O SENHOR ESTEJA CONVOSCO
Pe.
Gregário Lutz, cssp
Na liturgia manifesta-se a Igreja, a Igreja como
povo de Deus, como família do Pai do céu, como corpo de Cristo. Não podemos
definir a Igreja sem nos referir a Deus, a Jesus Cristo e ao Espírito Santo. Ela
é uma realidade humana e divina.
Em geral, a
vida e a atividade da Igreja aparecem como algo humano, às vezes, humano
demais. É sobretudo na liturgia, na assembléia dos fiéis reunidos,
que ela se manifesta em suas duas dimensões. Aí se
vê que a comunidade eclesial tem alguém que a
preside, mesmo que seja mais de uma pessoa, um casal ou até um grupinho de
três. Eles representam a cabeça deste corpo, que é Jesus Cristo, além de
garantir a realização orgânica da assembléia.
Também quando eles falam, esta organicidade da
Igreja, do corpo de Cristo, aparece. O sacerdote que preside a missa diz como
representante de Cristo: "O Senhor esteja convosco". Ele lembra
assim o que Jesus falou antes da sua ascensão: "Estarei convosco todos os
dias, até o fim dos tempos" (Ml 28,20).
Do mesmo modo, como Jesus, antes de subir ao céu,
estendeu suas mãos sobre os discípulos, abençoou-os e os enviou ao mundo, assim
quem preside a missa ou outra celebração diz no fim
da mesma: "Abençoe-vos Deus
todo-poderoso..." e, para lembrar mais uma vez que o Senhor está conosco
não apenas quando estamos reunidos na Igreja, mas também quando lutamos na vida
dispersos pelo mundo afora: "Ide em paz e o
Senhor vos acompanhe! ".
Não é preciso mencionar que não há problema nenhum em dizer "O Senhor esteja com
vocês", em lugar de "convosco". Problemático parece se
disséssemos "O Senhor esteja conosco". Pois assim Jesus, nosso irmão
maior, não apareceria mais como cabeça do seu corpo. E, além e antes disso, não
apareceria mais que a Igreja como comunidade precisa para a sua vivência
orgânica, como qualquer sociedade ou até clube, de alguém que coordene suas
atividades.
Nesse sentido, seria só coerente que também um
leigo que preside uma celebração dissesse: "O Senhor esteja convosco"
e "Abençoe-vos...". Com isso não se negaria a conformidade especial
dos ordenados com Cristo-Cabeça de sua Igreja. Por outro lado, não seria uma solução boa dizer como, às
vezes, os padres e mesmo bispos o fazem: "O Senhor
esteja conosco", porque assim não ficaria claro
e evidente que a Igreja é um corpo com muitos membros e uma cabeça.
Aliás, aquilo que a Igreja aprendeu de Jesus e
costumou fazer durante dois mil anos, penetrou tão profundamente nos costumes
humanos, que isso nos permite observar uma verdadeira e profunda inculturação.
Pois não somente dizemos "Bom dia" quando nos encontramos e nos
cumprimentamos, mas, dirigindo-nos à outra pessoa, também dizemos "Como
vai?" e, na despedida, "Passe bem!" e "Vai com Deus!".
E quando o filho pede a bênção ao pai, este dirá: "Deus te
abençoe!".Ninguém diria:"Como vamos?
Passemos bem! Deus nos abençoe!".
Portanto, manifestando na liturgia que a Igreja tem uma cabeça, estamos realmente caminhando nas pegadas de Jesus que se encarnou e se inculturou e nos deixou a mesma missão que ele tinha recebido do Pai, de mostrar ao mundo que tudo que existe tem sua origem e seu fim em Deus e que ele nos acompanha e protege através de seu Filho e no Espírito Santo nesta peregrinação terrestre. Isso não impede que quem preside a assembléia litúrgica o faça, a exemplo de Jesus, como servidor de todos, entregando-se e doando-se para que seus irmãos e irmãs tenham a vida, e vida em abundância.
(artigo
publicado na Revista de Liturgia, novembro/dezembro de 1998, n. 150, p.27)
Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:
01. O que nos chama a atenção nesse artigo?
02. Por que se deve dizer sempre o Senhor
esteja convosco ou o Senhor esteja com vocês?
03. Quem deve fazer a saudação quando a
assembléia está reunida?
04. Quem nos saúda e acolhe
na pessoa do ministro?