Alguns aspectos relativos à sexualidade e afetividade na vida presbiteral

Frei Antônio Moser

 

 

Introdução   - A experiência de cada um, bem como os estudos levados a efeito por ocasião dos encontros nacionais de presbíteros nestes últimos 20 anos, oferecem material rico e abundante. Com isto são reforçadas certas convicções, mas, com certeza, também surgem algumas novas interrogações. Este é o  quadro de fundo pressuposto na fala de cada um dos convidados para recolocarem questões há muito presentes e refletidas, na vida da nossa Igreja,  e é também o quadro dentro do qual devo  movimentar–me para trazer à tona aspectos relativos à sexualidade e à afetividade  na vida presbiteral. A fluidez dos conceitos, e muito mais os meandros da vida  na sua concretude, nos convidam  a  fazermos, antes de mais nada, algumas pontualizações. Uma vez projetada alguma luz sobre estas realidades cheias de meio tons e de contornos indefinidos,  poderemos dar um segundo passo, sinalizando alguns aspectos mais sensíveis, que exigem maior atenção. Com isto, num terceiro momento, poderemos sugerir algumas prioridades a serem trabalhadas em vista de um clima mais propício para  a realização dos que se consagram à vida sacerdotal e vista de um ministério evangelicamente mais frutuoso.

 

1.      Delimitando o campo e fazendo algumas pontualizações

 

1.1.            Importa proclamar o evangelho da sexualidade e da afetividade

É interessante observar de início como, por vezes, algumas palavras referentes a realidades em si positivas, em ambientes  de Igreja assumem  uma conotação um tanto negativa. Isto ocorre sobretudo  quando se trata de sexualidade e afetividade. Estas  tendem  a ser conjugados com desvios, abusos  e más condutas, ou ao menos com sinais de imaturidade. Daí a importância de se fazer um primeiro ressalto, de grande valor pedagógico, pastoral  e mesmo teológico: sexualidade e afetividade, se colocam entre os dons mais preciosos que o Criador  confiou aos seres humanos. A rigor não importa, ao menos não  em primeira instância, a condição de vida, conjugal ou celibatária. Iniciar um discurso que projeta um raio de luz com uma tonalidade de boa notícia evangélica, não é  uma espécie de “captatio benevolentiae”, mas a condição para acolher e traduzir, em termos positivos, um pouco do imenso potencial que estas energias comportam. Mais do que carregadas de ameaças, elas são portadoras de ricas promessas para casados e celibatários. Mais do que ocasião de pecado, elas são caminhos privilegiados para a atuação da graça de Deus.

1.2.            Sexualidade e afetividade: condutos privilegiados para o amor

 Com efeito, a sexualidade, com suas múltiplas dimensões, se constitui não apenas numa das mais poderosas energias humanas, como também numa das manifestações mais claras da vocação fundamental e irrenunciável dos seres humanos para o amor. Para lembrar uma expressão cara ao Papa João Paulo II,  “a Revelação nos assegura que Deus é Amor e nos fez por amor e para o amor ( Familiaris Consortio, 11; Mulieris Dignitatem 7 e 18). À luz desta vocação é que entendemos que a sexualidade  se transforma numa espécie de conduto privilegiado, através do qual o amor com sua face humana pode assumir traços sacramentais e divinos. Ademais, para utilizar uma imagem da informática, a sexualidade “ configura” ou     então  “ desfigura”  o ser humano. E como observa o Conselho Pontifício para a Família (1996,16), isto ocorre “não somente no plano físico, como também no psicológico e espiritual”.  A conhecida ambivalência que caracteriza a sexualidade, como caracteriza qualquer outra realidade humana, em nada depõe contra ela: apenas ressalta a necessidade de um trabalho profundo e incessante para integrar uma energia, que, na sua raiz comporta impulsos contraditórios, e por isto mesmo, desnorteantes. Da mesma forma, entender a afetividade como núcleo gerador de emoções e sentimentos que podem oferecer um sabor  todo especial  à vida, mais  do que ser  fonte de eventuais problemas e desvios, é assumir um ponto de partida decisivo para trabalhar, com segurança na perspectiva de bons frutos,  na realização humana em todos os seus aspectos.

1.3. Similaridade e diferenças

Para que estas afirmações possam ser melhor entendidas, convém lembrar que sexualidade e afetividade não se confundem, mas se articulam dialética e continuamente. Enquanto pela primeira somos como que empurrados para fora de nós mesmos, obrigando-nos a nos deparar com o diferente representado por  coisas e pessoas, pela segunda recolhemos as impressões oriundas desta interação. Enquanto a sexualidade lembra mais a alteridade, a afetividade aponta mais para a intimidade. Enquanto a sexualidade é mais ativa,  a afetividade é, ao menos aparentemente, mais passiva. Contudo, a afetividade não é uma espécie de túmulo das emoções. Ela é receptáculo de impressões e emoções vivas, que  aninhadas  no inconsciente, vão fermentando, podendo, em certos momentos, irromper de maneira inesperada e surpreendente. E isto não apenas na juventude, mas em qualquer etapa da vida, inclusive na melhor idade. Ainda que por vezes a afetividade possa lembrar uma música desafinada que ressoa nas profundezas do nosso ser, é pela afetividade que podemos saborear os encantos da amizade, do amor, da espiritualidade e até mesmo da mística. Como bem sugere o termo latino “ affectio”, ser capaz de sentir-se atraído e tocado por alguém ou por alguma coisa, mais do que tentação, é  condição primeira para ser capaz de captar os toques de Deus e vibrar com ele. 

2.  Sinalizando áreas que requerem maior atenção

 A própria complexidade conceptual  e existencial fazem com que estas realidades se transformem em campos propícios para uma série de equívocos e despistamentos, tanto na percepção dos problemas, quanto na condução do trabalho pedagógico e pastoral.

2.1. O choque de fatos escandalosos

O  impacto causado pelas denúncias de pedofilia nas fileiras do clero serve para ilustrar o que estamos querendo sugerir. As poucas palavras pronunciadas pelo Santo Padre no dia 23 de abril do ano passado dizem tudo quanto à realidade: estamos diante de “crimes e pecados” de “ irmãos nossos que atraiçoaram a graça recebida na ordenação, chegando às piores manifestações do mistério do mal que atua no mundo ( Carta aos sacerdotes da Quinta Feira Santa de 2002 e L´Osservatore Romano, n. 18, 4-5, 2002, 3 ). Com isto já fica evidenciado que, apesar de nosso clero brasileiro não haver estado no centro das atenções, Igreja de nenhum lugar do mundo pode proceder como se nada houvesse acontecido ou pudesse vir a acontecer. A pedofilia e  outros desvios  lançam sombras sobre toda a Igreja e interrogações para toda a Igreja. Entretanto, o destaque dado pelos meios de comunicação social, além de desfocar e generalizar fatos relativamente isolados, pode induzir a erros de interpretação. Talvez os problemas mais graves e mais significativos não estejam exatamente naquilo que causa maior impacto e maior escândalo. Pois o que causa impacto escandaloso também costuma causar rejeição espontânea e colocar todos em estado de alerta.   Assim, de alguma forma, estes desvios são mais facilmente detectados e enfrentados.

2.2. O que se esconde, mas pode nos comprometer

Com efeito, há outras posturas e condutas, estas ligadas a pessoas que se sentem afetivamente presas a pessoas do mesmo sexo e que vão se alastrando de maneira crescente na sociedade, e que podem emergir até dentro de seminários, e, consequentemente, podem acabar chegando até ao presbitério. É claro que ao apontarmos para pessoas homossexuais como aquelas que requerem maior atenção, tanto na seleção, quanto no acompanhamento vocacional, não o fazemos com o objetivo de criar fantasmas ou levantar suspeitas generalizadas. Estamos apenas sinalizando a presença de certos movimentos que, embora até o presente não tenham sido tão claramente denunciados pela imprensa, poderão vir à tona a qualquer momento,  e sobretudo já estão causando alguns estragos  na nossa seara. A sinalização vale sobretudo para certas correntes que além de assumirem comportamentos de natureza homossexual, assumem  também uma espécie de militância combativa destinada a defender e a propagar o que julgam ser uma causa nobre. É certo  que nós nos encontramos diante de uma problemática complexa, envolta em penumbra, cheia de meandros e graduações, onde se torna difícil distinguir entre  atuações conscientes e inconscientes, pecados e fraquezas, entre manifestações patológicas, tendências mais ou menos superficiais. Por isto mesmo tanto o diagnóstico quanto os encaminhamentos requerem competência e equilíbrio, para discernir o que se constitui em mera fase ocasional ou até evolutiva, e verdadeiro problema, tanto de um ponto de vista ético quanto psicológico.

Não é que faltem documentos oficiais para orientar tanto no diagnóstico quanto nos encaminhamentos. Mas talvez falte uma ação mais bem articulada para levar os documentos à prática. Ademais justamente nesta área, com alguma freqüência, nos deparamos com uma espécie de jogo duplo, com posturas corretas assumidas oficialmente e outras, inconfessadas, que se manifestam na calada da noite. A aparente  honestidade, e até de um certo rigorismo moralizante em relação à problemática, aliás também notado em casos de pedofilia, faz parte do jogo, para quem não apenas tenta enganar os outros, mas até a si próprio, no mais profundo do seu ser. O jogo duplo manifesta a incapacidade de assumir uma eventual face sombria sua realidade.

2.3. Algumas manifestações mais subtis de problemas sexuais e afetivos

Há ainda uma série de outras manifestações, mais subtis, mas nem por isto menos significativas. São estados de espírito que à primeira vista nada têm a ver com as questões até aqui levantadas, e que no entanto são reveladoras de desequilíbrios mais ou menos preocupantes de um ponto de vista psicológico e quase sempre danosas de um ponto de vista pastoral. Assim como podemos detectar sinais de integração, podemos também detectar sinais de desintegração. Como manifestações típicas de integração temos a alegria, a paz, a serenidade, a generosidade, o desprendimento. Como manifestações de não-integração podemos assinalar a inveja, o desejo desmesurado de mando, o carreirismo, o egoísmo, a rispidez, o mau humor constante, a indiferença, a agressividade, a inflexibilidade, a rigidez, o autoritarismo e o sectarismo. A lista  poderá ser muito mais ampliada. Mas só estes poucos acenos já são suficientes para nos alertar sobre a amplitude e a profundidade dos problemas relacionados com a sexualidade e a afetividade. Como também estes termos apontam para as virtudes que deverão ser cultivadas com maior empenho para que os ministros oficiais do Reino possam ser verdadeiramente testemunhas boa nova do Evangelho.

3.      Sugerindo algumas pistas

 

3.1.            Atenção ao contexto

Depois de havermos acenado para alguns aspectos e sinalizado algumas questões que se localizam nos campos da afetividade e da sexualidade, cabe-nos ainda a tarefa de apresentar algumas sugestões que possam favorecer a busca da maturidade afetivo - sexual, indispensável para a realização humana e para um frutuoso exercício da missão sacerdotal. Se, logo na introdução já sugerimos ser necessário  “ buscar um clima mais propício”, é porque pressupomos que não estejamos podendo contar muito com este clima.  Claro que a rigor  problemas situados nestas áreas não são de hoje. A luta entre luzes e sombras sempre foi um componente da trajetória humana, e portanto também dentro do quadro dos que trilham o sacerdócio. Contudo, por mais que pretendamos acentuar as inegáveis conquistas fundadas numa compreensão mais profunda que as várias ciências nos oferecem, e até mesmo fundadas na superação de contextos repressivos, é difícil de não se perceber que hoje, mais do que nunca, nos defrontamos com desafios que se apresentam com tonalidades novas. Estes desafios provém de uma sociedade erotizada, que rompeu todas as barreiras éticas. E como já notava a Encíclica Splendor Veritatis no seu número 4, o mais preocupante é que não apenas nos encontramos diante de violações das normas morais, mas diante de uma verdadeira contestação global das mesmas; não apenas vivemos num clima de “pornéia”, no sentido bíblico do termo, mas num contexto de anomia. E é claro que tudo isto influi tanto na compreensão, quanto nos comportamentos de nossos seminaristas e de nossos presbíteros. Por mais que se deva reconhecer a vantagem de hoje contarmos com vocações denominadas de adultas, porque assumidas numa faixa etária mais próxima da presumível maturidade, não podemos deixar de perceber a contrapartida: muitos vocacionados trazem igualmente consigo as marcas de experiências afetivas e sexuais anteriores nem sempre enriquecedoras.

Este contexto nos leva a percebermos, logo de saída, a necessidade de retomarmos como  prioritários alguns valores que costumavam fazer parte da lista das virtudes em outros tempos e hoje podem estar um tanto esquecidos, e de qualquer forma devem assumir flexões diferentes: a mística, a ascese e o amor ao estudo.

3.2.            Mística, ascese e estudo: três âncoras para a realização

Todos temos muito presente que a mística é uma força espiritual que está na raiz de todos os grandes movimentos de renovação e mesmo da realização de grandes personalidades. É assim que se explica a força de tantas pessoas e de tantos movimentos que marcaram a história da Igreja. Mesmo se nos localizarmos no campo dos projetos denominados humanos, só vingaram aqueles que foram alimentados por uma grande mística. Esta foi, com certeza uma das marcas das grandes utopias que mobilizaram o século XX. Ainda que se devam reconhecer evidentes exageros em vários delas, não se pode negar que estas utopias deram sentido de vida e força para multidões. Acontece que nos últimos decênios as utopias foram desmoronando, e com elas não apenas vão rareando as grandes personalidades, mas vão igualmente esmorecendo os grandes ideais. É evidente que este clima de marasmo, onde praticamente todas as mediações políticas e sociais foram perdendo força, também repercute sobre nossos vocacionados. E é impossível esperar grandes realizações, mesmo a nível pessoal, de quem não acalenta grandes sonhos.

Ao par desta acomodação generalizada o que vai ganhando força em todos os campos é o bem conhecido lema de como vencer na vida sem fazer força. O empenho continua evidentemente existindo em largos setores da sociedade, mas é mais no sentido de sobrevivência, ou então, para uns poucos privilegiados, no sentido de projetar-se social e políticamente. Aqui novamente é fácil fazer a ilação para quem busca o sacerdócio. As motivações podem até ser legítimas, na linha dos sentimentos, mas desde que não impliquem em grande empenho. A ascese, no sentido mais profundo da palavra, não apenas se tornou uma palavra meio rara, mas sobretudo deixou de ser uma postura corrente.

Ainda na mesma linha  dois pontos acima assinalados, da falta de mística  e de espírito de luta para conseguir um ideal almejado, encontra-se uma certa  falta de motivação para os estudos. Se em tempos não muito remotos até o mais simples pároco de aldeia dominava várias línguas, e ao lado do seu breviários sempre carregava algum livro de leitura, hoje um simples violão e algumas palavras leves parecem suficientes para o exercício do ministério sacerdotal. Parece que tanto em termos de leitura, quanto de pesquisas já tivemos conhecemos tempos mais fecundos, mormente no que diz respeito à teologia. Claro que, sobretudo nas homilias, os efeitos não deixam de ser notados pelos fiéis mais cultos, particularmente pelos que freqüentam cursos de teologia para leigos. Talvez  seja esta a mesma razão pela qual  ministros de outras igrejas e religiões se sintam mais seguros do que nós diante das câmaras de TV, ao menos quando se trata de programas e debates mais consistentes. Também é fácil de se deduzir o que isto tudo representa em termos de auto-estima, quando ao menos um certo número de presbíteros deixa de ser referência naquilo que deveria seu apanágio: vida espiritual e intelectual. 

3.3.            Algumas conclusões

 A história da Igreja sempre conheceu momentos de maior e de menor sintonia entre o ideal evangélico do celibato e um estilo de vida sacerdotal. Poderíamos recordar aqui o antigo ditado de que nada existe de novo de baixo do sol. Contudo, há fatos mais ou menos chocantes, comportamentos mais ou menos observáveis, e sobretudo há sinais de um certo mal estar no campo da realização humana, com incidência nos campos da sexualidade e da afetividade. A premência e a complexidade das questões recomendam um empenho maior no cultivo destas áreas, seja a nível de discernimento vocacional, seja a nível de acompanhamento dos que vão encontrando maiores dificuldades no caminho. Ainda que a simples busca de especialistas para ajudarem nestas tarefas não seja uma espécie de solução mágica, não há dúvida de que a contribuição de pessoas competentes e afinadas com o espírito da Igreja, se torna quase imprescindível. Não que elas substituam outros expedientes comprovados por uma larga experiência que brota, do diálogo profundo com Deus e da direção espiritual de um mestre sábio, no sentido evangélico do termo. Mas, sem dúvida o momento histórico que vivemos exige investimentos mais significativos nesta área, não apenas para fugir de eventuais escândalos, mas sobretudo para podermos contar com pessoas sempre mais entusiasmadas, preparadas e amadurecidas para serem testemunhas qualificadas do Evangelho.