O SACERDOTE, PERITO NA VIDA ESPIRITUAL *
Bento XVI
(Revista Celebração Litúrgica)
«Antes de mais, dou graças ao meu
Deus por todos vós, por meio de Jesus Cristo... É que eu anseio por vos ver,
para vos comunicar algum dom espiritual e assim vos fortalecer, ou antes, para,
estando convosco, ser reconfortado pela fé que nos é comum, a vós e a mim» (Rom
1, 8-12)
Com estas palavras do Apóstolo
Paulo dirijo-me a vós, queridos sacerdotes, pois nelas encontro perfeitamente
reflectidos os meus sentimentos e pensamentos, os desejos e as orações. Saúdo
em especial o Cardeal Józef Glemp, Arcebispo de Varsóvia e Primaz da Polónia, a
quem apresento as minhas mais cordiais felicitações pelo 50.º aniversário da
Ordenação sacerdotal, que ocorre precisamente hoje. Cheguei à Polónia, à
dilecta Pátria do meu grande Predecessor João Paulo II, para haurir – como ele
mesmo costumava dizer – deste clima de fé no qual viveis e para «vos comunicar
algum dom espiritual e assim vos fortalecer». Estou certo de que a minha
peregrinação nestes dias «reconfortará a fé que nos é comum, a vós e a mim».
Hoje encontro-me convosco na
arquicatedral de Varsóvia, que em cada pedra recorda a história dolorosa da
vossa capital e do vosso país. A que provações fostes expostos em tempos não
distantes! Lembremo-nos dos heróicos testemunhos da fé, que ofereceram a sua
vida a Deus e aos homens, santos canonizados mas também homens correntes, que
perseveraram na rectidão, na autenticidade e na bondade, sem nunca cederem ao
desânimo. Nesta catedral recordo particularmente o Servo de Deus Card. Stefan
Wyszynski, por vós chamado «o Primaz do Milénio» que, abandonando-se a Cristo e
à sua Mãe, soube servir fielmente a Igreja mesmo no meio de provações dolorosas
e prolongadas. Recordamos com reconhecimento e gratidão os que não se deixaram
subjugar pelas forças das trevas, deles aprendemos a coragem da coerência e da
constância na adesão ao Evangelho de Cristo.
O sacerdote, servidor de Cristo
Hoje encontro-me convosco,
sacerdotes chamados por Cristo para O servirem no novo milénio. Fostes
escolhidos entre o povo, constituídos nas coisas que dizem respeito a Deus,
para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Acreditai no poder do vosso
sacerdócio! Em virtude do sacramento, recebestes tudo o que sois. Quando
pronunciais as palavras «eu» ou «meu» («Eu te absolvo... Este é o meu
Corpo...»), fazei-lo não em vosso nome mas em nome de Cristo, «in persona
Christi», que quer servir-se dos vossos lábios e das vossas mãos, do vosso
espírito de sacrifício e do vosso talento. No momento da vossa Ordenação,
mediante o sinal litúrgico da imposição das mãos, Cristo tomou-vos sob a sua
especial protecção; vós estais escondidos sob as suas mãos e no seu Coração.
Mergulhai no seu amor e dai-lhe o vosso amor! Quando as vossas mãos foram
ungidas com o óleo, sinal do Espírito Santo, elas foram destinadas a servir o
Senhor como mãos suas no mundo de hoje. Elas já não podem servir o egoísmo, mas
devem transmitir ao mundo o testemunho do seu amor.
A adoração eucarística
A grandeza do sacerdócio de
Cristo pode incutir temor. Podemos ser tentados a exclamar com Pedro:
«Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador» (Lc 5, 8), pois
sentimos dificuldade em acreditar que Cristo nos tenha chamado precisamente a
nós. Não poderia ter escolhido alguém mais capaz, mais santo? Jesus, contudo,
olhou com amor justamente para cada um de nós, e devemos confiar neste seu
olhar. Não nos deixemos levar pela pressa, como se o tempo dedicado a Cristo em
silenciosa oração fosse tempo perdido. Pelo contrário, é precisamente aí que se
escondem os frutos mais maravilhosos do serviço pastoral. Não se deve
desencorajar pelo facto de que a oração exige um esforço, nem pela impressão de
que Jesus se cala. Ele cala, mas actua. Apraz-me recordar, a este propósito, a
experiência vivida em Colónia no ano passado. Lá fui testemunha de um profundo,
inesquecível silêncio de um milhão de jovens, no momento da adoração do
Santíssimo Sacramento! Aquele silêncio orante uniu-nos, deu-nos uma grande
consolação. Num mundo em que há tanto ruído, tanta perturbação, temos
necessidade da adoração silenciosa de Jesus escondido na Eucaristia. Sede
assíduos na oração de adoração e ensinai-a aos fiéis. Nela encontrarão conforto
e luz, sobretudo as pessoas que sofrem.
O sacerdote, perito na vida
espiritual
Dos sacerdotes, os fiéis esperam
somente uma coisa: que sejam especialistas em promoverem o encontro do homem
com Deus. Ao sacerdote não se pede para ser perito em economia, em construção
civil ou
Igreja santa e com membros
pecadores
O Papa João Paulo II, por ocasião
do Grande Jubileu, exortou várias vezes os cristãos a fazerem penitencia das
infidelidades passadas. Cremos que a Igreja é santa, mas nela há homens
pecadores. É preciso afastar o desejo de se identificar somente com aqueles que
não têm pecado. Como poderia a Igreja excluir das suas fileiras os pecadores?
Foi para sua salvação que Jesus encarnou, morreu e ressuscitou. Portanto, é necessário
aprender a viver com sinceridade a penitencia crista. Ao praticá-la,
confessamos os nossos pecados individuais em união com os outros, diante deles
e de Deus. Contudo, convém evitar a pretensão de apresentar-se com arrogância
como juízes das gerações precedentes, que viveram noutros tempos e em
diferentes circunstâncias. É precisa uma sinceridade humilde para não negar os
pecados do passado, e ao mesmo tempo não cair em fáceis acusações em ausência
de provas reais ou ignorando as diferentes pré-compreensões de outros tempos.
Além disso, a confessio peccati, para usar uma expressão de Santo Agostinho,
deve ser sempre acompanhada da confessio laudis, da confissão do louvor. Ao
pedir perdão pelo mal cometido no passado, devemos recordar também o bem realizado
com a ajuda da graça divina que, embora depositada em vasos de argila, produziu
com frequência frutos excelentes.
Assistência aos emigrados
Hoje a Igreja na Polónia
encontra-se diante de um grande desafio pastoral: cuidar dos fiéis que deixaram
o País. A praga do desemprego obriga numerosas pessoas a partirem para o
estrangeiro. É um fenómeno difundido em vasta escala. Quando as famílias ficam
deste modo divididas, quando se quebram os laços sociais, a Igreja não pode
permanecer indiferente. É necessário que as pessoas que partem sejam
acompanhadas por sacerdotes que, unindo-se com as Igrejas locais, assumam a
obra pastoral no meio dos emigrantes. A Igreja que está na Polónia já deu
numerosos sacerdotes e religiosas, que desempenham o seu serviço não só em
favor dos Polacos fora dos confins do país, mas também, e às vezes em condições
dificílimas, nas missões da África, da Ásia, da América Latina e noutras
regiões. Não vos esqueçais, queridos sacerdotes, destes missionários. O dom de
numerosas vocações, com as quais Deus abençoou a vossa Igreja, deve ser
acolhido em perspectiva verdadeiramente católica. Sacerdotes polacos, não
tenhais medo de deixar o vosso mundo seguro e conhecido para servir onde faltam
os sacerdotes e onde a vossa generosidade pode produzir abundantes frutos.
Permanecei firmes na fé! Também a
vós confio este lema da minha peregrinação. Sede autênticos na vossa vida e no
vosso ministério. Olhando para Cristo, vivei uma vida modesta, solidária com os
fiéis aos quais sois enviados. Servi a todos; sede acessíveis nas paróquias e
nos confessionários, acompanhai os novos movimentos e as associações, ajudai as
famílias, não descuideis o relacionamento com os jovens, recordai-vos dos
pobres e dos abandonados. Se viverdes de fé, o Espírito Santo sugerir-vos-á o
que devereis dizer e como devereis servir. Podereis sempre contar com a ajuda
d'Aquele que precede a Igreja na fé. Exorto-vos a invocá-lo sempre com as
palavras a vós bem conhecidas: «Estamos próximos de Ti, recordamos-te,
vigiamos».
A todos a minha Bênção!
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* Discurso no encontro com
sacerdotes e religiosos, na Catedral de Varsóvia, durante a Viagem Apostólica à
Polónia (25-V-06). V. Secção “Documentação”.
Título e subtítulos da Redacção da CL.