Sumário

 

 

         I.  APRESENTAÇÃO  ................................................................................          2
             II.  INTRODUÇÃO .....................................................................................          3

             III. O MODELO DE NOSSOS GRUPOS ..................................................          4

            3.1  Síntese histórica ....................................................................................            4
            3.2  Aspectos referenciais ............................................................................            5

 

  IV. NUCLEAÇÃO E INICIAÇÃO- A PU COMO PROCESSO .............            9

            4.1  Nucleação......................................................................................................10
            4.2  Iniciação ................................................................................................         11

 

             V.  FATORES QUE CONDICIONAM O PROCESSO ....................... .....         17
            5.1  Fatores externos .......................................................................... .........          17
            5.2  Fatores internos ....................................................................................          20

            VI ATIVIDADES ......................................................................................            21

            6.1  Nucleação.............................................................................................          22
            6.2  Iniciação ..............................................................................................           26

 

           VII AVALIAÇÃO ......................................................................................           31
            7.1  Quem avalia ................................................................................. ........          31
            7.2  Condicionantes para uma boa avaliação ..............................................             31
            7.3  Sugestões de instrumentos de trabalho ............................................ ....            32

 

VII.  CONCLUSÃO ..................................................................................         34

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Roteiro de Nucleação

e Iniciação da

Pastoral Universitária

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I.  Apresentação

 

 

 

 

 

Brasília, 25 de junho de 1999-07-06

P n°  0527/99

 

 

“O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me escolheu para anunciar a Boa Nova aos pobres e me mandou anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os que estão sendo maltratados e anunciar o ano que o Senhor vai salvar o seu povo. (Lc 4, 18-20)”.

 

 

Aos Universitários(as) Cristãos(ãs):

 

Apraz-me apresentar-lhes este Roteiro de Nucleação e Iniciação.

Ele nasce do sonho do(a) universitário(a) que está preocupado com a evangelização do mundo universitário e o compromisso deste com a construção de uma sociedade mais justa, ética e solidária.

É um esforço de várias mãos, como bem identifica a capa. Mãos que. na diversidade de idéias e projetos, se unem em torno de um projeto maior: a construção do Reino, tendo, na pedagogia de Jesus Cristo, o referencial por excelência.

Agradeço a todos os que se envolveram nesta construção coletiva, priorizando a Pastoral Universitária, como um dos ideais a serem assu­midos pelo mundo da Universidade, para que o saber realmente possa ser colocado a serviço da opção preferencial pelos pobres.

Eu os convoco a serem os discípulos de Emaús: promovam o reino de Deus, anunciando a Boa Nova.

Que o espírito do Senhor esteja sempre convosco.

Cordialmente,

 

 

 

 

 

 

 

Dom Jayme Henrique Chemello,

           Presidente da CNBB

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II.  Introdução

 

 

“Como fazer para começar a PU em nossa diocese ou Universida­de? Qual a melhor maneira de iniciarmos um grupo de PU? Qual o material que vocês têm para nos ajudar a fazer PU?” Essas e outras perguntas nos chegam a cada momento. Elas traduzem uma demanda objetiva por PU. É verdade que, na CNBB, temos muitas publicações, temos até um “kit PU” enviado para todos os que solicitam material. São relatórios, textos conceituando PU, o “Roteiro de Estudos”, etc. Mas falta alguma coisa!

Por outro lado, temos consciência de nosso tamanho. Para a PU, quantidade nunca foi questão fundamental. Nossos objetivos fundamen­tais e nossa metodologia implicam um “formato” de pastoral baseado em pequenas comunidades que se fazem instrumento para atingirmos o mundo universitário.

Todavia, tem crescido entre nós a consciência de que precisamos aumentar quantitativamente. Primeiro, porque vamos sentindo a acolhi­da que o ambiente universitário proporciona às mais diversas e variadas formas de religiosidade; segundo, porque o aumento quantitativo é, antes de tudo, a concretização de nossa missão, capacitando-nos à profética denúncia do individualismo (gritante no meio acadêmico) e da mercan­tilização, pela qual passa o ensino superior; terceiro, porque esse cresci­mento quantitativo é um elemento importante na evangelização, à medi­da que interfere diretamente na visibilidade de nossa experiência; e, finalmente, porque estamos certos de que tal opção pelo aumento da quantidade não exclui, nem se confronta com a afirmação de nossa identidade. E, para multiplicar o número de grupos/comunidades, pro­curando atingir uma percentagem mais significativa da população uni­versitária do país, precisamos de um bom instrumental.

Foi assim que surgiu a idéia de elaborarmos um roteiro para fazer NUCLEAÇÃO e INICIAÇÃO na PU. Numa oficina de trabalho que reuniu coordenadores, assessores e ex-militantes no I Encontro Inter-re­gional de Coordenações Vinhedo/SP, 26 a 30/01/98 —, fizemos uma primeira versão para ser aplicada durante o ano de 98. Em janeiro de 99, no VII Encontro Nacional da PU, foi revisada a partir das observações e emendas vindas das experiências realizadas até aquela data.

O formato de roteiro quer ajudar os que nucleiam e iniciam um novo grupo, partindo de grupos já existentes ou do nada. Ele contém reflexões e conceitos, mas também instruções e dicas. Não queremos, contudo, que seja confundido com uma espécie de “receita de bolo”. Na verdade, sabemos que as diferenças entre cada realidade particular torna isso impossível. O seu papel é auxiliar, colaborar diretamente com um processo em que os protagonistas são pessoas e realidades bem contex­tualizadas que não podem, em hipótese nenhuma, ser substituídas por manuais.

O texto está assim estruturado: após a apresentação e a introdução, vem o capítulo O MODELO DE NOSSOS GRUPOS, que procura contex­tualizar nossa história e nossa experiência de Pastoral; segue uma concei­tuação dos processos de NUCLEAÇÃO e INICIAÇÃO, descrevendo o objeto central do texto; o capítulo seguinte resgata os condicionantes, FATORES EXTERNOS E INTERNOS, que incidem direta e/ou indireta­mente sobre nossas iniciativas; depois, apresentamos as ATIVIDADES, maneiras como podem ser executados os processos; e, finalmente, os caminhos para a AVALIAÇÃO, destacando que, como empreitada neces­sária e contínua na missão da PU, os processos de NUNCLEAÇÃO e INICIAÇÃO precisam ser constantemente revistos e melhorados.

Enfim, ressaltamos que este ROTEIRO brotou da consciência de que, pela vocação, somos enviados para o anúncio, como colaboradores na ação salvífica de Deus. Por isso, ele é, sobretudo, um instrumento para a realização da vontade do Pai e para ele esperamos um acolhimento criativo e entusiasmado.

 

 

 

 

 

III O modelo de nossos grupos

 

3.1  Síntese Histórica

 

Compreendemos a Pastoral Universitária de Linha Diocesana como uma presença eclesial no mundo universitário. Diocesana, porque a realidade da Igreja Particular é seu lugar vital, lugar de motivação e de ação primária; eclesial, porque se insere na iniciativa evangelizadora da diocese, sendo parte integrante de sua Pastoral de Conjunto.

Trata-se de uma experiência que nasce com a rearticulação dos Universitários católicos no Concílio de Jovens de Lins SP, em 1977[1]. Naquele momento, na busca de resgatar a experiência da Juventude Universitária Católica, os universitários presentes, que já estavam orga­nizados em grupos nas Universidades, procuraram um rosto próprio.

Em seu primeiro período (entre 1977 e 1986), essa articulação procurou agrupar genericamente as várias experiências espalhadas pelo país. Com a caminhada, as diferenças foram se tornando cada vez mais fortes, inclusive com o surgimento de Movimentos em seu interior. Em 1986, o VI Encontro Nacional optou por constituir uma PU Nacional Pluralista, reconhecendo os diferentes carismas em seu interior. É nesse momento que surge o que chamamos, hoje, de Pastoral Universitária Diocesana. Fundamentalmente, essa experiência procurou retomar, com criatividade, a continuidade dos princípios da JUC, como, por exemplo, a metodologia (Ver — Julgar  -- Agir Celebrar e a Revisão de Vida[2]) e a evangélica Opção Preferencial pelos Pobres.

Em 1987, a PU de Linha Diocesana fez seu primeiro Encontro Nacional. Nesses doze anos, as experiências foram se somando e sendo sistematizadas. Hoje, nós nos compreendemos como COMUNIDADES PROFÉTICAS NO MEIO UNIVERSITÁRIO[3], presença da Igreja com um rosto fortemente laical, que procura viver os sinais do Reino através de pequenas comunidades e, como tal, existem em função da missão de anunciar profeticamente os seus valores (do Reino) no meio universitário.O objetivo fundamental é evangelizar o mundo universitário, buscan­do impregnar o ambiente acadêmico dos valores que nós, cristãos/ãs, professamos (ética, justiça, verdade, solidariedade, fraternidade), bus­cando propagação do Evangelho no cotidiano do ensino superior.

Marca-nos, ademais, o forte protagonismo laical e estudantil, o compromisso de evangelizar pessoas e estruturas, a busca de provocar uma presença cristã comprometida com os destinos da Universidade, para que ela assuma, determinadamente, seu papel de serviço à sociedade e, nesta, aos marginalizados e excluídos. Presença solidária com os que integram a comunidade universitária, compromisso com a formação integral dos estudantes para que sejam academicamente competentes, eticamente comprometidos e espiritualmente inspirados, tendo em vista seu futuro agir profissional. Marca-nos, enfim, a consciência da missão, de que somos, sobretudo, enviados para fazer com que todos os povos se tornem discípulos (Cf Mt 28,19).

Sabemos que não somos a única experiência de evangelização no meio universitário. Aí estão também a Pastoral da Universidade, uma iniciativa da própria instituição universitária (geralmente confessional), que oferece serviço de pastoral aos estudantes, professores e funcionários, e movimentos eclesiais como a RCC, Focares, Comunhão e Libertação, etc. (Uma reflexão mais aprofundada sobre esse assunto ejlcontra-se no caderno de estudos Pdu/Pu n0 1).

 

 

 

 

3.2  Aspectos referenciais

 

A Pastoral Universitária procura concretizar a missão evangeliza­dora da Igreja na Universidade, como apresentam os diversos documen­tos eclesiais,[4] a partir da experiência que foi sendo acumulada e sistema­tizada ao longo dos anos e das demandas que a realidade nos apresenta. Para isso, temos como fundamento a constituição de pequenas comuni­dades, núcleos formados por estudantes (cujo número ideal é entre quatro a oito) acompanhados1 sempre que possível, por um assessor.

Marcados pelo amadurecimento[5] pessoal e grupal, destacam-se quatro aspectos na vida do núcleo:

Þ a vivência de uma dinâmica comunitária;

         Þ a tomada de consciência e explicitação da espiritualidade cristã, encarnada na cultura universitária;

Þ a ação evangelizadora;

          Þ e, finalmente, o estabelecimento de relações privilegiadas com a Universidade.

A vivência comunitária de tais aspectos visa a dar unidade à nossa experiência, sem, no entanto, ter qualquer intenção de uniformizar os grupos. Para nós, é grande o valor do respeito ao espaço de liberdade para o aparecimento da diversidade no interior da Pastoral Universitária.

 

 

3.2.1 A dinâmica comunitária

 

Nossos grupos têm a vida comunitária como imperativo de Deus: o         grupo que segue Jesus é comunidade que procura viver, antecipada­mente, os sinais do Reino, no amor, que é solidariedade, partilha, atenção e carinho mútuos. E essa experiência que vai inspirar e alimentar os compromissos cotidianos, o processo exigente de seguir a Cristo incon­dicional e continuamente e as relações intersubjetivas para o amadureci­mento pessoal e grupal.

Dos membros da comunidade requeremos uma atitude em que o referencial de conduta não é a posse da verdade, do definitivo, mas o desejo de construir, através do provisório, os pontos de encontro nos quais valores, motivações e objetivos, por vezes diferentes, possam ser explicitados. comparados, avaliados e “reelaborados”, continuamente, sem nunca termos a pretensão de chegar a uma síntese definitiva e sem perder a identidade própria. É preciso afirmar a subjetividade[6] como capacidade de autocompreensão e autonomia, fatores decisivos para a compreensão e a convivência com o outro. No grupo, tal atitude se traduz na postura de diálogo permanente, em que a relação que se estabelece com o outro é de constante aprendizado. Mais cresce quem mais aprende. O desafio é, portanto, de aprender a aprender, sem nunca desperdiçar as oportunidades de aprendizado. O que equivale a dizer que a busca da maturidade implica um processo de afirmação do eu como realização comunitária.

Outro aspecto mantenedor da vida comunitária é o respeito ao outro diante das eventuais falhas, não com o intuito de ignorá-las, mas com o de que sejam tratadas no momento oportuno e da maneira adequa­da. O amadurecimento pessoal e coletivo se concretiza na criação de vínculos de intimidade e amizade, que proporcionem, não apenas a partilha das dores, alegrias, frustrações e felicidades, mas também do pão e da roupa, da passagem do ônibus e dos livros. Assim, responsabiliza­mo-nos pelos companheiros e companheiras e constituímos um espaço de discernimento e construção de um projeto de vida.

Essa experiência comunitária é movida, acima de tudo, pela gratui­dade que pode gerar, espontaneamente, atitudes e posturas. No grupo de PU, contudo, ela é marcada também pela metodologia (na prática da Revisão de Vida, através do método Ver—Julgar Agir Rever Celebrar, vivida com sistematicidade). Para nós, é o aspecto comunitário vivido, como experiência da mística cristã, que marcará profundamente a vida do universitário.

 

 

3.2.2 Espiritualidade

 

Como afirma Dom Cândido Padim[7], só existe uma espiritualidade cristã: a vivida por Jesus Cristo. Quando destacamos a espiritualidade como aspecto marcante no grupo de PU, enfatizamos atitudes e posturas que, na dimensão transcendente do ser humano, ganham características próprias. São espirituais no sentido de que são especialmente motivadas pelo Espírito de Deus, a exemplo do que aconteceu com Jesus de Nazaré.

Em primeiro lugar, vem a relação com o Criador. Os membros da comunidade são levados a amadurecer sua relação pessoal com Deus, através da oração (conversa intima com Deus), da leitura bíblica, que busca compreender a revelação para atualizá-la, e, no silêncio, para ouvi-lo através de sua criação. O mesmo se dá na vida do grupo, nos momentos celebrativos e nos de estudo e escuta da Palavra e na busca de uma referência para compreender melhor o mundo.

A vivência, segundo o Espírito, é cultivada para afirmar a abertura e o acolhimento da diferença, a radicalização da comunhão com Deus através dos irmãos/ãs e da natureza (também esta, criatura divina que precisa ser respeitada em sua existência ativa) e a resposta à proposta de Deus como fé existencial, encarnada na vida em todas as suas dimensões.

A espiritualidade vivida pelo grupo e pelos seus membros procura se encarnar, primariamente, em seu lugar vital: a Universidade. Isso implica uma fé celebrada e vivida a partir dos elementos próprios da vida universitária, experimentando-a como graça, como dom que se torna dívida no momento em que traz a exigência de ser partilhada (seus conhecimentos e frutos) com todos os irmãos/ãs. É preciso, contudo, dizer que ela é dinâmica, é processo que se aprofunda paulatinamente e, nas diversas situações e dimensões da vida, procura experienciar a pre­sença mistérica e amorosa de Deus, revelada na vivência da mística espiritualidade do seguimento a Jesus. Enfim, nossa espiritualidade está sempre aberta à descoberta de quão belo e gostoso é sermos filhos e filhas de Deus.

 

 

 

3.2.3 Ação evangelizadora

 

A comunhão e a espiritualidade existem em função do anúncio e da missão evangelizadora, sem a qual a comunidade eclesial perde o sentido.

A missão do grupo de PU é evangelizar o mundo universitário. O amadurecimento pessoal e grupal cresce em direção à ação evangeliza­dora que será, ao mesmo tempo, caminho e critério para tal crescimento.

A primeira ação acontece com a própria constituição da comunida­de: a dinâmica comunitária e a espiritualidade vivida são alimentos para a evangelização plena da comunidade, uma espécie de “auto-evangeliza­ção”. Mas não haverá sentido, caso paremos por aí. O maior sentido está na evangelização para fora do grupo, em direção ao mundo universitário.

Em comunhão com a Igreja do Brasil[8], compreendemos a ação evangelizadora como propagação do evangelho na “cultura” universitá­ria, realizada através:

Þ do testemunho do serviço,

Þ do diálogo,

Þ do anúncio

Þ e do testemunho comunitário.

O grupo em conjunto e/ou cada membro tem como fundamento essas exigências.

Como serviço, são desenvolvidas atividades de acolhimento a estudantes que estão longe de suas famílias e não podem arcar com despesas muito grandes para sua hospedagem, como por exemplo, aque­les que saem de suas cidades para fazer vestibular. Mas é também atitude gratuita emprestar um livro, oferecer um caderno para aulas serem copiadas, assumir as lutas acadêmicas (através dos Diretórios e Centros Acadêmicos) como canal para a construção de uma universidade voltada para a formação integral da pessoa e comprometida com as demandas que vêm dos empobrecidos, marginalizados e excluídos, preferidos por Jesus de Nazaré, isto é, ser presença solidária.

Como diálogo, o testemunho é dado através da postura pessoal, do relacionamento com irmãos de outras confissões e na abertura para ouvir o que a ciência tem a dizer para a fé. E também ter o que apresentar, ter uma identidade que possa entrar em intercâmbio para o crescimento comum, promovendo debates, conferências e palestras que abram espaço para a comunidade universitária refletir e aprofundar temas importantes. E, enfim, a atitude de escutar o outro na atenção de captar a vontade de Deus através de suas criaturas. Esse, talvez, seja o testemunho mais requisitado de um cristão no ambiente universitário. Sem dúvidas, se há uma só característica tipicamente universitária, esta é o pluralismo de pensamento e expressões nos mais variados campos da cultura.

Acreditamos que tais testemunhos conseguem PROVOCAR nossos interlocutores, sensibilizá-los para os valores apresentados pela proposta de Jesus: a promoção da justiça, a construção da fraternidade e o cultivo da esperança. Deles podemos ver emergir uma ética que prioriza a vida e a solidariedade, uma política que prima pela participação democrática e um ‘fazer”  técnico-científico que tem, na valorização de cada pessoa, sua motivação e seu horizonte.

Sabemos, entretanto, que a evangelização, em seu sentido pleno, exige mais. Exige um testemunho que anuncie explicitamente o nome de Jesus Cristo como Senhor. Com a consciência de que tal anúncio precisa ser como uma resposta a algo que procuramos, e não como imposição de um pensamento, o grupo de PU realiza, entre outras iniciativas, a prepa­ração de universitários/as para o sacramento da crisma, celebrações nos campus universitários, divulgação da Campanha da Fraternidade; opor­tuniza aos estudantes o aprofundamento da fé através de retiros e de reflexões a respeito de temas religiosos.

Por último, é o testemunho da própria comunidade, que procura seduzir universitários e universitárias para se integrarem na “família”. O testemunho pessoal e grupal da vida comunitária é o primeiro caminho para o convite ao outro: VINDE E VEDE COMO VIVEMOS. Porém, isso não basta. É preciso que:

Þ  o convite seja feito de maneira explícita e direta;

            Þ a ação evangelizadora se plenifique, ao oferecer a oportunidade para que outros também possam experimentar o gostoso da vida comunitária de Pastoral Universitária;

            Þ os acadêmicos possam conhecer Jesus mais de perto e assim aprofundar sua fé;

Þ possam, enfim, fazer de sua fé, uma maneira de existir, um vinho que mergulha no corpo e renova toda a vida em alegria.

E isso exige ter uma postura verdadeiramente profética, em que, ao sermos vocacionados/as e imersos/as na graça do Espírito, nos descu­bramos apaixonados/as pelo projeto do Reino. Assim, vamos formando no­vos grupos que começarão a caminhada para se tornarem comunidades.

Nada disso, contudo, pode depender apenas da espontaneidade. Desfrutando dos dons do conhecimento e da racionalidade acadêmica que lhes foram dados, o grupo procura primar, ao máximo, pela sua organização. A ação evangelizadora precisa ser guiada pela gratuidade, mas não poderá esquecer o planejamento e a avaliação contínuos. Afinal, ser evangelizador é ser mediador de uma proposta de muito valor, que não pode ser apresentada de qualquer jeito. Para isso, o grupo possui uma rotina de trabalho, com reuniões periódicas e uma metodologia própria (Ver — Julgar — Agir Rever — Celebrar e a Revisão de Vida). Além disso, prepara-se através de estudos[9], procurando a vivência de uma fé cons­ciente e comprometida que visa à transformação da realidade na qual está inserido. Ademais, o grupo está sempre articulado, assumindo sua orga­nicidade com a Igreja local e com os outros grupos de PU espalhados pelo país.

Finalmente, ressaltamos que, apesar da prioridade, o ambiente universitário não é o único espaço para nossa ação evangelizadora. O grupo ou alguns de seus membros desenvolvem atividades junto a co­munidades carentes (como campanhas educativas e assistenciais) e pro­cura estar presente na vida da Igreja, oferecendo seus dons de universi­tários para o crescimento de toda a comunidade eclesial. Muitos membros da PU são catequistas, acompanhando, por exemplo, a preparação dos sacramentos de iniciação cristã em paróquias.

 

 

3.2.4  A relação com a universidade

 

Esse destaque se deve, em primeiro plano, à importância sócio-cul­tural da Universidade. Ela abastece hoje todas as instâncias decisórias da sociedade com informações e pessoas, seja no campo político, no econô­mico ou no educacional. Nesses termos, é impossível não reconhecer a hegemonia da racionalidade e do conhecimento científico e tecnológico na cultura contemporânea. Assim, a Universidade ganha importância à medida que produz uma elite que tende a controlar os destinos da sociedade. Dela se esperam, também, alternativas tecnológicas para um desenvolvimento económico que não seja excludente.

O papel da Universidade dentro da sociedade já indica, por si, a importância que ela possui como um meio pelo qual a Igreja pode desenvolver, com sucesso, sua missão no mundo. Não obstante, vale ressaltar o destaque dado por Jesus ao saber intelectualizado. Se é certo que não podemos simplesmente fazer uma transposição histórica entre os legistas do século I na Palestina que, tomando a chave da ciência, não entram e impedem a entrada dos outros (Cf Lc 11,52)— e os cientistas de nossa época, não é menos verdade que aqueles assumiam, à sua época, o papel que esses assumem hoje. De forma que a crítica de Jesus explicita, sobretudo, a responsabilidade que têm os “sábios” perante o mundo. Certamente, o mundo seria outro se a cultura científica moderna fosse melhor permeada pelos valores evangélicos.

Daí a necessidade de uma ação pastoral que objetive a evangeliza­ção da Universidade como estrutura de produção e difusão do saber científico e ambiente próprio das pessoas ligadas a essas atividades. Essa necessidade se torna maior, quando percebemos, ainda presente, uma tendência à dicotomização entre ciência e fé. Evangelizar o mundo da Universidade, nesse aspecto, significa buscar a superação dessa tendên­cia, anunciando e testemunhando que ciência e fé podem e devem se relacionar através de uma mútua complementação. Por um lado, a fé precisa cada vez mais dos elementos de compreensão e transformação do mundo, oferecidos pela ciência e tecnologia para fazermos fé existencial; por outro, o fazer científico e tecnológico tem demonstrado sempre mais a necessidade de um direcionamento ético que pode e deve ser oferecido pela fé, pela esperança no projeto salvífico de Jesus Cristo.

Evangelizar a Universidade pessoas e estruturas deve ser, hoje, ponto fundamental para a comunidade eclesial que quer chegar até os confins do mundo. Prescindir desse meio, significa, pelo menos, abrir mão de um canal adequado para o diálogo com a cultura hegemônica contemporânea. Isso implica que o grupo considere, em seu agir pastoral, os mais diversos aspectos da vida universitária, para que, no diálogo e no serviço, possa haver evangelização. Assim, é preciso que o grupo:

Þ      considere, em primeiro lugar, que ela (a Universidade) é uma instituição situada na sociedade e, como tal, estabelece relações de obrigações e de deveres. Assim, poderíamos dizer que, gover­nada por cânones próprios, a Universidade exige que a presença e atuação junto a ela obedeçam as suas linguagens, aos seus ritmos, aos seus rituais, isto é, a sua própria dinâmica. Na busca de propagar o evangelho, é preciso estar atento aos sinais que vêm deste mundo, com abertura para reconhecer seus valores e estabelecer diálogo. E não qualquer diálogo, mas um que tradu­za a postura de respeito por este mundo como criação de Deus e como lugar de manifestação de Seu Espírito;

Þ      considere a Universidade como lugar próprio de pessoas que, na qualidade de jovens estudantes, estão decidindo seu futuro. Neste sentido, ela é uma realidade marcante, mas transitória e, como tal, intermediária. A ação do grupo está voltada, não só para frutos no presente, provocando o compromisso dos estu­dantes com a transformação da realidade em que vivem, mas também para frutos no futuro, provocando-os a buscarem uma formação que corresponda a seus compromissos como cristãos na vida profissional.

Isso se traduz:

Þ      na compreensão da ciência e da tecnologia como dons de Deus, que precisam estar voltados para realizar Sua vontade;

Þ      no fato de assumir os estudos como atitude inspirada pelo mesmo Espírito que inspira o compromisso da solidariedade com o outro;

Þ      na convivência acadêmica como testemunho existencial de sua fé, contradizendo a competitividade selvagem que, muitas vezes, se apresenta até mesmo na sala de aula;

Þ      no engajamento nos diversos movimentos acadêmicos, políti­cos e culturais;

Þ_    enfim, na participação ativa em todos os momentos da vida universitária.

Essa compreensão e atitude são cultivadas no dia a dia com os colegas, nas ações do grupo e em seus momentos mais fortes de revisão de vida e celebração.

 

 

IV   Nucleação e iniciação

A PU como processo

 

Chegar a um grupo/comunidade, com as características descritas no capítulo anterior, não é fácil. Na verdade, é preciso percorrer um caminho, desenvolver um processo que leve um grupo a afirmar sua decisão de ser comunidade cristã.

O ser cristão é, fundamentalmente, tomar uma decisão de seguir o MESTRE e, no caminho, ir aperfeiçoando a maneira de segui-lO. Os exemplos bíblicos dos seguidores de Jesus no Novo Testamento indicam que não basta tomar a decisão.

 

Þ Como Pedro, somos tentados a negar (Cf Mc 14, 66-72);

Þ como Tomé, somos tentados a não crer (Cf Jo 20, 24-29);

Þ          e, como todos, temos dificuldades em compreender a mensagem de Jesus (Cf At 1, 1-6).

Ao longo dos anos, fomos sistematizando nossa experiência, lan­çando mão dos dados da realidade, da história e da herança que recebe­mos. Chegamos a algumas conclusões. Entre elas, a de que o processo é complexo, não é linear e está sempre intimamente ligado à realidade onde se insere o grupo e à realidade existencial de cada pessoa que dele participa. Sabemos, também, que nossa maneira de percorrer o caminho da experiência cristã não é única nem exclusiva, mas particular. Ela reflete nossas opções e nossos objetivos como estudantes universitários cristãos.

Hoje, compreendemos nosso processo como sendo constituído por três etapas: NUCLEAÇÃO, INICIAÇÃO e CONSOLIDAÇÃO. Numa analogia que temos usado bastante, falamos também dos três momentos, como ocorre na relação entre dois jovens: primeiramente, há a paquera, a troca de olhares, a busca de oportunidades de encontro, o encanto da sedução... Esse é o momento da NUCLEAÇÃO. Aceito o primeiro conviteou paquera —, inicia-se o namoro, a descoberta do outro. E o momento de conhecer-se e dar-se. O momento do namoro, identifica-se com a INICIAÇÃO. A última etapa, que corresponde ao casamento, refere-se à CONSOLIDAÇÃO.

A partir de agora, abordaremos as duas primeiras.

 

 

4.1 Nucleação

 

O termo indica o ato de construir um núcleo, demarcando seus limites e seu formato. Para nós, significa os primeiros passos visando à estruturação do grupo/comunidade.

 

 

4.1.1  Motivação

 

A NUCLEAÇÃO é a partida para concretizar nossa ação evangeli­zadora em seu sentido mais pleno: fazer crescer a comunidade dos discípulos que confessam Jesus Cristo como Senhor.

Þ A motivação inicial é a fé: a certeza de que a proposta de Jesus é algo que vale a         pena ser vivido, algo que outras pessoas merecem conhecer.

ÞA nucleação motiva a experiência da vida comunitária: outras pessoas merecem   vivenciar a alegria de ter em quem confiar, com quem partilhar, de quem receber a alegria de experimentar, mesmo que fragilmente, os sinais do Reino, pois precisam disso.

ÞA nucleação motiva, ainda, a consciência de que o trabalho émuito e os operários são poucos e, por isso, precisamos de mais gente para anunciar a Boa Nova ao mundo.

É o encontro com Jesus Cristo, que se revela para nós na vida acadêmica e na partilha comunitária, experienciada no grupo e testemu­nhada no cotidiano, que nos leva a irradiar a proposta da PU aos univer­sitários.

 

 

4.1.2  Sensibilizar e Provocar

 

Na etapa da NUCLEAÇÃO, agindo com ou sem intencionalidade declarada, queremos sensibilizar nossos colegas para o fato de que existe uma proposta de vida que possibilita uma vivência integradora do ser humano em todas as suas dimensões (inclusive a transcendente) em busca de felicidade, que tal proposta considera o caráter particular do ser universitário, além de ser vivida desde o ambiente acadêmico.

 

Através do testemunho pessoal, na conversa cotidiana, nas atitudes que cada membro do grupo/comunidade vai apresentando, os sinais são enviados. O objetivo é despertar a curiosidade para, quem sabe, chegar à formulação de perguntas: Que negócio é esse de PU? O que é que vocês fazem tanto em reuniões? Vocês acreditam mesmo em Deus? São católi­cos? ...À maneira de Jesus, nos deixamos ver no cotidiano da vida universitária. Esse é o grande espaço para a NUCLEAÇÂO.

Na etapa de NUCLEAÇÃO, buscamos provocar nossos colegas, chamá-los para fora de si mesmos, para estarem em nosso caminho. Diante da curiosidade demonstrada, respondemos: VINDE E VEDE. Trata-se do primeiro convite explícito e direto para as pessoas participa­rem da PU.

 

4.1.3  Espontaneidade e Estratégias

 

A NUCLEAÇAO tem como pressuposto a gratuidade evangélica do semeador que não escolhe o terreno (Cf Mc 4,3-20) e a capacidade de saber quando se encontram interlocutores com os quais caberia a compa­ração de Jesus à sua geração, “... semelhante a meninos que se assentam nas praças e gritam aos seus companheiros: Tocamo-vos flautas e não dançastes; cantamo—vos lamentações e não chorastes.”(Mt 11,16—17).

Þ É preciso dedicar atenção aos que se sensibilizam gratuitamente, procurando responder aos questionamentos;

    Þ é preciso saber não insistir, não “forçar a barra” de quem, muitas vezes, atende a um convite por pura educação;

    Þ é preciso ter consciência de que nossa proposta não corresponde ao desejo de todo mundo.

Além disso, a NUCLEAÇÃO precisa de posturas estratégicas. Num mundo com tantas “ofertas”, é fácil haver confusão. Nesse sentido, desde o primeiro momento, a identidade da PU precisa estar clara, bem delimi­tada. A forma também é importante. Numa época em que a comunicação se realiza intensamente através da imagem, não podemos dispensar os cuidados com o que vamos apresentar em nossos convites.

É importante acentuar que o contato inicial da nucleação quer levar a despertar o interesse pela proposta da PU, motivando o acadêmico e conquistando-o, para a formação de novos grupos. O contato inicial precisa ser sensibilizador, provocativo, mas também, sedutor, apaixonante. Se, por um lado, ele é proposta, por outro, precisa aparecer como oportunidade e resposta aos anseios e desejos de quem o recebe. Não custa lembrar que a proposta de Jesus é acolhida pelo povo, à medida que responde aos anseios de liberdade (como todos que esperam o vinho antigo para a alegria voltar a uma festa triste, à maneira das bodas de Caná Cf Jo 2, 1-12) e de felicidade[10]. Daí que a NUCLEAÇÃO necessita ser bem preparada, inclusive com um bom planejamento estratégico.

 

 

4.2 Iniciação

 

Depois de conhecer a PU a ponto de se sentir provocado/a, o/a universitário/a entra na segunda etapa: a INICIAÇÃO. Como no namoro, esta é a fase do conhecimento mais profundo, da conscientização e da experiência. Através dela, buscamos levar o/a interessado/a ao compro­misso e à vivência de PU, até que ele/a não fale em ser “da” PU ou participar da PU, mas em “SER” PU, criando-se uma identidade de PU.

Antes de tudo, devemos dizer que não se trata de uma iniciação ao modelo de discípulos que são introduzidos em ciências misteriosas por um mestre, que vai iluminando seu caminho. Tampouco, de um processo de puro aprendizado teórico. E, sobretudo, o caminhar com todos os riscos e prazeres que isso pressupõe, é fazer a “experiência” da iniciação cristã.

Como tal, trata-se de uma experiência pedagógica. Ela é um pro­cesso de aprendizado do qual faz parte:

Þ aprender a proposta da PU;

Þ aprender a reconhecer-se como diferente dos demais;

          Þ   aprender a reconhecer-se como grupo diferente de outros gru­pos;

Þ descobrir valores;