A FORMAÇÃO DO OFÍCIO DIVINO OU
LITURGIA DAS HORAS
ENRIQUE
CALVO
Doutor
em Teologia
(Revista
Celebração Litúrgica, junho/julho de 2003)
Séculos I-III
O costume cristão de recitar orações, em privado e em comum, a certas horas
do dia, ou da noite, vem dos judeus. Estes, no tempo de Jesus Cristo, tinham
uma oração pública e privada perfeitamente regulamentada quanto às horas (meia
noite, horas terceira, sexta e nona) e conteúdo [1][1]. Os Apóstolos cumpriam o costume judeu de orar privadamente a estas horas
(At X, 9; XVI, 25), e também publicamente (At III, 1). A oração
cristã daquela época consistia quase nos mesmos elementos que a judia:
recitação ou canto dos Salmos, leitura do Antigo Testamento – a que cedo se
acrescentou a leitura dos Evangelhos, Atos e Epístolas – e, às vezes, hinos e
cânticos compostos pelos assistentes. Por outro lado, os cristãos tinham as
suas reuniões próprias ou «synaxes» nas casas particulares: para a
celebração da Eucaristia e para ouvir a Palavra de Deus e as exortações. A
Eucaristia em breve motivou outras orações. O costume de irem ao Templo
desapareceu, e os abusos do sector judaizante levaram os cristãos a
distinguirem-se dos judeus, nas suas práticas e cultos.
As primeiras orações rezadas de modo comunitário na Igreja foram as
vigílias dominicais, que eram uma unidade com o «ágape fraterno» e a Eucaristia
ou Missa propriamente dita [2][2].
Nos primeiros tempos do Cristianismo, como era lógico, não havia uniformidade
de celebração nas diferentes comunidades [3][3]. As vigílias estavam divididas, normalmente, em três partes: início da
vigília, com as orações da tarde ou Vésperas, a vigília propriamente dita, com
o «ágape» e a Eucaristia, e as orações de conclusão da vigília. Estas reuniões
prolongavam-se nalgumas comunidades até ao amanhecer, «ante lucem», como
indicavam os informadores de Plínio (a. 113-115). Os primeiros cristãos
esperavam, duma maneira espiritual, a Ressurreição do Senhor [4][4].
Muito provavelmente, com a separação da Eucaristia do «ágape», na vigília
dominical separaram-se as orações do início e da conclusão das vigílias,
passando a ser essas orações, no séc. II, as orações comunitárias de Vésperas e
de Matinas [5][5].
Quanto às orações privadas mais habituais dos cristãos, nestes dois
primeiros séculos, elas eram: Tércia (9 horas), Sexta (meio-dia) e Noa (3 horas
da tarde) [6][6]. Estas orações não supunham uma prática canônica, imposta pelo Bispo, mas
sim um modelo a seguir. Lembravam o dever de rezar e, por uma espécie de lei,
levavam a interromper os trabalhos ordinários para se aplicarem a elas [7][7].
Tertuliano, no séc. II, indicava também que se observassem dois tempos de
oração privada: no princípio do dia e à meia noite. A oração da noite era
pedida a todos os cristãos, não apenas aos fervorosos, apesar de ser incômoda.
Por isso, reconhece a situação difícil na qual pode encontrar-se uma mulher
casada com um pagão: «Não se aperceberá ele quando, ainda durante a noite, te
levantas para orar? Não lhe parecerá que te entregas à magia?» [8][8]
Orígenes, como outros Padres da Igreja, via, nos tempos de oração privada,
o cumprimento do mandamento do Senhor de rezar sem interrupção [9][9].
Nas primeiras décadas do séc. III, Santo Hipólito Romano, na Traditio,
narra o desenvolvimento da Liturgia na capital do orbe cristão. Aí exorta-se os
fiéis a rezarem privadamente orações antes de deitar, à meia noite e ao canto
do galo. Além disso, confirmam-se as orações de Tércia, Sexta e Noa.
Também se encontra a existência duma oração pública da manhã. Em Roma,
havia regras para a instrução regular do povo. Os diáconos e os presbíteros
tinham obrigação de se apresentar aos bispos durante a manhã, para instruírem
os fiéis e rezarem por eles. Os fiéis eram convidados a estar presentes: «Se há
alguma instrução da Palavra, prefira dirigir-se para lá, considerando no seu
coração que é Deus que ouvem naquele que instrui… Se é um dia em que não há
instrução, cada um em sua casa, tome um livro santo e faça uma leitura suficiente
que lhe pareça proveitosa» [10][10].
Além disso, conta Hipólito que, na vigília dominical, se rezava a oração do
«lucernário», antes do «ágape». Era uma oração pública ou litúrgica presidida
pelo bispo ou presbítero ou diácono. Depois da bênção da luz, cantavam-se
Salmos com aleluia. Ainda hoje, na atual Liturgia das Horas, se recitam estes
Salmos (Ps 109-113) com aleluias nas Vésperas dos Domingos. Aliás, os hinos
correspondentes fazem referência à luz.
Estes testemunhos de Santo Hipólito Romano provam que, ainda que
restringido a certos grupos, e nem sempre quotidianamente, já existiam as horas
de Laudes e Vésperas, no seu estado inicial, e rezadas como orações públicas da
Igreja [11][11].
Estas orações públicas da Igreja estavam generalizadas. Com efeito, a meio
do século III, Orígenes admoesta alguns cristãos que, por estarem submersos nos
negócios seculares, não assistiam à oração pública [12][12].
Século IV
Com a paz de Constantino e com a aceitação da fé por uma massa considerável
de fiéis, todos os elementos do culto organizam-se, completam-se e recebem um
influxo vigoroso. Também a oração pública participa deste renascimento
litúrgico, precisa-se melhor nas suas formas e a autoridade eclesiástica
imprime-lhe o seu caráter oficial.
As orações públicas são as já tradicionais no povo crente, Laudes e
Vésperas. Estas são presididas pelo clero, nas igrejas de Roma e em algumas do
Norte de África, e os fiéis eram convidados a elas [13][13].
Já antes do ano 313, tinham-se dado dois fenômenos, quase em simultâneo, que
seriam de grande importância para o desenvolvimento da oração pública da
Igreja. Trata-se da aparição duma espécie de fraternidade de ascetas à volta
das igrejas importantes; e dos monges, formando os primeiros cenóbios, que mais
tarde evoluiriam para os primeiros mosteiros. Estes dois grupos de fiéis
fervorosos consagravam todo o dia à oração, incluindo as três horas da manhã
(Tércia, Sexta e Noa) e uma vigília noturna. Para eles, a sua obrigação por
excelência era o «officium» ou «cursus officii», porque era o
Ofício realizado no decurso da jornada. Com efeito, afirmava Fírmico Materno,
um destes primeiros monges de meados do séc. IV, «que o dever (officium)
mais importante do homem é dedicar, com a língua e a mente, louvores ao seu
Criador» [14][14].
Por isso, a oração comunitária de ascetas e monges chamar-se-á «cursus»,
«officium» ou «cursus officii» [15][15], nomes com que se denominará, desde então, a oração pública da Igreja.
Em breve, a autoridade eclesiástica concedeu que pudessem reunir-se nas
igrejas estes ascetas (aos quais estavam assimiladas as virgens) e monges, para
recitarem a oração da Igreja, dando às suas práticas uma espécie de investidura
oficial. Concretamente, isto acontecia em Roma, onde nas igrejas, além das
basílicas, se celebravam as horas canônicas, com participação do clero, monges
e povo, de manhã e à tarde [16][16].
«A oração pública era própria da assembléia cristã, isto é, da Igreja local
e sob a direção do pastor. Agora, as Igrejas particulares unem-se entre elas e
com a Igreja de Roma, e este fato concretizou-se na organização das horas de
oração e na fixação das fórmulas» [17][17].
Nem todos os monges se agrupavam à volta das igrejas e com uma dependência
direta da organização eclesiástica. Já no Egito, no início do século, havia
monges que rezavam o Ofício sem participação do clero ou dos fiéis. Para eles,
o Ofício era obrigatório pelas respectivas Regras [18][18]. Este tipo de Ofício deu lugar ao Ofício monástico, diferente do celebrado
nas igrejas.
A freira Etéria (ou Egéria) relata o Ofício público em Jerusalém no período
de 380-390 [19][19]. Os ascetas e as virgens celebravam todas as horas existentes até então.
«Os membros do clero, normalmente, vêm só no princípio e no fim, para dizer as
orações e dar a benção ou ainda para começar a salmodia e cantar o Evangelho.
As orações da manhã e da tarde assumem um especial relevo não só porque eram
celebradas com mais solenidade, mas também porque os fiéis nelas participam em
maior número. Embora repartido por diferentes basílicas ou locais, este
conjunto de orações pode considerar-se o Ofício da comunidade, da Igreja local,
ampliado e promulgado pelos monges e ascetas» [20][20].
Pela sua parte, as «Constituições Apostólicas» de 380, que recolhem
sobretudo a normativa canônica e litúrgica do Oriente, indicavam a obrigação
dos bispos de convocar os fiéis para a oração pública da manhã e da tarde [21][21]. A nível pessoal, os fiéis são aconselhados a viver as horas da manhã,
Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e ao canto do galo [22][22].
A oração da manhã daria lugar posteriormente ao Ofício da aurora ou Laudes.
A Hora de Prima e as Completas originaram-se no século seguinte [23][23], com o intuito de preencher os espaços de tempos livres.
Em resumo, no fim deste século o Ofício parece quase estabelecido.
«Observamos a organização nas principais igrejas de um duplo Ofício público ou 'cursus':
o 'cursus' noturno, que compreende as Vésperas, Matinas e Laudes (Hymni
matutini), e o 'cursus' diurno, que compreende as Horas de Tércia,
Sexta e Noa. O primeiro vai-se estendendo cada vez mais, sendo seguido pelo
clero com o povo; pelo contrário, o segundo encontramo-lo só aqui e acolá, e
limitado aos monges e aos ascetas» [24][24].
Séculos V-VI
Muito cedo a Igreja exigiu, através dos Concílios provinciais [25][25], que se utilizassem os livros aprovados pela autoridade competente e o
direito de supervisar a ortodoxia das fórmulas litúrgicas. No entanto, não
impôs um modo uniforme para rezar nas diferentes igrejas.
Com efeito, em cada igreja rezava-se o seu Ofício, que podia ser diferente
do que se rezava noutras. Esta Oração oficial celebrava-se nas igrejas quase
todos os dias, noutras pelo menos ao domingo: umas cantadas pelo clero local,
outras simplesmente salmodiadas.
Durante o séc. VI, a coexistência de dois Ofícios públicos diferenciados,
nas catedrais e igrejas e nos mosteiros, criou uma espécie de tensão entre
ambos. Mas as igrejas acabaram por seguir as horas dos monges. O resultado
desta influência foi a junção de certas horas ao Ofício das catedrais e igrejas
[26][26].
Estes fenômenos também se verificaram nas Igrejas Orientais, com a sua
variedade de ritos e de Ofícios divinos. Entre os séculos V e X, os Ofícios ou
Divinos Louvores rezavam-se publicamente nas igrejas. Não tinham uniformidade:
nem em relação à matéria, nem relação ao tempo. Os presbíteros e monges eram
obrigados a este louvor a Deus.
A primeira organização detalhada do Ofício Divino latino quotidiano, com
obrigação para cada membro da comunidade, está contida na Regula
Monasticorum, redigida no ano 530 por S. Bento. Este quis organizar o
Ofício divino indicando, com mais exatidão, as Horas que se devem fazer aos
domingos e dias de semana, que se devem cantar, etc.
Baseando-se no Ofício das basílicas de Roma, havia diversas Horas: vigílias
noturnas – posteriormente Matinas, Laudes, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas
e Completas.
Na antiga liturgia romana do séc. IV, o despontar da alvorada era um sinal
para mudar – mesmo se não estivesse terminado – o Ofício da vigília. O mesmo S.
Bento indica que os Salmos matutinos (Laudes) comecem com a luz incipiente [27][27].
Este Ofício estendeu-se às Basílicas romanas e, nos séculos seguintes, a
quase toda a Europa cristã.
A modo de conclusão
A oração pública da Igreja surge como uma necessidade dentro da Igreja. Os
primeiros cristãos desejavam cumprir, entre outros modos com os tempos de
oração, o mandamento do Senhor de rezar sem interrupção (Lc 22, 40). As
principais Horas surgem da tradição judaica e das vigílias dominicais noturnas
dos cristãos. Com a paz de Constantino coexistem um duplo 'officium' ou 'cursus'
público: um nas catedrais e igrejas, com a celebração de Laudes e Vésperas,
presidido pelos presbíteros, ao qual é convidado o povo e os monges; e outro,
celebrado exclusivamente pelos monges nos mosteiros, que, por disporem de mais
tempo, fazem a recitação de todas as Horas.
[1][1] Garzon Serfarty, voz Judaismo
II, in GRAN ENCICLOPEDIA RIALP (GER) XIII, 614.
[2][2] Klaus Gamber, La Reforma da
la Liturgia Romana, Ed. Renovación, Madrid 1996, 17-18; J. Daniélou, Nueva
Historia de la Iglesia I, Parte I, Desde los orígenes al Concilio de
Nicea, Ed. Cristiandad, Madrid 1982, 52-53.
[3][3] J. A. Jungmann, El
sacrificio de la Misa, BAC, Madrid 1953, pp. 34-38. Nomeadamente, as notas 39, 40, 41.
[4][4] Ibidem, 41; F. Cabrol, voz Liturgia
de las Horas, in La Enciclopedia Católica, ACIPRENSA, 1999.
[5][5] Ibidem, 41; M Righetti, Historia
de la Liturgia I, BAC, Madrid 1955, 1080.
[6][6] Didaké (cerca dos anos 80-90),
c.8, 2-3; Tertuliano (cerca do ano 180), De Oratione, 25.
[7][7] Cfr. Tertuliano, De Oratione, 25.
[8][8] Tertuliano, Ad uxorem, 2,4.
[9][9] Orígenes, De oratione, 12, 2, MG
11, 549 B: «'sine intermissione orate'… et non minus qua ter quaque die fieri
debet» (orai sem interrupção… e não menos que três vezes deve-se fazer em
qualquer dia).
[10][10] Traditio Apostolica,
41.
[11][11] J. A. Jungmann, La Liturgie des
premières siecles, Ed. du Cerf, Paris 1962, 169.
[12][12] Orígenes, Homiliae in Genesim,
X,1, MG 12 , 329 D.
[13][13] M Righetti, ibidem, 1096.
[14][14] M Righetti, ibidem, 1094: «quod in
hominem maximum est linguae ac mentis officium Auctoris sui laudibus deputare».
[15][15] Talvez nos séc. III e IV, o termo
empregado, mais freqüentemente, nas fontes seja «cursus».
[16][16] P. Salmon, L'Office divin, Ed. du
Cerf, Paris 1959, 17.
[17][17] P. Salmon, A Oração das Horas, in
A. G. Martimort, A Igreja em Oração, Desclée-Tournai,1965, 918.
[18][18] P. Salmon, L'Office divin, Ed. du
Cerf, Paris 1959, 14-15 . Nomeadamente,
o indicado sobre a Regra de S. Pacómio († 348) para os monges do Egipto, e de
S. Basílio († 379) para os da Capadócia.
[19][19] Peregrinatio Aetheriae, II, 24-27.
[20][20] Luis Ribeiro, A Oração da Igreja
através dos tempos, in «Boletim de Pastoral Litúrgica», 21-24 (Jan-Dez
1981), 23.
[21][21] Constitutiones Apostolicas, VIII,
35; M Righetti, ibidem, 1088.
[22][22] Constitutiones Apostolicas, VIII,
4: «Precationes facite mane, hora tertia, sexta, nona et
vespere atque galli cantu».
[23][23] J. A. Jungmann, La Liturgie des
premières siecles, Ed. du Cerf, Paris 1962, 427
[24][24] M Righetti, ibidem, 1093.
[25][25] Milevi (416), Vanne (461), Agde (506),
Braga (563).
[26][26] P. Salmon, A Oração das Horas, in
A. G. Martimort, A Igreja em Oração, Desclée-Tournai,1965, 929.
[27][27] Righetti, ibidem, 1261:
«incipiente luce».