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Encontra-se em São Paulo, o arcebispo dom Elio Sgreccia, da
Pontifícia Academia pela Vida e professor de Bioética no Hospital Escola
Agostinho Gemelli de Roma.
A convite de dom Cláudio Hummes, ele ministra um curso de
reciclagem para o clero arquidiocesano e terá oportunidade de falar a
seminaristas e estudantes de Teologia.
Na sexta-feira, dia 6 de agosto, dom Elio Sgreccia concedeu
entrevista exclusiva à rádio 9 de Julho e ao jornal O SÃO PAULO. Confira
a íntegra da entrevista de dom Sgreccia.
Dom Sgreccia, de
uma forma bem simples, como o senhor define a bioética?
Esta disciplina surgiu
nos anos 70, nos Estados Unidos. A palavra bioética significa, antes de tudo, o
querer estabelecer princípios éticos quando se trata da vida, sobretudo da vida
humana neste tempo em que o progresso da ciência genética, da ciência médica e
da pesquisa científica chega a poder introduzir-se no íntimo da vida. A
genética moderna, de modo especial, começou seu desenvolvimento através do
monge agostiniano Mendel, na segunda metade do século 19. Men-del descobriu
como foi construída a célula, como se transmitem os caracteres hereditários dos
pais aos filhos, porque descobriu exatamente os elementos constitutivos da
célula humana, os genes.
O que são luzes e o
que são trevas nesta ciência nos dias de hoje?
Através destas
descobertas, podem-se fazer coisas belíssimas pelo bem da humanidade. Por
exemplo, podem-se descobrir remédios que não são feitos com a química, com os
minerais ou com as plantas, mas são feitos com as próprias células humanas.
Fala-se das células-tronco, células que estão nosso próprio corpo e fazem o
papel de médico, porque quando um órgão se deteriora elas vão socorrer e sanar
esta situação. São as primeiras células produzidas pelo nosso organismo, permanecem
nele e servem para curar vários órgãos. Recentemente a ciência as descobriu e
agora as utiliza. Elas são extraídas do sangue, do cordão umbilical de uma
criança, para depois se tratar da saúde destas pessoas. Esta é uma grande
descoberta da ciência que trará muito benefício para a humanidade.
Porém, estas descobertas
podem ser usadas, como a energia atômica, para o mal da humanidade. Assim,
hoje, há quem pense tomar estas células do embrião humano, matando esse
embrião.
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No momento aqui
no Brasil existe um projeto de lei no Congresso Nacional que trata da
bio-segurança em geral que fala da questão dos transgênicos de um lado, e de
outro, do uso de embriões congelados nas clínicas para experiências científicas
e para extrair deles células tronco. Como o senhor nos orienta sobre esse
assunto?
Desde a antiguidade todos
os homens aprenderam a distinguir a dignidade do ser humano e a dignidade das
plantas e dos animais. Podemos utilizar as plantas, cortá-las para fazer lenha,
colher suas frutas para nossa mesa, podemos matar os animais para fazer roupas
com sua pele ou para comer a sua carne. O fim destas criaturas é o de
glorificar a Deus e de servir ao homem. Podemos utilizar plantas e animais para
aumentar a produção. Devemos tomar cuidado para não destruir certos espécimes
de animais e vegetais e preservar a biodiversidade, como se diz hoje. É lícito
manipular plantas e animais, como é lícito comê-los. A dignidade do homem,
porém, é diferente. Não se pode utilizar um homem para alimentação. Seria
canibalismo. Há escritores que falam da tentação de fazer canibalismo na
ciência. Quando se tomam os embriões humanos, saber como foram produzidos, que
foram congelados e usados para fabricar medicamentos, estamos diante de uma
crueldade, porque trata-se de seres humanos. Destruí-los para produzir remédios
representa uma crueldade nova.
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Em que a Igreja
fundamenta sua autoridade para alertar, criticar, denunciar e afirmar que isto
é ético, aquilo não é?
É missão da Igreja fazer
o bem e ensinar o bem ao homem. A primeira encíclica de João Paulo 2º se
intitula “Redemptor Hominis”. Sim, Cristo foi o redentor do homem e deu à
Igreja o mandato de ensinar tudo o que é bom para o homem e condenar tudo
quanto o prejudica. Hoje, acontece um fato estranho. Quando o Papa fala contra
a guerra ou contra as injustiças econômicas do mundo, como fez em várias
encíclicas, todo mundo aplaude, tanto crentes, quanto não crentes. Quando,
porém, ensina que se deve tratar bem o corpo humano e portanto a sexualidade
humana, que é a fonte da vida, do amor e da família, quando ensina que não se
interferir na vida no seu início, quando embrião, que não se deve reproduzir o
ser humano na proveta, já que 95% dos embriões são perdidos, o Papa é criticado
como se se tratasse de uma interferência indevida. Mas, se a Igreja não falasse
o próprio povo se queixaria: por que não falou? E sobretudo ela não seria fiel
ao mandato do Cristo. A ciência é um grande recurso se utilizada para o bem
dizemos: muito bem! Quando alguém, porém, a usa para o mal ou para seus
interesses devemos dizer: isso é mal!
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Então não
corresponde à verdade dizer que a Igreja fala uma coisa e a ciência outra, ou
que a Igreja é contra a ciência e não incentiva a pesquisa científica?
No Brasil jamais se
deveria falar disso. Porque a Igreja esteve sempre próxima da ciência. O Cristo
Redentor do alto do Corcovado foi iluminado de uma sala do Vaticano por
Marconi. Em todas as questões sociais e econômicas que há no Brasil como na
América Latina sempre foram sempre iluminadas pela doutrina da Igreja Católica.
E muitos pastores deram a vida pela verdade e pela justiça social. Jamais a fé
e a pregação do magistério da Igreja atrapalhará o progresso humano.
Qual é a posição da
Igreja na fertilização “in vitro”?
Eu creio que se o povo
simples visse como se faz a fecundação “in vitro” nunca mais a pediria. Porque
de cada 100 embriões de proveta, apenas cinco ou seis chegam aos braços da mãe.
Todos os outros se perdem. Ou são destruídos ou congelados. Pensemos nesta
crueldade. Pela primeira vez na história da humanidade esses embriões são
congelados vivos. Eu li no avião um livro de um filósofo francês no qual afirma
que nem sequer os nazistas chegaram a tanto. Portanto, uma grave conseqüência
da fecundação artificial é a destruição dos seres humanos, que são iguais aos
demais seres vivos.
Em segundo lugar, é
necessário pensar que o filho precisa de um pai e de uma mãe. Deve saber que é
daquele pai e daquela mãe que recebeu sua vida. Isto só pode acontecer quando o
esposo se torna pai juntamente com a esposa e a esposa se torna mãe na união
conjugal com o marido. Nesta união maravilhosa se encontram a vida e o amor. Na
fecundação artificial, que dá início à vida é um técnico que pega as células do
pai e da mãe, e as põe juntas, como se fossem sementes de ervas do campo.
Sabe-se que destas manipulações, além da perda dos embriões, nascem crianças
mal formadas. O filho que nasce da proveta, ao qual devemos muito respeito
porque se trata sempre de uma criatura de Deus, jamais saberá quem é seu pai
porque seu pai é um técnico.
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As leis que
existem ou as que se pensam criar não tocam nesta questão, não é mesmo?
De fato, as leis procuram manter segredo e nada dizem sobre isso. O filho é verdadeiro quando nasce do amor do pai e da mãe, de um ato conjugal. A fecundação artificial difunde o mal porque separa a vida do amor do pai e da mãe, leva à morte muitos embriões, priva os filhos da verdadeira maternidade e paternidade, principalmente quando se tomam espermatozóides que não são nem do pai nem da mãe e reduzem o homem a um produto de laboratório. É por isso que a Igreja se mantém contrária a este tipo de reprodução, por amor à verdadeira paternidade e maternidade, pela verdadeira dignidade dos filhos.