A "FÉ" DOS ABORTISTAS
[Reproduzimos dois trechos
sobre o aborto dos opúsculos "A língua" e "A voz da
consciência", de Francisco Faus, textos que no momento atual – em que o
tema do aborto é assunto diário da mídia – se revestem de especial atualidade.
Em ambos, o autor está tratando da "mentira do mundo", e, para
exemplificar, cita episódios relacionados com o aborto, ocorridos nos anos de
1994 e 1995, quando esses opúsculos foram escritos]
A mentira do mundo é também,
especialmente na atualidade, uma imensa falsificação dos conceitos sobre os valores
da vida, que se pretende impor agressivamente como lei obrigatória. Essa
tergiversação da verdade sobre o bem pessoal e social reivindica o direito de
ser a única aceitável, e avança no ambiente com a força de uma enxurrada.
Muitos meios de comunicação, professores, sociólogos, psicólogos, etc., a
despejam em lares, escolas e consultórios. E um bom número se deixa arrastar
por ela.
Em janeiro de 1994, um
importante jornal diário, não sem uma certa dose de regozijo, dedicou duas
reportagens, ilustradas com fotografias, ao drama da égua Luna.
Era uma vez – ficou-se sabendo
– uma formosa égua quarto-de-milha de crinas brancas e olhos azuis. Eis senão
quando um plebeu pangaré, ironicamente chamado Príncipe, conseguiu um encontro
furtivo com a puro-sangue, dele resultando o epicentro do drama: um potrinho
sem classe estava a caminho.
Quando se soube que o dono da
égua decidira abortar o indesejado potrinho sangue-sujo, desfraldaram-se
imediatamente as nobres bandeiras da defesa da vida animal. “A União em Defesa
do Cavalo e do Jegue – lê-se no jornal – pretende entrar hoje com medida
cautelar contra o proprietário de Luna para tentar impedir o aborto do potro”.
A presidente dessa entidade, que também preside à S.O.S Bicho, “anunciou que
vai basear a ação judicial no artigo 64 da lei das contravenções penais, que
proíbe submeter animais a tratamento cruel”.
Por sua vez, o presidente da
União Internacional Protetora dos Animais afirmou que, do ponto de vista da
ética veterinária, o aborto só pode ser feito se for para salvar a égua ou o
filhote (Cf. O Estado de S.Paulo, 14-I-1994, pág. A14.).
Em todos os casos, o termo
empregado em defesa do potrinho foi a dura palavra “aborto”. Ninguém usou, por
exemplo, o eufemismo “interrupção da gravidez”, que parece reservar-se somente
aos seres humanos. Seres humanos? Vejamos.
No mesmo jornal, e no mesmo dia
em que se publicava uma das reportagens sobre o drama da égua, eram
reproduzidas palavras de uma figura política lamentando que os prazos e modos
de tramitação da revisão constitucional dificultassem a legitimação do aborto
na Carta Magna. A personalidade achou por bem, nessa ocasião, informar o
público de que o feto, antes de ter completado sete meses, não podia ser
considerado propriamente “ser humano”. Naturalmente, os motivos justificativos
do aborto – pelo menos até os três ou quatro meses – pertenceriam à
“consciência” ou à vontade da mãe, sem as restrições exigidas para proteger a
vida animal.
Após ler as duas notícias, uma
profunda sensação de mal-estar invadia o leitor medianamente sensato. Era
patente que estávamos, mais uma vez, diante da Mentira, da maiúscula e mais
absurda mentira. E, no entanto, muitos, com certeza, devem ter achado tudo
perfeitamente natural. A mentira do mundo consegue deformar de tal modo
as consciências, que se acha lógico punir seriamente quem maltratar um
mico-leão, enquanto se brada apoio total à chacina de milhões de seres humanos
indefesos, dentro do ventre materno.
Não era
desses, certamente, um meu amigo que, por aqueles dias, triste e bem-humorado
ao mesmo tempo, me dizia: – “Preciso urgentemente que me ajude a recuperar a
minha identidade. Nasci com menos de sete meses e, portanto, segundo a renomada
figura política, não vim ao mundo como «ser humano». Por outro lado, nenhum
S.O.S. Bicho se ocupou jamais de um «potrinho» gerado por um homem e uma
mulher, o que é o meu caso. Por favor, diga-me! Quem sou? Se não posso ser
considerado «humano» e não entro no catálogo dos «bichos», então não existo,
estou inteiramente desprotegido neste estranho mundo, onde prender uma capivara
é crime inafiançável, ao passo que matar um bebê é uma conquista dos direitos
humanos”(A língua, Quadrante, São Paulo 1994, págs. 44-47).
***
Em fins de 1995, um deputado federal, adepto de uma
ideologia política intrinsecamente materialista e atéia, proclamava – mais uma
vez! –, com a solenidade de quem define um dogma de fé, que a lei deveria
permitir o aborto até aos três meses de gravidez, pois até esse limite de tempo
o feto não é ainda ser humano. Novidade? Não, velharia. Mas afirmada e repisada
com majestosa empáfia. Caso perguntemos as “razões”, o fundamento racional para
esse conceito e essa lei, a resposta será o silêncio, simplesmente um
“porque sim”, uma vez que não há razão nenhuma – filosófica, antropológica,
biológica, etc. –, que permita dizer que somos seres humanos noventa dias
depois de sermos concebidos e não o somos aos oitenta e nove dias. Por que não
noventa e um ou cento e três? Ninguém sabe responder. A moral relativista só é
capaz de “convenções”, nunca de “convicções” e, menos ainda, de “verdades”. À
falta de verdade, precisa de inventar “dogmas de fé”.
Eis o ateu. Faz constantemente o que ele acusa os
cristãos de fazer: – “Vocês querem impor crenças, convicções de pura fé, à
legislação de um país não-confessional” (apesar de a sua Constituição começar
invocando o nome de Deus).
Ora, o que se dá no caso do aborto – e em muitos
outros – é exatamente o contrário. Os abortistas ateus querem impor-nos um ato
de fé, muito mais violento que os que eles dizem que a Inquisição requeria:
“Creio que só somos homens a partir do terceiro mês, creio sem prova nenhuma,
sem ciência nenhuma, sem razão nenhuma”. Pelo contrário, os que acreditam em
Deus são os que, neste caso, em vez de invocarem a fé, apelam apenas para a
razão e para a ciência. Porque, cientificamente, está mais do que provado que o
embrião, desde o primeiro momento da concepção, já é um ser humano pleno e em
desenvolvimento, exatamente o mesmo ser humano – geneticamente,
biologicamente – que será aos cinco anos, ou aos quinze, ou aos sessenta. Um
dos maiores geneticistas modernos, o professor francês Jerôme Lejeune,
descobridor da causa da síndrome de Down, foi convidado certa vez como perito
por um tribunal americano que julgava um crime de aborto: as razões científicas
que apresentou em favor do caráter humano do feto foram de tal ordem que
reduziu ao silêncio mais sepulcral os que as contraditavam. Como vemos, quando
os crentes combatem o aborto, estão sendo racionais, e, quando os ateus o
defendem, estão fazendo e pretendendo impor – mais uma vez – um incrível ato de
fé. (A voz da consciência , Quadrante, São Paulo 1996, págs. 36-37).