TEMAS LITÚRGICOS
A IGREJA E A INCULTURAÇÃO DO RITO
ROMANO
Doutor
em Teologia
(Revista
Celebração Litúrgica, agosto/setembro de 2003)
Muito se escreveu sobre a inculturação e, apesar da palavra ser um
neologismo, não é tão difícil encontrá-la presente em escritos de caráter
pastoral e mesmo teológico. Trata-se de um fenômeno complexo e multifacetado.
Por isso, apenas pretendíamos, neste breve artigo, analisar algumas relações e
implicações eclesiológicas da inculturação litúrgica.
A natureza da liturgia está intimamente ligada à natureza da Igreja, até ao
extremo de que é sobretudo na liturgia que a natureza da Igreja se manifesta [1][1]. A liturgia
existe no seio da Igreja, e a Igreja edifica-se mediante a ação de Cristo e do
seu Espírito na liturgia. Assim, podemos afirmar que uma não existe sem a
outra. Poderia, quando muito, existir uma ritualidade sem Igreja, mas nunca
poderia existir uma liturgia. Da mesma forma, poderia existir uma assembléia de
pessoas sem a liturgia, mas nunca existiria a Igreja de Deus.
Neste sentido compreende-se já o papel delicado que compete à inculturação
litúrgica, dada a sua estreita relação com a natureza da Igreja. Efetivamente,
toda a celebração litúrgica, especialmente a celebração da Eucaristia e dos
sacramentos, é um encontro entre Cristo e a Igreja [2][2]. Por isso,
João Paulo II refere-se à liturgia como «o lugar privilegiado do encontro dos
cristãos com Deus e com o seu enviado Jesus Cristo» [3][3]. Ela é, ao
mesmo tempo, a ação de Cristo sacerdote e a ação da Igreja que é o seu corpo,
pois para levar a cabo a obra de glorificação de Deus e de santificação dos
homens, realizada através de sinais sensíveis, Cristo associa sempre consigo a
Igreja que, por Ele e no Espírito Santo, oferece ao Pai o culto que lhe é
devido [4][4].
Mas esta relação é ainda mais íntima. Na realidade, na Igreja, e em
particular na Igreja que celebra o Mistério de Cristo, unem-se inseparavelmente
o Espírito Santo, a nossa humanidade e a do Verbo Encarnado. Através da liturgia
que celebramos na Igreja, somos inseridos na Liturgia celeste. Assim, a
liturgia não será uma componente do mistério da Igreja, mas sim a Igreja a
condição atual da Liturgia na nossa humanidade mortal. A Esposa de Cristo,
vista desta forma, será como o rosto humano da Liturgia celeste, a sua presença
radiante e transformante no nosso tempo [5][5].
Assim, tendo em conta esta união inseparável entre a Igreja e a liturgia,
intuímos o papel delicado que possui a inculturação litúrgica, pois, da forma
como esta for levada a cabo, depende a natureza da própria liturgia e,
portanto, da Igreja.
A inculturação litúrgica está chamada a conjugar o equilíbrio entre fé e
cultura no seio da liturgia. E se não se conserva dentro do equilíbrio entre
estas duas fidelidades (à fé e à cultura), levará à ruptura da natureza da
liturgia e, com ela, ao desmoronamento da natureza da Igreja.
1. Prolongamento do Mistério de Cristo ao longo da
história por intermédio da Igreja
As questões que a inculturação do Rito romano suscita atualmente podem
encontrar alguma aclaração na história da salvação. Efetivamente, tal fenômeno
pode ser encontrado já no Antigo Testamento e é co-natural a toda a expansão do
cristianismo ao longo dos últimos dois mil anos. Neste sentido, ainda que a inculturação
se tenha dado ao longo de toda a história da salvação, ela tem uma especial
ligação com o tempo da Igreja.
Efetivamente, Jesus, com o seu mistério pascal, dá inicio à última etapa da
história da salvação: a hora da Igreja. Nela, as maravilhas de Deus devem ser
anunciadas a todas as nações, culturas e povos. A salvação realiza-se então
mediante a presença da Santíssima Trindade na sua Igreja e, de forma especial,
na liturgia.
É precisamente esta presença do Mistério de Cristo na Igreja e na liturgia
que permite compreender e delimitar bem a inculturação. Efetivamente, como é
sabido, o Mistério da Encarnação é a luz e a referência para conduzir e
fomentar todo o processo de inculturação. Porque, a Encarnação de Cristo possui
um paralelo com a encarnação do Evangelho, que é fonte de luz essencial para
tratar este fenômeno. Assim, a inculturação está chamada a assumir as culturas
humanas mas também a redimi-las. É à luz deste mistério que se deve realizar o
discernimento dos elementos que podem ou não ser assumidos e incluídos na
celebração litúrgica.
Agora, este mistério é prolongado na história por intermédio da Igreja.
Cristo continua entre os homens, na sua Igreja, através da economia sacramental
e, especialmente, através da Eucaristia [6][6]. E quer
unir-se a todos os homens. A Igreja sob o mandato de Cristo expande-se pelo
mundo e entra em contacto com todos os povos e culturas, e este contacto leva
necessariamente a uma relação intercultural. Por isso, a difusão do Evangelho
levou a que surjam diferentes formas rituais nas Igrejas provenientes da
gentilidade, sob a influência de diversas tradições culturais. Na realidade,
«ao longo dos séculos, o Rito romano demonstrou repetidamente a sua capacidade
de integrar textos, cantos, gestos e ritos de diversa procedência e soube
adaptar-se às culturas locais dos países de missão, embora nalgumas épocas
tenha prevalecido a preocupação da uniformidade litúrgica» [7][7].
Dos acontecimentos da história da salvação e das suas implicações deriva
que a liturgia, como o Evangelho, deve respeitar as culturas, mas ao mesmo
tempo convida-as a purificarem-se e a santificarem-se. Por isso, a Igreja
fomenta e assume e, ao assumi-las, purifica, fortalece e eleva todas as
capacidades, riquezas e costumes dos povos no que têm de bom [8][8]. Existe, pois,
um desafio perene, que começou com o surgir da Igreja e que sempre a
acompanhará, que consiste em conciliar as renúncias impostas pela fé em Cristo
com a fidelidade à cultura e às próprias tradições.
2. A vida da Igreja como Tradição em ato: lugar de
discernimento para salvaguardar o essencial
A plena catolicidade da Igreja (aquela que se manifesta de forma especial
quando a Igreja celebra o Mistério de Cristo) exprime-se, não por intermédio de
uma única tradição litúrgica, mas sim através de diferentes tradições, sem que
estas constituam pólos de oposição. Porque o Mistério celebrado na liturgia é
uno, embora as formas de celebrar sejam diferentes [9][9].
É conhecido que, pela inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas
culturas e simultaneamente introduz os povos com as suas culturas na sua
própria comunidade [10][10].
Tendo isto em conta, um retorno às fontes da única Tradição litúrgica, que
originou todas as restantes, permitirá compaginar harmoniosamente estes dois
movimentos intrínsecos ao processo de inculturação, sem centrar a questão sobre
a prioridade ou a proeminência de uma parte sobre a outra, isto é, da liturgia
sobre a cultura ou vice-versa.
Efetivamente, a Palavra de Deus, primeiro elemento constitutivo da
liturgia, é sempre a mesma, ontem, hoje e por todos os séculos [11][11]. A própria
fé, se é verdadeiramente a fé cristã que nasce da palavra de Deus proclamada,
recebida, aprofundada, celebrada e vivida, é a mesma em qualquer época e lugar.
As preces de louvor e de ação de graças que brotam da fé e da conversão dos
fiéis são sempre louvores e ações de graças, quaisquer que sejam as línguas e
as culturas que as pronunciem. No entanto, são ações especiais e únicas, pois
são realizadas através de Cristo, com Cristo e em Cristo. Assim, a diversidade
de formas rituais é mantida na unidade através da ação de Cristo e do Espírito
Santo.
Os estilos próprios e típicos das numerosas Igrejas locais mostram que a
Palavra de Deus, anunciada a um povo, é feita revelação que se partilha e se
perpetua. Isto significa que ela é susceptível de adaptação. A Palavra de Deus
torna-se totalmente compreensível quando Cristo fala a língua dos diferentes
povos. É então quando estes começam a compreendê-la em profundidade e a cantar
um sincero canto de louvor a Deus, isto é, a celebrar o Mistério de Cristo
fazendo uso das suas próprias expressões. Desta forma, a partir da vida da
Igreja, desde o próprio dia de Pentecostes, verifica-se o discernimento que
permite a salvaguarda do essencial. A vida da Igreja, entendida como Tradição
em ato, é assim o lugar onde se verifica a compatibilidade entre os dois pólos
da inculturação [12][12], isto é,
entre essas duas fidelidades, à fé e à cultura. Ou, por outras palavras, é na vida
da Igreja que a multidão dos filhos de Deus mediante a sua cultura humana
própria, assumida e transfigurada por Cristo, tem acesso ao Pai, para O
glorificar num só Espírito.
3. Missão da Igreja e inculturação litúrgica
A tomada de consciência da necessidade de fomentar e de acelerar o processo
de inculturação deu-se num ambiente de missão. Por isso, não estranha que
historicamente a inculturação litúrgica apresente uma relação profunda com a
evangelização. Na realidade, as diversas tradições litúrgicas nasceram devido à
missão da Igreja. As Igrejas de uma mesma área geográfica e cultural chegaram a
celebrar o Mistério de Cristo através de expressões particulares, culturalmente
tipificadas. Tanto é assim que alguns autores consideram a inculturação litúrgica
como um momento do processo amplo de evangelização [13][13]. Está claro
que os dois processos se interpenetram e possuem uma estreita ligação. No
entanto, são processos diferentes que se encontram ativos continuamente na vida
da Igreja, seja qual for o estádio ou desenvolvimento da comunidade local. De
forma esquemática, e naturalmente simplificada, podemos dizer que da
evangelização nasce a fé, e a fé implica conversão pessoal. Uma conversão
profunda e integral, que ponha em prática todas as implicações da fé em Cristo,
leva à verdadeira inculturação. Se essa fé é vivida individualmente em
plenitude, ela levará necessariamente à sua expressão segundo os modos
culturais próprios de cada povo. O Evangelho encontra-se na vida de cada
pessoa, e a pessoa com a sua cultura vive o Evangelho.
Tal não significa que o anúncio do Evangelho não deva ser feito tendo em
conta a necessidade de inculturação. Efetivamente, se esta conversão se dá e se
o Evangelho transforma por dentro e a partir de dentro uma determinada cultura,
o Evangelho vai ser pregado no seio dessa comunidade de acordo com essa
cultura, informado por esses elementos que ele purificou e transformou. Essa
fé, ao fazer-se cultura, apresenta-se perante os homens e mulheres dessa
comunidade como uma chamada mais clara e mais compreensível a buscar e a
alcançar a verdade. Daí que afirme João Paulo II: «(...) a Igreja, com a
inculturação, torna-se um sinal mais transparente daquilo que realmente ela é,
e um instrumento mais apto para a missão» [14][14].
4. O equilíbrio da Tradição: abertura à inovação
(rejeitando o passageiro e efêmero) e fidelidade ao essencial da fé
A Tradição litúrgica é patrimônio da Igreja de Cristo, memória viva do
Ressuscitado. São os apóstolos e os discípulos que dão testemunho de Cristo
Ressuscitado e Glorificado e, ao mesmo tempo, asseguram este testemunho graças
à sucessão apostólica que chega até aos nossos dias. A Tradição e a sucessão
apostólica são pois inseparáveis. Estão presentes, de alguma forma, no interior
do patrimônio histórico e cultural de cada Igreja particular, desse patrimônio
que é transmitido de geração em geração.
A Tradição, com efeito, não é uma simples repetição de fórmulas. Ela
conserva, transmite e amplifica o núcleo originário recebido. Vemo-nos, portanto,
diante de outro equilíbrio entre dois pólos, semelhante e com muitas
implicações naquele da inculturação. Por um lado, a Tradição deve preservar a
Igreja do perigo de se apegar a opiniões passageiras e efêmeras e, neste
sentido, é compatível com o novo e com o moderno. Por outro, deve assegurar a
fidelidade a tudo aquilo que é essencial e nuclear na fé cristã [15][15].
Podemos concluir que a inculturação depende, em grande medida, de que se
verifique este equilíbrio por parte da Tradição, que será obra do Espírito
Santo. Assim, a Igreja informada pela Tradição tem a capacidade de levar a
liturgia a qualquer cultura e fomentar um processo de inculturação que respeite
a identidade das celebrações litúrgicas.
[1][1] Cfr. Sacrosanctum Concilium 2;
JOÃO PAULO II, Carta Ap. Vicesimus
Quintus Annus (4.XII.88),
9.
[2][2] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1097.
[3][3] JOÃO PAULO II, Carta Ap. Vicesimus Quintus Annus (4.XII.88), 7.
[4][4] Cfr. Sacrosanctum Concilium 5-7.
[5][5] Cfr. J. CORBON, Liturgia alla sorgente,
Roma 1983, p. 66.
[6][6] Cfr. Sacrosanctum Concilium 7.
[7][7] Cfr. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A
DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instrução Varietates Legitimae (25.I.94),
17.
[8][8] Cfr. Lumen Gentium 13, 17.
[9][9] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1200.
[10][10] Cfr. JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Missio (7.XII.90), 52.
[11][11] Cfr. Heb 13, 2.
[12][12] Cfr. A. TRIACCA, Inculturation et
liturgie: événements de l’Esprit Saint, em: «Liturgie et cultures»,
A. TRIACA - A. PISTOIA (ed.), Paris 1997, p. 207.
[13][13] Cfr. F. BRAMBILLA, Ermeneutica
teologica dell’adattamento liturgico, em «Liturgia e adattamento»,
ASSOCIAZIONE PROFESSORI DI LITURGIA, Roma 1990, p. 56.
[14][14] JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Missio (7.XII.90), 52; Cfr. Exort. Ap. Ecclesia
in Asia (6.XI.99), 21.
[15][15] Cfr. A. TRIACCA, Inculturation et
liturgie: événements de l’Esprit Saint, em: «Liturgie et cultures»,
A. TRIACA - A. PISTOIA (ed.), Paris 1997, p. 209.