ORAÇÃO: DIFICULDADES E PISTAS DE SOLUÇÃO
Fonte: Pergunte e Responderemos 461 - pp. 444-448
d.
Estevão Bettencourt
Diante de Deus:
Em síntese: A oração, que é a
respiração da alma cristã, encontra entraves, enunciados por um inquérito
realizado entre pessoas consagradas a Deus. Tais seriam a
dilaceração que sofrem as pessoas ocupadas pelo trabalho, o
utilitarismo, a fuga do sacrifício e da renúncia... A tais obstáculos se
propõem pistas de solução: o silêncio interior; a guarda dos sentidos externos,
a leitura espiritual, a prática da caridade, uma vida disciplinada... O artigo
termina apresentando a oração do "pobre João".
* * *
A oração é a grande meta da vida
de todo cristão na terra, pois já nos dá o antegozo da vida do céu ou uma
crescente união com Deus. Mas, precisamente por ser tão preciosa, encontra
vários obstáculos, que suscitam o desânimo de muitas pessoas, mesmo quando
consagradas a Deus. Não seja assim! Reflitamos sobre o problema.
1. Que é a oração?
Podemos com simplicidade definir
a oração como elevação da alma a Deus. É o contato das nossas
mais nobres faculdades com o mais nobre de todos os seres, que é Deus. É portanto algo de muito valioso.
São quatro as finalidades dessa
elevação da mente:
a) Adoração: sim, a primeira
atitude do orante há de ser adorar a Deus como
Soberano Senhor. Isto não requer longo discurso, mas implica que nos prostremos
interiormente diante de Sua Majestade num silêncio reverente. O silêncio é
eloqüente para Deus; significa que a criatura reconhece não poder enquadrar sua
intuição mística no comum da linguagem humana. Daí a renúncia a falar na
presença de Deus.
b) Ação de graças. Eis a segunda
atitude do orante. É um olhar para Deus como Sumo
Bem, que nos concede suas graças,... graças que podem
não corresponder às nossas expectativas, mas certamente são regidas pela
Providência Divina. Agradeçamos o dom do tempo, moratória dada à nossa
conversão, pois esta é a graça básica... Agradeçamos também o
pouco ou muito de saúde que Ele nos dá, os talentos, as cruzes...
c) Expiação: tendo olhado para
Deus em adoração e ação de graças, olhamos para nós, filhos do Pai, peregrinos
que se destinam à Casa do Pai. E verificamos que o pecado nos dificulta a
caminhada. Daí o repúdio do pecado e o pedido de perdão que ele inspira.
Pensamos também no pecado do mundo, com o qual somos solidários nessa atitude
de expiação.
d) Súplica. Já que somos
viandantes que tendem à meta final, pedimos ao Pai o viático
ou o pão da caminhada, isto é, todas as graças de que necessitamos para chegar
certeiramente à consumação. - A oração de súplica é a que mais espontaneamente
brota do coração humano, mas não deve ser a primeira; é função do nosso olhar
de complacência e amor para Deus.
Assim concebida, a oração
encontra dificuldades. Examinemo-Ias
2. As Dificuldades
Um inquérito realizado na França
sobre os obstáculos à vida de oração registrou seis principais dificuldades:
a) As distrações. Este é o
obstáculo clássico, que já Santa Teresa de Ávila[1]
denunciava. Incute o desânimo a muitos que desejam orar. Todavia é de notar que
as distrações só impedem a oração quando aceitas ou quando há consentimento.
Pode alguém passar quinze minutos tentando rezar e, para tanto, tentando
combater as distrações...; embora se sinta frustrado,
esteja certo de haver rezado, pois terá feito um continuo ato de fé, muito
significativo aos olhos do Senhor. Vale aqui aplicar o princípio de São
Bernardo: "Procurar a perfeição já é perfeição"; donde "procurar
rezar já é rezar". Importa não capitular, mas perseverar na busca de Deus.
b) Vida
trepidante, que não favorece o recolhimento. Muitos são dilacerados por
diversas ocupações, que provocam nervosismo e dispersão da mente. - Daí resulta
a necessidade de distensão, que raramente é procurada no silêncio e
recolhimento; procura-se, antes outro tipo de distração, a tal ponto que vários
católicos dizem não ter disposição nem mesmo para participar da S. Missa no
domingo, "tão cansados estão...''!
c) A educação moderna...
Menospreza a disciplina, o esforço pessoal. A filosofia discretamente freudiana
que inspira muitos educadores é contrária à repressão dos impulsos instintivos,
repressão que poderia ocasionar neuroses. Ora quem aceita tais premissas,
facilmente se entregará a certo comodismo ou mesmo ao hedonismo, fugindo da
mortificação ou da ascese... Sem ascese, porém, não há mística ou não há vida
de oração. A autêntica educação não pode deixar de recomendar enfaticamente o
autocontrole, que vem a ser uma forma de penitência, indispensável à formação
da personalidade e à dimensão do cristão.
d) Humanismo
horizontal, que dá certa preeminência aos valores humanos ou à
realização de potencialidades meramente naturais. O Transcendental é deixado na
penumbra, pois implica ultrapassar-se a si mesmo. Assim se extingue a vida de
oração.
e) Pragmatismo, utilitarismo...
Dão a impressão de que o trabalho vale mais do que a oração; esta seria uma
perda de tempo. Compreende-se que a criatividade empolgue a pessoa que
trabalha, levando-a a valorizar mais o visível do que o Invisível.
Principalmente o sucesso obceca e faz perder o gosto da oração. - Pode-se dizer
que, em tais casos falta o senso de Deus; a fé está enfraquecida e lânguida.
f) Intelectualismo... Há pessoas
que se acostumam a tratar com idéias mais do que com Alguém. Funcionam muito
com o intelecto e pouco ou insuficientemente com o coração. Para tais pessoas,
Deus não pode aparecer como o grande Tu ou o grande Interlocutor.
Feito este balanço do problema,
perguntamos:
3. Que fazer? Há pistas de
solução?
A luta do cristão em prol da sua
vida de oração encontra valiosos recursos nos seis seguintes itens:
a) Pedir o dom da oração. Existe
graciosa parábola em Lc 11,11-13, em que Jesus nos
diz: se o pai da terra não nega ao filho a sua merenda (pão, peixe, ovo), muito
menos o Pai do céu negará o Espírito Santo àqueles que lho pedem. O primeiro
objeto de nossas súplicas deve ser o dom da oração, o dom de saber e poder
orar... Em tudo o primado é de Deus ou da graça; portanto também na vida de
oração o primado é da graça de Deus, graça que podemos obter mediante a própria
oração. "Senhor, ensina-nos a orar!", pediam os Apóstolos ao Senhor
ao verem-no voltar do seu habitual colóquio com o Pai. Repitamos freqüentemente
a jaculatória: "Senhor, ensina-nos a orar!"
b) Docilidade ao Espírito Santo.
É Ele o Mestre interior, que geme em nós com gemidos
inenarráveis (cf. Rm 8, 26). Requer-se
generosidade para corresponder aos impulsos do Espírito, que nos querem levar a
maior perfeição. São Paulo recomenda: "Não entristeçais o Espírito Santo
de Deus" (Ef 4, 30). Com outras palavras ainda:
é preciso fugir de todo pecado (leve que seja), e de toda imperfeição
voluntária, criando assim afinidade ou conaturalidade
com Deus. Pode-se crer que cada um reza como vive. Se se
fecha a Deus na sua conduta de vida, não poderá encontrar facilidade para se
encontrar com Ele na oração.
c) Disciplina de vida e ascese.
Pouco se fala de ascese, em nome de uma visão humanista ou naturalista da
pessoa humana. Ora é mister lembrar que em todos nós existe o velho homem com
suas concupiscências (cf. Ef 4, 22-24), que é entrave
à formação da nova criatura em cada cristão. A mortificação começa pelas coisas
mais simples, como são a guarda dos sentidos (olhos, ouvidos, imaginação,
memória) e o cultivo da taciturnidade tanto exterior como interior. Este é um
ponto pouco enfatizado: o silêncio ou o recolhimento interior, que evita
devaneios inúteis.
d) Amor ao próximo... A dedicação
aos irmãos é muito importante, pois, como diz São João, como pode amar a Deus,
que ele não vê aquele que não ama o próximo, que ele vê? (cf. 1Jo 4, 20). É
muitas vezes nas pequenas encruzilhadas de cada dia que se vai fortalecendo o
amor ao semelhante, penhor de mais íntima familiaridade com Deus.
e) Leitura. O contato com a
Palavra de Deus enriquece a mente e habilita-a a um colóquio mais saboroso com
Deus. Daí a recomendação de bons livros, como são os do Novo Testamento (aos
quais se seguirão os do Antigo Testamento), as obras dos Padres da Igreja
(traduzidas para o português pela Paulus Editora) e o
Catecismo da Igreja Católica (particularmente o Livro IV). Ninguém ama o que
não conhece, e tanto mais amará o que melhor conhece.
f) Recomenda-se um método de
oração para coibir a dispersão e as distrações. O método monástico por
excelência é a Lectio Divina, explanada por valiosas
publicações existentes nas livrarias católicas. - Quem não consegue
concentrar-se para orar, recorra a um livro, como diz Santa Teresa ter feito
durante muito tempo.
É oportuno também que o orante católico se acostume a rezar a Liturgia das Horas,
ao menos em parte. Isto requer o estudo do Ofício Divino, dos Salmos..., mas pode ser efetuado com proveito mesmo por quem só tenha
em seu favor o grande desejo de se encontrar com Deus; Ele não deixa de
responder a toda santa aspiração de seus fiéis.
À guisa de conclusão, seja citado
o Catecismo da Igreja Católica numa de suas belas passagens sobre a oração:
"'Se conhecesses o dom de
Deus' (Jo 4, 10). A maravilha da oração se revela
justamente ai; à beira dos poços aonde vamos procurar nossa água; é aí que
Cristo vem ao encontro de todo ser humano, é o primeiro a nos procurar e é Ele
que pede de beber. Jesus tem sede, seu pedido vem das profundezas de Deus que
nos deseja. A oração, quer saibamos ou não, é o
encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede
dele" (nº 2560).
Como Apêndice ilustrativo, seja
transcrita a seguinte poesia de autor desconhecido:
O POBRE JOÃO
João, acabrunhado por
aborrecimentos e carregado de miséria,
Jamais se queixava, mas, com
semblante humilde e suave,
Ia à igreja e, como única oração,
Repetia: "Senhor, eis aqui
João diante de Vós!"
O Senhor parecia nem o ver nem o
ouvir,
De modo que a carga de sua vida
se tornava cada vez mais pesada.
João, porém, cada vez que um novo
golpe o surpreendia,
Fazia-se menor, já que Deus
parecia mais surdo.
João morreu e, ao subir para a
cidade celestial,
No limiar do paraíso pôs-se de
joelhos
E, com a mesma voz confiante e
modesta,
Repetia: "Senhor, eis aqui
João diante de Vós!"...
Dessa vez, porém, viu abrir-se a
augusta porta
E os anjos virem ao seu encontro.
Aos pés do Eterno levaram o justo
E Deus lhe disse: "Diante de
João eis-me aqui para sempre!"
Esta poesia nos diz que mesmo a
oração sem palavras, na impossibilidade de um discurso, é válida. A fé de quem
fica em silêncio fala eloqüentemente a Deus, a tal ponto que os antigos diziam:
"Tibi silentium laus, Para Ti o silêncio é louvor". A perseverança
tenaz de quem tem sede de Deus, será um dia recompensada.
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Nota:
[1] "Muitas vezes Deus
permite que securas e maus pensamentos nos persigam e aflijam, sem que os
possamos lançar para longe de nós. Permite mesmo, algumas vezes, sermos
mordidos, para que aprendamos a nos guardar melhor no futuro e para provarmos
que deveras nos pesa ter ofendido a Deus. / Não desanimeis, portanto, quando
vos acontecer cair. Nem deixeis de querer ir adiante. Dessa mesma queda tirará
Deus vosso bem... Ainda que não houvesse outro meio de enxergarmos a nossa
miséria, o combate renhido, que forçosamente travamos para de novo nos
recolhermos bastaria para reconhecermos o grande mal que nos faz o costume de andar dissipadas" (Castelo Interior ou
Moradas 1, 8s).