Notas
sobre o aborto e a sociedade permissiva
Fonte:
Extraído da nota editorial do livro Aborto
e Sociedade Permissiva, de Pedro-Juan Viladrich, 1a Edição,
Editora Quadrante, São Paulo, 1987
A acreditar nas estatísticas
da Organização Mundial da Saúde, ocorrem no Brasil mais de dois milhões de
abortos provocados, o que equivaleria praticamente ao número de nascimentos.
Curiosamente, esta comprovação não suscita nenhum movimento expressivo em favor
da vida, mas pelo contrário exaspera certos ânimos no sentido de que se
despenalize essa prática clandestina. Ao mesmo tempo em que se luta contra a
mortalidade infantil, pede-se a legalização do aborto. A que se deve semelhante
disparidade ?
Se, há alguns anos, mal se
podia obter uma anuência relutante dos partidários do aborto mostrando-lhes que
o feto devia ser protegido ao menos como expectativa de vida, hoje, graças aos
avanços da embriologia, não há quem discuta que o feto é desde o momento exato
da fecundação um ser humano. Por que então a incoerência?
Indo diretamente ao fundo das
coisas, pode-se dizer que a bandeira pró-abortista não passa de um
corolário-limite do movimento de emancipação da mulher. A reivindicação da
plena igualdade do homem e da mulher havia de acabar levando a que esta
quisesse usar do sexo sem olhar a conseqüências. Daí a defesa dos anticoncepcionais
e, como garantia última, a tese da legalização do aborto.
Não adiantava esclarecer que o
feto não pode ser considerado parte do corpo da mãe, suscetível de ser
eliminado como se elimina uma verruga no rosto. Não adiantava mostrar que esse
ser humano é, desde as primeiras horas, absolutamente independente da mãe, que
é ele quem comanda o seu próprio desenvolvimento, e mais: que é ele quem dá as
ordens à mãe. Também não adiantava fazer ver que o concebido, como diz o Prof.
Jerôme Lejeune, se aloja no seio materno como o cosmonauta na sua cápsula
espacial: sem esta morreria, mas nem por isso cabe na cabeça de ninguém dizer
que é a nave espacial que cria o cosmonauta.
Assistiu-se então ao desfilar
de opiniões ao desbarato, oriundas de figuras femininas notáveis nos
mass-media, que se erigiam em mestras de direitos humanos para proclamarem que
o direito humano era delas, não do filho gerado (Folha de S. Paulo, 07.06.84).
Como é que uma artista de cinema podia deixar crescer o tumor, se com isso iria
prejudicar as filmagens? (Isto é, 21.09.83, pág. 39). E por aí afora.
Mas como em ninguém fica bem o
egoísmo cruel, vinha a pincelada da reivindicação social: quem mais sofre com a
penalização do aborto são as mães de condição modesta que, não podendo recorrer
aos serviços médicos do Estado, caem nas mãos da clandestinidade e correm forte
risco de vida, como se demonstra pelos 400.000 casos anuais de atendimento
médico no país em conseqüência de abortos mal feitos. As mulheres ricas vinham
assim em ajuda das mulheres pobres, e reclamavam para estas o mesmo que uma
delas dizia ter tido para os seus dezesseis abortos, com todos os meios à sua
disposição (Isto é, 21.09.83).
É de mencionar a cobertura que
deram a esta reivindicação certos órgãos de imprensa, não só porque numa
imprensa livre é de bom tom tudo referir e debater e, aliás, não é com bons
sentimentos que se faz bom noticiário, mas também porque por trás estava o
lobby do comércio do sexo, empenhado na liberação sexual e nas suas práticas
descartáveis.
Mas está também o interesse do
Estado. Quando se vê que o esboço do texto constitucional ora em estudo (* esse
artigo foi escrito em 1987) não se atreveu a inserir um preceito claro
protegendo a vida a partir da concepção, fica-se a pensar o que realmente pretenderão
as forças que atuam na configuração futura de uma sociedade que se quer mais
humana. Não sabem elas que o primeiro dos direitos humanos, a fonte de todos os
demais, é o direito à vida? Sabem, sim, mas não é nada mau deixar as mãos
livres ao legislador ordinário para que, consoante as circunstâncias, possa
socorrer-se do aborto como meio de controle da natalidade. Mais um, o meio
extremo, mas estatisticamente de peso extraordinário.
Duas coisas entre tantas,
brutalmente elementares, ressaltam no jogo mais consciente ou menos consciente
da luta pró-aborto: o nivelamento dos valores humanos por baixo e a miopia na
condução da coisa pública.
Quando as feministas reclamam
plena igualdade sexual com o homem e, como se lê em artigo publicado na Folha
de S. Paulo (cad. Mulher, 26.06.84, pág. 11), "colocam a questão do aborto
como essencial ao movimento de emancipação da mulher das suas amarras
patriarcais e da exploração tradicional do seu papel de reprodutoras", o
que fazem é dar por boa uma visão da sexualidade que degrada quem a aceita,
seja homem, seja mulher.
Sabe-se que o sexo, se quiser
ser um valor humano, tem que ser manifestação do amor interpessoal, coisa de
que os animais não são capazes, e há de estar aberto à vida, com toda a carga
de responsabilidades que suscita, tanto para a mulher como para o homem. Não se
pode evitar a impressão clara de que, ao pretenderem equiparar-se ao homem no
uso insolidário do sexo, as mulheres querem para elas a mesma dignidade do
homem-animal. Com isso, não somente contrariam as leis da natureza, de que
deriva o equilíbrio racional dos indivíduos e da sociedade, mas ambicionam a
sua própria destruição, antes de mais nada pelo trauma do aborto, e depois pelo
aniquilamento da feminilidade, magnificamente associada ao mistério da
maternidade. Não há dúvida de que é um nivelamento por baixo.
Mas desce-se ainda mais e
eleva-se a categoria de raciocínio válido a idéia de que, se o aborto é uma
prática generalizada, deve ser legalizado. Já se tem feito ver, sem necessidade
de chegar a precisões filosóficas ou sociológicas, que, nesse caso, se deveria
proceder do mesmo modo com tantas outras mazelas da nossa conjuntura histórica.
Se vêm aumentando os crimes, os roubos à mão armada, a corrupção dos
"colarinhos brancos", por que não proteger esses direitos humanos e
dar-lhes o amparo da lei? Outra vez o nivelamento por baixo.
Miopia
Mas o outro aspecto não é
menos assustador: a visão míope dos responsáveis na condução da coisa pública.
O Estado deixou de ser, em amplas parcelas, o elemento ordenador da sociedade,
aquele que a chama à razão em nome do bem de todos, incumbido de canalizar e
potenciar as verdadeiras forças e aspirações do corpo social, para ser apenas o
cúmplice e o instrumento todo-poderoso desse nivelamento por baixo.
Numa sociedade de consumo, a
pessoa se vê tão dominada pelo individualismo mais selvagem que não se importa
de lançar-se nos braços do estatismo mais asfixiante para garantir uma
liberdade sem responsabilidade. Paradoxalmente, é o liberalismo mais cego que
reclama a manipulação do Estado no que há de mais íntimo ao homem: o direito a
ser respeitado, sem pressões nem injunções, nos seus modos de ser pessoa. É
evidente que, invadida a autonomia da família pelo Estado, quase nada mais
escapará à sua ação. Não se demorará a pedir que o Estado suprima seres humanos
em atenção a critérios eugenésicos, que se chegue à eutanásia para eliminar
seres não produtivos. Há Estados que hoje trilham os mesmos caminhos nazistas,
com a agravante de que o fazem em nome e em defesa da liberdade individual.
A miopia salta aos olhos. Um
Estado inclinado a favorecer a prática das técnicas anticoncepcionais e a calar
perante o aborto ou a abrir-lhe uma pequena fresta legal, tenta melhorar a
renda por cabeça diminuindo o número de cabeças pelas quais dividir o produto
nacional bruto. É uma solução de curto alcance, de quem empurra os problemas
com a barriga, pois não há dúvida de que, em prazo não superior a duas
gerações, estarão criadas todas as condições para uma população decrescente e
envelhecida. Não faltam experiências históricas e dos nossos dias que o
atestam.
O imediatismo leva a procurar
panacéias. A visão de Estado leva a implantar soluções. E sabe-se que a
alavanca da solução sempre esteve num crescimento racional da população. Onde
há uma boca que come há dois braços que trabalham, e onde há uma população
jovem em demanda de trabalho há um estímulo para os investimentos e há um
frêmito de criatividade.
Essa miopia torna-se aflitiva
em toda a questão mais abrangente da expansão sadia da família, célula de uma
sociedade em que os valores humanos não se hão de impor de cima para baixo, mas
devem surgir da autenticidade das consciências. E não se trata de uma utopia.
O ser humano nasce de uns
pais, tem direito a uma família unida, baseada no respeito à vida e no esmero
com os filhos realmente desejados. Sem as estridências do consumismo, sem as
angústias da escassez. Cabe aos governantes propiciar às famílias esse ar
respirável, orientando o desenvolvimento econômico do país para níveis mínimos
de desafogo. Mas cabe-lhe antes mudar o clima antifamília e antinatalidade que
domina as mentalidades na geração do egoísmo.
De pouco serve os responsáveis
obcecarem-se com o problema econômico se paralelamente sustentam o direito à
dissolução do vínculo conjugal quantas vezes se quiser e por que motivo for, se
equiparam sem a menor ressalva o matrimônio legítimo ao concubinato, se fazem
alarde de uma campanha que tem por base a rejeição social do filho, não só
mediante uma informação indiscriminada sobre os métodos do controle da
natalidade, como pela inexistência de facilidades para as famílias numerosas ou
das que ao menos estejam acima do crescimento zero. Não há dúvida de que se
trata de uma situação de miopia, que a seu tempo terá de pagar o seu preço. Com
a diferença de que não se resgata uma situação de descaso pela família e de
repulsa ao filho com a facilidade com que se implanta.
Na última parte do livro
Aborto e Sociedade Permissiva (Editora Quadrante, 1987), o prof. Walter Moraes
apresenta um pequeno elenco de medidas, detendo-se sobretudo na adoção, capazes
de oferecer opções válidas para a pura eliminação do feto. São medidas que, com
variantes, são reclamadas dos órgãos legislativos e governamentais em todos os países.
A par dessas medidas
específicas, impõe-se porém todo um clima de favorecimento dos valores da vida,
próximos e remotos: condignos salários-família, alojamento, transportes,
serviços médicos, acesso à educação, e uma vigilância responsável pelo nível
humano do caudal de informações e entretenimentos, sem receio de se cair no
controle ideológico, mas resgatando esses meios de comunicação do patológico e
do nivelamento por baixo.
O caso do aborto é, hoje em
dia, um caso-limite. Mas é bom que vivamos uma época em que o nível de
dignidade humana claramente retrocedeu em alguns pontos vitais, sob o argumento
de defendê-la. Precisamente por isso, porque não se pode descer mais baixo,
talvez seja a oportunidade de recomeçar a subir. Tudo está a exigir dos responsáveis
que elevem as suas miras para espaços verdadeiramente humanos, até os ares
puros da visão racional e audaz da condição humana no seu devir histórico.