Dignidade
do feto anencéfalo e o porquê do não-aborto;
segundo prof. Humberto Vieira
Presidente da Associação Pró-Vida e Pró-Família do Brasil comenta decisão
judicial que permite aborto em caso de anencefalia fetal
BRASÍLIA, terça-feira, 6 de julho de 2004 (ZENIT.org).-
«Muitas mulheres que abortaram tentam desesperadamente o suicídio, elas não se
perdoam por terem assassinado o próprio filho. Essas conseqüências são bem mais
graves que o estado psicológico da gestante de um feto anencéfalo», afirma um
defensor da vida.
O prof. Humberto Vieira, presidente da Associação Pró-Vida e Pró-Família do
Brasil e membro da Pontifícia Academia para a Vida, aborda nesta entrevista a
Zenit a questão da gestação de um feto anencéfalo e a decisão do Supremo
Tribunal Federal brasileiro da última quinta-feira que permite o aborto no
referido caso.
--A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulgou nota
afirmando-se surpreendida com a decisão do ministro Marco Aurélio, do Supremo
Tribunal Federal brasileiro, de autorizar o aborto em caso de anencefalia
fetal. As associações Pró-vida também foram surpreendidas? Qual é a avaliação
que o senhor faz da decisão do ministro?
--Prof. Humberto: Não somente a CNBB foi surpreendida mas todos nós. Acompanhei
todo o processo, com o Dr. Paulo Leão, Presidente da Associação de Juristas
Católicos do Rio de Janeiro. O assunto estava na Pauta da reunião do STF do dia
1°, ordinariamente realizada às 13h. Nós nos preparamos para essa reunião e
elaboramos até um Memorial para entregar aos Ministros do STF. Quando já nos
dirigíamos para a sede do Tribunal fomos informados de que a reunião havia sido
antecipada para as 10h e que o assunto da anencefalia não havia sido tratado.
Logo depois fomos surpreendidos pela liminar. Imagino que o Ministro-Relator
tomou a decisão de liberar o aborto nos casos de anencefalia em virtude dos
argumentos constante do processo. Sabemos que esses argumentos são falaciosos
e, isso, demonstramos no Memorial.
--A decisão do ministro abre caminho para que outros tipos de aborto sejam
pleiteados?
--Prof. Humberto: O aborto eugênico é defendido, entre outros, pelos que
defendem a melhoria da raça humana e investem milhões de dólares, inclusive no
Brasil, para conseguir seus objetivos. Esse é um precedente perigoso porque
abre o caminho para outros tipos de aborto como de deficientes físicos, de
deficientes mentais e até mesmo o aborto de crianças sadias mas indesejáveis
para os grupos eugênicos. Os pobres, mulatos e negros, segundo esses grupos,
são sub-raças e não devem prosperar, por conseguinte a esterilização e aborto
obrigatório são instrumentos para conter essa população. “Depois de Hitler, a
eugenia não desapareceu. Ela se renovou”, afirma Edwin Black em seu recente
livro: “A Guerra contra os fracos – A eugenia e a campanha norte-americana par
criar uma raça superior”.
--Que conseqüências o aborto pode trazer para a mulher, mesmo se
considerando a gestação de um filho com enfermidade grave, como no caso da anencefalia?
--Prof. Humberto: O aborto de anencéfalos, como qualquer outro aborto, traz
conseqüências sérias para a mulher. Por ser portadora de um feto anencéfalo a
mulher não está livre das conseqüências do aborto. O Dr. Bernard Nathanson, que
lutou para tornar legal o aborto nos EE. UU., e que confessa ter praticado
5.000 abortos, hoje um defensor da vida, afirma que entre as conseqüências
físicas do aborto estão: laceração do colo do útero provocada pelo uso de
dilatadores, perfuração do útero, hemorragias uterinas, endometrite pós-aborto,
evacuação incompleta da cavidade uterina; insuficiência ou incapacidade do colo
uterino, aumento das taxas de cesariana entre outras. Entre as conseqüências
psicológicas associadas ao aborto estão as relacionadas à “Síndrome
pós-aborto”: queda da auto-estima pessoal pela destruição do próprio filho,
frigidez, aversão ao marido ou companheiro, culpabilidade ou frustração de seu
instinto materno; desordens nervosas, insônia, neuroses diversas; doenças
psicossomáticas, depressões, etc. Muitas mulheres que abortaram tentam
desesperadamente o suicídio, ela não se perdoa por ter assassinado o próprio
filho. Essas conseqüências são bem mais graves que o estado psicológico da
gestante de um feto anencéfalo.
--Por que a Igreja e as associações Pró-vida lutam contra o aborto no caso
de anencefalia, mesmo se tratando de uma enfermidade que não tem cura no
estágio atual da medicina?
--Prof. Humberto: A Igreja como as associações pró-vida defendem a vida humana
desde a fertilização (fecundação) até a morte natural. Todo ser humano é
querido por Deus, seja ele portador de anomalias ou não. A ciência afirma que
desde a fusão do espermatozóide com o óvulo um novo ser tem origem. “No
princípio do ser há uma mensagem, essa mensagem contém a vida e essa mensagem é
a vida. E se essa mensagem e uma mensagem humana, essa vida é uma vida humana”
diz o Prof. Jérôme Lejeune, geneticista, descobridor da síndrome de Down
(mongolismo). Em resumo a Igreja como todos nós pró-vida nos orientamos pelo
mandamento “Não matarás”
--Que riscos a gestação de um feto anencéfalo pode trazer para a mulher?
--Prof. Humberto: Nenhum, além dos riscos normais de uma gravidez de feto sem
anomalias. Essa é uma afirmação de ginecologistas, de associações médicas e de
especialistas. Pelo contrário, todo aborto traz seqüelas físicas e psicológicas
para a mulher. Afirma o Dr. Dernival da Silva Brandão, Especialista em
Ginecologia, gineco-obstetra, laureado pela Academia Fluminense de Medicina:
“O polidrâmnio é uma intercorrência em várias patologias da gestação e o
tratamento preconizado é a amniocentese a retirada do excesso de líquido,
amniótico, procedimento rotineiramente realizado com os devidos cuidados.
A hipertensão arterial é uma intercorrência muito comum em obstetrícia. A
doença hipertensiva específica da gestação (DHEG) não é exclusiva da
anencefalia, tem tratamento próprio como muitas outras intercorrências
obstétricas.
Vasculopatia periférica de estase é outra intercorrência que pode ocorrer em
qualquer gestação, com certa freqüência, e tem tratamento preconizado.
As dificuldades obstétricas e complicações
no desfecho do parto de anencéfalos de termo podem ocorrer, não são de grande
monta e como em qualquer dificuldade pode-se optar pela cesariana, sem maiores
problemas”.
--Há maneira de se evitar a anencefalia?
--Prof. Humberto: Há mais de 10 anos, em uma conferência que proferiu no
Auditório Petrônio Portela, do Senado Federal, o Prof. Jérôme Lejeune informava
que existe um tratamento preventivo para a anencefalia e outras deformações
fetais. “Laurence e Smithells descobriram que as mães que colocavam no mundo
crianças portadoras de anencefalia (sem cérebro) ou com espinha bífida tinham
uma taxa muito baixa de ácido fólico na sua corrente sanguínea. Propuseram,
então, fazer um tratamento com as mães que já tivessem tido filho com esse mal,
aconselhando-as a tomar ácido fólico antes de engravidar. Isso é feito hoje em
todos os países no norte da Europa e a incidência da espinha bífica e da
anencefalia se reduziu a 1/3 (um terço)”, disse Lejeune. Veja, a solução não
está em eliminar a vida dessas crianças e sim no tratamento preventivo aplicado
às suas mães.
--Que a sociedade e as entidades Pró-vida podem fazer para tentar reverter a
situação de liberação do aborto de feto anencéfalo?
--Prof. Humberto: A decisão do ilustre Ministro Marco Aurélio, Relator
concedendo a liminar para liberar o aborto nos casos de anencefalia, deverá ser
submetida ao Plenário do STF, quando será mantida ou não essa liminar. A
Associação Nacional de Juristas Católicos do Rio de Janeiro e Associação
Nacional Pró-Vida e Pró-Família irão apresentar aos ilustres ministros do STF
um Memorial, com fundamentos científicos que se opõem aos falaciosos argumentos
apresentados para a concessão da liminar. Além disso outras organizações que
também defendem a vida humana apresentarão seus argumentos. Estamos certos de
que os ilustres membros do STF tomarão a decisão acertada uma vez esclarecidos
sobre o assunto.
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