Mons. Juan Esquerda y Biffet
(Tradução: Pe. Antonio Carlos Rossi Keller)
Há muita
coisa escrita sobre o sacerdócio. Mas sobre tudo, existe a vida de santos
sacerdotes do passado e do presente.
Estas
páginas querem ser uma humilde síntese, bíblica e conciliar, do ser, da missão
e especialmente, da espiritualidade sacerdotal.
Muitas
vezes necessitamos ter em mãos umas poucas idéias e motivações, as principais,
sobre o nosso estilo de vida, a imitação de Cristo o bom Pastor. Serão úteis
para uma reflexão, em um momento de retiro e de oração, em uma conferência, em um
momento de diálogo ou de revisão de vida entre amigos sacerdotes. Mas, sempre
deve ser para nos questionar sobre a nossa missão de seguir Cristo, que se
converte em relação pessoal com Ele, em disponibilidade missionária e em
fraternidade sacerdotal.
Oxalá que
estas páginas pudessem servir para alguma coisa. Em realidade, são somente um
convite a entrar nos textos bíblicos e magisteriais sobre o sacerdócio.
Uma boa
formação sacerdotal, inicial e permanente, supõe repensar continuamente nossa
realidade sacerdotal, que passa sempre do encontro pessoal com Cristo, à
missão: “Chamou aqueles que quis... para estar com ele e para envia-los a
pregar” (Marcos 3,13-14). De um momento de cenáculo, “com Maria, a mãe de
Jesus” (Atos 1,14), saem sempre sacerdotes “cheios do Espírito Santo” (Atos
2,42), dispostos a Evangelizar “com audácia” (Atos 4,31).
1. Tempo de
graça em um mundo que muda.
O mistério da encarnação do
filho de Deus indica que Cristo vive nossas circunstâncias históricas: “habitou
entre nós” (João 1, 14).
O homem de hoje sente a
necessidade da vivência, da experiência e da transcendência. É, pois, um homem
que pergunta sobre:
·
O sentido da vida, a dignidade da pessoa, (trabalho,
cultura, convivência), da história humana...
·
O sentido da dor, das injustiças, da pobreza, do mal, da
morte...
·
O sentido do progresso e dos avanços, comunicação de bens
com toda a humanidade...
·
O sentido da transcendência e do mais além como base do
mistério do homem...
·
O sentido do pensamento humano que afundou inumeráveis
ideologias (muitas delas válidas, mas todas variáveis e passageiras) sobre o
mistério do homem...
·
O sentido das normas morais (ética para a conduta pessoal,
familiar, social, política, econômica, internacional...).
Este homem que quer ver, pesar,
medir, experimentar, não deixa de pedir a espiritualidade. O espírito do
cristianismo só pode ser apresentado por apóstolos autênticos que o tenham
experimentado em suas próprias vidas como encontro com Cristo. A sociedade
moderna necessita ver sinais claros do Evangelho.
2. Uma
Igreja solidária dos gozos e esperanças.
A espiritualidade cristã e
sacerdotal é eminentemente eclesial. A Igreja (ecclesia) é a comunidade humana
convocada pela Palavra ou anúncio do Evangelho para celebrar o mistério Pascal
de Cristo e transformar o mundo segundo o mandamento do amor.
A Igreja é chamada Mistério ou
Sacramento, porque é sinal transparente e portador da presença de Cristo
ressuscitado (Efésios 3, 9- 10; 5,32). É chamada também Comunhão (Koinonia)
porque está constituída por irmãos que se amam em Cristo. Seu objetivo é a
missão, pois, foi fundada para ser enviada a evangelizar ou anunciar a boa nova
a todos os povos.
A Igreja está inserida no mundo
como:
·
Corpo ou expressão visível de Cristo ressuscitado
(Colossenses 1, 24; Efésios 1,23),
·
Sacramento (mistério) ou sinal portador e eficaz de Cristo
ressuscitado (Efésios 3,9-10),
·
Esposa ou consorte, fiel e comprometida na mesma sorte de
Cristo (Efésios 5, 25-27; 2 Coríntios 11, 2),
·
Mãe como instrumento de vida em Cristo e vida no espírito
(Gálatas 4, 4. 19. 26),
·
Povo como propriedade carinhosa de Deus e sinal do que
devem ser todos os povos (1 Pedro 2, 9; Apocalipse 1, 5-6),
·
Início do Reino de Deus anunciado por Cristo, que já
habita nos corações (dimensão carismática), que está presente na Igreja
(dimensão institucional), e que um dia será encontro final ou plenitude no mais
além (dimensão escatológica) (Lucas 10, 9; 11, 2; 17, 21; LG 5).
Esta Igreja, fundada e amada por
Cristo, é, por sua mesma natureza, solidária dos gozos, das angústias e das
esperanças de toda a humanidade (GS 1), como “chamada a dar uma alma à
sociedade moderna” (João Paulo II, discurso 11-10-85).
A natureza missionária da Igreja
(AG 2, 6, 9) enraíza em seu mesmo ser de “sacramento universal da salvação” (LG
48; a G1).
Cada cristão segundo sua própria
vocação forma parte responsável desta Igreja que é, segundo os quatro
documentos (Constituições) principais do Concílio Lumen Gentium, Dei Verbum,
Sacrosanctum Concilium, Gaudium Et Spes:
·
Sinal transparente e portador de Cristo: Igreja sacramento
ou mistério (LG 1),
·
Igreja comunhão ou
povo de irmãos ou corpo de Cristo (LG 2),
·
Igreja missão e peregrina na historia como início do reino
definitivo, sacramento universal de salvação (LG 7).
·
Portadora da
mensagem evangélica para o homem concreto e para todos os povos: Igreja da
palavra DV).
·
Centrada na morte
e ressurreição de Cristo: Igreja que torna
presente na história humana o mistério Pascal (SC).
·
Inserida nas realidades humanas: Igreja no mundo e na
história (GS).
3. Pontos
para uma nova evangelização.
Todo apóstolo e especialmente o
sacerdote ministro devem afiançar as suas atitudes interiores para colaborar em
uma “evangelização renovada” (EN 82), em uma nova etapa da história humana. Às
vezes, será necessário re-evangelizar setores humanos nos quais o cristianismo
corre o risco de diluir-se. Freqüentemente se tratará de empreender “uma nova
evangelização”:
·
Nova em seu ardor, pela disponibilidade missionária dos
evangelizadores,
·
Em seus métodos, por um melhor aproveitamento dos novos
meios
de apostolado,
·
Em suas expressões, pela adaptação da doutrina e da
prática cristã sem diminuir os seus princípios e exigências evangélicas.
Em uma nova evangelização, o
problema mais urgente é o da renovação dos agentes de pastoral, e especialmente
dos sacerdotes ministros.
“As atitudes interiores do
apostolo” (EN 74), quer dizer, “sua espiritualidade, como garantia da
autenticidade da evangelização. Se resumem todas elas na fidelidade que cria
comunhão” (Puebla 384).
4. Ser
sacerdote hoje. A identidade sacerdotal.
A identidade sacerdotal esta na
linha de sentir-se amado e capacitado para amar. Esta identidade se reencontra
quando se quer viver o sacerdócio em todas as suas perspectivas ou dimensões:
·
Consagração ou dimensão sagrada: o sacerdote em seu ser,
em seu fazer e em sua vivencia, pertence totalmente a Cristo e participa em sua
unção e missão.
·
Missão ou dimensão apostólica: o sacerdote recebe uma
missão de Cristo para servir incondicionalmente aos irmãos.
·
Comunhão ou dimensão eclesial: o sacerdote é enviado a
servir a comunidade eclesial construindo-a segundo o amor.
·
Espiritualidade ou dimensão ascético-mistica: o sacerdote
está chamado a viver em sintonia com os amores de Cristo e ser sinal pessoal de
Cristo como bom Pastor.
O sacerdote está chamado hoje,
mais do que nunca, a ser:
·
Sinal do bom Pastor na Igreja e no mundo, participando do
seu ser sacerdotal (PO 1-3).
·
Prolongação do atuar do bom Pastor, agindo em seu nome e
no anúncio do Evangelho, na celebração dos sinais salvívicos (especialmente a
Eucaristia) e no serviço da caridade (PO 4-6).
·
Transparência das atitudes e virtudes do bom Pastor, presente
na Igreja que é comunhão e missão (PO 7-22).
5. Espiritualidade
cristã e espiritualidade sacerdotal.
A espiritualidade cristã é uma
vida segundo o Espírito. “Caminhamos segundo o Espírito” (Romanos 8,4); “Viveis
segundo o Espírito” (Romanos 8,9). Propriamente é o caminho ou processo de
santidade que consiste no amor ou caridade: “Caminhar no amor” (Efésios 5, 2).
Cada cristão se santifica em seu
próprio estado de vida ou circunstância,
por um processo de sintonia com Cristo, no Espírito Santo, segundo os
desígnios ou vontade do Pai. (Efésios 2, 18). Este processo é de mudança ou
conversão (em critérios, escala de valores e atitudes) para batizar-se em
Cristo (pensar, sentir, amar como Ele). É, pois:
·
Participação e configuração (Gálatas 3, 27; Romanos 6,
3ss),
·
União, intimidade, relação (João 6, 56–57; 15, 9ss),
·
Semelhança, imitação (Mateus 11, 29),
·
Serviço, cumprimento da vontade de Deus (Marcos 3,35; 10,
44-45; João 14, 16),
·
Caridade, vida nova (João 13, 34 –35; Romanos 6, 4; 3,
10).
As marcas desta espiritualidade
cristã, comum a todos, são muito variadas. De sorte que se pode falar de
espiritualidades e escolas diferentes.
A espiritualidade sacerdotal é
sintonia com as atitudes de vivência de Cristo sacerdote, bom Pastor. Pelo
sacramento da ordem, se participa do ser sacerdotal de Cristo. Esta
participação ontológica capacita para prolongar a ação sacerdotal do bom
pastor. A sintonia com a caridade pastoral de Cristo é uma conseqüência da
participação de seu ser e em sua função. A graça recebida no sacramento da
ordem torna possível cumprir esta exigência.
Trata-se, pois, de uma santidade
ou espiritualidade “segundo a imagem do sumo e eterno Sacerdote”, para ser “um
testemunho vivo de Deus” (LG 41). O sacerdote é um “Jesus vivente” (São João Eudes),
quer dizer, “instrumento vivo de Cristo Sacerdote” (PO 12), posto que:
·
Se faz como sinal vivente de Cristo no exercício do
ministério (PÓ 12-13),
·
Se faz como sinal transparente de Cristo vivendo em
sintonia ou unidade de vida com Ele. (PO 14),
·
Se faz como sinal do bom pastor imitando sua caridade
pastoral e todas as demais virtudes que derivam dela (PO 15- 17), sem esquecer
os meios comuns à toda espiritualidade cristã e os meios específicos da
espiritualidade sacerdotal (PO 18).
Vivendo a espiritualidade
sacerdotal o sacerdote ministro se faz sinal crível do bom pastor em um mundo
que pede autenticidade (N. 1), em uma Igreja sacramento ou transparência e
instrumento de Cristo (N. 2) e em uma nova etapa de evangelização (N. 3), que
necessitam sacerdotes fiéis às novas graças do Espírito Santo (N. 4). A
identidade sacerdotal esta enraizada nesta espiritualidade cristológica,
pneumatológica, eclesial e antropológica.
As diversas analogias empregadas por
Jesus para indicar a sua própria realidade (esposo, irmão, amigo...) podem se
resumir naquela do Bom Pastor. Seu ser, seu agir e sua vivência correspondem a
esta realidade profunda:
·
É o Bom Pastor. “Eu sou o Bom Pastor”
(João 10, 11). O eu sou, tão repetido no evangelho de João, indica o seu
ser mais profundo de Filho de Deus que se fez homem, “ungido e enviado” pelo
Pai (João 10, 36) e pelo Espírito Santo (Lucas 4, 18).
·
Age como Bom Pastor: chama, guia, conduz
a bons pastos, defende (João 10, 3ss), quer dizer, anuncia a Boa Nova, se
aproxima de cada ser humano para caminhar com ele e para salvá-lo
integralmente.
·
Vive profundamente no estilo de vida do
Bom Pastor, que conhece amando e que “dá a vida pelas ovelhas” (João 10, 11ss),
como doação sacrifical segundo a missão e mandato recebido do Pai (João 10,
27-18.36).
As atitudes internas de Cristo Bom
Pastor nascem de seu ser e se expressam em sua ação comprometida. Sua
interioridade (espírito ou espiritualidade) é o seu caminho ou vida de doação
total:
·
Amor ao Pai no Espírito Santo,
·
Amor aos irmãos,
·
Dando-se a si mesmo em sacrifício.
Cristo é o caminho e se faz
protagonista do caminho humano com a sua caridade de Bom Pastor:
·
Não se pertence porque sua vida se
realiza em plena liberdade segundo os planos salvíficos do Pai (obediência),
·
Dá-se a si mesmo, sem apoiar-se em
nenhuma segurança humana, ainda que usando dos dons de Deus para servir
(pobreza),
·
Ama responsavelmente como consorte da
vida de cada pessoa, fazendo com que todo ser humano sinta-se amado e
capacitado para amar em plenitude (virgindade).
2.
Cristo Mediador, Sacerdote e
Vítima.
Quando dizemos que Cristo é Sacerdote e
Vítima, queremos indicar que é responsável dos interesses do Pai e protagonista
da história humana, até fazer da sua própria vida uma doação total.
O ser e a existência de Cristo
pertencem totalmente aos desígnios salvíficos de Deus sobre o homem. Ele é
“ungido e enviado” (Lucas 4, 18; João 10, 36) para a redenção ou resgate do
todos os homens (Marcos 10, 45; Mateus 20, 28).
O sacrifício sacerdotal de Cristo
consiste em uma caridade pastoral permanente, que se traduz em uma obediência
ao Pai, desde o momento da encarnação (Hebreus 10, 5-7) até a morte na cruz e a
sua glorificação (Filipenses 2, 5-11).
Sua humilhação (Kenosis) na encarnação
e na morte se converte em glorificação sua e de toda humanidade nele.
O sacrifício de Cristo se realiza desde
a encarnação e tem seu ponto culminante no mistério pascal de sua morte e
ressurreição. Assim leva à plenitude o sacerdócio e o sacrifício de todas as
religiões naturais e particularmente do Antigo Testamento.
Cristo é sacerdote, templo, altar e
vítima como:
·
Sacrifício da Páscoa (Êxodo 12, 1-30)
·
Sacrifício da Aliança (Êxodo 24, 4-8)
·
Sacrifício de propiciação ou de perdão
e expiação (Levítico 16, 1-6).
Cristo se manifesta assim:
·
Com o seu ser sacerdotal de ungido e
enviado, como Filho de Deus feito homem (Hebreus 5, 1-5),
·
Com o seu atuar ou função sacerdotal
como responsável do interesse de Deus e dos homens, até dar a vida em
sacrifício por eles (Hebreus 9, 11-15),
·
Com o seu estilo ou vivência sacerdotal
de caridade pastoral, que, conjuntamente com o seu ser e atuar, lhe faz
sacerdote perfeito, santo, eficaz e eterno (Hebreus 7, 1-28).
3.
Jesus prolongado em sua Igreja,
Povo sacerdotal.
A Igreja é uma comunidade ou Povo
sacerdotal, como templo de Deus, onde se faz presente e se oferece o sacrifício
de Cristo pedra angular e fundamento ( 1 Coríntios 1 ,10-16; 2Corintios 6,
16-18; Efésios 2, 14, 22; LG II). Na comunidade eclesial Cristo prolonga sua
presença (Mateus 28, 20), sua palavra (Marcos 16, 15), seu sacrifício (Lucas
22, 19-20) e sua ação salvífica e pastoral (Mateus 28, 18; João 20, 23).
A Igreja, como sinal transparente e
portador de Jesus e como um povo sacerdotal:
·
Anuncia o mistério pascal de sua morte
e ressurreição,
·
Celebra-o fazendo-o presente,
·
Transmite-o e comunica-o a todos os homens (Atos 2,32-37; 2,42-48;
4,32-34).
Na igreja existe uma tríplice
consagração sacerdotal que faz participar do sacerdócio de Cristo em grau e
modo diverso:
·
O sacramento do batismo, que incorpora
a Cristo Sacerdote para poder atuar no culto cristão participando em seu ser,
agir e vivência sacerdotal.
·
O sacramento da confirmação que faz da
vida um testemunho audaz (martírio), especialmente nos momentos de dificuldade
(fortaleza), de perfeição e de apostolado.
·
O sacramento da ordem que dá a
capacidade de agir em nome e na pessoa de Cristo Cabeça, formando parte do
sacerdócio ministerial (hierárquico) ou ministério apostólico dos apóstolos.
4.
O sacerdócio comum de todo
crente.
O sacerdócio comum dos fiéis e de todo
crente é o que corresponde basicamente a toda vocação e estado de vida, por ter
recebido o batismo e a confirmação. Cada crente, segundo sua própria vocação a
realizará basicamente em relação à eucaristia e ao mandato do amor, mas com
matizes diferentes:
·
De presidência na comunidade
(sacerdócio ministerial),
·
De sinal forte ou estimulante da
caridade (vida consagrada),
·
De inserção no mundo (laicato).
A diferença entre as diversas
participações do sacerdócio de Cristo indica mútua relação de serviço e de
caridade sem diferença de privilégios ou vantagens humanas.
Podemos distinguir nesta participação
do sacerdócio de Cristo três aspectos: o ser, o agir e o estilo de vida.
Do ser deriva o agir e a exigência de
uma vida santa.
Ainda que todos são membros do Povo de
Deus (leigos), dedicados ao serviço de Deus (consagrados) e participantes do
único sacerdócio de Cristo (sacerdotes) acostumamos a qualificar com estes
títulos os cristãos que tem uma vocação peculiar de:
·
Laicato: “aos leigos corresponde por
vocação própria, tratar de obter o Reino de Deus” (LG 31). São, pois, fermento
do espírito evangélico nas estruturas humanas, a partir de dentro, em comunhão
com a Igreja para exercer uma missão própria (LG 36; AA 2-4; GS 43).
·
Vida consagrada: é sinal forte das bem
aventuranças e do mandato do amor, a modo de “sinal e estímulo da caridade” (LG
42), por meio da prática permanente dos conselhos evangélicos (LG 43-44; PC 1).
As pessoas chamadas a esta vocação “são um meio privilegiado de evangelização”
porque “encarnam a Igreja desejosa de entregar-se ao radicalismo das bem
aventuranças” (EN 69).
Sacerdócio ministerial: é sinal
pessoal de Cristo Sacerdote e Bom Pastor, a modo de “instrumento vivo” (PO 12),
para agir “em seu nome” (PO 2) e servir na comunidade eclesial, como princípio
de unidade de todas as suas vocações, ministérios e carismas (PO 6.9).
1. Eleição,
seguimento e missão dos apóstolos.
A eleição dos apóstolos e de
seus sucessores e imediatos colaboradores, foi, e continua sendo, iniciativa de
Cristo: “elegeu aqueles que quis” (Marcos 3, 13; João 15, 16). O seguimento
apostólico equivale a compartilhar a vida com Cristo (Marcos 3,14; João 15,
27), a modo de amizade profunda (João 15, 9-15).
Jesus quis dar-lhes o nome de
apóstolos, enviados, para indicar sua identidade missionária (Lucas 6, 13). Dar
testemunho de Cristo, pressupõe ter
convivido com Ele (João 1, 35-46; 1 João 1, 1ss; João 15, 26-27). Esta
missão se resume em uma tríplice perspectiva: ensinar, batizar (santificar) e
guiar (Mateus 28, 19-20; Marcos 16, 15-20; Lucas 24, 45-49).
Segundo os textos que acabamos
de citar, Jesus comunicou aos seus esta realidade pastoral e sacerdotal de modo
estável através de diversas etapas:
·
Eleição
·
Envio (antes e depois da ressurreição)
·
Instituição da Eucaristia (última ceia)
·
Instituição do sacramento do Perdão (ressurreição)
·
Comunicação do Espírito Santo (Pentecostes)
Os apóstolos, por encargo de
Cristo, comunicaram esta realidade sacerdotal por meio da imposição das mãos
(sacramento da Ordem) (PO 2; LG 28).
A
missão sacerdotal, como participação na função pastoral de Cristo, resultaria
incompleta se separasse da vocação e do seguimento; então, se correria o risco
de profissionalismo privilegiado sem as exigências evangélicas.
Os apóstolos receberam esta
realidade sacerdotal diretamente do mesmo Jesus, de sua humanidade vivificante
como sacramento fontal.
Os sacerdotes ministros (sacerdócio ministerial), por meio
do sacramento da Ordem, recebem esta realidade sacerdotal, que lhes fazem
participar no ser, no agir e na vivência de Cristo Sacerdote e Bom Pastor. Pelo
sacramento da Ordem se confere a consagração sacerdotal (caráter e graça) aos
chamados pela Igreja (por meio do bispo) para exercer os ministérios
apostólicos no grau de bispo, presbítero ou diácono.
Esta realidade sacerdotal,
participada de Cristo, tem três aspectos principais:
·
Eleição divina ou vocação do senhor, manifestada por meio
da Igreja
·
Consagração ou participação no ser e no agir de Cristo,
por meio do sacramento da Ordem
·
Missão ou envio por parte de Cristo ou mediante a Igreja
O
caráter sacramental da Ordem é um sinal ou qualidade indelével, que configura o
sacerdote ordenado com Cristo Sacerdote para poder agir em seu nome. É uma
participação no poder e missão sacerdotal e pastoral do Senhor, que destina ao
serviço de Cristo presente na Eucaristia, em sua Igreja e no mundo (Santo
Tomás, III q. 63, a. 16).
A graça
especial recebida no sacramento da Ordem (distinta do caráter) ajuda a exercer
santamente a função e a missão sacerdotal. É um “vigor especial” (Santo Tomás)
que comunica:
·
Uma marca de caridade pastoral a todas
as virtudes sacerdotais
·
Sintonia vivencial com os atos
sacerdotais que se exercem
·
União com Cristo enquanto Sacerdote e
Vítima
·
Ser instrumento consciente e voluntário
(responsável) de Cristo em todos os momentos da vida e do ministério
·
Santidade para ser “dispensador dos
mistérios de Deus” (1Coríntios 4,1)
3. Linhas de força do seguimento evangélico dos Apóstolos.
O
seguimento evangélico dos Apóstolos tem sido chamado vida apostólica ou modo de
viver dos Apóstolos (“apostolica vivendi forma”).
A vida
apostólica é encontro com Cristo, relação pessoal com Ele, opção fundamental
por Ele, seguimento e imitação, em vista à missão de prolonga-la no tempo e no
espaço. Os textos básicos onde aparecem as linhas de força deste seguimento
apostólico são os seguintes:
·
A chamada para um seguimento
incondicional: Mateus 4, 18-22; Marcos 3, 13-19
·
O envio com as características com a
vida missionária de Cristo: Mateus 10, 1-42; Lucas 9,1-6; 10,1-12; Marcos
6,7-13
·
A figura do Bom Pastor: João 10,1-21
·
A última ceia (Eucaristia) e a oração
sacerdotal: João 13-17
·
A vida desprendida no Senhor: Mateus 8,
21 (pobreza); João 10, 18 (obediência do Bom Pastor) Mateus 19, 12 (castidade
pelo Reino).
·
O modo serviçal de dirigir a
comunidade: 1Pedro 5, 1-5
·
O resumo da vida apostólica de Paulo:
Atos 20, 17-38
O
seguimento em relação à missão apostólica tem estas características:
·
Caridade como a do Bom Pastor: doação,
virtudes pastorais, serviço, proximidade...
·
Missão totalizante e universal: sob a
ação do Espírito Santo, para evangelizar os pobres e a todos os povos
·
Fraternidade apostólica ao serviço da
comunidade eclesial: unidade apostólica especialmente no Presbitério, para
construir a comunhão da Igreja local
4. Fidelidade a missão do Espírito Santo.
Por
meio do sacramento da Ordem, o sacerdote ministro recebeu um novo selo ou uma
nova graça permanente do mesmo Espírito (1Timóteo 4, 14; 2Timoteo 1, 6-7), que
lhe faz participante da unção e missão de Cristo Sacerdote e Bom Pastor (Lucas
4, 18; João 10, 36). A vida e o ministério sacerdotal será um continuo reavivar
este dom do Espírito com uma atitude de discernimento e fidelidade. A vida
espiritual é uma vida “segundo o Espírito” (Romanos 8, 4-9).
Jesus
prometeu o Espírito Santo para todo crente (João 7, 37-39). Na promessa feita
aos apóstolos, durante a última ceia e no dia da ascensão, o Senhor fala de:
·
Presença: João 10, 15-17; 16,7
·
Iluminação: João 16, 13
·
Ação santificadora: João 16, 14; Atos
1, 5
·
Ação evangelizadora: João 15, 26-27;
Atos 1, 8
A
fidelidade ao Espírito Santo se concretiza para o sacerdote ministro e para
todo apóstolo em:
·
Custodiar o depósito da fé: 2Timóteo
2,14
·
Confiança audaz em sua ação
santificadora e evangelizadora: Romanos 15, 13-19
· Reavivar constantemente a graça recebida na or