A Origem da oração mariana da Salve Raínha
Prof. Juan Antonio Zumalde
Paróquia
N. Sra do Carmo – Itaquera
A “Salve Rainha” é uma da orações mais
populares entre os católicos. De tão repetida, é rezada às vezes, de forma
maquinal, sem que se sinta da profunda emoção que a percorre do princípio ao
fim. Por isso, para recuperar toda sua vibração original, pode ser útil
analisar, uma por uma,
as estremecidas palavras que a conformam.
Quem compôs esta prece tinha uma experiência muito viva das misérias da vida
humana. Nesta prece “bradamos” como “degredados”, “suspiramos gemendo e
chorando”, vemos o mundo como “um vale de lágrimas”, como um “desterro”...
Entretanto, essa melancólica visão da vida acaba dissolvendo-se num sentimento
de doce esperança que a ultrapassa e domina. Com efeito, se ao considerar a
condição humana, o autor da prece só vê motivos de tristeza, ao fixar sua
atenção naquela a quem a dirige, mostra-se animado por um horizonte de
expectativas reconfortantes e consoladoras, pois ela, a Virgem Maria, é “mãe de
misericórdia”... “vida, doçura, esperança”... “advogada” de “olhos
misericordiosos”...
Captaremos melhor o estado de ânimo de que brotou esta comovente oração se
lembrarmos quem a compôs e em que circunstâncias. Ela é atribuída ao monge Herman
Contrat que a teria escrito por volta de 1.050, no mosteiro de
Reichenan, na Alemanha. Eram tempos terríveis aqueles na Europa central:
sucessivas calamidades naturais, destruindo as colheitas, epidemias, miséria,
fome e morte por toda parte... e, como não se bastasse, a ameaça contínua dos
povos bárbaros do Leste que invadiam os povoados, saqueando e matando,
destruindo tudo, inclusive igrejas e conventos... Frei Contrat tinha
consciência da infortunada época em que vivia, mas tinha outras razões, além
das agruras da vida de seus contemporâneos, para a aflição e o desconsolo. E
não podia fechar os olhos para elas, pois as carregava no seu corpo: ele
nascera raquítico e deforme; adulto, mal conseguia andar e escrevia com
dificuldade, de mirrados que eram os dedos das suas mãos...
Foi no fundo de todas as misérias, as próprias e as alheias, que a alma de Frei
Contrat elevou à Rainha dos céus essa maravilhosa prece, carregada de
sofrimento e esperança, que é a “Salve Rainha”. Mas, se foi capaz de fazê-lo
foi porque, no mais íntimo de seu ser cintilava, sobre a paisagem desolada do
mundo, a figura esplendorosa e amável da Mãe de Jesus... Contam que, no dia do
seu nascimento, ao constatarem o raquitismo e mal formação do bebê, seus pais
caíram em prantos. Sua mãe Miltreed, mulher muito piedosa, ergueu-se então do leito
e, lá mesmo, consagrou o menino à Mãe de Deus. Consagrado a Ela, foi educado no
amor e na confiança em relação à Ela. E foi com essa bagagem na alma que anos
mais tarde foi levado (de liteira, pois continuava sendo um deficiente físico)
até o mosteiro de Reichenan, onde com o tempo chegou a ser mestre dos noviços,
pois o que tinha de inapto seu corpo, tinha de perspicaz seu espírito.
Quando veio a ser conhecida pelos fiéis a “Salve Rainha” teve um sucesso enorme
e logo era rezada e cantada por toda parte. Um século mais tarde, ela foi
cantada também na catedral de Espira, por ocasião de um encontro de
personalidades importantes, entre elas, a do imperador Conrado e a do famoso
São Bernardo, conhecido como o “cantor da Virgem Maria”, pelos incendidos louvores
que lhe dedicava nos seus sermões e escritos (ele foi um dos primeiros a
chamá-la de “Nossa Senhora”). Dizem que foi nesse dia e lugar que, ao concluir
o canto da “Salve Rainha” (cujas últimas palavras eram “mostrai-nos Jesus, o
bendito fruto do vosso ventre”), no silêncio que se seguiu, ouviu-se a voz
potente de São Bernardo que, num arrebato de entusiasmo pelo mãe do
Senhor, gritou, sozinho, no meio da catedral: “ó clemente, ó piedosa, ó doce
sempre Virgem Maria”... E a partir dessa data estas palavras foram
incorporadas à “Salve Rainha” original.
Nos quase mil anos que se passaram desde que Herman Contrat compôs a “Salve
Rainha” uma multidão incontável de fiéis tem se identificado como os
sentimentos que ela expressa, vivendo desde sua aflição a doce esperança que
inspira sempre a figura amável e amada da Mãe do nosso Salvador.
Fonte:
O Dia do Senhor, 30º Dom – Tempo Comum – 26 Out 2003 – Ano 5 – no 49
(AnoB)