CÉLULAS
TRONCO VERDADEIRAS E FALSAS ESPERANÇAS
ALICE TEIXEIRA FERREIRA
Professora. Associada de Biofísica,
da UNIFESP/EPM, na área de Biologia Celular -Sinalização
Celular
(Zenit,
02 de março de 2005)
Está em tramitação no Congresso Nacional o Projeto de Lei
de Biossegurança (PL 9/2004), que foi recentemente
votado no Senado Federal e que voltará à apreciação da Câmara dos Deputados.
Um dos pontos que mais polêmica tem causado é o da
permissão, dentro de certas condições, da utilização de
células tronco embrionárias para pesquisas objetivando a cura de doenças
graves, para as quais a suposta terapia com as células tronco embrionárias
humanas seria a única ou a última esperança. Em razão desse pressuposto, que é
falso e sem nenhuma base científica, como se demonstrará adiante, busca-se afastar os gravíssimos empecilhos éticos de se
matar, destruir um ser humano para fins de pesquisas. Os obstáculos éticos e
jurídicos são insuperáveis, pois não é lícito nem admissível matar alguém para
valer-se de seu corpo, ainda que com finalidade boa. Objetivando encobrir tal
realidade, tem havido grave falseamento da verdade quanto ao atual estágio das
pesquisas com as células tronco embrionárias humanas,
com as quais não se tem obtido qualquer êxito que aponte para a cura de
doenças, nem mesmo com ratos e camundongos. Ao contrário, nesses animais, que
são imunodeprimidos induzidamente para que possa
ocorrer a pega dos transplantes, são produzidos, em
50% dos casos, teratomas, ou seja, tumores, quando
neles são implantadas células tronco embrionárias humanas.
O que existe de concreto do ponto de vista estritamente
científico são progressos altamente promissores nas pesquisas com as células tronco adultas humanas (aí incluídas as células tronco
encontradas no cordão umbilical), com as quais já se obteve resultados efetivos
de curas parciais e totais com seres humanos, e isso em, escala
crescente e cada vez mais abrangente.
Todavia, por desinformação e/ou em razão de interesses não
revelados não tem sido divulgado, no mais das vezes, de modo adequado e
preciso, essas informações, mas, ao invés, tem se veiculado informações
confusas, em que se atribui a cura de doenças
decorrentes da utilização de tratamento células tronco adultas a células tronco
embrionárias humanas.
Exemplo muito claro disso foi o editorial de 11 de outubro
de 2004 de um dos jornais de maior circulação em nosso país, em que se
manifestava a favor da votação do Projeto de Lei nº
9/2004, no Senado Federal, no sentido da liberação das pesquisas com células tronco embrionárias humanas, afirmando que :
“ . . . os deputados certamente serão
sensíveis aos argumentos a favor da liberação das pesquisas com células tronco
embrionárias, que se tornam particularmente convincentes na medida em que a
terapia vai se tornando realidade, como no caso do menino italiano que foi
curado de uma forma grave de anemia.
( . . .)
. . . é uma dura realidade o
sofrimento das vítimas de tantas doenças para quem essa terapia é a última
esperança.”
Cabe aqui referir que a notícia disponível no meio médico
especializado é no sentido de que a anemia, designada por “anemia de Fanconi”, vem sendo tratada, desde 2001,.
pelo Dr. Pasquini, com
células tronco de cordão umbelical, que são células
tronco adultas. Não se conhece, repita-se, qualquer relato científico de cura
com células tronco embrionárias humanas.
O mesmo argumento de uma cura supostamente próxima ou à
vista, embora com menos ênfase é utilizado pelo Jornal
do Senado, edição do dia 11 de outubro de 2004, disponível no site do Senado
Federal:
“Depois de longo debate, o Senado aprovou o projeto da Lei
de Biossegurança que autoriza .
. . o uso de células-tronco de embriões congelados há
mais de três anos e que não seriam utilizados em processo de fertilização.
Essas células têm a propriedade de transformar-se em diferentes tecidos do
corpo humano e representam a esperança de cura para muitas doenças.”
As manifestações dos Senadores sobre o assunto,
sinteticamente reproduzidas na p. 4 do Jornal do Senado, edição de 11 de
outubro de 2004, demonstram que os Srs. Senadores fundamentaram seus votos
sobre a matéria na suposição de cura para doenças degenerativas graves a partir
da pesquisa com as células tronco embrionárias humanas,
o que, como visto, não corresponde à realidade dos trabalhos científicos
correspondentes, certo, ao invés, que as pesquisas com as células tronco
adultas têm demonstrado evidência científica quanto a cura de várias doenças
graves.
São muitos e crescentes os estudos demonstrando o êxito de
pesquisas com células tronco adultas (dentre as quais
se classificam as células tronco do cordão umbilical e da placenta), na cura de
diversas doenças graves, recuperando tecidos ou órgãos lesados, dentre os quais
tecido muscular, restauração de determinadas capacidades regenerativas de tecidos.
A norte-americana Nadia Rosenthal, coordenadora do Programa de Camundongos do
Laboratório Europeu de Biologia Molecular - EMBL, em Monterotondo,
na Itália, comunicou a existência de estudo demonstrando que as
células tronco adultas podem ser utilizadas para atingir a regeneração
em grande escala de um tecido danificado. O trabalho foi desenvolvido em
colaboração com a equipe do italiano Antonio Musarò,
professor de Histologia e Embriologia da Universidade de Roma. Ao investigar
tecidos musculares em camundongos, os cientistas já haviam descoberto que as células tronco adultas percorrem grandes distâncias até
alcançar uma determinada área lesionada. O trabalho dos pesquisadores europeus,
porém, chegou a uma nova constatação: "As células que observamos passaram
por todas as etapas típicas de especialização antes de se tornarem totalmente
integradas ao novo tecido", disse Nadia Rosenthal.
Isso afasta as principais críticas dos que pretendem usar células tronco embrionárias humanas em razão de supostas limitações
nas utilizações de células tronco adultas, que proliferam adequadamente.
Além disso, deve ser mencionado um outro caminho de cura,
recentemente descoberto, por meio do aprofundamento do conhecimento das
células, como demonstra o relato publicado na Revista Science
de 8 de outubro de 2004, vol. 306: 239-240, em que se
utilizou hormônios/fatores responsáveis pela proliferação e plasticidade
celulares para resolver a distrofia genética cardíaca.
Quanto às células tronco embrionárias
humanas, repita-se, não há nenhum estudo comprovando qualquer cura com a
sua utilização ! Ao invés, os estudos disponíveis demonstram claramente que a implantação de CÉLULAS TRONCO EMBRIONÁRIAS HUMANAS, geram
TERATOMAS, ou seja, TUMORES, podendo levar à morte. São tantos os problemas
graves e não solucionados com as pesquisas de células tronco
embrionárias humanas, que elas se restringem a RATOS e ROEDORES e estão
muitíssimos estágios atrás das pesquisas com células tronco adultas, NÃO TENDO,
MESMO
De tudo isso, pode se afirmar que não correspondem à realidade
as afirmações relativas a existência de curas, ou
mesmo perspectiva ou esperança de cura com base em evidência científica, a
partir da utilização de células tronco embrionárias humanas. Ademais sempre
será inadmissível matar um ser humano para aproveitar-se seu corpo ou parte
dele, que é o que ocorre com a utilização das células tronco
embrionárias, mesmo que com a finalidade de pesquisa objetivando suposto
futuro benefício para a saúde de outrem, para a qual, aliás, os especialistas
supõe um longo prazo, “na melhor das hipóteses”. Por outro lado, são muitos e
crescentes os artigos relatando e comprovando experiências de curas com as
células tronco adultas humanas (aí incluídas as células tronco do cordão
umbilical e placenta) em variadas aplicações, estando o Brasil adiantado em
tais pesquisas, que devem ser incentivadas pois
apontam para efetivos e expressivos benefícios para a população.
São Paulo e Rio de Janeiro, em outubro de 2004.