A VIDA DA MÃE OU A DO FILHO?
D. Estevão Bettencourt, OSB
Pergunte e Responderemos 374 1993
Em síntese: Duas mulheres
heróicas na Itália, Gianna Beretta
Molle e Carla Levati Ardenghi, optaram por não se tratar de câncer a fim de não
prejudicar a vida da criança que elas traziam em seu seio; ambas morreram
vítimas de tal opção. A opinião pública tem criticado essas atitudes julgando
estar aí subjacente um falso conceito de maternidade; a mulher seria
simplesmente a reprodutora, que deveria sacrificar-se em qualquer hipótese,
para gerar filhos. - Ora tal não é o modo de ver cristão: as duas mulheres
poderiam ter licitamente escolhido o tratamento do câncer, ainda que este acarretasse, como efeito secundário, a perda do feto. Não o
quiseram, porém, por amor ao filho, amor que só pode dignificar a mulher,
levando-a à imitação de Cristo, que morreu por todos.
A maternidade humana está longe de ser uma função meramente biológica; ela
participa da espiritualidade que existe em toda mulher, e, se esta é católica,
participa da obra redentora de Cristo, como diz São Paulo em 1Tm 2,15. O
testemunho de Gianna e Carla é um benéfico despertar
de consciências neste mundo em que o amor gratuito e benévolo é cada vez mais
raro, neste
mundo em que a violência e a morte marcam profundamente o rítmo
da sociedade.
***
Nos últimos tempos tem estado em
foco o caso de mães gestantes postas na iminência de se sacrificar para não
perder o filho. Duas senhoras italianas aceitaram o sacrifício heróico,
provocando os comentários desfavoráveis e favoráveis da opinião pública. Na Bosnia, o S. Padre dirigiu um apelo às gestantes estupradas
para que não abortassem, o que também suscitou
protestos da parte de jornalistas e outros profissionais.
Tencionamos abordar o assunto,
detendo-nos especialmente na figuras de Gianna Beretta Molle e Carla Levati Ardenghi, heróicas
personalidades, que foram injustamente criticadas precisamente por causa do seu
heroísmo.
1. AS DUAS HEROÍNAS ITALIANAS
1.1. Gianna
Beretta Molle
Médica pediatra, Gianna, aos 40 anos de idade em 1962, estava no início da
gravidez de seu quarto filho, quando soube estar cancerosa; era-lhe indicada a extração do útero grávido como tratamento da moléstia.
Recusou, porém, a cirurgia, que removeria o órgão doente, com a criança, e
escreveu ao seu médico: "Se tiver de optar, não hesitarei. Exijo que a
criança seja salva".
A gestação foi levada adiante até
o momento em que se pôde
realizar
a operação cesariana. O feto nasceu recebendo o nome de Gianna
Emmanuela, que hoje é médica como a mãe. Acontece,
porém, que, uma semana após o nascimento da filha, Gianna
Beretta Molle veio a
falecer não diretamente de câncer, mas de peritonite decorrente da intervenção
cirúrgica necessária para o parto.
O S. Padre João Paulo II em 1992
beatificou Gianna Beretta Molle, reconhecendo assim a heroicidade
das virtudes dessa mulher. O Postulador da Causa de Gianna observou que "o sacrifício consciente da mãe
pelo filho que deve nascer, é apenas o gesto conclusivo de toda uma vida
católica coerente, simples e generosa". Com efeito; a façanha heróica da
mãe no final da sua vida foi o coroamento de toda uma existência fiel e
dedicada ao Senhor.
Não obstante, houve quem
criticasse a atitude de Gianna e o gesto de João
Paulo II, como se pode depreender do artigo "Apuros de Santo Novo" de
VEJA, 06/01/1993.
1.2. Carla Levati
Muito mais recente é o caso de
Carla Levati Ardenghi,
casada com Valerio Ardenghi,
natural de Albano Sant'Alessandro (Bergarno).
Tinha um filho, Ricardo, hoje com dez anos de idade, quando, há três anos, foi
vítima de melanoma ou tumor maligno de prognósticos
sombrios. Foi imediatamente operada, de tal modo que se sentia bem, por isto
julgou poder ter outro filho. Carla, de fato, concebeu, mas em dezembro de 1992
começou a sentir fortes dores na coluna, sintomas de que a metástese
atacara a espinha dorsal. O tratamento proposto foi a
quimioterapia; esta, porém, poria em grave risco a vida da criança. Por isto,
de acordo com seu marido, Carla resolveu não aceitar tratamento algum, até que
lhe nascesse o segundo filho. Aos 26 de janeiro de 1993 foi submetida a operação cesariana; mas faleceu oito horas depois do
nascimento de Stefano, seu segundo filho. Tinha 28
anos de idade. Infelizmente a própria criança pouco sobreviveu à mãe, pois aos
4 de fevereiro de 1993 também faleceu.
Carla Levati
era humilde senhora; teria podido tratar-se, mesmo com risco de vida para o
filho. Com efeito, a Teologia Moral ensina que é lícito realizar uma ação que
tenha duplo efeito - um bom, o outro mau - desde que
- o efeito bom não decorra do
mau, mas seja diretamente atingido;
- o efeito mau não seja
intencionado ou desejado, mas apenas tolerado, como conseqüência inevitável de uma ação que, como tal,
não é má;
- o efeito bom compense, por sua
importância, o efeito mau
- não haja outro recurso para
obter o efeito bom.
Ora no caso de Carla Levati, como também no de Gianna Beretta Molle, o tratamento do
câncer seria uma ação boa, visando à cura da paciente; o efeito mau seria a perda da criança, efeito não intencionado, mas
apenas tolerado. A histerectomia ou a quimioterapia
não seriam para matar a criança, mas para curar a mãe; seriam indicadas
independentemente do fato de haver ou não uma gravidez em curso.
Carla e Gianna,
porém, não quiseram atender a si mesmas, valendo-se licitamente dos recursos da
medicina, para não fazer a criança correr o risco de perder a vida. Tal gesto é
plenamente cristão, pois o Senhor Jesus no Evangelho ensina: "Não há maior
amor do que o daquele que dá a vida por seus amigos" (Jo
15, 12s). Ao que São João acrescenta: "Nisto conhecemos o Amor; Ele deu a
sua vida por nós; por isto devemos também nós dar a
vida por nossos irmãos" (1Jo 3, 16). A atitude das duas mães que se
sacrificaram, significaram a seqüela fiel de Jesus Cristo.
Além desta dimensão cristã, muito
positiva, a conduta das dua senhoras tem profundo
valor humano. Ambas quiseram viver a maternidade no
seu sentido mais elevado de amor que dá a vida e se entrega para que haja vida.
A maternidade é um processo de dar a vida que não pode deixar de ser doloroso;
não há de ser exercida como uma função meramente racional ou cerebrina, mas,
sim, como algo que procede da "inteligência do coração"; o coração
tem suas razões que a razão ignora; não raro essas razões podem parecer
paradoxais, mas na verdade inspiram-se em
magnanimidade e generosidade que ultrapassam o frio cálculo da razão. A atitude
das duas mulheres assinaladas vem a ser um referencial para todo ser humano que
queira viver realmente o amor.
Embora os dois casos, heróicos
como foram, mereçam a admiração da sociedade, tal não foi a
reação de muitos setores da opinião pública. A seguir, referiremos alguns
comentários de jornalistas da Itália relativos ao gesto de Carla Levati.
2. A IMPRENSA E CARLA LEVATI
No jornal II Messagero,
de 29/01/93, A. Bevilacqua escreve:
"O heroísmo chega muitas
vezes às raias do fanatismo... Devo declarar o meu pleno desacordo frente a
tal episódio. Foi um sacrifício em favor da vida? Sim. Um ato heróico em prol
de uma criatura que nascia? Sim. Todavia, a meu ver, embora seja desagradável,
um egoísmo se manifestou, egoísmo de natureza materna, distorcido por uma
deformação angustiada da esperança e por convicções religiosas exageradas até
o fanatismo ".
"Eu me insurjo, sim, eu me
insurjo profundamente contra a 'moral' que muitos querem deduzir dessa
história... Mas quem pode dizer o que aquela pobre menina pensava?... Talvez
julgasse que iria para o paraíso ou que a declarariam
Santa. Sendo portadora de um tumor, devia resignar-se a abortar. Mas somos
loucos? Ela colocou no mundo um filho órfão. Parece-me um sacrifício inútil,
errôneo; morrer para deixar nascer um fetozinho que talvez não tenha condições
de sobreviver. É coisa tão terrível como querer dar à luz com sessenta anos de
idade. Nisto há ignorância, retardo cultural, um desejo de martírio que não
posso entender".
Mais dura ainda foi Dacia Maraini em entrevista ao
mesmo jornal
"Não se fale de sublime
sacrifício... A renúncia de Carla Levati reproduz a
concepção arcaica segundo a qual a tarefa da mulher é a reprodução, mesmo às custas da vida própria. É inquietante observar como
resiste fortemente essa perigosa mitologia, que remonta aos primórdios da
civilização ocidental, grega e romana. A razão de ser e existir da mulher
estaria na sua capacidade de garantir a prole, isto é, o futuro da humanidade.
Evidentemente ainda há pessoas influenciáveis por feitiços desse gênero. Respeito
as decisões individuais. Talvez Carla quisesse ter um filho a qualquer preço.
Talvez levasse uma vida infeliz ou tivesse baixa consideração de si mesma. Não
nos interessa explorar as motivações secretas que a levaram a rejeitar o
tratamento e a pôr no mundo um filho órfão".
A antropóloga Ida Magli também protestou no mesmo jornal e na mesma data:
"Quanto barulho, quanta
exaltação! Mais uma vez a pressão social dita o significado dos acontecimentos.
Mais uma vez tenta incutir no ânimo das mulheres a convicção de que o único
valor para a mulher é a materrnidade".
A deputada Alessandra Mussolini,
do Movimento Social Italiano confessou não querer julgar a opção de Carla Levati, mas acrescentou:
"Todavia creio que querer
ter um filho a qualquer preço é ato de extremo egoísmo. A senhora de Bergamo, Carla Levati, já não
tinha um filho? Agora acontece que teve outro, mas incapacitado de gozar dos
cuidados maternos. A verdade é que deveríamos ter um pouco mais de normalidade
ao passo que, segundo me parece, caminhamos para uma sociedade disposta a
premiar sempre mais as exceções e as aberrações" (L’Unitá,29101193).
Em suma, verifica-se que os
comentários tacharam o gesto de Carla Levati de
"egoísmo" (A. Bevilacqua), "extremo
egoísmo" (A. Mussolini), "sacrifício inútil, errôneo, fruto de
ignorância e de retardo cultural” (C. Caderna), "compensação de quem
levava vida infeliz e tinha baixa consideração de si mesma" (D. Maraini).
3. QUE DIZER?
3.1. Aberração: onde?
A aberração não está no gesto de
Carla e de Gianna, mas, sim nos pareceres emitidos a
respeito. Dir-se-ia que as pessoas que assim se exprimiram, são incapazes de
compreender que o amor é querer bem ao outro - e não servir-se do outro -,
querer bem a ponto de realizar grandes sacrifícios em favor do outro. Quem
sustenta uma visão da vida centrada sobre seu próprio prazer e seus interesses, uma visão egoísta, não pode entender as
atitudes altruístas de seus semelhantes. Seria para desejar, porém, que, mesmo
que não entendam gestos de magnanimidade rara, os comentadores saibam guardar
respeito e não os condenar como deformação psíquica.
Em compensação, podemos comunicar
que, aos 30/01/93, vinte casais de diferentes países, reunidos em Roma para
participar de uuma reunião Plenária do Pontifício
Conselho para a Família, escreveram uma carta ao marido de Carla Levati, em que diziam:
"O
testemunho heróico de amor à vida prestado por Carla nos tocou no mais profundo
do coração. É um exemplo luminoso para as famílias cristãs do mundo
inteiro nestes tempos difíceis, nos quais são obscurecidos os valores da
maternidade.
Julgamos que
Carla representa um modelo, porque nela vemos uma mulher casada, como nós, que
deu a vida por seu filho, e pedimos a Deus queira derramar a sua graça,
mediante o testemunho de Carla, sobre todas as famílias do mundo”.
3.2. O conceito de maternidade
Os críticos do gesto de C. Levati quiseram basear sua censura num ridículo conceito
de maternidade atribuído a essa senhora: Carla teria concebido a maternidade
como mera função reprodutora a serviço da espécie humana, função de índole
física apenas ou até animalesca, em nada distinta da maternidade no mundo
animal. Tal seria uma concepção arcaica, mitológica, incompatível com o
feminismo contemporâneo. Ida Magli afirma que a maternidade
foi durante muitos séculos um trágico destino das mulheres: "Até o fim do
século XIX as mulheres eram sempre obrigadas a morrer em lugar dos filhos,
desde que houvesse que optar pela vida da mãe ou a da prole... Até a década de 1960 quem definia qual dos dois sobreviveria era o
pai". - Por conseguinte, a maternidade seria um trágico destino da mulher
encarregada da função reprodutora.
A propósito devemos dizer que o
Cristianismo sempre distinguiu a maternidade humana da
maternidade meramente animal. O protótipo da Mãe para o cristão é a
Santa Mãe de Deus, cuja função foi certamente colaborar na obra da Redenção;
toda mãe cristã continua o papel de Maria a seu modo; ela gera filhos chamados
à vida eterna, realizando no seu lar uma "igreja doméstica"; São
Paulo chega a ver no exercício da maternidade o caminho de salvação da mulher:
"A mulher será salva pela maternidade, desde que, com modéstia, permaneça
na fé, no amor e na santidade" (lTm
2, 15).
Por certo, a maternidade não é
única via de salvação da mulher; existe também a da virgindade consagrada a
Deus. Como quer que seja, a vocação ao matrimônio está longe de condenar a
mulher à função de reprodutora e de submetê-la, por isto, a trágico destino.
Na verdade, a maternidade não é fato meramente carnal ou fisiológico, mas é
também uma realidade espiritual; é amor que se exprime carnalmente e que eleva
a carne a significar valores humanos muito superiores aos valores meramente
animais. A maternidade, portanto, dignifica a mulher e não a reduz a mero instrumento destinado à reprodução da espécie.
Inegavelmente a grande dignidade
de ser mãe, como qualquer outra dignidade, pode colocar a pessoa em situações
difíceis e exigentes, com apelos ao sacrifício. Aceitar tais desafios com
nobreza e coragem é a plena realização da mulher-mãe. Para que isto aconteça, a
graça de Deus não falta à pessoa interessada, incutindo-lhe aquela concepção de
amor que tem seu protótipo
Num mundo como o nosso,
impregnado de interesses individualistas e egocêntricos, movido pelo anseio do
prazer, especialmente no setor da sexualidade instintiva e cega (em muitos
casos), ressoa de modo muito( significativo o
sacrifício de Gianna e de Carla; o seu amor altruísta
e puro fez algo que surpreendeu o mundo e pode despertar as consciêneias
para o sentido do autêntico amor. Esse altruísmo ultrapassa os limite de um
episódio de família para assumir a índole de uma "santa novidade' para a
sociedade contemporânea.
3.3. A morte de Stefano
O filhinho de Carla - Stefano - não sobreviveu senão poucos dias após a morte de
sua mãe. Neste fato, particularmente, baseou-se a crítica de que o gesto de
Carla foi tolo, inútil e desarrazoado.
Respondemos que a grandeza de uma
atitude ética não pode ser avaliada simplesmente a partir do sucesso visível;
mesmo que um sacrifício ditado pelo amor não atinja o objetivo colimado, tal
sacrifício conserva seu pleno valor.
Nem se diga que o gesto de Carla
foi inútil. Veio a ser um brado em favor da vida num mundo em que a violência e
a morte têm dominado em várias regiões, instaurando a cultura da morte; sejam
recordados os dolorosos episódios ocorridos na Bósnia (tragédia para a qual não
se vê fim), as guerras fratricidas em países da África, as guerras e guerrilhas
do Oriente Médio, os conflitos entre hinduístas e muçulmanos na Índia, a
aprovação de uma lei em favor da eutanásia direta na Holanda (aos 10/02/9e), a
política abortista do governo B. Clinton nos Estados
Unidos... O gesto da modesta mulher Carla Levati,
como também o de Gianna Beretta
Molle, são sinais que podem e devem avivar a opinião
pública para que tente promover outro tipo de comportamento social; matar por
paixão e egoísmo não leva à felicidade, ao passo que a vivência do amor que pretente salvar o próximo será penhor de dias melhores.
Aos olhos dos incrédulos, a Cruz
de Cristo será sempre loucura e escândalo como diz São Paulo (1Cor 1,18.23). Por conseguinte, não nos surpreende a
incompreensão de muitos frente ao caso de Carla Levati
e Gianna Beretta Molle. Mas continua o Apóstolo dizendo que o que é loucura
aos olhos dos homens é sabedoria aos olhos de Deus (1Cor 1,25). Essa sabedoria
de Deus é, não raro, revelada aos pequeninos e humildes, como foi Carla Levati, para que proporcionem aos sábios e poderosos a
ocasião de repensar sobre o sentido da vida e da morte, do sofrimento e do
amor.
Este artigo muito deve ao Editorial "Una
testimonianza per la vita" de