DOSSIÊ LITURGIA UMA BABEL PROGRAMADA
Por Andrea Tornielli
(Fonte: Revista 30Dias)
A substituição do latim pelo
vernáculo na liturgia da Igreja católica foi considerada por muitos uma medida
infeliz e saudada por outros como um “aggiornamento”
necessário para favorecer a
participação
do povo. Todavia, não foi uma decisão do Concílio Ecumênico Vaticano II. O
latim ainda é a língua oficial da Igreja, ou pelo menos foi durante dezoito
séculos. Cinco anos depois do Concílio, não havia mais sinal dele nos livros
litúrgicos católicos. A eliminação total da língua dos antigos romanos aconteceu
quase à surdina e em alguns casos contra a vontade do Papa Paulo VI, o qual
estabeleceu que ela deveria permanecer ao lado do
vernáculo no missal. Esta é a história da reforma e dos protagonistas de um
período que marcou profundamente a vida da Igreja.
A VONTADE DE JOÃO XXIII
“A língua latina, que podemos considerar verdadeiramente católica (...) é o
vínculo adequado através do qual a época atual da Igreja está admiravelmente
unida ao passado e ao futuro.” O Papa João XXIII quis revestir a assinatura da
Constituição Apostólica Veterum sapientiae
com a maior solenidade.
No dia 22 de fevereiro de 1962,
colocou o selo no documento que deveria salvaguardar o latim como língua
“imutável” e “universal” da Igreja e da liturgia católica no altar da
Confissão, sobre o túmulo de São Pedro, na presença de quarenta cardeais. O
documento, promulgado sete meses antes da abertura do Concílio, foi rapidamente
esquecido, mas os bispos reunidos em Roma decidiram levá-lo
Falsini
diz também que a luta contra o uso da língua latina na missa foi aberta pela
reação protestante. Formalmente, a língua oficial da Igreja Católica continuava
a ser o latim, inclusive nas intenções do Vaticano II. No dia 3 de setembro de
1978, o papa João Paulo I pronunciou em latim a primeira parte da homilia da
missa solene de início do pontificado. Em seguida, explicou: “Quisemos iniciar
esta nossa homilia em latim porque, como se sabe, esta é a língua oficial da
Igreja, da qual exprime de forma palmar e eficaz a universalidade e a unidade”.
Todavia, o latim foi substituído
pelo vernáculo e desapareceu dos livros litúrgicos apenas cinco anos depois do
encerramento do Concílio. O desaparecimento foi repentino e aparentemente não
era intenção dos Padres conciliares, que votaram quase por unanimidade (2.147
votos a favor e 4 contra) um documento sobre a liturgia que previa a manutenção
do latim e dava espaço ao vernáculo “especialmente nas leituras, nas homilias,
em algumas orações e nos cantos”. A preocupação de João XXIII e do Concílio era
clara: a permanência do latim garantia a solidez da doutrina expressa. Como foi
possível “deslatinizar” inteiramente o missal e o
breviário?
MISSÃO SECRETA?
“Caro Buan,
comunicamos o encargo que o Conselho dos Irmãos estabeleceu para ti, de acordo com
o Grão-Mestre e os Príncipes Assistentes ao Trono, e te obrigamos (...) a
difundir a descristianização mediante a confusão dos ritos e das línguas e de
colocar padres, bispos e cardeais uns contra os outros. A Babel lingüística e
ritual será a nossa vitória, como a unidade lingüística e ritual foi a força da Igreja (...) Tudo deve acontecer no prazo de dez
anos”. (14 de julho de 1964).
“Grão-Mestre incomparável (...) a
dessacralização prossegue rapidamente. Foi publicada uma outra Instrução, que
entrou em vigor no dia 29 de junho p.p. Já podemos cantar vitória, porque a
língua latina vulgar é soberana em toda a liturgia, inclusive nas partes
essenciais (...) Foi dada máxima liberdade de escolha entre os vários
formulários, à criatividade particular e ao... caos! (...) Em suma, com esse documento
creio ter disseminado o princípio da máxima libertinagem, segundo as vossas
disposições. Lutei duramente contra os meus inimigos da Congregação para os
Ritos e tive que recorrer a toda a minha astúcia para que o Papa a aprovasse.
Por sorte, encontramos o apoio dos amigos e irmãos da Universa Laus, que são fiéis. Agradeço pela soma enviada e esperando
vos ver em breve, vos abraço. Vosso Irmão Buan” (2 de julho de 1967).
São trechos de duas cartas. A
primeira teria sido enviada a monsenhor Annibale Bugnini (nome
LITURGIAS ESTRANGEIRAS
O padre Annibale
Bugnini foi nomeado secretário da comissão litúrgica
criada por Pio XII para reformar o ritual da Semana Santa logo depois da
Segunda Guerra Mundial. O seu espírito reformista no campo litúrgico já era
conhecido. Em 1944, Bugnini pedira ao padre Arrigo Pintonello, então capelão militar, para traduzir alguns
textos de autores católicos e protestantes alemães sobre a renovação litúrgica.
Esse fato, confirmado por dom Pintonello (hoje
arcebispo emérito de Latina, Itália) a 30Dias, pode mostrar que a reforma
realizada sob a direção do Consilium ad exaquandam Constitutionem
de Sacra Liturgia – do qual Bugnini foi secretário e
sobre o qual exercia uma inegável autoridade – tinha raízes meditadas e
preparadas há longo tempo.
Bugnini
contou detalhadamente história desse período no livro A Reforma Litúrgica
1948-1975. O livro é uma autodefesa póstuma com a qual o bispo, “exilado” no
Irã por Paulo VI, descreve a sua obra e diz que todas as decisões sobre as
grandes mudanças litúrgicas foram tomadas pelo Papa em pessoa. “Eu fui apenas
um executor fiel da vontade de Paulo VI e do Concílio”.
O CONCÍLIO
No dia 16 de outubro de 1962, os
Padres conciliares foram informados que a liturgia seria o primeiro tema a ser
discutido naquela sessão. O esquema fora preparado por uma comissão presidida
pelo cardeal Gaetano Cicognani,
que o aprovou no dia 1º de fevereiro de 1962, quatro dias antes de morrer.
Todavia, o principal responsável
pela redação era o secretário Annibale Bugnini. O sucessor de Cicognani
foi o cardeal espanhol Arcádio Larraona. Bugnini diz que Larraona era “um
grande jurista de tendência conservadora”. A nomeação de Larraona
foi divulgada no mesmo dia da promulgação da Veterum sapientiae, e muitos viram nessa coincidência um aviso aos liturgistas que pretendiam favorecer a introdução do
vernáculo. O Papa havia criado uma comissão central de preparação do Concílio,
cuja tarefa era supervisionar e corrigir o trabalho das comissões
preparatórias. O texto de Bugnini foi muito modificado
e em seguida publicado juntamente com os esquemas que deveriam ser discutidos
pelo Concílio, aprovados por João XXIII no dia 13 de julho de 1962. O próprio Bugnini diz quais foram as correções
feitas no texto: “A descentralização tão desejada foi atenuada: as autoridades
eclesiásticas locais poderiam somente fazer propostas à Santa Sé (...) não
fazia nenhuma menção ao uso do vernáculo na celebração do Ofício Divino pelos
sacerdotes.” O padre Bugnini foi o único secretário
de uma comissão preparatória que não foi confirmado no cargo de uma comissão
conciliar: o cardeal Larraona o afastou. Bugnini foi também exonerado da cátedra de Liturgia no
Pontifício Instituto Pastoral da Universidade Lateranense.
De nada adiantaram as tentativas dos cardeais Giacomo
Lercaro e Augustin Bea
junto ao papa João XXIII para reintegrá-lo. Bugnini
diz que esse foi o seu “primeiro exílio”. Um cardeal que participou diretamente
desses fatos declarou a 30Dias: “Bugnni foi afastado
porque quis interferir em coisas que não eram de sua competência e sobretudo porque não era idôneo para o cargo”.
Durante o Concílio, alguém
transcreveu em duas colunas o texto aprovado pelo Papa e acrescentou as
variações em relação ao primeiro texto, para que os Padres “vissem o que
acontecera” (Bugnini, p.38). Assim, os bispos puderam
ler a versão oficial, assinada pelo Papa, e o texto anterior, não emendado. O
debate teve início no dia 22 de outubro de 1962. O primeiro orador, o cardeal
Joseph Frings, pediu que os Padres recebessem o texto
original da comissão preparatória, do qual, na sua opinião,
tinham sido eliminados muitos pontos importantes e inovadores. O pedido de Frings se baseava em um relatório escrito pelo bispo de
Linz (Áustria), dom Franz Zauner, que fora membro da
comissão preparatória e possuía o texto original. Um dos pontos controvertidos,
citados por Zauner, era a seção intitulada “Língua
Litúrgica”. A versão não corrigida autorizava as conferências
episcopais a “determinar as condições e as modalidades nas quais o
vernáculo podia ser utilizado na liturgia”. O bispo austríaco se opunha também
à manutenção do latim na recitação do Ofício Divino.
O pedido de Frings,ao qual aderiu também
o cardeal Giovanni Battista Montini,
foi acolhido e os textos emendados foram reintegrados. Os
cardeais Antonio Bacci, Alfredo Ottaviani e Dino Staffa, e o bispo
Pietro Parente eram contra a reintegração. A Constituição Apostólica Sacrosanctum Concilium foi aprovada
e promulgada solenemente no dia 4 de dezembro de 1963 por Montini,
que sucedera a João XXIII. As diretrizes do esquema preparatório aprovado por
João XXIII eram ainda mais restritivas que as aprovadas pelo Concílio, mas nos
anos seguintes, graças a contínuas correções e adaptações, as determinações do
Vaticano II foram sendo superadas, até que o latim desapareceu totalmente dos
missais e dos breviários dos sacerdotes.
O CONSILIUM
No seu livro, Bugnini
dá uma explicação diferente para o trecho da Sacrosanctum
concilium que afirma: “Seja conservado o uso da
língua latina salvo direito particular”. “O problema mais sentido era a língua”.
Problema árduo e delicado, que tinha dois aspectos cheios de interrogações: de
um lado a tradição da Igreja latina e as vantagens do uso de uma língua única,
técnica do ponto de vista litúrgico e jurídico; do outro, o enfraquecimento da incisividade da mensagem e das realidades divinas, devido a
uma língua incompreensível para muitos. Tratava-se de renunciar em boa parte ao
latim, patrimônio secular da Igreja,ou de reduzir a
eficácia mais natural, espontânea e expressiva dos sinais, como a língua.
Entre essas
duas perspectivas, o Concílio não hesitou em introduzir o vernáculo na
liturgia”. A reforma teve início imediatamente. Na manhã de 3 de janeiro
de 1964, o padre Bugnini foi convocado pelo cardeal Amleto Cicognani, Secretário de
Estado, o qual comunicou-lhe que o Santo Padre decidira nomeá-lo secretário da
Comissão para a atuação da Constituição conciliar, Um bispo romano, amigo do
cardeal Larraona, declarou a 30Dias: “O cardeal Lercaro disse ao Papa que tinha sido uma grave injustiça
não nomear Bugnini para a secretaria da comissão
conciliar. Por isso, Paulo VI, que era particularmente
sensível a esse tema, decidiu reintegrá-lo". Assim nasceu o Consilium ad exaquandum
Constitutionem de Sacra Liturgia. Paulo VI nomeou o
arcebispo de Bolonha, Giacomo Lercaro,
para presidi-lo. O cardeal Larraona era um dos
membros nomeados pelo Papa. As primeiras normas de aplicação da Sacrosanctum concilium foram
promulgadas no dia 25 de janeiro de
As expectativas dos progressistas
foram frustradas. Bugnini observa: “O motu próprio concedia pouco em comparação com o muito que a
Constituição conciliar permitia (...) A acolhida do tão esperado documento foi
festiva, mas se transformou em polêmica assim que os liturgistas
e pastores receberam o texto (...) O documento era criticado principalmente
porque limitava o direito das conferências episcopais aprovarem traduções”. O
protesto da ala progressista do episcopado europeu foi imediato. O bispo Zauner escreveu: “Nós bispos e Padres conciliares estamos
angustiados porque depois de tão breve tempo depois da aprovação da
Constituição, a Cúria ou setores dela insistem no centralismo e combatem a
descentralização com todos os meios”.
O Consilium
continuou a trabalhar e os seus membros elaboraram rapidamente a Instrução Inter Oecumenici, publicada no
dia 26 de setembro de 1964. As novas normas entraram em vigor no dia 7 de março
de 1965, primeiro Domingo da Quaresma, “uma data histórica e um marco para a
reforma litúrgica (...) o início do processo de aproximação da liturgia das
assembléias participantes e da sua mudança de aspecto, depois de séculos de
uniformidade intocável” (Bugnini, p.109). Estes eram
os critérios para a introdução do vernáculo: podia ser usado nas leituras, na
epístola e no Evangelho, na oração dos fiéis, no Kyrie, no
Glória, no Credo, no Sanctus e no Agnus Dei,
nos cantos, nas aclamações e saudações, no Pai Nosso, na coleta e na oração
sobre as oferendas. Para permitir a preparação de traduções nas diversas línguas
com uma certa tranqüilidade, foi admitido o uso
provisório das traduções dos missais já utilizados pelos fiéis. Bugnini comenta: “O decreto típico fazia muitas concessões,
mas a missa com latim e vernáculo era híbrida e incoerente”. Assim, iniciou-se
a batalha pela tradução do prefácio e do cânon. A exigência de ter toda a
liturgia na língua nacional se fez sentir sobretudo na
Holanda. O comunicado que permitia a extensão do vernáculo foi enviado às
conferências episcopais no dia 10 de agosto de 1967. O padre Thierry Maertens, um liturgista favorável às inovações e que participara do
Concílio como especialista, escreveu naquela época: “Nada na Constituição
conciliar sobre a liturgia fazia supor que um documento poderia permitir,
depois de quatro ou cinco anos, a proclamação do cânon em vernáculo”.
TEXTO LATINO AO LADO
O número 57 da Inter Oecumenici previa que os
missais e breviários em vernáculo deveriam conter também o texto latino. Essa
medida, introduzida pela Congregação para os Ritos, pretendia salvaguardar o
patrimônio lingüístico latino na liturgia e sobretudo
permitir um confronto contínuo com o texto original. O primeiro missal
traduzido foi publicado pela Conferência Episcopal dos Estados Unidos.
O Roman
Missal - Missale Romanum
não continha o texto latino, apesar o título bilíngüe. Os editores puderam
provar que o livro já tinha sido quase completamente impresso quando a
Instrução foi publicada. Todavia, a vontade de Paulo VI nesse ponto era clara.
No dia 13 de julho de
latina
vulgar o texto latino em duas colunas ou na página lateral, e não em fascículos
e livros separados”.
Mas o desejo e as disposições de
Paulo VI não puderam ser postas
O comunicado
enviado aos presidentes das Conferências Episcopais (10 de novembro de 1969) recomendava
que em todas as igrejas houvesse uma cópia do missal em língua latina e nos
santuários também os textos latinos das missas próprias”.
A história da Liturgia das Horas
foi igual. Os primeiros pedidos para a introdução do vernáculo chegaram ao Papa
em 1965. Na epístola Sacrificium laudis,
endereçada aos Moderatores generales
religionum clericarium chori obligatione adstrictarum (15 de agosto de 1966), Paulo VI diz: “Pelo
bem que queremos a todos vós, não queremos permitir aquilo que pode causar uma
queda, provocar danos e certamente seria motivo de dor e aflição para toda a
Igreja. Deixai que nós defendamos os vossos interesses, mesmo contra a vossa
vontade. A mesma Igreja que, para utilidade pastoral, ou seja, para o bem dos
fiéis que não conhecem o latim, permitiu a liturgia em vernáculo, vos deu o
mandato de conservar a dignidade, a beleza e a gravidade do ofício coral, tanto
para a língua como para o canto. Por isso, aceitai de bom grado e sinceramente
a recomendação, sugerida não por um amor excessivo pelos antigos usos mas pela caridade paterna por vós, e aconselhado por
amorosa atenção pelo culto divino”.
Apesar disso, a Secretaria de
Estado concedeu um adiamento para “casos particulares” no dia 6 de junho de
1967: depois, com passos seguintes, chegou-se à tradução integral da liturgia
das horas.
A REVIRAVOLTA
Com as concessões e os adiamentos
– introduzidos por influência dos pedidos provenientes de algumas Conferências
Episcopais – as indicações do Concílio foram superadas. Paulo VI advertiu
contra o risco do abandono total do latim. No dia 27 de novembro de 1967, o
papa disse: “Perdemos a língua dos séculos cristãos,
tornamo-nos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sacra,
e assim perderemos grande parte daquele estupendo e incomparável fato artístico
que é o canto gregoriano.
Temos, sim, razão para nos
lamentar e quase para nos perturbar. O que poderíamos usar para substituir essa
língua Angélica? É um sacrifício de valor inestimável (...) O
latim colocava em nossos lábios as orações dos nossos antepassados e nos dava o
conforto de fidelidade ao nosso passado espiritual, que nos atualizávamos para
transmitir às gerações futuras”. Pouco mais adiante, o Papa afirmou que
esse preço deveria ser pago: “Vale mais a inteligência da oração que as vestes
ricas e vetustas que a envolvem. Vale mais a participação do
povo, deste povo moderno, ávido de palavra clara, inteligível e traduzível na
sua conversação profana”.
O relacionamento entre o Papa
Paulo VI e o Consilium não foi sempre bom. A primeira
ocasião de conflito foi determinada por aquilo que Bugnini
chama “uma tentativa de reforçar a organização operacional do Consilium”. No dia 22 de setembro de 1966, Lercaro conseguiu fazer com que o Papa estudasse uma
hipótese de estatuto e um regulamento interno. O texto do estatuto indicava a
natureza do Consilium e as suas atribuições; o
regulamento, por sua vez, estabelecia o procedimento do trabalho e dos grupos
de estudo. Assim, seria criado um organismo fixo, com amplos poderes no campo
litúrgico.
Depois que foi aprovado pelo Consilium, foi submetido a Paulo VI. Antes disso, o Papa
recebeu um texto que denunciava o risco de conceder poderes excessivos a um
organismo por natureza temporário, colocando a Igreja em estado de Concílio
permanente e “sufocando a Congregação para os Ritos (...) convertendo-a em um
mero instrumento vacilante e formal. O Consilium não
seria um organismo sob a jurisdição do Santo Padre, como as demais
Congregações, mas teria um poder absoluto e superior ao de qualquer
Congregação”. O texto pedia também que o Papa evitasse um outro fato consumado.
Paulo VI deu crédito a essas considerações (“Como foi possível crer em
afirmações tão graves e distorcidas sempre foi um mistério”, comenta Bugnini em seu livro), convocou Bugnini
para uma audiência e lhe disse que o estatuto era um caso encerrado.
Depois da reforma da Cúria Romana
(constituição apostólica Regimini Ecclesiae),
o Papa decidiu definir melhor a competência da Congregação dos Ritos e do Consilium. No dia 9 de janeiro de 1968, aceitou a demissão
do cardeal Lercaro e pediu que o cardeal Larraona se demitisse do cargo de Prefeito da Congregação
para os Ritos. No dia 8 de maio, o Papa promulgou a Constituição Sacra Rituum Congregatio, com a qual
dividia a antiga Congregação em duas: uma para o Culto Divino (na qual se inseria
o Consilium) e outra para as Causas dos Santos. O
cardeal Benno Gut foi
nomeado presidente da Congregação para o Culto Divino, com Bugnini
como secretário. Depois da morte de Gut (8 de
dezembro de 1970), sucederam-se na Congregação os cardeais Artur Tabera e James Knox (março de
1974). No dia 16 de julho de
Depois da fusão das duas
Congregações, o artífice da reforma litúrgica perdeu o lugar. Paulo VI o enviou
como pró-núncio apostólico no Irã, onde desenvolveu uma apreciada atividade
diplomática até a morte, ocorrida na Itália no dia 3 de julho de 1982, poucos
dias depois de uma delicada operação cirúrgica. O cardinalato seria quase
obrigatório; todavia, o Papa tomou uma decisão que equivalia a uma autêntica
desaprovação da obra de Bugnini. No dia 3 de agosto
de
Um colaborador direto do cardeal
Giovanni Benelli, então substituto da Secretaria de
Estado, disse a 30Dias que o motivo foi outro. “O Papa e Benelli
decidiram que era preciso dar um sinal claro e severo: não concordavam mais com
o contínuo e, muitas vezes desenfreado, reformismo ao qual o
monsenhor Bugnini e o “seu Conselho
continuavam a submeter a Igreja”.
O PAPA E O SECRETÁRIO
“Paulo VI tinha a humildade dos
santos, mas, muitas vezes, confiava demais nos outros e era influenciado pelos
especialistas”, diz a 30Dias o cardeal Jacques Martin, que foi presidente da
Casa Pontifícia no tempo de Paulo VI. “Lembro-me que no dia seguinte à reforma
do breviário, eu disse ao Santo Padre: “Viu que eliminaram a
oitava de Pentecostes?” e ele respondeu: ‘O senhor também viu? Sinto
muito. Quer dizer que seremos aliados’. Escrevi a monsenhor Bugnini
pedindo explicações, e depois de ter recebido a resposta ele me disse que as
comissões estavam de acordo quanto à eliminação e que ele não pretendia se
opor”.
Muitas testemunhas afirmam que o
secretário do Consilium exercia uma notável
influência sobre o Papa. Os cardeais Gaetano Cicognani e Benno Gut disseram várias vezes que a reforma e os trabalhos do Consilium eram dirigidos por Bugnini,
que tinha livre acesso ao escritório do Papa e podia mostrar-lhe diretamente os
documentos preparados pelos especialistas. Um cardeal italiano disse a 30Dias:
“Um dia, o cardeal Gut me disse desconsolado que não
podia fazer nada: tudo acontecia entre Bugnini e o
Papa”. Todavia, a verdadeira mente da reforma e da sua realização era o grupo
progressista dirigido pelo cardeal Döpfner. No
prefácio da autodefesa póstuma, Bugnini recorda que o
primeiro período da reforma litúrgica foi “um tempo sereno e ágil de um
pontificado que viu um maravilhoso florescer de obras”.
Depois desse período, alguma
coisa se desgastou irremediavelmente. O afastamento de Bugnini
foi decidido pelo mesmo Paulo VI que confiara nele depois do Concílio. A
reforma podia ser considerada acabada.
AS NORMAS CONCILIARES MAIS
DESOBEDECIDAS
1 – O Sacrossanto Concílio
propõe-se fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis.
4 – Enfim, obedecendo fielmente à
Tradição, o Sacrossanto Concílio declara que a Santa Mãe Igreja considera todos
os ritos legitimamente reconhecidos com igual direito e honra (...) e deseja
que, onde for necessário, sejam cuidadosa e integralmente revistos, conforme o
espírito da sã tradição.
11 – Por isso, é dever dos
sagrados pastores vigiar que, na ação litúrgica, não só se observem as leis para
a válida e lícita celebração, mas que os fiéis participem dela com conhecimento
da causa, ativa e frutuosamente.
13 – Os piedosos exercícios do
povo cristão, conquanto conformes às leis e normas da Igreja, são encarecidamente recomendados, sobretudo quando são feitos
por da Sé Apostólica.
21 – A Santa Mãe Igreja deseja
com empenho cuidar da reforma geral de sua Liturgia, a fim de que o povo
cristão na Sagrada Liturgia consiga com mais segurança graças abundantes. Pois
a Liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes suscetíveis
de mudança. Estas, com o correr dos tempos, podem ou mesmo devem variar, se
nelas se introduzir algo que não corresponda bem à natureza íntima da própria
Liturgia, ou se estas partes se tornarem aptas.
22 – A regulamentação da Sagrada
Liturgia é de competência exclusiva da autoridade da Igreja. Esta autoridade
cabe à Santa Sé Apostólica e, segundo as normas do Direito, ao Bispo. (...)
Portanto, jamais algum outro, ainda que sacerdote, acrescente, tire ou mude por
conta própria qualquer coisa à Liturgia.
23 – (...) Afinal não se façam
inovações, a não ser que a verdadeira e certa utilidade da Igreja o exija e tomando
a devida cautela de que as novas formas de um certo
modo brotem como que organicamente daquelas que já existiam.
28 – Nas celebrações litúrgicas,
cada qual, ministro ou fiel, ao desempenhar a sua função, faça tudo e só aquilo
que pela natureza da coisa ou pelas normas litúrgicas lhe compete.
34 – As cerimônias resplandeçam
de nobre simplicidade, sejam transparentes por sua brevidade e evitem as
repetições inúteis, sejam acomodadas à compreensão dos fiéis e, em geral, não
careçam de muitas explicações.
35 – (...) nas próprias
cerimônias sejam previstos, se necessário for, breves esclarecimentos (...) com
termos prefixados.
36 – Salvo o direito particular,
seja conservado o uso da Língua Latina nos Ritos latinos. (...) permite-se
dar-lhe (à língua vernácula) um lugar mais amplo, principalmente nas leituras e
admoestações, em algumas orações e cânticos.
54 – Todavia, providencie-se
que os fiéis possam juntamente rezar ou cantar em língua latina as partes do Ordinário
que lhe competem.
101 – Segundo a tradição secular
do rito latino, seja conservada a língua latina no Ofício Divino para os
clérigos. Concede-se, porém, ao Ordinário a faculdade de permitir, caso por
caso, o uso de uma tradução vernácula, feita segundo a norma do art. 36, aos
clérigos para os quais o uso da língua latina é um grave impedimento na
recitação devido ao Ofício.
116 – A Igreja reconhece o canto
gregoriano como próprio da liturgia romana. Portanto, em igualdade de condições,
ocupa o primeiro lugar nas ações litúrgicas.
121 – Os textos destinados aos
cantos sacros sejam conformes à doutrina católica, e sejam tirados principalmente
da Sagrada Escritura e das fontes litúrgicas.
CRONOLOGIA DE UMA EXTINÇÃO
Os documentos sobre o problema da
liturgia latina. As datas que marcaram a deslatinização,
apesar das intervenções de Paulo VI. 22 de novembro de 1947. Encíclica Mediator Dei, de Pio XII. O Pontífice afirma que o latim “é
um nobre e claro sinal de unidade e um antídoto eficaz contra a corrupção da
pura doutrina”, embora admita que em alguns casos é
possível conceder o uso do vernáculo.
22 de fevereiro de 1962. Sete meses antes da abertura do Concílio Vaticano II, o papa João XXIII promulga a Constituição apostólica Veterum sapientiae.Partindo de um documento de Pio XII, o papa afirma que a Igreja, pela sua natureza, precisa de uma língua “universal, imutável e não vulgar”. O documento foi assinado com grande solenidade na Cátedra de São Pedro, diante de quarenta cardeais.
4 de dezembro de 1963. Paulo VI
promulga a Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia. O texto, aprovado por
unanimidade pelos Padres conciliares, prevê que o latim seja conservado e concede
o uso dos idiomas nacionais nas leituras e nas partes da missa
repetidas pelo povo. O latim deve ser mantido na Liturgia das Horas para
os sacerdotes.
25 de janeiro de 1964. Motu próprio Sacram liturgiam. É o primeiro documento de Paulo VI que regulamenta
a aplicação da Sacrosanctum Concilium.
O vernáculo é admitido somente nas leituras e no Evangelho das missas de
matrimônio. A ala progressista reage imediatamente. Segundo muitos bispos, as concessões
são “insuficientes”.
26 de setembro de 1964. Instrução
Inter Oecumenici. O
vernáculo pode ser introduzido nas leituras e no Evangelho, na oração dos
fiéis, no Kyrie, no Glória, no Credo, no Sanctus e no Agnus Dei; nos cantos, nas aclamações e nas saudações, no
Pai Nosso e na oração sobre as ofertas. A Instrução preparada pelo Consilium é aprovada pelas Conferências Episcopais que
insistiam na introdução do vernáculo na missa, que se torna, porém, “um híbrido
incoerente” (Bugnini).
31 de janeiro de 1967. Paulo VI
concede ad experimentum,
por indicação do Consilium, o uso do vernáculo no
cânon da missa.
21 de junho de 1967. Carta
circular do Consilium aos presidentes de Conferências
Episcopais, assinada pelo cardeal Giacomo Lercaro. “Depois do ponto de partida e da extensão da
língua falada no prefácio, esta é a última etapa para a gradual extensão do
vernáculo. Não se deve passar freqüentemente de uma língua a outra na
celebração; isso será certamente bem recebido (...) A tradução deve ser literal
e integral. Os textos devem ser tomados como são, sem
mutilações ou simplificações (...) Não é oportuno queimar etapas. Quando chegar
o momento de novas criações, não será mais necessário submeter-se às restrições
da tradução literal”.
10 de agosto de 1967. Comunicado
do Consilium às Conferências Episcopais sobre as
traduções do cânon romano. Quatro anos depois da publicação da Constituição
conciliar, o latim é completamente suplantado pelas línguas nacionais nas
celebrações litúrgicas.
1969 – 1974. Com a tradução integral
da Liturgia das Horas, o breviário é “deslatinizado”.
DEMITIDO E AFASTADO
Por Andrea Tornielli
O padre Gottardo
Pasqualetti, do Instituto das Missões da Consolata, trabalhou com dom Annibale
Bugnini no Consilium, acompanhou-no ao “exílio” no Irã e o ajudou a escrever o
livro sobre a reforma litúrgica, publicado póstumo em 1982. Padre Gottardo concordou em falar a 30Dias sobre alguns episódios
da reforma litúrgica, em defesa da memória de dom Bugnini.
Por que motivo dom Bugnini não foi confirmado como secretário da comissão
conciliar depois de ter ocupado esse cargo na comissão preparatória?
PASQUALETTI: Essa medida foi
tomada pelo cardeal Arcádio Larraona, e foi
determinada sobretudo pela questão do latim e pelo
temor que o vernáculo fosse introduzido na celebração litúrgica. Larraona foi apoiado pelos mestres músicos do Vaticano. O
padre Bugnini e dom Andrzej
Deskur, que já trabalhava com as comunicações
sociais, foram os únicos que perderam o lugar na passagem da fase de preparação
ao início dos trabalhos do Concílio.
Passemos ao segundo “exílio”, com
a nomeação como pró-núncio no Irã, em 1975. Nesse caso, foi uma verdadeira
remoção, decidida por Paulo VI. O que a determinou?
PASQUALETTI: Foi um verdadeiro
drama para Bugnini. A sua maior dor foi devida ao
fato de ter sido removido sem que as razões do afastamento lhe fossem
comunicadas. Até o Papa, que o recebeu em audiência, não disse nada sobre isso.
Segundo Bugnini, a decisão foi determinada por uma
autêntica conspiração, baseada em documentos falsos segundo os quais ele seria
membro da maçonaria.
Não poderia ter sido um
julgamento implícito sobre o modo de atuar na reforma litúrgica?
PASQUALETTI: De fato, houve isso
também. Em
Foi dito muitas vezes que dom Bugnini exercia uma grande influência sobre Paulo VI, que tinha
livre acesso ao seu escritório e podia apresentar-lhe diretamente qualquer
documento. O cardeal Journet disse que no famoso caso
do artigo 7 da definição da missa, Paulo VI teria assinado sem ler, tão grande
era a confiança que depositava em Bugnini. É verdade?
PASQUALETTI: Sem dúvida, Bugnini exercia uma certa
influência sobre Paulo VI, mas dizer que o papa assinava sem ler não é verdade.
Bugnini apresentava muitos documentos a Paulo VI,
tanto que alguns cardeais reclamaram porque o papa trabalhava excessivamente.
Os documentos apresentavam todas as posições e todas as soluções possíveis.
Pode ser que algo tenha escapado à atenção do Papa. Em todo caso, os dois
trabalhavam juntos por muitas horas e reviam todos os textos.
A MISSA DEGENERADA EM SHOW
por Joseph Ratzinger
O ex prefeito
da Congregação para a Doutrina da Fé fala sobre a reforma litúrgica Um jovem
sacerdote disse-me recentemente: “Hoje precisamos de um novo movimento litúrgico”.
Era a expressão de um desejo que, nos nossos dias, só
espíritos voluntariamente superficiais poderiam descartar. Para aquele
sacerdote, o importante não era a conquista de liberdades novas e audaciosas:
nós já não tomamos todas essas liberdades? Ele entendeu que
nós precisamos de um novo começo, que nasça no íntimo da liturgia, como queria
o movimento litúrgico quando estava no apogeu de sua verdadeira natureza e não
se preocupava em fabricar textos, inventar gestos e formas, mas em redescobrir
o centro vivo, penetrar no tecido propriamente dito da liturgia, para que a sua
realização nascesse da substância da liturgia. A reforma litúrgica, na
sua realização concreta, afastou-se dessa origem. O resultado não foi uma
reanimação mas uma devastação. De um lado, temos uma
liturgia que se degenerou em show, com a tentativa de fazer com que a religião
seja interessante com a ajuda de tolices da moda e de máximas morais sedutoras,
que fazem sucesso momentâneo no grupo de fabricantes litúrgicos, e leva a uma
atitude de fechamento ainda mais pronunciada entre aqueles que procuram na liturgia
não um show-master espiritual mas
o encontro com o Deus vivo diante do qual o “fazer” se torna insignificante,
porque só esse encontro é capaz de nos possibilitar o acesso às verdadeiras
riquezas do ser.
Do outro lado, há a conservação
das formas rituais cuja grandeza comove ainda hoje, mas que, levado ao extremo,
manifesta um isolamento obstinado e no fim só produz tristeza. Certamente,
existem entre esses extremos sacerdotes e paroquianos que celebram a nova
liturgia com respeito e solenidade, mas eles são contestados pela contradição
entre os dois extremos, e a falta de unidade interna na Igreja faz com que a sua
fidelidade pareça, erradamente em muitos casos, como
uma simples variação pessoal do neoconservadorismo.
Em vista dessa situação, é necessário um novo impulso espiritual para que a
liturgia seja novamente para nós uma atividade comunitária da Igreja e para que
ela seja arrancada da arbitrariedade dos párocos e das suas equipes de
liturgia.
Não podemos “fabricar” um
movimento litúrgico desse tipo – como não podemos “fabricar” nada vivo – mas podemos
contribuir para o seu desenvolvimento, esforçando-nos para assimilar novamente
o espírito da liturgia e defendendo publicamente o que recebemos. Esse novo
início precisa de “pais” que sejam modelos e não se contentem em indicar o
caminho a seguir. Quem hoje procura esses “pais” encontrará sem dúvida a pessoa
de monsenhor Klaus Gamber, que infelizmente nos
deixou cedo demais, mas que pode ser, justamente pela sua partida, realmente
presente com toda a força das perspectivas que nos abriu. Partindo, ele evita a
querela dos partidos e pode, nesta hora de dificuldade, ser o “pai” em um novo
começo. Gamber atuou de coração a esperança do antigo
movimento litúrgico. Sem dúvida, visto que provinha de uma escola estrangeira,
sempre foi um outsider no cenário alemão, onde não quisemos admiti-lo.
Recentemente, um jovem pesquisador teve dificuldades na sua tese porque ousou
citar Gamber abundantemente e com muita benevolência.
Mas pode ser que esse ostracismo seja providencial, porque forçou Gamber a seguir o seu caminho e evitou o peso do
conformismo.
È difícil dizer em poucas
palavras aquilo que, na querela dos liturgistas, é
realmente essencial e o que não é. Pode ser a indicação seguinte seja útil. J.
A. Jungmann, um dos grandes liturgistas
do nosso século, definiu a liturgia como a entendemos no Ocidente, sobretudo
através das pesquisas históricas, como uma “liturgia fruto de um
desenvolvimento”, provavelmente para contrastar a noção oriental que não vê na
liturgia um devir e um crescimento histórico mas só o reflexo
da liturgia eterna, na qual a luz, através da função sacra, ilumina o nosso
tempo e o reveste com a sua beleza e grandeza imutáveis. As duas concepções são
legítimas e não inconciliáveis. O que aconteceu depois do Concílio foi muito diferente:
em lugar de uma liturgia fruto de um desenvolvimento contínuo, surgiu uma
liturgia fabricada. Saímos do processo vivo de crescimento e de devir para
entrar na fabricação. Não quisemos prosseguir o devir e o amadurecimento
orgânico do que vive através dos séculos, e o substituímos – como na produção
técnica – por uma fabricação, um produto banal do instante. Gamber,
com a vigilância de um autêntico profeta e a coragem de um
testemunha, opôs-se a essa falsificação e nos ensinou incansavelmente a
plenitude viva de uma liturgia verdadeira, graças ao seu grande conhecimento. Como
homem que conhecia e amava a história, ele nos mostrou as múltiplas formas do
devir e do caminho da liturgia; como homem que via a história por dentro, ele
viu nesse desenvolvimento o reflexo intocável da liturgia eterna, que não é
objeto da nossa ação mas pode continuar
maravilhosamente a amadurecer e a afirmar-se se nós nos unimos intimamente ao
seu mistério. A morte desse homem e sacerdote eminente deve nos estimular; a
sua obra pode nos ajudar a tomar novo impulso.
(Prefácio do livro La réforme liturgique
em question, de Klaus Gamber,
Editions Sainte-Madeleine)
TRADUZIDOS E TRAÍDOS
(por Lorenzo Bianchi)
Interpretar, suprimir
e adequar: foram esses os princípios que os liturgistas
seguiram.
Distorcendo tudo.
Traduzidos ou traídos?
O
desaparecimento repentino do latim e a conseqüente utilização do vernáculo nos
livros litúrgicos teve graves conseqüências. Apresentamos a seguir alguns
trechos dos documentos que a partir do Concílio ditaram as regras a serem
seguidas na tradução.
A Instrução Inter
Oecumenicis, da Sagrada Congregação para os Ritos (26
de setembro de 1964) estabeleceu a necessidade de uma “tradução perfeita”.
Quase três anos depois, uma carta circular do Consilium
aos presidentes das Conferências Episcopais (21 de junho de 1967), assinada
pelo cardeal Giacomo Lercaro,
acrescentou os seguintes elementos: “Deve ser preparada uma tradução nova, bem cuidada
e digna. Além disso, a tradução deve ser literal e integral (em itálico no
original, nda). Os textos devem ser tomados como são, sem mutilações ou simplificações de nenhum tipo”.
Todavia a carta dizia também: “Não é oportuno queimar etapas. Quando chegar o
momento de novas criações, não será mais necessário submeter-se à estreiteza da
tradução literal”. Naquela época, o filósofo Jacques Maritain,
escreveu a Paulo VI: “Na verdade, o primeiro dever de um tradutor que não
queira ser um traidor é respeitar sempre a palavra que foi usada pelo autor
(que ele, ou o Espírito Santo que o inspirou, teve razões para escolher em
lugar de outra) e procurar um equivalente exato, mesmo ao preço da obscuridade.
Obscuridade inevitável, obscuridade bendita, porque é a sombra que a grandeza
das coisas divinas lança sobre a nossa linguagem humana”. Todavia, como vimos, já em
Nesse aspecto, será oportuno
proceder com paciência, sem pressa e sobretudo com
humildade, pedindo a colaboração de muitos, não só dos teólogos e liturgistas mas também de literatos e revisores de estilo, para
que as traduções sejam documentos de reconhecida beleza, que possam desafiar a
usura impiedosa do tempo com a propriedade, a harmonia, a elegância e a riqueza
da expressão e da língua, em plena correspondência com a riqueza interior do
conteúdo”. Naquele mesmo ano foi publicada a primeira tradução “típica” e
oficial em língua italiana, limitada ao Rito da missa.
A terceira Instrução da
Congregação para os Ritos para a aplicação exata da Constituição sobre Sagrada
Liturgia, Liturgicae Instarationes
(5 de setembro de 1970), não fala mais da tradução “literal” pedida três anos
antes: “A compreensão da reforma litúrgica exige que seja feita um grande
esforço para uma digna tradução em vernáculo e a publicação dos livros
litúrgicos renovados(...) Nesse aspecto, será oportuno
proceder sem pressa e sobretudo com humildade, pedindo a colaboração de várias
pessoas, não só os teólogos e liturgistas mas também
de literatos e revisores de estilo, para que as traduções sejam documentos de
reconhecida beleza, possam desafiar a usura do tempo com a propriedade, a
harmonia, a elegância e a riqueza da expressão e da língua, em plena
correspondência com a riqueza interior do conteúdo” (nº
11 – note-se que curiosamente Bugnini reproduz a
frase de Paulo VI acima citada, suprimindo a menção à humildade que o Papa
pedia aos tradutores). Portanto, a tradução, especialmente nas “orações”, como
previsto nas normas publicadas em 1969, poderá afastar-se da letra do texto
latino.
Foi o que aconteceu com o missal
italiano: menos de dois meses depois, ficou pronta a tradução completa “ad interim”, aprovada pela
Conferência Episcopal Italiana, na qual é possível notar essa tendência, que se
acentuou nas edições típicas oficiais de 1973 e 1983. Em,
Diante das várias interpretações
dos textos, foi necessária uma declaração da Congregação para a Doutrina da Fé
(Instauratio liturgica, de
25 de janeiro de 1974, assinada pelo prefeito, cardeal Franjo Seper, e pelo secretário, monsenhor Jean Jerôme Hamer que dizia: “A Sé
Apostólica (...) aprova e confirma (as versões em vernáculo das fórmulas
sacramentais) e estabelece ao mesmo tempo que o seu significado
é, na mente da Igreja, o significado expresso pelo texto original latino”.
Assim, pelo menos o essencial era preservado.