A moral cristã segundo São Tomás de
Aquino
Entrevista com o
sacerdote e professor Mario Iceta Gavigogeascoa
PAMPLONA, segunda-feira, 11 de maio de 2005 (ZENIT.org).- A Igreja é «casa de Deus» («Domus
Dei»). O professor Iceta, autor de «A moral cristã
habita na Igreja», comenta com Zenit esta imagem de
Igreja como casa tomada de São Tomás de Aquino e a define como «a comunicação
do homem na bem-aventurança».
Mario Iceta é
sacerdote e doutor em medicina e cirurgia pela Universidade de Navarra.
Em sua obra «A moral cristã habita na Igreja. Perspectiva eclesiológica da moral
Doutor em teologia moral pelo Pontifício Instituto João
Paulo II para o estudo sobre o matrimônio e a família, Iceta
é fundador da Sociedade Andaluza de Bioética e da revista
especializada em Bioética e Ciências da Saúde.
--Que quer dizer: a moral cristã habita na Igreja?
--Iceta: Parece-me que na
atualidade se tem uma visão muito reduzida da identidade do cristão. Um cristão
não é simplesmente um homem que tenta ser algo melhor que os demais porque
recebeu como uma espécie de código moral que o obriga a isso. É esta uma visão
um tanto caricaturada do ser cristão.
O cristão é um ser que renasceu quando se deixou
surpreender pelo amor de Cristo; é um ser que nasceu do alto por meio do
batismo, como afirma o Senhor em seu diálogo com Nicodemos.
Este nascer do alto comporta um novo modo de obrar, próprio de quem foi
transformado por Cristo.
A vida do cristão converte-se em um seguimento de Cristo,
em um seguimento de Cristo («sequela Christi»). O
nascer do alto e o conseguinte seguimento só podem dar-se de modo real se
Cristo se faz contemporâneo a todo homem; e esta contemporaneidade de Cristo
com o homem acontece na Igreja.
O novo modo de obrar só pode gerar-se no seio da
comunidade eclesial. Nela o ser humano é gerado de novo, vai progressivamente
adquirindo a forma de Cristo também com vistas à ação.
No seio da comunidade eclesial dão-se as condições para
que o cristão possa aprender a realizar ações excelentes e santas e é
capacitado para isso por meio da graça, recebida na celebração dos sacramentos.
--Como se relacionam moral e eclesiologia
concretamente?
Iceta: As relações são múltiplas. Como
já apontava anteriormente, a Igreja é o lugar que reúne as condições
necessárias para a gênese da subjetividade cristã.
Em meu trabalho considero uma dupla perspectiva.
A primeira faz referência à edificação da Igreja por meio
das ações excelentes do cristão. Efetivamente, a edificação da Igreja tem lugar
por meio da ação meritória de Cristo e as ações santas dos cristãos que têm em
Cristo seu princípio de operação que possibilita o acesso à bem-aventurança.
Por meio de suas ações, sustentadas pela graça e participando do mérito de
Cristo, o cristão vai edificando a Igreja como Corpo místico até que chegue a
sua plenitude e perfeição em estado escatológico.
A segunda perspectiva é recíproca à anterior. Faz
referência à geração do cristão no seio da Igreja. Na aquisição da forma
cristã, o cristão precisa de um elemento interior que é fundamentalmente o
sacramento do batismo, pelo qual é gerado a uma vida nova e capacitado para
começar a forma cristã própria do «homo spiritualis».
Mas esta regeneração precisa por sua vez de fatores
externos que vão modelando e configurando a perfeição cristã.
Estes fatores são: a imitação de Cristo (daí a necessidade
da Sagrada Escritura e da pregação, pelas quais o
cristão aprende a conhecer e imitar Cristo); a função pedagógica da lei moral,
que atua como pedagogo até que o cristão adquira o «instinctus
Spiritus Sancti» que o
capacita para reconhecer e realiza ações excelentes e meritórias; o testemunho
e a companhia dos cristãos virtuosos no contexto da amizade, por meio do qual o
cristão aprende como por co-naturalidade a formar-se virtuosamente e a atuar
excelente e meritoriamente e, por último, o ministério pastoral em sua função de
engendrar e nutrir a vida cristã do homem, em dependência da paternidade de
Deus com cada um de nós.
--Qual é a perspectiva da Igreja que subjaz
na moral de São Tomas de Aquino, que o senhor estudou?
Iceta: São Tomas não se circunscreve a
uma perspectiva unívoca da igreja.
Parece-me que uma contribuição interessante ao pensamento
teológico atual é a recuperação desta visão da Igreja como «Domus»
que tem riquíssimas implicações na perspectiva eclesiológica
da moral.
São Tomas considera que habitar na «Domus
Dei» consiste em permanecer estavelmente nas boas ações. Daí que os filhos,
permanecendo operativamente no amor de Deus, permanecem na «Domus»,
que é a Igreja.
A «Domus» é considerada como a
posse do fim último, quer dizer, a comunicação do homem na bem-aventurança.
Cristo se converte no paradigma da edificação da «Domus»,
associando os cristãos a sua própria obra de glorificação.
Ademais desta concepção da Igreja como Corpus «mysticum», como «Domus» e «Templum», São Tomas emprega também outras imagens que estão
diretamente relacionadas com estas duas.
As imagens de «societas ut civitas sanctorum», «Regnum» e «communio» dependem da
concepção da Igreja como «Domus». E as imagens da
Igreja como Esposa de Cristo, rebanho do bom Pastor e a imagem da vida e dos
ramos vêm relacionadas com a consideração somática da Igreja. São Tomas sabe
empregar os diversos registros que cada imagem representa para aprofundar as
diversas dimensões eclesiológicas da ação do cristão.
--O senhor defende que a moral de Tomas de Aquino é uma
moral da bem-aventurança. Como seria?
Iceta: A idéia que muitos têm na
atualidade acerca da moral é uma idéia distorcida da moral própria de uma
leitura atropelada da manualística.
Bem sabemos que a encíclica «Veritatis
Splendor», seguindo a indicação do Decreto «Optatam totius», n. 16, do
Concílio Vaticano II, urgia à moral mostrar ao cristão sua altíssima vocação
A este respeito, a releitura de São Tomas à luz dos
problemas que atualmente se estabelecem na Teologia moral pode dar lugar a uma
fecundidade assombrosa.
O esquema próprio da manualística
(lei-consciência) era desconhecido para o Aquinate.
Esse esquema, fruto da manualística, funde suas
raízes no nominalismo, onde começa de modo inexorável a deterioração da
estrutura fundamental da Teologia moral.
Na moral de São Tomas, Cristo e a caridade adquirem o
status de pedra angular da estrutura moral enquanto que no contexto da amizade
com Cristo, que é a caridade, o homem caminha para a bem-aventurança. A moral,
portanto, consiste principalmente nessa «seqüela Christi», no caminho de
retorno para o Pai por Cristo e o Espírito Santo onde o cristão alcança a
bem-aventurança plena em que consiste sua própria perfeição e o objeto da
moral.
No retorno das criaturas racionais a Deus, encontraria a
Teologia moral seu lugar teológico adequado, enquanto ciência que trata sobre o
fim último que é a comunhão com Deus. Não em vão, o primeiro tratado da parte
moral da «Summa Theologiae»
corresponde à bem-aventurança como fim último.
O homem progride para esta bem-aventurança no contexto da
amizade com Cristo, apresentado como «máxime sapiens et
amicus». Neste lugar, no encontro com Cristo, na
resposta a seu Amor que provoca o homem a responder, o cristão por meio de suas
ações sustentadas e movidas pela graça de Cristo vai caminhando e progredindo
para a bem-aventurança.
Daí que a moral
Por isso, o estudo atento do Aquinate
pode ajudar a moral a sair do empobrecimento e, em certo modo, do impasse que a
conduziu à manualística e retornar a
seu contexto próprio que é o seguimento amoroso de Cristo no contexto de
sua amizade oferecida de forma permanente na Igreja.
ZP05050910