ENTREVISTA SOBRE O FUNDADOR DO
OPUS DEI
ORELHAS
D. Álvaro del Portillo, Bispo
Prelado da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, nasceu em Madrid, aos 11 de março
de 1914. Foi Doutor em Engenharia Civil, Engenheiro Técnico de Obras Públicas,
Doutor em Filosofia e Letras - Secção de História - e Doutor em Direito
Canônico. Trabalhou como engenheiro na Chefatura de Pontes e Estruturas e nas
Confederações Hidrográficas dos rios Júcar, Douro e Ebro.
Em 1935, incorporou-se ao Opus
Dei, e em 25 de junho de 1944 foi ordenado sacerdote pelo Bispo de Madrid.
Desde então, dedicou-se exclusivamente às tarefas próprias do seu ministério,
ajudando no governo do Opus Dei, inseparavelmente unido ao seu Fundador, mons.
Josemaría Escrivá: foi Secretário Geral do Opus Dei entre 1940 e 1947 e de 1956
a 1975; Conselheiro na Itália de 1947 a 1950; e Procurador Geral entre 1947 e
1956.
Em 15 de setembro de 1975,
durante o Congresso Geral eletivo convocado para designar o sucessor do
Bem-aventurado Josemaría Escrivá - falecido em Roma em 26 de junho daquele ano
-, foi eleito por unanimidade e na primeira votação para dirigir o Opus Dei.
Posteriormente, em 28 de novembro de 1982, Sua Santidade João Paulo II nomeou-o
Prelado do Opus Dei e, em 7 de dezembro de 1990, Bispo titular de Vita, conferindo-lhe
a ordenação episcopal em 6 de janeiro de 1991.
Durante o Pontificado de Pio
XII, colaborou em vários dicastérios pontifícios e foi nomeado Consultor da
Sagrada Congregação de Religiosos (1954-66). João XXIII nomeou-o Consultor da
Sagrada Congregação do Concílio (1959-66), e a Sagrada Congregação do Santo
Ofício nomeou-o Qualificador (1960). Nas etapas prévias do Concílio Vaticano
II, foi Presidente da Comissão antepreparatória para os Leigos e fez parte
também de outras Comissões preparatórias. Mais tarde, foi designado perito do
Concílio entre os primeiros cem. Durante os anos de desenvolvimento do Concílio
Vaticano II (1962-1965), foi Secretário da Comissão sobre a Disciplina do Clero
e do Povo Cristão e Consultor de outras Comissões Conciliares. Em 1961, foi
nomeado Consultor da Comissão Pontifícia para a Revisão do Código de Direito
Canônico. Posteriormente, Paulo VI nomeou-o Consultor da Comissão Pós-Conciliar
sobre os bispos e o Regime das Dioceses (1966), da Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé (1966-1983) e da Congregação para o Clero (1966). João Paulo II
nomeou-o Consultor da Congregação para as Causas dos Santos (1982) e do
Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (1984), e membro da Secretaria
do Sínodo dos Bispos (1983). Participou das Assembléias Gerais Ordinárias do
Sínodo dos Bispos sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo
(1987) e sobre a formação dos sacerdotes na situação atual (1990), na qualidade
de membro por nomeação pontifícia. Desde 1982, era membro "ad
honorem" da Pontifícia Academia Teológica Romana.
Desde 1975 era Grão-Chanceler
das Universidades de Navarra (Espanha) e Piura (Peru); desde 1980, da
Universidade de La Sabana (Colômbia), e desde 1990, do Ateneo Romano della
Santa Croce (Roma). Entre outros títulos honoríficos, era Cavaleiro de Honra e Devoção
da Soberana Ordem de Malta (1958) e possuía a Grã-Cruz de São Raimundo de
Peñafort (1967).
Além de ser autor de numerosos
trabalhos teológicos e jurídicos para a Santa Sé, e de publicações sobre temas
históricos, tratou de questões eclesiológicas e pastorais, com contribuições de
relevo no campo da doutrina sobre os leigos e sobre o sacerdócio. Dentre os
seus escritos publicados, alguns dos quais foram traduzidos para numerosos
idiomas, destacam-se "Fiéis e leigos na Igreja, Escritos sobre o
sacerdócio, Moral e Direito, Mons. Escrivá de Balaguer, instrumento de Deus,
Magistério da Igreja e Teologia Moral
, e muitos outros ensaios, artigos e verbetes para
enciclopédias e obras de consulta.
Faleceu santamente em Roma, em
23 de março de 1994, e o seu corpo repousa na Cripta da Igreja prelatícia de
Santa Maria da Paz, na sede central do Opus Dei.
APRESENTAÇÃO
Estava este livro em vésperas de
entrar no prelo quando se teve notícia do falecimento do seu autor, D. Álvaro
del Portillo, ocorrido em Roma em 23 do passado mês de março.
O Prelado do Opus Dei, que em 11
de março fizera oitenta anos, retornara a Roma na noite anterior de uma viagem
em peregrinação aos Lugares Santos, onde na véspera pudera celebrar a Santa
Missa no Cenáculo. Depois dessa delicadeza do Senhor, foi ao feliz encontro da
Trindade, de Santa Maria e de mons. Escrivá, cuja beatificação, em 17 de maio
de 1992, promovera com todas as forças do seu inexcedível afeto filial.
Por esse desígnio da
Providência, a presente edição cobra assim o matiz de uma homenagem, não menos
sentida por tão desproporcionada, a alguém cuja vida se poderia resumir dizendo
que soube ser em todos os instantes a sombra do Fundador do Opus Dei, não já
depois de ter sido eleito seu primeiro sucessor, mas mesmo antes, ao longo dos
quarenta anos em que permaneceu ao seu lado, como colaborador mais íntimo de
todas as horas. Da sombra capta-se suavemente a luz, divisam-se os contornos
dos objetos iluminados, espraia-se a vista pelos espaços abertos.As páginas que
se seguem são um reflexo disso. Centrando-se exclusivamente na figura de mons.
Escrivá, no que esse instrumento do dom divino representou como "pioneiro
da santidade dos leigos", D. Álvaro del Portillo deixa entrever desde os
primeiros instantes do seu convívio com o Padre, tinha ele apenas vinte e um
anos de idade, uma atitude admirativa das grandezas de Deus que nele era fé e
fidelidade. Recorda episódios desses primeiros tempos com a mesma vivacidade com
que recorda os derradeiros instantes de mons. Escrivá na terra, bem como outras
dezenas de momentos expressivos, não importa a década ou o ano em que tenham
acontecido. Recorda-os não apenas como quem os testemunhou com a alteridade
neutra da testemunha, mas como quem se dava perfeita conta do borbulhar da ação
divina no gesto mais insignificante, na confidência mais casual, e por ela se
deixava envolver numa aceitação contemplativa e agradecida. "A ele devo
tudo", diz, para declarar-se mais adiante absolutamente persuadido de que
mons. Escrivá foi uma figura de Fundador como os que Deus suscita de longe em
longe, no transcorrer dos séculos, para renovar pelo Espírito Santo a face da
terra.
Sucedendo a um santo, "eu
que de santo não tenho nada", como disse repetidas vezes, D. Álvaro del
Portillo soube ser seu continuador e modelo de continuidade. E isso não apenas
por ter levado a bom termo a definitiva configuração jurídica dessa
instituição, na linha exata traçada pelo seu Fundador, que abria pela primeira
vez aos leigos um caminho institucional para poderem seguir os passos de Cristo
na vida diária, não numa versão diminuída do texto evangélico, mas em
plenitude.
A continuidade manifestou-se, ao
longo de quase vinte anos, no incomovível ponto de referência que eram para ele
a vida e os ensinamentos de mons. Escrivá, numa assimilação carinhosamente
sedimentada de uma espiritualidade laical, que é a que lateja em todas as
páginas deste livro: não só quando descreve as linhas mestras dessa
espiritualidade, bebidas do Fundador, nem só quando diz: "E hoje
continuamos a fazer o mesmo" ou "aprendemos dele e assim continuamos
a fazer: calar, sofrer, trabalhar, sorrir", mas quando a cada passo se vê
que do episódio tira a norma, e do gesto, da carta ou do diálogo o molde e a
forja da virtude.
Uma espiritualidade encarnada
não é algo que se capte por um mero dom de observação, mas por um esforço de
seguimento prático que se estende às situações mais corriqueiras da vida,
imprimindo-lhes veracidade e seiva. Quando D. Álvaro del Portillo conta que
mons. Escrivá no meio da leitura do jornal pela manhã, se alheava
freqüentemente e se punha a orar, e ele, a quem o Padre ia passando os
cadernos, também fazia o mesmo, de algum modo resume o que foi a sua própria
vida, nesse persistente orar e construir virtudes seguindo os passos daquele a
quem considerava o "conduto regulamentar" para alcançar a imitação de
Cristo.
Dotado de um modo de ser bem
diferente do Fundador, o Prelado do Opus Dei identificou-se com ele no núcleo
essencial da sua vida e do seu espírito: uma mensagem de otimismo e esperança
para a imensa maioria dos homens e mulheres que, cientes de que os seus nomes
nunca se inscreverão no livro de ouro da História, sabem agora que Deus não se
esquece deles e que o trivial da sua vida diária tem peso divino dentro dos
planos eternos. Ao grito de derrota do pensador: "Eu sou "as"
minhas circunstâncias", esses seguidores anônimos de Cristo opõem este
outro clamor de imensa confiança: "Eu sou "nas" minhas
circunstâncias", porque as assumo para com elas compor o perfil de um
filho de Deus, esculpido sob o incessante martelar das incidências diárias.
Seguindo o exemplo do Fundador,
D. Álvaro del Portillo revela-se nas entrelinhas destas páginas de uma paz
sossegada e forte, no meio das contrariedades sem número que se abatiam sobre o
Padre e que não podiam deixar de atingi-lo, embora desdramatize tudo; e sempre
com um sorriso marcando-lhe o rosto, como bem sabem os que o conheceram, ao
mesmo tempo que reconhecem a fonte dessa permanente afabilidade, porque, como
já se disse, "sorrir é uma humildade". Nas páginas que se seguem,
vale a pena repetir, o entrevistado só se deixa ver para indicar onde está o
foco de luz.
A circunstância da sua morte tão
recente pode ajudar o leitor a debruçar-se sobre estas páginas com outra
preocupação que não a simples curiosidade: a de ser elo também de uma
continuidade de espírito que, começando pela adesão cordial, desabrocha em vida
e virtudes, na humildade, no sorriso e no agradecimento.
São Paulo, 20 de abril de 1994.
O Editor.
AGRADECIMENTO
Antes de mais nada, desejo
exprimir o meu mais profundo agradecimento a D. Álvaro del Portillo pela
generosidade com que pôs ao meu alcance as suas recordações pessoais,
juntamente com cartas e documentos que iluminam traços até hoje inéditos da
amabilíssima figura do Fundador do Opus Dei, que a Igreja venera como
Bem-aventurado desde o dia 17 de maio de 1992.
Graças aos seus quarenta anos de
convivência com mons. Escrivá, D. Álvaro del Portillo é uma testemunha
privilegiada - mais ainda, única - da vida santa do Fundador e da sua
incansável e heróica atividade pelo bem da Igreja e de todas as almas.
Este livro é relativamente
breve, já que somente aborda alguns aspectos da personalidade do Fundador e da
sua correspondência à iniciativa divina, sem pretender ser exaustivo. A riqueza
espiritual de mons. Escrivá é tão grande que talvez não se pudesse abrangê-la
adequadamente nem mesmo num livro mais extenso. Penso que a mensagem do
Fundador - uma espiritualidade encarnada - quase se manifesta melhor num
conjunto de episódios, fatos concretos, experiências vividas, que numa
exposição conceitual. Este livro, portanto, não substitui as biografias já
publicadas do Fundador do Opus Dei, cujo conhecimento de certa maneira
pressupõe, e que, além disso, ajudam a situar historicamente as informações -
em boa parte inéditas - que aqui se apresentam.
Realizar esta entrevista foi uma
experiência profissional e espiritual gratificante. Aprofundar no conhecimento
de um homem de Deus, que me é tão caro, através da experiência viva do seu
filho mais próximo, foi para mim motivo de uma íntima alegria.
Só me resta desejar aos leitores
destas páginas que também as suas almas se sintam tocadas pela vida e pelas
virtudes do Bem-aventurado Josemaría Escrivá, fidelissimamente refletidas
nestas palavras do seu sucessor, D. Álvaro del Portillo.
Cesare Cavalleri
FILHO DA IGREJA
PERGUNTA: "O decreto sobre
a heroicidade das virtudes vividas por mons. Josemaría Escrivá, promulgado em 9
de abril de 1990 por João Paulo II, situa a figura do Fundador do Opus Dei num
contexto eclesial preciso: a chamada à santidade de todos os batizados, que é,
como escreveu Paulo VI, "o elemento mais característico do Magistério
conciliar e, por assim dizer, o seu fim último". Mons. Escrivá, desde o
dia 2 de outubro de 1928, dedicou todas as suas energias a difundir esta
vocação universal para a santidade, "em coincidência profética com o
Concílio Vaticano II". Como é bem sabido, o amor à Igreja e a vontade de
servi-la penetram todos os escritos, a pregação e a vida inteira do Fundador da
Obra. Gostaria de conhecer pormenores de como mons. Escrivá manifestava
pessoalmente a sua profunda convicção de filho da Igreja".
Conservo a lembrança indelével
da sua chegada a Roma. Era o dia 23 de junho de 1946. O Padre tinha 44 anos. Eu
estava em Roma desde fevereiro daquele ano, porque o Fundador me havia
encarregado de tratar de diversos assuntos relacionados com a aprovação
pontifícia da Obra. Como as características próprias do Opus Dei constituíam
uma novidade absoluta para o Direito Canônico vigente, eu trabalhava nesse
sentido na medida das minhas possibilidades, seguindo as indicações precisas do
Fundador. Disseram-me, porém, entre outras coisas, que ainda não era possível
obter a aprovação do Opus Dei: tínhamos nascido - esta foi a expressão literal
- com um século de antecedência. As dificuldades eram tão grandes,
aparentemente insuperáveis, que decidi escrever ao Padre e manifestar-lhe a
necessidade da sua presença em Roma.
Apesar de sofrer naquela época
de uma gravíssima forma de diabete - a ponto de o médico que então o atendia, o
Dr. Rof Carballo, ter declinado toda a responsabilidade pela sua vida se
fizesse aquela viagem -, o Padre embarcou em 21 de junho no velho
"J.J.Sister", em Barcelona. Antes pedira o parecer aos membros do
Conselho Geral do Opus Dei e abandonara-se nas mãos de Nossa Senhora das
Mercês.
Após uma dura travessia, devido
a uma tempestade absolutamente insólita no Mediterrâneo, o navio atracou no
porto de Gênova no dia seguinte, pouco antes da meia-noite. Fui de Roma até lá,
junto com Salvador Canals, outro membro do Opus Dei, para esperá-lo. Antes,
passamos por um modesto hotel onde reservamos os quartos. Lembro-me de que
Salvador e eu jantamos ali muito frugalmente: estávamos em pleno pós-guerra, e
como sobremesa serviram-nos um pedaço de queijo parmesão. Eu não conhecia esse
tipo de queijo, e quando o provei pareceu-me tão bom que o guardei para o nosso
Fundador. Não podia imaginar que seria o seu primeiro alimento nas últimas
quarenta e oito horas. O Padre sempre brincava afetuosamente comigo a este
propósito.
No dia seguinte, celebrou a sua
primeira missa em terra italiana, numa igreja muito danificada pelos
bombardeios. A viagem até Roma, num pequeno carro alugado, por aquelas estradas
desfeitas pela guerra, foi interminável e muito incômoda. Mas o Padre
transbordava de alegria e não se queixou: emocionava-o pensar que, por fim,
veria realizada uma das suas maiores aspirações: "videre Petrum".
Durante todo o trajeto, rezou muitíssimo pelo Papa.
Chegamos a Roma ao entardecer do
dia 23 de junho. Quando avistou pela primeira vez a cúpula de São Pedro, da Via
Aurélia, rezou muito comovido um Credo. Tínhamos subalugado alguns quartos de
um apartamento situado no último andar de um edifício da praça de Città
Leonina, nº 9, que dava para um terraço de onde se via a Basílica de São Pedro
e o Palácio pontifício. Ao assomar a esse terraço e contemplar as dependências
ocupadas pelo Vigário de Cristo, o Padre manifestou o desejo de permanecer ali
alguns momentos, recolhido em oração, enquanto os outros, cansados depois de
uma viagem tão acidentada, se retiravam para descansar. Levado pelo seu amor ao
Papa, e emocionado por estar tão perto dos seus aposentos, o Padre permaneceu
no terraço durante toda a noite, rezando, sem se importar com o cansaço da
viagem, nem com o seu estado de saúde, nem com a enorme sede que a doença lhe
causava, nem com os contratempos da travessia.
Este episódio pode dar uma idéia
da intensidade com que o nosso Fundador amava a Igreja e o Papa. E, no entanto,
apesar do grande desejo - ânsia, até - de ir rezar junto do túmulo de São
Pedro, esperou vários dias antes de entrar no Templo da Cristandade, tão grande
era o seu espírito de mortificação.
Em fins daquele mês, exatamente
no dia 30 de junho, pôde escrever aos seus filhos do Conselho Geral do Opus
Dei, que naquele tempo ainda tinha a sua sede na Espanha: "Tenho um
autógrafo do Santo Padre para "o Fundador da Sociedade Sacerdotal da Santa
Cruz e do Opus Dei". Que alegria tão grande! Beijei-o mil vezes. Moramos à
sombra de São Pedro, junto à `columnata'".
Em 31 de agosto, pôde regressar
a Madrid, com um documento da Santa Sé chamado "De louvor dos fins",
instrumento canônico que não se concedia havia quase um século. As dificuldades
começavam a ser superadas.
Em 22 de outubro de 1946, quis
voltar a rezar diante de Nossa Senhora das Mercês; depois, em 8 de novembro,
voltou de Madrid definitivamente para Roma, cidade que seria durante quase
trinta anos a sua residência habitual, até o dia em que Deus o chamou à sua
Presença.
PERGUNTA: "O Bem-aventurado
Josemaría foi favoravelmente acolhido na Cúria Romana, especialmente pelo então
Substituto da Secretaria de Estado, mons. Montini, mas não lhe faltaram
dificuldades por parte de alguns eclesiásticos. Disse algumas vezes que tinha
perdido a inocência ao chegar a Roma..."
Mas as suas reações
caracterizaram-se por um profundo sentido sobrenatural. Por exemplo, começou a
ir freqüentemente à Praça de São Pedro, para rezar o Credo diante do túmulo do
Príncipe dos Apóstolos. Utilizava a fórmula castelhana que sua mãe lhe havia
ensinado em criança e, quando chegava às palavras: "Creio na Santa Igreja
Católica", acrescentava o adjetivo "romana" e, a seguir, um
parêntese: "apesar dos pesares". Certo dia, estava eu com ele, contou
esse pormenor a mons. Tardini - não me lembro se já tinha sido nomeado Cardeal
Secretário de Estado -, e o prelado perguntou-lhe: "Que quer dizer com
`apesar dos pesares'?" O Padre respondeu: "Apesar dos meus pecados e
dos seus". Evidentemente, o Padre não queria ofender mons. Tardini. Se
nenhum homem está isento de pecado, e o justo peca sete vezes por dia, o nosso
Fundador sublinhava a necessidade de que os colaboradores do Papa fossem muito
santos e estivessem repletos do Espírito Santo, para que em toda a Igreja
houvesse mais santidade.
Não admitia nem justificava a
falsa humildade de alguns eclesiásticos sempre inclinados a uma
"autocrítica" da Igreja; a Igreja, repetia com freqüência, não tem
manchas, porque é a Esposa de Cristo. Este "mea-culpismo", como
costumava chamá-lo, enchia-o de dor; não admitia que o reconhecimento da
fraqueza dos homens ofuscasse a fé na santidade objetiva da Igreja.
PERGUNTA: "O Fundador conheceu
três Papas. Como era o seu relacionamento com o primeiro, Pio XII?"
O Santo Padre Pio XII recebeu-o
em audiência muitas vezes e demonstrou a sua estima pessoal pela Obra
concedendo as duas primeiras aprovações pontifícias: o "Decretum
laudis", de 1947, e a aprovação definitiva em 1950. Para manifestar-lhe o
seu afeto, o nosso Fundador não hesitava em oferecer-lhe presentes muito
simples. Por exemplo, certa vez, numa época em que não tínhamos dinheiro nem
para comer, levou-lhe umas laranjas que recebera da Espanha. Noutra ocasião,
como sabia que o Santo Padre gostava de um determinado vinho espanhol,
conseguiu umas garrafas e ofereceu-lhas.
Há um episódio significativo
deste afeto do Padre pelo Sumo Pontífice. Durante uma audiência, quis a certa
altura beijar os pés de Pio XII. O Papa deixou-lhe beijar um, mas não quis que
lhe beijasse o outro. Mas o nosso Fundador insistiu filialmente, dizendo ao
Santo Padre que era aragonês e, como todos os aragoneses, teimoso.
Pio XII manifestou em muitas
ocasiões o seu apreço pelo Fundador do Opus Dei. Certa vez, confidenciou ao
cardeal Gilroy e ao bispo-auxiliar que o acompanhava: "É um verdadeiro
santo, um homem enviado por Deus para os nossos dias". Depois da morte do
Padre, o próprio bispo-auxiliar, D. Thomas Muldoon, registrou essas palavras do
Papa num depoimento escrito.
PERGUNTA: "Numa entrevista
a um jornal ("Questões atuais do cristianismo", n. 229), mons.
Escrivá recordou que, em certa ocasião, animado pelo caráter afável e paterno
de João XXIII, lhe disse: "Na nossa Obra, todos os homens, católicos ou
não, sempre encontraram um lugar amável; não aprendi o ecumenismo de Vossa
Santidade"... E o Papa ria, emocionado, pois sabia que, desde 1950, a
Santa Sé tinha autorizado o Opus Dei a admitir como cooperadores os
não-católicos e mesmo os não-cristãos".
Isso aconteceu na primeira
audiência que João XXIII concedeu ao nosso Fundador em 15 de março de 1960. O
Santo Padre era muito afável e simples, o que estimulava os seus interlocutores
a fazer-lhe confidências fora de qualquer protocolo. Além disso, naquelas
audiências papais, mesmo quando tinha de tratar de assuntos importantes, mons.
Escrivá não deixava de contar ao Papa fatos que pudessem alegrá-lo. Lembro-me
de que, poucos dias depois de ter chegado a Roma, foi recebido por mons.
Montini, então Substituto da Secretaria de Estado. O nosso Fundador falou-lhe
extensamente da Obra e contou-lhe alguns episódios apostólicos. Mons. Montini
disse-lhe que os relataria imediatamente ao Santo Padre: "Aqui chegam-nos
somente penas e dores, e o Papa irá alegrar-se muito quando souber de tantas
coisas boas que os srs. vêm fazendo".
No fim daquela primeira
audiência, João XXIII confidenciou que as explicações do Padre sobre o espírito
da Obra lhe tinham aberto "insuspeitados horizontes de apostolado".
Na audiência privada concedida
por João XXIII em 27 de junho de 1962, mons. Escrivá fez-se acompanhar pelo pe.
Javier Echevarría, mas a conversa entre o Papa e o Fundador do Opus Dei
desenrolou-se a sós. Sei que conversaram longamente sobre o espírito e a
atividade da Obra no mundo, e que, poucos dias depois, em 12 de julho de 1962,
o Padre escreveu a todos os seus filhos do mundo inteiro, pedindo-lhes que se
unissem ao agradecimento que em justiça sentia por João XXIII, por ter-lhe
oferecido uma vez mais a honra e a alegria de ver Pedro. Devo acrescentar que o
nosso Fundador me falou muitas vezes, com grande admiração, das virtudes
sacerdotais do Papa Roncalli.
Durante a dolorosa doença de
João XXIII, mons. Angelo Dell'Acqua contou ao Padre - com quem tinha uma grande
confiança - alguns detalhes de como cuidava do Papa. Por exemplo, quando estava
junto à cabeceira do seu leito, o Papa pegava-lhe a mão, e se passado algum
tempo o cardeal a soltava, fazendo menção de retirar-se, exclamava:
"Angelino, não me deixes". O Padre entristecia-se ao pensar na
solidão em que o Papa se encontrava e agradecia de todo o coração a mons.
Dell'Acqua a solicitude com que, juntamente com os mais íntimos colaboradores
da casa pontifícia, atendia o Papa João XXIII naqueles seus últimos dias.
PERGUNTA: "Pelo que já
contou, nota-se que a estima de Paulo VI pelo Opus Dei e pelo seu Fundador eram
anteriores à sua elevação ao Pontificado".
Basta recordar o que se passou
quando, uma vez obtida a aprovação pontifícia do Opus Dei, me pareceu oportuno
pedir à Santa Sé, na qualidade de Procurador Geral e em nome do Conselho Geral
da Obra, a nomeação do nosso Fundador como Prelado doméstico. O então mons.
Montini não só aprovou a minha iniciativa, como fê-la sua. Estávamos nos
começos de 1947.
Como eu conhecia bem a humildade
do Padre, dei os passos necessários sem deles informá-lo previamente. Na
primavera desse ano, chegou uma carta de mons. Montini com o documento de
nomeação do Fundador do Opus Dei como Prelado doméstico; estava datada de 22 de
abril de 1947. Mons. Montini elogiava o Opus Dei e o seu Fundador e
acrescentava que a Obra era uma esperança para a Igreja.
O Padre sentiu-se reconhecido,
mas disse-me que não queria aceitar a nomeação e que com toda a gratidão
pensava devolver o documento a mons. Montini, explicando-lhe que não desejava
nenhum título honorífico. O pe. Salvador Canals e eu pedimos-lhe que não o
fizesse, e o argumento decisivo foi que, com essa nomeação, se tornava ainda
mais patente a secularidade do Opus Dei. Então mudou de parecer e escreveu ao
Substituto da Secretaria de Estado manifestando-lhe o seu reconhecimento por
aquela prova de afeto do Santo Padre e dele. Depois soubemos que mons. Montini
havia tido a delicadeza de pagar do seu próprio bolso a taxa de nomeação.
Pude comprovar de modo muito
particular o afeto do Papa Paulo VI pelo Padre quando me recebeu depois de eu
ter sido chamado a suceder ao Fundador. Paulo VI falou-me do Padre com
admiração e disse-me estar convencido de que tinha sido um santo. Confirmou-me
que havia muitos anos que vinha lendo "Caminho" diariamente e que lhe
fazia um grande bem à alma, e perguntou-me com que idade o nosso Fundador o
publicara. Respondi-lhe que o havia lançado quando tinha trinta e sete anos,
mas esclareci que o núcleo do livro já tinha aparecido com o título de
"Considerações espirituais" em 1934, e fora redigido dois anos antes,
isto é, quando tinha trinta anos. O Papa ficou pensativo por uns momentos e
depois observou: "Então escreveu-o na maturidade da sua juventude".
PERGUNTA: "Ainda tenho bem
viva na memória a visita que Paulo VI fez ao Centro Elis, em 21 de novembro de
1965, dia da inauguração desse Centro(*). O Papa demorou-se nessa visita muito
mais tempo do que o previsto. Celebrou a Santa Missa, abençoou uma imagem de
Nossa Senhora destinada à Universidade de Navarra e visitou detidamente as
instalações do Centro. No fim, abraçou o Fundador e, visivelmente emocionado,
exclamou: "Aqui tudo é Opus Dei". Foi um sinal de grande apreço pela
Obra e pelo Padre, tanto mais que, naquela altura, as visitas do Pontífice eram
raríssimas; e Paulo VI quis que a inauguração desse Centro tivesse lugar na
fase final do Concílio Vaticano II, para permitir que muitos Padres conciliares
participassem da cerimônia, como, de fato, aconteceu. Quando foi o último
encontro do Fundador com Paulo VI?"
[(*) Os edifícios desse Centro,
que se levantam no popular bairro romano do Tiburtino, nasceram por iniciativa
de João XXIII, que resolveu destinar o dinheiro recolhido entre os católicos de
todo o mundo, por ocasião dos oitenta anos de Pio XII, à criação de uma
atividade social em Roma, e confiou o projeto, a sua execução e gestão ao Opus
Dei. Daí surgiu uma estrutura múltipla, composta por uma residência para estudantes
operários, um centro de formação profissional com vários programas de
especialização técnica e artesanal, uma biblioteca, um centro esportivo e uma
escola do lar, com todas as atividades necessárias para a promoção da mulher.
Junto ao Elis, encontra-se a igreja paroquial de San Giovani Battista al
Collatino, confiada a sacerdotes do Opus Dei.]
Foi em 25 de junho de 1973, numa
audiência com umas características singulares, inesquecíveis. O Padre falou ao
Papa de temas muito sobrenaturais e pô-lo a par do desenvolvimento da Obra e
dos frutos que o Senhor lhe concedia em todo o mundo. Paulo VI alegrou-se muito
e, de vez em quando, interrompia-o, deixando-se levar por um elogio ou
simplesmente exclamando: "O sr. é um santo". Sei disso porque, ao
terminar a audiência, vi que o Padre estava de rosto sério, quase triste.
Perguntei-lhe o motivo, mas, a princípio, não quis responder-me. Depois,
referiu-me essas palavras do Papa e disse-me que se tinha enchido de vergonha e
de dor pelos seus próprios pecados, a ponto de ter protestado filialmente:
"Não, não. Vossa Santidade não me conhece; eu sou um pobre pecador".
Mas o Papa insistiu-lhe: "Não, o sr. é um santo". Então o Fundador
replicou, cheio de emoção: "Na terra só existe um santo: o Santo
Padre".
Num testemunho escrito, mons.
Carlo Colombo, assessor teológico e amigo pessoal de Paulo VI, declarou que o
Santo Padre o animara a escrever a carta postulatória para a abertura do
processo de beatificação do Fundador do Opus Dei. Foram estas as suas palavras:
"No decorrer de um encontro com Paulo VI, em que se tratou de vários
assuntos, tive oportunidade de manifestar ao Pontífice a minha intenção de
escrever uma carta postulatória solicitando o início do processo canônico de
introdução da Causa de mons. Escrivá, Fundador do Opus Dei. Senti o dever de
comunicar ao Papa que pensava dirigir-lhe essa carta postulatória, e que não a
escreveria se não tivesse pessoalmente sérios motivos para fazê-lo: não podia
permitir-me frustrar a íntima confiança que o Papa depositava em mim. Paulo VI
deu-me o seu pleno consentimento e aprovação, dada a grande estima que sentia
pelo Servo de Deus, de quem conhecia o grande desejo de fazer o bem, o amor
fervoroso que devotava à Igreja e à sua Cabeça visível, o zelo ardente que nutria
pelas almas".
PERGUNTA: "Assisti à Missa
que João Paulo II celebrou em 19 de agosto de 1979 para um grupo de membros do
Opus Dei de vários países e na qual pronunciou a inesquecível homilia em que
disse, entre outras coisas: "Grande ideal é o vosso, um ideal que, desde
os seus começos, antecipou a teologia do laicato que caracterizaria mais tarde
a Igreja do Concílio e do pós-Concílio". Escutar diretamente do sucessor
de Pedro este elogio à nossa espiritualidade, ao nosso "ser Igreja"
foi algo muito comovente, para mim e para todos os presentes, e interiormente
dirigimos esse elogio ao nosso Fundador, que não teve oportunidade de conhecer
o futuro João Paulo II, um Papa cujo nome está ligado à história da Obra. O
Fundador do Opus Dei foi considerado, pois, um precursor do Concílio Vaticano
II, embora não tenha participado pessoalmente do Concílio".
O Padre alegrou-se muito com a
convocação do Concílio Vaticano II e, mal João XXIII tornou pública a notícia,
enviou-lhe uma carta cheia de gratidão. Entre outras coisas, previa que o
Concílio preencheria a lacuna teológica que existia sobre o papel dos leigos na
Igreja, como efetivamente aconteceu.
Pensou que poderiam convocá-lo
na qualidade de Presidente geral de um Instituto Secular, pois era essa naquela
altura a configuração jurídica do Opus Dei; nesse caso, deveria participar como
Padre conciliar juntamente com outros superiores de instituições incluídas no
estado de perfeição. Embora desejasse muitíssimo intervir pessoalmente nas
reuniões conciliares, não lhe pareceu conveniente participar como Presidente de
um Instituto Secular. Com efeito, isso poderia significar, se não a aceitação
de um "status" jurídico inadequado à natureza da Obra, pelo menos um
dado que constituiria um precedente pouco favorável à futura revisão do
enquadramento canônico do Opus Dei. Expôs à Cúria os motivos pelos quais não
achava prudente participar do Concílio, e a sua decisão foi bem compreendida.
Mons. Loris Capovilla convidou-o
então a trabalhar como perito do Concílio, transmitindo-lhe o desejo do Santo
Padre João XXIII nesse sentido. O nosso Fundador reiterou, mais uma vez, a sua
disponibilidade total e sem condições, mas, depois de ter agradecido o convite,
explicou os motivos pelos quais preferia não aceitar, submetendo-se, em
qualquer caso, à decisão do Papa. Em resumo, estas eram as razões: por um lado,
não poderia dedicar a essa missão todo o tempo necessário; por outro, vários
dos seus filhos bispos eram Padres conciliares, e seria chocante que
interviesse como simples perito: não se tratava certamente de uma atitude de
vaidade, mas do desejo de evitar mal-entendidos à Santa Sé. Se o Fundador do
Opus Dei tivesse aceitado a nomeação de perito, depois de ter recusado a de
Padre conciliar, um ou outro poderia achar que pretendia atuar nos bastidores.
Por sua vez, os que não estivessem a par da situação poderiam pensar que não se
concedia ao Opus Dei nenhuma importância eclesial.
Em contrapartida, o nosso
Fundador ofereceu à autoridade eclesiástica competente a colaboração de toda a
Obra e dos seus membros, muitos dos quais, efetivamente, participaram da
preparação e do desenvolvimento do Concílio.
No que me diz respeito,
exortou-me a aceitar várias nomeações para diversas Comissões do Concílio e a
empenhar-me a fundo nessa tarefa. No início dos trabalhos, fui nomeado perito
conciliar, Secretário da Comissão para a Disciplina do clero e do povo cristão,
na qual tive que trabalhar muito ativamente.
PERGUNTA: "Foi a Comissão
que elaborou o decreto "Presbyterorum ordinis"..."
Exatamente. Além disso, fui
nomeado consultor de outras três Comissões conciliares (para os bispos e o
regime das dioceses; para os religiosos; para a doutrina da fé; e também
consultor da Comissão mista para as associações de fiéis), bem como consultor da
Comissão para a revisão do Código de Direito Canônico. Concluídas as atividades
da Assembléia Ecumênica, fui nomeado consultor da Comissão pós-conciliar para
os bispos e o governo das dioceses.
Ao longo das sessões
conciliares, juntamente com os resultados positivos e atraentes, que se
condensariam nos documentos definitivos, produziram-se também divergências e
confusões, freqüentemente amplificadas pelos jornais. Essas tensões fizeram
sofrer os Papas João XXIII e Paulo VI, como mons. Dell'Aqua confidenciava ao
nosso Fundador. É preciso esclarecer que a confiança que este prelado
depositava no nosso Fundador, de que é prova evidente a abundante
correspondência deste período, não provinha simplesmente da íntima amizade que
os unia, antes era o próprio Santo Padre que animava o Substituto da Secretaria
de Estado nesse sentido; desta forma, estabeleceu-se um canal de comunicação
direto e sempre aberto entre o Papa e o nosso Fundador.
Nos três anos do Concílio, sem
contar o período preparatório, o nosso Fundador entrevistou-se com muitos
Padres conciliares, peritos etc. Umas vezes, convidava-os a almoçar na nossa
sede central; outras, ia às casas onde se alojavam, quase sempre para
retribuir-lhes a visita. Houve dias em que recebeu mais de meia dúzia dessas
visitas, e não lhe era nada fácil compaginar as suas ocupações no governo da
Obra com o tempo necessário para acolher devidamente esses cardeais,
arcebispos, bispos, núncios, teólogos, etc. Eu estive presente em muitos desses
encontros e pude observar a simplicidade e afabilidade com que o Padre tratava
todos os que o procuravam. Por exemplo, D. François Marty, então arcebispo de
Reims, que depois seria cardeal-arcebispo de Paris, escreveu: "Na época do
Concílio Vaticano II, tive ocasião de encontrar-me várias vezes com mons.
Escrivá de Balaguer, Fundador do Opus Dei. Daquelas conversas, guardo a
lembrança de um homem que só falava de Deus. Um tempo de conversa com ele era
como um tempo de oração. Isso era compatível com o seu bom-humor, com o seu
sentido sobrenatural, com a sua caridade cheia de afeto".
Mons. Abilio del Campo, bispo de
Calahorra, deixou este testemunho: "Penso sinceramente que Josemaría
contribuiu de um modo decisivo para esclarecer doutrinalmente muitos pontos em
que as luzes que recebera de Deus e a sua extraordinária experiência pastoral
no mundo do trabalho eram quase insubstituíveis. Foram muitos os Padres
conciliares que, valendo-se da sua amizade, puderam escutar os seus atinados
conselhos".
PERGUNTA: "Imagino que
alguns desses conselhos teriam em vista também defender a ortodoxia católica
naquela época em que um mal-entendido "espírito conciliar" semeava
certa confusão..."
É significativo o testemunho que
prestou o então secretário do cardeal Siri, hoje bispo de Ventimiglia, D.
Giacomo Barabino: "A sua defesa da ortodoxia não procedia de um espírito
conservador, de uma obnubilação mental ou rigidez de caráter. Tinha uma
evidente preocupação por assegurar a ortodoxia e as estruturas vitais, divinas,
da Igreja; mas não era menos evidente o seu espírito aberto e inovador:
entusiasmava-me ouvi-lo falar de como era preciso que cada um secundasse, no
seu próprio lugar e em plena fidelidade ao seu próprio carisma dentro da
Igreja, a corrente santificadora que o Espírito Santo derrama sobre o povo de
Deus, sobre cada um dos fiéis, chamados à plenitude da vida cristã. Dentro da
sua audaz abertura, sublinhava a condição missionária da Igreja em todos os
ambientes, mesmo nos mais difíceis. Tratava-se de uma realidade que vivia
diariamente: a coerência com a idéia fundamental da qual tinha partido, a
vocação universal para a santidade, idéia vigorosa que aplicava continuamente,
com uma elasticidade verdadeiramente admirável, às exigências dos tempos e ao
desenvolvimento da Igreja entre os homens".
PERGUNTA: "Deve ter sido
muito grande a emoção de mons. Escrivá ao ver confirmada pelo Concílio e
convertida em patrimônio de toda a Igreja a intuição que o Senhor lhe tinha
confiado em 2 de outubro de 1928..."
Efetivamente. Pouco depois da
conclusão do Concílio, costumava repetir: "Meus filhos, devemos estar
contentes agora que se encerra este Concílio. Há trinta anos, alguns
acusaram-me de herege por pregar aspectos do nosso espírito que agora o
Concílio proclamou de modo solene". E numa entrevista concedida ao
"L'Osservatore della Domenica", em 1968, declararia: "Uma das
minhas maiores alegrias foi precisamente ver como o Concílio Vaticano II
proclamou com grande clareza a vocação divina do laicato. Sem jactância alguma,
devo dizer que, no que diz respeito ao nosso espírito, o Concílio não
representou um convite à mudança: pelo contrário, veio confirmar o que - pela
graça de Deus - estávamos vivendo e ensinando há muitos anos. A principal
característica do Opus Dei não são determinadas técnicas ou métodos de apostolado,
nem umas estruturas determinadas, mas sim um espírito que leva precisamente a
santificar o trabalho de cada dia" ("Questões atuais do
cristianismo", n. 72).
CIDADÃOS DAS DUAS CIDADES
PERGUNTA: "A secularidade,
que segundo o Concílio Vaticano II é "a índole própria e peculiar dos
leigos" ("Lumen gentium", n. 31), exprime-se também pelo correto
exercício dos direitos próprios do cidadão, isto é, sendo católicos sem ser
clericais ou beatos, e, ao mesmo tempo, sendo cidadãos que não esquecem que são
católicos no momento das suas opções decisivas. Este foi um ensinamento
constante do Fundador do Opus Dei. Gostaria de saber de algum exemplo tomado
diretamente da sua vida".
A secularidade, que se pode
considerar como a união harmônica da "alma sacerdotal" com a
"mentalidade laical", que o Padre quis para todos os membros da Obra,
sacerdotes e leigos, homens e mulheres, sempre esteve nele em primeiro plano e
foi um elemento constitutivo do seu caráter, da sua existência. Por exemplo,
manifestava-se no seu vivo sentido da justiça, bem como no exercício dos
direitos cívicos, que nunca deixou de viver e que o levou a dedicar um capítulo
do livro "Sulco" ao tema da "Cidadania".
Entre os milhares de episódios
que poderia citar, parece-me significativo um da sua vida de estudante. A
partir do ano letivo de 1922-23, quando já tinha sido nomeado Inspetor do
Seminário de Saragoça e recebido a tonsura, matriculou-se na Faculdade de
Direito da Universidade de Saragoça. Em junho de 1924, prestou exame de
História da Espanha, uma matéria que conhecia muito bem graças aos seus estudos
no colegial e às suas muitas leituras: teve sempre uma grande inclinação pela
História, que dominava profundamente. Mas como durante aquele ano não tinha
assistido às aulas, quer por não ser aluno ordinário, quer por estar muito
ocupado com o estudo da teologia e com o cargo de Inspetor do Seminário, o
professor advertiu-o através de alguns amigos comuns de que não devia
apresentar-se a exame porque o reprovaria. O jovem Josemaría ficou atônito,
pois não tinha obrigação de assistir às aulas, e, para reivindicar um direito
que lhe assistia pelo regime acadêmico, e por estar muito bem preparado,
resolveu apresentar-se. O professor reprovou-o sem lhe fazer uma só pergunta.
Josemaría refletiu com calma
sobre o que acontecera e decidiu escrever ao professor e expor-lhe
respeitosamente que havia cometido uma injustiça e que tinha obrigação de
repará-la. Acrescentou que desejava apresentar-se a exame em setembro e queria
estar certo de que seria tratado imparcialmente.
Naquela época, os professores
gozavam de plena autonomia e decidiam com absoluta liberdade sobre o desenrolar
das provas e as notas correspondentes. Não era fácil a um aluno fazer valer os
seus direitos, por mais respeitoso que se mostrasse. Em setembro, o professor
foi muito correto: reconheceu o seu erro e o aluno passou.
Era também muito secular a
simplicidade com que, embora de batina, lidava com os seus colegas
universitários. Vez por outra, à saída das aulas, convidavam-no para um
aperitivo num local freqüentado pelos estudantes, o bar Abdón, no Paseo de la
Independencia, junto à Plaza de la Constitución. Josemaría aceitava o convite
de vez em quando, e assim cultivava essas amizades de um modo muito natural. O
seu comportamento era tão sacerdotal e, ao mesmo tempo, tão humano que, quando
se ordenou, alguns dos seus colegas o escolheram como confessor habitual.
PERGUNTA: "Advogado e
sacerdote. Houve algum momento em que o Fundador do Opus Dei fez valer essa
dupla condição?"
Os estudos civis serviram-lhe,
entre outras coisas, para dar aulas particulares que contribuíram para manter a
família, tanto em Saragoça como nos seus primeiros anos em Madrid. Mas nunca
voltou a fazer uso do seu título civil, porque quis ser sempre um sacerdote cem
por cento.
É significativo um episódio que
se deu durante a guerra civil espanhola. Quando, em Madrid, o Padre se viu
impossibilitado de exercer o ministério sacerdotal e o clima se tornou
irrespirável, pois era constante o perigo de morte - prisões e fuzilamentos em
massa, queima de igrejas e conventos, autêntica perseguição religiosa -, não
teve outra saída senão atravessar a fronteira pelos Pireneus e alcançar a zona
livre através de Andorra. O ponto de partida era Barcelona. Lendo o jornal, viu
que um colega seu da Universidade de Saragoça, Pascual Galbe, era juiz do
Tribunal de Barcelona, como representante do Governo autônomo da Catalunha.
Tinham sido grandes amigos, mas, naquelas circunstâncias, não era fácil prever
como se comportaria. Por isso, o Padre fez-lhe saber por meio de Tomás Alvira -
que tinha sido, por sua vez, colega de secundário do juiz - que se encontrava
em Barcelona e desejava vê-lo. "No tribunal não - respondeu este -; é
melhor que venha almoçar a minha casa".
Mal o viu, Pascual Galbe
abraçou-o emocionado: "Não sabe quanto sofri; pensei que tinha
morrido..." Para ajudá-lo a sair do perigo, propôs-lhe que passasse a
trabalhar no Tribunal de Barcelona, como advogado ou magistrado; com efeito,
era uma pessoa muito influente e, além disso, os tribunais tinham uma
necessidade real de pessoas formadas em Direito. Mas o Padre não aceitou:
"Se, quando não perseguiam o clero e a Igreja, não exerci esta profissão
porque devia dedicar-me por inteiro ao meu sacerdócio, não é agora, sem dúvida,
que irei lançar mão desta escapatória, para sobreviver servindo uma autoridade
que persegue a minha Mãe, a Santa Igreja". O juiz tentou convencê-lo:
"Se o apanharem, o que é muito provável, vão matá-lo". O Padre
respondeu: "Não me importo; eu vivo para o meu sacerdócio e não me importo
de que me matem".
PERGUNTA: "Parece-me que é
nesta linha que se situa também a questão do título nobiliárquico..."
É um ponto a que convém dedicar
algumas palavras porque, além do mais, põe de manifesto a grande humildade do
Padre.
Conscientes de tudo o que o
Fundador do Opus Dei significava para nós, seus filhos, bem como para a Igreja,
começamos a reunir com prudência e amor filial todos os dados que pudemos sobre
a sua família. Aproveitávamos para isso as viagens que os membros da Obra, por
motivos apostólicos ou profissionais, faziam aos lugares onde o nosso Fundador
tinha vivido com a sua família ou de onde procediam os seus antepassados.
Nos anos sessenta, enviamos as
notícias e dados coligidos em primeira mão a um conhecido especialista em
genealogia de Aragão, que verificou existirem alguns títulos nobiliárquicos que
pertenciam em linha direta à família do nosso Fundador. Na minha qualidade de
Secretário Geral do Opus Dei, resolvi pedir ao genealogista um estudo mais
profundo. De posse desses dados, sugerimos ao Padre que pensasse na
possibilidade de solicitar a reabilitação desses títulos. Tínhamos muito
presente até que extremos a família do nosso Fundador tinha trabalhado e
sofrido pela Obra. A princípio, o Padre eludiu o problema. Depois, deu-se conta
de que não se tratava de uma questão meramente pessoal, mas dizia respeito ao
seu irmão e aos descendentes de seus pais. Meditou detidamente no assunto na
presença de Deus. Na sua vida privada, o Padre distinguia sempre, por um lado,
os seus deveres e os seus direitos de cristão e de sacerdote, que procurou
cumprir e exercitou heroicamente em todas as circunstâncias, e, por outro, os
seus direitos e deveres de cidadão, não incompatíveis com os primeiros: o seu
sacerdócio abarcou toda a sua existência, mas nem por isso renunciou às suas
obrigações e direitos como membro de uma família e como cidadão, dando exemplo
também neste ponto aos seus filhos e às pessoas com quem se relacionava.
Além de querer compensar de
algum modo os sacrifícios e sofrimentos que a fundação e o desenvolvimento do
Opus Dei tinham custado aos seus familiares, compreendeu que não podia fazê-los
pagar novamente pelas conseqüências do seu desprendimento pessoal das honras
humanas: com efeito, de acordo com a legislação espanhola vigente, só ele - na
sua condição de primogênito - podia recuperar os direitos nobiliárquicos.
Repito que pouco se importava com as honras. A solução foi reclamar aqueles
direitos para depois transmiti-los ao irmão. Considerou, insisto, que não podia
- por uma falsa humildade e menos ainda por medo às critícas e difamações -
privar o seu irmão e os seus sobrinhos de algo que lhes pertencia.
Mas sabia muito bem que esse
gesto poderia ser mal interpretado, e, por isso, antes de tomar uma decisão
definitiva, pediu conselho a diversas pessoas, não só da Obra. Entre outros,
consultou o cardeal Dell'Aqua, o cardeal Marella, o cardeal Larraona, o cardeal
Antoniutti, o cardeal Bueno Monreal, arcebispo de Sevilla e seu bom amigo de
longa data, e D. Casimiro Morcillo, arcebispo de Madrid, também seu velho
amigo.
Todos lhe deram parecer
favorável e o animaram a levar adiante o projeto. O cardeal Larraona, que era
um insigne canonista, esclareceu-lhe que não só tinha direito a reclamar os títulos
nobiliárquicos, como tinha obrigação de fazê-lo, pela sua condição de Fundador
da Obra: "O sr. sempre ensinou os seus filhos a cumprir os seus deveres
civis e a exercer todos os seus direitos de cidadãos. Portanto, se não o
fizesse, iria dar-lhes mau exemplo". O cardeal pensava que, se o Fundador
renunciasse àquele direito tão líquido e certo, os seus filhos do Opus Dei e
muitos outros bons católicos seguiriam provavelmente esse exemplo de humildade,
renunciando, talvez, a direitos irrenunciáveis.
O nosso Fundador informou
igualmente a Secretaria de Estado do Vaticano. Todos concordaram. Dispunha
também do parecer favorável das autoridades civis competentes. Mas o nosso
Fundador previa claramente o que aconteceria: sabia que seria criticado por
pessoas pouco informadas, por alguns prováveis invejosos e malévolos, e por
outros de língua comprida, instigados pelo demônio. Via com toda a clareza que
era como oferecer a todos esses, em bandeja de prata, um pretexto para
insultá-lo.
Tal como previra, não faltaram
as críticas e os falatórios, que puseram em evidência a sua heróica e profunda
humildade. Do mesmo modo que sempre exercera os seus direitos, cumpriu um dever
de justiça, para dar exemplo aos seus filhos, e procurou explicar claramente
que o assunto em si não tinha a menor importância.
Em 24 de junho de 1968, foi-lhe
reconhecido oficialmente o título de marquês de Peralta. A partir desse dia,
aumentaram as polêmicas, que se arrastaram durante algum tempo. Houve também
pessoas amigas que lhe pediram esclarecimentos ou que lhe manifestaram a sua
solidariedade. O nosso Padre enfrentou sempre o assunto com clareza e, mais de
uma vez, com senso de humor.
Algum tempo depois, quando as
murmurações se acalmaram e se podia considerar o problema mais ou menos
encerrado, então, sem nenhuma publicidade, deu os passos necessários para -
como previra desde o princípio - ceder o título ao irmão, de modo que pudesse
transmiti-lo por sucessão aos seus descendentes.
PERGUNTA: "O Fundador do
Opus Dei detestava essa forma de clericalismo que consiste em pretender
tratamentos de favor. Por isso, não gostava do costume, difundido em ambientes
eclesiásticos, de pedir atendimento gratuito a alguns profissionais por serem
advogados, médicos, engenheiros ou dentistas "católicos". O Fundador
empenhava-se em pagar sempre os honorários".
Chegava ao extremo de pagar os
próprios exames médicos a que se submetia na Clínica da Universidade de
Navarra, apesar de ser o Grão-Chanceler dessa Universidade.
Por outro lado, sabia exigir que
os trabalhos que encomendava se executassem de acordo com o que era devido em
justiça. Vem-me à memória um episódio que me parece significativo. Quando se
projetou o oratório do Conselho Geral do Opus Dei, decidiu-se fazer o piso de
mármore, com desenhos geométricos formados cada um por uma só pedra. Foi
aprovado um orçamento em que se previa essa condição; mas, quando o marmorista
acabou de polir toda a superfície e deu o trabalho por terminado, o Padre notou
que os desenhos tinham sido compostos com várias peças justapostas e que se
notavam as juntas. Pareceu-lhe um trabalho inaceitável, principalmente porque
se tratava de um lugar destinado ao culto. Conversou comigo e com outras
pessoas e resolveu mandar levantar o piso e trocá-lo. Os motivos eram claros: o
orçamento fora aprovado com aquela condição e o serviço já tinha sido pago.
Aceitar aquele trabalho "marretado" seria uma falta de pobreza, e,
além disso, para os que viessem depois de nós, um exemplo desedificante de
pouco esmero nas coisas destinadas ao Senhor.
PERGUNTA: "A propósito dos
direitos do cidadão, o ensinamento do Fundador é também muito claro no que diz
respeito ao exercício das atividades políticas. Os membros do Opus Dei, na
política como em todas as outras atividades temporais, têm a mesma liberdade,
os mesmos direitos e deveres que os demais cidadãos católicos. É um aspecto que
muitas vezes não foi bem entendido, especialmente por causa da situação
espanhola. Poderia recordar algum episódio a este propósito, começando pela
atitude do Fundador em relação ao comunismo e ao nazismo?"
No que diz respeito ao comunismo
e ao marxismo, o Padre foi sempre fiel aos claríssimos ensinamentos do
Magistério da Igreja sobre essas ideologias. E manifestou freqüentemente em
público a sua atitude, porque as circunstâncias o exigiam; a sua oposição não
era fruto das dificuldades que sofreu pessoalmente sob a ditadura comunista na
Espanha - tinha perdoado desde o primeiro momento -, mas devia-se ao ateísmo e
ao caráter desumano e anti-religioso dessa doutrina.
Especialmente nos começos dos
anos sessenta e, particularmente, nas suas catequeses pela Península Ibérica e
pela América Latina, perante a difusão entre os fiéis de correntes que tentavam
conciliar o cristianismo com o marxismo, o nosso Fundador fez-se eco dos
ensinamentos recordados com freqüência por Paulo VI e das condenações contidas
nos documentos dos Dicastérios romanos competentes.
Um trecho de uma homilia que
pronunciou em 1963 ilustra muito claramente a sua atitude em relação ao
comunismo: "Urge repetir - não me meto em política, afirmo a doutrina da
Igreja - que o marxismo é incompatível com a fé de Cristo. Existe coisa mais
oposta à fé que um sistema que baseia tudo em eliminar da alma a presença
amorosa de Deus? Gritai-o com muita força, de modo que se ouça claramente a
vossa voz: para praticarmos a justiça, não precisamos do marxismo para nada.
Pelo contrário, esse erro gravíssimo - pelas suas soluções exclusivamente
materialistas, que ignoram o Deus da paz - ergue obstáculos no caminho para a
felicidade e para o entendimento entre os homens. Dentro do cristianismo
encontramos a boa luz que dá sempre resposta a todos os problemas: basta que
vos empenheis sinceramente em ser católicos, "non verbo neque lingua, sed
opere et veritate", não com palavras nem com a língua, mas com obras e na
verdade. Dizei isso sempre que surgir a ocasião - e procurai-a, se for preciso
-, sem reticências, sem medo" ("Amigos de Deus", n. 171).
No fim dos anos trinta, depois
de ter vivido a triste experiência da guerra civil, a maior parte dos espanhóis
alimentava uma clara aversão pelo comunismo. Não acontecia o mesmo com o
nazismo; mais ainda, a propaganda oficial, por um ou outro motivo, não só
silenciou os crimes do nacional-socialismo, mas proibiu na Espanha a publicação
do documento pontifício que o condenava. Por isso, o nosso Fundador teve de
pronunciar-se mais de uma vez contra o nazismo no seu ministério sacerdotal.
Precisamente porque em alguns ambientes oficiais espanhóis o regime nazista era
visto com simpatia, sentiu-se no dever de pôr em guarda os que se esqueciam das
aberrações dessa ideologia; não criticava somente o seu totalitarismo, mas
também as perseguições e as discriminações aos católicos, aos judeus, etc., e o
tom de religião pagã que caracterizava o racismo nazista. Foi pródigo em dar a
conhecer o conteúdo do documento pontifício de condenação e em difundi-lo
privadamente.
PERGUNTA: "Mas alguns
jornais, prontamente desmentidos, falaram recentemente de uma
"simpatia" do Fundador pelo nazismo".
É uma insinuação aberrante que
se desqualifica por si mesma. Mas aproveito o ensejo para dar a conhecer um
testemunho que me chegou precisamente por ocasião dessa campanha de calúnias.
(Um parêntese: quando se passam coisas deste gênero, continuamos a seguir o
critério seguro que o Padre nos deixou: perdoar desde o primeiro momento, rezar
pelos que caluniam, reafirmar a verdade e, sempre, "afogar o mal em
abundância de bem", persuadidos, além disso, de que a verdade acaba sempre
por triunfar). Pois bem: datada de 9 de janeiro de 1992, recebi de Madrid uma
carta do sr. Domingo Díaz-Ambrona que diz assim:
"Conheci o futuro
Bem-aventurado durante a guerra civil espanhola. Junto com minha mulher, estava
refugiado na embaixada de Cuba e, enquanto nos encontrávamos ali, chegou o
momento do parto da nossa filha Guadalupe, que nasceu em 3 de setembro de 1937
no Sanatório Riesgo, hoje desaparecido, que então estava sob a proteção da
bandeira inglesa. Devido à situação em que se encontrava o país, não a podíamos
batizar, e assim o comentei com um bom amigo meu, José Maria Albareda.
"Poucos dias depois, José
Maria Albareda disse-me que um sacerdote amigo seu viria administrar o batismo
à criança num dia determinado. Confiando na proteção que a bandeira inglesa do
sanatório nos oferecia, convidei os padrinhos e outros amigos para a cerimônia.
O sacerdote chegou às cinco da tarde, duas horas antes do previsto, e
permaneceu conosco apenas o tempo necessário para batizar a nossa filha. Foi
tudo tão rápido que nem sequer lhe perguntamos o nome. Mais tarde, soube que se
tratava de mons. Escrivá. O seu comportamento foi uma lição de prudência para
todos nós, naqueles momentos difíceis. Eu tentei fazê-lo ficar, mas disse-me:
`Há muitas almas que precisam de mim'.
"Durante esse período, pelo
que vim a saber depois, apesar de não dispor senão de um documento de
identidade precário e de o clima social e político ser muito perigoso para um
sacerdote, desenvolvia um intenso trabalho apostólico: confessava muitas pessoas
- às vezes, com risco de vida -, pregava retiros mudando constantemente de
local e atendia um grupo de religiosas que sofriam os efeitos da perseguição.
"Mas, como disse, naquela
época eu não sabia de quem se tratava. Soube-o mais tarde, durante um encontro
casual no trem da linha Madrid-Ávila, no mês de agosto de 1941. Viajava com
minha mulher e a minha filha de quatro anos quando D. Josemaría, ao ver-nos,
nos reconheceu, entrou no nosso compartimento e disse: `Fui eu que batizei esta
menina'. Cumprimentamo-nos, disse-me o seu nome e passamos a falar da situação
histórica que atravessávamos. Encontrávamo-nos num momento decisivo da história
da Europa: lembro-me de que eu estava impaciente por chegar quanto antes a
Navas del Marqués, para saber pelo rádio como ia o avanço das tropas alemãs em
território russo.
"Comentei-lhe que acabava
de regressar de uma viagem à Alemanha e que pudera notar o medo que tinham os
católicos daquele país de manifestar as suas convicções religiosas. Isso
levara-me a desconfiar do nazismo; mas, como a muitos espanhóis, escapavam-me
os aspectos negativos do sistema e da filosofia nazista, deslumbrados como
estávamos pela propaganda de uma Alemanha que se apresentava como a força que
aniquilaria finalmente o comunismo. E quis saber a sua opinião.
"Pelas razões que acabo de
expor, surpreendeu-me profundamente, naqueles momentos, a resposta taxativa
daquele sacerdote, que tinha uma informação muito certeira sobre a situação da
Igreja e dos católicos sob o regime de Hitler. Mons. Escrivá falou-me com muita
força contra aquele regime anticristão, com um vigor que denotava o seu grande
amor pela liberdade. Devo dizer que, na Espanha de então, não era fácil
encontrar pessoas que condenassem de forma tão contundente o sistema nazista e
que denunciassem com tanta clareza a sua raiz anticristã. Por isso, essa
conversa, naquele momento histórico preciso, em que ainda não se conheciam
todos os crimes do nazismo, ficou-me profundamente gravada na memória.
"Algum tempo depois,
comentei esse encontro com o meu amigo José Maria Albareda e vim a saber que
tinha estado a conversar com o Fundador do Opus Dei.
"Eu não pertenço ao Opus
Dei, mas a minha experiência pessoal permite-me afirmar que quem sustente uma
opinião contrária sobre o pensamento de mons. Josemaría Escrivá neste ponto só
pretende ofuscar inutilmente a vida santa deste futuro Bem-aventurado, que era
um grande apaixonado da liberdade".
PERGUNTA: "É um testemunho
irrefutável que confirma os ditames do senso comum..."
Obviamente, o Padre distinguia
entre o nazismo e o povo alemão. Precisamente porque sentia uma particular
estima por aquela nação - era um sentimento herdado de seu pai -, doía-lhe
muitíssimo vê-la submetida àquela ditadura aberrante. E a sua pena aumentou
quando rebentou a Segunda Guerra Mundial.
PERGUNTA: "E as relações
com o franquismo?"
Antes de responder, parece-me
indispensável repetir uma consideração bem conhecida: a atividade e a
finalidade do Opus Dei são exclusivamente espirituais, como também foram
unicamente espirituais a missão e o ministério sacerdotal do seu Fundador. O
Governo de uma nação - seja qual for - e o Opus Dei são realidades que se movem
em planos totalmente diferentes. A Prelazia anima os seus membros a exercer os
seus direitos e a cumprir diligentemente os seus deveres como cristãos
coerentes, mas deixa-lhes a mais completa liberdade nas opções temporais; mais
ainda, fomenta essa liberdade: o único critério que lhes dá neste ponto é o de
que sigam as eventuais orientações emitidas pela Hierarquia eclesiástica.
No caso do franquismo, é preciso
recordar que o fim da guerra civil significou o ressurgimento da vida da
Igreja, das associações, das escolas católicas, com uma clara tomada de posição
da Hierarquia em favor do general Franco, que era considerado em muitos
ambientes como "providencial". Basta pensar que, terminada a guerra
civil, as catedrais e paróquias de toda a Espanha ostentavam na fachada
símbolos da Falange com a inscrição: "Caídos por Deus e pela Espanha.
Presentes!" O Fundador do Opus Dei protestou muitas vezes contra esse
abuso.
Nessa situação, o Padre, embora
reconhecesse em Franco o mérito da pacificação, teve de opor resistência a dois
perigos: por um lado, a instrumentalização da fé, ante a tentativa de
determinados grupos de monopolizar a representação dos católicos na vida
pública; por outro, a tendência de alguns ambientes católicos a servir-se do
poder público como de um braço secular. Em suma, duas facetas do clericalismo.
O Padre sempre reconheceu que
era da competência exclusiva da Hierarquia dar orientações aos católicos em
matéria política; por isso, absteve-se rigorosamente de pronunciar-se. A
Hierarquia encorajou abertamente os católicos a apoiar Franco, tanto assim que
diversos ministérios tiveram representantes da Ação Católica e de outras
organizações religiosas. E o clericalismo chegou a tal extremo que houve quem
pedisse (e, naturalmente, obtivesse) autorização do seu bispo para aceitar o
cargo de ministro.
Quando, na década de cinqüenta,
alguns membros da Obra foram nomeados ministros de Franco, o Padre não o
aprovou nem desaprovou: agiam no uso da sua liberdade de cidadãos católicos,
respeitosos para com a Hierarquia, apesar de ter havido quem tentasse atribuir
à Obra como tal pressões ou ingerências no campo político. Não nos faltaram
dificuldades e incompreensões por esse motivo.
Já nos anos quarenta, por
exemplo, diversos membros do Opus Dei concorreram a cátedras universitárias e,
como estavam bem preparados, ganharam-nas brilhantemente, sem qualquer
recomendação. Surgiu então uma violenta reação dos inimigos da Igreja que,
desde fins do século passado, controlavam a Universidade por meio da
"Institución Libre de Enseñanza". Circulou o rumor, absolutamente
calunioso, de que os membros do Opus Dei tinham ganho os concursos de maneira
irregular, quando a verdade é que não gozaram de nenhuma facilidade, antes
foram discriminados em favor dos que pertenciam a outras instituições
católicas, favorecidas pelos ministros da Educação Nacional.
E não eram somente os inimigos
da Igreja que se opunham à Obra ou não a compreendiam. Quando o nosso Fundador,
em 1947, passou algum tempo na Espanha para preparar a transferência do governo
da Obra para Roma, teve ocasião de entrevistar-se com o Ministro das Relações
Exteriores, Martín Artajo, que, antes de entrar no Governo, tinha sido
presidente da Ação católica espanhola. O Padre contou mais tarde que, com
grande surpresa sua, o ministro lhe dissera que não entendia "como se
podia estar consagrado à Igreja, até com um vínculo de obediência, e ao mesmo
tempo servir o Estado". O Padre explicou-lhe que não havia nenhuma
dificuldade, porque a "matéria" da obediência devida à Igreja era a
mesma para ele como para o resto dos católicos, fossem ou não pessoas
consagradas a Deus: essa obrigação era do mesmo "grau", ainda que por
um título diverso. Mas o ministro não conseguiu entender essa verdade palmar e
ordenou que não se admitissem no Corpo Diplomático membros do Opus Dei ou
pessoas consideradas como tais, mesmo que tivessem ganho o respectivo concurso.
Ao arrepio de toda a justiça, essa ordem foi cumprida em vários casos.
PERGUNTA: "Como outras
organizações católicas apoiavam direta e abertamente o regime, alguns não
conseguiam imaginar que a Obra se comportasse de outra forma. Mas o Padre
sempre defendeu com vigor a liberdade de opinião dos seus filhos, e é natural que
entre os membros da Obra houvesse quem apoiasse o franquismo e quem estivesse
na oposição. Lembro-me de um filme de uma das catequeses do nosso Fundador, em
que conta que não hesitou em apresentar-se diante de um personagem "muito
poderoso" para defender a liberdade de opinião de um dos seus filhos.
Gostaria de conhecer esse episódio com maior detalhe".
Um membro da Obra tinha escrito
um artigo contrário ao regime franquista. A reação das autoridades foi muito
dura, e essa pessoa teve de exilar-se. Sobre o fato em si, o Padre não tinha
nada a dizer, porque se tratava de questões em que não intervinha: diziam
respeito exclusivamente aos seus filhos, como cidadãos livres e responsáveis
que eram. Mas, entre outras injúrias que se lançaram contra aquele membro da
Obra, afirmou-se que era "uma pessoa sem família".
O nosso Fundador reagiu como um
pai que defende o seu filho. Foi imediatamente à Espanha, solicitou uma
audiência a Franco e foi recebido sem demora. Sem entrar no mérito das
divergências políticas, afirmou com toda a clareza que não podia consentir que se
dissesse de um filho seu que era um homem sem família: tinha uma família
sobrenatural, a Obra, e ele se considerava pai daquela pessoa. Franco
perguntou-lhe: "E se o meterem na cadeia?" O Padre respondeu-lhe que
respeitaria as decisões da autoridade judicial, mas que, nesse caso, ninguém
poderia impedi-lo de prestar àquele seu filho toda a assistência espiritual e
material de que necessitasse. Repetiu as mesmas idéias ao Almirante Carrero
Blanco, braço direito de Franco. Devo precisar que, demonstrando ser
cavalheiros e possuir sentido cristão, os dois reconheceram que o nosso
Fundador tinha razão.
PERGUNTA: "Muitos ataques à
Obra e à liberdade dos seus membros provinham diretamente de instituições do
regime, como a Falange".
Nesse sentido, é eloqüente a
carta que o nosso Fundador escreveu em 28 de outubro de 1966 ao ministro José
Solís, chefe da Falange:
"Prezado amigo":
"Chega-me até aqui o rumor
da campanha que a imprensa da Falange, subordinada a V. Excia., move tão
injustamente contra o Opus Dei.
"Repito-lhe mais uma vez
que os membros da Obra - todos e cada um - são pessoalmente libérrimos, como se
não pertencessem ao Opus Dei, em todas as questões temporais, bem como nas
questões teológicas que não são de fé e que a Igreja deixa à livre discussão
dos homens. Portanto, quando se trata de questões políticas, profissionais,
sociais, etc., não faz sentido pôr em evidência a condição de membro da Obra
desta ou daquela pessoa, tal como não seria justo, falando das atividades
públicas de V.Excia., trazer à baila a sua mulher, os seus filhos, a sua
família.
"É deste modo errôneo que
se comportam as publicações que recebem orientação do seu Ministério; e assim
não conseguem senão ofender a Deus, confundindo o espiritual com o terreno,
quando é evidente que os Diretores do Opus Dei nada podem fazer para coibir a
legítima e completa liberdade dos seus membros, os quais - por outro lado - nunca
escondem que cada um deles assume a plena responsabilidade dos seus próprios
atos, e, em conseqüência, que a pluralidade de opiniões entre os membros da
Obra é e será sempre mais uma manifestação da sua liberdade e mais uma prova do
seu bom espírito, que os leva a respeitar as opiniões dos outros. Ao atacarem
ou defenderem o pensamento ou a atuação pública de outro cidadão, tenham a
retidão - que é de justiça - de não aludir sob nenhum ponto de vista ao Opus
Dei: esta "família espiritual" não intervém nem pode intervir nunca
em opções políticas ou terrenas em qualquer campo, porque os seus fins são
"exclusivamente"espirituais.
"Espero que tenha
compreendido a minha surpresa, tanto em face do anúncio dessa campanha
difamatória como do modo com que se vem levando a cabo; estou certo de que
perceberá o desatino que cometem e as responsabilidades em consciência que
adquirem perante o juízo de Deus, pelo desacerto que representa denegrir uma
instituição que não influi - nem pode influir - no uso que os seus membros,
espalhados pelos cinco continentes, fazem da sua liberdade pessoal como
cidadãos, sem se esquivarem à sua responsabilidade pessoal.
"Peço-lhe que ponha ponto
final a essa campanha contra o Opus Dei, uma vez que o Opus Dei não é
responsável de nada. Caso contrário, pensarei que V. Excia. não me entendeu e
ficará claro que não é capaz de compreender nem de respeitar a liberdade,
"qua libertate Christus nos liberavit" a liberdade cristã dos demais
cidadãos.
"Combatam os senhores em
boa hora, ainda que eu não seja amigo de lutas, mas não misturem injustamente
nessas lutas o que está acima das paixões humanas.
"Aproveito a ocasião para
enviar-lhe um abraço e a minha bênção, extensiva a todos os seus.
"In Domino".
PERGUNTA: "Se me é
permitido exprimir uma opinião totalmente pessoal, parece-me que aqueles
membros da Obra que, sob sua exclusiva responsabilidade, colaboraram livremente
com o governo de Franco, trabalharam pelo bem do seu país, obtiveram êxitos,
hoje unanimemente reconhecidos, no saneamento da economia e na ruptura do
isolamento em que se encontrava a Espanha, projetando-a em direção à Europa.
Mesmo abstendo-se de intervir e até de expor publicamente opiniões em matéria
política, qual era a maior preocupação do Fundador em relação a este tema?"
Preocupava-o o problema da
sucessão de Franco. Não vacilou em comunicá-lo diretamente ao interessado, e
procurou sensibilizar para esse delicado assunto os bispos espanhóis que vinham
visitá-lo. Mas o nosso Fundador soube também resistir às insinuações que lhe
chegavam do Vaticano no sentido de que tomasse iniciativas nesse campo:
recusou-se a servir de intermediário de alguns, porque não era missão sua
intrometer-se em política. Deixou clara a sua posição nessa matéria, sem dar
margem a equívocos, numa carta de consciência que dirigiu a Paulo VI em 14 de
junho de 1964.
PERGUNTA: "Agora compreendo
melhor por que tinha uma devoção tão grande por Santa Catarina de Sena".
COMO ERA O PADRE
PERGUNTA: "O sr. viveu
quarenta anos ao lado do Padre. Tenho consciência de que é praticamente
impossível descrever uma personalidade tão rica em qualidades humanas e dons
sobrenaturais como a do Fundador do Opus Dei; mas, por outro lado, quem melhor
do que o sr. para fazê-lo de um modo o menos incompleto possível?"
A sua personalidade era tão rica
em facetas que dificilmente pode ser descrita mediante esquemas gerais. Além
disso, recebeu tantas graças do Senhor que, ao examinarmos a sua conduta, se
torna difícil distinguir entre as qualidades naturais do seu caráter e o que
era conseqüência da graça de Deus e da luta ascética. Disse intencionalmente
"distinguir", e não "separar", porque um dos traços
fundamentais da sua personalidade era a perfeita unidade, a plena compenetração
entre os aspectos humanos, os apostólicos e os ascéticos da sua vida. Seria
impossível isolá-los.
Ensinou-nos sempre que as
virtudes humanas são o fundamento das sobrenaturais: os que tiveram a sorte de
viver ao seu lado puderam ver realizada no seu comportamento aquela
"unidade de vida" que pregava com tanta paixão.
Para traçar um quadro de
conjunto, poderíamos dizer que, tanto pelas suas virtudes como pelos seus dotes
naturais - inteligência, simpatia, caráter -, o Padre tinha a perfeição do
instrumento preparado pelo Senhor para a missão de fundar o Opus Dei.
Se quisermos compreender a sua
personalidade, devemos ter presente uma qualidade fundamental, que impregna
todas as outras: a entrega a Deus e às almas por Deus; a disponibilidade com
que correspondeu generosamente à Vontade do Senhor. Este foi o norte de toda a
sua vida. Como homem enamorado que era, tinha descoberto aquele segredo que
descreveu no ponto 1006 de "Forja": "Vejo com meridiana clareza
a fórmula, o segredo da felicidade terrena e eternal: não somente conformar-se
com a Vontade de Deus, mas aderir, identificar-se, querer - numa palavra -, com
um ato positivo da nossa vontade, a Vontade divina. Este é o segredo infalível
- insisto - da alegria e da paz".
A sua entrega não era fria,
"oficial". Brotava do amor e, por isso, traduzia-se em demonstrações
sinceras de carinho e compreensão; tinha um coração grande e nobre. Estava
aberto a todos. Amava o mundo apaixonadamente, por ter sido criado por Deus.
Todas as realidades humanas o atraíam. Lia os jornais, assistia ao noticiário
da televisão, gostava das canções de amor, rezava pelos astronautas que iam
pousar na Lua... Era muito afável, sabia transmitir confiança e acolher os
outros.
PERGUNTA: "A propósito de
canções: o Fundador gostava de ouvir cantar e, referindo-se às viagens
apostólicas que realizou para preparar a "pré-história" do Opus Dei
em diversos países, afirmava que tinha semeado a Europa de Ave-Marias e de
canções..."
Sim, cantava com muita
freqüência, com aquela voz de barítono, tão afinada e agradável. Não era um
homem de aspecto severo, distante; pelo contrário, transbordava humanidade,
cordialidade e alegria. Ensinou-nos que um sorriso é, muitas vezes, a melhor
mortificação, porque as nossas mortificações nunca devem fazer sofrer as
pessoas que nos rodeiam. E foi o primeiro a cumprir fielmente esse ensinamento.
A sua vida de oração e de penitência, longe de entristecer os outros, infundia
uma autêntica alegria sobrenatural e humana nos que se encontravam ao seu lado.
PERGUNTA: "Voltando ao
temperamento do Padre..."
Posso testemunhar que a sua vida
foi paradigma de um homem que sabe amar com todo o coração e que deseja servir
os outros e torná-los felizes.
Estava dotado de uma
inteligência rápida e aguda, complementada por uma cultura incomum e aberta a
todos os ramos do saber, de uma pronunciada mentalidade jurídica e de um
notabilíssimo gosto estético. A sua personalidade humana era vigorosa e rija; o
seu temperamento, valente e impetuoso, forte e enérgico, e soube adquirir um
pleno domínio de si mesmo. Um dia, por causa de um grave contratempo, perdeu
por alguns instantes a serenidade: "Zanguei-me e depois zanguei-me por
ter-me zangado". Naquele estado de ânimo, estava caminhando por uma rua de
Madrid quando deparou com uma dessas máquinas automáticas que tiravam seis
fotos de 3 x 4 por umas moedas; o Senhor fê-lo compreender que tinha ao alcance
da mão uma boa ocasião para humilhar-se e receber uma lição ascética sobre a
alegria. Entrou na cabine e tirou as fotografias: "Estava divertidíssimo,
com aquela cara de zangado!" Depois, rasgou todas menos uma:
"Trouxe-a na carteira durante um mês. De vez em quando, olhava-a para ver
aquele rosto zangado, humilhar-me diante do Senhor e rir-me de mim mesmo: por
seres um tolo, dizia-me".
PERGUNTA: "O Padre
ensinou-nos a apresentar-nos sempre corretamente vestidos e a cultivar uma
certa elegância apropriada às circunstâncias sociais de cada um. É um modo
"secular" de entender a pobreza neste campo, em que certamente foi
também o primeiro a dar exemplo".
Costumava ter duas batinas, que
usava em dias alternados para que durassem mais; mas houve épocas, por exemplo
entre 1941 e 1944, em que teve apenas uma, e assim, quando era preciso
consertá-la, não tinha outro jeito senão fechar-se no quarto enquanto a sua
irmã Carmen a remendava. Também em Roma tivemos que pedir alguma vez às suas
filhas que a costurassem enquanto esperava no quarto, em mangas de camisa.
Escovava-a todas as noites
cuidadosamente e, se tinha alguma mancha, limpava-a com um pouco de água;
ajudei-o muitas vezes nessa operação, segurando-lhe o tecido. Quando era
preciso lavá-la, passava-a para as suas filhas que se ocupavam da administração
doméstica. É por isso que lhe duravam tanto.
Até a fundação do Opus Dei,
tinha a roupa sacerdotal necessária tanto para o inverno como para o verão:
cada ano - quando ainda estava em Saragoça -, passava a vestir a roupa de
inverno no dia doze de outubro, festa de Nossa Senhora do Pilar, e a de verão
no dia sete de março, naquele época festa de São Tomé. Isto quer dizer que
devia sentir calor em outubro e frio em março e abril. A partir da fundação do
Opus Dei, como mais um sinal de sobriedade e pobreza, decidiu usar as mesmas
roupas durante o ano inteiro.
Não gostava de vestir camiseta,
e isso desde criança. Mas um dia apanhou um forte resfriado por causa do grande
frio que fazia; foi em Turim, no dia 27 de novembro de 1949. Comprei-lhe então
uma camiseta de lã e pedi-lhe que a usasse. Concordou, mas como não estava
acostumado, cortou-lhe as mangas. Uns anos depois, para combater o reumatismo,
os médicos prescreveram-lhe que usasse joelheiras, e o nosso Fundador passou a
servir-se daquelas mangas como "joelheiras".
PERGUNTA: "Padre, algum
outro detalhe da vida cotidiana..."
O Padre amava a limpeza e o
asseio pessoal, mas não usava nenhum tipo de perfume, porque estava convencido
de que, para um sacerdote, o melhor cheiro é não cheirar a nada; só com o
decorrer dos anos é que aceitou o nosso conselho e passou a usar uma água de
lavanda para desinfetar os cortes que pudesse fazer ao barbear-se.
Durante muitos anos, cortava o
cabelo em casa, com a nossa ajuda; a certa altura, quis comprar um desses
pentes com lâmina, pensados expressamente para cada qual cortar o seu próprio
cabelo. Mas acabamos por aconselhá-lo a recorrer ao barbeiro, porque a pequena
economia de dinheiro não compensava os resultados, tão pouco satisfatórios.
Como estava heroicamente
desprendido de si mesmo, não tinha nada de supérfluo. Por exemplo, desde os
anos quarenta até 1970, usou sempre os mesmos óculos, apesar de serem de um
modelo bastante antiquado. Decidiu-se a trocá-los por insistência do pe. Javier
Echevarría e minha.
Desde 1953, dormia, na sede
central, num quarto pequeno e frio, com piso de lajotas de cerâmica. Um dia, em
1973, caiu ao chão ao levantar-se pela manhã e ficou alguns instantes
desacordado sobre as frias lajotas. Quando vim a sabê-lo, fiquei preocupado,
pois era atreito a doenças de brônquios; pouco tempo antes, tinha acontecido
algo de parecido com um cardeal da Cúria Romana, o cardeal Larraona, que
apanhou uma pneumonia e morreu subitamente. Por isso, em 1947, aproveitando uma
viagem do nosso Fundador, revestimos o chão de carpete. Ao voltar, aborreceu-se
porque tínhamos tomado aquela iniciativa sem que o soubesse, e só a aceitou
quando lhe dissemos que o tínhamos feito a conselho médico.
PERGUNTA: "Sei que o Padre
não fumava. Deixou de fazê-lo quando entrou no Seminário e deu o tabaco e os
cachimbos de presente ao porteiro".
Mesmo assim, sempre conviveu com
pessoas que fumavam, sem nunca se queixar. Mais ainda, se por acaso recebia de
presente de alguma visita uma caixa de charutos, guardava-os para oferecê-los
aos outros. Deixava-os num armário embutido do seu quarto, com um recipiente de
água ao lado, que substituía periodicamente, para que não perdessem a umidade.
Nos dias de festa, levava-os com verdadeira alegria à reunião de família depois
do almoço, e mantinha acesa uma vela fina para que os fumantes pudessem
acendê-los.
PERGUNTA: "Estes episódios
traduzem a simplicidade, a delicadeza, o espírito de serviço, a ordem e o bom
humor do Padre. E, já que falamos da sua vida cotidiana, é possível traçar um
esquema das suas jornadas habituais"?
Propriamente, não se pode falar
de uma jornada "habitual", porque a sua atividade se organizava
sempre em função do que o Senhor lhe pedia: servir a todas as almas por amor. O
que era verdadeiramente habitual no nosso Fundador era a disposição de secundar
em todos os instantes o querer divino.
Mas não há dúvida de que, ao
longo da sua existência terrena, se submeteu a um plano de vida que tinha
alguns pontos de referência intocáveis: a oração mental, a Santa Missa, a
recitação do Breviário e do terço, e outras práticas de piedade. Com efeito -
contrariamente ao que poderia pensar quem o tivesse ouvido falar apenas de
santificação do trabalho, sem conhecer bem o espírito do Fundador da Obra -,
repetia constantemente esta verdade fundamental: "A arma do Opus Dei não é
o trabalho: é a oração. Por isso, convertemos o trabalho em oração e temos alma
contemplativa".
Mas, mesmo conservando esses
pontos essenciais, as jornadas do Padre tiveram características muito
diferentes conforme as épocas: por exemplo, as suas jornadas dos anos trinta,
em que desenvolvia uma atividade pastoral intensa e direta nos bairros de Madrid,
eram muito diferentes das dos anos sessenta, em Roma, em que a sua ocupação
fundamental se concentrava em governar e cuidar do desenvolvimento da Obra.
PERGUNTA: "Falemos então de
um dia típico do Padre, em Roma, nos últimos anos".
Nos fins dos anos sessenta, o Padre, obedecendo ao que os médicos lhe haviam prescrito, descansava todas as noites entre sete horas e meia e oito: era tão fiel a essa indicação que, apesar de acordar muito antes, não saía da cama enquanto não lho dizia um dos seus "Custodes", o pe. Javier Echevarría; o outro "Custos" era eu. Antes de receber essa indicação médica, tinha o costume de levantar-se logo que acordava, ou logo que tocava o despertador, mesmo que tivesse dormido apenas duas ou três