OS PRESBÍTEROS DO FUTURO - E O FUTURO DOS
PRESBÍTEROS
Pe. Paulo Crozera
Arquidiocese de Campinas
“E nós sabemos que Deus coopera em tudo
para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu
desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a
serem conformes à imagem do seu Filho” (Rm 8,28-29).
Prever o futuro não é tarefa
fácil, particularmente neste nosso tempo. Tudo muda muito rapidamente e de
forma imprevisível. Temos presenciado muitíssimas alterações no estilo de vida
e prevemos mudanças iminentes nos contextos eclesiais, nacional e Universal2. A
identidade presbiteral está mudando, a própria Igreja está mudando3.
Pretendo apelar aqui para a categoria
utilizada pelo Pe. Libânio, quando ele trabalha os “cenários” da Igreja4. Neste
sentido, as condições do futuro já se encontram delineadas no presente pelas
forças dominantes que detectamos. Portanto, com o diagnóstico efetuado pela
pesquisa sobre o padre feliz5, acrescido do conhecimento da realidade dos
presbíteros, que temos acompanhado em inúmeros encontros, reuniões de estudo,
cursos, retiros..., é que pretendo fazer uma espécie de prognóstico.
Antes de mais nada, devemos olhar
para o futuro sem medo e com liberdade, no desejo de acolher o novo que se nos
apresenta como uma fonte que deve ser orientada para o leito sadio da grande
tradição da Igreja. Como disse o Papa João Paulo II na Exortação Apostólica
Pós-Sinodal “Pastores dabo vobis”: “Certamente, há uma fisionomia essencial do
sacerdote que não muda: o padre de amanhã, não menos que o de hoje, deverá
assemelhar-se a Cristo. Quando vivia na Terra, Jesus ofereceu em si mesmo o
rosto definitivo do presbítero, realizando um sacerdócio ministerial do qual os
apóstolos foram os primeiros a ser investidos: aquele é destinado a perdurar, a
reproduzir-se incessantemente em todos os períodos da História. O presbítero do
terceiro milênio será, neste sentido, o continuador dos padres que, nos
precedentes milênios, animaram a vida da Igreja. [...] Mas é igualmente certo
que a vida e o ministério do sacerdote devem se adaptar a cada época e a cada
ambiente de vida. De nossa parte, devemos, por isso, procurar abrir-nos, o mais
possível, à superior iluminação do Espírito Santo, para descobrir as
orientações da sociedade contemporânea, reconhecer as necessidades espirituais
mais profundas, determinar as tarefas concretas mais importantes, os métodos
pastorais a adotar, e, assim, responder de modo adequado às expectativas
humanas”6.
Pe. Edênio, na leitura psicossocial da
pesquisa, lança um grande desafio: “Estabelecer uma prática evangélica que
respeite as aspirações e necessidades legítimas dos presbíteros, sem fazer
concessões quanto ao que é irrenunciável no testemunho que eles, por sua função
na Igreja, precisam dar ao mundo”. Em contrapartida, temos as demandas do
próprio povo de Deus que sente a necessidade deste ministério cada vez mais
escasso em seu meio. Cada vez mais os presbíteros são em número insuficiente,
não acompanham o crescimento populacional e as “necessidades” religiosas se
diversificam.
A Igreja deve, com urgência, tratar do ministério dos presbíteros no
conjunto das questões que implicam o Bispo, o presbitério e o inteiro povo de
Deus, na variedade dos seus carismas, vocações e ministérios, tendo como base
de toda a sua reflexão a fidelidade criativa a Jesus e à missão que Ele nos
confiou.
O próprio Pe. Edênio, na introdução à
pesquisa, apresenta três aspectos que nos permitem delinear um “cenário” que se
constrói das aspirações presentes na vida dos presbíteros.
O primeiro aspecto é a preocupação com a
subjetividade e a realização pessoal, sem deixar de alinhavar estas aspirações
com os valores e exigências de uma vocação específica a serviço de Deus e de
seu povo: a renúncia, o altruísmo, a espiritualidade, a consciência ética, a
fraternidade, a co-responsabilidade, a colegialidade, a pertença e adesão à
Igreja, a motivação e o apreço ao trabalho pastoral. Os presbíteros do futuro
demandam uma atenção especial à qualidade de vida e ao grau elevado de
realização no ministério.
O segundo aspecto demarca alguns campos
que se tornaram um entrave à realização pessoal: a realização afetivo-sexual, a
espiritualidade e a colaboração e convivência no presbitério (incluindo a
pessoa do Bispo). Aqui o cenário se revela mais pelos seus bastidores, pelas
ausências e aspirações presentes na vida dos nossos presbíteros. Não pode
faltar uma atenção especial, com relação ao futuro, a estes três importantes
campos. Eles são nevrálgicos para a realização dos futuros presbíteros.
O terceiro aspecto identificado pela
pesquisa é traduzido pela afirmação do VIII Encontro Nacional de Presbíteros:
“como se poderia pensar, no futuro, uma solução mais adequada – humana e
teologicamente – da relação entre a realização pessoal do presbítero e seu
ministério?”7.
Aqui se definem três aspectos de um
cenário que se impõe a nós e que exige muita atenção e sensibilidade.
Um outro aspecto revelador da mesma pesquisa poderá trazer sérias
conseqüências para o futuro: aquilo que se define como a “adultescência”. Esta
situação imporá condições para se elevar o limite mínimo da idade para a
ordenação sacerdotal.
Não podemos nos esquecer, também, dos
questionamentos que a sociedade faz à pessoa e ao ministério dos presbíteros.
Aqui estamos num campo vasto e muito complexo. Os presbíteros do futuro não
podem deixar de se questionar diante da problemática levantada pela
modernidade. Ela atinge a própria identidade dos presbíteros, pois esta já não
se “forma” pela influência das “Instituições”, mas tem sido construída mais em
base às práticas que deixam de lado imagens e definições institucionais. Na
construção prática da identidade, a subjetividade (1º aspecto) faz um “entrecruzamento”
de interpretações face aos desafios da realidade. Os presbíteros do futuro
terão que ter uma maior capacidade ao diálogo e saber equacionar os desafios
com as exigências de uma opção livre e madura.
Um empecilho para o surgimento do novo
está na dificuldade de superar alguns modelos que foram sendo criados pela
influência de muitos meios e que dão respostas pouco eclesiais ou evasivas aos
problemas de nossa época. Eles foram bem caracterizados pelo Pe. Antoniazzi na
palestra que conferiu em recente Assembléia da OSIB8. Somente acrescentaria
àquele elenco – padres-pastores, midiáticos-carismáticos, tradicionais,
profissionais – a figura dos presbíteros ordenados para os Movimentos. Estes
modelos revelam uma busca meio que desesperada para enfrentar o abalo provocado
pela modernidade, mas eles têm apresentado sérios riscos de perda do sentido
eclesial do ministério ordenado. Apresentam, na prática, uma fundamentação
teológica muito superficial e sujeita a sérios questionamentos do ponto de
vista teológico-pastoral.
Além disso, faz-se necessário recolocar
no centro da vida presbiteral e de todo o presbitério a “alma pastoral” que
parece ter se enfraquecido nestes últimos anos. Quem de nós não reconhece a
urgência de se provocar um reencantamento com a missão? Nota-se uma certa
desmotivação generalizada. É preciso criar um novo “élan” ou um “novo ardor” no
coração de nossos presbíteros e de toda a Igreja.
É de se perguntar: na prática eclesial
não existiriam outros elementos que apontariam para o futuro do ministério
presbiteral? Quem, hoje, nas práticas eclesiais, inaugura o amanhã do
ministério presbiteral? Que futuro podemos vislumbrar para os presbíteros? É
possível pensar nos presbíteros do futuro sem pensar em formas diferentes de
estruturação da comunidade cristã? Os presbíteros de movimentos, midiáticos não
caem do céu e nem vêm do inferno. Estão numa sociedade concreta da qual, até
certo ponto, são fruto. Eles não estariam nos propondo um questionamento mais
radical sobre as formas de presença e atuação da Igreja no mundo e, assim,
formas diferentes de estruturação da comunidade cristã? Sob esse aspecto, esse
“tipo” de presbítero não é o problema, mas sintoma. Eles estão se tornando um
modelo eclesial para os leigos e para os seminaristas.
A modo de indicações:
a) Os
futuros presbíteros deverão viver um ministério voltado para a Igreja local,
presidida pelo Bispo, e a partir da compreensão da Igreja no seu conjunto,
valorizando a co-responsabilidade de todos. Um ministério visto no interior e a
serviço da Igreja em missão, valorizando a diversidade dos ministérios
(diaconal e laicais) e a emergência dos cristãos leigos e leigas também nos
encargos eclesiais;
b) Espera-se
um ministério mais sinodal, tendo como referência a inteira comunidade
eclesial. Um ministério vivido em correlação com os Conselhos e as Assembléias
(estruturas participativas que promovem verdadeira comunhão eclesial). Os
presbíteros serão chamados a viver uma modalidade comunitária no exercício de
seu ministério;
c) Um
ministério que será chamado a ser o animador da comunidade, associado a um
grupo de colaboradores que, com ele, coordenarão a pastoral. Presbíteros,
portanto, que sabem condividir a responsabilidade pastoral com o apoio de um
grupo qualificado de animação pastoral. O presbítero presidirá a comunhão dos
irmãos e irmãs abandonando uma prática monopolizante do ministério;
d) Necessitaremos
de presbíteros com uma formação tal que os possibilite compreender a sua
identidade e missão a partir do enfoque teológico da adesão a Cristo, ao povo
de Deus e ao Bispo e seu presbitério. Igualmente o capacite para se situar em
meio aos desafios do mundo. A complexidade da vida moderna atinge diretamente
as formas de religiosidade e o presbítero se encontra despreparado para
responder de modo adequado;
e) Há
que se forjar um presbitério com profunda sensibilidade às situações onde o
clamor dos pobres soa mais intensivamente e onde os presbíteros assumam, com a
caridade de Cristo, a dor dos sofrimentos humanos como se fosse a sua própria
dor9;
f)
Um ministério presbiteral arraigado numa
espiritualidade ancorada na caridade pastoral. Um verdadeiro místico capaz de
conduzir as pessoas e as comunidades ao aprofundamento da experiência de Deus.
Um homem que expresse a própria vivência da sua fé e transmita um testemunho
pessoal;
g) Um
presbítero mais amadurecido em idade para dar conta de ser um homem de relação
para organizar o diálogo, estabelecer relacionamentos e realizar uma
comunicação adequada aos novos tempos;
h) Não
podemos deixar de lado a insegurança dos presbíteros com relação ao futuro. Há
muitas inseguranças no campo da afetividade, da saúde, da aposentadoria, etc. O
problema precisa ser enfrentado em seus vários níveis.
Talvez tenhamos que ter presente a recomendação do profeta Jeremias (Jer 18,
1-10) de descer à casa do oleiro e aprender dele o jeito de Deus trabalhar na
história o seu projeto a respeito de cada um de nós e da pessoa do presbítero.
Qual é o vaso que Deus quer fazer hoje e no futuro da pessoa e do ministério
dos presbíteros que provocaria reconhecimento e cumprimento de Seu desígnio?
Tudo deverá começar pela formação inicial
dos futuros presbíteros e atingir a formação permanente dos atuais.
1
Sobre este assunto cf. a reflexão de A. BORRAS, “I preti fra sacramento e
pratica”, in Il Regno-documenti, 3/2002, p. 120-128.
2 No contexto nacional temos um grande número de Bispos que já
atingiram ou estão para atingir a idade dos 75 anos (Segundo o Diretório
Litúrgico de 2003, no total de 428 Bispos, temos 187 na faixa de 70 anos –
43,69% e 130 na faixa dos 75 anos ou mais – 30%). No contexto da Igreja
Universal a idade do Papa e seu estado de saúde determinam, de forma natural,
uma mudança inevitável.
3 Cf.
L. BRESSAN, “Preti di quale chiesa, preti per quale chiesa. Mutamenti di
funzione, mutamenti di identità nella figura presbiterale odierna”, in Scuola
Cattolica 130 (2002), p. 507-538.
4 Cf. J. B. LIBÂNIO, Cenários de Igreja, S. Paulo, Ed. Loyola, 1999, p.
12-13.
5 Cf. CNBB/ CNP, sob a organização de Pe. Edênio VALLE, SVD, Padre, você é
feliz? Uma sondagem psicossocial sobre a realização pessoal dos presbíteros do
Brasil, Brasília, 2003.
6 PdV, 5.
7 Comissão Nacional de Presbíteros, Presbíteros do Brasil construindo
história, S. Paulo, Ed. Paulus, 2001, p. 429.
8 Cf. A. ANTONIAZZI, “A história da OSIB e os desafios atuais da formação”,
palestra proferida na 13ª Assembléia da OSIB, Belo Horizonte, 28 de janeiro de
2003.
9 Cf. GS,1.