A devoção à Padroeira do Brasil
D. Eugênio
Sales, Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Prezados ouvintes,
Os lugares de peregrinação são
uma realidade desde tempos imemoriais. O povo israelita renovava sua
consagração a Javé e reafirmava sua fé no Deus
Salvador por ocasião da Páscoa, Pentecostes e na festa dos Tabernáculos.
Os judeus da diáspora que viviam no estrangeiro,
faziam uma das três romarias. A Sagrada Escritura registra que Jesus, na
infância, foi encontrado no Templo por Maria e José, aflitos. Narra o
Evangelista: “Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém” (Jo 2,13). E adiante (Jo 10,22): “Ele estava presente na festa da Dedicação do Templo.
A História da Igreja relata a
existência de lugares de romaria dos cristãos, particularmente vinculados à
Vida, Paixão e Morte do Redentor. Uma rica senhora, Etéria,
nos deixou minucioso escrito sobre sua piedosa peregrinação realizada ainda no
século IV e felizmente identificou, para a posteridade, muitos desses lugares
sagrados. No passado, além de Jerusalém e a Terra Santa, dois outros centros,
de modo particular, atraíam os peregrinos: Roma e Santiago de Compostela. Já no II século existem inúmeras provas de
veneração aos túmulos dos que sacrificaram a vida pela sua fé.
As intervenções de Deus na
história dos homens, fizeram surgir novos santuários de peregrinações. A essas
paragens acorrem os necessitados de ajuda divina e os doentes, em busca de
alívio e cura. Aliás, seguem a exortação de Jesus: “Pedi e recebereis” (Mt
7,7).
Estes lugares de romaria têm se multiplicado pelo mundo, de modo particular os dedicados a
Maria. Como Mãe de Deus, ela nos leva a seu Filho, favorece o conhecimento da
sua Palavra, convida-nos à adesão à Fé: “Fazei tudo o que Ele vos ordenar” (Jo 2,5), antecipando o início de seus milagres, como
ocorreu nas Bodas de Caná.
No decorrer da história do nosso
País, têm despontado vários santuários de peregrinação mariana. Aparecida é o
mais importante. São milhões os devotos que ali acorrem anualmente e cresce o
número. As comemorações dos 150 anos da Definição do Dogma da Imaculada
Conceição de Maria e o Ano Centenário da Coroação da imagem da Padroeira, com
coroa doada pela Princesa Isabel, favoreceram essa piedosa prática religiosa.
Segundo aferição dos padres
missionários redentoristas que cuidam do Santuário, de janeiro a junho de 2004,
o número de romeiros foi de 2.954.690, sendo 335.226 a mais que no mesmo
período do ano passado, um crescimento de 12.8%. A expectativa é de que a linha
ascendente se acentue nesse segundo semestre. As celebrações do Ano Centenário
– que incluiu a visita da imagem de Nossa Senhora Aparecida a diversos lugares
do Brasil, a Novena do Centenário, sempre no dia 8 de cada mês, transmitida
para todo o território nacional pela Rádio Aparecida, outras emissoras de rádio
e televisão e, muito brevemente, por um canal de TV do próprio Santuário, seguramente
farão crescer essa devoção mariana entre nós.
As comemorações do encerramento
do Centenário da Coroação de Nossa Senhora Aparecida terão início neste dia 7
de setembro, com a chegada do Enviado Especial do Santo Padre. O texto do
documento, assinado pelo próprio Papa João Paulo II e a mim dirigido, com data
de 11 de agosto último, diz: “Por esta carta, Te elegemos e
constituímos Enviado Especial para a celebração que ocorrerá no dia 8 de
setembro próximo; não duvidamos que a missão que Te é confiada será exercida
com grande proveito espiritual para os fiéis brasileiros, sendo para Ti de
grande benemerência.
Caberá a Ti transmitir os nossos
melhores votos e recomendações a todos os que se reunirem naquela festa
mariana. Aos presentes falarás quanto é benéfico estar debaixo da soberania da
Virgem Imaculada, que foi “exaltada pelo Senhor como Rainha do Universo” (“Lumen Gentium”, 59), e como é
sempre necessário nos conformarmos com a imagem da mesma Virgem que, aos olhos
dos fiéis “refulge como exemplo de virtudes” (Ibidem, 65). Muito, pois,
desejamos que todos os que participarem das referidas solenidades, com Maria e
por Maria, a mais livre entre as mulheres, entre todas a mais santa, sejam
exímios amantes e eloqüentes arautos da liberdade na santidade (João Paulo II,
“Augusta a Beatae Virginis”).
Para a Coroação, que ocorrerá no
final da Santa Missa de conclusão do Ano Centenário da primeira, foram
selecionados cinco modelos de coroas. A seguir, participaram da escolha popular
63.870 pessoas, via internet ou manifestando sua
preferência no próprio Santuário.
Estas celebrações extraordinárias
que estão a terminar, continuarão a frutificar para o bem da Igreja e de nosso
País. O Santo Padre, pelos documentos enviados, demonstrou carinho pela Igreja
no Brasil. E certamente espera que as diretrizes sejam portanto observadas,
assim como as contidas nos discursos pronunciados em suas vindas à nossa
Pátria.
Atendendo à determinação do Papa
sobre a vigilância pastoral na salvação dos fiéis, desejo lembrar a importância
da fidelidade à Igreja, ao Santo Padre e a este Santuário de Nossa Senhora
Aparecida para que todos os seus filhos ali se encontrem, como o fariam se
estivessem no seu próprio lar. Recordo as diretrizes apontadas pelo Papa, com
toda a clareza, em suas viagens à nossa Pátria. A devoção a Nossa Senhora
Aparecida, no seu próprio Santuário, ou alhures, recebendo a colaboração de
todos os fiéis, representará uma renovação da Igreja no Brasil, com grandes
frutos, redundando em maior fortalecimento da unidade da comunidade católica.
Não nos esqueçamos que a Carta do
Santo Padre, nomeando o Enviado Especial para as celebrações, assim começa:
“Esta celebração não pode passar em silêncio, mas, ao contrário, deve reavivar
nas almas de todos os brasileiros uma imensa piedade para com a sua Rainha e
especial Padroeira junto a Deus”.