Discernir e realizar o Projeto de Vida[1]

(Pastoral da Juventude)

 

Pe. Horácio Penengo, sdb[2]

 

Introdução

 

            A palavra “projeto” vem do latim “pro-iectus” que quer dizer “estar lançado a...”. Toda a pessoa é livre para escolher o que quer ser e o que quer fazer com sua vida. Mas sua liberdade é limitada e condicionada. Esta é sua suprema dignidade, sua grandeza e, ao mesmo tempo, seu drama. O projeto de vida é um elemento constitutivo de todo ser humano. A pessoa humana se entende como projeto aberto que se realiza em comunidade e liberdade.

 

As pessoas necessitam projetar-se para crescer. Somente quando vivem intensamente determinados ideais, são capazes de optar com decisão. A adolescência e, sobretudo, a juventude são etapas da vida nas quais se tende a apostar, a escolher, a arriscar. São etapas das grandes decisões  que orientam a vida. A grandeza da juventude consiste em que nela, os ideais despertam desejos e dinamismos que levam a apostar por uma determinada forma de vida.

 

O projeto de vida  é um convite a tomar a vida nas próprias mãos e a descobrir a grandeza de decidir sobre a própria existência de um modo autônomo e comprometido, e por isso mesmo, pessoal e comunitariamente plenificante. A ausência de projeto leva a uma vida alienada, onde os outros decidem por mim.

 

Daí a necessidade de viver integrada e unificadamente, de deixar de  viver somente satisfazendo as próprias necessidades e pulsões (consumo de atividades, objetos, pessoas) e autotranscender-se; isto é, sair de si, descentrar-se de si mesmo, “perder-se”. A pessoa humana é um ser aberto à transcendência, a ir além de si mesmo, a realizar um desejo de felicidade e plenitude. Aberto ao infinito... como se alguém a chamasse de longe e, ao mesmo tempo, desde o mais profundo de si mesma

 

Um dos momentos mais luminosos da vida é aquele em que se descobrem valores que se apresentam com incondicionais, com um certo caráter de absolutos,  que exigem disponibilidade e resposta incondicionais. Por exemplo, trabalhar pela justiça, pela solidariedade, pelos pobres...Estes valores se descobrem através de determinadas relações interpessoais, de serviços, de compromissos...Se antes, tudo girava em torno de si mesmo, agora há um valor que desperta o coração e compromete a liberdade. São experiências de incondicionalidade que mostram que a vida só pode fazer-se projeto a partir de um valor que comprometa o melhor da pessoa.

 

Os ideais não se alcançam, se perseguem em fidelidade através  de um grande processo que tem avanços e retrocessos, enganos e desenganos, crises, saltos para adiante e saltos para trás. Uma vida verdadeira e autêntica  se expressa mais como dinâmica de processos de esclarecimento e de crescimento que como conquista definitiva de metas. O determinante é que a vida se desenvolva desde  dentro como expressão da própria verdade, do próprio autoconhecimento e do próprio discernimento. Todo projeto gera um dinamismo que sai do fundo de cada um como aspiração a viver a plenitude e a ser além de si mesmo.

 

Como fundamentar teologicamente uma proposta sobre Projeto de Vida?

 

1.1             O projeto de Deus

 

Quando  se diz “projeto de Deus”, muitos tendem logo a pensar que se está dizendo que Deus tem desde sempre um projeto sobre o mundo e sobre a história já definido, pensado e minuciosamente calculado, independente de tudo o que as pessoas possam fazer. Mas não é assim. Pelo contrário, desde o começo, o projeto de Deus conta com os homens, é um projeto compartilhado. É um projeto por e para nós, que não se leva a cabo sem nós.

 

Um dos aspectos mais originais e característicos do Deus dos cristãos é que Ele se revela e se manifesta na história, de modo progressivo, humano. E não se faz em forma de explicação ou de comunicação conceitual dirigida ao entendimento, senão em forma de doação, de acolhida gratuita, de convite a participar de sua vida, de sua plenitude, de seu gozo. É um mistério de amor e solidariedade. Convida a relacionar-se com Ele: “Eu serei teu Deus e tu serás meu povo” (Ex 6,8).

 

O projeto de Deus não é um conjunto de enunciados, programas e planos pré-concebidos. A Bíblia é o testemunho dos atos de Deus, da ação de Deus na história humana, que começa com a criação livre e amorosa do mundo, continua com o acompanhamento dos homens nas promessas, a aliança e os profetas e culmina com a intervenção definitiva do mesmo Deus feito homem. Se trata de uma ação histórica, que começa e se desenvolve gradualmente e que alcança seu ponto culminante com a presença de Deus mesmo em Jesus de Nazaré.

 

O projeto de Deus se constrói e se desenvolve em função dos homens. Jesus é a melhor resposta de Deus às perguntas, às interrogações, às buscas, aos anseios, aos sofrimentos e às esperanças dos homens. Ele é a palavra de Deus, próxima, íntima, compreensível, “o caminho, a verdade e a vida”     (Jo 14,6).

 

Se dá a conhecer como um Deus libertador. A liberdade é dom de Deus e tarefa do homem. Deus a faz possível criando o homem como um ser capaz de decidir e de eleger, chamado a auto-realizar-se. Deus impulsiona, estimula, acompanha com sua presença sempre atuante; mas é o homem quem tem que realizar-se em liberdade. É uma dialética de “graça” e “liberdade”: a ação de Deus não anula a responsabilidade do homem, a possibilita e a estimula.

 

O projeto de Deus se realiza em Jesus, por seu Espírito (Ef 1,3-14). É um projeto de salvação, de realização plena do humano: corresponder ao amor livre e gratuito de Deus. O projeto de Deus é a realização plena do ser humano e se dá quando os homens reconhecem e acolhem o amor de Deus. O projeto de Deus é a plena comunhão de Deus com os homens. É tarefa e é dom.

 

O Antigo e o Novo Testamento mostram como Deus sai continuamente ao encontro do homem, busca ao que está perdido, se preocupa pelos mais pobres...É um Deus compreensivo e misericordioso. Um Deus apaixonado pelo homem, Um Deus que busca sua resposta livre e amorosa; um Deus paciente e confiado, fiel, comprometido até o final, que quer construir entre todos um mundo mais fraterno e solidário, um mundo no qual todos sejam e se sintam filhos e irmãos.

 

Ao comunicar-se como relação plena e como doação total, Deus dá origem a uma alteridade sem ruptura e a uma perfeita comunhão entre vida e missão. Aparece como a fonte, a referência  e a meta das possibilidades dos seres humanos, chamados a viver a plena comunhão com Deus e com os demais (Jo 17,21-23).

 

 

1.2             O Projeto de vida de Jesus.

 

1.2.1        Jesus teve um projeto de vida.

 

Jesus nasceu em Belém. Viveu e cresceu com sua família em Nazaré. Na cultura e nas realidade de seu povo e em diálogo com o Pai, foi descobrindo e construindo seu projeto. Sua vida foi um contínuo processo de maturidade pessoal e comunitária na qual foi assumindo e levando a pleno todas as realidades da vida humana. Lutou com energia e decisão para pô-lo em prática e deu a vida para realizá-lo.

 

Elegeu ser mais um, “se fez um de tantos” (Fl 2,5). Não foi um super-homem  nem um ser excepcional. Foi simplesmente um homem do povo, que partilhou suas lutas e experiências. Nada o distinguiu. Levou uma vida simples. Veio a salvar toda a humanidade e não saiu da Palestina. Veio a salvar a história inteira e viveu só trinta e três anos, e destes, trinta no anonimato...

 

Recebeu a vida de sua família, de seu povo, de sua cultura; foi tendo experiências e refletindo sobre elas, foi amadurecendo. As parábolas e a linguagem maravilhosa e direta de seus discursos, os exemplos próximos e familiares, falam de sua paixão pela vida. Romper o anonimato e sair a pregar  por Israel, não foi algo repentino e estranho, e sim algo para começar a divulgar o que foi interiorizando durante anos.

 

No crescimento e na maturidade de seu projeto de vida, influíram decisivamente duas dinâmicas  que se encontraram entre si:

 

·          O diálogo e relação com o Pai.  Jesus viveu seus anos de Nazaré sob o olhar do Pai que vê no escondido, que olha e descobre a grandeza das pessoas na simplicidade da vida. Esteve atento a sua chamada e O encontrou sempre no cotidiano. Assim foi adquirindo essa experiência íntima de pertença ao Pai. Cresceu interpretando cada vez mais a vida desde o projeto do Pai. Lucas diz que “crescia em sabedoria, em idade em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52).

 

·          A abertura à história. Cresceu identificado com as dores e as esperanças de seu povo, que “andava como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Não sabemos bem como nasceu e cresceu a consciência de sua vocação e de seu “projeto de vida”, mas podemos supor que, desde criança e desde de jovem foi crescendo progressivamente até chegar à maturidade. Provavelmente viveu uma grande etapa de discipulado com João Batista e nesse tempo seguramente desenvolveu a consciência de sua identidade e se de sua missão. Logo se separou de João e começou a pregar de maneira original a chegada do Reino.

 

A existência de Jesus esteve unificada por um desejo, por um valor central, por uma experiência original: “fazer a vontade do Pai” (Jo 4,34).

 

Seu batismo no Jordão foi um acontecimento significativo. Foi batizado por João...Se pôs na fila com os pecadores...O enviado de Deus para a salvação de seu povo não se manifestou como poder esplendoroso e dominador, senão como solidariedade amorosa e misericordiosa com os pecadores. Quis mostrar que Deus está com os pecadores, que tomo sobre si seus males e que se identifica com eles e com sua condição, para libertá-los de sua situação e de seu pecado.

 

Desde essa primeira aparição pública, ficou marcada uma linha fundamental de seu projeto de vida: não salva aos homens a partir de fora, senão identificando-se com eles e convidando-os, a partir de sua situação, a converter-se e a começar uma nova relação com Deus e com os demais.

 

Sem dúvida, também ele teve que discernir seu projeto de vida e buscar o caminho para realizá-lo. Como a toda pessoa humana foram apresentadas diversas opções. Seu lugar de discernimento foi o “deserto”, onde experimentou a tentação de seguir caminhos fáceis. Ali rechaçou a tentação de impor-se  pelo poder de Deus em vez de manifestar-se na solidariedade e no amor pelos pecadores  e pelos mais abandonados. Sem dúvida, viveu também momentos de desconcerto, sofreu rechaços e abandonos e teve que aprender a obedecer e a ser fiel ...Seu projeto de vida foi um caminho de fidelidade que foi-se construindo pouco a pouco, passo a passo.

 

1.2.2        Jesus anunciou o Reino de Deus.

 

O projeto de vida de Jesus tem como centro e como meta o anúncio e a realização do Reino de Deus. Suas primeiras palavras na Galiléia mostram isso com clareza: “O Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam na Boa Notícia” (Mc 1,15).

 

O Reino de Deus é o grande projeto do Pai, a grande utopia de Deus, de fazer uma família de filhos e de irmãos, um lar para todos, uma humanidade livre de toda a opressão , reconciliada com a natureza, entre si e com Deus, onde todos possam sentir e ser de verdade, senhores do mundo, irmãos dos outros e filhos de Deus.

 

É o Reino de vida, porque Deus dá sua vida em abundância (Jo 10,10). É um Reino de justiça e liberdade porque “nos libertou para que fôssemos realmente livres”(Gl 5,1). É um Reino de alegria e de paz, porque está fundado no triunfo de Jesus Ressuscitado (Jo 20,20).

 

O Reino é uma atitude, uma prática, uma vida, uma pessoa que tem o rosto e o nome de Jesus de Nazaré, “imagem de Deus invisível” (Cl 1,15); um testemunho que revela a presença gratuita de Deus agindo, libertando seu povo, realizando seu plano de salvação, mostrando que é o Senhor da história e convidando a forma parte de seu projeto. O Reino dá sentido à história e à vida que está em processo de plena realização. É “o já e o ainda não”; é presente que ainda não alcançou a plenitude e a realização definitiva (Lc 21,31).

 

Em Jesus, projeto de vida e Reino de Deus se identificam. O Reino é  o valor que unifica sua pessoa, é sua paixão; é o que anuncia e o que vive com coerência e plenitude até a últimas conseqüências.

 

Ainda que haja diversas formas de expressar o que é e o que propõe ser o Reino de Deus, destacamos aqui três características que surgem da própria prática de Jesus: Jesus optou pelos pobres, Jesus proclamou e viveu as Bem-aventuranças, Jesus formou uma comunidade de discípulos.

 

1.2.2.1              Jesus optou pelos pobres

 

O Reino, como grande projeto de Deus, é universal. Mas seus destinatários privilegiados são os que sofrem as conseqüências do pecado e do anti-Reino: os pobres. Jesus optou pelos pobres (Lc 4, 16-22), se identificou com eles e, a partir deles, anunciou a Boa Notícia de que o reino de Deus estava se tornando realidade (Lc 6,20-21). Conviveu como os que não tinham lugar dentro do sistema social e religioso da época. Acolheu aos que não eram acolhidos: os pecadores (Mt  9,13), as prostitutas (Mt  21,31), os pagãos (Mt 15,21-28) e samaritanos (Jo 4,22-24), os leprosos e possuídos (Lc 5 12-14; Mc 1,23-26); os marginalizados, as mulheres (Lc 8,1-3), os enfermos (Mt 4, 24; Mt  8,1, Mt 14,14) e as crianças (Mt 18,1-5), os publicanos (Lc 15,1) e os soldados (Mt 8,5-15), os débeis, os pobres sem poder (Lc 14,15-24). Se identificou tanto com eles que considerou como feito a ele mesmo o que se fez ou deixou de fazer com eles (Mt 25,31-46). Com sua atitude deu a entender claramente que não é possível ser seu amigo e apoiar sistemas que marginalizam ou exploram a pessoa..

 

1.2.2.2              Jesus proclamou e viveu as Bem-aventuranças.

 

Nas Bem-aventuranças (Mt 5,1-11) apresentou um caminho de vida novo e original, uma escala de valores radicalmente diferente a que primava na realidade de sua época e a propôs como caminho seguro de felicidade e de realização pessoal. O mesmo Jesus foi o primeiro a dar testemunho desse novo estilo de vida como caminho do Reino. Um caminho para a felicidade que implica ser pobre e comprometer-se com os pobres, partilhar dores e alegrias, gozos e esperanças; trabalhar para saciar a fome e a sede de justiça, ser compassivo, ter um coração limpo, lutar pela paz e ser capaz de aceitar a incompreensão, a perseguição e até o martírio por anunciar o evangelho.

 

O “Sermão da Montanha” é a expressão da novidade que começa a existir na vida daqueles que se abrem a Deus quando deixam Deus entrar em sua vida. Dentro de casa pessoa há possibilidades e forças adormecidas que muitas vezes nem sequer conhecemos. Jesus consegue elevar a capacidade do homem ao máximo de suas possibilidades, conduz à plenitude.

 

As Bem-aventuranças são um convite a crescer nessa vida nova, a crer que a vida vai-se transformando no seguimento de Jesus. Respondem a uma nova forma de ser e de amar, que vai além do que qualquer pessoa pode projetar a partir de si mesma. É um convite a abrir-se aos paradoxos do projeto cristão: pobreza-liberdade, amor-solidariedade, morte-vida, cruz-ressurreição, fraternidade-realização pessoal, entrega-domínio de si, silêncio-diálogo, oração-compromisso, fidelidade-felicidade, sacrifício-fecundidade.

 

1.2.2.3    Jesus formou uma comunidade de discípulos

 

Para realizar sua missão, Jesus reuniu em torno de si um grupo de gente simples, alguns jovens e outros com experiência de vida e do mundo do trabalho; um grupo de pessoas com quem viver de maneira íntima a experiência do Reino.

 

Ainda que os tenha chamado um a um, pessoalmente, formou com eles uma comunidade, um grupo, “os Doze” (Mc 3,13-19) ao que se foram unindo depois outros mais para formar a comunidade dos discípulos, dos seguidores de Jesus (Lc 6,17).

 

Jesus convidou a formar comunidade porque somente assim é possível experimentar e entender o Reino. Seu modo de atuar responde ao plano do Pai de formar um povo que fosse ao mesmo tempo semente e fermento do Reino. Somente na pequena comunidade é possível aprender os valores fundamentais do novo estilo de vida que Jesus propõe: os bens partilhados (Mt 6, 24), a fraternidade e igualdade entre todos (Mt 23,8-10), o poder como serviço; “quem quiser ser o primeiro que seja servidor de todos” (Mc 9,35), a amizade até não ter mais segredos (Jo 5,15), a nova forma de viver a relação do homem e da mulher (Mt 19,1-9).

 

A prática comunitária de Jesus se estendeu a todo seu ministério. O encontro de cada pessoa com ele se converteu em um compromisso com a comunidade. Não era possível relacionar-se com Jesus e viver somente para si. Jesus foi o “homem para os demais” e chamou a todos a ser como ele: “onde dois ou mais estão reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt 18,20). Na comunidade e no serviço aos demais, se compreende em plenitude o mesmo projeto da salvação.

 

1.2.3       Jesus de Nazaré, um homem apaixonado por uma causa. 

 

Os evangelhos mostram Jesus como uma pessoa profundamente unificada, com todas suas energias fortemente atraídas para uma causa com a que se sente plenamente identificado e, a ela , dedica sua vida inteira. Todo seu coração, toda sua paixão, toda sua entrega e todo seu ser estão centrados no anúncio do Reino.

 

E o anuncia como a notícia mais desejada e esperada da história, como a oportunidade para mudar e começar algo novo: chama a “nascer de novo” (Jo 3,3) para dar sentido pleno à vida, para dinamizar e projetar a vida com esperança. Chama a uma nova relação dos homens com Deus e dos homens entre si.

 

A experiência original que impulsiona sua vida e o faz dar-se aos demais com uma entrega impressionante é a experiência de Deus como “Abbá” (Rm 8,15), como pai íntimo e próximo, com “seu pai e pai de todos (Jo 20,17). É uma experiência única, irrepetível, que quer partilhar...Tem consciência relacional, referencial. Se sente plenamente dom do Pai e por isso se apresenta como seu revelador, como alguém com quem não tem distâncias nem segredos (Jo 17,21).

 

Sabe que o Reino de Deus, isto é, Deus mesmo atuando na humanidade, está próximo porque o experimenta em sua oração e em sua relação com ele. Entre ele e o Pai há total intimidade e compenetração. Veio para manifestar o coração do Pai, o amor paternal de Deus aos homens. Por isso não só se refere a ele como “seu” Pai, mas fala a seus discípulos como o Pai “de vocês”. No Reino, Deus não é o Senhor, é o Pai misericordioso. No Reino não existe escravos, e sim filhos de Deus: não se pede obediência ou submissão, e sim amor e livre participação.

 

Viver a filiação na fraternidade é estar já no Reino de Deus. O Reino não é a restauração de Israel como unidade política, como esperavam os judeus da época, e sim a restauração e integração da humanidade em uma nova forma de relação com Deus e dos homens entre si. Por isso o grande mandamento do Reino é o “novo” mandamento do amor, que é mais que um preceito moral: é a lei intrínseca e constitutiva do Reino. São do Reino, aqueles que se amam como Deus os ama, como  Jesus ama.

Isto é quase o resumo de todo o evangelho. “Como o Pai me amou, assim também vos amo...Este é meu mandamento, que se amem uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 15,9-12).Amar gratuitamente, totalmente, sempre, em todas as condições, sem fazer distinções, sem esperar recompensa...

 

1.3             O seguimento de Jesus.

 

Jesus não só anuncia e propõe o Reino de Deus: também convida ao seguimento.

 

O período da juventude é o tempo do descobrimento particularmente intenso do “eu” humano e das propriedades e capacidades que encerra. É o tempo de descobrir e programar, de eleger e assumir como algo próprio as primeiras decisões. O jovem do Evangelho está em fase de decisão e de eleição de sua vida. Daí as perguntas que faz a Jesus: “Que tenho que fazer para viver em plenitude, para que minha vida tenha pleno sentido?” (Mc 10,17). O olhar de amor de Jesus, que suscita confiança, anima o jovem a formular uma segunda pergunta; “que mais me falta fazer?” (Mc 10,20), o que indica que o coração do jovem aspira a “algo mais”...

 

Esse “algo mais”  move a Jesus a propor-lhe viver de acordo com o projeto de Deus: as bem-aventuranças, o estilo peculiar  de Jesus, pobre, disponível, em comunidade. Isso é o que quer e o que propõe para todos. Mas para recebê-lo necessita uma atitude de busca e abertura, desejar o encontro, perguntar-se... é uma proposta diferente para encher a vida de sentido e plenitude.

 

O seguimento de Jesus nasce do encontro pessoal com o Ressuscitado, que se já em um dinamismo de conversão, entrega e renúncia, onde cresce a paixão pelo Evangelho e  experimenta-se o amor incondicional de Deus. É um compromisso com Jesus, que se dá como fruto de um caminho realizado junto a ele e da ação do Espírito Santo.

 

O projeto cristão da vida como seguimento de Jesus  está desenhado em sua essência a partir do Evangelho. “Subiu ao monte e chamou aos que quiseram e vieram com ele. Instituiu doze, para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar com o poder de expulsar demônios” (Mc 3, 13-15)

 

Aqui aparecem os três elementos essenciais do Projeto de vida:

 

·         O chamado-vocação: “chamou aos que ele quis”. Saber-se chamado pessoalmente por Deus é a experiência chave de toda vocação e de todo projeto de vida. É um sentir-se chamado a dar uma resposta livre de seguimento radicalidade e felicidade.

 

·         A comunidade: “chamou-os para que estivessem com ele”. Jesus chama a criar comunidade, a partilhar seu projeto. A comunidade é o lugar onde se concretiza o projeto como seguimento. Pertencer e viver a fé em comunidade é essencial a todo projeto de vida cristã.

 

·         A missão:  Jesus chama ao seguimento em comunidade para anunciar, oferecer e construir o Reino na história dos homens.

 

O projeto de vida cristã realiza-se em um processo de conversão e seguimento de Jesus. A experiência básica da vida cristã é a conversão do coração a Deus. A proposta de Jesus, seu projeto, é alternativo diante dos “valores” do mundo, ainda que, ao mesmo tempo, encarna-se e se desenvolve nele. Este processo somente desencadeia-se a partir do encontro pessoal com Cristo como Senhor da vida e da humanidade.

 

Quando Jesus chama a segui-lo, tudo se relativiza e passa a um segundo plano: “imediatamente deixaram as redes e começaram a segui-lo” (Mt 4, 18-22). Tudo: futuro, relações, afetos, trabalho, possibilidades, capacidades, se reordena em função dele. Não se trata de acomodar o projeto de Jesus à própria vida, e sim de acomodar a própria vida ao projeto de Jesus.

 

O encontro com Jesus reorganiza os valores e nos faz “pessoas para os demais”:  o amor de Deus se faz princípio estruturante da vida, unifica o coração e torna possível uma vida nova. O triunfo do amor sobre o egoísmo passa pela “loucura da cruz” (1Cor 1,18), “o que perde a vida a recupera” (Mt 10,39). A vida cristã exige pôr em ação meios que façam possíveis uma permanente conversão: oração, comunidade, acompanhamento, formação, discernimento, compromisso evangelizador. É um caminho interior para o “ter os mesmo sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5), com entranhas de misericórdia, em disponibilidade à vontade do Pai, em atitude de serviço aos irmãos.

 

O projeto de vida faz relação à vocação como exigência pessoal e como chamada “a partir de fora”. É um compromisso interior entusiasmante:  converter-se no que cada um deve chegar a ser para si mesmo, para os demais e para Deus.

 

O projeto de vida somente pode ser vivido quando a pessoa supera a atitude egocêntrica e descobre um amor que liberta, que salva, que dá plenitude. Quando se descobre profundamente amada por Jesus no que é. Jesus não ama a pessoa pelo que vale, pelo que aparenta, pelo que dá, e sim pelo que é. Aceita e confia...

 

É o amor e a proximidade entranhável que viveram seus tantos seguidores, a quem mudou-lhes completamente a vida. Trata-se de uma experiência que gera fome e sede de plenitude, que convida a viver com intensidade esse magnífico projeto do Reino, que enamora e apaixona , que faz viver com entusiasmo, pondo todos os dons e capacidades em função dele.

 

1.4             A Pastoral da Juventude deve propor o Projeto de vida de Jesus.

 

            Jesus oferece um projeto de vida plena aos jovens (Mt 19,6-29; Mc 10, 7-31). A Pastoral da Juventude deve propor o projeto de vida de Jesus como a plenitude de projeto de vida para os jovens: o caminho de Jesus como o que plenifica e realiza a pessoa. Promover o conhecimento da pessoa e da mensagem de Jesus. Apresentar o estilo de vida de Jesus como referente aos jovens, a partir de uma experiência comunitária, com capacidade de proposta a partir de animadores convencidos, com a mesma exigência de Jesus e do Reino.

 

Os jovens tem uma inata aspiração para serem felizes e viver em plenitude. Vivem esta aspiração com muita força, desejo e entusiasmo. A vida aparece para eles cheia de “possibilidades” e potencialidades. Sentem uma exigência interior de enchê-la de sentido e de significatividade: de “realizar-se na vida”.

 

            A Pastoral da Juventude tem que ajudar aos jovens a descobrir que o projeto de vida de Jesus responde às tendências e desejos mais nobres de seu coração:

 

·         O desejo de viver em plenitude desde a experiência de relações gratificantes. A fé cristã é uma proposta nova de vida e de relações em que a pessoa é o centro dos valores. O Deus de Jesus tem optado profundamente pelo homem, por sua identidade recuperada. É doador de vida e esperança definitivas.

 

·         O desejo de ter um projeto de vida onde possam sentir-se úteis e felizes. O evangelho devolve aos homens uma utopia que está cimentada na aposta de Deus por eles e não na segurança e na eficácia meramente humanas. O projeto de vida de Jesus não resolve tecnicamente as dificuldades e incógnitas dos afazeres humanos, mas dá sentido a todas as solicitações e esforços. E, ao mesmo tempo, infunde forças para a fidelidade e condições para a luta.

 

·         O Reino de Deus infunde nos jovens motivações e objetivos para viver seu desejo e entusiasmo pela justiça e ajuda-os a descobrir onde estão os parâmetros da verdadeira justiça.

 

·         A necessidade de aceitar-se e de ser aceito gratuitamente. No encontro com o Deus de Jesus experimentam a gratuidade e a misericórdia  como as batidas mais profundas do coração do Senhor. Na oração percebem uma amizade sempre aberta ao diálogo  e à reconciliação. Para eles é gratificante poder recuperar a confiança através do perdão.

 

2 - Como fundamentar pedagogicamente uma proposta sobre “Projeto de Vida”?

 

O projeto de vida é um fator determinante para o crescimento da pessoa humana. Viver ou não  de acordo com um projeto de vida válido e alentador não é algo facultativo, uma realidade mais ou menos acessória ou periférica que pode ser deixada de lado. É algo essencial à pessoa, uma dimensão constitutiva e qualificadora da própria vida. Se chegasse a faltar, a personalidade careceria de um dos fatores mais dinâmicos de seu desenvolvimento.

 

O adolescente e o jovem crescem realmente projetando-se. Além de outros elementos, o que diferencia fundamentalmente uma pessoa de outra é a qualidade de seu projeto de vida, o tipo de valores, a tenacidade que gera e é capaz de despertar ao mesmo tempo fidelidade e criatividade; a capacidade de resistência frente às indefectíveis contrariedades da própria vida e da vida dos demais e a centralidade que tem dentro da própria personalidade.

 

Daí as perguntas “pedagógicas” que surgem diante de uma proposta sobre “projeto de vida”: como nasce o próprio projeto de vida?, Como começa seu desenvolvimento dentro da personalidade? Como se elabora e se afirma? Através de que processos psicológicos toma corpo na pessoa? Por que certas pessoas não conseguem elaborar um projeto de vida próprio, como projeção vital para o futuro e sua existência aparece então como carente de vitalidade? Que fazer para descobrir e realizar o próprio  projeto de vida?

 

São interrogações que não têm uma resposta única e definitiva. São como estímulos que servem para impulsionar às pessoas a buscarem a resposta conveniente dentro do viver cotidiano nas diversas etapas da vida.

 

Algumas chaves pedagógicas

 

Acompanhar o jovem na realização de seu projeto de vida é, de alguma maneira, abordar e percorrer juntos um processo educativo. E, como se sabe, a ação educativa pode ser entendida de muitas maneiras e a partir de diversas pedagogias.

 

Algumas propostas de educação estão centradas predominantemente no “ideal”  como diretriz única de todo o processo. Leva o educando a assimilar por aceitação, por imitação, por assimilação de papéis, por posturas  por ideais e por conteúdos “gravados” mas nem sempre personalizados. O projeto se faz a partir de “como se”, partindo do que se espera dessa pessoa, partindo de seus ideais desejados para ele. Mas este tipo de processo não assegura que os ideais se personalizem e que se consiga uma aprendizagem significativa. O caminho de “parecer-se a...” costuma ser mais curto na hora de traçar um projeto de vida, pode acompanhar-se a partir de uma pedagogia mais diretiva, mas corre o risco de não partir da realidade e de não levar em conta a situação concreta do jovem.

 

Outras propostas de educação, ao contrário, estão centradas predominantemente no “processo” e atendem particularmente a integralidade da pessoas e de sue processo de maturidade. Partem da realidade concreta do jovem com suas possibilidades e seus limites, vivem-se em “processo” onde a fé tem um sentido libertador que leva à pessoa a autotranscender-se e sentir-se convidada a percorrer um caminho a partir do qual possa aprender e personalizar os valores. Nestes casos, o processo pode ser maior, pode ter avanços e retrocessos e requer um acompanhamento realista e paciente. Mas o resultado enraíza mais a fundo da pessoa e a leva a apropriar-se  paulatinamente de sua vida e de seu projeto, construído a partir de um horizonte de transcendência e de busca da vontade de Deus.

 

Esta vertente de “processo” se apoia em otimizar as condições para que, a partir de nossas atividades, grupos, celebrações, encontros o jovem venha descobrir e gerar sua própria aprendizagem vital, venha personalizar o caminho traduzindo no cotidiano seu horizonte de fé e possa fazer seu próprio processo. Isto requer acompanhamento, continuidade e, evidentemente, um projeto pastoral de fundo que sustente e garanta todo o restante.

 

Nesta linha, busca-se alcançar alguns destes “objetivos educacionais”: ajudar aos jovens a descobrir e incorporar novos elementos para elaborar o “mapa de sua vida”; ajudá-los a despertar valores e vislumbrar opções maduras e consistentes; ajudá-los a discernir suas necessidades e motivações profundas; ajudá-los a realizar uma experiência de Deus; aproximar-se deles e/ou provê-los de oportunidades para viver experiências integradoras e aprimorar suas aprendizagens com estas experiências, aproximá-los de experiências de confronto consigo mesmos que  suponham um desafio a sua capacidade de conhecerem-se e aceitarem-se e lhes exijam iniciativa e decisão pessoal; orientá-los  para experiências proporcionadas que lhes permitam dar um passo adiante passando ao nível seguinte e facilitando novos modelos de integração; orientá-los em experiências fundamentadas, acompanhando-os para discernir situações e motivações e para reorientar a rota si for necessário.

 

A partir deste ponto de vista,  o projeto de vida permite correlacionar processo humano e processo cristão em níveis de pedagogia concreta.

 

Todo processo autenticamente humano é complexo por natureza. Sua personalização permite uma síntese de contrários que é, ao mesmo tempo, o “selo cristão” do projeto: a maior autonomia, maior sentido da existência como disponibilidade;  a maior capacidade de decisão, mais abandono na fé; a maior integração humana, mais pobreza espiritual; a maior consciência dos próprios limites, maior confiança na força de Deus. Esta síntese de contrários se estabelecerá em etapas subseqüentes do processo de maturidade humana e cristã, mas suas bases começam a cimentar-se na juventude.

 

Projeto de vida e processo

 

O projeto de vida não é algo acabado que um dia se alcançou e se conseguiu para sempre. É algo que cresce, se desenvolve, que sempre se está aprimorando... É um processo que tem metas, passos, etapas, pessoas, gestos visíveis, tempos de avaliação. Não são somente “sonhos”, ideais e valores... O projeto de vida vai-se iluminando a medida que vai-se fazendo. Convém que esteja formulado e concretizado para evitar que seja algo que fique “no ar”.

 

O projeto de vida consiste, de alguma forma, na realização de um processo que permita ao jovem a busca de si mesmo, de sua própria identidade e de um caminho coerente com seus valores, no marco de uma opção fundamental.

 

O projeto de vida propõe a integração das necessidades do eu atual (a realidade mesma da pessoa, seu aqui e agora) com os ideais e valores autotranscendentes (cristãos) do eu ideal. Esta integração se expressa em atitudes e se realiza na vida cotidiana, da qual recebe retro-alimentação e contraste.

 

O projeto de vida permite percorrer um caminho para alcançar uma identidade integrada.  Esta integração não se consegue de imediato e com facilidade. É fruto da fidelidade e é resultado de um esforço fatigado e gradual que exige que se implique toda a pessoa com suas capacidades cognitivas e afetivas. O desejo de seguir adiante, de caminhar é fruto da Graça. As estruturas psicológicas da pessoa não causam a ação da graça, mas predispõe a ela.

 

Há cinco chaves pedagógicas  que se consideram muito necessárias para sua realização:

 

- a autenticidade:  fazer o projeto a partir do jovem e de sua realidade levando em conta suas capacidades e limites - que nem sempre podem analisar adequadamente - , seu aqui e agora, seu momento vital;

- o discernimento:  pôr-se em atitude de escuta com fé e honradez para favorecer o encontro com aquele que, de verdade, a pessoa quer ser e o Espírito está sugerindo que seja;

- a adequação dos passos a dar, as ações e experiências a realizar, os ajustes, a aceitação de sua realidade e do marco temporal para que a construção do projeto possa ser mais real;

- as estruturas de apoio: identificar as que já têm e implementar as que necessitaria ter para continuar caminhando, descobrindo o que lhe ajuda a centrar-se, que lhe freia e lhe problematiza, que lhe potencializa, etc.;

- avaliação periódica: a necessária revisão que permite confrontar o grau de desenvolvimento do processo e motiva a seguir caminhando.

 

Etapas da elaboração do projeto de vida.

 

O nascimento e elaboração do projeto de vida tem lugar ao longo de três processo psicológicos que estão presentes durante todo o tempo da vida, mas que estão especialmente ativos sobretudo durante a adolescência e a juventude. São: o processo de descobrimento e interiorização dos valores, o processo de eleição da opção fundamental e o processo de verificação prática dos valores e das opções feitas.

 

Descobrimento e interiorização dos valores

Todo autêntico projeto de vida nasce do encontro da pessoa com os valores capazes de promover seu desenvolvimento.

 

As necessidades da vida

Dentro de cada pessoa existe um conjunto de necessidades vitais que buscam uma satisfação conveniente para obter o crescimento.

 

Trata-se das necessidades básicas constitutivas do ser humano: a necessidade de amar e ser amado, a necessidade de ser reconhecido, a necessidade de existir e de ter os meios necessários para viver, a necessidade de ter e perceber a própria identidade na relação com o presente e o futuro, a necessidade de realizar a própria afetividade em uma relação interpessoal, a necessidade de receber e dar ternura, a necessidade de dar sentido válido à própria vida, a necessidade de autotranscendência, a necessidade de pertencer a um grupo humano e de contar com ele para a própria conservação e expansão, a necessidade de conhecer e viver conforme a própria missão na vida, percebida como a participação pessoal na construção do bem comum.

 

Estas necessidades estão presentes em toda pessoa humana, caracterizam-se pela preponderância de uma outra necessidade, que age como fator de arraste. O exagero de uma ou de outra, o mesmo que a atrofia, prejudicam o desenvolvimento harmônico e integral da pessoa.

 

 

Os valores da vida

 

Os autênticos valores da vida favorecem o desenvolvimento da pessoa. Toda a pessoa está de fato dinamizada pelas necessidades e está orientada e apoiada em suas diretrizes de crescimento, pelo valores que a atraem. Os valores , na medida em que se encontram e se interiorizam formando uma hierarquia, atuam como uma forte carga energética que por um lado responde às necessidades e, por outro, abre novos horizontes para o crescimento.

 

Quando se fala em “valores” , fala-se de um pólo positivo que orienta, de um campo magnético que atrai, de algo que importa, que se percebe como destacado no próprio contexto da vida. Por exemplo: o bem-estar , a cultura, o amor, a beleza, a justiça , a fraternidade, a verdade, a liberdade, a bondade, a paz, o progresso, a igualdade, etc. Ou também : o êxito, a firmação de si mesmo a todo custo, o aproveitamento, a satisfação imediata, etc. No contexto evangélico, as Bem-aventuranças.

 

Viver para os valores significa não ter a si mesmo como centro e abrir-se, abandonar o sentimento leviano e egocêntrico, para pôr-se em relação com o outro, com todos os outros, com o cosmo, com Deus. Para o crente, há ainda uma nova dimensão: sabe que, mediante a chamada dos valores, é Deus quem chama.

 

Embora, nem tudo aquilo que chamamos de valor o é de verdade, há algumas realidades que constituem “valores autênticos. São aquelas que promovem o autêntico crescimento da pessoa humana, o desenvolvimento integral de todas as dimensões sem restrições nem mutilações. Mas há também outras realidades que são “pseudo-valores”. São aquelas que se referem a aspectos parciais do futuro humano apresentados como absolutos, ou a aspectos marginais, periféricos, vividos como centrais. Com freqüência trata-se de valores lúdicos ou de similares da realidade como a droga, a violência, o erotismo, etc. Estes pseudo-valores normalmente produzem um crescimento anormal da personalidade. Todo unilateralismo no campo dos valores é deformante e atrofiante. Freqüentemente origina confusão entre os diversos níveis ou apatia diante de certos valores essenciais.

 

Os valores não existem no abstrato, teoricamente. Têm um conteúdo existencial. Necessita, de certa maneira, estar comprometido com eles para buscá-los. São como “idéias imanentes” que reclamam, despertam, põe em atitude de busca. Chega-se até eles não diretamente, e sim  através de mediações. Há que descobri-los e “decifrá-los” para pode fazê-los próprios. E para que os valores descobertos se convertam em motivações, isto é, em impulso de ação e, portanto, em atitudes, quer dizer, em tomada de posição pessoal em uma determinada direção, têm que ser encontrados por toda a pessoa, com todas suas dimensões e níveis, segundo os dinamismos psicológicos próprios da idade.

 

Por isso, para que a pessoas assuma os valores indispensáveis para o caminho de sua liberdade é necessário que os descubra pessoalmente, através de diversas mediações.

 

Pode encontrá-los nos modelos educativos: toda pessoa que cresce tem referência em muitos aspectos com “algumas pessoas-chave”. O projeto de fato se desenvolve e se manifesta com a concorrência de terceiras pessoas. No começo está a mãe, logo o pai, em seguida a família, os companheiros de brincadeiras, a escola, a turma, os amigos, os colegas de trabalho, o grupo mais amplo. Dentro das situações pessoais e grupais, o educador é percebido pelo jovem através do dinamismo psicológico da identificação e a idealização como um modelo, como uma pessoas pela qual ele sente de alguma maneira um prolongamento de si mesmo, realizadora dos próprios desejos e expectativas, uma pessoa da qual tende-se a assumir ideais e estilo de vida, por quem nos sentimos afiançados, um “testemunho luminoso” de uma realidade vital.

 

Pode encontrá-los também nas situações concretas: nenhum ensinamento teórico, nenhuma exortação ou conselho, nenhum castigo ou ação coercitiva podem conduzir a aquilo que só se pode alcançar através da experiência direta e do contato vivo com os problemas e as situações da vida. Neste nível se capta “a força formativa” dos diversos valores com os que se entra em contato. Quando se consegue fazê-los próprios, é quando o projeto pode amadurecer.

 

Este contato vivo entre a pessoa e os valores que “a põe em movimento” chama-se interiorização.  Cada vez mais, os jovens aceitam e convertem em próprios os valores, porque os têm compreendido em si mesmos, objetivamente, e não porque são a realidade indiscutível indicada pela família, a escola , o ambiente ou as pessoas influentes para eles.

 

Os valores e o projeto de vida: condições de encontro

 

Os valores agrupados em constelações, põe em marcha pouco a pouco a elaboração do projeto de vida. Eles são um apoio e alimento, a realidade indispensável para chegar a ser autenticamente você mesmo. Como disse Lavelle “é necessário que eu saiba descobrir a luz de todos as possibilidades que há em mim, o possível que eu posso e quero ser”.

 

O projeto de vida flui em uma unidade harmônica o “próprio possível”. Oferece a base para a opção vital com a qual a pessoa antecipa e prepara a plena realização do próprio ser, em relação com o ambiente social e dentro de um determinado quadro de valores, percebido como capaz de satisfazer as mais íntimas aspirações da si mesma.

 

Embora, nem toda experiência é autenticamente fonte de maturidade. Nem toda consciência e experiência dos valores leva consigo uma interiorização. Para que o encontro com os valores seja alimento e sustento do projeto de vida são necessárias algumas condições.

 

Estas são as principais:

É necessário  descobrir as motivações efetivas e os valores implicados nas diversas experiências da vida e colocá-los em relação ao próprio projeto de vida. Toda a experiência significativa tem que confrontar-se com o projeto de vida para obter dele luz e orientação. Desta maneira, todo o acontecimento, grande ou pequeno, adquire um sentido definitivo em referência ao projeto.

 

É indispensável ter um mínimo de reflexão pessoal.  A reflexão permite percorrer as diversas dimensões da realidade e fazer de nexo profundo para uni-las e enchê-las de sentido. Só assim é possível a “análise crítica” e a “impregnação” dos valores encontrados.

           

Há muitas forças sócio-ambientais e interiores que tendem a fazer com que a pessoa dependa de fora de si mesma ou de forças internas deterministas: pressões conformistas, dependências afetivas, alienações diversas, modas, prejuízos, influências, etc. A pessoa educada desde a infância para realizar pequenas opções, não de todo livre ainda, mas acomodadas gradualmente a sua realidade de criança, de adolescente ou de jovem, pode situar-se de maneira cada vez mais autônoma frente à pluralidade e conflitividade dos convites e solicitações que recebe. Pouco a pouco aprenderá a desprender-se do que lhe pressiona em sentido conformista e saberá eleger e considerar tudo, entre a pluralidade dos valores propostos muitas vezes opostos entre si, de acordo com os valores de seu projeto de vida. Se fará uma pessoa “dirigida a partir de dentro”.

 

Entre mil necessidades que se apresentam diariamente na vida de cada pessoa, é necessário incrementar as necessidades que estão de acordo com a linha preferencial da opção de vida. Isto exige ascese, oração, auto-controle e disciplina interior.  Mas só desta maneira poderá ser possível ir construindo o “húmus” que permite cultivar a linha preferencial de vida e canalizar as necessidades não ajustadas. Somente assim consegue-se um real crescimento da pessoa sem que se dêem elementos de repressão de si mesma.

 

O aprendizado dos valores.

 

No processo de aprendizado dos valores podem-se distinguir três etapas:

 

Uma primeira, de complacência: dá-se uma aceitação exterior do valor que não tem em conta sua conseqüência vital. Pode ser por medo ao castigo ou à exclusão ou por uma busca de recompensa. É a forma menos madura de aprender os valores e é educativa só superficialmente.

 

Uma segunda, de identificação: se adotam novas atitudes e valores, não porque sejam importantes em si mesmos e sim porque são importante para as necessidades da pessoa (auto-estima, imagem, etc.). Porém não se descobre a importância intrínseca do valor. Outorga um aprendizado dos valores muito ambivalente.

 

E uma terceira, de interiorização:  o valor se vive porque se considera importante em si mesmo, além da auto-estima, da recompensa ou da exclusão. Leva à autotranscendência.

 

Ainda que indiquem uma progressão na maturidade humano-cristã, estas etapas não são sempre lineares. Algumas pessoas podem ficar na metade do caminho e não chegar nunca à dimensão de interiorização dos valores.

 

A escolha da “opção fundamental” do projeto de vida.

 

Os valores não estão dentro das pessoas nem nos grupos humanos em estado bruto, dispersos, separados. Melhor, polarizam-se em torno de um valor central tendo em vista o modo de ser e a identidade pessoal. Em toda personalidade que funcione normalmente a partir do ponto de vista psicológico há sempre um valor ou um conjunto de valores que fazem o papel de “absoluto”, de “viés unificador”. Os valores centrais sempre dizem respeito ao “ser”. São os valores principais que constituem e sustentam o projeto de vida. Os valores que se referem ao “possuir” existem em vistas do “ser”.

 

O projeto  de vida se elabora e se consolida através da lenta individualização, descobrimento e eleição da “opção fundamental”. Trata-se desse algo a que se atribui muita importância, do eixo fundamental que orienta e sustenta as próprias decisões. É como a pedra angular que sustenta e dá segurança a toda a construção; a opção fundamental é um ângulo de visão a partir do qual se olha a vida, é o leme de direção na travessia.

 

A opção fundamental está formada por valores que constituem o centro da própria vida, por valores em nome dos quais dizem-se os “nãos” e os “sim” que imprimem um selo e uma direção à própria existência.

 

Esta individualização e eleição da opção fundamental do projeto define-a o psicólogo  Goldon Allport como “processo de absolutização”.  A inteligência do sujeito sustentada pela afetividade, consegue isolar cada vez mais uma realidade como “transcendente”, ou simplesmente como “absoluta”, com relação às demais.

 

Então, pouco a pouco, um determinado valor ou grupo de valores começa a destacar-se no quadro de valores da personalidade. Este valor ou grupo de valores assume então o papel de “valor central” da personalidade. Esse valor organiza a personalidade como uma pirâmide. Imprime um sentido a toda a experiência do ser humano. Estimula, numa direção bem determinada, o esforço de compreensão e de ação que é a vida da pessoa. Somente tendo ele como base é possível localizar em uma “visão orgânica e panorâmica” as diversas exigências, as instâncias que, de dentro e de fora, pulsam e reclamam uma resposta.

 

A individualização e a eleição da “opção fundamental” do projeto de vida leva consigo, portanto, o surgimento lento mas seguro, apesar das contrariedades e dos conflitos, de um valor central como sentido último da vida, todas e cada uma das experiências de unificar os traços da personalidade em torno dele. Um projeto de vida válido requer uma “opção fundamental” estabelecida sobre um absoluto que seja autenticamente tal.

 

O processo de absolutização não tem lugar de forma automática seguindo a partir de dentro a linha de desenvolvimento da pessoa. Não é um fruto espontâneo, nem uniforme em todos. A eleição da opção fundamental tem lugar em duas etapas e em determinadas condições.

 

Há primeiro um processo de seleção. Os valores experimentados são avaliados comparativamente. Estas tentativas de avaliação podem, naturalmente, levar consigo uma série de erros. Mas este é o modo natural segundo o qual toda pessoa aprende e amadurece normalmente.

 

Estas tentativas podem, abarcar momentos de frustrações, demoras, regressões , fixações parciais. A linha de desenvolvimento leva consigo sempre obstáculos mais ou menos atraente. Necessita-se tomar a direção complexa do caminho percorrido. Este processo de seleção é contínuo com alguns momentos de maior intensidade.

 

Há logo um processo de opção. O dinamismo psicológico que orienta a personalidade juvenil em torno de uma valor absoluto é a decisão. Esta implica a inteligência, a afetividade, a operatividade ao longo do fio condutor da vida. Compreende toda a história do sujeito, incluídos fatores do inconsciente.

 

Condições indispensáveis para uma eleição válida da “opção fundamental” do projeto de vida são: a autenticidade dos valores vividos, a relação harmônica entre o valor central e os demais valores eleitos e a ajuda pedagógica adequada.

 

A verificação prática dos valores e das opções escolhidas

 

O projeto de vida se vive no cotidiano. Para que possa desenvolver-se e consolidar-se tem que passar através de um “confronto único” com os ambientes de vida.

 

De fato, os valores que constituem o núcleo do projeto não se encontram no abstrato, em intelectualismos e teorizações, nem em belos discursos, e sim em situações vivas e concretas dos ambientes de vida.  Estes são o lugar, também geográfico, em que surgem os modelos com os quais há que confrontar-se e no quais interagem as forças psico-sociológicas que influem na pessoa. Dali parte o projeto, ali é onde cresce, reencontra-se e dá seu fruto, ou pelo contrário, fica aprisionado e morre.

 

Por ambientes de vida entende-se o conjunto de coisas, pessoas, objetos, situações com os que estabelece-se uma relação duradoura no tempo e que, de certa forma, incidem sobre as mesmas pessoas modificando sua relação com cada um deles. Resulta assim, um conjunto mais ou menos homogêneo de valores, juízos, prejuízos, filosofias de vida, costumes, tradições, lugares comuns, modos de agir, de dizer, de pensar, de reagir mais ou menos imediatos e irreflexivos.

 

Toda a pessoa vive um ambiente determinado que influi nela e, ao mesmo tempo, está em relação com outros ambientes. Pode ser mais ou menos conscientes desta influência, pode sofrê-la ou também pode orientá-la. De fato, influi sempre sobre as opções, mas algumas vezes, pode chegar a fazê-lo de um modo determinante.

 

O projeto de vida tem a ver também com os fatores pessoais temperamentais. Atualmente, a incidência dos ambientes de vida vem se acentuando e multiplicando como conseqüência da rápida evolução social imperante e da crescente socialização. Toda a pessoa que queira elaborar um projeto vivo e válido tem que revisar constantemente o tipo de relação que existe entre ela e seus ambientes de vida: a família, o grupo, a escola, o trabalho, a paróquia, os ambientes de lazer, etc.

 

Na realidade atual, parece necessário ajudar ao jovem a reconciliar-se consigo mesmo, com suas realidade juvenil, familiar, histórica, de grupo, de bairro, de comunidade eclesial frente aos modelos impostos pela sociedade de consumo. Tem que fazer experiências que levem aos jovens a pensar criticamente, superar o desânimo e incrementar sua auto-estima. Tem que reconhecer que existem situações novas e ajudar aos jovens a viverem as tensões como pistas de maturidade progressiva. Tem que confrontar o ideal e o real, os valores e suas possibilidades de realização e descobrir o sentido do fracasso, a frustração, os limites, o pecado.

 

O Acompanhamento

 

Nenhum projeto de vida pode ser construído pela pessoa sozinha. Muito mais os jovens que têm  especiais dificuldades para decidir-se por um caminho e para escolher os meios para percorrê-los.

 

São necessárias a comunidade, os amigos, a família...e sobretudo, educadores que possam ajudá-los a encontrar o caminho e os meios para realizar seus projetos de vida e para integrar as necessidades e as exigências que lhes estabeleçam os valores cristãos.

 

Construir um projeto de vida exige um acompanhamento. Um acompanhamento “pedagógico”, isto é, um acompanhamento que não dá tudo pronto nem condiciona a fazer o que o educador quer, e sim um acompanhamento que ajuda a confrontar, que dialoga sem impor, que contribui com ferramentas, que faz seguimento com paciência e misericórdia.

 

O adulto que acompanha tem que ter também seu próprio projeto de vida, tem que saber deixar-se acompanhar e tem que deixar-se confrontar tanto pela Palavra de Deus como pela comunidade. É importante apresentar modelos de vida concretos que sejam testemunhas de que é possível viver os valores que são propostos: nisto é fundamental o testemunho pessoal do assessor. O acompanhante se enriquece na medida em que trabalha em equipe e é importante criar as condições para fazê-lo.

 

Para acompanhar aos jovens na construção de seus projetos de vida e responder ao projeto desde suas realidades concretas, poder ser interessante:

 

* Contribuir para que conheçam suas motivações concretas, para que possam integrá-las em seu projeto de vida;

* Acompanhá-los na descoberta de suas necessidades (pertença, afeto, desejo de incidir, etc.) não são más em si mesmas, mas têm que integrá-las com valores, pô-las ao serviço destes para que lhes emprestem sua energia psíquica como motor para a realização de seus projetos de vida. * Sem esquecer que toda identidade pessoal integrada se expressa em atitudes coerentes com suas necessidades e valores. É um processo que há que ir “ensaiando” ao longo de toda a vida...;

* Ajudá-los a amadurecer para valorizar a diferença entre auto-realização e autotranscendência. Na auto-realização desenvolve-se a si mesmo, em função de si mesmo e tendo como horizonte último seus próprios desejos. Isto não é negativo, mas a partir de um olhar cristão, não é suficiente, porque o último horizonte não somos nós mesmos. Na autotranscendência, ao contrário, estabelece-se o desenvolvimento da pessoa com outros a partir de um horizonte de transcendência que me realiza, Deus, que muitas vezes leva por caminhos pascais onde tem que “morrer a si mesmo” para que cresça o “homem novo”. O desenvolvimento do “eu pessoal” situa-se a partir das referências que são Deus , o Reino, os irmãos e, desde logo, a própria pessoa.

* Ajudá-los a ser pacientes e con