Maria, figura modelar no seguimento de Cristo
- A propósito do tema da 52ª Romaria Diocesana de
Fátima
Alguém
disse a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem te ver”. Jesus
respondeu: “Minha mãe e meus irmãos são
aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 20-21).
Enquanto
Jesus falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: “Feliz
o útero que te trouxe e os seios que te amamentaram”. Ele respondeu: “Muito mais felizes são aqueles que ouvem a
Palavra de Deus e a põem em prática”(Lc 11, 27-28).
Ser
discípulo de Cristo
Ser
cristão é ser discípulo de Cristo. É seguir Cristo pobre, casto, obediente,
servo, totalmente entregue ao Pai pelo bem dos irmãos e das irmãs, construindo
seu Reino.
No início
de sua pregação, Cristo anunciou: “Completou-se o tempo. O Reino de Deus está
próximo. convertei-vos, crede no Evangelho” (Mc 1, 15). Mais adiante, deixou
bem claro: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e
siga-me” (Mt 16,24). Exigiu buscar o Reino de Deus e sua justiça em primeiro
lugar (Mt 6, 33). A quem lhe perguntou qual o maior dos mandamentos, respondeu
que é amar a Deus e ao próximo. Como lhe perguntasse quem é o próximo,
contou-lhe a história do samaritano que socorreu o ferido à beira da estrada e
mandou que fizesse o mesmo (Lc 10, 25-37). Declarou que o sinal distintivo dos
seus discípulos é o amor (Jo 13, 35). Princípio fundamental é quem quiser ser o
primeiro seja o último e o servo de todos, a exemplo dele que veio para servir
e não para ser servido (Mc 10, 44-45).
Quem quiser servi-lo, deverá segui-lo e estar onde ele estiver (Jo 12, 26).
Após a
ressurreição, Cristo enviou seus apóstolos pelo mundo a fazer discípulos entre
todas as nações, batizando-os em nome da Trindade e ensinando-lhes tudo o que
Ele próprio lhes ordenara (Mt 28, 16-20).
O
discípulo de Cristo nasce do encontro pessoal com Ele pelo anúncio do
Evangelho, que o leva a uma adesão total e definitiva com sua pessoa, de tal
modo que daí em diante investe tudo nele e no Reino que anuncia. Entrando no
seguimento de Cristo e nele crescendo, o discípulo se torna ao mesmo tempo
evangelizador, pois o Espírito Santo o impulsiona a anunciar a outros a feliz
experiência do encontro com o Mestre.
Maria,
figura inspiradora para o seguimento de Cristo
Santo
Agostinho disse que Maria fez plenamente a vontade do Pai e por isso é mais
para Maria ter sido discípula de Cristo do que Mãe de Cristo (Sermões, 5, 7).
Ela foi
proclamada bem-aventurada porque acreditou e porque ouviu e praticou a Palavra.
Ao recebê-la em sua casa, Isabel proclamou: “Bendita és tu que creste, pois se
hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1, 45). É
bendita porque acreditou. Acreditou na promessa de Deus e no Deus da promessa.
Acreditou na Palavra de Deus, a meditou em seu coração para transformá-la em
vida.
Porque
acreditou que o Filho gerado em seu seio é Deus, seguiu-o com total entrega.
Assim ela é a primeira na ordem da fé em Cristo, a primeira que o seguiu em
termos de tempo e, em termos de qualidade, é a que melhor o seguiu. Ela
precedeu e superou a todos no discipulado de Cristo.
Por isso,
a afirmação de Cristo de que sua mãe, seus irmãos e suas irmãs e
bem-aventurados são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática inclui
em primeiro lugar sua própria Mãe. Ela é bem-aventurada porque mais e melhor
acolheu e cumpriu a Palavra, prolongando seu “faça-se em mim” da anunciação (Lc
1, 38).
Sua
grandeza está não tanto na sua maternidade física de Cristo, mas na realização
do desígnio de Deus encarnado em Jesus, no compromisso radical com o Reino. Sua
bem-aventurança maior não consiste tanto na ligação com Jesus por laços de
sangue, mas por sua incondicional acolhida e prática da Palavra divina. Daí que
ela se torna a figura exemplar, modelar de todo discípulo de Cristo. “Ela é
discípula perfeita que se abre à Palavra e se deixa penetrar por seu dinamismo”
(DP 296). Nisso está a razão maior de sua bem-aventurança.
A
propósito, João Paulo II, na Encíclica sobre a Mãe do Redentor (20), diz: Maria
continuava, pois, mediante a fé, a ouvir e a meditar aquela palavra, na qual se
tornava cada vez mais transparente, de um modo “que excede todo conhecimento” (Ef 3, 19), a auto-revelação de Deus
vivo. E assim, Maria Mãe tornava-se, em
certo sentido, a primeira “discípula” do seu Filho, a primeira a quem ele
parecia dizer: “Segue-me”, mesmo antes de dirigir este chamamento aos Apóstolos
ou a quaisquer outros (cf. Jo 1, 43).
Por sua
união com a missão do Filho, o Documento de Puebla (292-293) ressalta que Maria
“foi a fiel companheira do Senhor em todos os caminhos. A maternidade divina
levou-a a uma entrega total. Foi doação generosa, cheia de lucidez e
permanente, unida a uma história de amor a Cristo íntima e santa, uma história
única que culmina na glória. Maria, levada ao máximo na participação com
Cristo, é íntima colaboradora de sua obra. ... Ela não é apenas o fruto
admirável da redenção; é também sua cooperadora ativa. ... Ela nos ensina que a
virgindade é uma entrega exclusiva a Jesus Cristo, em que a fé, a pobreza e a
obediência ao Senhor se tornam fecundas pela ação do Espírito.”
Por ter
assim acompanhado seu Filho, o Cardeal vietnamita François Xavier Nguyen Van
Thuan, que passou 14 anos na prisão pelo regime comunista, diz que “Maria
proferiu um ‘sim’ total, porque acreditou na Palavra, deixou-se plasmar pela
mão de Deus e conduzir por ele por onde quer que ele a levou: no Egito, em
Nazaré, em Caná, no Gólgota, no Cenáculo à espera do Espírito Santo”
((TESTEMUNHAS DA ESPERANÇA, quando o amor irrompe em situações de heroísmo e no
dia-a-dia, Cidade Nova, p. 206)
Como
discípula do Filho, no início da pregação de Jesus, em Caná da Galiléia (Jo 2,
1-12), testemunhou sua fé absoluta nele. Pediu e alcançou o “sinal”, pelo qual
Ele “manifestou sua glória e seus discípulos creram nele”. A Mãe, fiel
discípula, de certa forma, gerou a fé dos novos discípulos do Filho.
Em
Pentecostes, esteve reunida com os mesmos discípulos, aguardando em oração, a
manifestação do Espírito Santo. Com certeza, os acompanhou nos passos iniciais
da evangelização, como acompanhou seu Filho, amparando-os com seu carinho
maternal e seu testemunho fiel de discípula. Como em Caná, continuava a gerar a
fé de novos discípulos do Filho. Como em seu início, ela continua a ajudar a
Igreja a avançar na missão. Ela continua a cuidar da qualidade de nosso
seguimento, pois, segundo o Documento de Puebla (290), “enquanto peregrinamos,
Maria será a mãe e a educadora da fé (LG 63). Ela cuida que o Evangelho nos
penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em nós frutos de
santidade.” “Todo serviço que Maria presta aos homens consiste em abri-los ao
Evangelho e convidá-los a obedecer-lhe: ‘Fazei o que Ele vos disser’ (Jo 2, 5 –
DP 300). Ou, no dizer de São Marcelino Champagnat, fundador dos maristas,
“Maria nos conduz sempre a Jesus, porque o leva sempre nos braços ou no
coração”.
O
Documento de Santo Domingo (15) proclama-a, por isto, por ser mulher de fé,
plenamente evangelizada, como a mais perfeita discípula e evangelizadora;
modelo de todos os discípulos e evangelizadores por seu testemunho de oração,
de escuta da Palavra de Deus e de pronta e fiel disponibilidade ao serviço do
Reino até a cruz. O Concílio Vaticano II, no documento sobre a Igreja (LG 65)
diz que ela refulge para toda a comunidade como exemplo de virtudes.
Quatro
comparações ressaltam a missão de Maria de orientar-nos para Cristo. Antiga
tradição a invoca como “Estrela da manhã”: anuncia a chegada de um novo dia com
o despontar do sol, que para nós é Cristo. Outra a invocação é “Estrela do
mar”: Maria guia os navegantes em sua travessia perturbada por ventos
contrários e tempestades. O Papa Paulo VI a declarou “Estrela da
Evangelização”: sua razão de ser é apontar para Cristo. A estrela indicou o
caminho aos sábios (reis magos) do Oriente para chegarem ao Menino em Belém.
Maria é a estrela que ajuda as pessoas a se encontrarem com Ele. Alguns
místicos a compararam com a lua porque recebe a luz de Cristo, o Sol da
justiça, e a reflete para a humanidade.
Por sua
atitude fundamental de abertura e acolhida ao chamado do Pai, por sua
fidelidade e colaboração com Cristo, Maria é figura inspiradora para o/a
discípulo/a de Jesus. Com ela, segundo o cardeal vietnamita François Xavier
Nguyen Van Thuan (obra citada, p. 210), aprende a realizar com exatidão o
perfil que o Concílio Vaticano II dela elaborou:
- viver
plenamente no Mistério: amor acolhido;
- ser
comunhão em todos os aspectos de sua vida: amor correspondido;
-
abrir-se ao mundo em missão: amor compartilhado.
Erexim,
26 de julho de 2003,
comemoração
de São Joaquim
e
Sant’Ana, pais de Maria.
Pe.
Antonio Valentini Neto
Pároco da
Catedral São José.