Espiritualidade Sacerdotal
Pe. Valdeir dos Santos Goulart
Presidente da OSIB
Quando solicitado para falar sobre a
espiritualidade sacerdotal, muitas coisas me passaram pela cabeça. Procurei
fazer questionamentos de como anda a espiritualidade dos presbíteros hoje;
conversei com irmãos sacerdotes sobre o assunto e li o que encontrei sobre o
tema. Realmente temos bons textos sobre a espiritualidade sacerdotal.
Inclusive o texto feito para o 6º
Encontro Nacional dos Presbíteros (ENP), tem um capítulo intitulado “Mística e
Espiritualidade do Presbítero” que procura discernir os sinais dos tempos,
trabalhando a modernidade, a pós-modernidade e o presbítero como sacramento e
como pastor. O 8º ENP traz também um capítulo intitulado “Um olhar para
Cristo” com o texto do Bom Pastor, olhando o novo presbítero como homem
“espiritual” e com o coração centrado em Cristo.
Desejo colocar neste momento três
preocupações que considero atuais: a falta de espiritualidade dos presbíteros;
a espiritualidade dos presbíteros de movimentos e finalmente aqueles que
procuram alimentar a sua espiritualidade na exterioridade da ação litúrgica.
Em muito se tem falado da falta de
espiritualidade dos presbíteros, que os padres não rezam, que ficam o tempo
todo na frente do computador ou na frente da televisão, que eles correm o dia
todo atrás das construções e obras da paróquia, que as pregações são altamente
técnicas ou então só falam dos problemas da vida, mas não conseguem ilumina-los
com a Sagrada Escritura. Os números de reclamações vão além destas aqui
citadas, mas estas são suficientes para perguntarmos onde está a falha, na
sociedade, na família ou na formação presbiteral.
Depois de muitas guerras no século
passado, a sociedade passou de uma sociedade onde a religião dava os princípios
norteadores, para uma sociedade descristianizada, dessacralizada e que vive uma
constante crise de fé. A família foi quem mais sofreu com a transformação da
sociedade, pois foi forçada a abandonar, a desfazer de muitos dos seus
princípios. É evidente que toda essa transformação chegou na formação dos
futuros padres, hoje vemos jovens entrar no seminário sem uma experiência
concerta de Deus, correndo o risco de passar o tempo todo da formação, ser
ordenado e não ter feito a experiência Deus. O mundo de hoje pede aos cristãos,
de modo especial aos presbíteros, não uma teoria, nem uma simples atestação da
sua fé, mas uma experiência de vida a ser comunicada e partilhada.
Os passos para a superação da falta de espiritualidade são encontrados no
documento 55 da CNBB: “Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil”
(Diretrizes Básicas), mais precisamente no nº 126: “o processo de crescimento
espiritual só é possível mediante um esforço sincero e permanente de conversão,
que significa disponibilidade aos novos apelos de Deus e empenho em corrigir
falhas e pecados do homem velho”. Este processo encontra seu dinamismo:
·
Na escuta da Palavra de Deus. A Palavra não
pode servir apenas como mero objeto de estudo; para o presbítero que é
discípulo e ouvinte; “fará a leitura meditada e orante da Sagrada Escritura,
que é antes de tudo a escuta humilde e cheia de amor daquele que fala.
Percebendo que é à luz e pela força da Palavra de Deus, que pode ser
descoberta, compreendida, amada e seguida a própria vocação. A familiaridade
com a Palavra de Deus facilita o itinerário de conversão não apenas no sentido
de se separar do mal para aderir ao bem, mas também no sentido de se alimentar
no coração os pensamentos de Deus de modo que a fé, qual resposta à Palavra, se
torne o novo critério de juízo e avaliação dos homens e das coisas, dos
acontecimentos e dos problemas” (PDV 47). O presbítero deve ser o primeiro
crente na Palavra, consciente de que as palavras do seu ministério não são
suas, mas Daquele que o enviou. Desta Palavra ele não é dono, mas servo. Não é
o único possuidor, mas devedor em relação ao Povo de Deus.
·
Na vivência dos sacramentos e de toda a
Liturgia. O presbítero é o principal animador e servidor da celebração
litúrgica, é importante que sua participação seja consciente e ativa na
Liturgia. A celebração da Liturgia das Horas sustenta e vivifica a oração
pessoal e comunitária do presbítero, em união com toda Igreja. Como centro e
cume da vida da Igreja, a celebração da Eucaristia deve levar o presbítero a
reconhecer e vivenciar as diversas dimensões da Eucaristia: sacrifício,
memorial, sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade,
banquete pascal (SC 47). Não podemos deixar de mencionar a busca ao sacramento
da Penitência, que fortifica e renova a busca de conversão a Deus e libertação
do pecado (DBFP 130).
·
No serviço ao Povo de Deus pela caridade
pastoral. A caridade pastoral vivida em sua dupla vertente: amor ao Bom Pastor
e amor às pessoas que ele confia ao nosso ministério. Desempenhando o papel de
Bom Pastor, encontra no próprio exercício da caridade pastoral o vínculo da
perfeição sacerdotal, que levará sua vida e ação a uma unidade. Esta caridade
pastoral por sua vez proflui antes de mais nada do Sacrifício Eucarístico. A
caridade pastoral não se limita ao aspecto subjetivo, pessoal, mas alcança uma
dimensão objetiva, eclesial; apóia-se na comunhão com o bispo e com o
presbitério e assume as decisões da pastoral de conjunto em âmbito nacional,
diocesano e paroquial.
·
Na disponibilidade missionária. O presbítero
deve servir a Igreja, em sua realidade local e em seu horizonte sem fronteiras.
Os presbíteros são chamados a ter um “espírito verdadeiramente católico que os
habitue a olhar para além dos confins da própria diocese, nação ou rito, indo
ao encontro das necessidades da missão universal, prontos a pregar o Evangelho
por todo a parte” (OT 20; RM 67).
·
Na partilha comunitária e comunhão eclesial. A
comunhão do presbitério deverá ser, quanto possível, modelo ou testemunho da
fraternidade que todos os fiéis devem procurar. Esta comunhão não se expressará
apenas na oração, na revisão de vida, na concelebração eucarística, mas também
na convivência fraterna e na comunhão de bens (2º ENP). A Carta Apostólica Novo
Millennio Ineunte no nª 50 vai nos dizer “É hora de uma nova “fantasia da
caridade”, que se manifeste não só nem sobretudo na eficácia dos socorros
prestados, mas na capacidade de pensar e ser solidário com quem sofre, de tal
modo que o gesto de ajuda seja sentido não como esmola humilhante, mas como
partilha fraterna”.
·
Na oração pessoal, espontânea e contemplativa.
É preciso repetir que, para cumprir sua missão, neste novo tempo, o presbítero
precisa ser, mais do que nunca, alguém de profunda e constante oração pessoal,
comunitária, social ecológica, incorporando no seu dia-a-dia e nos seus
relacionamentos o hábito da oração da vida e na vida. De maneira simples e
direta, o presbítero será um “homem de oração”. Sem isso, não passará de um
mero propagandista de doutrina ou de um negociante de coisas sagradas. O
encontro pessoal com Cristo e a prática do ministério do amor pastoral com os
“olhos fixos n`Ele” (Lc 4,20) constituem a identidade profunda do presbítero.
Ora, “só à força de olha-lo, é que se acaba amando a Jesus Cristo; mas só o
olhamos bem de joelhos”. Para Deus se servir de nós, devemos antes nós
presbíteros servir a Deus. Para falar bem de Deus, precisamos antes falar – e
muito – com Ele.
·
Na direção espiritual. Sabemos da
importância de um Diretor Espiritual no seminário, este homem de Deus e ao
mesmo tempo homem sábio que todos nós recordamos como o homem que mais influiu
na nossa vida. Supõe-se que incentivados pelos Exmos Bispos, os padres aceitem
ser acompanhados por um companheiro experiente e amigo e, no dia-a-dia, aceitem
um mínimo de disciplina pessoal e se vejam mais como discípulos de que apenas
como mestres dos outros.
A Espiritualidade dos presbíteros de
movimentos.
É cada vez maior o número de presbíteros
que procuram nos movimentos uma forma de alimentar a sua espiritualidade.
Podemos fazer vários questionamentos sobre tal fenômeno, mas me detenho em
apenas duas perguntas, e que não tenho a pretensão de responde-las: Por que a
espiritualidade que nos transmitiram no seminário não é suficiente para nos
manter em nossa caminhada? Será que é clara, evidente a espiritualidade que
provem do Bom Pastor para os presbíteros? Nada nos opomos a participação de
presbíteros em movimentos de Igreja, pelo contrário, os movimentos podem ajudar
em muito na espiritualidade dos presbíteros como tem ajudado na espiritualidade
do povo de Deus; o que não é admissível, é o presbítero fazer da
espiritualidade de um único movimento a espiritualidade de sua comunidade. O
presbítero não pode ser presbítero para um movimento, mas para a Igreja. O
movimento passa, a Igreja não.
Espiritualidade na exterioridade da ação
litúrgica.
Parece que a espiritualidade anda um
pouco abafada pelo ritualismo puro e simples, que faz do ministro ordenado um
cumpridor de tarefas ou um ator. As celebrações dos Sacramentos ás vezes assume
aspectos puramente sentimentais, folclóricos, show. A figura do ator está em
alta. É importante aparecer como bom cantor, ou pelas vestes pouco litúrgicas e
muito teatrais, cheias de rendas e enfeites contrárias ao espírito do Vaticano
II que pede sobriedade: “cuidem os Ordinários que, promovendo e incentivando a
arte verdadeiramente sacra, visem antes a nobre beleza que a mera suntuosidade.
O que se há de entender também das vestes sacras e dos ornamentos” (SC124).
Aqui eu termino com uma frase do Santo
Padre por ocasião da última visita Ad Limina: “só é possível o crescimento
espiritual mediante um esforço sincero e permanente de conversão”, concluímos
que falta aquele “ardor” que ele (o papa) tanto nos pede, falta aquela alegria,
aquela vontade de santificar-se.