A proposta do Carmelo Descalço para o
III Milênio
Frei Patrício Sciadini, ocd
Por quanto o mundo possa evoluir
sempre vai necessitar de espiritualidade, do caminho essencial para encontrar o
Senhor. Se os humanos não querem se desintegrar e acabarem-se reciprocamente
ou, como diz Paulo apóstolo aos gálatas, se "não devorarem-se uns aos
outros" serão obrigados a buscar dentro de si motivações para construírem
um mundo novo baseado nos princípios do Evangelho.
Às vezes tenho me perguntado, com
uma certa angústia, por que o Evangelho não envelhece
e, depois de tantos séculos, conserva a sua vitalidade e vida? A resposta me
parece uma só: Jesus não se preocupou em dar respostas imediatistas,
mas ofereceu princípios de convivência, de amor, de evangelização que serão
sempre válidos. Cabe a nós realizarmos o processo de "inculturação"
e de encarnação da palavra de Deus na nossa história. A nascente é sempre a
mesma mas o uso da água e como faz chegar esta água
viva aos nossos jardins pode mudar, e deve mudar constantemente.
As propostas do
Carmelo podemos sintetizar em quatro:
· Centralidade de Deus;
· centralidade do homem;
· necessidade de evangelizar;
· liberdade.
4.2.1. A centralidade de Deus.
É claro que esta caraterística do carisma carmelitano
não é exclusivo do Carmelo mas é comum para cada
cristão e para cada Congregação religiosa. Toda pessoa que busca a verdadeira
felicidade e realização deve colocar Deus no centro de sua vida como ponto de
partida e de chegada. Mas o Carmelo faz desta centralidade de Deus a razão de
sua existência, insiste nela com todos os meios oportunos e inoportunos. É um
ponto de honra e de fidelidade herdada desde o primeiro inspirador do Carmelo,
o profeta Elias que, na montanha do Horeb, entrando
na gruta, ouve a voz do Senhor que o questiona: "Que fazes tu aqui, Elias ?" e ele, movido por um amor apaixonado pelo Deus
vivo, não tem dúvida em responder: "queimo de zelo pelo Deus dos
exércitos." Esta herança eliana é recolhida,
revivida e assumida numa nova perspectiva por S. Teresa de Ávila que lhe faz
exclamar: "Só Deus basta!"
É grande o desejo de Deus que
arde no coração de João da Cruz! "Com amores e ânsias
inflamado, buscarei meus amores". E desde então o Carmelo sente-se
atraído, apaixonado pelo Senhor. E o busca no silêncio, na solidão, em duas
horas diárias de oração silenciosa e contemplativa. O Carmelita faz da oração o
seu trabalho por excelência. Para o Carmelo a oração não pode ser um momento,
mas é a vida inteira. Toda a organização do dia, da vida, dos
ambientes, têm esta finalidade: favorecer o encontro "a sós"
com Aquele que sabemos nos ama e a quem nós amamos. Por isso o Carmelita é o homem e a mulher do deserto, da noite, da montanha. Ele
desafia o mesmo silêncio de Deus, não tem pressa, sabe esperar até que o Senhor
se revele.
Para muitos o Carmelo seduz e
apavora ao mesmo tempo. É preciso ser apaixonado, como uma S. Teresinha do
Menino Jesus que deseja entrar no Carmelo aos 15 anos. Para entrar na sarça
ardente é sempre urgente tirar as sandálias e prostrar-se com o rosto no chão.
Não se pode ver a Deus e continuar a viver. O
Carmelita está acostumado a caminhar na noite e a fixar a luz de Deus que, de
vez em quando, o ilumina.
A leitura dos místicos do Carmelo
é "obrigatória" para todos os que se decidem
a buscar de verdade a Deus. A mesma S. Teresa, na sua primeira infância,
formula um desejo que a acompanhará ao longo de toda a sua existência: quero
ver a Deus. O ver à Deus com
os olhos da fé, presente em todas as coisas... Um Deus com quem se entra em
comunhão e com o qual realiza um "matrimônio espiritual", consagrado
pela força do Espírito Santo. Um Deus vivo, invisível mas
sempre presente
O Carmelo, sem dúvida, irá dar à Igreja novos místicos, novos contemplativos que serão
capazes de reler o Evangelho e reler os grandes Santos. Eu, pessoalmente,
acredito que os homens e as mulheres do III milênio serão os mais assíduos
leitores e intérpretes dos místicos do Carmelo. Quando, cansados das novas
teorias vazias, inúteis como a cisterna furada do
esoterismo, horóscopo, da auto-ajuda e de um humanismo vazio de
espiritualidade, o único caminho será voltar atrás: ao Evangelho, a Jesus e a
todos os que decidiram seguir Jesus como caminho, verdade e vida, para chegar
ao Pai.
Como diz o documento de
preparação ao Capítulo de 2003, convidando-nos a uma volta sincera ao essencial
de nossa vida carmelitana:
"Nossa vocação é
fundamentalmente uma graça, que nos impulsiona, em uma comunhão fraterna de
vida, à 'misteriosa união com Deus' pelo caminho da contemplação e da atividade
apostólica indissoluvelmente irmanadas a serviço da Igreja".(Volver
a lo essencial)
4.2.2. Centralidade do Homem.
Não se pode ser verdadeiramente
apaixonado de Deus sem se ter, ao mesmo tempo, uma verdadeira paixão pela
pessoa humana. Esta é a criatura que melhor e definitivamente nos fala de Deus
e o revela. A mensagem de Gênesis: "façamos o homem à nossa imagem e
semelhança" manifesta toda a dignidade humana na espera da plena
manifestação do ser humano. A mística e espiritualidade carmelitanas
se preocupam com duas únicas pessoas: Deus e homem. Toda teologia parte de Deus
para chegar à pessoa. Ou pode fazer também o caminho oposto: partir da pessoa
para chegar a Deus. Para S. João da Cruz a antropologia é muito forte. Ele não
se perde em tantas reflexões que, para nós hoje, parecem importantes. Ele
contempla três momentos do homem:
· homem criado, assim como saiu
das mãos do Senhor, o projeto original, que tinha a comunhão com o Senhor e
vivia em profunda harmonia.
· o homem "decaído": a
experiência do pecado fez-nos sentir quanto estamos longe da verdadeira
comunhão com o Senhor. O pecado deixou-nos no coração uma grande saudade de
Deus, o desejo da volta, a busca do Amado que nos dá angústias e ânsias que nos
inflamam.
· o homem "
redimido" pelo sangue de Cristo. É a experiência desta redenção em
que o nosso ser vai reconquistando o terreno perdido pelo pecado.
A nossa comunhão com Deus, a
descoberta da nascente e da vida, a existência do estar com o Senhor e de
sentir-nos sua morada, seu castelo é o ideal para o qual a pessoa vai
caminhando.
Não se pode encontrar a Deus sem
passar pelo homem e não se pode encontrar a verdadeira identidade da pessoa
humana sem passar através de Jesus que é o caminho que nos leva ao Pai.
A vida carmelitana
pode-se assim sintetizar: estar mais perto de Deus para estar mais perto dos
homens. É o caminho de cada dia na vida espiritual onde o homem ocupa um lugar
de destaque. Afinal, Jesus veio para salvar o
"humanidade". O homem e a mulher constituem o coração de toda
a redenção. Não se pode compreender o verdadeiro sentido da pessoa sem
contemplá-la à luz do mistério da encarnação.
4.2.3. Necessidade da
Evangelização.
Pode parecer um pouco estranho
que o coração do Carmelo seja a evangelização. Nós temos uma idéia
"operacional" da evangelização: é o fazer apostolado, o contato
direto, corpo a corpo, com os irmãos de caminhada aos quais decidimos anunciar
o Kerigma evangélico. O anúncio não pode acontecer
sem uma presença atual e viva no meio da comunidade. Mas na verdade se
pensarmos melhor podemos constatar como há uma
diferença muito grande entre "ser apóstolo e fazer apostolado". O
"fazer apostolado" é um momento da vida que depende de um conjunto de
circunstâncias, de possibilidades, de carismas particulares, de capacidades e
habilidades de comunicação com os outros. Todos nós um dia deixaremos de fazer
apostolado, seremos incapazes de proferir palestras, de escrever, de falar, de
nos movimentar. Eu recordo que, quando o Papa João Paulo II veio pela primeira
vez ao Brasil, todos ficamos fascinados pela sua
juventude, pelo seu porte atlético. Desceu correndo do avião, repetiu o gesto
que já lhe era familiar, ajoelhou-se, beijou o chão como sinal de amor à terra e levantou-se com rapidez. Subiu a escadaria do
Corcovado e chegou primeiro entre os bispos e cardeais que o acompanhavam. Na
sua última visita já tudo isto não aconteceu. Recordamos o seu sofrimento,
visível no rosto, para descer do avião, os seus passos lentos, o seu apoiar-se
na bengala. O "fazer apostolado", também para o Papa, se faz um
momento. Mas no entanto o "ser apóstolo"
nunca pode ser um momento. É a tensão interior, a força do amor que nos queima
o coração, é a oferta e holocausto de toda a nossa vida, imolada na alegria e
oferecida silenciosamente pela irradiação da Palavra é a extensão do reino de
Deus.
O Papa Pio XI, proclamando S. Teresinha
- hoje doutora da Igreja - com o mesmo título de S. Francisco Xavier
"padroeira das missões", vem recordar-nos esta realidade maravilhosa
e assustadora. O "fazer" apostolado nasce do "ser"
apostolado. Francisco Xavier percorreu milhares de Km no contato direto com as pessoas, convertendo-as à
fé. Teresa de Lisieux permaneceu dentro do
"quadrado" do seu Carmelo, mas sua tensão apostólica lhe fazia
oferecer toda sua vida e a levava a escolher um novo método evangelizador:
"serei missionária pela oração e pelo sacrifício". Dois meios que
estarão sempre à nossa disposição e pelos quais seremos capazes de experimentar
a alegria de sermos apoio para os que lutam na vanguarda da Igreja de
fronteira, comunicando o Reino de Deus.
O Carmelo desde sua origem sentiu
estas duas dimensões. Evangelizar não é privilégio do meu grupo, mas de todo
cristão que, encontrando-se na intimidade com o Senhor, sabe que é necessário
levar isto a conhecimento dos outros. Os grandes místicos carmelitanos,
com seus escritos, exercem um magistério na Igreja e dão força e coragem a
todos os missionários engajados na evangelização.
4.2.4. Liberdade.
S. João da Cruz apresenta-nos a
vida mística como caminho para a verdadeira liberdade. Ele projeta a perfeição
como escalar uma alta montanha que chama de Carmelo. Escalar a montanha é fácil
no início, mas torna-se cada vez mais difícil na medida que
se sobe. Porisso os que chegam ao topo são sempre uns
poucos e corajosos que tiveram a ousadia de enfrentar todas as dificuldades e
não se deixaram desanimar. Não pegar nem o caminho da direita e nem o da
esquerda onde se encontram os prazeres da terra e do espírito, mas tomar o
caminho central onde está escrito por todo lado: Nada, nada, nada, nada ,nada, nada, nada... O nada de João da Cruz não é
negativo, mas é positivo: é necessário renunciar a tudo para possuir tudo.
"Para
chegares a saborear tudo,
não
queiras Ter gosto em coisa alguma.
Para chegares a
possuir tudo,
Não queiras possuir
coisa alguma.
Para chegares a ser
tudo,
Não queiras ser coisa
alguma.
Para chegares a saber tudo,
Não queiras saber
coisa alguma.
Para chegares ao que
não gostas,
Hás de ir por onde
não gostas.
Para chegares ao que
não sabes,
Hás de ir por onde
não sabes.
Para vires ao que não
possuis,
Hás de ir por onde
não possuis.
Para chegares ao que
não és,
Hás de ir por onde
não és.
Modo de não impedir o
tudo:
Quando reparas em
alguma coisa,
Deixas de arrojar-te
ao tudo.
Porque para vir de
todo ao tudo,
Hás de negar-te de
todo em tudo.
E quando vieres a
tudo Ter,
Hás de tê-lo sem nada
querer.
Porque se queres Ter
alguma coisa em tudo,
Não tens puramente em Deus teu tesouro." (1Subida 13,11-12)
Quem consegue chegar no cimo da montanha respira ar novo, purificador; sente-se
totalmente livre e experimenta a maior liberdade. Porque no cimo da montanha
existe somente a honra e a glória de Deus, e para o justo não há lei.
O Carmelita deseja viver esta
liberdade interior, não ter mais nada que possa prendê-lo, porque o seu coração
está totalmente entregue e possuído por Deus, que é amor e liberdade. João da
Cruz, com sua sabedoria, diz: "Que um passarinho esteja preso por uma
corda ou por uma linha é a mesma coisa, não pode voar". Quer
sejamos escravos de grandes paixões ou de pequenas paixões o resultado será o
mesmo: seremos escravos. O desejo de ser livre é o mais íntimo e profundo do
ser humano. A liberdade é o domínio de si mesmo, das próprias paixões e
desejos. É livre quem sabe ser "dono e senhor de seus atos e não se deixa
escravizar por nada, e ninguém." A liberdade nasce dentro de nós e
floresce no deserto. Somos educados na liberdade na medida
que sabemos superar as forças do mal e conseguimos estabelecer
equilíbrio entre os instintos da carne e os desejos do espírito.
No Carmelo, na escola principalmente
de S. João da Cruz, aprende-se o caminho da noite e da ascese. Somente
caminhando na noite se chega à alegria da experiência da liberdade que se
encontra na fusão do nosso ser com Deus, onde todas as amarras do pecado são
quebradas.
"Oh!
Chama de amor viva
que
ternamente feres
De minha alma no mais
profundo centro!
Pois não és mais
esquiva,
Acaba já, se queres,
Ah! Rompe a tela
deste doce encontro.
Oh! Cautério suave!
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão! Oh!
Toque delicado
Que a vida eterna
sabe,
E paga toda dívida!
Matando, a morte em
vida me hás trocado.
Oh! Lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas
do sentido,
- que estava escuro e
cego, -
Com estranhos
primores
Calor e luz dão junto
a seu Querido!
Oh! Quão manso e
amoroso
Despertas em meu seio
Onde tu só
secretamente moras:
Nesse aspirar
gostoso,
De bens
e glória cheio,
Quão delicadamente me
enamoras!"
(São João da Cruz,
Chama Viva de amor)
Este sonho e
ideal de liberdade faz-se cada vez mais forte no coração de quem busca com
sinceridade o Senhor. A proposta do Carmelo para o III milênio é que homens e
mulheres sejam livres, não dominados pelas paixões, pelos desejos da carne, do
poder e possa fazer florescer os frutos do Espírito. Uma proposta de liberdade:
"voltar à extrema simplicidade", numa austeridade escolhida e
querida. Não sermos escravos do consumismo, mas sabermos que todas as coisas
devem ser um meio e não um fim em nossas vidas.
Na busca da liberdade é
necessário libertar-se de tudo o que torna duro e pesado o nosso caminho. As
propostas do Carmelo são evangélicas: somente no encontro pessoal com Deus será
possível vivenciar a verdadeira liberdade. A liberdade nasce no deserto: mais
despojados somos e mais seremos livres.