CARTA
DE SANTO ATANÁSIO A MARCELINO SOBRE A INTERPRETAÇÃO DOS SALMOS
Tradução: José Carlos Romano
(Fonte:
Agnus Dei)
Esta carta foi escrita
por volta do ano 350 e trata da exegese e importância dos Salmos.
INTRODUÇÃO
Querido Marcelino,
admiro teu fervor cristão: sobrelevas perfeitamente tua atual situação, e,
ainda que muito te faça sofrer, não descuidas em absoluto as asceses. Perguntei
ao portador de tua carta pelo gênero de vida que levas agora que estás doente e
ele me informou que bem dedicas teu tempo à Escritura Santa, tendo, todavia,
com maior freqüência o livro dos Salmos entre as mãos, tratando de compreender
o sentido que cada um esconde. Te felicito, pois tenho idêntica paixão pelos
Salmos, como a tenho pela Escritura inteira.
Encontrando-me numa
ocasião (invadido) por semelhantes sentimentos, tive um encontro com um ancião
estudioso e quero transcrever-te a conversação que sobre os Salmos, - Saltério
em mão! - sustento comigo. O que aquele velho mestre me transmitiu é agradável
e, ao mesmo tempo, instrutivo. Eis aqui o que me disse:
Toda a nossa Escritura,
filho meu, tanto do Antigo como do Novo (Testamento), é, tal como está escrito,
inspirada por Deus e útil para ensinar (2Tim 3,16). Porém, o livro dos Salmos,
se feita uma reflexão atenta, possui algo que merece uma especial atenção.
Cada um dos livros, com
efeito, nos oferece e nos entrega seu próprio ensinamento: O Pentateuco, por
exemplo, relata o começo do mundo e a vida dos Patriarcas, a saída de Israel do
Egito, como também a entrega da Lei. O Triteuco relata a distribuição da terra,
as façanhas dos Juízes, como também a genealogia de Davi. Os livros dos Reis e
das Crônicas relatam os feitos dos reis. Esdras descreve a libertação do cativeiro,
o retorno do povo, a reconstrução do templo e da cidade. Os (livros dos)
Profetas predizem a vinda do Salvador, recordam os Mandamentos, advertem e
exortam aos pecadores, como também profetizam acerca das nações. O livro dos
Salmos é como um jardim em cujo solo crescem todas estas plantas e, ademais,
melodiosamente cantadas, senão que nos mostra o que lhe é privativo, já que ao
cantar (salmos) agrega o seu próprio.
Canta os acontecimentos
do Gênesis no salmo 18: "Os céus apregoam a glória de Deus e o
firmamento proclama a obra de suas mãos" (Sal 18,1) e, no salmo 23: "A
terra e tudo que ela contem é do Senhor; o mundo e tudo que o habita, Ele o
fundou sobre os mares" (Sal 23,1-2). Os temas do Êxodo, Números e
Deuteronômio os canta formosamente nos salmos 77 e 113: "Quando Israel
saiu do Egito, a casa de Jacó, de um povo bárbaro, Judá foi seu santuário e
Israel seu domínio" (Sal 113,1-2). Similares temas canta no salmo 104:
"Enviou a Moisés seu servo, e a Aarão, seu eleito. Confiou-lhes suas
palavras e suas maravilhas na terra de Cam. Enviou a obscuridade e escureceu;
mas se rebelaram contra suas palavras. Transformou suas águas em sangue, e deu
morte a seus peixes. Sua terra produziu rãs, até nas habitações do rei. Falou e
se encheu de moscas e de mosquitos todo seu território" (Sal
104,26-31). É fácil descobrir que todo este salmo, como também o 105, foram
escritos em referência a todos estes acontecimentos. As coisas que se referem
ao sacerdócio e ao tabernáculo as proclama naquele do salmo 28: "Ao sair
do tabernáculo, dizendo: 'Ofereçam ao Senhor, filhos de Deus, ofereçam-lhe
glória e honra'" (Sal 28,1).
Os fatos concernentes a
Josué e aos Juízes os refere brevemente o salmo 106 com as palavras: "Fundaram
cidades para habitar nelas, semearam campos e plantaram vinhas" (Sal
106, 36-37). Pois foi sob Josué que se lhes entregou a terra prometida. Ao
repetir reiteradamente no mesmo salmo: "Então gritaram ao Senhor em sua
atribulação, e Ele os livrou de todas suas angústias" (Sal 106,6),
está indicando o livro dos Juizes. Já que quando eles gritavam os suscitavam
juízes a seu devido tempo para livrar a seu povo daqueles que o afligiam. O
referente aos reis se canta no salmo 19 ao dizer: "Alguns se vangloriam
em carros, outros em cavalos, porém, nós, no nome do Senhor nosso Deus. Eles
foram detidos e caíram; porem nós nos levantamos e mantivemo-nos em pé. Senhor,
salva ao Rei e escuta-nos quando te invocamos!" (Sal 19,8-10). E o que
se refere a Esdras, o canta no salmo 125 (um dos salmos graduais): "Quando
o Senhor trocou o cativeiro de Sião, ficamos consolados" (Sal 125,1);
e novamente no 121: "Me alegrei quando me disseram: 'Vamos à casa do
Senhor'. Nossos pés percorreram teus palácios, Jerusalém; Jerusalém está
edificada qual cidade completamente povoada. Pois ali sobem as tribos, as
tribos do Senhor, como testemunho para Israel" (Sal 121,1-4).
Praticamente cada salmo
remete aos profetas. Sobre a vinda do Salvador e Daquele que devia vir ser
Deus, assim se expressa o salmo 49: "O Senhor nosso Deus virá manifestamente,
e não se calará" (Sal 49,2-3); e o salmo 117: "Bendito o que
vem em nome do Senhor! Nós os temos abençoados desde a casa do Senhor; o Senhor
(é) Deus e ele se nos manifestou" (Sal 117,26-27). Ele é o Verbo do
Pai, como o canta o 106: "Ele enviou seu Verbo e os curou, os salvou de
suas corrupções" (Sal 106,20). O Deus que vem é ele mesmo o Verbo
enviado. Sabendo que este Verbo é o Filho de Deus, faz dizer ao Pai no salmo
44: "Meu coração proferiu um Verbo bom" (Sal 44,1), e também
no salmo 109: "De meu seio antes da aurora eu te engendrei"
(Sal 109,3). Quem pode dizer-se engendrado pelo Pai senão seu Verbo e sua
Sabedoria? Sabendo que é a ele ao que o Pai dizia: "Que seja a luz e o
firmamento e todas as coisas", o livro dos Salmos também contém
palavras similares: "O Verbo do Senhor afiançou os céus e pelo Espírito
de sua boca toda sua potência" (Sal 32,6).
(O salmista) não
ignorava que Aquele que devia vir fosse também o Ungido, já que propriamente
dele fala (como sujeito principal) o salmo 44: "Teu trono, ó Deus,
permanece pelos séculos dos séculos; é cetro de retitude o cetro de teu Reino.
Hás amado a justiça e odiado a iniquidade; por isso Deus, tu Deus, te ungiu com
o óleo da alegria em preferência a teus companheiros" (Sal 44,7-8).
Para que nada se imagine que ele vem só em aparência, aclara que é este mesmo o
que se fará homem e que é por ele por quem tudo foi criado, por ele afirma no
salmo 86: "A mãe Sião dirá: um homem, um homem foi engendrado nela, o Altíssimo
em pessoa a fundou" (Sal 86,5). O que eqüivale a afirmar: o Verbo era
Deus, tudo foi feito por ele, e, o Verbo se fez carne. Conhecendo, igualmente,
o nascimento virginal, o Salmista não se calou, senão que o expressou
claramente no salmo 44, ao dizer: "Escuta, filha minha, e veja; inclina
teu ouvido, esqueça teu povo e a casa de teu pai, porque o rei está cativado de
tua beleza" (Sal 44, 11-12). Novamente, isto eqüivale ao dito por
Gabriel: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!"
(Lc 1,28). Depois de haver afirmado que ele é o Ungido, mostra à parte seu
nascimento humano da Virgem, ao dizer: "Escuta, filha minha".
Gabriel a chama por seu nome, Maria, porque é um estranho - enquanto ao
parentesco se refere - porém, Davi, o salmista, já que ela é de sua família, a
chama, com toda razão, 'sua filha'.
Havendo afirmado que se
faria homem, os Salmos mostram logicamente que ele é passível segundo a carne.
O salmo 2 prevê a conspiração dos judeus: "Por que se rebelaram os
pagãos? Por que conceberam projetos vãos? Os reis da terra se prepararam, os
chefes conspiraram contra o Senhor e contra seu Ungido" (Sal 2, 1-2).
No salmo 21, o Salvador mesmo dá a conhecer seu gênero de morte: "...me
aprisionas no pó da morte, me rodeia um bando de mastins; a assembléia dos
perversos me circunda. Furaram minhas mãos e meus pés. Contaram todos os meus
ossos. Eles me vigiaram, dividiram minha roupa e jogaram a sorte sobre a minha
túnica" (Sal 21,17-19). Furar suas mãos e seus pés, que outra coisa é
senão indicar sua crucifixão? Depois de ensinar tudo isto, acrescente que o
Senhor padeceu por nossa causa, e não pela sua. E, com seus próprios lábios,
afirma novamente no salmo 87: "Pesadamente repousa sobre mim a tua
ira" (Sal 87,17), e no salmo 68: "Eis de volta o que não havia
arrebatado" (Sal 68,5). Pois se bem não devia pagar as contas de crime
algum, ele morreu - porém sofrendo por nossa causa, tomando sobre si a cólera
que nos estava destinada, por nossos pecados, como o disse em Isaías, Ele
carregou nossas fraquezas; o que se faz evidente quando afirmamos no salmo 137:
"O Senhor os recompensa por minha causa", e o Espírito disse
no salmo 71 que: "ele salva aos filhos do pobre e quebra aos que acusam
em falso... pois ele resgata o pobre do opressor e redime o indigente que não
tem protetor" (Sal 71, 4.12).
Por isso predisse também
sua ascensão aos céus, dizendo no salmo 23: "Príncipes, levantem seus
portões e abram suas portas eternas para entrar o rei da glória" (Sal
23,7.9). E no 46: "Deus ascende entre aclamações, o Senhor ao som de
trombeta(s)" (Sal 46,6). Também seu sentar-se (à direita de Deus) o
anuncia no salmo 109: "Disse o Senhor a meu Senhor, senta-te a minha
direita até que ponha teus inimigos como estrado para teus pés" (Sal
109,1). Até a destruição do diabo se anuncia a vocês no salmo 9: "Te
sentas em teu trono qual juiz que julga justamente. Repreendeste aos povos e
pereceu o ímpio" (Sal 9,5-6). Tampouco calou que receberia pleno poder
para julgar, de parte do Pai, e que viria com autoridade sobre tudo, ao afirmar
no 71: "Ó Deus, concede teu juízo ao rei, e tua justiça ao filho do
rei, para que julgue a teu povo com justiça, e a teus pobres com retidão"
(Sal 71,1-2). E no salmo 49 disse: "Convoca ao céu, no alto, e a terra,
para julgar a seu povo...E os céus proclamaram sua justiça, pois Deus é
juiz" (Sal 49,4.6). E no 81 lemos: "Deus está em pé na
assembléia dos deuses, e rodeado de deuses, (os) julga" (Sal 81,1).
Sobre a vocação dos pagãos muito se fala em nosso livro, porém, sobretudo no
salmo 46: "Povos todos, aplaudam, aclamem a Deus com vozes
jubilosas" (Sal 46,2). De maneira similar no 71: "Diante de si
se prostram os etíopes e seus inimigos lamberam ó pó; os reis de Tarsis, e as
ilhas, oferecem seus dons. Os reis da Arábia e de Sabá lhe ofereceram regalos.
E o adoraram todos os reis da terra; todos os povos lhe serviram" (Sal
71,9-11). Tudo isto o cantam os Salmos e se anuncia em cada um dos outros
Livros.
Não sendo um ignorante,
(o ancião) agregava: em cada livro da Escritura se significam realidades
idênticas, sobretudo em relação com o Salvador, pois todos estão intimamente
relacionados, sinfonicamente concordes no Espírito. Por isso, do mesmo modo que
é possível descobrir no Saltério o conteúdo dos outros Livros, também se
encontra com freqüência o conteúdo do primeiro nos restantes. Assim, por
exemplo, Moisés compôs um hino, e Isaías canta e Habacuc suplica com um
cântico. Mais ainda, em todos os livros é possível encontrar profecias, leis e
relatos. O mesmo Espírito o abarca todo, e de acordo ao dom destinado a cada
qual, proclama a graça peculiar, repartindo-a em plenitude, seja como
capacidade de profetizar, ou de legislar, ou de relatar o sucedido, ou o dom
dos Salmos. Se bem que o Espírito é uno e indivisível, dele provêm todos os
dons particulares e em cada dom está totalmente presente, ainda que cada um o
percebe segundo as revelações e dons recebidos e na medida e forma das
necessidades, de modo que na medida em que cada um se deixa guiar pelo Espírito
se faz servidor do Verbo. É por isso, como o disse anteriormente, que quando
Moisés está legislando, algumas vezes também profetiza e outras vezes canta; e
os Profetas ao profetizar, algumas vezes proclamam mandatos, como aquele: "Purifiquem-se.
Limpa teu coração de toda imundície, ó Jerusalém" (Is 1,16; Jr 4,14);
e outras vezes relatam historias como o faz Daniel com os acontecimentos
concernentes a Susana, ou Isaías quando relata o de Rabsaces e Senaquerib. O
risco característico do livro dos Salmos, como já dissemos, é o do canto, e por
ele modula melodiosamente o que em outros livros se narra com detalhe. Porém,
algumas vezes até legisla: "Abandona a ira e deixa a cólera"
(Sal 36,8); e "Afasta-te do mal, opera o bem; deseja a paz e corre
atrás dela" (Sal 33,15). E outras vezes relata o caminho de Israel e
profetiza acerca do Salvador, como o dissemos anteriormente.
A graça do Espírito é
comum (a todos os livros), estando a mesma de acordo à tarefa encomendada e
segundo o Espírito a concede. Os mais e os menos não provocam distinção alguma
sempre que cada qual efetue e leve a cabo sua própria missão. Porém, em sendo
assim, o livro dos Salmos tem, neste mesmo terreno, um dom e graça peculiares,
uma propriedade de particular relevo. Pois junto às qualidades, que lhe são
comuns e similares com os Livros restantes, tem ademais uma maravilhosa
peculiaridade: contém exatamente descritos e representados todos os movimentos
da alma, suas trocas e mudanças, de modo que uma pessoa sem experiência, ao
estudá-los e ponderando-os, pode ir-se modelando à sua imagem. Pois os outros
livros somente expõem a lei e estipula o que se deva, ou não, cumprir.
Escutando as profecias, somente se sabe da vinda do Salvador. Prestando atenção
às descrições históricas, somente se chega a averiguar os fatos dos reis e dos
santos. O livro dos Salmos, ademais de ditos ensinamentos, permite reconhecer
ao leitor as emoções de sua própria alma e se as ensina, pelo modo como algo o
afeta ou o perturba; de acordo com este livro pode ter uma idéia aproximada do
que deve dizer. Por isso, não se contenta com escutar simplesmente, senão que
sabe como falar e como atuar para curar seu mal. É certo que também os outros
livros tem palavras que proíbem o mal, porém, este também descreve como
afastar-se dele. Por exemplo: fazer penitência é um preceito; fazer penitência
significa deixar de pecar; aqui se indica não só como fazer penitência e o que
é necessário dizer para arrepender-se. Assim mesmo Paulo disse: "A
atribulação produz na alma a constância; a constância, a virtude provada; a virtude
provada, a esperança; e a esperança não fica despojada" (Rom. 5,3-5).
Os Salmos descrevem e mostram, ademais, como suportar as atribulações, o que
deve fazer o afligido, o que deve dizer uma vez passada a atribulação, como
cada um é posto à prova, quais são os pensamentos do que espera no Senhor... O
de dar graças em toda circunstância é também um preceito. Os Salmos indicam o
que deve dizer aquele que dá graças. Sabendo, por outro lado, que os que
pretendem viver piedosamente serão perseguidos, aprendemos dos Salmos como
clamar quando fugimos em meio a perseguição, e que palavras dirigir a Deus uma
vez escapando dela. Somos convidados a bendizer ao Senhor, encontramos as
expressões adequadas para manifestar-lhe nossa confissão. Os Salmos expressam como
devemos elogiar ao Senhor, que palavras lhe rendem homenagem de modo adequado.
Para toda ocasião e sobre todo argumento, encontraremos então poemas divinos
adequados às nossas emoções e sensibilidade.
CAPÍTULO I
Todavia, isto de
assombroso e maravilhoso tem os Salmos: ao ler os demais livros, aqueles que
dizem os santos e o objeto de seus discursos, os leitores o relacionam com o
argumento do livro, os ouvintes se sentem estranhos ao relato, de modo que as
ações recordadas suscitam mera admiração ou o simples desejo de rivalizá-las.
Aqueles que, por outro lado, abrem o livro dos Salmos recorrem, com a admiração
e o assombro costumeiros, às profecias sobre o Salvador contidas já nos
restantes livros, porém lêem os salmos como se fossem pessoais. O ouvinte,
igual ao autor, entra em clima de compulsão, apropriando-se as palavras dos
cânticos como se fossem suas. Para ser mais claro, não vacilaria, igual que o
benaventurado Apóstolo, em retomar o dito: "Os discursos pronunciados
em nome dos patriarcas, são numerosos; Moisés falava e Deus respondia; Elias e
Eliseu, estabelecidos sobre a montanha do Carmelo, invocavam sem cessar ao
Senhor, dizendo: 'Vive o Senhor, em cuja presença estou hoje!'" (1Rs
17,1; 2Rs 3,4). As palavras dos demais santos profetas têm por objeto o
Salvador, e um certo número se referem aos pagãos e a Israel. Contudo, nenhuma
pessoa pronunciaria as palavras dos patriarcas como se fossem suas, nem ousaria
imitar e pronunciar as mesmas palavras que Moisés, nem as de Abraão acerca de
sua escrava e Ismael ou as referentes ao grande Isaac; por necessário ou útil
que fosse, nada se animaria a dizê-las como próprias. Ainda que um se
compadecesse dos que sofrem e desejasse o melhor, jamais diria como Moisés: "Mostra-te
a mim!" (Ex 33,13), ou tampouco: "Se perdoas seu pecado,
perdoado serás; se não o perdoas, apaga-me do livro que tu escreveste"
(Ex 33,12). Ainda no caso dos profetas, nada empregaria pessoalmente seus
oráculos para elogiar ou repreender aqueles que se assemelham por suas ações
aos que eles repreendiam ou elogiavam; ninguém diria: "Vive o Senhor,
em cuja presença estou hoje!" Quem toma em suas mãos esses livros, vê
claramente que as ditas palavras devem ler-se não como pessoais, mas sim como
pertencentes aos santos e aos objetos dos quais falam. Os Salmos - coisa
estranha! - salvo o que concerne ao Salvador e às profecias sobre os pagãos,
são para o leitor palavras pessoais: cada um as canta como escritas para ele e
não as toma nem as recorre como escritas por outro, nem tampouco referentes a
outro. Suas disposições (de ânimo) são as de alguém que fala de si mesmo. O que
diz, o orador o eleva até Deus como se fora ele quem falara e atuara. Não
experimenta temor algum diante destas palavras, como diante às dos patriarcas,
de Moisés ou dos outros profetas, senão por bem, considerando-as como pessoais
e escritas referidas a ele, encontra a coragem para proferi-las e cantá-las.
Seja que um cumpra ou quebre os mandamentos, os Salmos se aplicam a ambos. É
necessário, em qualquer caso, seja como transgressor, seja como cumpridor,
ver-se como obrigado a pronunciar as palavras escritas sobre cada qual.
» CAPÍTULO II
[As palavras dos Salmos]
me parecem que são para quem as canta, como um espelho no qual se refletem as
emoções da sua alma para que assim, sob seu efeito, possa recitá-las. Até quem
somente os escuta, percebe o canto como referido a ele: ou convencido por sua
consciência e, afligido, se arrepende; ou ouvindo falar da esperança em Deus e
do auxilio concedido aos crentes, se alegra de que lhe haja sido outorgado e
prorrompe em ações de graças a Deus. Assim, por exemplo, canta alguém o salmo
terceiro? Refletindo sobre suas próprias atribulações, se apropriaria das
palavras do salmo. Assim mesmo, lerá ao 11 e ss. e ao 16 e ss. de acordo com a
sua confiança e oração; o recitado do 50 e ss. será expressão de sua própria
penitência; o 53 e ss., 55 e ss., 100 e ss. e o 41ss. expressam seus
sentimentos sobre a perseguição de que ele é objeto; são suas palavras as que
canta ao Senhor. Assim pois, cada salmo, sem entrar em maiores detalhes,
pode-se dizer que está composto e é proferido pelo Espírito, de modo que nessas
mesmas palavras, como já o disse antes, podemos captar os movimentos da nossa
alma e nos faz dizer como provenientes de nós mesmos, como palavras nossas,
para que, trazendo à memória nossas emoções passadas, reformemos a nossa vida
espiritual. O que os salmos dizem pode servir-nos de exemplo e de padrão de
medida.
» CAPÍTULO III
Isto também é dom do
Salvador: feito homem por nós, ofereceu por nós seu corpo à morte, para
livrar-nos a todos da morte. Querendo mostrar-nos sua maneira celestial e
perfeita de viver, a criou em si mesmo para que não sejamos já facilmente
enganados pelo inimigo, já que temos uma prenda segura na vitoria que em favor
nosso obteve sobre o diabo. É por esta razão que não só ensinou, mas também
praticou seu ensinamento, de modo que cada um o escute quando fala e,
olhando-o, como se observa a um modelo, aceite dele o exemplo, como quando diz:
"Aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração" (Mt
11,29). Não poderá existir ensinamento mais perfeito da virtude que a realizada
pelo Salvador em sua própria pessoa: paciência, amor à humanidade, bondade,
fortaleza, misericórdia, justiça, tudo o encontramos nele e nada temos que
esperar, quanto a virtudes, ao observar detidamente sua vida. Paulo o dizia
claramente: "Sejam imitadores meus, como eu o sou de Cristo"
(1Cor 11,1). Os legisladores, entre os gregos, tem graça unicamente para
legislar; o Senhor, qual verdadeiro Senhor do universo, preocupado por sua
obra, não somente legisla, mas também se dá como modelo para que aqueles que o
desejam, saibam como atuar. Ainda antes de sua vinda entre nós, o colocou
manifesto nos Salmos, de maneira que igual que nos proveu da imagem acabada do
homem terreno e celestial em sua própria pessoa; também nos Salmos, aquele que
o deseja, pode aprender e conhecer as disposições da alma, encontrando como
curá-las e retificá-las.
» CAPÍTULO IV
Falando com maior
precisão, pontualizemos então que se toda a Escritura divina é mestra de
virtude e de fé autêntica, o livro dos Salmos oferece, ademais, um perfeito
modelo de vida espiritual. Igual a quem se apresenta diante de um rei e assume
as corretas atitudes corporais e verbais, não seja que apenas abra a boca, seja
arrojado fora por sua falta de compostura, também a aquele que corre até a meta
das virtudes e deseja conhecer a conduta do Salvador durante sua vida mortal; o
sagrado Livro o conduz primeiro, através da leitura, à consideração dos
movimentos da alma e, a partir daí, vai representando sucessivamente o resto,
ensinando aos leitores graças a ditas expressões. Neste livro, chama a atenção
que alguns salmos contenham narrações históricas, outros admoestações morais,
outros profecias, outros súplicas e outros, todavia, confissão.
» CAPÍTULO V
Estando, então, os salmos dispostos acima ordenados
desta maneira, é possível aos leitores - como já o disse antes - descobrir em
cada um deles os movimentos e a constituição de sua alma, do mesmo modo que
descobrem o gênero e o ensinamento que cada um lhes transmitem.
Igualmente se pode aprender deles as palavras a
dizer para agradar o Senhor, ou com quais palavras expressar o desejo de
corrigir-se e arrepender-se ou de dar-lhe graças. Tudo isto impede, ao que
recita literalmente estas expressões, cair na impiedade. Já que não somente
tenhamos de dar a razão das nossas obras ao Juiz (Supremo), como também de toda
palavra inútil (Mt 12,36):
CAPÍTULO VI
» CAPÍTULO VII
» CAPÍTULO VIII
» CAPÍTULO IX
» CAPÍTULO X
CAPÍTULO XI
» CAPÍTULO XII
» CAPÍTULO XIII
A
terra se livrou dos guerreiros e apareceu a paz: reina o Senhor e tu queres
fazê-lo objeto de teus louvores, aí tens o 96.
» CAPÍTULO XIV
» CAPÍTULO XV
CAPÍTULO XVI
Se ao salmodiar queres
destacar o que se refere ao Salvador, encontrarás referências praticamente em
cada salmo; assim, por exemplo:
» CAPÍTULO XVII
Esta é a característica que possui o livro dos
Salmos, para utilidade dos homens: uma parte dos salmos foram escritos para a
purificação dos movimentos da alma; outra parte, para anunciarmos
profeticamente a vinda na carne de nosso Senhor Jesus Cristo, como acima
dissemos.
Porém, de modo algum devemos passar por alto a
razão pela qual os salmos se modulam harmoniosamente e com canto. Alguns
simplórios entre nós, se bem crêem na inspiração divina das palavras, sustentam
que os salmos se cantam pelo agradável dos sons e para o prazer do ouvido. Isto
não é exato. A Escritura para nada buscou o encanto ou a sedução, e sim a
utilidade da alma; esta forma foi eleita sobre tudo por duas razoes:
1.
Em primeiro
lugar, convinha que a Escritura não louvasse a Deus unicamente numa seqüência
de palavras rápidas e contínuas, mas sim também com voz lenta e pausada. Em seqüência
ininterrupta se lêem a Lei, os Profetas, os livros históricos e o Novo
Testamento; a voz pausada é empregada para os Salmos, odes e cânticos. Assim se
obtém que os homens expressem seu amor a Deus com todas as suas forças e com
todas as suas possibilidades.
2.
A segunda
razão apóia em que, como uma boa flauta unifica e harmoniza perfeitamente todos
os sons, do mesmo modo requer a razão que os diversos movimentos da alma, como
pensamento, desejo, cólera, sejam a origem das distintas atividades do corpo,
de modo que o trabalho do homem não seja desarmônico, conflitando consigo
mesmo, pensando muito bem e trabalhando muito mal; por exemplo, Pilatos que
disse: "Nenhum delito encontro nele para condená-lo à morte"
(Jo 18,38), porém trabalhou segundo o querer dos judeus... Ou, que desejando
trabalhar mal, estejam impossibilitados de realizá-lo, como os anciãos com
Susana... Ou que ainda abstendo-se de adulterar, seja ladrão, ou, sem ser
ladrão seja homicida, ou, sem ser assassino seja blasfemador.
» CAPÍTULO XVIII
Para impedir que surja essa desarmonia interior, a
razão requer que a alma, que possui o pensamento de Cristo (cf. 1Cor 2,16),
como disse o Apóstolo, faça que este lhe sirva de diretor, que domine nele suas
paixões, ordenando os membros do corpo para que obedeçam a razão. Como pleito
para a harmonia, nesse saltério que é o homem, o Espírito deve ser fielmente
obedecido, os membros e seus movimentos devem ser dóceis obedecendo a vontade
de Deus. Esta tranqüilidade perfeita, esta calma interior, tem sua imagem e
modelo na leitura modulada dos Salmos. Nos damos a conhecer os movimentos da
alma através das nossas palavras; por isso o Senhor, desejando que a melodia
das palavras fosse o símbolo da harmonia espiritual na alma, fez cantar os
Salmos melodiosa, modulada e musicalmente. Precisamente este é o desejo da
alma, vibrar em harmonia, como está escrito: "Algum de vós é feliz, que
cante!" (St 5,13). Assim, salmodiando, se aplaca o que nele haja de
confuso, áspero ou desordenado e o canto cura até a tristeza: "Por que
estás triste, alma minha, por que me perturbas?" (Sal 41,6.12 e 42,5);
reconhecer seu erro confessando: "Quase resvalaram minhas pisadas"
(Sal 72,2); e no temor fortalecer a esperança: "O Senhor está comigo:
não temo; que poderá fazer-me aquele homem?" (Sal 117,6).
» CAPÍTULO XIX
Os que não lêem desta maneira os cânticos divinos,
não salmodiam sabiamente, mas buscam seu deleite, e merecem reprovação, já que
o louvor não é formoso na boca do pecador (cf. Eclo. 15,9). Porém, quando se
cantam da maneira que acima mencionamos, de modo que as palavras se vão
proferindo ao ritmo da alma e em harmonia com o Espírito, então cantam em
uníssono a boca e a mente; ao cantar assim, são úteis a si mesmos e aos
ouvintes bem dispostos. O bem-aventurado Davi, por exemplo, cantando para Saul,
alegrava a Deus e alijava de Saul a perturbação e a loucura, devolvendo-lhe a
tranqüilidade à sua alma. De idêntica maneira os sacerdotes ao salmodiar,
aportavam a calma à alma das multidões, induzindo-as a cantar unânimes com os
coros celestiais. O fato de que os Salmos se recitem melodiosamente, não é em
absoluto indício de buscar sons prazenteiros, e sim reflexo da harmoniosa
composição da alma. A leitura mensurada é símbolo da índole ordenada e
tranqüila do espírito. Louvar a Deus com pratinhos sonoros, com a cítara e o
saltério de dez cordas, é, a sua vez, símbolo e indicação de que os membros do
corpo estão harmoniosamente unidos do modo que estão as cordas; de que os
pensamentos da alma atuam qual címbalos, recebendo todo o conjunto, movimento e
vida a impulsos do espírito, já que viveram, como está escrito, e com o
Espírito fazem morrer as obras do corpo (cf. Rom. 8,13). Quem salmodia desta
maneira harmoniza sua alma levando-a do desacordo ao acorde, de modo que, falando-se
em natural acordo nada a perturbe, ao contrário da imaginação pacificada que
deseja ardentemente os bens futuros. Bem disposta pela harmonia das palavras,
olvida suas paixões, para centrada, gostosa e harmoniosamente em Cristo
conceber os melhores pensamentos.
» CAPÍTULO XX
É portanto necessário, filho meu, que todo o que lê
este livro o faça com pureza de coração, aceitando que se deve à divina
inspiração, e, beneficiando-se dele por isso mesmo, como dos frutos do jardim
do paraíso, empregando-os segundo as circunstâncias e a utilidade de cada um
deles.
Estimo, com efeito, que nas palavras deste livro se
contem e descrevam todas as disposições, todos os afetos e todos os pensamentos
da vida humana e que fora destes não há outros.
Há necessidade de arrependimento ou confissão; se
lhes surpreenderam a aflição ou a tentação; se és perseguido ou se escapou a
emboscadas; se estás triste, em dificuldades ou tens algum dos sentimentos
acima mencionados; ou se vives prosperamente, havendo triunfado sobre teus
inimigos, desejando louvar, dar graças ou bendizer ao Senhor... Para qualquer
destas circunstâncias, deve-se falar o ensinamento adequado nos Salmos divinos.
Que eleja aqueles relacionados com cada um desses argumentos, recitando-os como
se ele os proferira, e adequando os próprios sentimentos aos neles expressados.
CAPÍTULO XXI
De modo algum se busque
adorná-los com palavras sedutoras, modificar suas expressões ou trocá-las
totalmente; leia e cante-se o que está escrito, sem artifícios, para que os
santos varões que nos legaram esses salmos, reconheçam o tesouro de sua
propriedade, conosco há pouco tempo, ou melhor, o faça o Espírito Santo, que
falou através deles, e, ao constatar que nossos discursos são eco perfeitos dos
seus, venham em nossa ajuda. Pois sendo a vida dos santos melhor que a do
resto, portanto melhores e mais poderosas se tenham, com toda verdade, suas
palavras que nós agregamos. Pois com essas palavras agradaram a Deus e, ao
proferi-las, eles lograram - como o disse o Apóstolo - conquistar reinos,
fizeram justiça, alcançaram as promessas, cerraram a boca aos leões; apagaram a
violência do fogo, escaparam do fio da espada, curaram suas enfermidades, foram
valentes na guerra, rechaçaram exércitos estrangeiros e as mulheres recobraram ressuscitados
a seus mortos (cf. Hb 11, 33-35).
» CAPÍTULO XXII
Todo o que agora lê
essas mesmas palavras [dos Salmos], tenha confiança que por elas Deus virá
instantaneamente em nossa ajuda. Se está afligido, sua leitura procurará um
grande consolo; se é tentado ou perseguido, ao cantá-las saldará fortalecido e
como mais protegido pelo Senhor, que já havia protegido antes ao autor, e fará
que ouçam (os inimigos) o diabo e seus demônios. Se há pecado, voltará a si e
deixará de fazê-lo; se não há pecado, se estimará ditoso ao saber que corre em
procura dos verdadeiros bens; na luta, os Salmos darão as forças para não
apartar-se jamais da verdade; ao contrário, convencerá aos impostores que
tratavam de induzi-lo ao erro. A garantia de tudo isso não é um mero homem mas
sim a mesma Escritura divina. Deus ordenou a Moisés escrever o grande Cântico,
ensinando-o ao povo; ao que ele constituíra como chefe, lhe ordenou transcrever
o Deuteronômio, guardando-o entre suas mãos e meditando continuamente suas
palavras, pois seus discursos são suficientes para trazer à memória a
recordação da virtude e aportar ajuda aos que os meditam sinceramente. Quando
Josué, filho de Nuná penetrou na terra prometida, vendo os acampamentos
inimigos e os reis amorreus reunidos, todos em som de guerra, em lugar de armas
ou espadas, empunhou o livro do Deuteronomio; o leu diante de todo o povo,
recordando as palavras da Lei, e havendo armado o povo, saiu vencedor sobre os
inimigos. O rei Josías, depois do descobrimento do livro e sua leitura pública,
não albergava já temor algum de seus inimigos. Quando o povo saía à guerra, a
Arca contendo as tábuas da Lei ia adiante do exército, sendo proteção mais que
suficiente, sempre que não houvera entre os portadores ou no seio do povo
prevalência de pecado ou hipocrisia. Pois se necessita que a fé vá acompanhada
pela sinceridade para que a Lei dê resposta à oração.
» CAPÍTULO XXIII
Ao menos eu, o ancião,
escutei da boca de homens sábios, que antigamente, em tempos de Israel, bastava
a leitura da Escritura para por em fuga os demônios e destruir as armadilhas
estendidas por eles aos homens. Por isso, me dizia [meu interlocutor], são de
todo condenáveis aqueles que, abandonando estes livros, compõem outros com expressões
elegantes, fazendo-se chamar exorcistas, como ocorreu aos filhos do judeu
Esceva, quando tentaram exorcizar dessa maneira! Os demônios se divertem e
burlam quando os escutam; pelo contrário tremem diante das palavras dos santos
e nem ouvi-las podem. Pois nas palavras da Escritura está o Senhor e ao não
poder suportás-las gritam: "Te rogo que não me atormentes antes do
tempo!" (Lc 8,28). Com somente a presença do Senhor se consumiam. Do
mesmo modo, Paulo dava ordens aos espíritos impuros e os demônios se submetiam
aos discípulos. E a mão do Senhor caiu sobre Eliseu, o profeta, de modo que
profetizou aos três reis acerca da água quando, por ordem sua, o salmista
cantava ao som do saltério. Inclusive agora, se um está preocupado pelos que
sofrem, leia os Salmos e lhes ajudará muitíssimo, demostrando igualmente que o
que sofre é firme e verdadeiro; ao vê-lo, Deus concede a completa saúde aos
necessitados. Sabendo-o, o santo disse no salmo 118: "Meditarei sobre
teus decretos, não olvidarei tuas palavras", e também: "Teus
decretos eram meus cantos, no lugar de minha peregrinação. Nelas encontrarão
salvação ao dizer: 'se tua lei não fosse minha meditação, já haveria perecido
em minha humilhação'".
Também Paulo buscava
confirmar a seu discípulo, ao dizer: "Medita estas coisas; vive
entregue a elas para que teu aproveitamento seja manifestado a todos"
(1 Tim 4,15). Pratica-o igualmente tu, lê com sabedoria os Salmos e poderás,
sob a direção do Espírito, compreender o significado de cada um. Imitarás a
vida que levaram os varões santos, que entusiasmados pelo Espírito de Deus isto
tudo disseram.