A MÚSICA NA IGREJA
(RECOLHIDO NA
INTERNET)
Às margens dos rios
de Babilônia
nós nos assentávamos e chorávamos,
lembrando-nos de Sião.
Nos salgueiros que lá havia
pendurávamos as nossas harpas
pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam
canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres,
dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião.
Como, porém, haveríamos de entoar o canto do Senhor em terra estranha?
É
importante refletirmos sobre um assunto tão fundamental e queremos deixar
claro, de início, que as nossas considerações não são, de modo algum,
dogmáticas. Pelo contrário, podemos conversar sobre elas com toda a liberdade
deixando-nos guiar pela Palavra de Deus e a Tradição da Igreja. Sem dúvida,
esse é um assunto delicado e difícil, mas cujo debate não pode ser adiado. Tem
sido dito que a música vem se tornando um problema na Igreja atualmente. Porém
não podemos concordar inteiramente com isso. Estamos convencidos de que seria
mais correto dizer que a música reflete um problema já existente na Igreja. Ela
simplesmente é, quem sabe, a parte mais notada e audível do problema.
Estudando
a história do Salmo 137, esse bonito e triste salmo cantado pelo povo de Israel
no cativeiro da Babilônia, lembramo-nos de uma frase proferida pela cantora
Elis Regina, alguns meses antes da sua morte. Ela disse em uma entrevista: "Sou
como o Assum-preto que tem que cantar mais e mais quando lhe furam os
olhos". A frase nos deixou intrigados e procuramos saber o seu
significado. Descobrimos que o Assum-preto é um pássaro criado em gaiola, por
aqueles que gostam de pássaros cativos, cujo canto é muito bonito e constante.
Apesar disso, descobriu-se um modo de fazer com que esse pássaro cante ainda
mais. Eles furam-lhe os olhos e, assim, na triste escuridão de sua vida, ao
invés de se calar, ele canta ainda mais. Isso serve de enlevo para os que o
mantêm na gaiola. Essa triste história traz-nos à lembrança a narrativa do que
antecedeu o cântico do Salmo 137.
No ano
587 a.C., Zedequias reinava em Judá. Seu reino foi atacado por Nabucodonosor; e
Jerusalém, a capital de Judá, foi cercada pelo exército inimigo, tornando-se
impossível entrar ou sair da cidade. Em virtude disso, mais cedo ou mais tarde
a rendição teria que acontecer, como de fato aconteceu. Quando Jerusalém caiu,
os babilônios, liderados por Nabucodonosor, entraram na cidade e prenderam o
rei Zedequias. Os cruéis dominadores degolaram os filhos de Zedequias em sua
presença e depois lhe furaram os olhos. Então o rei foi levado para Babilônia
para passar o final da sua vida tendo como última coisa vista exatamente a
morte dos seus filhos. Na Babilônia, o povo que tivera os "olhos
furados" foi instigado a cantar. "...aqueles que nos levaram
cativos nos pediam canções" (v. 3). Os opressores queriam ouvir o
cântico de Sião. Estranhamente, o povo opressor pedia manifestações artísticas,
culturais e até mesmo religiosas aos cativos. Normalmente, o conquistador
impunha os seus hábitos, sua língua, e suas expressões culturais aos
conquistados. Mas ainda assim, os babilônios queriam ouvir os cânticos de Sião.
Que cântico de Sião é este? Como era o cântico conhecido como "Cântico de
Sião"?
Os
cânticos de Sião falam do Deus que intervém em favor do Seu povo. Os babilônios
queriam ouvir exatamente esses cânticos, com os instrumentos apropriados. Israel,
contudo, pendurou as harpas nos salgueiros por não conseguir cantar em terra
estrangeira.
O fato
é que durante toda a história do povo no Velho Testamento e depois da vinda de
Cristo, durante toda a nossa história cristã, a música fez parte dos momentos
mais importantes da vida do povo de Deus. Isso continua sendo verdade em nossos
dias. Contudo, a Igreja passa por um momento cuja ênfase quanto ao canto, ao
som de instrumentos e das vozes no culto, não obedece a um padrão. Qual é o
verdadeiro papel da música no culto litúrgico? Para que realmente serve a
música?
Criando
uma atmosfera - Costumamos dizer, a grosso modo, que a música tem, pelo menos,
dois papéis muito importantes no culto: o de impressão e o de expressão.
O PAPEL
DA IMPRESSÃO
A
impressão tem a ver com a criação de um ambiente próprio, de uma atmosfera que
mexe com as pessoas, quer elas queiram, quer não.
Sempre se soube que a música tem algum efeito sobre o ser humano. Nas últimas décadas, pesquisas comprovaram que ela mexe não só com os seres humanos mas, também, com os animais e vegetais. É possível que muitos já tenham lido, em alguma revista, reportagens sobre plantações que passam a produzir mais pela influência da música; ou sobre gado confinado, particularmente na Suíça, que em virtude da música passa a produzir mais leite. Tudo isso é verdadeiro. O que não se sabia, com clareza, é como ela age nos seres humanos. Mas o fato é que, quando ouvimos determinadas músicas, ficamos tristes ou alegres. A esse poder, a essa característica que a música tem, chamamos de função subjetiva. Ou seja, em alguns ocorre uma reação, em outros parece nada ocorrer. A ciência tem procurado definir exatamente, e de forma objetiva, o que a música faz. Onde a música mexe com a gente? Por onde a gente é pego? Será que tem a ver com razões culturais? Será que é porque a gente gosta mais de uma e menos de outra? Como funciona tudo isso? Será tudo isso subjetivo ou há uma razão objetiva? Isso é uma reação orgânica? Essas perguntas, já há algum tempo, incomodam os cientistas. Clínicas especializadas têm dedicado anos nessa pesquisa. Portanto, no culto litúrgico, o papel de impressão é de grande importância para criar um ambiente adequado. A música, até mesmo sem palavras, cria um "clima".
Há
algum tempo atrás, estivemos presentes, por dois dias, em um encontro de
adolescentes. A participação foi de 2200 adolescentes. No plenário, quando
estavam todos juntos, o dirigente do "louvor" apresentou uma série de
cânticos; uns barulhentos e outros piores. Como o volume estava alto demais,
ficamos na porta. Depois de alguns minutos, percebemos que alguns adolescentes
começaram a sair. Todos eles com fisionomia abatida. Perguntávamos a cada um:
Você está com o estômago enjoado e a cabeça latejando? Eles nos olhavam curiosos
pelo fato da pergunta identificar o que sentiam. A verdade é que eles estavam
doentes de música e de som. Depois disso, o povo foi entrando numa euforia tão
grande que quando terminou essa sessão de 40 minutos de barulho, o pregador não
conseguiu desenvolver a sua pregação. Houve, então, um dramático apelo para que
se fizesse silêncio. O dirigente dizia: "Agora precisamos ouvir",
"Deus está nesse lugar" etc. Como o auditório não atendia ao
pedido de silêncio, o dirigente baixou o nível e falou com bastante dureza, mas
nada de silêncio. Foi então que o menino que estava no teclado, que havia
coordenado a parte do barulho, começou a tocar uma música bem suave e cantou
algo bastante leve. Em pouco tempo, o silêncio predominava e todos conseguiam
ouvir o que se falava.
Música
de impressão trabalha com isso. Há a música certa para cada momento da
celebração: Momento de alegria, exultação, tristeza, confissão etc. Além disso,
a música pode mexer conosco o suficiente para que assimilemos uma idéia e
entendamos o que está acontecendo de forma mais clara.
Restabelecendo
o culto - O segundo livro das Crônicas registra dois períodos importantes da
história do povo de Israel. Nos primeiros nove capítulos o reino de Salomão
abrangia toda a nação de Israel. Esse foi o período em que o rei atingiu o
apogeu tanto social quanto econômico. Foi o momento áureo de Israel. A segunda
parte do livro, a partir do capítulo 10, registra o ocorrido depois da morte de
Salomão. A história de outros vinte reis é contada nesses capítulos. Alguns
eram bons e outros maus. O reino já estava dividido: Israel e Judá, e a
história agora é vista sempre da perspectiva do templo. O bom rei era o que
governava com Deus, o mau rei era o que se afastava de Deus. Ezequias foi um
desses vinte reis, mais exatamente, foi um dos doze bons reis. Sua história
inicia-se no capítulo 29. Ele abriu as portas da casa do Senhor e as reparou. O
pai dele chamava-se Acaz, e havia sido um péssimo rei. Ele havia, entre outras
coisas, profanado os utensílios sagrados do templo e jogado muitos deles fora.
Outros utensílios foram levados para o palácio e o templo ficou abandonado
durante toda uma geração. Mas quanto a Ezequias, a sua primeira providência foi
restaurar o Templo e celebrar o primeiro culto. Assim, aquelas pessoas que
nasceram no reinado de Acaz entraram no templo pela primeira vez. A grande
maioria, certamente, não sabia o que encontraria lá. Talvez perguntassem: "Como
é que é, agora que o rei mandou a gente celebrar o culto, como é que vai
ser?".
A
celebração do sacrifício não era esteticamente nem um pouco bonita. Todos
conhecem bem os relatos importantes daquela época quando animais, dezenas e
centenas, eram sacrificados em um único dia. Aqueles que imolavam os animais
ficavam com sangue até acima do joelho e sentiam-se mal. Isso não era uma
cerimônia bonita ou esteticamente agradável. O cheiro não era de churrasco. As
entranhas sendo limpas, lavadas e queimadas. Isso não era agradável. Contudo,
era assim que Deus havia ordenado que se celebrasse o sacrifício, e era,
portanto, assim que deveria ser feito. Era uma celebração assim que estava para
ser feita, depois da restauração do templo.
Depois
que Ezequias restaurou o templo, ele reuniu os levitas e devolveu-lhes a função
que lhes cabia. Essa tribo tinha sido separada desde os tempos de Moisés para
um ministério ligado à casa do Senhor: enquanto o templo não estava construído,
eles eram responsáveis por carregar todos os utensílios relacionados ao
tabernáculo: seu transporte e sua montagem, apenas eles, como os levitas de
hoje em dia, os sacerdotes ordenados, os quais possuem o privilégio exclusivo
sobre tudo que diz respeito ao Sacrifício Perpétuo. Pois bem, quando o templo
foi construído, eles ficaram a serviço do templo. Uma tribo inteira, 1/12 de
toda a população, destinada para esse serviço. É deles que saíam os sacerdotes,
mas era também a tribo de Levi a responsável pela infra-estrutura do templo: Os
porteiros, os serventes, os cantores sacros, os instrumentistas, etc. eram
dessa tribo.
Evidentemente,
durante todo o período de Acaz os levitas não tiveram ocupação no templo.
Ezequias, contudo, reúne-os e manda fazer uma limpeza no templo (2Crôn. 29,16).
A partir daí, ele estabeleceu os levitas na casa do Senhor, com címbalos,
alaúdes e harpas (29,25). Quando o sacrifício teve o seu início, uma cerimônia
estranha para muitos, um cântico foi entoado ao Senhor ao som das trombetas e
dos instrumentos de Davi (29,27-28). É a única vez em que se toca música
durante o sacrifício. Em todo o relato do Velho Testamento não vamos encontrar,
nenhuma vez, música sendo tocada durante o sacrifício. Assim, o escritor
bíblico registra que toda a congregação se prostrou enquanto se entoava o
cântico e as trombetas soavam. E foi assim, até o final do holocausto (29,28).
De repente, sem ninguém mandar. Depois disso, o versículo 36 do capítulo 29 nos
informa que "Ezequias e todo povo se alegrava por causa daquilo que
Deus fizera para o povo, porque subitamente se fez esta obra". Essa
frase está conectada com o momento em que o povo adorou o Senhor. O "subitamente
se fez esta obra" foi o momento em que de repente, sem ordem de
ninguém, o povo caiu e adorou o Senhor. Aconteceu no momento em que a música
soou no espaço. Esse é o papel de impressão que a música tem, de criar uma atmosfera,
de apropriar aquela verdade que acontece num ambiente para que você absorva
aquela verdade.
Pesquisas
recentes - Os cientistas têm se preocupado muito com essa característica da
música. Pessoas têm até usado essas experiências sobre a influência da música
para ganhar dinheiro. Por exemplo, qualquer supermercado grande, especialmente
nos Estados Unidos, onde as pesquisas estão mais adiantadas, tem sempre música
soando no espaço. A música certa para o ambiente. Pode acreditar que ela está
cumprindo o seu papel e fazendo o cliente comprar mais. Se você tem um bom
dentista, ele terá sempre uma música adequada em seu gabinete para que você
sinta menos dor ou ansiedade. Um restaurante "fast-food" tem cores e
música escolhidas de acordo com seus propósitos: impressionar os clientes mas
saturá-los e fazê-los ir embora logo. Por que isso acontece? Como é que isso
acontece? Os cientistas têm descoberto que isso não acontece subjetivamente,
não é só uma questão de gostar ou não, de mexer com você e não mexer comigo. A
primeira coisa que precisamos considerar é que a música é formada de três
elementos básicos e esses três elementos mexem conosco o tempo inteiro. Cada um
desses elementos atinge uma parte do nosso organismo. Se você estudou um pouco
de música, você se lembra ainda de uma afirmação que estava em todos os livros:
a música tem três elementos: ritmo, melodia e harmonia. Essa definição, hoje,
já está ultrapassada, porque música é muito mais do que só esses três
elementos. Há outras coisas envolvidas. Contudo, esses três elementos estão
presentes sempre que música soa no espaço e gostaríamos de qualificar cada um
deles:
O Que É
Ritmo? - Por exemplo, ouvimos as pessoas dizendo que o coração está batendo em
um ritmo muito acelerado. Esse é um uso correto da palavra. Ritmo é a marcação
do tempo, ou a freqüência em que a ação se repete. Quando transportamos essa
idéia para a música, temos alguma dificuldade, porque a palavra
"ritmo" é usada para muitas coisas em música. Pode se dizer:
"ritmo de valsa". Algumas pessoas dizem: "não gosto de
determinada música porque ela não tem ritmo". Isso é um equívoco. O
ritmo é o esqueleto da música, a passagem do tempo na música. É verdade que
existem alguns instrumentos que só conseguem marcar ritmos, não conseguem tocar
melodias. São os tambores, o triângulo, a bateria, etc.
Acontece
que o "ritmo" mexe com uma parte específica do nosso organismo: os
nossos músculos. Somente com os músculos. Isso pode ser visto na alteração do
pulso cardíaco conforme a música do ambiente. Alguns segundos depois de começar
uma música que tem uma estrutura diferente, nosso pulso imediatamente se
altera. E isto pode acontecer mesmo que você não esteja consciente da música
soando no espaço. O princípio rítmico tem sido muito utilizado até na medicina.
Por exemplo, as estruturas da música barroca têm sido utilizadas como uma
espécie de relaxamento; o que tem sido chamado de "massagem cardíaca
para gestantes", porque o curso de uma estrutura musical barroca
funciona como uma massagem cardíaca que equilibra o pulso da mãe e o do feto: o
coração do feto pulsa duas vezes a cada pulso do coração da mãe. Então os dois
corações acabam sincronizados e fazem uma massagem cardíaca relaxante para mãe
e filho. Portanto, ritmo mexe com os nossos músculos e há instrumentos que o
enfatizam, que só conseguem marcar ritmos.
O Que É
Melodia? - A melodia mexe com as nossas emoções, e somente com elas. Alguém
diz: "quando ouço aquela música sinto uma tristeza!". Ou seja:
a melodia nos deixa tristes ou alegres. A melodia mexe com as emoções. Não é o
ritmo que nos deixa tristes, também não é a harmonia, mas sim a melodia.
Melodia é uma sucessão de sons. Há melodia de uma só nota. Isso quer dizer que
cantar uma nota, depois outra, depois outra, forma uma melodia. Qualquer um de
nós pode inventar uma melodia. (Uma boa melodia já é outra conversa...!).
Portanto, podemos imaginar que melodia é uma coisa horizontal. Se você puder
imaginar uma nota, depois outra, depois outra, você verá uma dimensão do
movimento das notas. Existem instrumentos que só tocam melodias, só conseguem
tocar uma nota, como a flauta, o pistom, o trombone e o saxofone. São
instrumentos que não conseguem tocar mais que uma nota ao mesmo tempo. São
conhecidos como instrumentos melódicos.
A
melodia mexe tão duramente com as emoções que a melodia certa, num auditório
que se deixa levar por ela, destrói emocionalmente qualquer um. Não há
necessidade do Espírito Santo para fazer um auditório chorar; basta usar a
melodia certa. Para mudar de vida, para ser uma nova pessoa, precisa-se do
Espírito, mas fazer chorar a gente faz com a melodia certa, facilmente. E não
só fazer chorar.
Em
alguns acampamentos de jovens, fizemos a seguinte experiência: pedimos às
pessoas para se deitarem, fechar os olhos, levantar os braços, relaxar, e ouvir
atentamente uma melodia. Alguns minutos depois, muitos estavam chorando.
Repetimos o processo e mudamos a melodia, então muitos dormiam. Como se vê, um
auditório pode ser facilmente manipulado, desde que se use a melodia certa. E isto
nós temos visto com muita freqüência, principalmente nos chamados
"Encontros de Louvor". É fácil fazer um auditório chorar.
O Que É
Harmonia? - A harmonia pode ser definida como sons simultâneos. Se tínhamos
melodia como sons sucessivos, uma nota, depois outra, depois outra; agora
podemos dizer que harmonia são melodias juntas. Quando um grupo está cantando
ou tocando, seja música jovem, seja um coro, seja um grupo instrumental, uma
flauta, um sax, uma clarineta, cada um deles toca uma melodia, e a combinação
de todos forma uma harmonia (ou desarmonia...). Nas quatro vozes do coro, cada
uma canta uma melodia, e a combinação delas forma uma harmonia.
A
harmonia é vertical, portanto. Se a melodia é horizontal: uma nota após a
outra; a harmonia é verticalidade, é a estrutura que soa simultaneamente. A
Harmonia mexe com o intelecto. Ela tem a ver com o córtex cerebral, o
hemisfério direito e esquerdo, com cognição e criatividade: os dois hemisférios
do nosso cérebro. Com a coisa aprendida e com a criatividade que é
característica da raça humana. Só os humanos têm os dois hemisférios
funcionando dessa forma. Os mamíferos, da criação toda o grupo mais evoluído
depois da raça humana, têm muitas características interessantes no seu cérebro:
eles são sensíveis às melodias e até mesmo conseguem detectá-las. São sensíveis
inclusive a ponto de ter o seu comportamento alterado a partir de melodias. Aos
mamíferos é possível fazer com que se comportem mais agressiva ou mais
moderadamente, por influência pura de sons melódicos. Mas eles não conseguem
entender harmonia. Somente os seres humanos entendem harmonia. Quanto mais
elaborada e complicada a harmonia, mais difícil de ser apreciada e entendida,
porque, de fato, ela tem que ser entendida. Nós costumamos dizer que harmonias
muito simples são aquelas que, no caso do violão, nunca saem da primeira,
segunda e terceira posição. Quanto mais complicada a harmonia, mais complicada
é para ser ouvida. Exige um pouco mais de "massa cinzenta". Por isso,
nem todo mundo aprecia uma tremenda fuga em órgão de Bach, porque é harmonia
elevada ao extremo. Aliás, Bach só podia ter nascido na Alemanha. Os alemães
pensam harmonicamente. Assim, o elemento mais importante na música deles é
exatamente a harmonia. É muito curioso, pois não conheço nenhuma canção
folclórica alemã cantada em uníssono. Os instrumentos que tocam harmonia são: o
piano - toca várias vozes ao mesmo tempo; o violão - toca pedaços de harmonia,
acordes; etc.
Diferentes
ênfases - Na história da humanidade, diferentes povos enfatizam esses
diferentes elementos na sua música, conforme as características que cada povo
tem. Os povos africanos dão uma tremenda ênfase aos músculos e ao corpo, pois
eles dependem disso para sobreviver. Obviamente, a música deles é construída,
basicamente, em cima do ritmo. No que se refere à melodia, os italianos, no
século XIX, a enfatizaram tremendamente em sua música. A Ópera só podia ter
nascido na Itália, pois a melodia é o seu centro. A Melodia é sempre muito
chorosa e os italianos choram mesmo durante a ópera. Também brigam, depois se
abraçam; é típico do temperamento italiano essa explosão de sentimentos, essa
emoção. Esse povo, portanto, só podia enfatizar, na sua música, a melodia.
Cada
vez que um desses elementos é por demais enfatizado, há um certo detrimento nos
outros dois. Qualquer deles, enfatizado em demasia, anula os outros dois. Por
isso, uma genial "Fuga de Bach", executada no órgão a cinco vozes,
pode não agradar à primeira vista. Parece que não tem uma melodia acontecendo,
mas muitos sons acontecendo ao mesmo tempo. Houve uma ênfase tão grande na
harmonia que desconsiderou-se a melodia. Melhor dizendo, a melodia não é a
ênfase central nesse tipo de música. O mesmo acontece com o ritmo; quando ele
recebe uma ênfase muito grande, perde-se em melodia e muito em harmonia. Mas há
uma agravante: A ênfase exagerada no ritmo leva as pessoas a desligarem parte
das informações do cérebro. Por isso, o ritmo é um dos elementos mais valiosos
para o desligamento das pessoas nos centros de umbanda, yoga, zen budismo,
etc.. "Mantra" nada mais é do que uma pequena melodia repetida tantas
vezes que se torna um ritmo. Excesso de ritmo leva as pessoas a parar de
pensar.
Assim,
por essas duas características do ritmo, porque ele mexe com o nosso corpo, só
com os músculos, e porque leva a um desligamento do intelecto, temos grande
dificuldade, nas nossas igrejas, para aceitar uma grande ênfase no ritmo.
Intuitivamente, as pessoas sentem isso, primeiro um apelo muscular fortíssimo
e, segundo, o desligamento intelectual. Ouvi há pouco um comercial de uma
escola de dança que tinha uma frase incrível: "quem dança não pensa!
Venha esvaziar sua cabeça, venha dançar conosco". Essa é uma frase
verdadeira. O excesso de ritmo faz as pessoas deixarem de pensar. Exatamente
por isso, sempre houve uma grande dificuldade para a aceitação dos instrumentos
rítmicos na Igreja. Não é à toa que a Igreja sente que alguma coisa não está
certa.
Cérebro
mamal - Esses três elementos são responsáveis pela ação direta da música nos
ouvintes. Por isso, a música é um excelente veículo para guardar informações em
nosso cérebro. Todo professor de "cursinho" sabe disso. Geralmente
eles usam melodias para ensinar fórmulas complexas. Uma mensagem, uma vez
interiorizada por meio de uma melodia, jamais será apagada da memória. As
melodias são fixadas numa região do nosso cérebro chamada "cérebro
mamal". Os mamíferos possuem essa região, por isso que é chamada de
"mamal". Essa região arquiva definitivamente as informações no
cérebro. É como se fosse um computador que grava algo que não pode mais ser
"deletado". Aquilo ficará arquivado para sempre, independente das
pessoas desejarem ou não. Uma vez que a mensagem foi aprendida, as pessoas
nunca mais estarão livres dela. Ela pode ser esquecida temporariamente, mas
nunca apagada. Isso pode ser visto no dia-a-dia: Você teve uma determinada
experiência em sua vida ouvindo uma melodia. Depois disso, nunca mais tornou a
ouvir aquela melodia e nem passou por aquela experiência. Então, 30 anos mais
tarde, você volta a ouvir a melodia. O que acontece? Imediatamente vem à sua
memória a experiência pela qual você passou quando ouviu aquela melodia pela
primeira vez. A mesma coisa acontece com os perfumes. Aliás, os perfumes também
são decodificados em nosso cérebro na região mamal. O olfato é o único dos
cinco sentidos que é decodificado pelo cérebro mamal. A música, como o olfato,
fixa as coisas em nosso cérebro para sempre. Isso eu estou afirmando
cientificamente: Você nunca mais estará livre dos "Mamonas Assassinas".
Não é uma desgraça?
O que
as crianças estão cantando em nossas igrejas? Já pensaram que daqui a trinta
anos, se elas estiverem fora da Igreja, queira Deus que não, elas poderão se
lembrar das melodias que cantaram sem que isso faça qualquer diferença para a
vidas delas? Não seria bom pensar mais seriamente na música que as crianças da
nossa Igreja estão cantando?
As
crianças, ao contrário dos jovens, são permeáveis. Tem-se dado muita ênfase em
nossas comunidades eclesiais ao trabalho com os jovens. Mas na verdade, já é
tarde demais! Os jovens não são permeáveis e não são abertos a novas
informações. Costuma-se dizer isso: "Os jovens são abertos". Não é
verdade! "O jovem sempre aceita o novo". Não é verdade! O jovem não
aceita o novo enquanto esse novo não for aprovado pelo seu grupo. O grupo em
que o jovem está, pode ser de cinco, quatro, três, ou duas pessoas, é
determinante. O grupo de identidade dele precisa primeiro admitir determinada
coisa para, então, ele passar a fazê-la. Se, no grupo dele, todo mundo usar
calça azul, não pense que ele vai usar amarela. Se, no grupo dele, todo mundo
ouve "rapp", não pense que ele vai achar que outro tipo de música
presta. Os jovens são tremendamente impermeáveis. Já as crianças, são permeáveis.
"Abobrinhas
teológicas" - A música fixa em nossa cabeça, para sempre, verdades
teológicas. Mas o problema é que ela fixa também, para sempre, mentiras
ideológicas. Indelevelmente. Fixa de tal forma que nunca mais você as
esquecerá. Uma vez um famoso pregador destacou um importante fato quando ele
disse à sua congregação: "eu sei que amanhã, segunda-feira, vocês vão
esquecer o que eu estou falando agora no meu sermão. Mas os hinos que os faço
cantar, jamais vão ser esquecidos". Por isso, é preciso parar e pensar
seriamente no que estamos cantando dentro das nossas igrejas. A Igreja tem
passado, por uma fase de esvaziamento doutrinário, também porque tem cantado
muita "abobrinha".
Uma
forma litúrgica estranha, muito comum nas igrejas hoje em dia, é o chamado
"Momento de Louvor". Um grupo de pessoas vai à frente, jovens que
sabem tocar alguns instrumentos e cantar, e, por 40 minutos, apresentam uma
série de músicas. E para piorar, o líder do grupo, sem nenhuma formação
teológica, começa a doutrinar a Igreja, falando sempre entre 4 a 5 minutos
antes ou depois de cada música. Ele explica como é que age o Espírito Santo,
como é o plano de Deus, como a gente deve se comportar, e como a Igreja deve
fazer. Esse doutrinamento com música está sendo absorvido indelevelmente, independente
do que a Igreja ensina através de seu Magistério. Se temos uma sugestão já,
nesse momento da nossa conversa? Sim: Não os deixem falar mais. Eles estão
catequizando a sua Igreja, de verdade. Por quê? Porque usam a música,
registrando e arquivando para sempre. E, como têm cantado qualquer música, e
qualquer texto, estão ensinando "abobrinha teológica brava", heresia,
muitas vezes, e levando a Igreja a perder a sua característica e a sua
identidade.
Estamos
falando do que já está acontecendo. A Igreja está perdendo a sua identidade.
Tanto faz, para o jovem, ir à sua Igreja ou ir à comunidade "não sei o
quê". Porque em ambas ele canta a mesma música repleta de mentiras
teológicas, sem nenhum aprofundamento doutrinário. Seus cânticos são sempre
vazios e falam de alegria e euforia. Será que há pelo menos um deles que fale: "Se
temos de perder, família, bens, mulher, se a morte enfim chegar, com Cristo
reinaremos"? A Igreja dos primeiros cristãos não tinha problemas com a
teologia da prosperidade, tinha? Claro que não, porque era isso que eles
cantavam enquanto caminhavam para o martírio. Pois atualmente a Igreja deixou
de cantar essas coisas. Não nos admira o esvaziamento doutrinário da
atualidade. Por isso, começamos dizendo que não achamos que o problema é a
música; achamos que a música é o sintoma do problema. O problema é muito maior
que a música. É teológico e doutrinário. Tem se refletido na música, mas é algo
muito mais sério.
Inegavelmente,
a música tem o papel de impressão no culto litúrgico, de criar uma atmosfera
própria para diferentes momentos do culto. Faça uma experiência sobre esse
papel de impressão que tem a música: Quando estiver assistindo a um filme pela
televisão, na cena mais importante, tire o som. Se o filme for de terror
aqueles monstros deixarão de ser tão horrorosos; se for filme romântico, o par
vai ficar desajeitado; se for filme de aventura, o mocinho vai cair do cavalo.
Na verdade, vai estar faltando o elemento mais importante aliado à imagem para
tornar a cena convincente: a música, o som. Música ou qualquer manifestação
sonora. Não é sem razão que Hollywood premia não só os melhores efeitos
acústicos, sonoros, dos filmes, como também as melhores músicas. As músicas e
os sons se complementam e fazem o filme "acontecer". O cinema mudo
não dispensava a música. Dispensava a palavra, mas não a música. A música
variava de acordo com a atmosfera do filme. Se estava acontecendo uma cena de
movimento, a música, evidentemente levava as pessoas ao movimento; se a cena
era de tristeza, a música acompanhava esse momento. Fazia com que nos
convencêssemos da cena. A música é usada até para preparar-nos para o que vem
em seguida, antes da cena acontecer, ou seja, criar um suspense.
Endossando
o texto - Mas há outro papel importante da música no culto da Igreja:
O PAPEL
DA EXPRESSÃO
Isso
acontece quando ela diz alguma coisa junto com o texto, quando endossa e
subsidia o texto. Quase sempre quando há um bom casamento entre letra e música,
a mensagem que está sendo dita passa completamente para as pessoas e as pessoas
a absorvem. Há um exemplo muito interessante na Bíblia: "Fez também
Davi casas para si mesmo, na cidade de Davi; e preparou um lugar para a arca de
Deus, e lhe armou tenda." (1Crôn. 15,1). É preciso lembrar que esse
momento histórico aconteceu quando a arca foi transportada para o seu lugar
definitivo. Ela foi, por um bom tempo, transportada de um lugar para outro.
Depois, ela ficou em Quiriate-Jearim, de onde foi levada para a casa de Obede
Edon. Da casa de Obede Edom, ela foi transportada finalmente para um lugar
definitivo, construído por Davi. Ele reuniu toda a nação em Jerusalém, para
fazer subir a arca. Esse é o momento histórico que estamos vendo aqui. O
momento do transporte da arca para seu lugar definitivo. Davi, então, tomou
algumas providências: reuniu os levitas e determinou quem faria o quê. Depois
disso, escreveu um salmo, um hino feito especialmente para aquela ocasião. Ele
chamou os músicos e disse: "Ensaiem esse hino porque ele será cantado
no dia do transporte da arca. Todos devem aprendê-lo na ponta da língua. Vamos
fazer algo bem feito". No versículo 15, o cronista registra: "os
filhos dos levitas trouxeram a arca de Deus aos ombros pelas varas que nela
estavam, como Moisés tinha ordenado, segundo a palavra do Senhor".
Quando
falamos aos jovens sobre esse tema, sempre "abrimos um parêntese"
e destacamos que um moço chamado Uzá percebeu que a arca ia cair e correu para
segurá-la. Uzá morreu imediatamente. Ele se esqueceu do mandamento de Deus que
ordenava apenas aos levitas tocar na arca. Outro problema estava na atitude
errada de Davi ao determinar que a arca fosse levada em um carro, como os
filisteus a tinham conduzido até Quiriate-Jearim. Deus tinha dito que a arca
devia ser conduzida com varas que eram passadas pelas suas argolas, e que
apenas os levitas deviam carregá-la.
No
Brasil, ouve-se muito: "o que vale é a intenção". Mas,
realmente, o que vale para Deus nem sempre é a intenção. O que vale é a
prescrição. De maneira que se há uma prescrição, não interessa a intenção.
Mesmo que seja a melhor das intenções, a prescrição ainda está acima dela.
No
versículo 16, Davi disse aos "chefes dos levitas que constituíssem a
seus irmãos, cantores, para que, com instrumentos músicos, com alaúdes, harpas,
e címbalos se fizessem ouvir, e levantassem a voz com alegria". No
versículo 19, lemos que: "os cantores, Henã, Asafe e Etã se faziam
ouvir com címbalos de bronze" (instrumentos sonoros, altissonantes,
barulhentíssimos); no verso 20: "Zacarias, Aziel, Semiramote, Jeiel,
Uni, Eliabe, Maaséias e Benaia, com alaúdes, em voz de soprano"; no
verso 21: "Matitias, Elifeleu, Micnéis, Obede-Edom, Jeiel e Azazias,
com harpas, em tom de oitava, executavam as melodias dos salmos para conduzir o
canto". No versículo 22: "Quenanias, chefe dos levitas
músicos, tinha o encargo de dirigir o canto, porque ele era especialista
nisso". Não é uma boa razão para alguém cuidar da música no templo?
Fulano cuida da música na Igreja, por quê? Porque ele é o melhor. Não é isso
que temos visto, andando por ai, infelizmente. Um dirigente de grupo nos liga
dizendo: "Irmão, estamos precisando de alguém para trabalhar com
música". Perguntamos: "E o fulano, o que ele está
fazendo?" Ele responde: "Ah! Ele está fazendo porque não tem
ninguém que faça". Por que razão alguns grupos tocam na Igreja? Eles
tocam porque eles compraram os instrumentos! É como jogo de bola em time de
várzea. O dono da bola joga sempre. Não importa se ele joga bem ou mal.
Em
Brasília, há uns dois meses, fomos fazer uma palestra para um grande grupo de
jovens quando um deles nos procurou, mostrou-nos uma música e disse: "O
Senhor me deu um cântico". Estava horrível! Português errado, música
ruim, uma lástima! Então, dissemo-lhe: "Se você tem jeito e tem
talento, vai estudar e torne-se um instrumento hábil para transmitir bem o que
Deus lhe dá". Quenanias era o chefe dos músicos porque ele era o
melhor. Ser o melhor na época não era brincadeira.
Os
levitas, logo depois dessa narrativa, são vistos em um treinamento sistemático
de aproximadamente dez anos. Começavam a servir aos vinte e serviam como
aprendizes, no templo, até os trinta anos. Aos trinta entravam para o serviço
efetivo e trabalhavam até os cinqüenta. No versículo 24: "Sebanias,
Josafá, Natanael, Amasai, Zacarias, Benaia e Eliezer, os sacerdotes, tocavam as
trombetas perante a arca de Deus; Obede-Edom e Jeías eram porteiros da
arca". E aí começou a cerimônia. Davi saiu com os capitães de milhares
para fazer subir com alegria a Arca da Aliança do Senhor, da casa de
Obede-Edom. No versículo 26: "Tendo Deus ajudado os levitas que levavam
a arca da aliança do Senhor, ofereceram em sacrifício sete novilhos e sete
carneiros". No versículo 27: "Davi ia vestido de um manto de
linho fino, como também todos os levitas que levavam a Arca, e os cantores, e
Quenanias, chefe dos que levavam a arca e dos cantores; Davi vestia também uma
estola sacerdotal de linho". Eles estavam de toga, paramentados. Os
cantores, o coro e a orquestra. Davi vestia uma estola sacerdotal de linho. No
versículo 28: "Assim todo o Israel fez subir com júbilo a arca da
aliança do Senhor ao som de clarins, de trombetas e de címbalos, fazendo
ressoar alaúdes e harpas". No capítulo 16, versículos 4 a 7: "Designou
dentre os levitas os que haviam de ministrar diante da arca do Senhor, e de
celebrar, louvar e exaltar o Senhor Deus de Israel, a saber: Asafe, o chefe,
Zacarias o segundo, e depois Jeiel, Semiramote, Jeiel, Matitias, Eliabe,
Benaia, Obede-Edom e Jeiel, com alaúdes e harpas; e Asafe fazia ressoar os
címbalos. Os sacerdotes Benaia e Jaaziel estavam continuamente com trombetas,
perante a arca da aliança de Deus. Naquele dia foi que Davi encarregou pela
primeira vez a Asafe e a seus irmãos de celebrarem com hinos o Senhor".
Um bom
casamento - E então segue-se o hino, um salmo que Davi compôs especialmente
para aquela ocasião. No final do hino, lemos: "Bendito seja o Senhor
Deus de Israel, desde a eternidade até a eternidade. E todo o povo disse: Amém!
e louvou ao Senhor". Acontece isso hoje. Papel de expressão da música.
Quando um grupo canta, canta pelo povo e o povo diz amém e louva ao Senhor.
Esse é um papel importante que a música tem. E a música só faz isso
efetivamente quando ela faz um bom casamento com a letra, quando a letra diz
alguma coisa e ela diz a mesma. Quando a letra fala da majestade, do poder e da
glória de Deus, e é acompanhada de música majestosa e poderosa; quando a letra
fala do nosso problema como homem pecador e é acompanhada de música que também
diz a mesma coisa. Há alguns exemplos clássicos de maus "casamentos".
Vamos na música nova que andam cantando por aí. Exemplo: "Oh! vinde
fiéis, alegres e triunfantes", lembram-se dessa música? É majestosa,
vibrante, grande etc. Um lindo hino latino de Natal! Adeste Fidelis. Por algum
tempo ela foi associada em algumas denominações protestantes à letra: "Oh!
vós que passais pela cruz do calvário"...! Não tem nada a ver! A
música diz uma coisa, a letra outra. A comunicação é vazia. Mau casamento entre
letra e música. Outro mau exemplo, "Pai Nosso" cantado ao som de
"The Sound of Silence de Simon & Garfunkel". O que tentam
normalmente fazer é cantar bem devagar e "mole" a melodia para,
inconscientemente adaptá-la ao texto. Música só expressa o texto quando a
música vem com ele, quando a música diz a mesma coisa. Aliás, essa é a função
mais importante da música no culto litúrgico: ser subsídio para a Palavra. Se
ela não tem essa função, é show e não tem lugar no culto. A única função da
música é ser subsídio para o texto, para a Palavra. Se ela não tiver essa
função, é espetáculo e não tem lugar na Igreja.
Teologia
e música - É por isso que, na nossa opinião, existe sempre uma única música
certa para aquele específico lugar no culto. Não serve qualquer música em
qualquer lugar. Tem que ser aquela. Pode ser até uma única estrofe, naquele
lugar, porque ela tem a finalidade única de reforçar o que foi dito, tornar
claro o que foi dito, subsidiar tudo o que está acontecendo no culto litúrgico.
Não que a música seja mais importante do que a teologia. A música tem que ser
subsídio para a Palavra; se não for, ela estará fora do contexto. "Hoje
o conjunto Água Viva vem aqui abrilhantar a nossa celebração". Mas por
quê? Celebração litúrgica não precisa ser abrilhantada. Celebração Litúrgica
não é uma festinha de aniversário. É fácil de perceber nos nossos dias uma
confusão entre celebração e festa. No A.T. era mais fácil se ver a distinção,
porque existiam festas litúrgicas e momentos de adoração e sacrifício. Eram
coisas diferentes. A festa era horizontal, era a hora de se alegrar no Senhor.
Todo mundo se alegrava. Esta era a hora dos instrumentos, das danças e dos
cânticos. Às vezes até no espaço do templo, inclusive, mas eram festas. Mas o
culto sacrificial, o sacrifício em si, nem alegre era. Pois imaginem então o Sacrifício
da Nova Aliança, quando o próprio Jesus, o Cordeiro de Deus é imolado! Seria
esse um momento apropriado para danças e instrumentos de festa? A confusão se
torna ainda maior porque nos ambientes Católicos perdeu-se a noção do que vem a
ser realmente a Missa: Sacrifício ou Festa da Ressurreição? Pra piorar, hoje
temos misturado as coisas: Temos agora a Missa de formatura, a Missa das Mães,
a Missa dos Negros, a Missa dos jóvens...etc. Isso nos parece, cria alguma
dificuldade para nós mesmos estabelecermos os limites. Até onde é "da
mãe" e até onde "é de Deus"? Como vamos preparar o programa da
celebração e o sermão? Para a "mãe ou para Deus"?
Os
babilônios de hoje - Muitas vezes ouvimos os padres dizendo: "a gente
precisa manter os jovens na Igreja, as celebrações precisam ser atraentes. Eu
odeio essa música, mas tenho que deixar...." e quando cantam, muitos
falam: "ainda bem que eles estão aqui, não estão no mundo". É
porque eles "estão aqui" que precisam fazer melhor do que lá fora. Já
houve uma época na história da Igreja em que a música que acontecia nas igrejas
era a melhor que se produzia naquele lugar. No séc. XVII, no séc. XVIII e no
início do séc. XIX, se alguém visitasse uma cidade européia e quisesse ver e
ouvir o que de melhor aquela população produzia, ia para a Igreja. Lá havia a
melhor música e a melhor arquitetura. Os músicos da corte do Palácio iam lá
aprender com os músicos da Igreja. A romaria até Leipzig para aprender com Bach
era enorme. Bach passou 45 anos de sua vida trabalhando como músico de uma
única Igreja (a Igreja de St. Thomaz, em Leipzig). Sua obra inteira foi S.D.G.
(Soli Deo Glori). Ele assinava assim. Essa era a sua finalidade; por isso ele
fazia o melhor que podia, exatamente porque era para a glória de Deus. O músico
do palácio podia fazer de qualquer jeito porque fazia para ganhar dinheiro, era
só para honrar o rei. Mas na Igreja era o melhor que se podia produzir porque
era para Deus. Percebe-se que mudamos radicalmente: da dianteira absoluta,
passamos para a rabeira absoluta. Hoje nós estamos desesperadamente correndo
atrás da música mundana, para imitá-la, para ver se a gente consegue manter o
jovem dentro da Igreja. É por isso que o povo não se importa mais com o nosso
cântico de Sião. Os babilônios queriam ouvir o cântico de Sião. Em outros
instrumentos, outro cântico que não era o deles. Os babilônios de hoje
"não estão nem aí" com a nossa música. Hoje há várias rádios
Católicas e nem sei quantas rádios "gospel" tocando música o dia
inteiro. E daí, que diferença faz? Não tem diferença nenhuma das outras. E há
ainda quem chame isso de música sacra!
Músicas
boas e ruins - Mas a música continua tendo dois papéis no culto da Igreja. O de
impressão, de atmosfera, que ela já faz só com o instrumental. Mas o seu papel
central no culto é o de expressão - é subsidiar o texto. E isso só acontece
quando há um bom casamento entre os dois. Cada elemento diferente da música
mexe com uma parte diferente do nosso organismo e isso faz com que sejamos
integralmente atingidos, quer queiramos quer não, quer estejamos ouvindo ou
não, quer sejamos perfeitamente hábeis, auditivamente, ou surdos completamente.
A música consegue ser ouvida epidermicamente. A música influencia pessoas
completamente surdas e altera o seu comportamento. Se alguém acha que estamos
defendendo apenas o uso da música tradicional, do Canto Gregoriano em
detrimento dos novos cânticos, ou defendendo o coral em detrimento do conjunto,
isso absolutamente não é verdade. Entendemos que existem muitas músicas novas
muito boas hoje em dia, e muitas muito ruins. A maior parte ruim por uma razão
simples, porque elas ainda não foram filtradas pelo tempo; o tempo é um ótimo
filtro. No séc. XVII também foi produzida muita coisa ruim, mas foi embora. Só
ficaram as melhores. A questão é saber também em que ambientes e circunstâncias
elas devem ser tocadas ou não. Temos obrigação de analisar cuidadosamente os
textos das músicas que estão sendo cantadas pois, muitas vezes, estamos
cantando coisas em que nem sempre acreditamos.
É necessário que façamos uma leitura cuidadosa do texto, tanto dos novos cânticos quanto dos já impressos, mais dos novos porque não foram ainda filtrados pelo tempo, e usemos somente aqueles que realmente são bons, nessa linha de raciocínio. Também não achamos que o grupo de jovens não deva ter espaço nas celebrações da Igreja. Do mesmo modo, não achamos que o coral "ruinzinho" que cantava há 20 anos atrás deva ser substituído pelo grupo de jovens também "ruinzinho" de hoje em dia. O coral "ruinzinho" tem que ser substituído por um bom coral e o grupo de jovens "ruinzinho" tem que ser transformado num bom grupo de jovens. E assim cada um encontrar seu devido lugar na liturgia da Igreja. Seja como for, a música tem que estar assessorando o que é ensinado e pregado. Ela só tem utilidade ali. E isso há muito tempo deixou de ser realidade em nossas igrejas. Na verdade toda essa confusão começou a acontecer há cerca de vinte anos, com a ênfase nos acampamentos dos jovens. No final do séc. XIX os metodistas enfatizaram tremendamente o acampamento de jovens. Nasceu daí canções próprias para esses tipos de reunião, mas a força maior surgiu, na verdade, nos últimos vinte, ou até, talvez, nos últimos dez anos com os chamados "encontrões", "rebanhões"... etc. Os acampamentos reuniam uma quantia muito grande de jovens e para esses acampamentos compunha-se, cantava-se determinado tipo de música que não tinha nada a ver com a música que se cantava regularmente dentro das igrejas. Esses jovens passavam lá um final de semana e quando chegavam na Igreja queriam, com a maior das boas intenções, trazer aquela atmosfera, aquilo que sentiram lá no acampamento e a música que aprenderam e cantaram lá.
Música
sacra ou profana? Aqui é um terreno complicado porque toca mesmo no que é
música sacra e o que não é música sacra. Nos tempos modernos, definimos música
sacra para um grupo; é impossível fazermos uma definição de música sacra
genérica, por uma razão muito simples: o sacro, na verdade, aquilo que é
verdadeiramente aceito por Deus, não tem muito a ver com a qualidade dos sons;
tem a ver com o coração e lábios limpos, tem a ver com o cantor e com Deus. O
estilo que está soando no espaço é mais ou menos convencional para um grupo de
pessoas, e isso é que é sacro ou não para aquelas pessoas que estão ali. Cuíca
é um instrumento sacro ou profano, na sua cabeça? Profano. Por quê? Porque a
gente faz associação com certos tipo de coisas, como samba e carnaval, etc.
Agora, leva essa cuíca para o Tibet, converte os tibetanos e diz a eles que
esse instrumento vai abrir todos os cultos dirigidos a Deus. "Esse som
vai ser o introdutório do culto litúrgico". Pronto, a partir de então,
aquilo lá vai ser o som santo por excelência, sacro por excelência. A cuíca não
é menos santa do que o violino. O violino é feito de madeira, tripa e metal. A
cuíca é feita de madeira, pele e metal. "Igualzinho". Materialmente,
não há diferença. Portanto, temos que pensar o que vale para as músicas. Temos
ouvido muito isto: "a gente canta passarinhos, belas flores, (cantava,
hoje já não canta tanto mais...) isso era música de bar, etc." Era
mesmo, só que ninguém sabia que era. Aquele som nunca havia sido ouvido aqui;
aquele tipo de melodia foi identificado pelos nossos avós, bisavós, como música
sacra. Por quê? Porque ela era diferente da que eles cantavam nos bailinhos de
final de semana. É exatamente isso que hoje é usado como critério para definir,
para um grupo sócio-cultural, o que é música sacra: é diferente da música que
aquele grupo conhece, fora do ambiente eclesial. Esta é a primeira
característica de música sacra, naquele determinado momento histórico. A
segunda é que ela é, basicamente, acompanhamento para o texto [...]. Há um
terceiro que se refere ao instrumentário, mas que não é o mais importante.
Esses dois pontos fecham a questão para nós. Quando eles cantavam aquele tipo
de música aquilo era, para eles, música sacra.
Compromisso
com o divino - É preciso dizer que, embora os músicos nos séculos 17 e 18
procurassem aprender com os da Igreja, não é verdade que a música que estava
fora se identificava com a da Igreja, porque a música que está fora sempre tem
compromisso com o profano e a da Igreja sempre tem compromisso com o divino.
Isto estava muito claro na cabeça do compositor da época; significa que o
músico secular aprendia tecnicamente a fazer música; só que, no palácio, ele
tinha que fazer música como o rei queria. Usava princípios técnicos, mas a
característica da música quem comandava, na verdade, era o rei, não o
compositor. Além disso, a música sacra, com esse compromisso extremo com o
divino, jamais era imitada com esse cuidado lá fora, porque se é verdade que se
aprendia a técnica, o músico fora da Igreja não era, de forma alguma, cuidadoso
ou caprichoso como o músico do templo. Ele não tinha esse temor do compromisso
de estar fazendo música para ouvidos divinos, temor presente o tempo inteiro na
vida de Bach. Bach escrevia sua música com temor. Tinha que ser perfeita porque
era para um Deus perfeito, e essa preocupação nunca houve fora da Igreja. Portanto,
se é verdade que o pessoal vinha aprender tecnicamente com Bach, ou com outros
músicos da Igreja, o que reproduziam lá fora não era aquela música, nunca era.
Música
sacra é a que é feita com a intenção de ser sacra? Não sei. Pode ser sacra para
quem fez, pode não ser para o vizinho. É muito difícil determinar hoje isso,
porque não temos critérios tão comprometidos com a música quantos já houve em
outros tempos. Nos séculos 16, 17 e 18, entendia-se que havia uma música
objetivamente boa e uma música objetivamente má. A música objetivamente boa era
baseada em princípios numéricos, da ordem, do número, e agradava a Deus. Não
interessa se ela tinha texto ou não, não interessa se era sacra ou não; e havia
uma música objetivamente má e que, dualisticamente, agradava a Satanás; e o
parâmetro disso era muito bem estabelecido. Nesse caso, mesmo o compositor fora
da Igreja quando escrevia dentro dos parâmetros da música boa, dentro dos
princípios da ordem, essa música agradava a Deus, mesmo que não fosse música com
finalidade litúrgica. E a outra música, feita sem os parâmetros da ordem, do
número, mesmo que fosse feita para a Igreja, era má e não agradava a Deus. Era
muito fácil naquela época, mas hoje nós não temos mais um critério muito claro
do que seja música objetivamente boa e objetivamente má.
Música
de imitação - Será que a nossa música tem que ser uma imitação da música
secular? Não. Será que, então, estamos defendendo aqui que a gente só tem que
cantar cantos gregorianos? Também não. Será que estamos dizendo que os jovens
não devem ter participação na liturgia? Também não. Gostaríamos muito de ver
outra vez a música da Igreja liderando o movimento cultural, que ela fosse
melhor e nitidamente melhor. Isso não é impossível. Se é verdade que nos
últimos 40 anos a produção de música nacional sacra não esteve muito boa, para
oferecer uma alternativa satisfatória, quem sabe os próximos 40 anos vão ser
melhores. A geração passada quando quis cantar coisas novas não encontrou nada.
Ou cantava as coisas velhas ou importava. E importou, num primeiro momento, dos
Estados Unidos nem sempre as melhores coisas; num segundo momento imitou aquela
música. Nas primeiras gravações de grupos alternativos jovens no Brasil, você
tem música americana, autenticamente americana, traduzida para o português.
Música jovem americana. Num segundo momento, música escrita no Brasil por eles
mesmos, mas imitando o estilo que havia sido importado. Num terceiro momento,
nacionalismo exacerbado; que condena tudo o que é importado e surgem os grupos
super- alternativos: "Pé no chão", "Barriga verde", sei lá
como chamam, proclamando que tudo que vinha de fora, em princípio, não
prestava; a gente tinha que fazer uma coisa que fosse só nossa. É ai que se
esbarrava num problema sério de convencer o pessoal do Sul a cantar baião; uma
loucura, porque aquilo não era deles, na verdade. Nós estamos tão fragmentados
nessa questão cultural que para o pessoal do Rio Grande do Sul e de Santa
Catarina, o coral alemão era muito mais música deles do que baião. E com a
gente também era assim.
A verdade é que aqueles que exercem liderança na Igreja deveriam despertar nas pessoas vocacionadas para a música o senso de responsabilidade de que estão fazendo uma coisa muito séria. Descobrir essa gente e levá-las para frente. Para frente não quer dizer para a frente da Igreja, para tocar. Quer dizer: "levá-las a aprender". Ninguém tem mais desculpas de que não tem onde aprender. Há cursos ótimos, professores ótimos, em muitos lugares. É preciso resgatar a importância de se aprender música, que perdeu-se na nossa cultura. Há 30 anos atrás qualquer Igreja de bairro ou do interior tinha uma, duas, três, quatro pessoas que sabiam tocar piano, porque eram os nossos avós, de cuja formação cultural a música fazia parte; as mulheres, especialmente, tinham que saber: cozinhar, bordar e tocar piano, para casar. Hoje não tem mais ninguém que possa tocar. Infelizmente hoje passamos por um momento complicado sim, mas se é verdade que o começo da solução do problema é exatamente a consciência dele, entendemos que vamos encontrar saídas, porque mais e mais pessoas estão se sentindo incomodadas com o estado em que as coisas chegaram....