Liturgia das Horas

Pe. Genésio Donati Prado, especialista em Liturgia, é chanceler da Cúria, Vigário Judicial e Diretor Espiritual da Escola Diaconal Santo Estevão, da Diocese de Uberlândia.

 

 

 

I. A oração particular e comunitária na vocação integral do homem

 

 

Queremos primeiramente situar a oração em geral no contexto da vocação integral do homem. Temos, por vezes a impressão de que a oração é colocada mais na linha da obrigação do que da vocação. Esquecemos que antes de sermos obrigados à oração, a ela somos chamados, antes de ser um dever ela constitui uma vocação. Assim o dever surge da vocação. Por outro lado parece haver um conflito entre oração particular e a oração comunitária ou litúrgica. Será que elas não se harmonizam em complementação mútua?

 

1. A vocação integral do homem

 

A oração deve ser compreendida e inserida na vocação integral do homem, pois ela aparece como contínua procura dessa vocação, uma constante resposta a ela e como sua realização mais perfeita neste mundo.

 

A) A Vocação do homem

 

Qual seria esta vocação? O homem constitui um ser chamado para a comunhão eterna com Deus, em harmoniosa união com os outros homens, seus companheiros no amor, abraçando toda a realidade criada. (Ef 1,1-10)

 

Os versículos 11, 12 e 14 são a descrição do fim último do homem. Escolhido antes da criação do mundo para ser santo e irrepreensível diante de Deus. Portanto abençoado, isto é, beneficiado por Deus com toda benção espiritual, ou seja, com a própria vida, vida de Deus tornando-se celebrante da glória do Pai. (1,12)

 

Eis, pois o homem como ser vocacionado, orientado para o próprio Deus, chamado a participar da sua vida, do seu amor, de sua felicidade, de sua imortalidade. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), mas o homem não é um ser voltado para Deus, pura e simplesmente. Ele possui uma vocação terrena de abertura para o próximo, seu companheiro no amor e para a natureza criada. (Gn 1,26-27).

 

O homem é constituído senhor da criação, recebendo a missão de continuar a obra da criação divina. Contudo o homem não constitui um ser isolado. Sozinho ele se sente inseguro (Gn 2,18). O homem pôs nome a todos os animais que Deus lhe apresentou mas não se achava uma auxiliar que lhe fosse adequada. (Gn 2,20). Para mostrar que ele não é um ser isolado aparece a descrição da necessidade de uma companheira. Surge então a mulher, da mesma natureza do homem, um ser com o qual ele poderia entrar em diálogo. (Gn 2,23-24).

 

O homem é chamado a realizar uma comunhão de amor, no nível de relacionamento entre o homem e a mulher na comunidade conjugal, na comunidade familiar e na comunidade mais ampla: a sociedade, as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade fazem o homem acolher em si toda a realidade. Sendo uma criatura voltada para Deus na fé, ele é sacerdote que dá a Deus uma resposta de obediência, reconhecendo sua condição de criatura; sendo na esperança rei da criação, ele dá sentido a todas as coisas e as orienta, como sacerdote, para o Criador, sem deixar-se escravizar, ou tornar-se dono absoluto. É, no entanto também um ser relacionado com o próximo: a comunidade conjugal e logicamente a fraternal e social. Neste relacionamento existe o amor - a caridade - que aponta para Deus, constituindo-se desta forma profeta para o seu próximo.

 

B) O pecado, o não à vocação.

 

Com o pecado, descrito no capítulo terceiro do gênesis, entra o desequilíbrio, a desarmonia da vida do homem. Desarmonia em relação a Deus, ao próximo e às criaturas.

 

No seu relacionamento de filho, em relação a Deus, ele tende a ser rebelde. Em vez de servo ele quer ser senhor "igual a Deus” (Gn 3,8-13). Desfez-se o mistério de comunhão com Deus. O homem se oculta e se fecha dentro de si mesmo. Sente sua miséria, o seu despojamento do divino, pois a ruptura do correto relacionamento com Deus, o Criador, desfaz as realidades últimas, contidas na criatura. Antes o relacionamento entre Deus e o homem era amigo, filial. Agora o homem tem medo, foge de sua face, sente-se nu. Por que? Porque não realizara a sua vocação. Ele perde a vida que possui como dom.

 

Este desequilíbrio do homem em relação a Deus manifesta-se no seu relacionamento com o próximo e toda a natureza criada.

 

Com o próximo, onde ele é chamado a ser irmão, torna-se tirano. Entra o desequilíbrio na comunidade conjugal. Temos a acusação mútua (Gn 3,12). Um empurra a culpa no outro. O relacionamento deixa de ser harmonioso (Gn 3,16). Vemos a mesma destruição da unidade entre os irmãos. (Gn 4,14).

 

A sociedade pretende atingir o céu, tornar-se igual a Deus. A torre de babel, símbolo do orgulho humano, desmorona. É o homem que se autodestrói, se confunde e se dispersa, tornando-se, por si só, incapaz de se compreender, pois não compreende mais a linguagem do amor. (Gn 11).

 

O mesmo relacionamento hostil manifesta-se entre o homem e a natureza criada. Onde ele era chamado a ser rei ou senhor torna-se escravo. Símbolos desta inimizade têm nas dores do parto, no suor do rosto de Adão para sujeitar a natureza e conseguir o sustento da vida. O sustento da vida atual e o processo da continuação da vida na sua descendência tornam-se hostis ao homem. (Gn 3,17. 19).

 

C) A Conversão

 

O homem deixou de ser uma criatura voltada para Deus, foge de sua face, mas Deus continua voltado, aberto para o homem pelo diálogo como no caso de Adão e Eva e de Caim (Gn 3,15; 4,9). Por isso pode-se reconstruir o mistério da comunhão contanto que o homem se converta. Deus continua chamando o homem à sua vocação última e terrena, à sua vocação integral, bastando que ele se volte novamente para o seu Deus, para o próximo e para as criaturas, reconciliando-se com toda a realidade. É necessário que se realize uma conversão a Deus, para os homens, seus companheiros no amor e para o mundo criado.

 

Conversão é um conceito de máxima importância para a compreensão da vocação e da oração. Esta conversão compreende duas etapas: situa-se entre a negação ou ausência da vida divina no homem e a plenitude de comunhão de Deus. A primeira é a saída do negativo, do não-relacionamento, que se chamaria de volta para a graça, para a amizade, a vida de comunhão com Deus. Conversão não termina aí. Este se converter, este se voltar cada vez mais para Deus não tem limites. A conversão torna-se, pois um contínuo voltar-se para Deus, para o próximo e para a natureza criada, tornando-se a própria realização da vocação integral do homem. Quem reintegra o homem em sua vocação é o próprio Deus, que continua sempre voltado, sempre aberto ao homem.

 

Os meios que Cristo nos deixou para realizarmos a vocação integral nos são comunicados normalmente através da Igreja. Chegarão ao amor, a realizar a vocação integral aqueles que crerem em Cristo, aqueles que o imitarem, procurando viver o que Ele realizou.

2. A oração na vocação integral do homem.

 

A oração é a elevação da mente a Deus. Um diálogo pessoal com Deus, uma comunicação com Deus. A oração é uma experiência vital. É uma experiência de comunicação com o divino, diretamente, ou através do próximo e da natureza criada.

Esta comunicação pode realizar-se em forma de pergunta, em forma de resposta e em forma de comunhão pura e simples.

 

A) Oração-procura

 

Orar é perguntar sobre o sentido da vida, confrontando-a, à luz da fé, com Deus, com o próximo e com as coisas criadas. O homem procura, sonda, contempla o plano de Deus a seu respeito e a respeito de toda realidade. Confronta as realidades com a vontade de Deus, para encontrar em cada situação sua vocação e missão.

 

Os objetos de nossa procura serão: Deus, o homem, sua origem, seu destino; o mundo, o próximo, a vocação, o pecado, a conversão, Cristo, a Igreja, e assim por diante.

 

Somos convidados a refletir, a abrir-nos diante da realidade à escuta de uma resposta que brotará do fundo do nosso ser.

 

B) Oração-resposta ou conversão.

 

A oração-resposta brota da consciência de nossa vocação do sentido de nossa vida: é a oração como resposta à descoberta da vontade de Deus. O homem reconcilia-se com a realidade toda: aceita sua condição de criatura em relação a Deus, a harmoniosa convivência com o próximo e sua condição de senhor da natureza criada.

 

A oração constitui a expressão máxima de conversão, tanto no sentido de voltar, como no sentido de voltar-se cada vez mais profundamente em atitude de abertura total, para Deus, para o próximo e para a natureza criada. O homem tenta sempre de novo orientar tudo para o fim último que é a vida em Deus.

 

C) Oração-união.

 

A oração não é só a procura de sentido da vida, nem apenas a resposta à vontade de Deus que se manifesta. Ela constitui a vivência da própria realidade suprema, a vocação última do homem: a comunhão de amor e de vida com Deus.

 

Esta modalidade de oração transfigura, é a total libertação, a plena reconciliação com todas as coisas. É a total comunhão na linguagem do silêncio. São momentos do Tabor, que reanimam, inspiram e reabastecem. Tal tipo de comunicação com Deus nos será concedido como dom, se soubermos pronunciar o nosso Fiat, a exemplo de Maria.

Devemos considerar estes tipos de oração como aspectos da mesma realidade profunda de comunicação com Deus, diretamente, ou através do próximo e da natureza criada.

 

3. Oração particular e Oração comunitária.

 

A oração particular e a comunitária são duas formas de oração que não se contrapõem, mas se completam.

 

As palavras de Cristo sobre a oração, dizendo (Mt 6,6) não querem ser uma condenação da oração comunitária, mas a condenação de uma maneira de orar semelhante à dos hipócritas que gostam de ostentar sua oração e dos pagãos que multiplicam as palavras (Mt 6,5. 7). O próprio Jesus, quando ensina a rezar, ensina uma oração a ser dita normalmente em comum: "Pai nosso... (Mt 6,9). São Lucas nos diz que” é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo (Lc 18,1).

 

O homem manifesta-se religiosamente como indivíduo pela oração interior, na meditação, na contemplação, na leitura espiritual e em orações formuladas. O homem é um indivíduo e como tal comunica-se com Deus, com o próximo e com a natureza criada. Mas não é um indivíduo isolado; possui uma vocação eclesial. É chamado a formar uma família, um povo, por isso é chamado a exprimir-se também comunitariamente.

 

As duas formas se completam e se alimentam. A oração individual ou particular prepara e alimenta a oração comunitária e a oração comunitária é fonte e ápice da oração individual, pois nela temos a garantia da especial presença de Cristo. (Mt 18,20)

 

A oração comunitária terá que ser como que preparada ou alimentada pela oração individual. A nossa oração comunitária ou litúrgica será intensa e profunda na medida em que a nossa oração individual o for.

 

A oração individual aparece como uma resposta a nossa vocação humana. Todos os homens são chamados a essa vocação e todos podem comunicar-se com o divino pela oração particular, por fórmulas ou sem elas.

 

A Oração comunitária expressa, além disso, a nossa vocação batismal, nossa vocação cristã e eclesial.

 

Aos poucos toda a vida do homem pode ir transformando-se em oração, em experiência de Deus em comunhão com o mistério. Toda a realidade vai-se tornando transparente de Deus.

 

Pela oração particular e comunitária somos constituídos mediadores entre Deus e a humanidade toda, entre Deus e toda a natureza criada, no louvor e na intercessão, em favor dos homens, prolongando neste mundo o diálogo de Cristo com o Pai.

 

 

 

II - O que é a Liturgia das Horas

 

 

As duas expressões mais freqüentes da espiritualidade cristã comunitária são a Eucaristia e a oração em comum, expressa em geral, na liturgia das horas.

 

1. O logotipo

 

a) Um relógio-> representa o ritmo da oração diária, em horas determinadas.

 

b) Este relógio representa, ao mesmo tempo a comunidade reunida.

 

c) As chamas que nascem da lâmpada representam às 5 horas de fato celebradas por toda a Igreja: a oração da manhã (laudes), oração da tarde (vésperas) Oração durante o dia, Oração da noite (completas) e ofício das leituras.

 

d) Estas horas de oração da Igreja formam o sacrifício de Louvor a Deus.

 

e) Vivendo em oração, a Igreja se transfigura e torna-se testemunho pela luz que irradia.

 

A Liturgia das Horas constitui uma das muitas formas de vivência do mistério de Cristo e do mistério do homem.

 

A comunicação com o divino em nós ou a experiência do mistério pode inserir-se dentro da semana, na experiência pascal do trabalho e do repouso e temos a semana litúrgica iluminada pelo domingo. E pode inserir-se também no dia, e temos o dia Litúrgico. A Liturgia das horas insere-se fundamentalmente no dia Litúrgico. Constitui uma experiência do mistério Pascal de Cristo e de seus membros.

 

A Liturgia das horas é, pois, uma experiência do mistério pascal na experiência diária do tempo, capaz de evocar o mistério Pascal de Cristo e de seus membros. Podemos dizer que a Liturgia das Horas é uma experiência diária do mistério pascal a partir do ritmo do dia. É o louvor da igreja pelo mistério de Cristo, a partir da luz, para a santificação especial do tempo.

 

a) Laudes (oração da manhã) evocam de modo particular a Ressurreição do Senhor e a nossa ressurreição com Ele.

 

b) Vésperas (oração da tarde) evocam os mistérios da tarde, sobretudo o sacrifício da cruz.

 

c) As horas durante o dia, evocam os passos da Paixão de Cristo e a vida nascente da Igreja, animada pelo Espírito Santo. A terça (oração das 9 horas) celebra a condenação de Cristo à morte e o mistério de Pentecostes; a sexta (oração das 12 horas) a crucifixão do Senhor, e a nona (oração das 15 horas) a morte de Jesus na cruz.

 

d) O ofício das leituras constitui uma vigília orante em preparação à vinda do Senhor.

Num sentido mais amplo, a Liturgia das horas está inserida dentro de uma semana. Temos, portanto, uma experiência semanal do mistério Pascal:

 

1.    Domingo, o Dia do Senhor, a Ressurreição de Cristo e o nascimento da Igreja.

 

2.    Segunda-feira, a vocação da Igreja, o mistério de Pentecostes.

 

3.    Terça-feira, a missão da Igreja, sua dimensão apostólica.

 

4.    Quarta-feira, o testemunho e martírio da Igreja, testemunho que ela vê realizado nos santos, que por sua vez se tornam patronos.

5.    Quinta-feira, o novo mandamento, o lava-pés, a Ceia, a Igreja, o sacerdócio, a Eucaristia.

 

6.    Sexta-feira, a Paixão e morte de Cristo, o pecado, a penitência, a reconciliação.

 

7.    Sábado, a escatologia, contemplada em Maria. As facetas de cada dia estão expressas na escolha dos salmos, nas orações finais e, sobretudo nas preces.

 

Temos, depois, a grande experiência anual do mistério de Cristo na Liturgia das Horas através do Ano Litúrgico. São vividas as festas do Senhor, os tempos fortes do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, os domingos durante o ano e as festas dos santos, caracterizados, sobretudo pelas antífonas que emolduram os salmos, as leituras, os responsórios, as preces e as orações.

 

III - Liturgia das horas, Páscoa de Cristo e da Igreja.

 

 

A Liturgia das Horas é uma das formas de a Igreja viver a Páscoa de Jesus Cristo no ritmo diário, semanal e anual do tempo. Pela oração das horas o Cristão é lançado no mistério da morte e ressurreição do Senhor, na expressão mais nobre e definitiva de sua atividade humana, a comunhão de seu Deus.

 

Nas comunidades reunidas em oração, a Igreja vive diariamente como que os mistérios do Tríduo Pascal, da Paixão-Morte, Sepultura e Ressurreição do Senhor. Une sua oração a Cristo nos passos do Tríduo Pascal, mesmo evocando os demais mistérios de sua vida terrestre. Este caráter de vivencia pascal, de passagem da morte para a vida em Cristo manifesta-se pelos elementos de cada uma das horas.

 

1. O invitatório.

 

O invitatório é um convite à oração. "Abri os meus lábios, ó Senhor. E minha boca anunciará vosso louvor”, com o salmo 94. Com esse invitatório os fiéis são convidados cada dia a cantar os louvores de Deus e a escutar sua voz, e são incentivados a desejar o "descanso do Senhor". O salmo 94 pode ser substituído pelos salmos 99, 66 ou 23. O invitatório mostra que todo o ciclo da oração cotidiana constitui uma experiência pascal.

 

2. A oração da manhã.

 

É também chamada louvor Matinal ou Laudes, é o louvor da Igreja pelo mistério de Cristo, sobretudo de seu aspecto glorioso: a Ressurreição. O sol que desponta dando forma e beleza a todas as coisas, o levantar-se, o reiniciar dos trabalhos, o alimento são símbolos da vida e ponto de partida para o louvor de Deus. Cada louvor matinal constitui uma pequena celebração da Ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição com Ele.

 

A oração da manhã se destina e se ordena à santificação do período da manhã. Essa hora é celebrada ao chegar à luz do novo dia e evoca a ressurreição de Jesus que é a luz verdadeira que ilumina todo homem (Jo 1,9) é o sol da justiça (Ml 3,20) nascendo do alto (Lc 1,78).

 

O hino è costuma ser um hino matinal. Fala da luz do sol, do dia, do tempo concedido ao homem para servir e dar glória a Deus, o Senhor do tempo.

 

A salmodia è a salmodia tem um caráter de louvor pela criação do mundo e do homem e pela nova criação em Cristo Jesus.

 

O primeiro salmo faz sempre referência à luz, ao despontar do novo dia, como expressão da obra criadora de Deus por Jesus Cristo. Os cânticos são expressões de experiências pascais vividas na história de um povo, ou diante da obra de Cristo Redentor. O terceiro elemento da salmodia é um salmo de louvor, um convite ao louvor pelo dom de um novo dia, em que é dado à Igreja viver o mistério de Cristo. As antífonas que emolduram os salmos e cânticos realçam o caráter matutino e pascal da hora, bem como o mistério celebrado.

 

A leitura breve è a leitura da Oração da manhã constitui um verdadeiro programa de vida para o dia que inicia em Cristo ressuscitado. A leitura muda de acordo com o dia, o tempo ou a festa.

 

O cântico evangélico è é o ponto alto da celebração. Ele expressa o louvor e a ação de graças pela Redenção, sendo um texto do Evangelho é proclamado de pé e com o sinal da cruz.

 

As preces è as preces da oração da manhã são chamadas invocações para recomendar ou consagrar o dia ao Senhor. Serão também de louvor a Deus, de confissão de sua glória e lembrança da história da Salvação.

 

O Pai-nosso è toda a Oração é resumida e completada pelo Pai nosso, em que se expressa a vocação do homem no seu relacionamento com Deus como filho, sua relação com o mundo criado, sustentado pelo alimento de cada dia e em sua relação com o próximo, a quem ele deve perdoar com o Pai do céu perdoa.

 

3. A oração da tarde

 

A oração da tarde comemora o mistério Pascal de Cristo e da Igreja, mas evoca de modo particular os mistérios da tarde. O sol declina, surgem às trevas, o homem descansa do trabalho. A oração da tarde é celebrada quando o dia já declina, para agradecer o que nele temos recebido ou o bem que nele fizemos.

 

O homem tendo chegado ao fim do dia, vivido como precioso dom de Deus e tendo colaborado com sua graça, pára a fim de dar graças. Une sua oferta, o dom recebido de Deus de Cristo. É o grande sacrifício da Cruz de Cristo. Podemos dizer que a caminhada da Igreja ao encontro de Cristo, seu esposo, é o grande motivo do louvor vespertino.

 

O hino è o hino é vespertino. Louva a Deus contemplando os seus benefícios manifestados à Igreja, a todos os homens e pede que Deus recompense os que se manifestaram fiéis.

 

A salmodia è é bem diversa da oração da manhã. Temos 2 salmos ou duas partes de um salmo mais longo que expressam o agradecimento, o louvor, o sacrifício da Igreja. Segue um cântico tirado das Epístolas ou do Apocalipse. Este canto celebra o cordeiro imolado a quem a Igreja canta um cântico novo.

 

A leitura breve è por causa desse cântico do novo Testamento; a leitura breve que segue é sempre tirada do Novo Testamento. Esse texto aprofunda a redenção do homem em Cristo, o Sumo Sacerdote da Nova Aliança e as exigências que daí decorrem para a vida dos cristãos.

 

O cântico evangélico è a proclamação do Magnificat é o momento de exultação e de louvor. A Igreja louva e dá graças pela salvação em comunhão com Maria, a mãe do Redentor.

 

As preces è na oração da tarde as preces são de intercessão. Depois de ter rendido graças a Deus por seus benefícios, depois de ter recordado os grandes benefícios da História da Salvação, sobretudo na obra redentora de Cristo, a Igreja intercede. A Igreja revestida do poder sacerdotal de Cristo pede que as graças do sacrifício redentor da cruz de Cristo se derramem sobre todos os membros necessitados da mesma Igreja e sobre todos os homens. As diversas categorias de pessoas, como os bispos, os sacerdotes, os casados, os jovens, os religiosos; os legisladores, os governantes, os artistas, todos enfim, contribuam, com a graça de Cristo, na construção do Reino de Deus.

 

4. A oração durante o dia

 

São três as horas de oração durante o dia, antes chamadas Horas Menores: a oração das Nove; a oração das Doze e a oração das Quinze Horas.

 

O costume litúrgico, tanto no Oriente quanto no Ocidente, adotou a Oração das Nove, das Doze e das Quinze Horas porque essas horas se relacionavam com alguns acontecimentos da Paixão do Senhor e da pregação inicial do Evangelho.

 

É a oração da igreja em meio aos trabalhos. É Cristo clamando no pobre, no oprimido, no marginalizado, em todo homem necessitado de salvação. Temos nesta oração a dimensão do sofrimento e da cruz do Mistério Pascal.

 

5. A oração da noite

 

É também chamada de Completas. É de certa maneira um complemento da Oração da Tarde realçando o aspecto escatológico e de encomendação da pessoa a Deus. Os salmos são de confiança. É a oração que completa o ciclo do dia.

 

A oração da noite é a última do dia e se reza antes do descanso, mesmo, passada a meia noite. Com ela concluímos a "obra de Deus" e a Deus nos encomendamos.

 

A dimensão escatológica manifesta-se de modo significativo no Cântico de Simeão, o ápice da Hora inteira. Está ainda presente no Responsório, na oração final e na antífona de Nossa Senhora que encerra a Oração.

 

 

 

 

6. O Ofício das Leituras

 

Também por esta Hora a Igreja vive o Mistério Pascal de Cristo. Jesus vigiou em oração quando se retirava para as montanhas e no Jardim das Oliveiras. Também a Igreja é chamada a vigiar em oração.

 

A hora apropriada para essa oração é de manhã, antes da oração da manhã e a hora noturna, depois da oração da Tarde.

O Ofício das Leituras quer apresentar ao Povo de Deus uma meditação mais substanciosa da Sagrada Escritura e as melhores páginas de autores espirituais.

 

A oração deve acompanhar a leitura da Sagrada Escritura, para que se estabeleça o diálogo entre Deus e o homem, pois a Ele falamos quando oramos, 'A Ele escutamos quando lemos os oráculos divinos'. Por isso o ofício das leituras consta também de salmos, hino, oração e outras fórmulas e apresenta caráter de verdadeira oração.

 

Viver em oração é viver em Deus, é antecipar a realidade última já presente no aqui e agora.

 

Uberlândia, setembro de 2004.

 

 

Fonte: Beckhäuser, Alberto Frei, Rezar em Comunidade, Vozes, 1985.