PRESBÍTERO: SACRAMENTO DE CRISTO
PASTOR DA IGREJA
Meditação no Auditório
Rainha dos Apóstolos
Pe. Edson Tasquetto
Damian
Bondoso Pai, pelo teu amado Filho Jesus, dá-nos o Espírito
Santo, para guardar no coração e gritar com a vida o evangelho do Bom Pastor (Jo 10,11-16).
A imagem do pastor, sem dúvida alguma, é a mais adequada
para entender a vida e o ministério do presbítero e chegar ao núcleo
identificador da pessoa do presbítero. A proposta, lançada pelo Vaticano II,
foi-se clareando e solidificando no decurso dos últimos anos. A “Pastores dabo Vobis”, finalmente, apresenta uma elaboração amadurecida e
acompanhada de sólida fundamentação bíblico-teológica da nova configuração do
presbítero. O título e as palavras iniciais extraídas do profeta Jeremias indicam a centralidade da imagem do pastor:
“Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15). Embora ainda empregue
muitas vezes a terminologia sacerdotal, que o Concílio não conseguiu superar, a
imagem que se impõe e perpassa todo documento é a do pastor. Trata-se de um
símbolo inspirador mais sugestivo que as descrições anteriores.
A identidade específica do presbítero encontra-se,
portanto, condensada e expressa na caridade pastoral. “Os presbíteros são
chamados a prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, atualizando o
seu estilo de vida e tornando-se como que a sua transparência no meio do
rebanho a eles confiado” (PDV 15). Esta tônica perpassa toda a “Pastores dabo Vobis” e se traduz com uma
imagem viva e real na conclusão: “Vós, caríssimos presbíteros, fazeis isto
porque o próprio Senhor, com a força do seu Espírito, vos chamou para levar,
nos vasos de barro de vossa vida simples o tesouro inestimável de seu amor de
bom Pastor” (PDV 82).
Ser epifania, transparência,
ícone e sacramento do Cristo Pastor constitui o cerne da identidade e
espiritualidade presbiteral (cf. PDV 15, 21, 25, 49,
72). É este o tesouro que carregamos em vasos de barro. Por isso nunca é demais
alertar que o representante não ocupa o lugar do representado, na ausência
visível dele. Cristo é quem se faz presente na pessoa e no ministério do
presbítero. Quem dele se aproxima deve encontrar o rosto, o coração, as
atitudes, e os gestos do Bom Pastor.
Segue uma síntese da riqueza que a PDV (21 – 23) apresenta
sobre a identidade do presbítero sob o prisma da caridade pastoral:
1. Referência primeira: Jesus Bom Pastor
A identidade do presbítero fica assinalada e plasmada por
aquelas atitudes e comportamentos que são próprios de Cristo, Pastor e Servo da
Igreja e se expressam através da caridade pastoral. A imagem do Pastor perpassa
toda a Bíblia e traduz elementos da experiência de Deus feita pelo povo de
Israel. Pastor é autoridade e solicitude, firmeza e carinho, ternura e vigor. Javé é aquele que caminha à frente do seu povo, guia,
conduz, providencia alimentos, vigia, defende, liberta do perigo, faz aliança.
A alegoria do pastor chega ao ponto mais alto em Ezequiel
34 e no Salmo 23. Jesus se insere nesta tradição, mas nos reserva uma surpresa.
Ele próprio se proclamou “o Bom Pastor” (ho poimên ho kalós:
o “belo Pastor” Jo 10,11), não só de Israel, mas de
todos os povos (Jo 10,16). Pedro declara Cristo o
“Pastor e supervisor (épíscopon)” de nossas almas
(1Pd 2,25). Mais: ele é o “Pastor Supremo” (archipóimenos)
de todos os presbíteros pastores (1 Pd 5,4). A carta aos hebreus chama Cristo de “o Grande
Pastor das ovelhas” ( Hb
13,20).
Os textos do NT explicitam com clareza que, assim como só
há um Senhor e uma Cabeça, na Igreja só há um Pastor: Cristo. Os presbíteros
são escolhidos para tomarem parte do pastoreio de Jesus. Esses são pastores
apenas por delegação e, portanto, por participação. Assim Pedro, a quem Jesus
ordena: “Apascenta os meus cordeiros...apascenta as
minhas ovelhas” (Jo 21,15-17). Assim também os
presbíteros do NT em geral, segundo as palavras que lhes dirige o Apóstolo
Paulo: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo
vos estabeleceu como guardiães, como pastores da
Igreja de Deus que ele adquiriu com o seu sangue” (At 20,28).
Isso tudo faz ver que o presbítero é um homem todo
relativo a Cristo. Está a seu serviço e à sua disposição. Sua vida é toda
subordinada a Cristo-Pastor e voltada à imitação do Bom Pastor. Imbuído do
mesmo espírito de Cristo, com quem vive numa ralação profunda de amizade, o
presbítero deve traduzir os sentimentos, as atitudes, os gestos e as palavras
de Jesus, através de sua vida e ministério.
2. Fonte última: a Santíssima Trindade
O presbítero é “sacramento” e “epifania”
do Bom Pastor. Mas, justamente por causa do mesmo Cristo, devemos remontar mais
para o alto, e buscar a fonte última dessa identidade no Mistério Trinitário. Pois o próprio Cristo só encontra sua
identidade no contexto da Trindade. E é para dentro desse Mistério que Ele nos
leva como a nosso destino ultimíssimo.
É, com efeito, o amor do Pai que envia seu Filho ao mundo
e esse, por sua vez, envia os Apóstolos: “Como o Pai me enviou, eu também vos
envio” (Jo 20,21). Ora, esse envio
salvífico se prolonga na ordenação presbiteral. O presbítero é um enviado do Pai, como Cristo,
na força do Espírito Santo (cf. PDV 12; 18,5; 82,3).
Portanto, antes ainda de o presbítero olhar para Cristo,
ele é “olhado” pelo Pai e por seu Filho Jesus Cristo. Efetivamente, os relatos
de vocação têm esta estrutura: Jesus “viu” e então chamou (cf. Mc 1,16.19; 2,14), especialmente
em relação ao rico: “Fitando-o, Jesus o amou...” (Mc
10,21).Tudo isso significa que o presbítero é um “apóstolo do Pai”, um “servo
de Cristo”, um “consagrado do Espírito Santo”.
“É no interior do mistério da Igreja como comunhão trinitária em tensão missionária, que se revela a identidade cristã de cada um e, portanto, a específica
identidade do presbítero e do seu ministério. O presbítero, de fato, em virtude
da consagração que recebe do sacramento da Ordem, é enviado pelo Pai, através
de Jesus Cristo, ao qual como pastor do seu povo é configurado, de modo
especial para viver e atuar, na força do Espírito Santo, ao serviço da Igreja e
para a salvação do mundo”(PDV 12).
As comunidades que o presbítero ajuda a construir carregam
o selo da Trindade: elas devem refletir o mistério de comunhão de vida, de amor
e de alegria que circula no seio da Trindade. Na Santíssima Trindade a Igreja
possui a sua fonte de origem, o seu modelo de vida e organização, a sua meta
final ou pátria definitiva: é o povo reunido a partir da unidade do Pai, do
Filho e do Espírito Santo (cf LG 4). Não por uma
exigência sociológica ou para agradar os contemporâneos, mas para se fiel à sua
essência e à sua missão, a Igreja deve – também em suas estruturas e práticas –
ser “casa e escola de comunhão” (Novo Millennio Ineunte, 43).
3. Fonte específica: Sacramento da Ordem
Em virtude de sua consagração especial os presbíteros são
configurados a Cristo Pastor e são chamados a imitar e a reviver sua própria
caridade pastoral. Consagrados de modo particular a Deus pela recepção da Ordem
tornam-se instrumentos vivos do sacerdócio de Cristo, a fim de prosseguirem no
tempo a sua obra admirável que restaurou com a divina eficácia a humanidade
inteira. Em virtude do ligame ontológico a Cristo
Sacerdote e Pastor, os presbíteros agem em nome e na pessoa do próprio Cristo:
proclamam a sua Palavra, repetem os seus gestos de perdão e oferta de salvação,
exercitam a sua admirável solicitude, até o dom total de si mesmos por aqueles
que lhes são confiados, reúnem na unidade o povo de Deus e o conduzem ao Pai,
por meio de Cristo no Espírito (cf. PDV 15 e 20).
O Sacramento da Ordem torna a existência presbiteral “ungida” pelo Espírito. Desse modo, o
presbítero não “administra” simplesmente os sacramentos: ele os vive. Não faz
pastoral, mas é pastor. Não está presbítero; ele é presbítero. A unção
sacramental o atinge em seu ser e não apenas em seu fazer. Por isso, tudo nele
é “sacerdotal”. A pastoral por inteiro adquire uma dimensão como que litúrgica:
é uma oferenda a Deus. Assim via Paulo sua missão. Em seu próprio apostolado,
entendia-se como um “oficiante de Cristo Jesus, junto aos pagãos, sacerdote do
Evangelho de Deus, a fim de que os pagãos se tornem uma oferenda agradável,
santificada no Espírito” (Rm 15,16).
O ministério presbiteral por
inteiro, também em suas expressões aparentemente mais seculares, é em si mesmo
um “ministério do Espírito” (2Cor 3,8) na medida em que move os corações,
produz a vida da graça e revela o rosto glorioso de Deus (cf. 2Cor 3,6-11). Por
conseguinte, o próprio trabalho sócio-libertador há de ser realizado com a
unção do Espírito, ou seja, com sua marca espiritual. Assim foi com o Messias,
que veio “para anunciar o evangelho aos pobres e libertar os cativos”, sempre a
partir do Espírito. Como Jesus mesmo testemunhou: “o Espírito está sobre mim,
me ungiu e me enviou” (cf. Lc 4,18). Portanto, também
no serviço aos pobres e nas atividades que abarcam a dimensão sócio-transformadora,
o presbítero é um homem “espiritual”.
4. Âmbito imediato: Igreja Local
É no interior da comunidade eclesial, confiada ao seu
ministério e em comunhão profunda com o presbitério unido ao bispo que o
presbítero vive concretamente a caridade pastoral. O Vaticano II assim
explicitou: “A caridade pastoral exige que os presbíteros, para que não corram
em vão, trabalhem sempre em união com os bispos e os outros irmãos no
sacerdócio”(PO 14).
O Concílio recuperou o valor da Igreja local. A Igreja
universal “subsiste nas Igrejas particulares e a partir delas
existe a una e única Igreja Católica (LG 23). A Igreja Católica universal é
todo o Povo de Deus, comungando entre si sob a guia do Papa e do Colégio dos
Bispos, e se estende por toda a terra, ao passo que a Igreja local é uma porção
do povo de Deus confiada ao pastoreio de um Bispo, com a cooperação do
presbitério. Na Igreja local convocada pela Palavra de Deus, santificada pelos
Sacramentos, conduzida pelo Espírito, presidida pelo Bispo e seu presbitério
está verdadeiramente presente e operante a una, santa, católica e apostólica
Igreja de Cristo (CD 11).
Com a Igreja local o Concílio recuperou a colegialidade. O cargo de bispo e de presbítero é sempre
colegial: ninguém é bispo sozinho, mas num colégio episcopal; ninguém é
presbítero sozinho, mas num presbitério. Todo presbítero é um “com-presbítero”.
O colégio dos presbíteros ou o presbitério é mais que um
órgão meramente instrumental. É uma realidade que pertence à ontologia da graça
sacramental, precisamente ao sacramento da Ordem. Por isso, o presbítero, mais
que “trabalhar em equipe”, é essencialmente um “homem de equipe”. Não está no
presbitério; é ou constitui o presbitério. A “colegialidade
sacramental” ou ontológica é a base da “colegialidade pastoral” ou operativa. Isso significa que
toda pastoral tem uma essencial forma comunitária; é uma “obra coletiva” (PDV
17,1). A pastoral de conjunto não se impõe apenas por injunções do momento
histórico e da busca de eficácia, mas por exigências intrínsecas do próprio ser
Igreja (que é communio teologal)
e da essência do presbiterado (que é uma ordo
sacramental).
Numa eclesiologia de comunhão,
os cristãos e seus pastores são irmãos iguais em dignidade (cf. Mt 23,8-12; Mc 3,31-35; LG 32); diferentes quanto aos carismas,
serviços e ministérios, entre os quais e à frente dos quais está o ministério pastoral, responsável pela unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade da
Igreja; solidários na responsabilidade de evangelizar o mundo e de edificar a
Igreja sobre o único fundamento que é Jesus Cristo (cf. 1 Cor 3,11).
Cabe aqui lembrar que o espírito colegial deverá levar o
presbítero a valorizar as Coordenações, os Conselhos, as Assembléias e todas as
outras “estruturas de comunhão e participação”, onde a presença dos Leigos,
Consagrados e de Vida Apostólica, ao lado dos Religiosas e
Religiosos, se faz sentir como parte integrante da Ekklesia
de Deus, reunida em assembléia, inclusive deliberante.
O Vaticano II, privilegiando a imagem de Igreja–Povo de
Deus, não coloca o presbítero acima ao além do povo cristão. Embora revestido
de uma missão específica, ele está dentro, faz parte do povo e com ele caminha
na história. Antes de ser presbítero, ele é cristão, conforme nos ensina Santo
Agostinho: “Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco.
Pois para vós sou bispo (presbítero), convosco sou cristão. Aquilo é um dever,
isto uma graça. O primeiro é um perigo, o segundo salvação” (Sermo 340, 1:Pl 38,1483; LG 32).
5. Destinação: doação de si à Igreja e à Humanidade
A caridade pastoral é a virtude pela qual imitamos Cristo
na entrega de si mesmo e no serviço do Reino. Não é apenas aquilo que fazemos,
mas o dom de nós mesmos que manifesta o amor de Cristo pela humanidade. O
ministério presbiteral é “amoris
officium”, doação de si mesmo à Igreja como Cristo
que “amou a sua Igreja e se entregou por ela” (Ef
5,25). A caridade pastoral determina nosso modo de pensar e de agir, o modo de
nos relacionar com as pessoas. O dom de si mesmo não tem
fronteira, porque é marcado pelo mesmo dinamismo apostólico e
missionário do Bom Pastor que disse: “Tenho ainda outras ovelhas que não são
deste redil: devo conduzi-las também; elas ouvirão a minha voz; então haverá um
só rebanho e um só Pastor” (Jo 10, 16).
O presbítero, como Cristo, não pode reduzir seu raio de
ação à Igreja apenas. Tem um olhar para fora, para o mundo. A esse o envia o
Espírito, para levar-lhe a Palavra do evangelho da graça e da salvação. O
presbítero, portanto, não é somente “homem de Deus” e “homem da Igreja”, mas é
também “homem do mundo”, no sentido de que está a serviço de todos os homens e
mulheres de hoje. Ora, para o presbítero, o mundo de hoje se apresenta como
imenso campo de trabalho, trabalho de evangelização.
O Vaticano II, na constituição “Gaudium
et Spes”, o primeiro
documento conciliar a fazer uma ampla reflexão sobre a presença da Igreja no
mundo, levou a sério a advertência de Jesus: “Quando
vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece.
Quando sentis soprar o vento sul, logo dizeis que vai fazer calor. E assim
acontece. Hipócritas! Sabeis avaliar o aspecto da terra e do céu. Como é que
não sabeis avaliar o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é
justo?” (Lc 12, 54-57).
“Para desempenhar sua missão, a Igreja, a
todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e
interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo
adaptado a cada geração, às eternas perguntas dos homens a cerca do sentido da
vida presente e futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário
conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações,
e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS 4a).
Para por fim a todas as espécies de dualismos
reducionistas, segue um dos textos mais lúcidos da GS: “Afastam-se da verdade
os que , sabendo que não temos aqui na terra uma
cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por
isso descuidar de seus deveres terrenos, sem atentarem a que a própria fé os
obriga ainda mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um.(...) Não
se oponham, pois, infundadamente, as atividades profissionais e sociais, por um
lado, e a vida religiosa, por outro. O cristão que descuida os seus deveres
temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio
Deus, e põe em risco a sua salvação eterna”(GS 43)
6. Preferidos: Os pobres e os excluídos
Cristo veio evangelizar a todos e, por isso, teve como
preferência específica: evangelizar os pobres. “Os primeiros destinatários da
missão são os pobres, sendo a sua evangelização sinal e prova, por excelência,
da missão de Jesus” (DP 1142). A opção pelos pobres impulsiona a Igreja a
descobrir, sempre de novo, a exigência radical do Evangelho, libertando-a da
acomodação e do conformismo aos “esquemas deste mundo” (cf. Rm
12,2).
A evangélica opção pelos pobres precisa ser assumida como
valor inquestionável da espiritualidade cristã, assim como é a Palavra, a
Eucaristia, a veneração a Maria. Por isso, esta opção deve ser elemento
integrador e unificador de toda a ação evangelizadora e pastoral da Igreja.
A solidária opção pelos pobres, que se constitui na grande
diretriz pastoral, não vem a ser outra coisa que uma opção pela vida do povo. A
mudança do lugar social torna-se uma exigência para a nossa espiritualidade e
ação de presbíteros. O nosso problema não é o ateísmo, mas a negação que se faz
do plano de Deus e do direito que a Igreja possui de anunciá-lo, denunciando
todas as formas de injustiças e violação dos direitos humanos de que são
vítimas milhares de excluídos.
Misericórdia e justiça são os dois fios condutores sempre
presentes na pregação e na prática de Jesus, manifestações da sua caridade
pastoral. A “terna misericórdia do coração de nosso Deus” (Lc
1,78), o “amor materno” de Javé revelam-se de modo
pleno e definitivo naquele que se auto-intitulou Bom Pastor e devem iluminar a
prática daqueles que são chamados a apascentar, em seu nome, as multidões que
vagueiam errantes pelos vales e montanhas, periferias miseráveis das cidades e
sertões esquecidos da nossa terra.
A relação de Jesus com as multidões, que concretamente são
as maiorias empobrecidas e esvaziadas de sua memória e de suas utopias,
testemunha a fome e a sede de justiça que Ele mesmo experimenta na medida em
que se aproxima, comove-se e se compadece (cf Mc
6,36). Não são duas realidades distintas, a misericórdia e a fome e sede de
justiça. Antes, a ambas o Senhor vai chamar de bem-aventuranças, isto é, qualidades
precípuas e inseparáveis dos discípulos do Reino. Nesta chave, o amor pastoral
aparece cheio de afeto, ternura, comunhão interpessoal
ao mesmo tempo que pleno de solidariedade, e
compromisso social e político na direção dos marginalizados e excluídos,
abandonados à própria sorte pelas elites egoístas, avarentas e insaciáveis de
ontem e de hoje.
7. Suprema expressão e alimento: A Eucaristia
A caridade pastoral encontra a sua plena expressão e
supremo alimento na Eucaristia. “Esta caridade pastoral, diz-nos o Concílio,
brota sobretudo do sacrifício eucarístico, o qual
constitui o centro e a raiz da vida do presbítero, de modo que a alma
sacerdotal se esforçará por espelhar o que é realizado sobre o altar do
sacrifício”(PO 14).
“Na Eucaristia é representado, ou seja, de novo tornado
presente o sacrifício da Cruz, o dom total de Cristo à sua Igreja, o dom do seu
Corpo entregue e do seu Sangue derramado, testemunho supremo do seu ser Cabeça
e Pastor, Servo e Esposo da Igreja” (PDV 23). O rito da Ordenação Presbiteral expressa esta profunda verdade em forma de
compromisso que o ordinando assume: “Recebe a oferenda do povo para
apresentá-la a Deus. Toma consciência do que fazes e põe em prática
o que vais celebrar, conformando tua vida ao mistério da cruz do
Senhor”. Precisamente por isso, a caridade pastoral do presbítero não brota
apenas da Eucaristia, mas encontra na celebração desta a sua mais alta
realização. Da mesma forma que recebe dela a graça e a responsabilidade de
tornar eucarística a sua vida inteira e o exercício do seu ministério.
Como não lembrar agradecidos o
que nos escreveu Papa na última Quinta-feira Santa? “Nós nascemos da
Eucaristia. O que dizemos de toda a Igreja, ou seja, que «de Eucharistia vivit», como quis
reiterar na recente Encíclica, podemos perfeitamente afirmá-lo do sacerdócio
ministerial: este tem origem, vive, opera e frutifica «de Eucharistia».
Não existe Eucaristia sem sacerdócio, como não existe sacerdócio sem
Eucaristia” (n.2).
«Mysterium fidei:» proclama o sacerdote
depois da consagração. Mistério da fé é a Eucaristia, mas, conseqüentemente, o
é também o próprio sacerdócio (cf. Dom e Mistério, ob. cit. pg. 89). O mesmo mistério de santificação e de
amor, obra do Espírito Santo, pelo qual o pão e o vinho se tornam o Corpo e o
Sangue de Cristo, age na pessoa do ministro no momento da Ordenação Sacerdotal.
Há, portanto, uma específica reciprocidade entre a Eucaristia e o sacerdócio,
reciprocidade que tem origem no Cenáculo: trata-se de dois sacramentos que
nasceram juntos e cujas sortes estão indissoluvelmente ligadas até ao fim do
mundo” (n.3).
Contra toda tentação de pensar a liturgia eucarística como
evasão ou fuga do mundo, o Papa reafirma “com força” o empenho nas realidades terrestres:
“Desejo reafirmá-lo com vigor ao
início do novo milênio, para que os cristãos se sintam ainda mais decididos a
não descuidar dos seus deveres de cidadãos da terra. (...) Muitos são os
problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo.
Basta pensar quanto seja urgente trabalhar pela paz,
colocar sólidas premissas de justiça e solidariedade nas relações entre os
povos, defender a vida humana desde a concepção até ao seu termo natural. E
também que dizer das mil contradições dum mundo «globalizado», onde parece que
os mais débeis, os mais pequeninos e os mais pobres pouco
podem esperar? É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã! Foi também
para isto que o Senhor quis ficar conosco na Eucaristia, inserindo nesta sua
presença sacrificial e comensal a promessa duma
humanidade renovada pelo seu amor. É significativo que, no lugar onde os
Sinóticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha,
ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do « lava-pés », gesto
este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo
13, 1-20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como « indigna » duma
comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num
contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (cf. 1
Cor 11, 17-22.27-34). Anunciar a morte do Senhor « até que Ele venha » (1 Cor 11, 26) inclui, para os que participam na Eucaristia,
o compromisso de transformarem a vida, de tal forma que esta se torne, de certo
modo, toda «eucarística» (n.20).
8. Caridade Pastoral: eixo integrador da vida e do
ministério.
Todo o exposto até aqui demonstra que a caridade pastoral
é o princípio interior e dinâmico capaz de unificar as múltiplas e diversas
atividades do presbítero. É o eixo integrador da sua espiritualidade, o cerne
que unifica a vida e o ministério presbiteral. “A
unidade de vida, recorda o Concilio, pode ser conseguida pelos presbíteros
seguindo, no desempenho do próprio ministério, o exemplo do Cristo Senhor, cujo
alimento era o cumprimento da vontade daquele que o tinha enviado a realizar
sua obra (...) Assim, representando o Bom Pastor, no próprio exercício pastoral
da caridade, encontrará o vínculo da perfeição sacerdotal que tornará efetiva a
unidade entre a sua vida e atividade”(PO 14).
Trata-se aqui de aprender a beber no poço do nosso
ministério como nos ensina o Vaticano II: “Caminho de santificação para o
presbítero é o próprio exercício do seu ministério, de modo a tirar dele todo
proveito espiritual” (PO 13). Colocando em prática essa lúcida intuição,
superaremos falsos dualismos que opõem contemplação e ação, oração e pastoral,
pois ensinando, o presbítero também escuta e aprende com os fiéis; pregando a
Palavra, é também evangelizado; celebrando e santificando, o presbítero também
ora e se santifica; servindo e coordenando a comunidade, torna-se epifania e sacramento do Bom Pastor.
Vivido desse modo, o ministério torna-se fonte de
espiritualidade, já que seu centro é o amor ao Deus do Reino e a caridade
pastoral para os irmãos. Assim, a santidade do presbítero irradia sem dúvida
sobre a comunidade e ele se torna para o povo o que João XXIII queria ser: uma
“fonte na praça”.
O testemunho e a fidelidade dos bispos e presbíteros,
pastores-mártires do passado e do presente, incentivam-nos a sermos autênticos continuadores, epifania e
sacramento da caridade pastoral de Jesus que irrompeu no discurso inaugural da
sinagoga de Nazaré, concretizou-se em todos os seus gestos, atitudes, palavras,
e alcançou a plenitude na hora da Paixão. Presbíteros consagrados e enviados
pelo mesmo Espírito que ungiu e conduziu o Bom Pastor, viveremos nossa
espiritualidade e ministério a serviço da libertação integral dos irmãos que
ele confia à nossa caridade pastoral. “Anunciar a Boa Nova aos pobres”, é a
caridade evangelizadora. “Proclamar a libertação aos presos”, é a caridade
social. “Recuperar a vista aos cegos”, é a caridade existencial. “Restituir a
liberdade aos oprimidos”, é a caridade política (cf Lc
4,16s). Nenhuma necessidade humana pode passar descuidada pelo zelo do
presbítero, discípulo e testemunha do Bom Pastor Ressuscitado no serviço à
Igreja e aos homens e mulheres de hoje.