Células-tronco, uma pesquisa polêmicaInterprensa – www.interprensa.com.br
- Edição 51 - ano V - Outubro 2001 |
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Uma das grandes polêmicas recentes no campo da
bioética foi a utilização de embriões humanos para a obtenção de
células-tronco, que podem se desenvolver e se transformar em qualquer tecido
do organismo. O domínio desta técnica pode trazer muitos benefícios à
medicina, mas a destruição de vidas humanas é um custo injustificável. Não
haveria outras maneiras de obter as células-tronco para pesquisas? O autor deste
ensaio analisa as alternativas às células embionárias e a recente decisão do
presidente George W. Bush sobre o financiamento às pesquisas. Em 1998 eram publicados em revistas médicas os
primeiros trabalhos sobre células-tronco (stem cells) obtidas de embriões
humanos. Três anos depois, elas se converteram em matéria de pronunciamentos
de presidentes, objeto de leis, fonte de promessas terapêuticas e motivo para
guerra de patentes. A possibilidade de consegui-las a partir de embriões
lança o problema ético de utilizar vidas humanas como simples instrumentos.
Esta polêmica agita a opinião pública durante o mês de agosto, sobretudo pela
transcendental decisão que o presidente norte-americano, George W. Bush,
devia tomar sobre o uso de fundos federais nestas pesquisas. Ninguém discute o benefício das pesquisas com
células-tronco. Elas podem reproduzir-se indefinidamente em laboratório, e
dar lugar a células não apenas de seu próprio tecido, mas também de outros
tecidos do corpo humano. Se aprender a controlar seu desenvolvimento, podem
ser usadas para consertar tecidos danificados e tratar doenças que, até
agora, são incuráveis. O debate é sobre o modo de coletar as
células-tronco. Alguns deles não apresentam nenhum problema ético, como as
células coletadas no cordão umbilical ou em tecidos adultos, onde substituem
células envelhecidas. De fato, descobertas recentes evidenciaram que há
células-tronco em mais tecidos adultos do que se imaginava. E também se
observou que elas tinham mais versatilidade que o esperado, de modo que foi
possível transformar células-tronco de um tecido em células de outros. Clonagem descartada Os outros procedimentos para obter células-tronco
exigem a utilização de embriões em seus primeiros estágios de
desenvolvimento, o que provoca sua destruição. Poderiam ser embriões
excedentes de tratamentos de fertilidade, ou mesmo embriões criados
especialmente para a extração das células. É esta instrumentalização do
embrião humano que esteve no centro do debate político norte-americano no mês
de agosto. A primeira decisão foi a lei aprovada em 31 de
julho pela Câmara de Representantes (por 265 a 162) que proíbe qualquer
espécie de clonagem humana, tanto com finalidades reprodutivas quanto para
obter células-tronco. Algo mais que um punhado de células Os partidários da utilização de embriões (seja
por clonagem ou fecundação in vitro) dizem que as células-tronco embrionárias
são especialmente versáteis, podendo converter-se em qualquer um dos tecidos
do organismo. Se a técnica for dominada, acrescentam, seria possível tratar
doenças que hoje não têm cura, como o mal de Parkinson, doenças cardíacas,
esclerose múltipla ou vários tipos de câncer. Diante de tantos benefícios, o
que importa um embrião, que nada mais é que um amontoado de células? Mas um embrião já é vida humana, respondem os
adversários, e a dignidade da vida humana está em que não seja utilizada como
meio para outros fins, por melhores que sejam. Se fosse permitido criar
embriões para pesquisa, a vida humana se tornaria material negociável. Descartada a clonagem, o debate ficou
centralizado na decisão que George W. Bush devia adotar sobre o financiamento
federal das pesquisas com células-tronco. Seriam incluídas as feitas a partir
de células de embriões congelados? A decisão de Bush Ao anunciar a decisão em 10 de agosto, Bush
assinalou os dois caminhos pelos quais o governo federal promoverá as
pesquisas com células-tronco. Primeiro, serão financiadas experiências com
células obtidas de tecidos adultos e do cordão umbilical. Segundo, haverá
recursos para pesquisas com linhagens de células-tronco embrionárias já
existentes, mas não para a criação de novas linhagens que impliquem na
destruição de embriões. Bush justificou sua postura com as seguintes palavras:
"Não seria ético suprimir vidas para a investigação médica, mas é ético
que a pesquisa possa se beneficiar quando as decisões de vida e morte já
tenham sido tomadas." Bush assegurou que, segundo os dados dos
Institutos Nacionais de Saúde, no mundo já foram desenvolvidas mais de 60
linhagens de células-tronco, que são suficientes para impulsionar a pesquisa. Promessas, mas a longo prazo No calor da polêmica, os partidários das
experiências com embriões tendem a aumentar as promessas terapêuticas das células-tronco
embrionárias, particularmente versáteis. Quase todos os laboratórios farmacêuticos se
abstiveram, até agora, de investir neste campo. "Ainda que os
investidores digam que a pesquisa com células-tronco parece promissora, foram
cautelosos até agora em colocar dinheiro em um campo considerado de risco e
cujos benefícios, se vierem, virão a longo prazo", escreve Terence Chea
no The Washington Post de 16 de agosto. "As empresas dedicadas às
células-tronco são todas pequenas, e ainda passarão anos antes que suas
pesquisas dêem lugar a produtos, assim, o potencial comercial de tais
pesquisas ainda é incerto." Problemas de patentes De qualquer modo, com a decisão de Bush, o gênio
saiu da garrafa e já há quem se anime a formular mais desejos. Em um editorial
de 16 de agosto, o The New York Times escreveu que "a decisão
presidencial mudou o foco da discussão. Antes, pensava-se sobre a hipótese do
financiamento, e hoje a questão é se haverá suficientes células-tronco com as
linhagens existentes. (...) Ninguém está seguro sobre quantas células-tronco
existem e qual a sua qualidade. (...) Se as possibilidades terapêuticas são
tão promissoras como os cientistas esperam, sem dúvida será necessária uma
variedade maior de linhagens." Entre os próprios cientistas há discussão sobre a
existência no mundo de mais de 60 linhagens de células-tronco, como afirmam
os Institutos Nacionais de Saúde, e se nelas há diversidade suficiente para
pesquisar os vários usos. Outro aspecto controvertido é se os cientistas
terão livre acesso a essas células-tronco ou se tropeçarão em questões de
patente. Fontes da Casa Branca e dos Institutos Nacionais
de Saúde negociarão com os donos das patentes neste campo para que os
pesquisadores tenham acesso às células-tronco necessárias.
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