santa Juliana de Mont-Cornillon, abadessa de um mosteiro
agostiniano, Nosso Senhor Jesus Cristo a inspira para que ajude na instituição
de uma festa em honra de Sua real presença no Santíssimo Sacramento da
Eucaristia. Apesar dos protestos dos hereges, principalmente albigenses – que,
por seu dualismo gnóstico, negavam qualquer relação entre os planos espiritual
e material, que é justamente o princípio para entendermos a Eucaristia –, Dom
Roberto de Thourotte, Bispo de Lieja, estabelece em sua circunscrição, no ano
de 1246, por influência das visões de Santa Juliana, a festa que mais tarde
seria conhecida como Corpus Christi. Estendida pelo Cardeal Hugo de Saint-Cher
para toda a Alemanha, a comemoração é logo assumida como oficial em toda a
Igreja Ocidental pelo Papa Urbano IV, que, em 1264, mediante a Bula
Transiturus, ordena sua celebração.
Os carmelitas e os dominicanos, nos primeiros anos de sua
oficialização, constituem-se em autênticos apóstolos da festa de Corpus
Christi. É, aliás, um dominicano, a glória da Ordem fundada por São Domingos,
que irá, a pedido de Urbano IV, compor o próprio da Missa e os ofícios da
Liturgia das Horas do Corpus: São Tomás de Aquino revela-se não apenas um
excelente teólogo e filósofo, mas também um inspiradíssimo compositor sacro.
Todas as orações constantes no Ofício Divino e no Missal para esse dia são de
sua autoria.
A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo,
longa denominação para esse festa medieval que tanto foi necessária para
reafirmar o dogma católico frente aos ataques heréticos, se faz urgente nestes
tempos em que vivemos. O ódio atual à doutrina da presença real de Cristo na
Eucaristia talvez só seja superado pelo dos tempos de Berengário de Tours, ou
pelo dos primeiros protestantes que negaram tão vital dogma de nossa santíssima
religião. Vários padres e famosos teólogos, ao invés de defenderem a doutrina,
transformam-se, embebidos de modernismo e relativismo religioso, nos principais
adversários do maior presente que nos foi deixado por Nosso Redentor: Sua
presença nos sacrários de toda a terra.
De fato, é grave a situação em que nos encontramos. Urge que a
Santíssima Eucaristia seja defendida, tal como nos foi revelada por Deus em
Cristo, conforme nos expressa o cristalino texto evangélico pelo Lecionário
disposto para a Missa Solene de hoje. A Carne de Jesus é verdadeira comida, e
Seu Sangue verdadeira bebida. Não aparente, não simbólica.
“Por
isso, não olhem o pão e o vinho como simplesmente isso, pois eles são, de
acordo com as declarações dos mestres, o Corpo e o Sangue de Cristo.” (São
Cirilo de Jerusalém; Catequeses Mistagógicas, 4, 6)
Há, pelas palavras do sacerdote – que age in persona Christi, e por
isso, em virtude do sacramento da Ordem por ele recebido, faz as vezes do
Senhor, não só na renovação do sacrifício da Cruz, senão também na conversão
das espécies eucarísticas no sacramento que se quer celebrar –, uma autêntica
mudança. É o que diz São Gregório de Nissa: “Corretamente, então, cremos que
o pão consagrado pela palavra de Deus se torna o Corpo de Deus.” (Grande
Catecismo, 37) E também
Santo Ambrósio, Bispo de Milão: “Vós podeis talvez dizer: ‘meu pão é pão comum.’
Mas esse pão é pão somente antes das palavras sacramentais; quando é
consagrado, então, é a Carne de Cristo.” (Os Sacramentos, 4, 4, 14) O pão se muda para Carne de
Cristo; o Sangue se muda para Sangue de Cristo. Não é uma mudança de forma,
pois os acidentes continuam os mesmos; aparência, gosto, cheiro de pão e de
vinho. Refuta-se a transformação, ora. Tampouco uma mudança de significado ou
de finalidade. Não é que o pão se mude “para nós” em Cristo, ou que os
católicos tenhamos entendido nesse significado, num calvinismo eucarístico
explícito. Condena-se, pois, o termo “transignificação” ou “transfinalização”.
Na Eucaristia existe um símbolo de muitas coisas, é verdade. Mas esse
simbolismo não esgota o sentido do sacramento. Quanto à presença de Jesus
Cristo, não há que se falar em sinal ou símbolo, eis que está essencial e
realmente presente. Palavras do Papa Paulo VI a esse respeito: “Não é
lícito, só para aduzirmos um exemplo, exaltar a Missa chamada ‘comunitária’, a
ponto de se tirar a sua importância à Missa privada; nem insistir tanto sobre o
conceito de sinal sacramental, como se o simbolismo que todos, é claro,
admitimos na Sagrada Eucaristia, exprimisse, única e simplesmente, o modo da
presença de Cristo neste sacramento; ou ainda discutir sobre o mistério da
transubstanciação sem mencionar a admirável conversão de toda a substância do
pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue de Cristo, conversão de
que fala o Concílio Tridentino; limitam-se apenas à transignificação e
transfinalização, conforme se exprimem. Nem é lícito, por fim, propor e
generalizar a opinião que afirma não estar presente Nosso Senhor Jesus Cristo
nas hóstias consagradas que sobram, depois da celebração do Sacrifício da
Missa.” (Carta Encíclica Mysterium Fidei, 11)
Os inimigos da presença real de Cristo precisam ser vencidos novamente.
Atacando o preciso dogma da transubstanciação, i.e., da mudança de substância
do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor, acabam por desferir suas
mortais rajadas no próprio Jesus, que instituiu tão formidável sinal de Sua
graça e tão real manifestação de Sua presença.
Crêem os hereges, claro, que a Eucaristia é um sinal, um símbolo da
presença de Jesus Cristo. Quando Ele falou que aquele pão partido e aquele
vinho no cálice eram Seu Corpo e Seu Sangue (cf. Lc 22,19-20), teria querido
dizer que se tratava de um símbolo de Sua presença santíssima, ou de uma
presença espiritual. Sobre esse tema, já se adiantava profeticamente São
Boaventura, teólogo maior da Ordem Franciscana: “Estar Cristo no
Sacramento como num sinal, nenhuma dificuldade tem; estar no Sacramento
verdadeiramente, como no céu, tem a maior das dificuldades: é pois sumamente
meritório acreditá-lo.” (In IV
Sent., X, P. I, a. un., q. I; Opera Omnia, N, 217)
Temos insistido, sobremaneira, em algumas de nossas meditações, sobre o
caráter sacrificial da Eucaristia, enquanto renovação, atualização do Calvário,
coisa que também é atacada pelos modernistas, pelo menos na prática face à
bagunça litúrgica que presenciamos e a diminuição do sagrado na Santa Missa,
assemelhando-a a um simples culto piedoso de oração ou a uma reunião
protestante. Longe de querer mudar a estratégia, acrescentamos a essa defesa,
humilde confessamos, que vínhamos fazendo, outro ponto sobre a Missa: nela não
só se torna presente o sacrifício de Nosso Senhor, como também por ela ocorre a
mudança das substâncias contidas na espécies eucarísticas, convertendo-se o pão
e o vinho em verdadeiros Corpo e Sangue de Jesus Cristo.
É
o ensino do Tridentino:
“Em
primeiro lugar, ensina o Santo Concílio, claramente, e sinceramente confessa
que depois da consagração do pão e do vinho, fica contido no saudável
sacramento da Santa Eucaristia, verdadeira, real e substancialmente nosso
Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e Homem, sob as espécies daqueles
materiais sensíveis, pois não existe com efeito, incompatibilidade que o mesmo
Cristo nosso Salvador esteja sempre sentado, no Céu, à direita do Pai, segundo
o modo natural de existir e que ao mesmo tempo nos assista sacramentalmente com
Sua presença, e em sua própria substância em outros lugares, com existência que
ainda que apenas o possamos expressar com palavras, poderemos, não obstante,
alcançar com nosso pensamento ilustrado pela fé, que é possível a Deus, e
devemos firmemente acreditar.
Assim pois, professaram
clarissimamente todos os nossos antepassados que viveram a verdadeira Igreja de
Cristo, e trataram deste santíssimo e admirável Sacramento, a saber: que nosso
Redentor o instituiu na última ceia, quando depois de ter benzido o pão e o
vinho, atestou a seus Apóstolos, com claras e enérgicas palavras que lhes dava
Seu próprio Corpo e Seu próprio Sangue. E sendo fato consumado que as ditas
palavras mencionadas pelos mesmos Santos Evangelistas e repetidas depois pelo
Apóstolo São Paulo, incluem em si mesmas aquele próprio e patentíssimo
significado, segundo as entenderam os santos Padres, é sem dúvida execrável a
maldade com que certos homens pretensiosos e corruptos as distorcem, violentam
e tentam explicar em sentido figurado, fictício ou imaginário, negando a
realidade da Carne e Sangue de Jesus Cristo contra a inteligência unânime da
Igreja, que sendo coluna e apoio da Verdade, sempre detestou por serem
diabólicas estas ficções expressas por homens ímpios e sempre conservou
indelével a memória e gratidão deste tão sobressalente benefício que nos fez
Jesus Cristo.” (Concílio Ecumênico de Trento; Decreto sobre o Santíssimo
Sacramento da Eucaristia, Cap. I)
“Mas
pelo que disse Jesus Cristo nosso Redentor, que era verdadeiramente Seu Corpo
que O oferecia sob a espécie do pão, a Igreja de Deus acreditou perpetuamente e
o mesmo declara novamente o Santo Concílio que pela consagração do pão e do
vinho, são convertidas: a substância total do pão no Corpo de nosso Senhor, e a
substância total do vinho no Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, e essa
transformação é oportuna e propriamente chamada de Transubstanciação pela
Igreja Católica.” (Concílio Ecumênico de Trento; Decreto sobre o Santíssimo
Sacramento da Eucaristia, Cap. IV)
Outrossim, contra os erros de Lutero – que ensinava que a substância do
pão e do vinho permanecem conjuntamente com a presença real de Cristo, no que
chamou “consubstanciação”, e isso só enquanto durasse a Missa; e que não era
necessário confessar-se sacramentalmente antes de receber a Eucaristia na
existência de pecados mortais, bastando a fé e a conversão; e, além disso, que
o principal fruto da Missa era o perdão dos pecados, substituindo-a à
Penitência – e de outros hereges – Calvino, por exemplo, pregava a presença
espiritual, ou a mudança de significado do pão para Carne e do vinho para
Sangue, negando a transubstanciação; Zwinglio cria numa presença meramente
simbólica, num sinal da presença de Jesus –, formulou o Sacrossanto Concílio,
alguns cânones a respeito da Eucaristia, que citamos a seguir, por considerar
de extrema valia para o leitor:
“Cân. I - Se alguém negar que no
santíssimo sacramento da Eucaristia está contido verdadeira, real e
substancialmente o corpo e o sangue juntamente com a alma e divindade de nosso
Senhor Jesus Cristo e por conseqüência o Cristo inteiro; mas pelo contrário,
disser que apenas existe na Eucaristia um sinal, ou figura virtual, seja
excomungado.
Cân. II - Se alguém disser que
no sacrossanto sacramento da Eucaristia permanece substância de pão e vinho
juntamente com o Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, e negar aquela
admirável e singular conversão de toda a substância do pão em Corpo e de toda
substância do vinho em Sangue, permanecendo somente as espécies de pão e vinho,
conversão que a Igreja Católica propiciamente chama de Transubsctanciação, seja
excomungado.
Cân III - Se alguém negar que o
venerável sacramento da Eucaristia contém o Cristo Total em cada uma das
espécies, e em cada uma das partículas em que forem divididas as espécies, seja
excomungado.
Cân. IV - Se alguém disser que,
feita a consagração, não existe no admirável sacramento da eucaristia, nada
além de mentiras, e que recebe, mas nem antes e nem depois permanece o
verdadeiro Corpo do Senhor nas hóstias ou partículas consagradas, que se
guardam depois das comunhões, seja excomungado.
Cân. V - Se alguém disser que o
principal fruto da Sacrossanta Eucaristia, é o perdão dos pecados, ou que não
provém dela outros efeitos, seja excomungado.
Cân. VI - Se alguém disser que
no santo sacramento da eucaristia não se deve adorar a Cristo, Filho unigênito
de Deus, com o culto de ‘latria’ nem também com o externo, e que portanto não
se deve venerar com peculiar e festiva celebração, nem ser conduzido
solenemente em procissões, segundo o louvável e universal rito e costume da
Santa Igreja, ou que não se deve expor publicamente ao povo para que receba
adoração, e que tal adoração constitui idolatria, seja excomungado.
Cân. VII - Se alguém disser que
não é lícito reservar a Sagrada Eucaristia no sacrário, pois imediatamente
depois da consagração é necessário que se faça a distribuição total das
hóstias, ou disser que não é lícito levá-la piedosamente aos enfermos, seja
excomungado.
Cân. VIII - Se alguém disser que
Cristo, dado na eucaristia, somente é recebido espiritualmente e não também
sacramental e realmente, seja excomungado.
Cân. IX - Se alguém negar que
todos e cada um dos fiéis Cristãos de ambos os sexos, quando tenham chegado ao
completo uso da razão, estão obrigados a comungar todos os anos ao menos na
Páscoa da Ressurreição, segundo o preceito de nossa Santa Madre Igreja, seja
excomungado.
Cân. X - Se alguém disser que
não é lícito ao sacerdote que celebra a missa, comungar-se a si mesmo, seja
excomungado.
Cân. XI - Se alguém disser que
apenas a fé é preparação suficiente para receber o Sacramento da Santíssima
Eucaristia, seja excomungado.” (Concílio Ecumênico de Trento; Cânones sobre o
Santíssimo Sacramento da Eucaristia)
Jesus, pois, não está representando ou simbolizado na hóstia e no
cálice consagrados. Sua presença é real, e há uma verdadeira mudança de
substância, de modo que não mais estamos diante do pão e do vinho, senão que do
Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor. Não é simples símbolo. A Eucaristia não
simboliza Cristo. A Eucaristia é Cristo! Fiéis são essas palavras ao comentário
de São Cirilo de Alexandria sobre o Evangelho de Mateus: “Ele
declara taxativamente: ‘Este é o meu Corpo’ e ‘Este é o meu Sangue’; não diz
que possam supor que as coisas que vêem são uma figura. Mas bem, por algum
segredo de Deus Todo-Poderoso, as coisas que vêem são mudadas no Corpo e no
Sangue de Cristo, verdadeiramente oferecidos em sacrifício no qual nós, como
participantes, recebemos o poder doador de vida e santificação de Cristo.”
(Comentário sobre Mateus, 26, 27)
Entendemos que um grande meio para ajudar a difundir a fé na real
presença de Jesus na Santa Eucaristia é, justamente, a reflexão no significado
de uma de seus maiores louvores, a Santa Missa de Corpus Christi, composta pelo
Aquinate. Toda as Missas, é verdade, com seus ofícios, orações próprias e
comuns, prefácios, salmos, hinos, antífonas, nos recordam os dois particulares
e essenciais aspectos da teologia eucarística. Ao mesmo tempo em que ressaltam
que estamos diante de um verdadeiro sacrifício, o mesmo, único e suficiente,
oferecido de uma vez por todas no Calvário, tornado novamente presente sobre o
altar da igreja onde é celebrada; tais preces reafirmam outra realidade crucial
da Fé Católica, qual que as espécies eucarísticas, dons que se apresentam no
rito do ofertório, se mudam, substancialmente – daí o termo “transubstanciação”
– no próprio Jesus Cristo, Deus encarnado, a Segunda Pessoa da Santíssima
Trindade, mais do que um profeta ou um milagreiro, o próprio Senhor e Criador
de tudo.
Entretanto, os textos próprios da Missa desta solenidade em honra do
Corpo de Deus, por mais que todas as celebrações o façam, apontam de uma
maneira mais excelente para o que estamos tentando resgatar e defender. Senão,
vejamos: já no intróito da Missa de Corpus Christi, fala a liturgia – Missal de
1970, Novus Ordo – em Deus nos alimentando, que é o papel primordial da
Comunhão Eucarística, que se dá a nós para que, comungando, participemos de
Cristo e formemos o Seu Corpo que ora comemos – inevitável lembrar que a Igreja
Católica, da qual fazemos parte pelo Batismo, é o Corpo Místico do Senhor
Jesus, e que assumimos, portanto, a plenitude dessa pertença, quando comungamos
da Eucaristia; ela nos faz Igreja, no sentido mais profundo e místico da
palavra. “O Senhor alimentou seu povo com a flor do trigo e com o
mel do rochedo o saciou.” (Missal Romano; Solenidade do Santíssimo Corpo e
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; Antífona de Entrada)
Assim, continua a liturgia da Missa de hoje, com o conhecido hino Lauda
Sion – de cuja tradução oficial para o português, a Comissão de Liturgia da
CNBB verteu “Sião”, sinônimo de Israel, para “Terra” (o motivo pelo qual São
Tomás compôs “Sião” foi associar os louvores ao Santíssimo à Igreja Católica,
Novo Israel, da qual Cristo é o dux et pastor, o chefe e pastor; o “Terra” da versão portuguesa parece identificar o
rebanho de Jesus a todo o universo, independente de estarem ou não na Igreja, o
que carrega o cheiro de modernismo!) “Lauda Sion salvatorem, lauda
ducem et pastorem, in hymnis et canticis. Quantum potes, tantum aude: quia
maior omni laude, nec laudare sufficis.” (Missale Romanum; Solemnitas
Sanctissimi Corporis et Sangunis Iesu Christi Dominum Nostrum; Sequentia)
Fazemos questão de transcrever todo o hino, que serve de Seqüência para
esta Missa, na tradução da CNBB, para que sirva de meditação auxiliar ao
leitor, refletindo na riqueza das palavras do antiqüíssimo canto. Cada linha
esboça a profunda piedade com que o povo tem ornado Nosso Senhor, e revela uma
catequese simples sobre toda a teologia da Eucaristia e o ato de comungar.
Leiamos, calmamente:
“Terra,
exulta de alegria, louva teu pastor e guia com teus hinos, tua voz! Tanto
possas, tanto ouses, em louvá-lo não repouses: sempre excede do teu louvor!
Hoje a Igreja te convida: ao pão vivo que dá vida vem com ela celebrar! Este
pão, que o mundo o creia!, por Jesus, na santa ceia, foi entregue aos que
escolheu. Nosso júbilo cantemos, nosso amor manifestemos, pois transborda o
coração! Quão solene a festa, o dia, que da Santa Eucaristia nos recorda a
instituição! Novo Rei e nova mesa, nova Páscoa e realeza, foi-se a Páscoa dos
judeus. Era sombra o antigo povo, o que é velho cede ao novo; foge a noite,
chega a luz. O que o Cristo fez na ceia, manda à Igreja que o rodeia, repeti-lo
até voltar. Seu preceito conhecemos: pão e vinho consagremos para nossa
salvação. Faz-se carne o pão de trigo, faz-se sangue o vinho amigo: deve-o crer
todo cristão. Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado
pela fé. Pão e vinho, eis o que vemos; mas ao Cristo é que nós temos em tão
ínfimos sinais... Alimento verdadeiro, permanece o Cristo inteiro que no vinho,
quer no pão. É por todos recebido, não em parte ou dividido, pois inteiro é que
se dá! Um ou mil comungam dele, tanto este quanto aquele: multiplica-se o
Senhor. Dá-se ao bom como ao perverso, mas o efeito é bem diverso: vida e morte
traz em si... Pensa bem: igual comida, se ao que é bom enche de vida, traz a
morte para o mau. Eis a hóstia dividida... Quem hesita, quem duvida? Como é
toda o autor da vida, a partícula também. Jesus não é atingido: o sinal é que é
partido, mas não é diminuído, nem se muda o que contém. Eis o pão que os anjos
comem transformado em pão do homem; só os filhos o consomem: não será lançado
aos cães! Em sinais prefigurado, por Abraão foi imolado, no cordeiro aos pais
foi dado, no deserto foi maná... Bom pastor, pão de verdade, piedade, ó Jesus,
piedade, conservai-nos na unidade, extingui nossa orfandade, transportai-nos
para o Pai! Aos mortais dando comida, dais também o pão da vida; que a família
assim nutrida seja um dia reunida aos convivas lá no céu!” (Missal Romano;
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo;
Seqüência)
Quantas verdades contidas nessas palavras! Devemos exultar de alegria e
louvar a Cristo Jesus, que é Nosso Senhor, nosso pastor, nosso guia, nosso chefe.
Não podemos nos cansar de assim fazê-lo, pois é a Ele, por excelência, que
adoramos, quando nos prostramos diante da Eucaristia, eis que ela é o próprio
Corpo e o próprio Sangue do Salvador. Esse pão não é mais pão, é Carne! O vinho
não é mais vinho, é Sangue! E mais do que carne e sangue, Carne e Sangue de um
Deus, do único Deus, sob a aparência tão frágil de um pequeno pedaço de pão e
um singelo cálice de vinho. Nós, novo Povo de Deus, Novo Israel, devemos
celebrar a presença de Jesus que afugenta as trevas e inaugura a luz, a Igreja.
É preciso que adoremos o Cristo presente na Eucaristia, como nos atestam as
palavras de São Francisco de Assis: “Porque neste mundo não vejo
corporalmente o altíssimo Filho de Deus, senão em Seu Santíssimo Corpo e Seu Santíssimo
Sangue, que eles recebem e só eles administram aos demais. E quero que estes
santíssimos mistérios sejam honrados e venerados acima de todo e colocados em
lugares preciosos.” (Testamento, 11-11) Basta fazer o que Ele nos mandou: consagrar o pão e o vinho,
transubstanciando-os, pela palavra do sacerdote, em Seu Corpo e Sangue, mesmo
que não compreendamos pela razão, nem vejamos com os olhos. Transcendamos o
sabor e a visão, e nos concentremos naquilo que a fé nos diz, completando o que
os sentidos não captam. “Praestet fides supplementum sensuum defectui.” –
“Vem a fé por suplemento os sentidos completar.” (Missal Romano; Solenidade do
Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; Procissão com o
Santíssimo Sacramento; Hino Canta ó Língua – Quinta-feira Santa; Missa
Vespertina da Ceia do Senhor; Transladação do Santíssimo Sacramento; Hino Canta
ó Língua – Ritual Romano; Solene Bênção do Santíssimo Sacramento; Hino Tão
Sublime Sacramento) Jesus, na
Eucaristia, é o verdadeiro alimento para a alma – também para o corpo, como se
verificou na vida de alguns santos que sobreviveram, sobrenatural e
milagrosamente, alimentando-se só da Comunhão.
Jesus não é dividido. Está presente em cada hóstia consagrada, e ao
mesmo não são vários “Cristos”, mas um só! Quem comunga d’Ele em estado de
graça, recebe a salvação, o perdão dos pecados veniais e o aumento da caridade
para com Deus, elevando-se ainda mais na vida da virtude. Ao infiel, todavia, a
Eucaristia, se comungada, manifesta o desprezo do pecador para com o Corpo do
Senhor. “Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice
do Senhor indignamente”, diz
São Paulo, “será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um
examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o
come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria
condenação.” (1 Co 11,27-29)
O pão dos anjos é nosso alimento, e nos conserva na unidade com a
Igreja, depositária da Revelação divina e ponte de salvação, uma vez que é a Esposa
de Cristo e o Seu próprio Corpo Místico, “coluna e sustentáculo da
verdade” (1 Tm 3,15) Assim
o pede a secreta de hoje, também escrita por São Tomás de Aquino: “Concedei,
ó Deus, à vossa Igreja os dons da unidade e da paz, simbolizados pelo pão e o vinho
que oferecemos na sagrada Eucaristia. Por Cristo, nosso Senhor.” (Missal
Romano; Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo;
Sobre as Oferendas) Alimentando-nos
da Eucaristia, podemos receber forças para nos afastarmos do pecado. Se
comungando pecamos inúmeras vezes, imaginemos se não o fizéssemos! Sem a
Eucaristia, somos fracos, e as criaturas mais dignas de pena da face da terra!
Pelo pecado somos escravos das trevas, mas pela graça, que é dada também na
Eucaristia, nos transformamos de órfãos em filhos de Deus, e somos
transportados para o Pai. Chegando ao céu, nos reuniremos, militantes, com toda
a Una e Santa Igreja Católica e Apostólica, Triunfante, à espera da Padecente
que espera no Purgatório! O céu é o supremo banquete, e a Eucaristia é já a
comida com a qual nos iremos saciar. Sendo o próprio Deus, o próprio Cristo,
comendo da Eucaristia nada mais precisamos em nossas almas, pois é o alimento
genuíno!
Comparemos, nesse sentido, o que dizem os prefácios que podem ser
utilizados na Missa de hoje, sobre a Eucaristia enquanto alimento dos fiéis.
Tais prefácios foram inseridos no Missal Romano na reforma litúrgica de Paulo
VI. Atentemos, outrossim, para as claríssimas referências ao caráter
sacrificial da Santa Missa que neles se encontram.
“Na
verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre
e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo,
Senhor nosso. Ele, verdadeiro e eterno sacerdote, oferecendo-se a vós pela
nossa salvação, instituiu o Sacrifício da nova Aliança e mandou que o
celebrássemos em sua memória. Sua carne, imolada por nós, é o alimento que nos
fortalece. Seu sangue, por nós derramado, é a bebida que nos purifica.” (Missal
Romano; Prefácio da Santíssima Eucaristia, I)
“Na
verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre
e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo,
Senhor nosso. Reunido com os Apóstolos na última ceia, para que a memória da
Cruz salvadora permanecesse para sempre, ele se ofereceu a vós como cordeiro
sem mancha e foi aceito como sacrifício de perfeito louvor. Pela comunhão neste
sublime sacramento, a todos nutris e santificais. Fazei de todos um só coração,
iluminais os povos com a luz da mesma fé e congregais os cristãos na mesma
caridade. Aproximamo-nos da mesa de tão grande mistério, para encontrar por
vossa graça a garantia da vida eterna.” (Missal Romano; Prefácio da Santíssima
Eucaristia, II)
“Na
verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças e
bendizer-vos, Senhor, Pai santo, Deus eterno, cheio de misericórdia e de paz.
Vosso Filho, obediente até à morte na Cruz, nos precedeu no caminho de volta
para vós, que sois o fim último de toda a esperança humana. Na Eucaristia,
testamento de seu amor, ele se fez comida e bebida espirituais, que nos
sustentam na caminhada para a Páscoa eterna. Com esta garantia de ressurreição
final, esperamos participar do banquete de vosso Reino.” (Missal Romano;
Prefácio da Santíssima Eucaristia, III)
Tomemos, então, a partir desta meditação, atitudes práticas, para
reavivar nossa fé na Eucaristia.
Em primeiro lugar, peçamos a Deus a graça de mais amar esse mistério,
de melhor adorar a Cristo Jesus na santíssima hóstia consagrada: “Senhor
Jesus Cristo, neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa
paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso Corpo e do
vosso Sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção.
Vós, que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo.” (Missal Romano;
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; Coleta)
Concomitante a isso, procuremos comungar melhor. Façamos um bom exame
de consciência, dirijamo-nos a um sacerdote se o Espírito Santo nos acusar de
uma falta grave, e comunguemos com fé e devoção, demonstrando amor a Nosso
Senhor Jesus Cristo. Rezemos, depois de nossa comunhão, agradecendo a Deus por
todos os frutos recebidos por esse sacramento. “Dai-nos, Senhor Jesus,
possuir o gozo eterno da vossa divindade, que já começamos a saborear na terra,
pela comunhão do vosso Corpo e do vosso Sangue. Vós, que viveis e reinais para
sempre.”(Missal Romano; Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor
Jesus Cristo; Oração depois da Comunhão) Como exemplo e convite, passamos a seguinte prece:
“Eu vos dou graças, ó Senhor,
Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, porque, sem mérito algum de minha
parte, mas somente pela condescendência de vossa misericórdia, vos dignastes
saciar-me, a mim pecador, vosso indigno servo, com o sagrado Corpo e o precioso
Sangue do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo.
E peço que esta santa comunhão
não me seja motivo de castigo, mas salutar garantia de perdão. Seja para mim
armadura de fé, escuda de boa vontade e libertação dos meus vícios. Extinga em
mim a concupiscência e os maus desejos, aumente a caridade e a paciência, a
humildade e a obediência, e todas as virtudes. Defendei-me eficazmente contra
as ciladas dos inimigos, tanto visíveis como invisíveis. Pacificai inteiramente
todas as minhas paixões, unindo-me firmemente a vós, Deus uno e verdadeiro,
feliz consumação de meu destino.
E
peço que vos digneis conduzir-me, a mim pecador, àquele inefável convívio em
que vós, com vosso Filho e o Espírito Santo, sois para os vossos santos a luz
verdadeira, a plena saciedade e a eterna alegria, a ventura completa e a
felicidade perfeita. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.” (Liturgia das Horas;
Anexo – Orações para depois da Comunhão; Oração ao Pai, atribuída a São Tomás
de Aquino)
Finalmente, procuremos nos achegar a Cristo presente no sacrário, para,
em adoração, contarmos a Ele nossos problemas, louvá-Lo, reconhecer n’Ele nosso
refúgio, sabê-Lo nosso Deus, e manifestar nosso amor. Quanto mais passamos em
oração diante do Santíssimo Sacramento, mais podemos abrir em nossas almas a
chave que nos leva a amar a Deus de maneira perfeita.
Eis o exemplo das Irmãs Missionárias da Caridade, congregação religiosa
fundada por Madre Teresa de Calcutá, e que tem um apostolado social
universalmente aplaudido. Nem por isso, deixam de se recolher e de buscar
forças diante do sacrário.
“No
Capítulo Geral que tivemos em 1973, as irmãs pediram que a adoração ao
Santíssimo, que tínhamos uma vez por semana, passasse a ser todos os dias,
apesar do enorme trabalho que pesava sobre elas. Essa intensidade de oração
diante do Santíssimo Sacramento tem feito uma grande mudança em nossa
congregação. Temos experimentado que nosso amor por Jesus é maior, nosso amor
de umas para com as outras é mais compreensivo, nosso amor pelos pobres é mais
compassivo, e nós temos o dobro de vocações que tínhamos.” (Madre Teresa de
Calcutá; Reino de Cristo, I, 1987)
Exercitemos essa adoração visitando Jesus Cristo no sacrário de alguma
igreja, e passando algum tempo com ele.
Por ora, convidamos a todos que cantem o hino Verbum
Supernum, igualmente
composto por São Tomás para a festa do Corpo de Cristo, desta vez não para a
Missa, mas para a hora canônica de Laudes, da Liturgia das Horas. Suas duas
últimas estrofes formam o conhecido canto de adoração eucarística, O
Salutaris Hostia.
“Verbum supernum prodiens, nec
Patris linquens dexteram, ad opus suum exiens, venit ad vitae vesperam. In
mortem a discipulo suis tradendus aemulis, prius in vitae ferculo se tradidit
discipulis. Quibus sub bina specie carnem dedit et sanguinem; ut duplicis
substantiae totum cibaret hominem. Se nascens dedit socium, convescens in
edulium, se moriens in pretium, se regnans dat in praemium. O salutaris hostia,
quae caeli pandis ostium, bella premunt hostilia; da robur, fer auxilium. Uni
trinoque Domino sit sempiterna gloria: qui vitam sine termino nobis donet in
patria. Amen.” (Liturgia Horarum iuxta rito romanum; Lauds; Solemnitas Sanctissimi
Corporis et Sangunis Iesu Christi Dominum Nostrum; Hymnus Verbum Supernum)
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Rafael Vitola Brodbeck, 25, é
bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pelotas, escritor, pregador e
apologista. É membro do Movimento Regnum Christi, e exerce seu apostolado principalmente na Diocese de Pelotas, RS.
Seu e-mail é rafavitola@veritatis.com.br