O SINAL-DA-CRUZ
NO INÍCIO DA LITURGIA
O
sinal-da-cruz no início da Liturgia é (como tantas outras) também uma ação
ritual litúrgica e, por isso mesmo, carregada de profundo sentido humano,
teológico e espiritual.
Antes de tudo é
preciso ver essa ação litúrgica como uma ação integrada no contexto dos ritos
iniciais da celebração, que têm sua finalidade bem precisa, indicada no n. 46
da Instrução Geral sobre o Missal Romano, a saber: “fazer com que os fiéis,
reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente
a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia”.
Como se vê, finalidade dos ritos iniciais é, em outras palavras, fazer
com que os fiéis, sentindo-se assembléia litúrgica, façam a experiência de
estarem em comunhão de fé e amor (entre si e, juntos, com Deus: Trindade santa)
e, assim, se sintam bem dispostos a ouvir “atentamente” a Palavra e celebrar
“dignamente” a Eucaristia.
E o sinal-da-cruz, neste contexto? É a primeira ação litúrgica, pela
qual, (digamos assim) se “abre a sessão”, ou então, se constitui “oficialmente”
a assembléia. É como se a pessoa que preside dissesse assim: “Em nome da
Trindade santa (Pai, e Filho e Espírito Santo) declaro (declaramos) constituída
esta assembléia litúrgica”. E toda a assembléia expressa o seu assentimento,
dizendo: “Amém” (assim seja, aprovado!). Assim, junto com a saudação
presidencial subseqüente e a resposta do povo, se expressa (como diz a
Instrução geral) “o mistério da Igreja reunida” (n. 50). No fundo, o que se
quer dizer é isso: “A partir desse instante, está constituída a assembléia
litúrgica: Quem nos reúne em comunhão de fé e amor para ouvir a Palavra e
celebrar a Eucaristia é o Deus comunhão (Pai, e Filho e Espírito Santo), e mais
ninguém. Neste Deus comunhão (por pura graça d’Ele) todos nós estamos em
comunhão, formando um só corpo místico para celebrar a divina Liturgia, na qual
somos ‘tocados’ pelo seu amor misericordioso em todos os âmbitos do nosso ser”.
Por isso, proclamando que quem nos reúne é a Trindade santa, nós
tocamos o nosso corpo em forma de cruz. Esse “toque” tem um sentido simbólico e
espiritual profundo. Por ele, no fundo, testemunhamos que, pelo mistério pascal
(cruz e ressurreição) fomos (e somos!) “tocados” pelo amor da Trindade. Vejam o
que o monge beneditino Anselm Grün, escritor e místico moderno, alemão, escreve
sobre o sinal-da-cruz no início da Liturgia eucarística! Diz ele:
“Ao traçar sobre si mesmos o sinal-da-cruz, os participantes ‘entram-no-jogo’, se convertem em atores do ‘jogo-visão’
(teatro). Já no primeiro século, os cristãos se marcavam com a cruz. Ao
fazê-lo, é como se talhassem ou gravassem em todo o seu ser o amor com que
Jesus Cristo nos amou até o fim, morrendo por nós na cruz. (Ao traçar sobre nós
a cruz) nós a burilamos em toda a amplitude do corpo: sobre a fronte (os
pensamentos), no baixo ventre (a vitalidade, a sexualidade), sobre o ombro
esquerdo (o inconsciente, o feminino, o coração), sobre o ombro direito (o
consciente, o masculino, o agir). Ao fazer o sinal-da-cruz, asseguramos e
antecipamos aquilo que celebramos na Eucaristia: que seremos tocados pelo amor
de Cristo e que nada em nós fica excluído deste amor. Na Eucaristia, Jesus
Cristo imprime o seu amor salvador e libertador em todos os âmbitos de nosso
corpo e de nossa alma, para que tudo em nós espelhe sua luz e seu amor” (La Eucaristía
como obra de teatro, como “teatro-visión” e “teatro-juego”.
In: Cuadernos Monásticos n. 147, 2003, p.
439-440).
Portanto, fica claro que o sinal-da-cruz no início da Liturgia não tem
nada a ver com “invocação” à Santíssima Trindade, como muitos pensam. Não tem
sentido chamar esta ação litúrgica de “invocação” à Trindade. Pois é Ela que,
por gratuita iniciativa sua já nos reúne em assembléia para, em comunhão de fé
e amor, ouvirmos “atentamente” a Palavra e celebrarmos “dignamente” a
Eucaristia... Simplesmente celebramos o fato de ser Ela que nos reúne para
sermos “tocados” pela presença viva do Senhor, na Palavra e no Sacramento.
Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:
1) Por que fazemos o sinal-da-cruz no início das
celebrações?
2) Com
que atitude espiritual devemos fazer o sinal-da-cruz?