A SÍNDROME PÓS-ABORTO?
Pergunte e Responderemos 405/1996
Dom Estevão Bettencourt OSB
Em síntese: O aborto tem, para a
mulher, conseqüências fortemente traumatizantes, como reconhecem bons
psicólogos. Por vezes manifestam-se logo explicitamente; às vezes ficam
latentes por algum tempo. A autora do artigo enumera vários sintomas desse traumatismo,
e procura pistas para aliviar a mãe abatida; entre estas, afirma a conveniência
de que, feito o aborto, a mulher reconheça a realidade; não raro ela é vitima,
porque induzida a abortar; em vários casos, porém, ela procura espontaneamente
eliminar o feto - o que contraria o instinto materno característico do sexo
feminino. O artigo analisa diversas situações, valendo-se dos estudos de
colegas em medicina.
***
Publicamos, a seguir, um artigo
da Dra. Wanda Franz, PhD, sobre as conseqüências do aborto para a mulher.
A autora é Professora Associada de Recursos Familiares na Universidade de West Virginia (USA). O trabalho tem por título What is pos-abortion Syndrome? e foi traduzido para o
português pelo Dr. Herbert Praxedes, Professor
Titular do Departamento de Medicina Clínica da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal Fluminense. O texto português foi editado pelos Arquivos
Brasileiros de Medicina, julho de 1995, vol. 69, n° 7, pp. 359-361
. Visto que tal estudo é de grande interesse para o Brasil, merece
divulgação, de mais a mais que a sua linguagem não é demasiado técnica. Eis por
que, com as devidas licenças o reproduzimos. - Seja aqui expressa a gratidão
da Direção de PR ao Prof. Dr. Herbert Praxedes,
valioso colaborador de nossa revista.
EXISTE OU NÃO A SÍNDROME
PÓS-ABORTO?
Que sabemos das conseqüências
prejudiciais do aborto para a mulher? Aqueles que aconselham e executam
abortos, sempre afirmaram não haver efeitos psicológicos desfavoráveis
importantes decorrentes do aborto e, além disso, nenhum trauma a longo prazo. O
problema com tais afirmativas é que essas pessoas empregadas ou não em
clínicas de aborto e outras, adeptas dessa prática, nunca estão em condições
de avaliar na mulher as conseqüências que se seguem ao aborto. Imediatamente
após o ato, o pessoal clínico simplesmente manda a mulher para casa, e, se ela
vier a ter problemas, deverá ir procurar auxílio em outro lugar qualquer.
Uma investigação mais sistemática
demonstra que todas as reações perigosas ao aborto ocorrem tardiamente. Este
padrão de reação retardada fez com que seja muito mais difícil delimitar,
avaliar e caracterizar o problema. A par disso, a comunidade de saúde mental
tem sido muito lenta em reportar as reações desfavoráveis ao aborto. Eu sou de
opinião de que o aborto é um procedimento traumático, que tem repercussões
negativas para a mulher, mas cujas manifestações objetivas podem ser
retardadas.
Recentemente os terapeutas têm
observado pavores irracionais e
depressões
ligadas às experiências abortistas e rotularam o
problema como síndrome pós-aborto (SPA). Dr. Vicent Rue comparou-a à desordem ansiosa
pós-traumática (DAPT), a qual a comunidade
psiquiátrica
reconhece como uma reação a longo prazo encontrada nos veteranos da Guerra do
Vietnam, que subitamente exibem comportamento patológico anos após a
experiência vivida na guerra. Rue acredita que a SPÁ
é uma forma de DAPT. É significativo o fato de que a Associação Americana de
Psicólogos levou doze anos para reconhecer oficialmente a DAPT como uma
entidade clínica.
Uma questão importante é: todas
as experiências abortivas são automaticamente estressantes ou apenas algumas
mulheres têm problemas? Se apenas algumas mulheres sofrerão da SPA, quais são
as características daquelas mais suscetíveis? Essas são questões que não podem
ser completamente respondidas agora. Rue acredita que
existam várias
categorias
de reações: que algumas mulheres respondem com grande trauma, outras com
reações moderadas, enquanto um terceiro grupo pode vir a nada sofrer
posteriormente. A terapeuta Terry Selby,
porém, acredita que cada aborto produz um trauma na mulher.
O aborto é, antes de tudo, um
procedimento físico, o qual produz um choque no sistema nervoso e que deve
provocar um impacto na personalidade da mulher. Além das dimensões
psicológicas, cada mulher que se submeteu a um aborto deve encarar a morte de
seu filho que não nasceu, como uma realidade social, emocional, intelectual e
espiritual. Tanto Selby como a Dra. Anne Speckhard trabalharam com mulheres que tentaram ignorar os
efeitos do aborto e ambos acreditam que, quanto maior a rejeição, tanto maior a
dor e a dificuldade quando a mulher resolve finalmente enfrentar a realidade da
experiência abortiva.
COMO SE EXPLICA A EXISTÊNCIA DA
SÍNDROME PÓS-ABORTO?
Para entender este achado e ter
alguma base para raciocínio e
pesquisa
da SPA, é necessário que entendamos a orientação teórica dos terapeutas e seus
"pressupostos". A primeira premissa é que existe um processo
inconsciente em ação em cada pessoa e que controla os estados emocionais e, em
última análise, o comportamento. Se uma verdade é por demais
desagradável, é possível aos seres humanos suprimir ou reprimir a
realidade na parte inconsciente de suas mentes de forma a não ter que
conscientemente pensar nela. Isto é uma faculdade muito importante, porque nos
protege da necessidade de pensar constantemente sobre acontecimentos muito
dolorosos.
Uma segunda premissa postula que,
mesmo sendo possível reprimir fatos reais, eles, apesar disso, continuam a
afetar nossos estados emocionais e nosso comportamento. Quando existe excesso
de rejeição, a dor reprimida nos traumatiza de alguma outra forma. De acordo
com os clínicos, quando as mulheres que abortaram rejeitam ou reprimem sua
experiência, os desajustamentos podem acarretar grande
descontrole emocional quando próximas a crianças, um medo irrealístico
a médicos, uma incapacidade de tolerar um exame ginecológico rotineiro, ouvir o
som de um aspirador de pó ou ser sexualmente estimuladas, etc.
O fato importante a ser entendido
é que estas manifestações são reações irracionais a acontecimentos
perfeitamente normais; as mulheres não têm consciência de sua ligação com a
experiência abortiva. É somente através da terapia que a ligação freqüentemente
emerge. Assim, a partir dessa perspectiva teórica, admite-se que mesmo mulheres
lesadas por suas experiências abortivas podem, de boa
fé, alegar não terem sofrido reações adversas, já que os sentimentos foram
reprimidos, não havendo noção consciente dos mesmos. Além disso, de acordo com
a mesma teoria, quanto maior a repressão, quanto maior a rejeição, maior é o
dano à personalidade da mulher.
Como mencionado antes, Selby acredita que quanto maior a negação, mais graves
serão as reações e mais doloroso será o tratamento. David Reardon,
em seu levantamento de mais 200 mulheres pertencentes ao movimento de Mulheres
Vitimadas pelo Aborto (WEBA), encontra também evidências, em suas observações,
de que quanto mais tarde a realidade é admitida, mais difícil é a solução do
problema. Assim, a conclusão é que cada aborto tem efeitos prejudiciais sobre a
mulher.
Os defensores do aborto advogam
que somente as mulheres com
problemas
psicológicos anteriores têm dificuldade em suportar as experiências abortivas.
As próprias mulheres discordam dessa proposição. Contudo, pode ser verdade que
mulheres com problemas prévios sejam mais suscetíveis às reações mais graves.
Nós simplesmente não temos elementos para responder a essas questões de
imediato. Podemos, entretanto, concluir, com certeza, que essas mulheres
deveriam ser protegidas de traumas futuros induzidos por experiências
abortivas.
3. QUAIS AS MANIFESTAÇÕES DA
SÍNDROME PÓS-ABORTO?
Quais são os problemas que uma
mulher que provocou um aborto deve encarar? Antes de tudo e principalmente, a
necessidade de enfrentar a realidade de ter provocado um aborto.
A verdade é que, quando uma
mulher aceita submeter-se a um aborto, ela concorda em assistir à execução de
seu próprio filho. Esta amarga realidade que ela tem de encarar, se opõe
vivamente àquilo que a sociedade espera que as mulheres sejam: pacientes
amorosas e maternais: Isso também vai contra a realidade biológica da mulher,
que é plasmada precisamente para cuidar e nutrir seu filho ainda não nascido.
Assumir o papel de "matadora", particularmente de seu
próprio
filho, sobre o qual ela própria reconhece a responsabilidade de proteger, é
extremamente doloroso e difícil. O aborto é tão contrário à ordem natural das
coisas, que ele automaticamente induz uma sensação de culpa. A mulher,
entretanto, deve admitir sua culpa para poder conviver com ela.
Existe uma escola de pensadores,
adotada pela maioria dos
promotores
de aborto, que afirma que a admissão da culpa não é necessária. Sustentam eles que, se uma mulher se sente culpada, é
porque alguém "colocou a culpa nela". O que eles sugerem é que isso
acontece, porque a mulher foi forçada pelos adeptos dos movimentos Pró-Vida a
"assumir uma atitude de culpa", que cria uma dor desnecessária e que
não leva a lugar algum.
Presumem eles
que a culpa não emerge do interior da mulher, mas ao contrário é incutida para
dentro dela. Contudo, a experiência das mulheres que se submeteram a abortos não está de acordo com essa afirmação. Ao
contrário, as mulheres pertencentes ao movimentos de
Mulheres Vitimadas pelo Aborto relatam que a culpa se manifestou e cresceu com
a própria experiência abortiva; foi parte da reação própria ao aborto e não
infundida nelas por outras pessoas.
A primeira providência enfatizada
pelos clínicos que trabalham com mulheres que se submeteram a
abortos, é fazer com que elas chorem pelo filho perdido. A realidade é
que uma criança morreu e a resposta humana natural à morte é a tristeza. Se a
mulher é impedida de assim reagir, ela terá dificuldade de encarar a realidade
da experiência abortiva. Entristecer-se significa que ela tem noção de seu
filho e que ela está chorando por uma determinada pessoa que morreu. Obviamente
isto é mais difícil quando se trata de uma criança que nunca foi vista. Era um
menino ou menina? Qual a cor dos cabelos e dos olhos que ele ou ela teriam? O
problema é ainda mais intrincado no caso do aborto, porque o corpo da criança é
geralmente mutilado e é difícil para a mulher pensar na criança cujo corpo não
mais existe.
Dr. E. Joanne
Angello compara isso ao problema que enfrentam os
pais de uma criança que teve morte violenta e cujo corpo não é encontrado,
impedindo que ele seja velado ou enterrado. Como se pode resolver o problema?
Em primeiro lugar, a mulher deve admitir que a criança está
morta, de maneira que ela possa chorar por ela. Para chegar a este ponto, a
mulher tem que quebrar suas rejeições para permitir o reconhecimento da
culpa. A culpa pode ser então utilizada terapeuticamente para ajudá-la a
aceitar o fato de que ela errou, pedir perdão e ser
curada.
4. A TERAPIA CORRESPONDENTE:
Os terapeutas desenvolveram
estratégias diferentes para ajudar a mulher. Por exemplo, Speckhard
desenvolveu uma conduta fazendo com que a mãe visualize seu bebê dando a ela
uma boneca para representar o filho morto. Ela é encorajada a dar um nome à
boneca e falar com ela sobre seus sentimentos e tristeza. Isto lhe dá uma oportunidade
de se "desculpar" com o bebê morto pelo que ela lhe fez e começar a
prantear a criança perdida.
A abordagem de Selby requer que a mulher exteriorize a dor de sua
experiência. Ela acredita que ela deva admitir como reais e liberar as emoções
contidas e que nunca foram expressas por terem sido reprimidas pela rejeição.
Isto pode ser um procedimento emocionalmente muito doloroso. Uma abordagem
inteiramente diferente é contudo necessária para
mulheres com um ano ou mais de experiência abortiva e que pedem uma alternativa
ou um programa do WEBA. Elas geralmente já admitiram sua culpa e sofrem por
ela, mas necessitam de alguém para ajudá-las no sofrimento.
Assim, existe uma variedade de
problemas e necessidades e uma
diversidade
de estratégias para ajudar as mulheres no processo de cura. A despeito dessa diversidade, existe algo que
todos os terapeutas têm em comum: é acreditarem que a cura deve ser encarada
como um acontecimento espiritual. Frei Michael Mannion
sintetizou sua posição quando disse: "O Autor da vida deve curar a perda
da vida". Somente pela aceitação do amor e o perdão de Deus a mulher pode
ser curada. Qual a natureza dessa cura? Pode ela apagar o aborto como se ele
nunca tivesse ocorrido? A resposta a esta última questão é "não".
Como uma mulher do WEBA colocou: "Pode-se ser curada da culpa, mas a
tristeza está sempre lá".
Assim, o primeiro propósito da
experiência de cura é superar os
efeitos
adversos da culpa não admitida, mas o remorso pelo ato é para toda a vida. Por
mais completa que seja a cura, a realidade do ato em si não pode ser apagada. O
bebê abortado é uma pessoa humana real cuja ausência será sentida pela mãe e
por aqueles ao redor dela, enquanto eles viverem. Os novos relacionamentos que
a mãe vier a desenvolver, serão afetados pela ausência
da criança morta. Crianças nascidas subseqüentemente ao aborto terão um irmão morto,
cuja realidade causará sempre um impacto em suas vidas. A experiência clínica
de Angello com tais crianças tem sido considerável.
Seus pais se caracterizam por uma proteção patológica aos filhos, receando
perdê-los por algum acidente ou doença. O desejo obsessivo de outros filhos é
decorrente da necessidade de terem uma criança para colocar no lugar da morta.
Esse comportamento é extremamente prejudicial à evolução e ao desenvolvimento
normal dos filhos.
Assim os efeitos do aborto
atingem a vida de cada indivíduo à volta da mulher, incluindo seus amores e
filhos futuros. Por exemplo, como alguém diz a seus próprios pais que um seu
neto foi morto e que nunca participará de um Natal ou
uma excursão ao zoológico? Como se fala a um filho que nasceu depois, porque um
irmão ou uma irmã foram mortos e, mais importante,
porque ele em particular não foi assassinado?
Como explicar o aborto a um
futuro marido que deseja casar-se e ter uma família?
Que dizer, se a mulher ficou estéril? Seria a esterilidade causada pelo
aborto? Estas são questões duras, que devem ser respondidas. Felizmente, a
mulher que se curou estará apta a lutar para superar esses problemas, mas nunca
será fácil; antes, sempre será doloroso. De que maneira são as mulheres
vitimadas pelo aborto? Primeiro de tudo, nós sabemos que a maioria das mulheres
que se submeteram a aborto teriam preferido outra
solução para o problema. Elas são claramente vítimas de uma decisão tomada por
outros. Contudo, muitas mulheres realmente escolhem o aborto. Podem elas ser
consideradas vítimas? Os dados sobre a síndrome pós-aborto indicam que a culpa
e a dor inerentes ao aborto em si mesmo vitimam a mulher. Como uma mulher,
membro do WEBA, coloca: "Uma vez que a mulher se
torna mãe, ela será sempre mãe, tenha ou não nascido seu filho. O filho morto
fará parte de sua vida, por mais longa que ela seja". O aborto não é
definitivamente a "solução fácil" de um grave problema, mas um ato
agressivo, que terá repercussões contínuas na vida da mulher. É nesse sentido
que ela é vítima de seu próprio aborto e temos obrigação para com a mulher de
lhe dizer esta verdade.