"Liturgia
é uma ação sagrada, através da qual, com ritos, na Igreja e pela Igreja, se
exerce e prolonga a obra sacerdotal de Cristo, que tem por objetivos a
santificação dos homens e a glorificação de Deus" (SC 7).
Liturgia
não é somente a “Festa do Rei Jesus...”
Um
dos nossos maiores pecados hoje em dia é reduzirmos o assunto liturgia à
celebração da missa e defini-la apenas como um conjunto de rituais e orações
que nos levam ao céu. E tudo isso fruto de uma crescente automação religiosa,
que podemos perceber a cada domingo em nossas assembléias litúrgicas. As
pessoas vão à missa sem saber o porque de estarem ali e nem o que está
acontecendo perante elas. São meros espectadores do preceito dominical ensinado
por seus pais. Talvez seja por isso que nós católicos sejamos tão criticados.
Destinados
àqueles que querem assumir em plenitude o mistério que Cristo confiou à sua
Igreja, e romper com “tradicionalismos”, este manual, de maneira simples e
objetiva, abordará de um modo geral a liturgia em si, dedicando, a seguir, uma
atenção especial ao rito da missa, que é muito mais que “a festa do Rei
Jesus...”
Uma
breve palavra sobre história da salvação
O
gráfico acima é uma representação do plano de salvação de Deus para a
humanidade. Vale aqui recordar que o sentido da palavra “salvar” em Teologia
significa “unir com Deus”. O gráfico mostra como Deus, após a queda original,
age na história da humanidade, até que esta assuma sua plenitude, conforme os
planos originais do Pai (I Jo 3,2).
E
como se dá a ação do Pai na história? Ela é essencialmente Cristológica. Cristo
é o nosso intercessor ao longo de toda história (Ef 1), por ele somos salvos.
De fato, Cristo esteve presente no início da história, pois todas as coisas
foram criadas nele (Jo 1,3). Está presente junto ao povo da antiga aliança,
através da promessa, manifestada através dos patriarcas e profetas. Encarna-se
na plenitude dos tempos, salvando-nos definitivamente através de sua paixão,
morte e ressurreição. Ascende aos céus, prometendo permanecer conosco até o fim
dos tempos (Mt 28,20). Presença essa mística, manifesta em sua Igreja e em seus
sacramentos - a liturgia. No final dos tempos Cristo retornará para levar toda
criação à plenitude.
Definição
Após
considerarmos estes aspectos, podemos apropriar-nos da definição que a Igreja
faz da liturgia:
“Liturgia
é uma ação sagrada, através da qual, com ritos, na Igreja e pela Igreja, se
exerce e prolonga a obra sacerdotal de Cristo, que tem por objetivos a
santificação dos homens e a glorificação de Deus” (SC 7).
Em
outras palavras, a liturgia é a continuidade do plano de salvação do Pai,
através da presença mística de Cristo nos sacramentos, que são administrados e
perpetuados pela Igreja. Note-se, à Igreja cabe a missão de continuar a obra de
Cristo, que se dá, sobretudo, através da liturgia. Sem liturgia, não há Igreja
e sem Igreja não há liturgia. E sem liturgia não há continuidade no mistério da
salvação da humanidade.
Certa
ocasião, numa cidade do interior, o bispo da diocese fora visitar as obras de
construção de uma Igreja. Ele então, viu vários operários carregando tijolos de
um lado para outro e resolveu conversar com alguns deles:
- O
que você está fazendo?
E o
primeiro responde-lhe:
-
Carrego tijolos.
O
segundo, feita a mesma pergunta, responde:
-
Estou garantindo o leite de meus filhos.
Fazendo
a mesma pergunta a um terceiro operário, este responde ao bispo:
-
Estou ajudando a construir uma igreja, aonde as pessoas virão agradecer a Deus
por tudo que ele faz em suas vidas.
Três
pessoas, a mesma ação. E para cada uma delas a ação tinha um sentido diferente.
É o mesmo que ocorre com a missa. Para alguns, não há sentido, pois fazem seus
atos sem ter consciência deles. Outros têm uma visão muito individualista do
que fazem, e por fim há os que enxergam o todo da realidade em que participam,
fazendo seus atos terem um sentido total. E nós, em qual grupo nos encaixamos?
Antes
de respondermos, analisemos o sentido da missa. A missa é uma celebração. E
celebrar, “é tornar presente uma realidade através de um rito”. Na celebração,
temos sempre presentes o passado, o presente e o futuro, que em breves momentos
unem-se num tempo só, a eternidade. E qual a finalidade de uma celebração?
Nenhuma. A celebração possui valor. Aliás, as coisas mais importantes do homem
como o lazer, o amor, a arte, a oração não tem uma finalidade produtiva, mas
sim valor. E o valor da missa é tornarmos presente a paixão-morte-ressurreição
de Cristo através da celebração, e assim participarmos mais ainda do mistério
de salvação da humanidade.
Vale
a pena ainda lembrar que, ao tornarmos presente o sacrifício de Cristo não quer
dizer que estejamos novamente sacrificando o Cristo. Partindo do princípio que
a salvação de Cristo não se prende à nossa visão de presente, passado e futuro,
mas coloca-se no nível da eternidade, podemos afirmar que Cristo ao morrer na
cruz salva todos os homens em todos os tempos, e a cada instante. É como se em
cada missa, você estivesse aos pés da cruz contemplando o mistério da redenção
da humanidade. E é o que acontece em cada missa, em cada eucaristia celebrada. E
aí está o amor de Cristo ao dar-se na Eucaristia, em forma de alimento.
Para
realizarmos uma missa precisamos de alguns ingredientes, assim como uma receita
de bolo:
a) A
palavra de Deus
b) Altar (a missa é uma ceia, precisamos de uma mesa);
c) Assembléia (no mínimo uma pessoa);
d) Intenção
do que se faz, tanto da parte da assembléia
quanto do ministro;
e) Ministro
ordenado (padre ou bispo);
f) Pão,
água e vinho.
Estes
são os ingredientes indispensáveis a qualquer celebração eucarística. Sobre
cada um deles, explicaremos no decorrer de cada parte da missa.
Outrora,
a missa não possuía este nome, mas era chamada de ceia do Senhor ou eucaristia.
De fato, a missa é uma ceia onde nos encontramos com os irmãos para juntos
alimentarmo-nos do próprio Deus, que se dá em alimento por sua Palavra e pelo
pão e o vinho. E a missa também é eucaristia. O que vem a ser isso?
Eucaristia
significa ação de graças. No capítulo 24 do livro do Gênesis, vemos um exemplo
de ação de graças. Após a morte de sua esposa Sara, Abraão pede ao seu servo
mais antigo que procure uma esposa para seu filho Isaac. O servo parte em busca
desta mulher, mas como iria reconhecê-la? Pede a Deus um sinal e o servo a
reconhece quando uma bela jovem dá de beber de seu cântaro ao servo e seus
camelos. E qual sua reação após este fato? “O servo inclinou-se diante do
Senhor. Bendito seja, exclamou ele, o Deus de Abraão, meu senhor, que não
faltou à sua bondade e à sua fidelidade. Ele conduziu-me diretamente à casa dos
parentes de meu Senhor” (Gn 24,26-27). Eis aqui uma ação de graças.
Quais
os seus elementos? Temos antes de tudo um fato maravilhoso, uma bênção,
um benefício, uma graça alcançada, manifestação da bondade de Deus. Depois, a admiração.
O servo inclina-se diante do Senhor. Esta admiração manifesta-se pela exclamação
e aclamação. Ele não faltou à sua bondade e à sua fidelidade. Proclama,
então, o fato, narra o acontecimento, o benefício, a Bênção recebida.
Todos estes elementos encontram-se no contexto da missa, como veremos adiante.
E por
que então a missa possui este nome? Por enquanto acompanhemos a missa parte por
parte e as respostas serão dadas.
Instrução
Geral ao Missal Romano, n.º 24:
“Os
ritos iniciais ou as partes que precedem a liturgia da palavra, isto é, cântico
de entrada, saudação, ato penitencial, Senhor, Glória e oração da coleta, têm o
caráter de exórdio, introdução e preparação. Estes ritos têm por finalidade
fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se
disponham para ouvir atentamente a Palavra de Deus e celebrar dignamente a
Eucaristia”.
Este
tem por fim introduzir os fiéis ao mistério celebrado. Sua posição correta
seria após a saudação do padre, pois ao nos encontrarmos com uma pessoa
primeiro a saudamos para depois iniciarmos qualquer atividade com ela.
“Reunido
o povo, enquanto o sacerdote entra com os ministros, começa o canto de entrada.
A finalidade desse canto é abrir a celebração, promover a união da assembléia,
introduzir no mistério do tempo litúrgico ou da festa, e acompanhar a procissão
do sacerdote e dos ministros”(IGMR n.25)
Durante
o canto de entrada percebemos alguns elementos que compõem o início da missa:
Durante
a missa, todas as músicas fazem parte de cada momento. Através da música
participamos da missa cantando. A música não é simplesmente acompanhamento ou
trilha musical da celebração: a música é também nossa forma de louvarmos a
Deus. Daí a importância da participação de toda assembléia durante os cantos.
O
povo de Deus é um povo peregrino, que caminha rumo ao coração do Pai. Todas as
procissões têm esse sentido: caminho a se percorrer e objetivo a que se quer
chegar.
Durante
a missa, o pão e o vinho são consagrados no altar, ou seja, é no altar que
ocorre o mistério eucarístico. O presidente da celebração ao chegar beija o
altar em sinal de carinho e reverência por tão sublime lugar.
Por
incrível que possa parecer, o local mais importante de uma igreja é o altar,
pois ao contrário do que muita gente pensa, as hóstias guardadas no sacrário
nunca poderiam estar ali se não houvesse um altar para consagrá-las.
O
presidente da celebração e a assembléia recordam-se por que estão celebrando a
missa. É, sobretudo pela graça de Deus, em resposta ao seu amor. Nenhum motivo
particular deve sobrepor-se à gratuidade. Pelo sinal da cruz nos lembramos que
pela cruz de Cristo nos aproximamos da Santíssima Trindade.
Retirada
na sua maioria dos cumprimentos de Paulo, o presidente da celebração e a
assembléia se saúdam. O encontro eucarístico é movido unicamente pelo amor de
Deus, mas também é encontro com os irmãos.
Após
saudar a assembléia presente, o sacerdote convida toda assembléia a, em um
momento de silêncio, reconhecer-se pecadora e necessitada da misericórdia de
Deus. Após o reconhecimento da necessidade da misericórdia divina, o povo a
pede em forma de ato de contrição: Confesso a Deus Todo-Poderoso... Em
forma de diálogo por versículos bíblicos: Tende compaixão de nós... Ou
em forma de ladainha: Senhor, que viestes salvar... Após, segue-se a
absolvição do sacerdote. Tal ato pode ser substituído pela aspersão da água,
que nos convida a rememorar-nos o nosso compromisso assumido pelo batismo e
através do simbolismo da água pedirmos para sermos purificados.
Cabe
aqui dizer, que o “Senhor, tende piedade” não pertence necessariamente ao ato
penitencial. Este se dá após a absolvição do padre e é um canto que clama pela
piedade de Deus. Daí ser um erro omiti-lo após o ato penitencial quando este é
cantando. O “Senhor, tende piedade” poderá fazer parte do ato penitencial, mas
para isso é necessário a inserção de uma característica de Deus. Ainda com
relação ao texto do “Senhor...”, os vocativos presentes em cada frase
referem-se a Jesus Cristo, aquele que intercede ao Pai por nossos pecados.
Espécie
de salmo composto pela Igreja, o glória é uma mistura de louvor e súplica, em
que a assembléia congregada no Espírito Santo, dirige-se ao Pai e ao Cordeiro.
é proclamado nos domingos - exceto os do tempo da quaresma e do advento - e em
celebrações especiais, de caráter mais solene.
Encerra
o rito de entrada e introduz a assembléia na celebração do dia.
“Após
o convite do celebrante, todos se conservam em silêncio por alguns instantes,
tomando consciência de que estão na presença de Deus e formulando interiormente
seus pedidos. Depois o sacerdote diz a oração que se costuma chamar de
‘coleta’, a qual a assembléia dá o seu assentimento com o ‘Amém’ final” (IGMR
32).
Dentro
da oração da coleta podemos perceber os seguintes elementos: invocação,
pedido e finalidade.
Não
existe celebração na liturgia cristã em que não se proclame a Palavra de Deus.
Isto porque a Igreja antes de tornar presente os mistérios de Cristo ela os
contempla. Pela palavra, Deus convoca e recria o seu povo, através de uma
resposta de conversão da parte de quem a ouve.
“A
parte principal da Palavra de Deus é constituída pelas leituras da Sagrada
Escritura e pelos Cânticos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida e
concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Pois
nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo, revela o mistério
da redenção e da salvação, e oferece alimento espiritual.; e o próprio Cristo,
por sua palavra, se acha presente no meio dos fiéis. Pelos cânticos, o povo se
apropria dessa palavra de Deus e a ele adere pela profissão de fé. Alimentado
por esta palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja
e pela salvação do mundo inteiro”(IGMR 33).
1. I , II Leituras e Salmo
Para
compreendermos melhor a liturgia da Palavra é necessário distinguir entre a
liturgia dominical e a liturgia dos dias da semana. A primeira é dividida em
três anos, nos quais a Igreja procura ler toda a Bíblia. Nos dias de domingo e
festas o esquema das leituras é o
seguinte: Primeira leitura, salmo, segunda leitura, aclamação ao Evangelho e
evangelho. A primeira leitura e o evangelho tratam geralmente do mesmo assunto,
para mostrar Jesus como aquele que leva à plenitude a antiga aliança; o salmo,
é uma meditação da leitura, uma espécie de comentário cantado - daí ser
insubstituível; a segunda leitura é feita de forma semi-contínua, sempre
extraída da carta do apóstolo. Já a liturgia dos dias da semana não apresenta a
segunda leitura, e toda a Bíblia é lida todos os anos.
2. Evangelho
É o
ponto alto da liturgia da Palavra. Cristo torna-se presente através de sua
Palavra e da pessoa do sacerdote. Tal momento é revestido de cerimônia, devido
sua importância. Todos ficam de pé e aclamam o Cristo que fala. O diácono ou o
padre dirigem-se à mesa da palavra para proclamá-la. O que proclama a Palavra
do evangelho menciona a presença do Cristo vivo entre nós. Faz o sinal da cruz
na testa, na boca e no coração para que todo o ser fique impregnado da mensagem
do Evangelho: a mente a acolha, a boca a proclame e o coração a sinta e a viva.
3. Homilia
A
homilia faz a transição entre a palavra de Deus e sua resposta. É feita
exclusivamente por um ministro ordenado, pois este recebeu, através da
imposição das mãos o dom especial para pregar o Evangelho. A função da homilia
é confrontar o mistério celebrado com a vida da comunidade. Na homilia, o
sacerdote anima o povo, exorta-o e se for preciso o denuncia, mostrando a
distância entre o ideal proposto e a vida concreta do povo.
4. Profissão de fé
“O
símbolo ou profissão de fé, na celebração da missa, tem por objetivo levar o
povo a dar seu assentimento e resposta à palavra de Deus ouvida nas leituras e
homilia, bem como lhe recordar a regra da fé antes de iniciar a celebração da
eucaristia”(IGMR 43).
A
profissão de fé consiste na primeira resposta dada à Palavra de Deus. Nela
cremos e aderimos, manifestando também nossa fé naquela que possui a
incumbência de perpetuar esta palavra: a Igreja Católica. Possui duas formas,
sendo a mais extensa proclamada em solenidades especiais, como o Natal,
Anunciação etc.
5. Preces da comunidade
“Na
oração dos fiéis ou oração universal, a assembléia dos fiéis, iluminada pela
graça de Deus, à qual de certo modo responde, pede normalmente pelas
necessidades da Igreja universal e da comunidade local, pela salvação do mundo,
pelos que se encontram em qualquer necessidade e por grupos determinados de
pessoas” (IGMR 30).
O
povo de Deus ouve a Palavra de Deus, a acolhe e dá a sua resposta. Esta pode
ser em forma de louvor, de súplica, adoração ou intercessão. Pede a Deus a
graça de poder realizar a sua vontade; porém ele não é egoísta: pede por todos
para que também possam realizar esta palavra e assim encontrar o sentido para
suas vidas. Pede pela Igreja, para que esta tenha coragem de continuar
proclamando esta palavra. Pede por aqueles que sofrem e pelas autoridades
locais, para que concretizem o Reino de Deus entre nós. Finalmente faz seus
pedidos pela comunidade local.
Talvez
seria de imensa riqueza para a liturgia se as preces fossem feitas de modo
espontâneo, mas para isso seria necessário ordem e instrução por parte da
assembléia. Seria necessário lembrar que a resposta à Palavra de Deus nunca se
dá de modo egoísta.
Na
liturgia eucarística atingimos o ponto alto da celebração. Durante ela a Igreja
irá tornar presente o sacrifício que Cristo fez para nossa salvação. Não se
trata de outro sacrifício, mas sim de trazer à nossa realidade a salvação que
Deus nos deu. Durante esta parte a Igreja eleva ao Pai, por Cristo, sua oferta
e Cristo dá-se como oferta por nós ao Pai, trazendo-nos graças e bênçãos para
nossas vidas.
“Cristo
na verdade, tomou o pão e o cálice em suas mãos, deu graças, partiu o pão e
deu-os aos seus discípulos dizendo: ‘Tomai, comei, isto é o meu Corpo, este é o
cálice do meu Sangue. Fazei isto em memória de mim’. Por isso, a Igreja dispôs
toda a celebração da liturgia eucarística em partes que correspondam às
palavras e gestos de Cristo: 1) no ofertório leva-se o pão e o vinho com água,
isto é, os elementos que Cristo tomou em suas mãos; 2) na oração eucarística
rendem-se graças a Deus por toda obra salvífica e o pão e vinho tornam-se o
Corpo e o Sangue de Cristo; 3) pela fração do mesmo pão manifesta-se a unidade
dos fiéis, e pela comunhão recebem o Corpo e o Sangue do Senhor como os
discípulos o receberam das mãos do próprio Cristo” (IGMR 48).
É
durante a liturgia eucarística que podemos entender a missa como uma ceia, pois
afinal de contas nela podemos enxergar todos os elementos que compõem uma:
temos a mesa - mais propriamente a mesa da Palavra e a mesa do pão. Temos o pão
e o vinho, ou seja o alimento sólido e líquido presentes em qualquer ceia. Tudo
conforme o espírito da ceia pascal judaica, em que Cristo instituiu a
eucaristia.
E de
fato, a Eucaristia no início da Igreja era celebrada em uma ceia fraterna.
Porém foram ocorrendo alguns abusos, como Paulo os sinaliza na Primeira Carta
aos Coríntios. Aos poucos foi sendo inserida a celebração da palavra de Deus
antes da ceia fraterna e da consagração. Já no século II a liturgia da Missa
apresentava o esquema que possui hoje em dia.
Após
essa lembrança de que a Missa também é uma ceia, podemos nos questionar sobre o
sentido de uma ceia, desde o cafezinho oferecido ao visitante até o mais requintado
jantar diplomático. Uma ceia significa, entre outros: festa, encontro, união,
amor, comunhão, comemoração, homenagem, amizade, presença, confraternização,
diálogo, ou seja, vida. Aplicando esses aspectos a Missa, entenderemos o seu
significado, principalmente quando vemos que é o próprio Deus que se dá em
alimento. Vemos que a Missa também é um convívio no Senhor.
A
liturgia eucarística divide-se em: apresentação das oferendas, oração
eucarística e rito da comunhão.
Apesar
de conhecida como ofertório, esta parte da Missa é apenas uma apresentação dos
dons que serão ofertados junto com o Cristo durante a consagração. Devido ao
fato de maioria das Missas essa parte ser cantada não podemos ver o que
acontece durante esse momento. Conhecendo esses aspectos poderemos dar mais
sentido à celebração.
Analisemos
inicialmente os elementos do ofertório: o pão o vinho e a água. O que
significam? De fato foram os elementos utilizados por Cristo na última ceia,
mas eles possuem todo um significado especial:
1) o pão e o vinho representam a vida do homem, o que ele é, uma vez que
ninguém vive sem comer nem beber;
2) representam também o que o homem faz, pois ninguém vai na roça colher pão
nem na fonte buscar vinho;
3) em Cristo o pão e o vinho adquirem um novo significado, tornando-se o Corpo
e o Sangue de Cristo. Como podemos ver, o que o homem é, e o que o homem faz
adquirem um novo sentido em Jesus Cristo.
E a
água? Durante a apresentação das oferendas, o sacerdote mergulha algumas gotas
de água no vinho. E o porquê disso? Sabemos que no tempo de Jesus os judeus
bebiam vinho diluído em um pouco de água, e certamente Cristo também devia
fazê-lo pois era verdadeiramente homem. Por outro lado, a água quando misturada
ao vinho adquire a cor e o sabor deste. Ora, as gotas de água representam a
humanidade que se transforma quando diluída em Cristo.
a)
Preparação do altar
“Em
primeiro lugar prepara-se o altar ou a mesa do Senhor, que é o centro de toda liturgia
eucarística, colocando-se nele o corporal, o purificatório, o cálice e o missal
, a não ser que se prepare na credência”(IGMR 49).
b)
Procissão das oferendas
Neste
momento, trazem-se os dons em forma de procissão. Lembrando que o pão e o vinho
representam o que é o homem e o que ele faz, esta procissão deve revestir-se do
sentimento de doação, ao invés de ser apenas uma entrega da água e do vinho ao
sacerdote.
c)
Apresentação das oferendas a Deus
O
sacerdote apresenta a Deus as oferendas através da fórmula: Bendito
sejais... e o povo aclama: Bendito seja Deus para sempre! Este
momento passa despercebido da maioria das pessoas devido ao canto do ofertório.
O ideal seria que todo o povo participasse desse momento, sendo o canto usado
apenas durante a procissão e a coleta fosse feita sem as pessoas saírem de seus
locais. O canto não é proibido, mas deve procurar durar exatamente o tempo da
apresentação das oferendas, para que o sacerdote não fique esperando para dar
prosseguimento à celebração.
d)
A coleta do ofertório
Já
nas sinagogas hebraicas, após a celebração da Palavra de Deus, as pessoas
costumavam deixar alguma oferta para auxiliar as pessoas pobres. E de fato,
este momento do ofertório só tem sentido se reflete nossa atitude interior de
dispormos os nossos dons em favor do próximo. Aqui, o que importa não é a
quantidade, mas sim o nosso desejo de assim como Cristo, nos darmos pelo
próximo. Representa o nosso desejo de aos poucos, deixarmos de celebrar a
eucaristia para nos tornarmos eucaristia.
e)
O lavar as mãos
Após
o sacerdote apresentar as oferendas ele lava suas mãos. Antigamente, quando as
pessoas traziam os elementos da celebração de suas casas, este gesto tinha
caráter utilitário, pois após pegar os produtos do campo era necessário que lavasse
as mãos. Hoje em dia este gesto representa a atitude, por parte do sacerdote,
de tornar-se puro para celebrar dignamente a eucaristia.
f)
O Orai Irmãos...
Agora
o sacerdote convida toda assembléia à unir suas orações à ação de graças do
sacerdote.
g)
Oração sobre as Oferendas
Esta
oração coleta os motivos da ação de graças e lança no que segue, ou seja, a
oração eucarística. Sempre muito rica, deve ser acompanhada com muita atenção e
confirmada com o nosso amém!
É na
oração eucarística em que atingimos o ponto alto da celebração. Nela, através
de Cristo que se dá por nós, mergulhamos no mistério da Santíssima Trindade,
mistério da nossa salvação:
“A
oração eucarística é o centro e ápice de toda celebração, é prece de ação de
graças e santificação. O sacerdote convida o povo a elevar os corações ao
Senhor na oração e na ação de graças e o associa à prece que dirige a Deus Pai
por Jesus Cristo em nome de toda comunidade. O sentido desta oração é que toda
a assembléia se una com Cristo na proclamação das maravilhas de Deus e na
oblação do sacrifício” (IGMR 54).
Para
melhor compreendermos a oração eucarística é necessário que tenhamos em mente
as palavras: ação de graças, sacrifício e páscoa.
Como
já foi referida anteriormente, a missa também pode ser chamada de eucaristia,
ou seja, ação de graças. E a partir da passagem do servo de Abraão pudemos ter
uma noção do que é uma oração eucarística ou de ação de graças. Pois bem, esta
atitude de ação de graças recebe o nome de berakah em hebraico, que
traduzindo-se para o grego originou três outras palavras: euloguia, que
traduz-se por bendizer; eucharistia, que significa gratidão pelo dom
recebido de graça; e exomologuia, que significa reconhecimento ou
confissão.
Diante
da riqueza desses significados podemos nos perguntar: quem dá graças a quem? Ou
melhor dizendo, quem dá dons, quem dá bênçãos a quem? Diante dessa pergunta
podemos perceber que Deus dá graças a sim mesmo, uma vez que
sendo uma comunidade perfeita o Pai ama o Filho e se dá por ele e o Filho
também se dá ao Pai, e deste amor surge o Espírito Santo. Por sua vez, Deus
dá graças ao homem, uma vez que não se poupou nem de dar a si mesmo por nós
e em resposta o homem dá graças a Deus, reconhecendo-se criatura e
entregando-se ao amor de Deus. Ora, o homem também dá graças ao homem,
através da doação ao próximo a exemplo de Deus. Também o homem dá graças a
natureza, respeitando-a e tratando-a como criatura do mesmo Criador. O
problema ecológico que atravessamos é, sobretudo, um problema eucarístico. A
natureza também dá graças ao homem, se respeitada e amada. A natureza dá
graças a Deus estando à serviço de seu criador a todo instante.
A
partir desta visão da ação de graças começamos a perceber que a Missa não reduz-se
apenas a uma cerimônia realizada nas Igrejas, ao contrário, a celebração da
Eucaristia é a vivência da ação de Deus em nós, sobretudo através da libertação
que Ele nos trouxe em seu Filho Jesus. Cristo é a verdadeira e definitiva
libertação e aliança, levando à plenitude a libertação do povo judeu do Egito e
a aliança realizada aos pés do monte Sinai.
Sacrifício é uma palavra que possui a mesma raiz grega da
palavra sacerdócio, que do latim temos sacer-dos, o dom sagrado.
O dom sagrado do homem é a vida, pois esta vem de Deus. Por natureza o homem é
um sacerdote. Perdeu esta condição por causa do pecado. Sacrifício, então,
significa o que é feito sagrado. O homem torna sua vida sagrada quando
reconhece que esta é dom de Deus. Jesus Cristo faz justamente isso: na condição
de homem reconhece-se como criatura e se entrega totalmente ao Pai, não
poupando nem sua própria vida. Jesus nesse momento está representando toda a
humanidade. Através de sua morte na cruz dá a chance aos homens e às mulheres
de novamente orientarem suas vidas ao Pai assumindo assim sua condição de
sacerdotes e sacerdotisas.
Com
isso queremos tirar aquela visão negativa de que sacrifício é algo que
representa a morte e a dor. Estas coisas são necessárias dentro do mistério da
salvação pois só assim o homem pode reconhecer sua fraqueza e sua condição de
criatura.
A
Páscoa foi a passagem da escravidão do Egito para a liberdade, bem como a
aliança selada no monte Sinai entre Deus e o povo hebreu. E diante desses fatos
o povo hebreu sempre celebrou essa passagem, através da Páscoa anual, das
celebrações da Palavra aos sábados, na sinagoga e diariamente, antes de
levantar-se e deitar-se, reconhecendo a experiência de Deus em suas vidas e louvando
a Deus pelas experiências pascais vividas ao longo do dia. O povo judeu vivia
em atitude de ação de graças, vivendo a todo instante a Páscoa em suas vidas.
E é
dentro da celebração da Páscoa anual dos judeus que Jesus Cristo institui o
sacramento da Eucaristia, dando o seu corpo como sinal de libertação definitiva
e dando seu sangue para selar a nova e eterna aliança. Em Cristo dá-se a
verdadeira páscoa, o encontro definitivo do homem com Deus.
Cristo
ao instituir a Páscoa-rito para os cristãos deixa uma ordem ao final dela:
“Fazei isto em memória de mim”. Mas o que pode significar esta ordem? Pode
significar o fato de que, todas as vezes que quisermos celebrar a Páscoa
devemos dar graças, consagrar o pão e reparti-lo com os irmãos. Mas será que
apenas foi isto que Cristo mencionou na última ceia? Durante as palavras da
consagração é muito forte a idéia de doação: “Tomou o pão e o deu a seus
discípulos”, “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue dados por vós”. A
meu ver, Cristo nos chama a ser pão e vinho dado aos irmãos. Cristo nos chama a
darmos o nosso corpo e o nosso sangue para, desse modo, fazermos memória a ele.
O
esquema da oração eucarística segue aquele esquema referente a berakah dos
judeus. Em resumo temos o seguinte:
1) O
fato maravilhoso - Expresso no prefácio,
relembra os benefícios, as bênçãos de Deus em nossas vidas.
2) Admiração -
Sentimento que atravessa toda oração.
3) Exclamações e aclamações da assembléia ao longo da oração eucarística.
4) Proclamação ou a memória
dos benefícios, através da consagração das espécies.
5) Pedidos e intercessões
6)
Louvor final - Por Cristo, com Cristo, em Cristo...
Após
essas breves considerações vejamos agora como se esquematiza a oração
eucarística:
a)
Definição
“Trata-se
de uma ação de graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. A Igreja rende
graças a Deus Pai pelas maravilhas operadas por Cristo, no Espírito Santo. Ela
louva, bendiz e agradece ao Pai. Comemora o Filho. Invoca o Espírito Santo”.
b)
Prefácio
Após
o diálogo introdutório, o prefácio possui a função de introduzir a assembléia
na grande ação de graças que se dá a partir deste ponto. Existem inúmeros
prefácios, abordando sobre os mais diversos temas: a vida dos santos, Nossa
Senhora, Páscoa etc.
c)
O Santo
É a
primeira grande aclamação da assembléia a Deus Pai em Jesus Cristo. O correto é
que seja sempre cantado.
d)
A invocação do Espírito Santo
Através
dele Cristo realizou sua ação quando presente na história e a realiza nos
tempos atuais. A Igreja nasce do espírito Santo, que transforma o pão e o
vinho. A Igreja tem sua força na Eucaristia.
e)
A consagração
Deve
ser toda acompanhada por nós. É reprovável o hábito de permanecer-se de cabeça
baixa durante esse momento. Reprovável ainda é qualquer tipo de manifestação
quando o sacerdote ergue a hóstia, pois este é um momento sublime e de profunda
adoração. Nesse momento o mistério do amor do Pai é renovado em nós. Cristo
dá-se por nós ao Pai trazendo graças para nossos corações. Daí ser esse um
momento de profundo silêncio.
f)
Preces e intercessões
Reconhecendo
a ação de Cristo pelo Espírito Santo em nós, a Igreja pede a graça de abrir-se
a ela, tornando-se uma só unidade. Pede para que o papa e seus auxiliares sejam
capazes de levar o Espírito Santo a todos. Pede pelos fiéis que já se foram e
pede a graça de, a exemplo de Nossa Senhora e dos santos, os fiéis possam
chegar ao Reino para todos preparados pelo Pai.
g)
Doxologia Final
É uma
espécie de resumo de toda a oração eucarística, em que o sacerdote tendo o
Corpo e Sangue de Cristo em suas mãos louva ao Pai e toda assembléia responde
com um grande “amém”, que confirma tudo aquilo que ela viveu.
A
oração eucarística representa a dimensão vertical da Missa, em que nos unimos
plenamente a Deus em Cristo. Após alcançarmos a comunhão com Deus Pai, o
desencadeamento natural dos fatos é o encontro com os irmãos, uma vez que
Cristo é único e é tudo em todos. Este é o momento horizontal da Missa. Tem
também esse momento o intuito de preparar-nos ao banquete eucarístico.
a) O
Pai-Nosso
É o
desfecho natural da oração eucarística. Uma vez que unidos a Cristo e por ele
reconciliados com Deus, nada mais oportuno do que dizer: Pai nosso... Esta
oração deve ser rezada em grande exaltação, se possível cantada. Após o Pai
Nosso segue o seu embolismo, ou seja, a continuação do último pensamento
da oração. Segue aqui uma observação: o único local em que não dizemos “amém”
ao final do Pai Nosso é na Missa, dada a continuidade da oração expressa no
embolismo.
b) Oração
pela paz
Uma
vez reconciliados em Cristo, pedimos que a paz se estenda a todas as pessoas,
presentes ou não, para que possam viver em plenitude o mistério de Cristo.
Pede-se também a Paz para a Igreja, para que, desse modo, possa continuar sua
missão.
c) O
cumprimento da Paz
É um
gesto simbólico, representando nosso bem-querer ao próximo. Por ser um gesto
simbólico não há a necessidade em sair do local para cumprimentar a todos na
Igreja. Se todos tivessem em mente o simbolismo expresso nesse momento não
seria necessária a dispersão que o caracteriza na maioria dos casos. Também não
é conveniente que se cante durante esse momento, uma vez que deveria durar
pouco tempo. A música pode ficar para Missas celebradas em pequenos grupos.
d) O
Cordeiro de Deus
O
sacerdote e a assembléia se preparam em silêncio para a comunhão. Neste momento
o padre mergulha um pedaço do pão no vinho, representando a união de Cristo
presente por inteiro nas duas espécies. A seguir todos reconhecem sua pequenez
diante de Cristo e como o Centurião exclamam: Senhor, eu não sou digno de
que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo. Cristo
não nos dá apenas sua palavra, mas dá-se por amor a cada um de nós.
e) A
comunhão
Durante
esse momento a assembléia dirige-se à mesa eucarística. O canto deve procurar
ser um canto de louvor moderado, salientando a doação de Cristo por nós. A
comunhão pode ser recebida nas mãos ou na boca, tendo o cuidado de, no primeiro
caso, a mão que recebe a hóstia não ser a mesma que a leva a boca. Aqueles que
por um motivo ou outro não comungam é importante que façam desse momento também
um momento de encontro com o Cristo. Após a comunhão segue-se a ação de graças,
que pode ser feita em forma de um canto de meditação ou pelo silêncio, que
dentro da liturgia possui sua linguagem. O que não pode é esse momento ser
esquecido ou utilizado para conversar com que está ao nosso lado.
f) Oração
após a comunhão
Infelizmente
criou-se o mau costume em nossas assembléias de se fazer essa oração após os
avisos, como uma espécie de convite apressado para se ir embora. Esta oração
liga-se ainda a liturgia eucarística, e é o seu fechamento, pedindo a Deus as
graças necessárias para se viver no dia-a-dia tudo que se manifestou perante a
assembléia durante a celebração.
“O
rito de encerramento da Missa consta fundamentalmente de três elementos: a
saudação do sacerdote, a bênção, que em certos dias e ocasiões é enriquecida e
expressa pela oração sobre o povo, ou por outra forma mais solene, e a própria
despedida, em que se despede a assembléia, afim de que todos voltem ás suas
atividades louvando e bendizendo o Senhor com suas boas obras” (IGMR 57).
Para
muitos, este momento é um alívio, está cumprido o preceito dominical. Mas para
outros, esta parte é o envio, é o início da transformação do compromisso
assumido na Missa em gestos e atitudes concretas. Ouvimos a Palavra de Deus e a
aceitamos em nossas vidas. Revivemos a Páscoa de Cristo, assumindo também nós
esta passagem da morte para a vida e unimo-nos ao sacrifício de Cristo ao
reconhecer nossa vida como dom de Deus e orientando-a em sua direção.
Sem
demais delongas, este momento é o oportuno para dar-se avisos à comunidade, bem
como para as últimas orientações do presidente da celebração. Após, segue-se a
bênção do sacerdote e a despedida. Para alguns liturgistas, esse momento é um
momento de envio, pois o sacerdote abençoa os fiéis para que estes saiam pelo
mundo louvando a Deus com palavras e gestos, contribuindo assim para sua transformação.
Vejamos o porquê disso.
Passando
a despedida para o latim ela soa da seguinte forma: “Ite, Missa est”.
Traduzindo-se para o português, soa algo como “Ide, tendes uma bênção e uma
missão a cumprir”, pois em latim, missa significa missão ou demissão,
como também pode significar bênção. Nesse sentido, eucaristia significa bênção,
o que não deixa de ser uma realidade, já que através da doação de seu Filho,
Deus abençoa toda a humanidade. De posse desta boa-graça dada pelo Pai, os
cristãos são re-enviados ao mundo para que se tornem eucaristia, fonte de
bênçãos para o próximo. Desse modo a Missa reassume todo seu significado.