ENTREVISTA SOBRE O FUNDADOR DO OPUS DEI

ORELHAS

 

D. Álvaro del Portillo, Bispo Prelado da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, nasceu em Madrid, aos 11 de março de 1914. Foi Doutor em Engenharia Civil, Engenheiro Técnico de Obras Públicas, Doutor em Filosofia e Letras - Secção de História - e Doutor em Direito Canônico. Trabalhou como engenheiro na Chefatura de Pontes e Estruturas e nas Confederações Hidrográficas dos rios Júcar, Douro e Ebro.

Em 1935, incorporou-se ao Opus Dei, e em 25 de junho de 1944 foi ordenado sacerdote pelo Bispo de Madrid. Desde então, dedicou-se exclusivamente às tarefas próprias do seu ministério, ajudando no governo do Opus Dei, inseparavelmente unido ao seu Fundador, mons. Josemaría Escrivá: foi Secretário Geral do Opus Dei entre 1940 e 1947 e de 1956 a 1975; Conselheiro na Itália de 1947 a 1950; e Procurador Geral entre 1947 e 1956.

Em 15 de setembro de 1975, durante o Congresso Geral eletivo convocado para designar o sucessor do Bem-aventurado Josemaría Escrivá - falecido em Roma em 26 de junho daquele ano -, foi eleito por unanimidade e na primeira votação para dirigir o Opus Dei. Posteriormente, em 28 de novembro de 1982, Sua Santidade João Paulo II nomeou-o Prelado do Opus Dei e, em 7 de dezembro de 1990, Bispo titular de Vita, conferindo-lhe a ordenação episcopal em 6 de janeiro de 1991.

Durante o Pontificado de Pio XII, colaborou em vários dicastérios pontifícios e foi nomeado Consultor da Sagrada Congregação de Religiosos (1954-66). João XXIII nomeou-o Consultor da Sagrada Congregação do Concílio (1959-66), e a Sagrada Congregação do Santo Ofício nomeou-o Qualificador (1960). Nas etapas prévias do Concílio Vaticano II, foi Presidente da Comissão antepreparatória para os Leigos e fez parte também de outras Comissões preparatórias. Mais tarde, foi designado perito do Concílio entre os primeiros cem. Durante os anos de desenvolvimento do Concílio Vaticano II (1962-1965), foi Secretário da Comissão sobre a Disciplina do Clero e do Povo Cristão e Consultor de outras Comissões Conciliares. Em 1961, foi nomeado Consultor da Comissão Pontifícia para a Revisão do Código de Direito Canônico. Posteriormente, Paulo VI nomeou-o Consultor da Comissão Pós-Conciliar sobre os bispos e o Regime das Dioceses (1966), da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (1966-1983) e da Congregação para o Clero (1966). João Paulo II nomeou-o Consultor da Congregação para as Causas dos Santos (1982) e do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (1984), e membro da Secretaria do Sínodo dos Bispos (1983). Participou das Assembléias Gerais Ordinárias do Sínodo dos Bispos sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo (1987) e sobre a formação dos sacerdotes na situação atual (1990), na qualidade de membro por nomeação pontifícia. Desde 1982, era membro "ad honorem" da Pontifícia Academia Teológica Romana.

Desde 1975 era Grão-Chanceler das Universidades de Navarra (Espanha) e Piura (Peru); desde 1980, da Universidade de La Sabana (Colômbia), e desde 1990, do Ateneo Romano della Santa Croce (Roma). Entre outros títulos honoríficos, era Cavaleiro de Honra e Devoção da Soberana Ordem de Malta (1958) e possuía a Grã-Cruz de São Raimundo de Peñafort (1967).

Além de ser autor de numerosos trabalhos teológicos e jurídicos para a Santa Sé, e de publicações sobre temas históricos, tratou de questões eclesiológicas e pastorais, com contribuições de relevo no campo da doutrina sobre os leigos e sobre o sacerdócio. Dentre os seus escritos publicados, alguns dos quais foram traduzidos para numerosos idiomas, destacam-se "Fiéis e leigos na Igreja, Escritos sobre o sacerdócio, Moral e Direito, Mons. Escrivá de Balaguer, instrumento de Deus, Magistério da Igreja e Teologia Moral


, e muitos outros ensaios, artigos e verbetes para enciclopédias e obras de consulta.

Faleceu santamente em Roma, em 23 de março de 1994, e o seu corpo repousa na Cripta da Igreja prelatícia de Santa Maria da Paz, na sede central do Opus Dei.

 

APRESENTAÇÃO

Estava este livro em vésperas de entrar no prelo quando se teve notícia do falecimento do seu autor, D. Álvaro del Portillo, ocorrido em Roma em 23 do passado mês de março.

O Prelado do Opus Dei, que em 11 de março fizera oitenta anos, retornara a Roma na noite anterior de uma viagem em peregrinação aos Lugares Santos, onde na véspera pudera celebrar a Santa Missa no Cenáculo. Depois dessa delicadeza do Senhor, foi ao feliz encontro da Trindade, de Santa Maria e de mons. Escrivá, cuja beatificação, em 17 de maio de 1992, promovera com todas as forças do seu inexcedível afeto filial.

Por esse desígnio da Providência, a presente edição cobra assim o matiz de uma homenagem, não menos sentida por tão desproporcionada, a alguém cuja vida se poderia resumir dizendo que soube ser em todos os instantes a sombra do Fundador do Opus Dei, não já depois de ter sido eleito seu primeiro sucessor, mas mesmo antes, ao longo dos quarenta anos em que permaneceu ao seu lado, como colaborador mais íntimo de todas as horas. Da sombra capta-se suavemente a luz, divisam-se os contornos dos objetos iluminados, espraia-se a vista pelos espaços abertos.As páginas que se seguem são um reflexo disso. Centrando-se exclusivamente na figura de mons. Escrivá, no que esse instrumento do dom divino representou como "pioneiro da santidade dos leigos", D. Álvaro del Portillo deixa entrever desde os primeiros instantes do seu convívio com o Padre, tinha ele apenas vinte e um anos de idade, uma atitude admirativa das grandezas de Deus que nele era fé e fidelidade. Recorda episódios desses primeiros tempos com a mesma vivacidade com que recorda os derradeiros instantes de mons. Escrivá na terra, bem como outras dezenas de momentos expressivos, não importa a década ou o ano em que tenham acontecido. Recorda-os não apenas como quem os testemunhou com a alteridade neutra da testemunha, mas como quem se dava perfeita conta do borbulhar da ação divina no gesto mais insignificante, na confidência mais casual, e por ela se deixava envolver numa aceitação contemplativa e agradecida. "A ele devo tudo", diz, para declarar-se mais adiante absolutamente persuadido de que mons. Escrivá foi uma figura de Fundador como os que Deus suscita de longe em longe, no transcorrer dos séculos, para renovar pelo Espírito Santo a face da terra.

Sucedendo a um santo, "eu que de santo não tenho nada", como disse repetidas vezes, D. Álvaro del Portillo soube ser seu continuador e modelo de continuidade. E isso não apenas por ter levado a bom termo a definitiva configuração jurídica dessa instituição, na linha exata traçada pelo seu Fundador, que abria pela primeira vez aos leigos um caminho institucional para poderem seguir os passos de Cristo na vida diária, não numa versão diminuída do texto evangélico, mas em plenitude.

A continuidade manifestou-se, ao longo de quase vinte anos, no incomovível ponto de referência que eram para ele a vida e os ensinamentos de mons. Escrivá, numa assimilação carinhosamente sedimentada de uma espiritualidade laical, que é a que lateja em todas as páginas deste livro: não só quando descreve as linhas mestras dessa espiritualidade, bebidas do Fundador, nem só quando diz: "E hoje continuamos a fazer o mesmo" ou "aprendemos dele e assim continuamos a fazer: calar, sofrer, trabalhar, sorrir", mas quando a cada passo se vê que do episódio tira a norma, e do gesto, da carta ou do diálogo o molde e a forja da virtude.

Uma espiritualidade encarnada não é algo que se capte por um mero dom de observação, mas por um esforço de seguimento prático que se estende às situações mais corriqueiras da vida, imprimindo-lhes veracidade e seiva. Quando D. Álvaro del Portillo conta que mons. Escrivá no meio da leitura do jornal pela manhã, se alheava freqüentemente e se punha a orar, e ele, a quem o Padre ia passando os cadernos, também fazia o mesmo, de algum modo resume o que foi a sua própria vida, nesse persistente orar e construir virtudes seguindo os passos daquele a quem considerava o "conduto regulamentar" para alcançar a imitação de Cristo.

Dotado de um modo de ser bem diferente do Fundador, o Prelado do Opus Dei identificou-se com ele no núcleo essencial da sua vida e do seu espírito: uma mensagem de otimismo e esperança para a imensa maioria dos homens e mulheres que, cientes de que os seus nomes nunca se inscreverão no livro de ouro da História, sabem agora que Deus não se esquece deles e que o trivial da sua vida diária tem peso divino dentro dos planos eternos. Ao grito de derrota do pensador: "Eu sou "as" minhas circunstâncias", esses seguidores anônimos de Cristo opõem este outro clamor de imensa confiança: "Eu sou "nas" minhas circunstâncias", porque as assumo para com elas compor o perfil de um filho de Deus, esculpido sob o incessante martelar das incidências diárias.

Seguindo o exemplo do Fundador, D. Álvaro del Portillo revela-se nas entrelinhas destas páginas de uma paz sossegada e forte, no meio das contrariedades sem número que se abatiam sobre o Padre e que não podiam deixar de atingi-lo, embora desdramatize tudo; e sempre com um sorriso marcando-lhe o rosto, como bem sabem os que o conheceram, ao mesmo tempo que reconhecem a fonte dessa permanente afabilidade, porque, como já se disse, "sorrir é uma humildade". Nas páginas que se seguem, vale a pena repetir, o entrevistado só se deixa ver para indicar onde está o foco de luz.

A circunstância da sua morte tão recente pode ajudar o leitor a debruçar-se sobre estas páginas com outra preocupação que não a simples curiosidade: a de ser elo também de uma continuidade de espírito que, começando pela adesão cordial, desabrocha em vida e virtudes, na humildade, no sorriso e no agradecimento.

 

São Paulo, 20 de abril de 1994.

O Editor.

 

AGRADECIMENTO

 

Antes de mais nada, desejo exprimir o meu mais profundo agradecimento a D. Álvaro del Portillo pela generosidade com que pôs ao meu alcance as suas recordações pessoais, juntamente com cartas e documentos que iluminam traços até hoje inéditos da amabilíssima figura do Fundador do Opus Dei, que a Igreja venera como Bem-aventurado desde o dia 17 de maio de 1992.

Graças aos seus quarenta anos de convivência com mons. Escrivá, D. Álvaro del Portillo é uma testemunha privilegiada - mais ainda, única - da vida santa do Fundador e da sua incansável e heróica atividade pelo bem da Igreja e de todas as almas.

Este livro é relativamente breve, já que somente aborda alguns aspectos da personalidade do Fundador e da sua correspondência à iniciativa divina, sem pretender ser exaustivo. A riqueza espiritual de mons. Escrivá é tão grande que talvez não se pudesse abrangê-la adequadamente nem mesmo num livro mais extenso. Penso que a mensagem do Fundador - uma espiritualidade encarnada - quase se manifesta melhor num conjunto de episódios, fatos concretos, experiências vividas, que numa exposição conceitual. Este livro, portanto, não substitui as biografias já publicadas do Fundador do Opus Dei, cujo conhecimento de certa maneira pressupõe, e que, além disso, ajudam a situar historicamente as informações - em boa parte inéditas - que aqui se apresentam.

Realizar esta entrevista foi uma experiência profissional e espiritual gratificante. Aprofundar no conhecimento de um homem de Deus, que me é tão caro, através da experiência viva do seu filho mais próximo, foi para mim motivo de uma íntima alegria.

Só me resta desejar aos leitores destas páginas que também as suas almas se sintam tocadas pela vida e pelas virtudes do Bem-aventurado Josemaría Escrivá, fidelissimamente refletidas nestas palavras do seu sucessor, D. Álvaro del Portillo.

 

Cesare Cavalleri

 

FILHO DA IGREJA

 

PERGUNTA: "O decreto sobre a heroicidade das virtudes vividas por mons. Josemaría Escrivá, promulgado em 9 de abril de 1990 por João Paulo II, situa a figura do Fundador do Opus Dei num contexto eclesial preciso: a chamada à santidade de todos os batizados, que é, como escreveu Paulo VI, "o elemento mais característico do Magistério conciliar e, por assim dizer, o seu fim último". Mons. Escrivá, desde o dia 2 de outubro de 1928, dedicou todas as suas energias a difundir esta vocação universal para a santidade, "em coincidência profética com o Concílio Vaticano II". Como é bem sabido, o amor à Igreja e a vontade de servi-la penetram todos os escritos, a pregação e a vida inteira do Fundador da Obra. Gostaria de conhecer pormenores de como mons. Escrivá manifestava pessoalmente a sua profunda convicção de filho da Igreja".

 

Conservo a lembrança indelével da sua chegada a Roma. Era o dia 23 de junho de 1946. O Padre tinha 44 anos. Eu estava em Roma desde fevereiro daquele ano, porque o Fundador me havia encarregado de tratar de diversos assuntos relacionados com a aprovação pontifícia da Obra. Como as características próprias do Opus Dei constituíam uma novidade absoluta para o Direito Canônico vigente, eu trabalhava nesse sentido na medida das minhas possibilidades, seguindo as indicações precisas do Fundador. Disseram-me, porém, entre outras coisas, que ainda não era possível obter a aprovação do Opus Dei: tínhamos nascido - esta foi a expressão literal - com um século de antecedência. As dificuldades eram tão grandes, aparentemente insuperáveis, que decidi escrever ao Padre e manifestar-lhe a necessidade da sua presença em Roma.

Apesar de sofrer naquela época de uma gravíssima forma de diabete - a ponto de o médico que então o atendia, o Dr. Rof Carballo, ter declinado toda a responsabilidade pela sua vida se fizesse aquela viagem -, o Padre embarcou em 21 de junho no velho "J.J.Sister", em Barcelona. Antes pedira o parecer aos membros do Conselho Geral do Opus Dei e abandonara-se nas mãos de Nossa Senhora das Mercês.

Após uma dura travessia, devido a uma tempestade absolutamente insólita no Mediterrâneo, o navio atracou no porto de Gênova no dia seguinte, pouco antes da meia-noite. Fui de Roma até lá, junto com Salvador Canals, outro membro do Opus Dei, para esperá-lo. Antes, passamos por um modesto hotel onde reservamos os quartos. Lembro-me de que Salvador e eu jantamos ali muito frugalmente: estávamos em pleno pós-guerra, e como sobremesa serviram-nos um pedaço de queijo parmesão. Eu não conhecia esse tipo de queijo, e quando o provei pareceu-me tão bom que o guardei para o nosso Fundador. Não podia imaginar que seria o seu primeiro alimento nas últimas quarenta e oito horas. O Padre sempre brincava afetuosamente comigo a este propósito.

No dia seguinte, celebrou a sua primeira missa em terra italiana, numa igreja muito danificada pelos bombardeios. A viagem até Roma, num pequeno carro alugado, por aquelas estradas desfeitas pela guerra, foi interminável e muito incômoda. Mas o Padre transbordava de alegria e não se queixou: emocionava-o pensar que, por fim, veria realizada uma das suas maiores aspirações: "videre Petrum". Durante todo o trajeto, rezou muitíssimo pelo Papa.

Chegamos a Roma ao entardecer do dia 23 de junho. Quando avistou pela primeira vez a cúpula de São Pedro, da Via Aurélia, rezou muito comovido um Credo. Tínhamos subalugado alguns quartos de um apartamento situado no último andar de um edifício da praça de Città Leonina, nº 9, que dava para um terraço de onde se via a Basílica de São Pedro e o Palácio pontifício. Ao assomar a esse terraço e contemplar as dependências ocupadas pelo Vigário de Cristo, o Padre manifestou o desejo de permanecer ali alguns momentos, recolhido em oração, enquanto os outros, cansados depois de uma viagem tão acidentada, se retiravam para descansar. Levado pelo seu amor ao Papa, e emocionado por estar tão perto dos seus aposentos, o Padre permaneceu no terraço durante toda a noite, rezando, sem se importar com o cansaço da viagem, nem com o seu estado de saúde, nem com a enorme sede que a doença lhe causava, nem com os contratempos da travessia.

Este episódio pode dar uma idéia da intensidade com que o nosso Fundador amava a Igreja e o Papa. E, no entanto, apesar do grande desejo - ânsia, até - de ir rezar junto do túmulo de São Pedro, esperou vários dias antes de entrar no Templo da Cristandade, tão grande era o seu espírito de mortificação.

Em fins daquele mês, exatamente no dia 30 de junho, pôde escrever aos seus filhos do Conselho Geral do Opus Dei, que naquele tempo ainda tinha a sua sede na Espanha: "Tenho um autógrafo do Santo Padre para "o Fundador da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e do Opus Dei". Que alegria tão grande! Beijei-o mil vezes. Moramos à sombra de São Pedro, junto à `columnata'".

Em 31 de agosto, pôde regressar a Madrid, com um documento da Santa Sé chamado "De louvor dos fins", instrumento canônico que não se concedia havia quase um século. As dificuldades começavam a ser superadas.

Em 22 de outubro de 1946, quis voltar a rezar diante de Nossa Senhora das Mercês; depois, em 8 de novembro, voltou de Madrid definitivamente para Roma, cidade que seria durante quase trinta anos a sua residência habitual, até o dia em que Deus o chamou à sua Presença.

 

 

PERGUNTA: "O Bem-aventurado Josemaría foi favoravelmente acolhido na Cúria Romana, especialmente pelo então Substituto da Secretaria de Estado, mons. Montini, mas não lhe faltaram dificuldades por parte de alguns eclesiásticos. Disse algumas vezes que tinha perdido a inocência ao chegar a Roma..."

 

Mas as suas reações caracterizaram-se por um profundo sentido sobrenatural. Por exemplo, começou a ir freqüentemente à Praça de São Pedro, para rezar o Credo diante do túmulo do Príncipe dos Apóstolos. Utilizava a fórmula castelhana que sua mãe lhe havia ensinado em criança e, quando chegava às palavras: "Creio na Santa Igreja Católica", acrescentava o adjetivo "romana" e, a seguir, um parêntese: "apesar dos pesares". Certo dia, estava eu com ele, contou esse pormenor a mons. Tardini - não me lembro se já tinha sido nomeado Cardeal Secretário de Estado -, e o prelado perguntou-lhe: "Que quer dizer com `apesar dos pesares'?" O Padre respondeu: "Apesar dos meus pecados e dos seus". Evidentemente, o Padre não queria ofender mons. Tardini. Se nenhum homem está isento de pecado, e o justo peca sete vezes por dia, o nosso Fundador sublinhava a necessidade de que os colaboradores do Papa fossem muito santos e estivessem repletos do Espírito Santo, para que em toda a Igreja houvesse mais santidade.

Não admitia nem justificava a falsa humildade de alguns eclesiásticos sempre inclinados a uma "autocrítica" da Igreja; a Igreja, repetia com freqüência, não tem manchas, porque é a Esposa de Cristo. Este "mea-culpismo", como costumava chamá-lo, enchia-o de dor; não admitia que o reconhecimento da fraqueza dos homens ofuscasse a fé na santidade objetiva da Igreja.

 

 

PERGUNTA: "O Fundador conheceu três Papas. Como era o seu relacionamento com o primeiro, Pio XII?"

 

O Santo Padre Pio XII recebeu-o em audiência muitas vezes e demonstrou a sua estima pessoal pela Obra concedendo as duas primeiras aprovações pontifícias: o "Decretum laudis", de 1947, e a aprovação definitiva em 1950. Para manifestar-lhe o seu afeto, o nosso Fundador não hesitava em oferecer-lhe presentes muito simples. Por exemplo, certa vez, numa época em que não tínhamos dinheiro nem para comer, levou-lhe umas laranjas que recebera da Espanha. Noutra ocasião, como sabia que o Santo Padre gostava de um determinado vinho espanhol, conseguiu umas garrafas e ofereceu-lhas.

Há um episódio significativo deste afeto do Padre pelo Sumo Pontífice. Durante uma audiência, quis a certa altura beijar os pés de Pio XII. O Papa deixou-lhe beijar um, mas não quis que lhe beijasse o outro. Mas o nosso Fundador insistiu filialmente, dizendo ao Santo Padre que era aragonês e, como todos os aragoneses, teimoso.

Pio XII manifestou em muitas ocasiões o seu apreço pelo Fundador do Opus Dei. Certa vez, confidenciou ao cardeal Gilroy e ao bispo-auxiliar que o acompanhava: "É um verdadeiro santo, um homem enviado por Deus para os nossos dias". Depois da morte do Padre, o próprio bispo-auxiliar, D. Thomas Muldoon, registrou essas palavras do Papa num depoimento escrito.

 

 

PERGUNTA: "Numa entrevista a um jornal ("Questões atuais do cristianismo", n. 229), mons. Escrivá recordou que, em certa ocasião, animado pelo caráter afável e paterno de João XXIII, lhe disse: "Na nossa Obra, todos os homens, católicos ou não, sempre encontraram um lugar amável; não aprendi o ecumenismo de Vossa Santidade"... E o Papa ria, emocionado, pois sabia que, desde 1950, a Santa Sé tinha autorizado o Opus Dei a admitir como cooperadores os não-católicos e mesmo os não-cristãos".

 

Isso aconteceu na primeira audiência que João XXIII concedeu ao nosso Fundador em 15 de março de 1960. O Santo Padre era muito afável e simples, o que estimulava os seus interlocutores a fazer-lhe confidências fora de qualquer protocolo. Além disso, naquelas audiências papais, mesmo quando tinha de tratar de assuntos importantes, mons. Escrivá não deixava de contar ao Papa fatos que pudessem alegrá-lo. Lembro-me de que, poucos dias depois de ter chegado a Roma, foi recebido por mons. Montini, então Substituto da Secretaria de Estado. O nosso Fundador falou-lhe extensamente da Obra e contou-lhe alguns episódios apostólicos. Mons. Montini disse-lhe que os relataria imediatamente ao Santo Padre: "Aqui chegam-nos somente penas e dores, e o Papa irá alegrar-se muito quando souber de tantas coisas boas que os srs. vêm fazendo".

No fim daquela primeira audiência, João XXIII confidenciou que as explicações do Padre sobre o espírito da Obra lhe tinham aberto "insuspeitados horizontes de apostolado".

Na audiência privada concedida por João XXIII em 27 de junho de 1962, mons. Escrivá fez-se acompanhar pelo pe. Javier Echevarría, mas a conversa entre o Papa e o Fundador do Opus Dei desenrolou-se a sós. Sei que conversaram longamente sobre o espírito e a atividade da Obra no mundo, e que, poucos dias depois, em 12 de julho de 1962, o Padre escreveu a todos os seus filhos do mundo inteiro, pedindo-lhes que se unissem ao agradecimento que em justiça sentia por João XXIII, por ter-lhe oferecido uma vez mais a honra e a alegria de ver Pedro. Devo acrescentar que o nosso Fundador me falou muitas vezes, com grande admiração, das virtudes sacerdotais do Papa Roncalli.

Durante a dolorosa doença de João XXIII, mons. Angelo Dell'Acqua contou ao Padre - com quem tinha uma grande confiança - alguns detalhes de como cuidava do Papa. Por exemplo, quando estava junto à cabeceira do seu leito, o Papa pegava-lhe a mão, e se passado algum tempo o cardeal a soltava, fazendo menção de retirar-se, exclamava: "Angelino, não me deixes". O Padre entristecia-se ao pensar na solidão em que o Papa se encontrava e agradecia de todo o coração a mons. Dell'Acqua a solicitude com que, juntamente com os mais íntimos colaboradores da casa pontifícia, atendia o Papa João XXIII naqueles seus últimos dias.

 

 

PERGUNTA: "Pelo que já contou, nota-se que a estima de Paulo VI pelo Opus Dei e pelo seu Fundador eram anteriores à sua elevação ao Pontificado".

 

Basta recordar o que se passou quando, uma vez obtida a aprovação pontifícia do Opus Dei, me pareceu oportuno pedir à Santa Sé, na qualidade de Procurador Geral e em nome do Conselho Geral da Obra, a nomeação do nosso Fundador como Prelado doméstico. O então mons. Montini não só aprovou a minha iniciativa, como fê-la sua. Estávamos nos começos de 1947.

Como eu conhecia bem a humildade do Padre, dei os passos necessários sem deles informá-lo previamente. Na primavera desse ano, chegou uma carta de mons. Montini com o documento de nomeação do Fundador do Opus Dei como Prelado doméstico; estava datada de 22 de abril de 1947. Mons. Montini elogiava o Opus Dei e o seu Fundador e acrescentava que a Obra era uma esperança para a Igreja.

O Padre sentiu-se reconhecido, mas disse-me que não queria aceitar a nomeação e que com toda a gratidão pensava devolver o documento a mons. Montini, explicando-lhe que não desejava nenhum título honorífico. O pe. Salvador Canals e eu pedimos-lhe que não o fizesse, e o argumento decisivo foi que, com essa nomeação, se tornava ainda mais patente a secularidade do Opus Dei. Então mudou de parecer e escreveu ao Substituto da Secretaria de Estado manifestando-lhe o seu reconhecimento por aquela prova de afeto do Santo Padre e dele. Depois soubemos que mons. Montini havia tido a delicadeza de pagar do seu próprio bolso a taxa de nomeação.

Pude comprovar de modo muito particular o afeto do Papa Paulo VI pelo Padre quando me recebeu depois de eu ter sido chamado a suceder ao Fundador. Paulo VI falou-me do Padre com admiração e disse-me estar convencido de que tinha sido um santo. Confirmou-me que havia muitos anos que vinha lendo "Caminho" diariamente e que lhe fazia um grande bem à alma, e perguntou-me com que idade o nosso Fundador o publicara. Respondi-lhe que o havia lançado quando tinha trinta e sete anos, mas esclareci que o núcleo do livro já tinha aparecido com o título de "Considerações espirituais" em 1934, e fora redigido dois anos antes, isto é, quando tinha trinta anos. O Papa ficou pensativo por uns momentos e depois observou: "Então escreveu-o na maturidade da sua juventude".

 

 

PERGUNTA: "Ainda tenho bem viva na memória a visita que Paulo VI fez ao Centro Elis, em 21 de novembro de 1965, dia da inauguração desse Centro(*). O Papa demorou-se nessa visita muito mais tempo do que o previsto. Celebrou a Santa Missa, abençoou uma imagem de Nossa Senhora destinada à Universidade de Navarra e visitou detidamente as instalações do Centro. No fim, abraçou o Fundador e, visivelmente emocionado, exclamou: "Aqui tudo é Opus Dei". Foi um sinal de grande apreço pela Obra e pelo Padre, tanto mais que, naquela altura, as visitas do Pontífice eram raríssimas; e Paulo VI quis que a inauguração desse Centro tivesse lugar na fase final do Concílio Vaticano II, para permitir que muitos Padres conciliares participassem da cerimônia, como, de fato, aconteceu. Quando foi o último encontro do Fundador com Paulo VI?"

[(*) Os edifícios desse Centro, que se levantam no popular bairro romano do Tiburtino, nasceram por iniciativa de João XXIII, que resolveu destinar o dinheiro recolhido entre os católicos de todo o mundo, por ocasião dos oitenta anos de Pio XII, à criação de uma atividade social em Roma, e confiou o projeto, a sua execução e gestão ao Opus Dei. Daí surgiu uma estrutura múltipla, composta por uma residência para estudantes operários, um centro de formação profissional com vários programas de especialização técnica e artesanal, uma biblioteca, um centro esportivo e uma escola do lar, com todas as atividades necessárias para a promoção da mulher. Junto ao Elis, encontra-se a igreja paroquial de San Giovani Battista al Collatino, confiada a sacerdotes do Opus Dei.]

 

Foi em 25 de junho de 1973, numa audiência com umas características singulares, inesquecíveis. O Padre falou ao Papa de temas muito sobrenaturais e pô-lo a par do desenvolvimento da Obra e dos frutos que o Senhor lhe concedia em todo o mundo. Paulo VI alegrou-se muito e, de vez em quando, interrompia-o, deixando-se levar por um elogio ou simplesmente exclamando: "O sr. é um santo". Sei disso porque, ao terminar a audiência, vi que o Padre estava de rosto sério, quase triste. Perguntei-lhe o motivo, mas, a princípio, não quis responder-me. Depois, referiu-me essas palavras do Papa e disse-me que se tinha enchido de vergonha e de dor pelos seus próprios pecados, a ponto de ter protestado filialmente: "Não, não. Vossa Santidade não me conhece; eu sou um pobre pecador". Mas o Papa insistiu-lhe: "Não, o sr. é um santo". Então o Fundador replicou, cheio de emoção: "Na terra só existe um santo: o Santo Padre".

Num testemunho escrito, mons. Carlo Colombo, assessor teológico e amigo pessoal de Paulo VI, declarou que o Santo Padre o animara a escrever a carta postulatória para a abertura do processo de beatificação do Fundador do Opus Dei. Foram estas as suas palavras: "No decorrer de um encontro com Paulo VI, em que se tratou de vários assuntos, tive oportunidade de manifestar ao Pontífice a minha intenção de escrever uma carta postulatória solicitando o início do processo canônico de introdução da Causa de mons. Escrivá, Fundador do Opus Dei. Senti o dever de comunicar ao Papa que pensava dirigir-lhe essa carta postulatória, e que não a escreveria se não tivesse pessoalmente sérios motivos para fazê-lo: não podia permitir-me frustrar a íntima confiança que o Papa depositava em mim. Paulo VI deu-me o seu pleno consentimento e aprovação, dada a grande estima que sentia pelo Servo de Deus, de quem conhecia o grande desejo de fazer o bem, o amor fervoroso que devotava à Igreja e à sua Cabeça visível, o zelo ardente que nutria pelas almas".

 

PERGUNTA: "Assisti à Missa que João Paulo II celebrou em 19 de agosto de 1979 para um grupo de membros do Opus Dei de vários países e na qual pronunciou a inesquecível homilia em que disse, entre outras coisas: "Grande ideal é o vosso, um ideal que, desde os seus começos, antecipou a teologia do laicato que caracterizaria mais tarde a Igreja do Concílio e do pós-Concílio". Escutar diretamente do sucessor de Pedro este elogio à nossa espiritualidade, ao nosso "ser Igreja" foi algo muito comovente, para mim e para todos os presentes, e interiormente dirigimos esse elogio ao nosso Fundador, que não teve oportunidade de conhecer o futuro João Paulo II, um Papa cujo nome está ligado à história da Obra. O Fundador do Opus Dei foi considerado, pois, um precursor do Concílio Vaticano II, embora não tenha participado pessoalmente do Concílio".

 

O Padre alegrou-se muito com a convocação do Concílio Vaticano II e, mal João XXIII tornou pública a notícia, enviou-lhe uma carta cheia de gratidão. Entre outras coisas, previa que o Concílio preencheria a lacuna teológica que existia sobre o papel dos leigos na Igreja, como efetivamente aconteceu.

Pensou que poderiam convocá-lo na qualidade de Presidente geral de um Instituto Secular, pois era essa naquela altura a configuração jurídica do Opus Dei; nesse caso, deveria participar como Padre conciliar juntamente com outros superiores de instituições incluídas no estado de perfeição. Embora desejasse muitíssimo intervir pessoalmente nas reuniões conciliares, não lhe pareceu conveniente participar como Presidente de um Instituto Secular. Com efeito, isso poderia significar, se não a aceitação de um "status" jurídico inadequado à natureza da Obra, pelo menos um dado que constituiria um precedente pouco favorável à futura revisão do enquadramento canônico do Opus Dei. Expôs à Cúria os motivos pelos quais não achava prudente participar do Concílio, e a sua decisão foi bem compreendida.

Mons. Loris Capovilla convidou-o então a trabalhar como perito do Concílio, transmitindo-lhe o desejo do Santo Padre João XXIII nesse sentido. O nosso Fundador reiterou, mais uma vez, a sua disponibilidade total e sem condições, mas, depois de ter agradecido o convite, explicou os motivos pelos quais preferia não aceitar, submetendo-se, em qualquer caso, à decisão do Papa. Em resumo, estas eram as razões: por um lado, não poderia dedicar a essa missão todo o tempo necessário; por outro, vários dos seus filhos bispos eram Padres conciliares, e seria chocante que interviesse como simples perito: não se tratava certamente de uma atitude de vaidade, mas do desejo de evitar mal-entendidos à Santa Sé. Se o Fundador do Opus Dei tivesse aceitado a nomeação de perito, depois de ter recusado a de Padre conciliar, um ou outro poderia achar que pretendia atuar nos bastidores. Por sua vez, os que não estivessem a par da situação poderiam pensar que não se concedia ao Opus Dei nenhuma importância eclesial.

Em contrapartida, o nosso Fundador ofereceu à autoridade eclesiástica competente a colaboração de toda a Obra e dos seus membros, muitos dos quais, efetivamente, participaram da preparação e do desenvolvimento do Concílio.

No que me diz respeito, exortou-me a aceitar várias nomeações para diversas Comissões do Concílio e a empenhar-me a fundo nessa tarefa. No início dos trabalhos, fui nomeado perito conciliar, Secretário da Comissão para a Disciplina do clero e do povo cristão, na qual tive que trabalhar muito ativamente.

 

PERGUNTA: "Foi a Comissão que elaborou o decreto "Presbyterorum ordinis"..."

 

Exatamente. Além disso, fui nomeado consultor de outras três Comissões conciliares (para os bispos e o regime das dioceses; para os religiosos; para a doutrina da fé; e também consultor da Comissão mista para as associações de fiéis), bem como consultor da Comissão para a revisão do Código de Direito Canônico. Concluídas as atividades da Assembléia Ecumênica, fui nomeado consultor da Comissão pós-conciliar para os bispos e o governo das dioceses.

Ao longo das sessões conciliares, juntamente com os resultados positivos e atraentes, que se condensariam nos documentos definitivos, produziram-se também divergências e confusões, freqüentemente amplificadas pelos jornais. Essas tensões fizeram sofrer os Papas João XXIII e Paulo VI, como mons. Dell'Aqua confidenciava ao nosso Fundador. É preciso esclarecer que a confiança que este prelado depositava no nosso Fundador, de que é prova evidente a abundante correspondência deste período, não provinha simplesmente da íntima amizade que os unia, antes era o próprio Santo Padre que animava o Substituto da Secretaria de Estado nesse sentido; desta forma, estabeleceu-se um canal de comunicação direto e sempre aberto entre o Papa e o nosso Fundador.

Nos três anos do Concílio, sem contar o período preparatório, o nosso Fundador entrevistou-se com muitos Padres conciliares, peritos etc. Umas vezes, convidava-os a almoçar na nossa sede central; outras, ia às casas onde se alojavam, quase sempre para retribuir-lhes a visita. Houve dias em que recebeu mais de meia dúzia dessas visitas, e não lhe era nada fácil compaginar as suas ocupações no governo da Obra com o tempo necessário para acolher devidamente esses cardeais, arcebispos, bispos, núncios, teólogos, etc. Eu estive presente em muitos desses encontros e pude observar a simplicidade e afabilidade com que o Padre tratava todos os que o procuravam. Por exemplo, D. François Marty, então arcebispo de Reims, que depois seria cardeal-arcebispo de Paris, escreveu: "Na época do Concílio Vaticano II, tive ocasião de encontrar-me várias vezes com mons. Escrivá de Balaguer, Fundador do Opus Dei. Daquelas conversas, guardo a lembrança de um homem que só falava de Deus. Um tempo de conversa com ele era como um tempo de oração. Isso era compatível com o seu bom-humor, com o seu sentido sobrenatural, com a sua caridade cheia de afeto".

Mons. Abilio del Campo, bispo de Calahorra, deixou este testemunho: "Penso sinceramente que Josemaría contribuiu de um modo decisivo para esclarecer doutrinalmente muitos pontos em que as luzes que recebera de Deus e a sua extraordinária experiência pastoral no mundo do trabalho eram quase insubstituíveis. Foram muitos os Padres conciliares que, valendo-se da sua amizade, puderam escutar os seus atinados conselhos".

 

 

PERGUNTA: "Imagino que alguns desses conselhos teriam em vista também defender a ortodoxia católica naquela época em que um mal-entendido "espírito conciliar" semeava certa confusão..."

 

É significativo o testemunho que prestou o então secretário do cardeal Siri, hoje bispo de Ventimiglia, D. Giacomo Barabino: "A sua defesa da ortodoxia não procedia de um espírito conservador, de uma obnubilação mental ou rigidez de caráter. Tinha uma evidente preocupação por assegurar a ortodoxia e as estruturas vitais, divinas, da Igreja; mas não era menos evidente o seu espírito aberto e inovador: entusiasmava-me ouvi-lo falar de como era preciso que cada um secundasse, no seu próprio lugar e em plena fidelidade ao seu próprio carisma dentro da Igreja, a corrente santificadora que o Espírito Santo derrama sobre o povo de Deus, sobre cada um dos fiéis, chamados à plenitude da vida cristã. Dentro da sua audaz abertura, sublinhava a condição missionária da Igreja em todos os ambientes, mesmo nos mais difíceis. Tratava-se de uma realidade que vivia diariamente: a coerência com a idéia fundamental da qual tinha partido, a vocação universal para a santidade, idéia vigorosa que aplicava continuamente, com uma elasticidade verdadeiramente admirável, às exigências dos tempos e ao desenvolvimento da Igreja entre os homens".

 

 

PERGUNTA: "Deve ter sido muito grande a emoção de mons. Escrivá ao ver confirmada pelo Concílio e convertida em patrimônio de toda a Igreja a intuição que o Senhor lhe tinha confiado em 2 de outubro de 1928..."

 

Efetivamente. Pouco depois da conclusão do Concílio, costumava repetir: "Meus filhos, devemos estar contentes agora que se encerra este Concílio. Há trinta anos, alguns acusaram-me de herege por pregar aspectos do nosso espírito que agora o Concílio proclamou de modo solene". E numa entrevista concedida ao "L'Osservatore della Domenica", em 1968, declararia: "Uma das minhas maiores alegrias foi precisamente ver como o Concílio Vaticano II proclamou com grande clareza a vocação divina do laicato. Sem jactância alguma, devo dizer que, no que diz respeito ao nosso espírito, o Concílio não representou um convite à mudança: pelo contrário, veio confirmar o que - pela graça de Deus - estávamos vivendo e ensinando há muitos anos. A principal característica do Opus Dei não são determinadas técnicas ou métodos de apostolado, nem umas estruturas determinadas, mas sim um espírito que leva precisamente a santificar o trabalho de cada dia" ("Questões atuais do cristianismo", n. 72).

 

CIDADÃOS DAS DUAS CIDADES

 

PERGUNTA: "A secularidade, que segundo o Concílio Vaticano II é "a índole própria e peculiar dos leigos" ("Lumen gentium", n. 31), exprime-se também pelo correto exercício dos direitos próprios do cidadão, isto é, sendo católicos sem ser clericais ou beatos, e, ao mesmo tempo, sendo cidadãos que não esquecem que são católicos no momento das suas opções decisivas. Este foi um ensinamento constante do Fundador do Opus Dei. Gostaria de saber de algum exemplo tomado diretamente da sua vida".

 

A secularidade, que se pode considerar como a união harmônica da "alma sacerdotal" com a "mentalidade laical", que o Padre quis para todos os membros da Obra, sacerdotes e leigos, homens e mulheres, sempre esteve nele em primeiro plano e foi um elemento constitutivo do seu caráter, da sua existência. Por exemplo, manifestava-se no seu vivo sentido da justiça, bem como no exercício dos direitos cívicos, que nunca deixou de viver e que o levou a dedicar um capítulo do livro "Sulco" ao tema da "Cidadania".

Entre os milhares de episódios que poderia citar, parece-me significativo um da sua vida de estudante. A partir do ano letivo de 1922-23, quando já tinha sido nomeado Inspetor do Seminário de Saragoça e recebido a tonsura, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Saragoça. Em junho de 1924, prestou exame de História da Espanha, uma matéria que conhecia muito bem graças aos seus estudos no colegial e às suas muitas leituras: teve sempre uma grande inclinação pela História, que dominava profundamente. Mas como durante aquele ano não tinha assistido às aulas, quer por não ser aluno ordinário, quer por estar muito ocupado com o estudo da teologia e com o cargo de Inspetor do Seminário, o professor advertiu-o através de alguns amigos comuns de que não devia apresentar-se a exame porque o reprovaria. O jovem Josemaría ficou atônito, pois não tinha obrigação de assistir às aulas, e, para reivindicar um direito que lhe assistia pelo regime acadêmico, e por estar muito bem preparado, resolveu apresentar-se. O professor reprovou-o sem lhe fazer uma só pergunta.

Josemaría refletiu com calma sobre o que acontecera e decidiu escrever ao professor e expor-lhe respeitosamente que havia cometido uma injustiça e que tinha obrigação de repará-la. Acrescentou que desejava apresentar-se a exame em setembro e queria estar certo de que seria tratado imparcialmente.

Naquela época, os professores gozavam de plena autonomia e decidiam com absoluta liberdade sobre o desenrolar das provas e as notas correspondentes. Não era fácil a um aluno fazer valer os seus direitos, por mais respeitoso que se mostrasse. Em setembro, o professor foi muito correto: reconheceu o seu erro e o aluno passou.

Era também muito secular a simplicidade com que, embora de batina, lidava com os seus colegas universitários. Vez por outra, à saída das aulas, convidavam-no para um aperitivo num local freqüentado pelos estudantes, o bar Abdón, no Paseo de la Independencia, junto à Plaza de la Constitución. Josemaría aceitava o convite de vez em quando, e assim cultivava essas amizades de um modo muito natural. O seu comportamento era tão sacerdotal e, ao mesmo tempo, tão humano que, quando se ordenou, alguns dos seus colegas o escolheram como confessor habitual.

 

 

PERGUNTA: "Advogado e sacerdote. Houve algum momento em que o Fundador do Opus Dei fez valer essa dupla condição?"

 

Os estudos civis serviram-lhe, entre outras coisas, para dar aulas particulares que contribuíram para manter a família, tanto em Saragoça como nos seus primeiros anos em Madrid. Mas nunca voltou a fazer uso do seu título civil, porque quis ser sempre um sacerdote cem por cento.

É significativo um episódio que se deu durante a guerra civil espanhola. Quando, em Madrid, o Padre se viu impossibilitado de exercer o ministério sacerdotal e o clima se tornou irrespirável, pois era constante o perigo de morte - prisões e fuzilamentos em massa, queima de igrejas e conventos, autêntica perseguição religiosa -, não teve outra saída senão atravessar a fronteira pelos Pireneus e alcançar a zona livre através de Andorra. O ponto de partida era Barcelona. Lendo o jornal, viu que um colega seu da Universidade de Saragoça, Pascual Galbe, era juiz do Tribunal de Barcelona, como representante do Governo autônomo da Catalunha. Tinham sido grandes amigos, mas, naquelas circunstâncias, não era fácil prever como se comportaria. Por isso, o Padre fez-lhe saber por meio de Tomás Alvira - que tinha sido, por sua vez, colega de secundário do juiz - que se encontrava em Barcelona e desejava vê-lo. "No tribunal não - respondeu este -; é melhor que venha almoçar a minha casa".

Mal o viu, Pascual Galbe abraçou-o emocionado: "Não sabe quanto sofri; pensei que tinha morrido..." Para ajudá-lo a sair do perigo, propôs-lhe que passasse a trabalhar no Tribunal de Barcelona, como advogado ou magistrado; com efeito, era uma pessoa muito influente e, além disso, os tribunais tinham uma necessidade real de pessoas formadas em Direito. Mas o Padre não aceitou: "Se, quando não perseguiam o clero e a Igreja, não exerci esta profissão porque devia dedicar-me por inteiro ao meu sacerdócio, não é agora, sem dúvida, que irei lançar mão desta escapatória, para sobreviver servindo uma autoridade que persegue a minha Mãe, a Santa Igreja". O juiz tentou convencê-lo: "Se o apanharem, o que é muito provável, vão matá-lo". O Padre respondeu: "Não me importo; eu vivo para o meu sacerdócio e não me importo de que me matem".

 

 

PERGUNTA: "Parece-me que é nesta linha que se situa também a questão do título nobiliárquico..."

 

É um ponto a que convém dedicar algumas palavras porque, além do mais, põe de manifesto a grande humildade do Padre.

Conscientes de tudo o que o Fundador do Opus Dei significava para nós, seus filhos, bem como para a Igreja, começamos a reunir com prudência e amor filial todos os dados que pudemos sobre a sua família. Aproveitávamos para isso as viagens que os membros da Obra, por motivos apostólicos ou profissionais, faziam aos lugares onde o nosso Fundador tinha vivido com a sua família ou de onde procediam os seus antepassados.

Nos anos sessenta, enviamos as notícias e dados coligidos em primeira mão a um conhecido especialista em genealogia de Aragão, que verificou existirem alguns títulos nobiliárquicos que pertenciam em linha direta à família do nosso Fundador. Na minha qualidade de Secretário Geral do Opus Dei, resolvi pedir ao genealogista um estudo mais profundo. De posse desses dados, sugerimos ao Padre que pensasse na possibilidade de solicitar a reabilitação desses títulos. Tínhamos muito presente até que extremos a família do nosso Fundador tinha trabalhado e sofrido pela Obra. A princípio, o Padre eludiu o problema. Depois, deu-se conta de que não se tratava de uma questão meramente pessoal, mas dizia respeito ao seu irmão e aos descendentes de seus pais. Meditou detidamente no assunto na presença de Deus. Na sua vida privada, o Padre distinguia sempre, por um lado, os seus deveres e os seus direitos de cristão e de sacerdote, que procurou cumprir e exercitou heroicamente em todas as circunstâncias, e, por outro, os seus direitos e deveres de cidadão, não incompatíveis com os primeiros: o seu sacerdócio abarcou toda a sua existência, mas nem por isso renunciou às suas obrigações e direitos como membro de uma família e como cidadão, dando exemplo também neste ponto aos seus filhos e às pessoas com quem se relacionava.

Além de querer compensar de algum modo os sacrifícios e sofrimentos que a fundação e o desenvolvimento do Opus Dei tinham custado aos seus familiares, compreendeu que não podia fazê-los pagar novamente pelas conseqüências do seu desprendimento pessoal das honras humanas: com efeito, de acordo com a legislação espanhola vigente, só ele - na sua condição de primogênito - podia recuperar os direitos nobiliárquicos. Repito que pouco se importava com as honras. A solução foi reclamar aqueles direitos para depois transmiti-los ao irmão. Considerou, insisto, que não podia - por uma falsa humildade e menos ainda por medo às critícas e difamações - privar o seu irmão e os seus sobrinhos de algo que lhes pertencia.

Mas sabia muito bem que esse gesto poderia ser mal interpretado, e, por isso, antes de tomar uma decisão definitiva, pediu conselho a diversas pessoas, não só da Obra. Entre outros, consultou o cardeal Dell'Aqua, o cardeal Marella, o cardeal Larraona, o cardeal Antoniutti, o cardeal Bueno Monreal, arcebispo de Sevilla e seu bom amigo de longa data, e D. Casimiro Morcillo, arcebispo de Madrid, também seu velho amigo.

Todos lhe deram parecer favorável e o animaram a levar adiante o projeto. O cardeal Larraona, que era um insigne canonista, esclareceu-lhe que não só tinha direito a reclamar os títulos nobiliárquicos, como tinha obrigação de fazê-lo, pela sua condição de Fundador da Obra: "O sr. sempre ensinou os seus filhos a cumprir os seus deveres civis e a exercer todos os seus direitos de cidadãos. Portanto, se não o fizesse, iria dar-lhes mau exemplo". O cardeal pensava que, se o Fundador renunciasse àquele direito tão líquido e certo, os seus filhos do Opus Dei e muitos outros bons católicos seguiriam provavelmente esse exemplo de humildade, renunciando, talvez, a direitos irrenunciáveis.

O nosso Fundador informou igualmente a Secretaria de Estado do Vaticano. Todos concordaram. Dispunha também do parecer favorável das autoridades civis competentes. Mas o nosso Fundador previa claramente o que aconteceria: sabia que seria criticado por pessoas pouco informadas, por alguns prováveis invejosos e malévolos, e por outros de língua comprida, instigados pelo demônio. Via com toda a clareza que era como oferecer a todos esses, em bandeja de prata, um pretexto para insultá-lo.

Tal como previra, não faltaram as críticas e os falatórios, que puseram em evidência a sua heróica e profunda humildade. Do mesmo modo que sempre exercera os seus direitos, cumpriu um dever de justiça, para dar exemplo aos seus filhos, e procurou explicar claramente que o assunto em si não tinha a menor importância.

Em 24 de junho de 1968, foi-lhe reconhecido oficialmente o título de marquês de Peralta. A partir desse dia, aumentaram as polêmicas, que se arrastaram durante algum tempo. Houve também pessoas amigas que lhe pediram esclarecimentos ou que lhe manifestaram a sua solidariedade. O nosso Padre enfrentou sempre o assunto com clareza e, mais de uma vez, com senso de humor.

Algum tempo depois, quando as murmurações se acalmaram e se podia considerar o problema mais ou menos encerrado, então, sem nenhuma publicidade, deu os passos necessários para - como previra desde o princípio - ceder o título ao irmão, de modo que pudesse transmiti-lo por sucessão aos seus descendentes.

 

 

PERGUNTA: "O Fundador do Opus Dei detestava essa forma de clericalismo que consiste em pretender tratamentos de favor. Por isso, não gostava do costume, difundido em ambientes eclesiásticos, de pedir atendimento gratuito a alguns profissionais por serem advogados, médicos, engenheiros ou dentistas "católicos". O Fundador empenhava-se em pagar sempre os honorários".

 

Chegava ao extremo de pagar os próprios exames médicos a que se submetia na Clínica da Universidade de Navarra, apesar de ser o Grão-Chanceler dessa Universidade.

Por outro lado, sabia exigir que os trabalhos que encomendava se executassem de acordo com o que era devido em justiça. Vem-me à memória um episódio que me parece significativo. Quando se projetou o oratório do Conselho Geral do Opus Dei, decidiu-se fazer o piso de mármore, com desenhos geométricos formados cada um por uma só pedra. Foi aprovado um orçamento em que se previa essa condição; mas, quando o marmorista acabou de polir toda a superfície e deu o trabalho por terminado, o Padre notou que os desenhos tinham sido compostos com várias peças justapostas e que se notavam as juntas. Pareceu-lhe um trabalho inaceitável, principalmente porque se tratava de um lugar destinado ao culto. Conversou comigo e com outras pessoas e resolveu mandar levantar o piso e trocá-lo. Os motivos eram claros: o orçamento fora aprovado com aquela condição e o serviço já tinha sido pago. Aceitar aquele trabalho "marretado" seria uma falta de pobreza, e, além disso, para os que viessem depois de nós, um exemplo desedificante de pouco esmero nas coisas destinadas ao Senhor.

 

 

PERGUNTA: "A propósito dos direitos do cidadão, o ensinamento do Fundador é também muito claro no que diz respeito ao exercício das atividades políticas. Os membros do Opus Dei, na política como em todas as outras atividades temporais, têm a mesma liberdade, os mesmos direitos e deveres que os demais cidadãos católicos. É um aspecto que muitas vezes não foi bem entendido, especialmente por causa da situação espanhola. Poderia recordar algum episódio a este propósito, começando pela atitude do Fundador em relação ao comunismo e ao nazismo?"

 

No que diz respeito ao comunismo e ao marxismo, o Padre foi sempre fiel aos claríssimos ensinamentos do Magistério da Igreja sobre essas ideologias. E manifestou freqüentemente em público a sua atitude, porque as circunstâncias o exigiam; a sua oposição não era fruto das dificuldades que sofreu pessoalmente sob a ditadura comunista na Espanha - tinha perdoado desde o primeiro momento -, mas devia-se ao ateísmo e ao caráter desumano e anti-religioso dessa doutrina.

Especialmente nos começos dos anos sessenta e, particularmente, nas suas catequeses pela Península Ibérica e pela América Latina, perante a difusão entre os fiéis de correntes que tentavam conciliar o cristianismo com o marxismo, o nosso Fundador fez-se eco dos ensinamentos recordados com freqüência por Paulo VI e das condenações contidas nos documentos dos Dicastérios romanos competentes.

Um trecho de uma homilia que pronunciou em 1963 ilustra muito claramente a sua atitude em relação ao comunismo: "Urge repetir - não me meto em política, afirmo a doutrina da Igreja - que o marxismo é incompatível com a fé de Cristo. Existe coisa mais oposta à fé que um sistema que baseia tudo em eliminar da alma a presença amorosa de Deus? Gritai-o com muita força, de modo que se ouça claramente a vossa voz: para praticarmos a justiça, não precisamos do marxismo para nada. Pelo contrário, esse erro gravíssimo - pelas suas soluções exclusivamente materialistas, que ignoram o Deus da paz - ergue obstáculos no caminho para a felicidade e para o entendimento entre os homens. Dentro do cristianismo encontramos a boa luz que dá sempre resposta a todos os problemas: basta que vos empenheis sinceramente em ser católicos, "non verbo neque lingua, sed opere et veritate", não com palavras nem com a língua, mas com obras e na verdade. Dizei isso sempre que surgir a ocasião - e procurai-a, se for preciso -, sem reticências, sem medo" ("Amigos de Deus", n. 171).

No fim dos anos trinta, depois de ter vivido a triste experiência da guerra civil, a maior parte dos espanhóis alimentava uma clara aversão pelo comunismo. Não acontecia o mesmo com o nazismo; mais ainda, a propaganda oficial, por um ou outro motivo, não só silenciou os crimes do nacional-socialismo, mas proibiu na Espanha a publicação do documento pontifício que o condenava. Por isso, o nosso Fundador teve de pronunciar-se mais de uma vez contra o nazismo no seu ministério sacerdotal. Precisamente porque em alguns ambientes oficiais espanhóis o regime nazista era visto com simpatia, sentiu-se no dever de pôr em guarda os que se esqueciam das aberrações dessa ideologia; não criticava somente o seu totalitarismo, mas também as perseguições e as discriminações aos católicos, aos judeus, etc., e o tom de religião pagã que caracterizava o racismo nazista. Foi pródigo em dar a conhecer o conteúdo do documento pontifício de condenação e em difundi-lo privadamente.

 

 

PERGUNTA: "Mas alguns jornais, prontamente desmentidos, falaram recentemente de uma "simpatia" do Fundador pelo nazismo".

 

É uma insinuação aberrante que se desqualifica por si mesma. Mas aproveito o ensejo para dar a conhecer um testemunho que me chegou precisamente por ocasião dessa campanha de calúnias. (Um parêntese: quando se passam coisas deste gênero, continuamos a seguir o critério seguro que o Padre nos deixou: perdoar desde o primeiro momento, rezar pelos que caluniam, reafirmar a verdade e, sempre, "afogar o mal em abundância de bem", persuadidos, além disso, de que a verdade acaba sempre por triunfar). Pois bem: datada de 9 de janeiro de 1992, recebi de Madrid uma carta do sr. Domingo Díaz-Ambrona que diz assim:

"Conheci o futuro Bem-aventurado durante a guerra civil espanhola. Junto com minha mulher, estava refugiado na embaixada de Cuba e, enquanto nos encontrávamos ali, chegou o momento do parto da nossa filha Guadalupe, que nasceu em 3 de setembro de 1937 no Sanatório Riesgo, hoje desaparecido, que então estava sob a proteção da bandeira inglesa. Devido à situação em que se encontrava o país, não a podíamos batizar, e assim o comentei com um bom amigo meu, José Maria Albareda.

"Poucos dias depois, José Maria Albareda disse-me que um sacerdote amigo seu viria administrar o batismo à criança num dia determinado. Confiando na proteção que a bandeira inglesa do sanatório nos oferecia, convidei os padrinhos e outros amigos para a cerimônia. O sacerdote chegou às cinco da tarde, duas horas antes do previsto, e permaneceu conosco apenas o tempo necessário para batizar a nossa filha. Foi tudo tão rápido que nem sequer lhe perguntamos o nome. Mais tarde, soube que se tratava de mons. Escrivá. O seu comportamento foi uma lição de prudência para todos nós, naqueles momentos difíceis. Eu tentei fazê-lo ficar, mas disse-me: `Há muitas almas que precisam de mim'.

"Durante esse período, pelo que vim a saber depois, apesar de não dispor senão de um documento de identidade precário e de o clima social e político ser muito perigoso para um sacerdote, desenvolvia um intenso trabalho apostólico: confessava muitas pessoas - às vezes, com risco de vida -, pregava retiros mudando constantemente de local e atendia um grupo de religiosas que sofriam os efeitos da perseguição.

"Mas, como disse, naquela época eu não sabia de quem se tratava. Soube-o mais tarde, durante um encontro casual no trem da linha Madrid-Ávila, no mês de agosto de 1941. Viajava com minha mulher e a minha filha de quatro anos quando D. Josemaría, ao ver-nos, nos reconheceu, entrou no nosso compartimento e disse: `Fui eu que batizei esta menina'. Cumprimentamo-nos, disse-me o seu nome e passamos a falar da situação histórica que atravessávamos. Encontrávamo-nos num momento decisivo da história da Europa: lembro-me de que eu estava impaciente por chegar quanto antes a Navas del Marqués, para saber pelo rádio como ia o avanço das tropas alemãs em território russo.

"Comentei-lhe que acabava de regressar de uma viagem à Alemanha e que pudera notar o medo que tinham os católicos daquele país de manifestar as suas convicções religiosas. Isso levara-me a desconfiar do nazismo; mas, como a muitos espanhóis, escapavam-me os aspectos negativos do sistema e da filosofia nazista, deslumbrados como estávamos pela propaganda de uma Alemanha que se apresentava como a força que aniquilaria finalmente o comunismo. E quis saber a sua opinião.

"Pelas razões que acabo de expor, surpreendeu-me profundamente, naqueles momentos, a resposta taxativa daquele sacerdote, que tinha uma informação muito certeira sobre a situação da Igreja e dos católicos sob o regime de Hitler. Mons. Escrivá falou-me com muita força contra aquele regime anticristão, com um vigor que denotava o seu grande amor pela liberdade. Devo dizer que, na Espanha de então, não era fácil encontrar pessoas que condenassem de forma tão contundente o sistema nazista e que denunciassem com tanta clareza a sua raiz anticristã. Por isso, essa conversa, naquele momento histórico preciso, em que ainda não se conheciam todos os crimes do nazismo, ficou-me profundamente gravada na memória.

"Algum tempo depois, comentei esse encontro com o meu amigo José Maria Albareda e vim a saber que tinha estado a conversar com o Fundador do Opus Dei.

"Eu não pertenço ao Opus Dei, mas a minha experiência pessoal permite-me afirmar que quem sustente uma opinião contrária sobre o pensamento de mons. Josemaría Escrivá neste ponto só pretende ofuscar inutilmente a vida santa deste futuro Bem-aventurado, que era um grande apaixonado da liberdade".

 

 

PERGUNTA: "É um testemunho irrefutável que confirma os ditames do senso comum..."

 

Obviamente, o Padre distinguia entre o nazismo e o povo alemão. Precisamente porque sentia uma particular estima por aquela nação - era um sentimento herdado de seu pai -, doía-lhe muitíssimo vê-la submetida àquela ditadura aberrante. E a sua pena aumentou quando rebentou a Segunda Guerra Mundial.

 

 

PERGUNTA: "E as relações com o franquismo?"

 

Antes de responder, parece-me indispensável repetir uma consideração bem conhecida: a atividade e a finalidade do Opus Dei são exclusivamente espirituais, como também foram unicamente espirituais a missão e o ministério sacerdotal do seu Fundador. O Governo de uma nação - seja qual for - e o Opus Dei são realidades que se movem em planos totalmente diferentes. A Prelazia anima os seus membros a exercer os seus direitos e a cumprir diligentemente os seus deveres como cristãos coerentes, mas deixa-lhes a mais completa liberdade nas opções temporais; mais ainda, fomenta essa liberdade: o único critério que lhes dá neste ponto é o de que sigam as eventuais orientações emitidas pela Hierarquia eclesiástica.

No caso do franquismo, é preciso recordar que o fim da guerra civil significou o ressurgimento da vida da Igreja, das associações, das escolas católicas, com uma clara tomada de posição da Hierarquia em favor do general Franco, que era considerado em muitos ambientes como "providencial". Basta pensar que, terminada a guerra civil, as catedrais e paróquias de toda a Espanha ostentavam na fachada símbolos da Falange com a inscrição: "Caídos por Deus e pela Espanha. Presentes!" O Fundador do Opus Dei protestou muitas vezes contra esse abuso.

Nessa situação, o Padre, embora reconhecesse em Franco o mérito da pacificação, teve de opor resistência a dois perigos: por um lado, a instrumentalização da fé, ante a tentativa de determinados grupos de monopolizar a representação dos católicos na vida pública; por outro, a tendência de alguns ambientes católicos a servir-se do poder público como de um braço secular. Em suma, duas facetas do clericalismo.

O Padre sempre reconheceu que era da competência exclusiva da Hierarquia dar orientações aos católicos em matéria política; por isso, absteve-se rigorosamente de pronunciar-se. A Hierarquia encorajou abertamente os católicos a apoiar Franco, tanto assim que diversos ministérios tiveram representantes da Ação Católica e de outras organizações religiosas. E o clericalismo chegou a tal extremo que houve quem pedisse (e, naturalmente, obtivesse) autorização do seu bispo para aceitar o cargo de ministro.

Quando, na década de cinqüenta, alguns membros da Obra foram nomeados ministros de Franco, o Padre não o aprovou nem desaprovou: agiam no uso da sua liberdade de cidadãos católicos, respeitosos para com a Hierarquia, apesar de ter havido quem tentasse atribuir à Obra como tal pressões ou ingerências no campo político. Não nos faltaram dificuldades e incompreensões por esse motivo.

Já nos anos quarenta, por exemplo, diversos membros do Opus Dei concorreram a cátedras universitárias e, como estavam bem preparados, ganharam-nas brilhantemente, sem qualquer recomendação. Surgiu então uma violenta reação dos inimigos da Igreja que, desde fins do século passado, controlavam a Universidade por meio da "Institución Libre de Enseñanza". Circulou o rumor, absolutamente calunioso, de que os membros do Opus Dei tinham ganho os concursos de maneira irregular, quando a verdade é que não gozaram de nenhuma facilidade, antes foram discriminados em favor dos que pertenciam a outras instituições católicas, favorecidas pelos ministros da Educação Nacional.

E não eram somente os inimigos da Igreja que se opunham à Obra ou não a compreendiam. Quando o nosso Fundador, em 1947, passou algum tempo na Espanha para preparar a transferência do governo da Obra para Roma, teve ocasião de entrevistar-se com o Ministro das Relações Exteriores, Martín Artajo, que, antes de entrar no Governo, tinha sido presidente da Ação católica espanhola. O Padre contou mais tarde que, com grande surpresa sua, o ministro lhe dissera que não entendia "como se podia estar consagrado à Igreja, até com um vínculo de obediência, e ao mesmo tempo servir o Estado". O Padre explicou-lhe que não havia nenhuma dificuldade, porque a "matéria" da obediência devida à Igreja era a mesma para ele como para o resto dos católicos, fossem ou não pessoas consagradas a Deus: essa obrigação era do mesmo "grau", ainda que por um título diverso. Mas o ministro não conseguiu entender essa verdade palmar e ordenou que não se admitissem no Corpo Diplomático membros do Opus Dei ou pessoas consideradas como tais, mesmo que tivessem ganho o respectivo concurso. Ao arrepio de toda a justiça, essa ordem foi cumprida em vários casos.

 

 

PERGUNTA: "Como outras organizações católicas apoiavam direta e abertamente o regime, alguns não conseguiam imaginar que a Obra se comportasse de outra forma. Mas o Padre sempre defendeu com vigor a liberdade de opinião dos seus filhos, e é natural que entre os membros da Obra houvesse quem apoiasse o franquismo e quem estivesse na oposição. Lembro-me de um filme de uma das catequeses do nosso Fundador, em que conta que não hesitou em apresentar-se diante de um personagem "muito poderoso" para defender a liberdade de opinião de um dos seus filhos. Gostaria de conhecer esse episódio com maior detalhe".

 

Um membro da Obra tinha escrito um artigo contrário ao regime franquista. A reação das autoridades foi muito dura, e essa pessoa teve de exilar-se. Sobre o fato em si, o Padre não tinha nada a dizer, porque se tratava de questões em que não intervinha: diziam respeito exclusivamente aos seus filhos, como cidadãos livres e responsáveis que eram. Mas, entre outras injúrias que se lançaram contra aquele membro da Obra, afirmou-se que era "uma pessoa sem família".

O nosso Fundador reagiu como um pai que defende o seu filho. Foi imediatamente à Espanha, solicitou uma audiência a Franco e foi recebido sem demora. Sem entrar no mérito das divergências políticas, afirmou com toda a clareza que não podia consentir que se dissesse de um filho seu que era um homem sem família: tinha uma família sobrenatural, a Obra, e ele se considerava pai daquela pessoa. Franco perguntou-lhe: "E se o meterem na cadeia?" O Padre respondeu-lhe que respeitaria as decisões da autoridade judicial, mas que, nesse caso, ninguém poderia impedi-lo de prestar àquele seu filho toda a assistência espiritual e material de que necessitasse. Repetiu as mesmas idéias ao Almirante Carrero Blanco, braço direito de Franco. Devo precisar que, demonstrando ser cavalheiros e possuir sentido cristão, os dois reconheceram que o nosso Fundador tinha razão.

 

PERGUNTA: "Muitos ataques à Obra e à liberdade dos seus membros provinham diretamente de instituições do regime, como a Falange".

 

Nesse sentido, é eloqüente a carta que o nosso Fundador escreveu em 28 de outubro de 1966 ao ministro José Solís, chefe da Falange:

 

"Prezado amigo":

"Chega-me até aqui o rumor da campanha que a imprensa da Falange, subordinada a V. Excia., move tão injustamente contra o Opus Dei.

"Repito-lhe mais uma vez que os membros da Obra - todos e cada um - são pessoalmente libérrimos, como se não pertencessem ao Opus Dei, em todas as questões temporais, bem como nas questões teológicas que não são de fé e que a Igreja deixa à livre discussão dos homens. Portanto, quando se trata de questões políticas, profissionais, sociais, etc., não faz sentido pôr em evidência a condição de membro da Obra desta ou daquela pessoa, tal como não seria justo, falando das atividades públicas de V.Excia., trazer à baila a sua mulher, os seus filhos, a sua família.

"É deste modo errôneo que se comportam as publicações que recebem orientação do seu Ministério; e assim não conseguem senão ofender a Deus, confundindo o espiritual com o terreno, quando é evidente que os Diretores do Opus Dei nada podem fazer para coibir a legítima e completa liberdade dos seus membros, os quais - por outro lado - nunca escondem que cada um deles assume a plena responsabilidade dos seus próprios atos, e, em conseqüência, que a pluralidade de opiniões entre os membros da Obra é e será sempre mais uma manifestação da sua liberdade e mais uma prova do seu bom espírito, que os leva a respeitar as opiniões dos outros. Ao atacarem ou defenderem o pensamento ou a atuação pública de outro cidadão, tenham a retidão - que é de justiça - de não aludir sob nenhum ponto de vista ao Opus Dei: esta "família espiritual" não intervém nem pode intervir nunca em opções políticas ou terrenas em qualquer campo, porque os seus fins são "exclusivamente"espirituais.

"Espero que tenha compreendido a minha surpresa, tanto em face do anúncio dessa campanha difamatória como do modo com que se vem levando a cabo; estou certo de que perceberá o desatino que cometem e as responsabilidades em consciência que adquirem perante o juízo de Deus, pelo desacerto que representa denegrir uma instituição que não influi - nem pode influir - no uso que os seus membros, espalhados pelos cinco continentes, fazem da sua liberdade pessoal como cidadãos, sem se esquivarem à sua responsabilidade pessoal.

"Peço-lhe que ponha ponto final a essa campanha contra o Opus Dei, uma vez que o Opus Dei não é responsável de nada. Caso contrário, pensarei que V. Excia. não me entendeu e ficará claro que não é capaz de compreender nem de respeitar a liberdade, "qua libertate Christus nos liberavit" a liberdade cristã dos demais cidadãos.

"Combatam os senhores em boa hora, ainda que eu não seja amigo de lutas, mas não misturem injustamente nessas lutas o que está acima das paixões humanas.

"Aproveito a ocasião para enviar-lhe um abraço e a minha bênção, extensiva a todos os seus.

"In Domino".

 

 

PERGUNTA: "Se me é permitido exprimir uma opinião totalmente pessoal, parece-me que aqueles membros da Obra que, sob sua exclusiva responsabilidade, colaboraram livremente com o governo de Franco, trabalharam pelo bem do seu país, obtiveram êxitos, hoje unanimemente reconhecidos, no saneamento da economia e na ruptura do isolamento em que se encontrava a Espanha, projetando-a em direção à Europa. Mesmo abstendo-se de intervir e até de expor publicamente opiniões em matéria política, qual era a maior preocupação do Fundador em relação a este tema?"

 

Preocupava-o o problema da sucessão de Franco. Não vacilou em comunicá-lo diretamente ao interessado, e procurou sensibilizar para esse delicado assunto os bispos espanhóis que vinham visitá-lo. Mas o nosso Fundador soube também resistir às insinuações que lhe chegavam do Vaticano no sentido de que tomasse iniciativas nesse campo: recusou-se a servir de intermediário de alguns, porque não era missão sua intrometer-se em política. Deixou clara a sua posição nessa matéria, sem dar margem a equívocos, numa carta de consciência que dirigiu a Paulo VI em 14 de junho de 1964.

 

 

PERGUNTA: "Agora compreendo melhor por que tinha uma devoção tão grande por Santa Catarina de Sena".

 

COMO ERA O PADRE

 

PERGUNTA: "O sr. viveu quarenta anos ao lado do Padre. Tenho consciência de que é praticamente impossível descrever uma personalidade tão rica em qualidades humanas e dons sobrenaturais como a do Fundador do Opus Dei; mas, por outro lado, quem melhor do que o sr. para fazê-lo de um modo o menos incompleto possível?"

 

A sua personalidade era tão rica em facetas que dificilmente pode ser descrita mediante esquemas gerais. Além disso, recebeu tantas graças do Senhor que, ao examinarmos a sua conduta, se torna difícil distinguir entre as qualidades naturais do seu caráter e o que era conseqüência da graça de Deus e da luta ascética. Disse intencionalmente "distinguir", e não "separar", porque um dos traços fundamentais da sua personalidade era a perfeita unidade, a plena compenetração entre os aspectos humanos, os apostólicos e os ascéticos da sua vida. Seria impossível isolá-los.

Ensinou-nos sempre que as virtudes humanas são o fundamento das sobrenaturais: os que tiveram a sorte de viver ao seu lado puderam ver realizada no seu comportamento aquela "unidade de vida" que pregava com tanta paixão.

Para traçar um quadro de conjunto, poderíamos dizer que, tanto pelas suas virtudes como pelos seus dotes naturais - inteligência, simpatia, caráter -, o Padre tinha a perfeição do instrumento preparado pelo Senhor para a missão de fundar o Opus Dei.

Se quisermos compreender a sua personalidade, devemos ter presente uma qualidade fundamental, que impregna todas as outras: a entrega a Deus e às almas por Deus; a disponibilidade com que correspondeu generosamente à Vontade do Senhor. Este foi o norte de toda a sua vida. Como homem enamorado que era, tinha descoberto aquele segredo que descreveu no ponto 1006 de "Forja": "Vejo com meridiana clareza a fórmula, o segredo da felicidade terrena e eternal: não somente conformar-se com a Vontade de Deus, mas aderir, identificar-se, querer - numa palavra -, com um ato positivo da nossa vontade, a Vontade divina. Este é o segredo infalível - insisto - da alegria e da paz".

A sua entrega não era fria, "oficial". Brotava do amor e, por isso, traduzia-se em demonstrações sinceras de carinho e compreensão; tinha um coração grande e nobre. Estava aberto a todos. Amava o mundo apaixonadamente, por ter sido criado por Deus. Todas as realidades humanas o atraíam. Lia os jornais, assistia ao noticiário da televisão, gostava das canções de amor, rezava pelos astronautas que iam pousar na Lua... Era muito afável, sabia transmitir confiança e acolher os outros.

 

 

PERGUNTA: "A propósito de canções: o Fundador gostava de ouvir cantar e, referindo-se às viagens apostólicas que realizou para preparar a "pré-história" do Opus Dei em diversos países, afirmava que tinha semeado a Europa de Ave-Marias e de canções..."

 

Sim, cantava com muita freqüência, com aquela voz de barítono, tão afinada e agradável. Não era um homem de aspecto severo, distante; pelo contrário, transbordava humanidade, cordialidade e alegria. Ensinou-nos que um sorriso é, muitas vezes, a melhor mortificação, porque as nossas mortificações nunca devem fazer sofrer as pessoas que nos rodeiam. E foi o primeiro a cumprir fielmente esse ensinamento. A sua vida de oração e de penitência, longe de entristecer os outros, infundia uma autêntica alegria sobrenatural e humana nos que se encontravam ao seu lado.

 

 

PERGUNTA: "Voltando ao temperamento do Padre..."

 

Posso testemunhar que a sua vida foi paradigma de um homem que sabe amar com todo o coração e que deseja servir os outros e torná-los felizes.

Estava dotado de uma inteligência rápida e aguda, complementada por uma cultura incomum e aberta a todos os ramos do saber, de uma pronunciada mentalidade jurídica e de um notabilíssimo gosto estético. A sua personalidade humana era vigorosa e rija; o seu temperamento, valente e impetuoso, forte e enérgico, e soube adquirir um pleno domínio de si mesmo. Um dia, por causa de um grave contratempo, perdeu por alguns instantes a serenidade: "Zanguei-me e depois zanguei-me por ter-me zangado". Naquele estado de ânimo, estava caminhando por uma rua de Madrid quando deparou com uma dessas máquinas automáticas que tiravam seis fotos de 3 x 4 por umas moedas; o Senhor fê-lo compreender que tinha ao alcance da mão uma boa ocasião para humilhar-se e receber uma lição ascética sobre a alegria. Entrou na cabine e tirou as fotografias: "Estava divertidíssimo, com aquela cara de zangado!" Depois, rasgou todas menos uma: "Trouxe-a na carteira durante um mês. De vez em quando, olhava-a para ver aquele rosto zangado, humilhar-me diante do Senhor e rir-me de mim mesmo: por seres um tolo, dizia-me".

 

 

PERGUNTA: "O Padre ensinou-nos a apresentar-nos sempre corretamente vestidos e a cultivar uma certa elegância apropriada às circunstâncias sociais de cada um. É um modo "secular" de entender a pobreza neste campo, em que certamente foi também o primeiro a dar exemplo".

 

Costumava ter duas batinas, que usava em dias alternados para que durassem mais; mas houve épocas, por exemplo entre 1941 e 1944, em que teve apenas uma, e assim, quando era preciso consertá-la, não tinha outro jeito senão fechar-se no quarto enquanto a sua irmã Carmen a remendava. Também em Roma tivemos que pedir alguma vez às suas filhas que a costurassem enquanto esperava no quarto, em mangas de camisa.

Escovava-a todas as noites cuidadosamente e, se tinha alguma mancha, limpava-a com um pouco de água; ajudei-o muitas vezes nessa operação, segurando-lhe o tecido. Quando era preciso lavá-la, passava-a para as suas filhas que se ocupavam da administração doméstica. É por isso que lhe duravam tanto.

Até a fundação do Opus Dei, tinha a roupa sacerdotal necessária tanto para o inverno como para o verão: cada ano - quando ainda estava em Saragoça -, passava a vestir a roupa de inverno no dia doze de outubro, festa de Nossa Senhora do Pilar, e a de verão no dia sete de março, naquele época festa de São Tomé. Isto quer dizer que devia sentir calor em outubro e frio em março e abril. A partir da fundação do Opus Dei, como mais um sinal de sobriedade e pobreza, decidiu usar as mesmas roupas durante o ano inteiro.

Não gostava de vestir camiseta, e isso desde criança. Mas um dia apanhou um forte resfriado por causa do grande frio que fazia; foi em Turim, no dia 27 de novembro de 1949. Comprei-lhe então uma camiseta de lã e pedi-lhe que a usasse. Concordou, mas como não estava acostumado, cortou-lhe as mangas. Uns anos depois, para combater o reumatismo, os médicos prescreveram-lhe que usasse joelheiras, e o nosso Fundador passou a servir-se daquelas mangas como "joelheiras".

 

 

PERGUNTA: "Padre, algum outro detalhe da vida cotidiana..."

 

O Padre amava a limpeza e o asseio pessoal, mas não usava nenhum tipo de perfume, porque estava convencido de que, para um sacerdote, o melhor cheiro é não cheirar a nada; só com o decorrer dos anos é que aceitou o nosso conselho e passou a usar uma água de lavanda para desinfetar os cortes que pudesse fazer ao barbear-se.

Durante muitos anos, cortava o cabelo em casa, com a nossa ajuda; a certa altura, quis comprar um desses pentes com lâmina, pensados expressamente para cada qual cortar o seu próprio cabelo. Mas acabamos por aconselhá-lo a recorrer ao barbeiro, porque a pequena economia de dinheiro não compensava os resultados, tão pouco satisfatórios.

Como estava heroicamente desprendido de si mesmo, não tinha nada de supérfluo. Por exemplo, desde os anos quarenta até 1970, usou sempre os mesmos óculos, apesar de serem de um modelo bastante antiquado. Decidiu-se a trocá-los por insistência do pe. Javier Echevarría e minha.

Desde 1953, dormia, na sede central, num quarto pequeno e frio, com piso de lajotas de cerâmica. Um dia, em 1973, caiu ao chão ao levantar-se pela manhã e ficou alguns instantes desacordado sobre as frias lajotas. Quando vim a sabê-lo, fiquei preocupado, pois era atreito a doenças de brônquios; pouco tempo antes, tinha acontecido algo de parecido com um cardeal da Cúria Romana, o cardeal Larraona, que apanhou uma pneumonia e morreu subitamente. Por isso, em 1947, aproveitando uma viagem do nosso Fundador, revestimos o chão de carpete. Ao voltar, aborreceu-se porque tínhamos tomado aquela iniciativa sem que o soubesse, e só a aceitou quando lhe dissemos que o tínhamos feito a conselho médico.

 

 

PERGUNTA: "Sei que o Padre não fumava. Deixou de fazê-lo quando entrou no Seminário e deu o tabaco e os cachimbos de presente ao porteiro".

 

Mesmo assim, sempre conviveu com pessoas que fumavam, sem nunca se queixar. Mais ainda, se por acaso recebia de presente de alguma visita uma caixa de charutos, guardava-os para oferecê-los aos outros. Deixava-os num armário embutido do seu quarto, com um recipiente de água ao lado, que substituía periodicamente, para que não perdessem a umidade. Nos dias de festa, levava-os com verdadeira alegria à reunião de família depois do almoço, e mantinha acesa uma vela fina para que os fumantes pudessem acendê-los.

 

 

PERGUNTA: "Estes episódios traduzem a simplicidade, a delicadeza, o espírito de serviço, a ordem e o bom humor do Padre. E, já que falamos da sua vida cotidiana, é possível traçar um esquema das suas jornadas habituais"?

 

Propriamente, não se pode falar de uma jornada "habitual", porque a sua atividade se organizava sempre em função do que o Senhor lhe pedia: servir a todas as almas por amor. O que era verdadeiramente habitual no nosso Fundador era a disposição de secundar em todos os instantes o querer divino.

Mas não há dúvida de que, ao longo da sua existência terrena, se submeteu a um plano de vida que tinha alguns pontos de referência intocáveis: a oração mental, a Santa Missa, a recitação do Breviário e do terço, e outras práticas de piedade. Com efeito - contrariamente ao que poderia pensar quem o tivesse ouvido falar apenas de santificação do trabalho, sem conhecer bem o espírito do Fundador da Obra -, repetia constantemente esta verdade fundamental: "A arma do Opus Dei não é o trabalho: é a oração. Por isso, convertemos o trabalho em oração e temos alma contemplativa".

Mas, mesmo conservando esses pontos essenciais, as jornadas do Padre tiveram características muito diferentes conforme as épocas: por exemplo, as suas jornadas dos anos trinta, em que desenvolvia uma atividade pastoral intensa e direta nos bairros de Madrid, eram muito diferentes das dos anos sessenta, em Roma, em que a sua ocupação fundamental se concentrava em governar e cuidar do desenvolvimento da Obra.

 

 

PERGUNTA: "Falemos então de um dia típico do Padre, em Roma, nos últimos anos".

 

Nos fins dos anos sessenta, o Padre, obedecendo ao que os médicos lhe haviam prescrito, descansava todas as noites entre sete horas e meia e oito: era tão fiel a essa indicação que, apesar de acordar muito antes, não saía da cama enquanto não lho dizia um dos seus "Custodes", o pe. Javier Echevarría; o outro "Custos" era eu. Antes de receber essa indicação médica, tinha o costume de levantar-se logo que acordava, ou logo que tocava o despertador, mesmo que tivesse dormido apenas duas ou três