Não há possibilidade de dúvida quanto
ao início da vida humana; diz especialista
Entrevista com Dra
Elizabeth Kipman Cerqueira
SÃO PAULO, domingo, 27 de março de
2005 (ZENIT.org).- «Temos que ter claro que não há possibilidade de dúvida
quanto ao início da vida humana. As questões como se apresentam nos meios de
comunicação apenas confundem ou diminuem o impacto de se propor a interrupção ou manipulação de uma vida humana», afirma uma
especialista.
Nesta entrevista concedida a Zenit,
Dra Elizabeth Kipman
Cerqueira --médica ginecologista; especialista em Logoterapia
e Logoteoria aplicada à Educação; integrante da Comissão
de Ética e Coordenadora do Depto. de Bioética do
Hospital São Francisco, em Jacareí, interior de São Paulo--, explica o conceito
de início da vida humana e discute questões referentes a pesquisas com células-tronco embrionárias.
--A Lei de Biossegurança,
aprovada no Brasil dia 2 de março passado, permite a pesquisa com embriões
humanos. Nesse contexto, muito se discutiu sobre o conceito de vida humana,
especialmente em sua fase inicial. Muitos cientistas afirmam que o zigoto
(gameta feminino depois de fecundado) não passa de um emaranhado de células.
Outros dizem que o “ser humano” se constituiria apenas após o zigoto atingir 14
dias, quando se dão os primeiros sinais de aparição do sistema nervoso. Há um
conceito claro e universal de início da vida humana?
--Dra Elizabeth Kipman Cerqueira: Os tratados de Medicina continuam
afirmando que o início da vida humana acontece no momento da união do óvulo e
do espermatozóide. Mesmo grandes defensores do direito irrestrito da mulher ao
aborto concordam com esta afirmativa. Por exemplo, Peter Singer, filósofo e
professor, defensor do “direito ao aborto”, ao ser perguntado: “Para o senhor,
quando começa a vida?”, respondeu: “Eu não tenho dúvida de que a vida começa na
concepção”. (ALIÁS Estado de S.P, 23/01/2005 J3).
Temos que ter claro que não há possibilidade de dúvida quanto ao início da vida
humana. As questões como se apresentam nos meios de comunicação apenas
confundem ou diminuem o impacto de se propor a
interrupção ou manipulação de uma vida humana.
--Afirma-se que os embriões congelados há mais de três
anos (os quais a nova lei brasileira permite que sejam utilizados em pesquisas)
seriam inevitavelmente descartados. Isso é verdade?
--Dra Elizabeth Kipman Cerqueira: Esta afirmativa vem de uma avaliação de %
de possibilidades de sucesso de gestação caso estes embriões fossem
implantados. Como a % de sucesso vai diminuindo com o tempo, usa-se delimitar
este prazo. Entretanto, a literatura mundial tem publicado casos de crianças
que nasceram perfeitas ao serem implantadas em útero, mesmo após terem sido
congeladas por mais de 3 anos quando eram embriões. O
problema é o próprio processo da fecundação “in vitro”
e todas as suas conseqüências, inclusive a “sobra” de embriões que são
congelados. É vida humana congelada que pode ou não vir a se desenvolver. Este
argumento usado para liberar as experiências com os embriões é enganoso.
Poderíamos comparar com uma afirmativa totalmente sem ética do tipo:
“Experiências científicas levam à morte clínica pessoas adultas. Vamos usar os
seus órgãos para transplante e acabar de matá-las, porque não voltarão a viver,
sem nos importar com as experiências que provocaram as mortes”.
--«A extração de células-tronco
embrionárias movida por interesses de pesquisa não conduz a êxitos em
experimentos e causa diretamente a morte dos embriões», diz a doutora Claudia Navarini, professora da Faculdade de Bioética
do Ateneu Pontifício Regina Apostolorum (Roma). Por
que então tanto interesse em pesquisar com embriões e não com células adultas?
--Dra Elizabeth Kipman Cerqueira: Diversas situações se somam. Entre elas:
a) Pessoas que acham que tudo deve ser permitido à Ciência e nada pode bloquear
uma possível descoberta; o próprio ímpeto de pesquisa não poderia ser
interrompido; b) Cientistas que desejam “ficar à frente” de outros países na
vanguarda do progresso científico e aspiram ao recebimento de verbas para
pesquisa; c) Pessoas que têm interesse econômico e social em se “desfazer” dos
embriões congelados que exigem um custo para serem mantidos (sem ou com
possível lucro de venda); d) Pessoas que se convenceram
que estas células podem trazer a cura para doenças terríveis e incuráveis o
que, para eles, por compaixão, diminuiria a gravidade de se usar a vida humana;
e) Pessoas que lutam por prestígio político e usam situações para chamar a
atenção da população; f) Pessoas que usam questões como estas em que o aborto e
a eliminação de vida humana são camufladas, para conquistar progressivamente
mais espaço até chegar ao aborto permitido sem nenhuma condição, em qualquer
tempo de gestação; g) Pessoas que desejam mudar os valores básicos de nossa
sociedade e que manipulam todos os outros.
--A senhora vê uma confusão entre os resultados positivos
da pesquisa com células-tronco adultas e a euforia
dos entusiastas pela pesquisa com embriões?
--Dra Elizabeth Kipman Cerqueira: Muitos dos cientistas que têm resultado
positivo com uso de células-tronco adultas não
consideram adequada a pesquisa com células de
embriões. A euforia foi mais de leigos. Porém, os próprios defensores desta
prática, junto com a euforia da vitória conquistada, se apressaram a divulgar
que não se pode prever exatamente onde se vai chegar com as células
embrionárias, se serão usadas e quando poderão ser usadas. Segundo tantos
cientistas pesquisadores desta área, o entusiasmo gerado pelo resultado com o
uso de células-tronco adultas não justifica, de forma
alguma, a insistência na necessidade de uso de células de embriões que não
apresentaram nenhum resultado positivo. Ao contrário, deram sinais de perigo em
seu uso, como o risco de gerar tumores, pelo seu crescimento desordenado. Ainda
há muito que avançar (e maravilhas por alcançar!) com o uso das células-tronco adultas, o que não destrói vidas humanas e
já apresentaram grandes conquistas terapêuticas!
ZP05032715