(Prof. Everton Jobim – Puc / RJ.
Um outro importante argumento bastante
utilizado pelos teólogos protestantes que negam a transubstanciação eucarística
e afirmam o caráter meramente simbólico da "Ceia do Senhor", é aquele
que reivindica, equivocadamente, o caráter definitivo da mensagem salvífica e
redentora do Cristo, através do seu martírio na cruz, como um acontecimento
derradeiro, escatológico, único e, portanto, não susceptível de repetição,
contrariando, desse modo, à eterna evocação da real-presença do Cristo na
celebração eucarística como pretendem os católicos.
Entendem esses grupos protestantes,
principalmente os presbiterianos, que através do seu sacrifício expiatório,
necessariamente único e definitivo não poderia Nosso Senhor Jesus Cristo ser
continuamente imolado em termos reais no curso da liturgia eucarística, como
reivindica a teologia católica da transubstanciação.
Na perspectiva calvinista, portanto, seria um
contra senso, além de se constituir uma impossibilidade teológica e ontológica
a real presença. Por essa mesma razão, e nessa linha argumentativa, torna-se
sempre oportuno lembrar que a Santa Eucaristia foi celebrada pela primeira vez,
pelo próprio Jesus Cristo, antes mesmo do ciclo da paixão e morte ter se
cumprido, ou seja, Jesus ainda não havia morrido nem ressuscitado e, mesmo
assim, ofereceu o seu corpo e o seu sangue aos apóstolos na Santa Ceia
realizada no Cenáculo; tomando ele próprio parte nessa comunhão, e ordenando
aos apóstolos que celebrassem a Ceia Eucarística em sua memória, até a vinda do
Reino: "Ao chegar a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos 15
e lhes falou: "Desejei
ardentemente comer esta Ceia da Páscoa convosco antes de sofrer. 16 Pois eu vos digo: Nunca
mais a comerei, até que ela se realize no reino de Deus.” 17 Tomando um cálice, deu
graças e disse: "Tomai este cálice e distribuí entre vós. 18 Pois eu vos digo: Não
mais beberei deste vinho até que chegue o Reino de Deus". 19 E tomando um pão, deu
graças, partiu-o e deu-lhes dizendo : "Isto é o meu corpo, que é dado por
vós. Fazei isto em memória de mim". 20 Do mesmo modo, depois de
haver ceado, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança em meu
sangue, derramado por vós.(Lc 22,14-20)"
Portanto,como isso é possível, Nosso Senhor Jesus Cristo íntegro no seu
corpo, e vivo ao lado dos apóstolos, oferecer o seu corpo e seu sangue no ato
eucarístico? Afirmando inquestionavelmente ser as espécies eucarísticas
efetivamente seu corpo real e seu sangue igualmente real. A resposta é
inequívoca ,em conformidade com o todo o conjunto da doutrina cristã. É
possível sim porque, fundamentalmente, a transubstanciação sempre ocorre, por
obra do Espírito Santo que derrama sua graça por sobre as espécies eucarísticas
consagrando-as.
A eucaristia é assim parte central do
mistério da Santíssima Trindade. Em outras passagens dos evangelhos podemos
observar claramente esse mesmo relacionamento entre as três pessoas da Santíssima
Trindade se manifestando. Quando, por exemplo, Jesus foi batizado por São João
Batista nas margens do rio Jordão, o Espírito Santo pousou sobre ele.Cristo não
precisava ser batizado porque nasceu sem pecados e assim atravessou todo o
curso da sua vida terrena. Porém ele quis, na plenitude da sua humanidade, que
o batismo também lhe fosse ministrado ". Jesus veio da
Galiléia ao rio Jordão até João, para ser batizado por ele. 14
João, porém, se opunha, dizendo: "Eu é que devo ser batizado por
ti e tu vens a mim?"15 Jesus
respondeu: "Deixa agora, pois convém que assim cumpramos toda a
justiça". Então João concordou. 16 Depois de batizado, Jesus saiu logo da água.
Nisso, os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e
pousar sobre ele.
17 E do céu
veio uma voz que dizia: "Este é o meu Filho amado, de quem eu me
agrado". (Mateus 2,13-17)
A mesma verdade sobrenatural Jesus revelou
aos apóstolos ao dizer que enviaria o Espírito Santo para guiá-los, após a sua
subida definitiva ao céu. "Depois lhes disse: "Isto é o que
vos dizia enquanto ainda estava convosco: é preciso que se cumpra tudo o que
está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos a meu respeito". 45 Então Jesus abriu-lhes a inteligência para
compreenderem as Escrituras, 46 e
lhes disse: "Assim estava escrito que o Cristo haveria de sofrer e ao
terceiro dia ressuscitar dos mortos 47 e, começando por Jerusalém, em seu nome
seria pregada a todas as nações a conversão para o perdão dos pecados. 48 Vós sois testemunhas disso. 49 Eu vos mandarei aquele que meu Pai prometeu.
Por isso, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto"
(LUCAS 24, 44-48).
Como pôde Nosso Senhor Jesus Cristo,
plenamente Deus, mandar o Espírito Santo como guia dos apóstolos? A existência da Santíssima Trindade, a
verdade do Deus Trino, é, por conseguinte, a realidade propiciadora do
relacionamento entre essas mesmas pessoas da Trindade, que não formam três
divindades distintas, nem tampouco se contradizem ao serem plenamente Deus nas
Suas três pessoas, eternamente unidas, inseparáveis. Cada qual cumprindo sua
obra especifica ainda que atuando sempre unidas.
A Santa Eucaristia é, portanto, uma expressão
sacramental do próprio mistério da Santíssima Trindade. O que vale dizer: cai
por terra o argumento de alguns protestantes segundo o qual, não é possível o
Cristo ser verdadeiramente sacrificado infinitas vezes na missa, visto ter sido
seu sacrifício na cruz derradeiro e último.
Ora, se Nosso Senhor Jesus Cristo ordena a celebração
eucarística antes mesmo da sua morte, dizendo ser o pão eucarístico
verdadeiramente seu corpo, e o vinho plenamente o seu sangue ( Mt
26, 26-28); (Mc 14,22-24); (Jo 6, 48-52); (Lc 22,19-20); (I Cor 11, 24-25), é porque o sacrifício da missa é de outra
natureza ontológica que aquele vivido na sua fase da carne entre os mortais;
não implicando a ritualização eucarística da missa, em nenhum sacrifício
renovado ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
O sacrifício eucarístico é assim, sempre,
incruento. Mesmo porque, após a ressurreição, numa das suas diversas
manifestações, o próprio Jesus Cristo volta a celebrar a Santa Eucaristia: "E
Jesus lhes disse: "Ó homens sem inteligência e de coração lento para crer
o que os Profetas falaram. 26 Não era necessário que o Cristo sofresse
tudo isso para entrar na sua glória?" 27 E, começando por Moisés e por todos os
Profetas, foi explicando tudo que a ele se referia em todas as Escrituras. 28 Quando se aproximaram do povoado para onde
iam, Jesus fez menção de seguir adiante. 29 Mas eles o obrigaram a parar: "Fica
conosco, pois é tarde e o dia já está terminando". Ele entrou para ficar
com eles. 30 E aconteceu que, enquanto estava com eles à
mesa, tomou o pão, rezou a bênção, partiu-o e lhes deu. 31 Então, abriram-se os olhos deles e o
reconheceram, mas ele desapareceu. 32 Disseram então um para o outro: "Não
nos ardia o coração quando pelo caminho nos falava e explicava as
Escrituras?". 33 Na
mesma hora se levantaram e voltaram para Jerusalém. Lá encontraram reunidos os
Onze e seus companheiros, 34 que
lhes disseram: "O Senhor
ressuscitou de verdade e apareceu a Simão". 35 Eles também começaram a contar o que tinha
acontecido no caminho e como o reconheceram ao partir o pão.
(LUCAS,24,25-35)".
A redenção alcançada por Nosso Senhor Jesus
Cristo é única; e a redenção dos homens, por ele, também o é. Contudo, a
ritualização da Santa-Eucaristia não é um sacrifício restrito continuamente
renovado, como aquele realizado pelo Sumo Sacerdote, num templo de pedra do
qual nos fala Paulo em sua epístola aos Hebreus. Mas significa sim, a renovação
da Aliança entre Deus e os homens nas sucessivas gerações de cristãos que vêm
participar da comunhão do Cristo ao longo dos séculos e séculos no âmago da sua
Igreja, sob a condução do Espírito Santo, conquistando também eles a
sua salvação para a vida eterna junto a Deus.
Os dons infinitos do sangue de Cristo redimem
eternamente todos aqueles que se dispõe verdadeiramente a acolher sua mensagem,
na plenitude das suas mentes e corações. A repetição da celebração dos
mistérios do Senhor ao longo do ano litúrgico não deve ser confundida com a
concepção pagã do eterno retorno; a ritualização da história da salvação, não é
tampouco um memorial simbólico dessa mesma história, mas acima de tudo, uma
plena realização individual em cada pessoa, em cada fiel, no presente, e para
toda a eternidade, da primeira eucaristia celebrada por Nosso Senhor Jesus
Cristo. É acima de tudo, um desdobramento do processo salvífico cristão que
abraça todo os homens em todos os tempos, até a consumação dos dias, quando,
então, nos tornaremos plenamente filhos de Deus, através da redenção do Cristo,
que nos foi dada pela graça de Deus, na continua presença do Pai entre homens,
através das obras do Espírito Santo (João 14,20). Para concluir nossa argumentação sobre a comunhão eucarística
inquebrantável do Cristo com os homens, cabe citar a seguinte declaração do Concílio de Trento
"Cristo,
nosso Deus e Senhor ofereceu-se a sim mesmo a Deus Pai uma vez por todas,
morrendo como intercessor sobre o altar da cruz, a fim de realizar por eles(os
homens) uma redenção eterna. Todavia, como a sua morte não deveria pôr fim ao
seu sacerdócio (Hb 7, 24.27), na Última ceia, 'na noite em que foi
entregue'(1Cor 11,13), quis deixar à Igreja, sua esposa muito amada, um
sacrifício visível (como o reclama a natureza humana) em que seria feito
presente o sacrifício cruento que ia realizar-se uma vez por todas uma única
vez na cruz, sacrifício este cuja memória haveria de perpetuar-se até o fim dos
séculos (1 Cor 11,23) e cuja virtude salutar haveria de aplicar-se à redenção
dos pecados que cometemos cada dia." (Concílio de Trento, DS 1740).
"O
sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício: é
uma só e a mesma vítima, é o mesmo que oferece agora pelo ministério dos
sacerdotes, que se ofereceu a si mesmo na cruz. Apenas a maneira de oferecer
difere': 'Neste divino sacrifício que se realiza na Missa, este mesmo Cristo,
que se ofereceu a si mesmo uma vez de maneira cruenta no altar da cruz, está
contido e é imolado de maneira incruenta." (idem, DS1743,
in CIC 1367).
O"apóstolo
dos gentios", São Paulo, observava na Primeira Epístola aos CORÍNTIOS
capitulo 10 versículos de 14 ao 18, serem o pão e o vinho consagrados na
celebração eucarística, efetivamente o corpo e o sangue de Cristo. Alertando, por outro lado, para os
malefícios causados pela comunhão realizada por pessoas desprovidas de fé e sem
a plena consciência do que fazem ao participar da celebração eucarística do
Senhor : " Pelo que, amados meus, fugi da idolatria. 15
Falo-vos como a homens sensatos. Sede vós juízes do que eu vos digo: 16 O
cálice de bênção que benzemos não é ele a comunhão do sangue de Cristo? E o pão
que partimos não é ele a comunhão do corpo de Cristo? 17 Porque somos um só pão
e um só corpo apesar de muitos, pois todos participamos desse único pão.
(...)"" (1Cor 10,14-18)
Everton N. Jobim, professor de sociologia
pela PUC/RJ e professor de Antropologia Social pelo Museu Nacional /UFRJ