TEMAS LITÚRGICOS

A IGREJA E A INCULTURAÇÃO DO RITO ROMANO

 

Pe. Pedro Boléo Tomé

Doutor em Teologia

(Revista Celebração Litúrgica, agosto/setembro de 2003)

 

Muito se escreveu sobre a inculturação e, apesar da palavra ser um neologismo, não é tão difícil encontrá-la presente em escritos de caráter pastoral e mesmo teológico. Trata-se de um fenômeno complexo e multifacetado. Por isso, apenas pretendíamos, neste breve artigo, analisar algumas relações e implicações eclesiológicas da inculturação litúrgica.

A natureza da liturgia está intimamente ligada à natureza da Igreja, até ao extremo de que é sobretudo na liturgia que a natureza da Igreja se manifesta [1][1]. A liturgia existe no seio da Igreja, e a Igreja edifica-se mediante a ação de Cristo e do seu Espírito na liturgia. Assim, podemos afirmar que uma não existe sem a outra. Poderia, quando muito, existir uma ritualidade sem Igreja, mas nunca poderia existir uma liturgia. Da mesma forma, poderia existir uma assembléia de pessoas sem a liturgia, mas nunca existiria a Igreja de Deus.

Neste sentido compreende-se já o papel delicado que compete à inculturação litúrgica, dada a sua estreita relação com a natureza da Igreja. Efetivamente, toda a celebração litúrgica, especialmente a celebração da Eucaristia e dos sacramentos, é um encontro entre Cristo e a Igreja [2][2]. Por isso, João Paulo II refere-se à liturgia como «o lugar privilegiado do encontro dos cristãos com Deus e com o seu enviado Jesus Cristo» [3][3]. Ela é, ao mesmo tempo, a ação de Cristo sacerdote e a ação da Igreja que é o seu corpo, pois para levar a cabo a obra de glorificação de Deus e de santificação dos homens, realizada através de sinais sensíveis, Cristo associa sempre consigo a Igreja que, por Ele e no Espírito Santo, oferece ao Pai o culto que lhe é devido [4][4].

Mas esta relação é ainda mais íntima. Na realidade, na Igreja, e em particular na Igreja que celebra o Mistério de Cristo, unem-se inseparavelmente o Espírito Santo, a nossa humanidade e a do Verbo Encarnado. Através da liturgia que celebramos na Igreja, somos inseridos na Liturgia celeste. Assim, a liturgia não será uma componente do mistério da Igreja, mas sim a Igreja a condição atual da Liturgia na nossa humanidade mortal. A Esposa de Cristo, vista desta forma, será como o rosto humano da Liturgia celeste, a sua presença radiante e transformante no nosso tempo [5][5].

Assim, tendo em conta esta união inseparável entre a Igreja e a liturgia, intuímos o papel delicado que possui a inculturação litúrgica, pois, da forma como esta for levada a cabo, depende a natureza da própria liturgia e, portanto, da Igreja.

A inculturação litúrgica está chamada a conjugar o equilíbrio entre fé e cultura no seio da liturgia. E se não se conserva dentro do equilíbrio entre estas duas fidelidades (à fé e à cultura), levará à ruptura da natureza da liturgia e, com ela, ao desmoronamento da natureza da Igreja.

 

1. Prolongamento do Mistério de Cristo ao longo da história por intermédio da Igreja

 

As questões que a inculturação do Rito romano suscita atualmente podem encontrar alguma aclaração na história da salvação. Efetivamente, tal fenômeno pode ser encontrado já no Antigo Testamento e é co-natural a toda a expansão do cristianismo ao longo dos últimos dois mil anos. Neste sentido, ainda que a inculturação se tenha dado ao longo de toda a história da salvação, ela tem uma especial ligação com o tempo da Igreja.

Efetivamente, Jesus, com o seu mistério pascal, dá inicio à última etapa da história da salvação: a hora da Igreja. Nela, as maravilhas de Deus devem ser anunciadas a todas as nações, culturas e povos. A salvação realiza-se então mediante a presença da Santíssima Trindade na sua Igreja e, de forma especial, na liturgia.

É precisamente esta presença do Mistério de Cristo na Igreja e na liturgia que permite compreender e delimitar bem a inculturação. Efetivamente, como é sabido, o Mistério da Encarnação é a luz e a referência para conduzir e fomentar todo o processo de inculturação. Porque, a Encarnação de Cristo possui um paralelo com a encarnação do Evangelho, que é fonte de luz essencial para tratar este fenômeno. Assim, a inculturação está chamada a assumir as culturas humanas mas também a redimi-las. É à luz deste mistério que se deve realizar o discernimento dos elementos que podem ou não ser assumidos e incluídos na celebração litúrgica.

Agora, este mistério é prolongado na história por intermédio da Igreja. Cristo continua entre os homens, na sua Igreja, através da economia sacramental e, especialmente, através da Eucaristia [6][6]. E quer unir-se a todos os homens. A Igreja sob o mandato de Cristo expande-se pelo mundo e entra em contacto com todos os povos e culturas, e este contacto leva necessariamente a uma relação intercultural. Por isso, a difusão do Evangelho levou a que surjam diferentes formas rituais nas Igrejas provenientes da gentilidade, sob a influência de diversas tradições culturais. Na realidade, «ao longo dos séculos, o Rito romano demonstrou repetidamente a sua capacidade de integrar textos, cantos, gestos e ritos de diversa procedência e soube adaptar-se às culturas locais dos países de missão, embora nalgumas épocas tenha prevalecido a preocupação da uniformidade litúrgica» [7][7].

Dos acontecimentos da história da salvação e das suas implicações deriva que a liturgia, como o Evangelho, deve respeitar as culturas, mas ao mesmo tempo convida-as a purificarem-se e a santificarem-se. Por isso, a Igreja fomenta e assume e, ao assumi-las, purifica, fortalece e eleva todas as capacidades, riquezas e costumes dos povos no que têm de bom [8][8]. Existe, pois, um desafio perene, que começou com o surgir da Igreja e que sempre a acompanhará, que consiste em conciliar as renúncias impostas pela fé em Cristo com a fidelidade à cultura e às próprias tradições.

 

2. A vida da Igreja como Tradição em ato: lugar de discernimento para salvaguardar o essencial

 

A plena catolicidade da Igreja (aquela que se manifesta de forma especial quando a Igreja celebra o Mistério de Cristo) exprime-se, não por intermédio de uma única tradição litúrgica, mas sim através de diferentes tradições, sem que estas constituam pólos de oposição. Porque o Mistério celebrado na liturgia é uno, embora as formas de celebrar sejam diferentes [9][9].

É conhecido que, pela inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade  [10][10].

Tendo isto em conta, um retorno às fontes da única Tradição litúrgica, que originou todas as restantes, permitirá compaginar harmoniosamente estes dois movimentos intrínsecos ao processo de inculturação, sem centrar a questão sobre a prioridade ou a proeminência de uma parte sobre a outra, isto é, da liturgia sobre a cultura ou vice-versa.

Efetivamente, a Palavra de Deus, primeiro elemento constitutivo da liturgia, é sempre a mesma, ontem, hoje e por todos os séculos [11][11]. A própria fé, se é verdadeiramente a fé cristã que nasce da palavra de Deus proclamada, recebida, aprofundada, celebrada e vivida, é a mesma em qualquer época e lugar. As preces de louvor e de ação de graças que brotam da fé e da conversão dos fiéis são sempre louvores e ações de graças, quaisquer que sejam as línguas e as culturas que as pronunciem. No entanto, são ações especiais e únicas, pois são realizadas através de Cristo, com Cristo e em Cristo. Assim, a diversidade de formas rituais é mantida na unidade através da ação de Cristo e do Espírito Santo.

Os estilos próprios e típicos das numerosas Igrejas locais mostram que a Palavra de Deus, anunciada a um povo, é feita revelação que se partilha e se perpetua. Isto significa que ela é susceptível de adaptação. A Palavra de Deus torna-se totalmente compreensível quando Cristo fala a língua dos diferentes povos. É então quando estes começam a compreendê-la em profundidade e a cantar um sincero canto de louvor a Deus, isto é, a celebrar o Mistério de Cristo fazendo uso das suas próprias expressões. Desta forma, a partir da vida da Igreja, desde o próprio dia de Pentecostes, verifica-se o discernimento que permite a salvaguarda do essencial. A vida da Igreja, entendida como Tradição em ato, é assim o lugar onde se verifica a compatibilidade entre os dois pólos da inculturação [12][12], isto é, entre essas duas fidelidades, à fé e à cultura. Ou, por outras palavras, é na vida da Igreja que a multidão dos filhos de Deus mediante a sua cultura humana própria, assumida e transfigurada por Cristo, tem acesso ao Pai, para O glorificar num só Espírito.

 

3. Missão da Igreja e inculturação litúrgica

 

A tomada de consciência da necessidade de fomentar e de acelerar o processo de inculturação deu-se num ambiente de missão. Por isso, não estranha que historicamente a inculturação litúrgica apresente uma relação profunda com a evangelização. Na realidade, as diversas tradições litúrgicas nasceram devido à missão da Igreja. As Igrejas de uma mesma área geográfica e cultural chegaram a celebrar o Mistério de Cristo através de expressões particulares, culturalmente tipificadas. Tanto é assim que alguns autores consideram a inculturação litúrgica como um momento do processo amplo de evangelização [13][13]. Está claro que os dois processos se interpenetram e possuem uma estreita ligação. No entanto, são processos diferentes que se encontram ativos continuamente na vida da Igreja, seja qual for o estádio ou desenvolvimento da comunidade local. De forma esquemática, e naturalmente simplificada, podemos dizer que da evangelização nasce a fé, e a fé implica conversão pessoal. Uma conversão profunda e integral, que ponha em prática todas as implicações da fé em Cristo, leva à verdadeira inculturação. Se essa fé é vivida individualmente em plenitude, ela levará necessariamente à sua expressão segundo os modos culturais próprios de cada povo. O Evangelho encontra-se na vida de cada pessoa, e a pessoa com a sua cultura vive o Evangelho.

Tal não significa que o anúncio do Evangelho não deva ser feito tendo em conta a necessidade de inculturação. Efetivamente, se esta conversão se dá e se o Evangelho transforma por dentro e a partir de dentro uma determinada cultura, o Evangelho vai ser pregado no seio dessa comunidade de acordo com essa cultura, informado por esses elementos que ele purificou e transformou. Essa fé, ao fazer-se cultura, apresenta-se perante os homens e mulheres dessa comunidade como uma chamada mais clara e mais compreensível a buscar e a alcançar a verdade. Daí que afirme João Paulo II: «(...) a Igreja, com a inculturação, torna-se um sinal mais transparente daquilo que realmente ela é, e um instrumento mais apto para a missão» [14][14].

 

4. O equilíbrio da Tradição: abertura à inovação (rejeitando o passageiro e efêmero) e fidelidade ao essencial da fé

 

A Tradição litúrgica é patrimônio da Igreja de Cristo, memória viva do Ressuscitado. São os apóstolos e os discípulos que dão testemunho de Cristo Ressuscitado e Glorificado e, ao mesmo tempo, asseguram este testemunho graças à sucessão apostólica que chega até aos nossos dias. A Tradição e a sucessão apostólica são pois inseparáveis. Estão presentes, de alguma forma, no interior do patrimônio histórico e cultural de cada Igreja particular, desse patrimônio que é transmitido de geração em geração.

A Tradição, com efeito, não é uma simples repetição de fórmulas. Ela conserva, transmite e amplifica o núcleo originário recebido. Vemo-nos, portanto, diante de outro equilíbrio entre dois pólos, semelhante e com muitas implicações naquele da inculturação. Por um lado, a Tradição deve preservar a Igreja do perigo de se apegar a opiniões passageiras e efêmeras e, neste sentido, é compatível com o novo e com o moderno. Por outro, deve assegurar a fidelidade a tudo aquilo que é essencial e nuclear na fé cristã [15][15].

Podemos concluir que a inculturação depende, em grande medida, de que se verifique este equilíbrio por parte da Tradição, que será obra do Espírito Santo. Assim, a Igreja informada pela Tradição tem a capacidade de levar a liturgia a qualquer cultura e fomentar um processo de inculturação que respeite a identidade das celebrações litúrgicas.

 



[1][1] Cfr. Sacrosanctum Concilium 2; JOÃO PAULO II, Carta Ap. Vicesimus Quintus Annus (4.XII.88), 9.

[2][2] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1097.

[3][3] JOÃO PAULO II, Carta Ap. Vicesimus Quintus Annus (4.XII.88), 7.

[4][4] Cfr. Sacrosanctum Concilium 5-7.

[5][5] Cfr. J. CORBON, Liturgia alla sorgente, Roma 1983, p. 66.

[6][6] Cfr. Sacrosanctum Concilium 7.

[7][7] Cfr. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instrução Varietates Legitimae (25.I.94), 17.

[8][8] Cfr. Lumen Gentium 13, 17.

[9][9] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1200.

[10][10] Cfr. JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Missio (7.XII.90), 52.

[11][11] Cfr. Heb 13, 2.

[12][12] Cfr. A. TRIACCA, Inculturation et liturgie: événements de l’Esprit Saint, em: «Liturgie et cultures», A. TRIACA - A. PISTOIA (ed.), Paris 1997, p. 207.

[13][13] Cfr. F. BRAMBILLA, Ermeneutica teologica dell’adattamento liturgico, em «Liturgia e adattamento», ASSOCIAZIONE PROFESSORI DI LITURGIA, Roma 1990, p. 56.

[14][14] JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Missio (7.XII.90), 52; Cfr. Exort. Ap. Ecclesia in Asia (6.XI.99), 21.

[15][15] Cfr. A. TRIACCA, Inculturation et liturgie: événements de l’Esprit Saint, em: «Liturgie et cultures», A. TRIACA - A. PISTOIA (ed.), Paris 1997, p. 209.