«A ciência não está em contradição com a fé»

Entrevista com o Prof. Dalton Luiz de Paula Ramos

 

SÃO PAULO, sexta-feira, 31 de março de 2006 (ZENIT.org).- «Você não precisa ser um crente para reconhecer o valor da vida humana. Você precisa ser, no mínimo, honesto, isto é, honesto com a realidade», diz o Prof. Dalton Luiz de Paula Ramos.

 

Em entrevista concedida ao jornalista Hermes Rodrigues Nery, que será incluída no livro “A Causa da Vida”, o Prof. Dalton Ramos --Livre-Docente, Professor de Bioética da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo-- aborda temas de bioética.

 

O Prof. Dalton Ramos atualmente é membro do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, membro da equipe de assessores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para assuntos de bioética e membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, do Ministério da Saúde. Desde 2003 é membro correspondente da Pontifícia Academia Para a Vida.

 

--Como podemos conceituar a pessoa humana? O que é que nos torna efetivamente seres dotados de “humanidade”?

 

--Prof. Dalton Ramos: É importante destacar que ao nos referirmos ao tema da “pessoa humana” não estamos abordando um objeto externo. Estamos nos referindo a algo que conhecemos das nossas experiências elementares. Estamos falando do “EU”. Cada um de nós, em menor grau (como é o caso das crianças que ainda não acumularam experiências de vida) ou em maior grau (como o adulto que já muito viveu e experimentou) pode falar alguma coisa sobre o que é a pessoa humana.

 

É também verdade que esta pessoa que eu conheço, este “EU”, posso não saber explicar. “Sei” o que “sou”; nem sempre entendo tudo deste “EU”. Mas o que importa aqui para nós nesta breve reflexão é reconhecer que quando falamos da pessoa humana estamos falando de “algo” que eu reconheço como um corpo físico que eu posso pesar, medir, examinar com base em conhecimentos médicos, corpo este dotado de uma dimensão psicológica que envolve meus temperamentos, que se soma a uma dimensão social e, por último porém não menos importante, a uma dimensão ESPIRITUAL.

 

A pessoa humana é uma unidade, ou unicidade, de corpo e espírito. Diferentes doutrinas religiosas, e em particular a católica, insistem neste fato.

 

A doutrina católica nos ensina que ao se infundir neste corpo, uma alma adquiriu-se uma dignidade de filho de Deus. Esta pessoa vale por aquilo que é; merece respeito pelo simples fato de existir. E este valor, esta dignidade não deixa de existir pelas escolhas – certas ou erradas – que esta pessoa faça. A pessoa humana vale por aquilo que é e não pelas escolhas que faz.

 

Sua humanidade vem a ser esta sua dignidade e valor que interage com estas dimensões corpórea, psicológica, social e espiritual.

 

--A pessoalidade só existe na dimensão relacional com o outro, o meu próximo, e também com o meu entorno. (“Eu sou eu e minha circunstância – Ortega Y Gasset). No entanto, esta relação se constrói em meio a grandes conflitos, segundo a fé cristã, em decorrência do pecado, que nos torna deficientes morais. Realizar-se como pessoa humana é suprir estas deficiências, seja pela graça de Deus (que é misericórdia), seja também pelo empenho em afirmar a vida, onde ela não é plena, com atitudes edificantes, de solidariedade para com o próximo. Em nosso tempo histórico de relativismo moral e cultural, onde as pessoas perderam o sentido de pecado, e até de Deus, como é possível a realização da pessoa humana?

 

--Prof. Dalton Ramos: Vivendo na companhia, na realidade eclesial ao qual fomos consignados que, se é verdadeiramente expressão da Igreja fundada por Cristo, representa um caminho eficaz na retomada deste sentido, independentemente da situação humana em que nos encontremos. Digo isto pensando como determinadas pessoas, mesmo vivendo situações ultraprecárias até de saúde física podem continuar sendo um sinal de fé e de esperança, de sentido e de significado da vida. Quem não lembra do papa João Paulo II na janela de seus aposentos pouco dias antes de morrer, desfigurado, sem conseguir falar, mas transmitindo-nos uma certeza, uma esperança, um carinho. Como foi possível a ele tamanha façanha? Todos sabem esta resposta: é só ver o testemunho deste papa e de como ele viveu a sua fé. E a sua vida adquiriu um significado novo, um novo sabor.

 

--Compreender o mistério da fé católica, que dá um pleno sentido de vida, é não perder de vista o significado e o conceito de pessoa humana. A dimensão da pessoalidade é chave fundamental para o entendimento e a aceitação daquilo que a Igreja anuncia como valor de vida. A crise da pessoalidade é a crise da própria humanidade. Se pudéssemos mensurar esta grave situação, qual é hoje a dimensão da crise? Vivemos já um tempo de pós-humanidade?

 

--Prof. Dalton Ramos: Com certeza, este nosso tempo, que você chama de “pós-humanidade”, em muito se caracteriza por uma crise de sentido decorrente de uma falta de se reconhecer algo definitivo, estável, que prescinda da diversidade das culturas e das sociedades e que existe na pessoa humana algo de intangível, de imutável, de sagrado, que deve ser respeitado. Na nossa época não se reconhece nada como definitivo. Já se disse que vivemos na era do descartável: copo descartável, rato descartável. E a partir daí as relações humanas também adquirem a mesma conotação: namorado ou namorada “descartável”, por exemplo, isto é, eu uso e depois jogo fora ou “deixo pra lá”. Não é assim com as relações afetivas? Usei a palavra namoro, que também nem mais se fala, pois se diz “ficar”, o que caracteriza um tipo de relação transitória que agora existe e daqui a pouquinho não vai existir mais.

 

Este “não se reconhecer nada como definitivo” caracteriza o que S.S. o Papa Bento XVI chama de Ditadura do Relativismo. Entendo que o papa empregou a palavra “ditadura” justamente para frisar que se trata de uma mentalidade, um poder, uma força que se impões a nós, à nossa liberdade, tal como as “ditaduras” políticas que nós conhecemos na História.

 

Só que a origem desse poder ou força (que o papa João Paulo II chamou de “ideologias do mal” – como vemos em seu último livro “Memória e Identidade”), não é, no caso, militar ou política. Trata-se da imposição de uma forma de pensar, isto é, de uma mentalidade. Somos bombardeados todos os dias por mensagens – e aí tem o mau uso da televisão e da mídia em geral – ao querer que nós acreditemos que o correto é, por exemplo, entender a liberdade como “independência” sem responsabilidade, ou ainda que o que vale a pena é a busca desenfreada por prazer, custe o que custar.

 

Veja que, ao criticar estas posturas individualistas e hedonistas, não queremos comprometer o desejo de liberdade e de felicidade, que são justos e legítimos. Estas ideologias (individualismo e hedonismo) são exacerbações de desejos verdadeiros assumindo dimensões doentias. O problema é que quem se posiciona como crítico destas posturas exacerbadas é tachado, como “politicamente incorreto”, “conservador”, etc. Rótulos como este são expressões daquela força que se impõe ditatorialmente.

 

E aí, vale o relativismo onde a única medida é o próprio eu e suas vontades...

 

Como vencer isso? Retomando, reafirmando, anunciando que existe sim UM fundamento, ponto de referência para tudo. Na doutrina católica este fundamento é CRISTO, que se revelou para nós para nos explicar, isto é, revelar quem somos: pessoa humana, filho de Deus, unidade corpo/alma/espírito.

 

--A concepção de pessoalidade oferecida pela fé católica difere de conceitos e conclusões difundidas por outras culturas e pensamentos filosóficos através da história. Os judeus desconheciam uma visão ôntica integral da pessoalidade. Em hebraico, não há palavra que expresse o conceito de pessoa. Os cristãos tiveram a percepção de que a pessoa não se esgota na individualidade. Júlian Marías associa também a crise da pessoalidade com a crise do cristianismo, por isso vivemos hoje uma realidade tão explicitamente anticristã e, portanto, tão des-pessoalizada. Esta des-pessoalização também está ligada à dessacralização da vida. Daí não se respeita mais o outro, nem a natureza, nem mesmo a si próprio. Prevalece o imediatismo, a lógica reducionista do utilitarismo, onde todos tentam tirar vantagens uns dos outros, num salve-se quem puder do individualismo pragmático. Dessacralizadas as relações (inclusive em família), não há como a pessoa humana encontrar meios de sua plena realização. E então, o que fazer?

 

--Prof. Dalton Ramos: Temos, como já disse, de retomar o fundamento. Trazendo a questão para meu campo de atuação, que é a Bioética. Muito da desumanização das relações assistenciais (isto é, a perda de qualidade na relação profissional/paciente no campo da assistência à Saúde), se deve a um conceito de pessoa humana que se perdeu no tempo. De pessoa passou-se a doente, isto é, um corpo com uma manifestação de doença. Em muitas situações, isso se deve a uma certa visão de pessoa fragmentada que o próprio método científico favoreceu. Nesta nova lógica, a pessoa é como se fosse um estômago + um rim + um fígado etc. Como não temos, e ninguém tem, condições de entender tudo a respeito do rim, do fígado, do estômago, etc; um fica responsável de estudar o estômago, outro o rim e por aí afora. E na hora da doença, quem estudou o estômago, vai tratar só do estômago, só vê o estomago doente e tem dificuldade de ver que aquele estômago, que dói, está em um corpo espiritualizado, está numa pessoa que, por acaso, está doente, por isso fragilizada.

 

--O aborto se insere no contexto da despessoalização, descristianização, dessacralização e desumanização dos dias atuais. Não se aceita, por exemplo, que o feto humano seja vida em potência, que precisa ser salvaguardada, em respeito ao direito que esta vida tem ao seu desenvolvimento como pessoa que almeja ter uma história, a ser alguém com valor moral. O que fazer para convencer os que não reconhecem a sacralidade do embrião humano ao seu direito à vida?

 

--Prof. Dalton Ramos: Você não precisa ser um crente para reconhecer o valor da vida humana. Você precisa ser, no mínimo, honesto, isto é, honesto com a realidade. O que quero dizer com isso? Uma pessoa que consiga ser realista a ponto de não desconsiderar nenhum aspecto da realidade (e é isso que chamo de honestidade), vai olhar para a situação da mulher grávida, do feto que está sendo gerado, das outras pessoas no entorno desta mulher etc. Vai olhar para esta mulher na sua mais plena vocação enquanto pessoa humana, não deixando de reconhecer também os problemas e os desafios gerados por uma gravidez indesejada, por exemplo. Vai olhar para o que a ciência (produzida por cientistas honestos!) nos fala sobre o embrião e o feto humano e a sua complexidade biológica enquanto vida humana. Vai olhar para o que já se sabe das seqüelas físicas, biológicas, psicológicas e sociais geradas pelo aborto provocado. Se fizer isso honestamente, independentemente de ser um crente ou não, só pode chegar a uma conclusão: o aborto provocado é um crime hediondo.

 

--Não há consenso entre os estudiosos de bioética. Uns estão impregnados de secularismo até a medula (céticos e não transcedentes), outros encontram nos valores religiosos o suporte e a argumentação válida para assegurar o direito à vida. A maioria das pessoas está condicionada pelo relativismo, ao não saber ao que se ater, algumas outras se fixam nas interpretações ao pé da letra e se enrijecem no fanatismo. É possível o diálogo construtivo para se chegar ao consenso da ética efetivamente solidária, de afirmação da vida como bem universal e de todos?

 

--Prof. Dalton Ramos: Claro que é possível. É verdade que pode existir um fundamentalismo religioso, mas entendo que o pior fundamentalismo que hoje se manifesta é o “fundamentalismo laicista”: nada e ninguém que represente uma crença religiosa é digno de confiança. Como professor universitário que vivo entre homens da ciência, uma manifestação disso é aquela corrente que proclama que o cientista que declara sua fé não é um autêntico cientista, ou não seja alguém confiável. Como se fé e ciência pudessem ser coisas que eu separo, um “estômago” e um “fígado”, entende? Fazer um uso adequado da razão, aquilo que é pedido ao cientista, é não excluir nenhum dos elementos da realidade. Do contrário, ao excluirmos um dos elementos, não veremos o todo, e erraremos em nossas análises.

 

--A família de modelo cristão vai sobreviver em meio aos tempos convulsivos da pós-modernidade, onde outros modelos vão se impondo, com força; muitas vezes, em sentido contrário à lei natural e à ética cristã?

 

--Prof. Dalton Ramos: Espero que sim. Até porque, a família, a verdadeira família, se constitui naquele núcleo comunitário básico onde é possível cada pessoa se desenvolver com sua identidade e vocação.

 

--A pessoa humana não é apenas um design que se pode redesenhar e engenheirar, inclusive alterando a estrutura, a forma e a função dos órgãos que compõe o todo em sua constituição original. Ela é um todo integrado, em que a ação da técnica (por melhor que seja a intenção) pode significar uma intervenção artificial que fere o que há de mais importante na constituição da pessoa humana (aquilo que é a sua dignidade), tendo como conseqüências, sofrimentos e danos à sua integridade. Como vê as possibilidades biotecnológicas de reengenheirar o design humano para fins manipulatórios, e todas as demais possibilidades da biogenética? Para onde nos levará tudo isso?

 

--Prof. Dalton Ramos: As biotecnologias podem ser benéficas para o futuro da humanidade. Quantas conquistas, em medicina, por exemplo, nos possibilitam uma vida com qualidade.

 

Mas é também verdade que alguns recursos tecnológicos, erroneamente empregados, podem funcionar como instrumentos de destruição da vida.

 

Quando há pouco eu falava de cientistas “honestos”, pensava naqueles que, olhando para as conquistas da ciência contemporânea, se dão conta de que as descobertas científicas nos campos da biologia molecular e da genética só nos demonstram a complexidade de cada fase da vida humana. As mais recentes descobertas científicas só fazem demonstrar que não é verdade, por exemplo, que o embrião humano, já na etapa imediatamente após a fecundação, é uma coisa qualquer. Mesmo que a ciência não consiga explicar tudo o que acontece, as descobertas da ciência acabam por confirmar que o embrião humano tem uma identidade própria, que ele, mesmo nas suas primeiras etapas, é protagonista de processos biológicos, sendo dotado de uma autonomia que devemos respeitar, independentemente de nossas convicções religiosas. Insisto que é uma questão de ter, no mínimo, honestidade intelectual.

 

Neste sentido – e vejam que paradoxo com o discurso liberal, “cientificista” e “laicista” – as novas descobertas científicas só fazem comprovar o que muitos consideram “dogmas religiosos”: a ciência não está em contradição com a fé, pois a confirma.

 

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