Catequeses Mistagógicas
S. Cirilo de Jerusalém (IV século)
www.padresdodeserto.net
Tradução de frei Frederico Vier,
O.F.M.
1ª CATEQUESE MISTAGÓGICA
Primeira Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados
e leitura da primeira epístola católica de São Pedro desde: «Estai alerta e
vigia» até o final da epístola do mesmo Cirilo e do
bispo João.
Finalidade destas catequeses
1 Desde há muito tempo desejava
falar-vos, filhos legítimos e muito amados da Igreja, sobre estes espirituais e
celestes mistérios. Mas como sei bem que a vista é mais fiel que o ouvido, esperei a ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta
grande noite, mais preparados para compreender o que se vos fala e levar-vos
pelas mãos ao prado luminoso e fragrante deste paraíso. Além disso, já estais melhor preparados para apreender os mistérios todo divinos
que se referem ao divino e vivificante batismo. Uma vez, pois, que vos
proporemos uma mesa com doutrinas de iniciação perfeita, é necessário
ensinar-vos com precisão, para penetrardes o sentido do que se passou convosco
nesta noite batismal.
2 Entrastes primeiro no adro do batistério.
Depois vos voltastes para o Ocidente e atentos escutastes. Recebestes então a
ordem de estender a mão, e renunciastes a satanás como se estivesse ali
presente. É preciso que saibais que na história antiga há uma figura deste
gesto. Quando o faraó, o mais inumano e cruel tirano, oprimia o povo livre e
nobre dos hebreus, Deus enviou Moisés a tirá-los desta penosa escravidão dos
egípcios. Com sangue de cordeiro eram ungidas as ombreiras das portas, a fim de
que o exterminador passasse pelas casas que ostentassem o sinal do sangue.
Assim, o povo dos hebreus foi admiravelmente libertado. Quando, depois da
libertação, faraó os perseguiu e viu o mar abrir-se maravilhosamente diante
deles, avançou mesmo assim ao encalço deles e, submerso instantaneamente, foi
engolido pelo Mar Vermelho.
3 Passai agora comigo das coisas
antigas às novas, da figura à realidade. Lá Moisés foi enviado por Deus ao
Egito; aqui Cristo, do seio do Pai, foi enviado ao mundo. Aquele para tirar o
povo oprimido do Egito; Cristo para livrar os que no mundo são acabrunhados
pelo pecado. Lá o sangue do cordeiro afastou o anjo exterminador; aqui o sangue
do Cordeiro Imaculado, Jesus Cristo, constitui um refúgio contra os demônios.
Aquele tirano perseguiu até o mar este povo antigo; e a ti, o
demônio atrevido, impudente e príncipe do mal, te segue até as fontes
mesmas da salvação. Aquele afogou-se no mar; este
desaparece na água da salvação.
Renúncia a satanás
4 Entretanto, ouves, com a mão
estendida, dizer como a um presente: «Eu renuncio a ti, satanás». Quero também
falar-vos porque estais voltados para o Ocidente, pois é necessário. O Ocidente
é o lugar das trevas visíveis e como aquele [satã] é
trevas, tem o seu poder nas trevas. Por essa razão, simbolicamente olhais para
o Ocidente e renunciais a este príncipe tenebroso e sombrio. O que então cada
um de vós, de pé, dizia? Renuncio a ti, satanás, a ti mau e crudelíssimo
tirano: já não temo, dizias, a tua força. Pois Cristo a destruiu, fazendo-me
participe de seu sangue e de sua carne, a fim de abolir a morte pela morte e eu
não estar eternamente sujeito à escravidão. Renuncio a ti, serpente astuta e
capaz de todo mal. Renuncio a ti, que armas insídias e, simulando amizade,
praticaste toda sorte de iniqüidade e sugeriste a nossos
primeiros pais a apostas ia. Renuncio a ti, satanás, artífice e cúmplice
de todo mal.
5 Em seguida, numa segunda
fórmula, és ensinado a dizer: «E a todas as tuas
obras». Obras de satanás são todos os pecados, aos quais é necessário
renunciar, assim como quem foge de um tirano atira para longe de si todas as
armas dele. Todo o gênero de pecado está, pois, incluído nas obras do diabo.
Aliás, sabes que tudo quanto dizes naquela hora tremente está inscrito nos
livros invisíveis de Deus. Se, pois, fores surpreendido fazendo algo contrário
a estes, serás julgado como transgressor. Renuncias, portanto, às obras de
satanás, isto é, a todas as ações e pensamentos contrários à promessa.
6 Depois dizes:
«E a toda a sua pompa». Pompa do diabo é a mania do teatro, das corridas de
cavalo, da caça e de toda vaidade desta espécie. Dela pede o santo ser livrado,
dizendo a Deus: «Não permitais que meus olhos vejam a vaidade». Não te
entregues desenfreadamente à mania do teatro, onde se
encontram os espetáculos obscenos dos atores, executados com insolências e com
toda sorte de indecências, e com danças furiosas de homens efeminados. Nem
tampouco sejas daqueles que na caça se expõem a si mesmos às feras, para
contentar o infeliz ventre, os quais, querendo regalar o estômago com petiscos,
se tornam alimentos dos animais selvagens. Exprimindo-me melhor, por causa
deste seu deus, o ventre, arriscam sua vida em combate singular. Foge também
das corridas de cavalos, espetáculo insano que leva as almas à perdição. Porque
tudo isto é pompa do diabo.
7 Mas ainda tudo o que é exposto
nos templos dos ídolos e nas suas festas, quer sejam carnes ou pães ou coisas
semelhantes, inquinados pela invocação dos demônios infames, são contados como
pompa do diabo. Pois, assim como o pão e o vinho da eucaristia,
antes da santa epiclese da adorável Trindade, eram
simplesmente pão e vinho, mas depois da epiclese o
pão se torna corpo de Cristo e o vinho sangue de Cristo, da mesma maneira estes
alimentos que pertencem à pompa de satanás, por sua própria natureza simples,
tornam-se, pela invocação dos demônios, impuros.
8 Depois disto tu dizes: «E a teu culto». Culto do diabo é a prece feita nos
templos dos ídolos, tudo que se faz em honra dos simulacros inanimados: acender
luzes ou queimar incenso perto de fontes e rios, como fazem
alguns que, enganados por sonhos e demônios, chegam a isso, crendo que
encontram a cura de doenças corporais. Não vás atrás destas coisas. Augúrios,
adivinhação, agouros, amuletos, inscrições em lâminas, magias ou outras artes
más são culto do diabo. Foge, portanto, de tudo isto.
Se a eles sucumbes, depois de teres renunciado a satanás e aderido a Cristo,
experimentarás um tirano mais cruel. Aquele que antes te tratou talvez como
familiar e te libertou da dura escravidão, agora está
fortemente irritado contra ti. De Cristo serás privado e experimentarás àquele
[satanás]. Não ouviste o que a antiga história nos conta de Lot
e suas filhas? Não se salvou ele com as filhas, tendo alcançado a montanha,
enquanto sua mulher se transformou em estátua de sal para sempre, constituindo
uma recordação de sua má vontade e de seu olhar curioso para trás? Cuida, pois,
de ti mesmo e não te voltes novamente para trás, depois de teres posto a mão no
arado, para a prática amarga desta vida. Foge antes para a montanha para junto
de Jesus Cristo, a pedra talhada não por mãos e que encheu a terra.
Profissão de fé
9 Quando, então, renuncias a
satanás, rompendo todo pacto com ele, quebras as velhas alianças com o inferno.
Abre-se para ti o paraíso de Deus, que ele plantou para o lado do oriente,
donde por sua transgressão foi expulso nosso primeiro pai. Disto é símbolo o te
voltares do Ocidente para o Oriente, lugar da luz. Então te foi ordenado que
dissesses: «Creio no Pai e no Filho e no Espírito Santo e no único batismo de
penitência». Disto vos falamos extensamente, nas catequeses anteriores, como
no-lo permitiu a graça de Deus.
10 Fortalecido por estas
palavras, vigia. Pois nosso adversário o diabo, como
foi lido, anda ao redor, buscando a quem devorar. Deveras, nos tempos
anteriores a este, a morte devorava, poderosa. Depois do batismo sagrado da regeneração , Deus enxugou toda lágrima de todas as
faces.Com efeito, já não choras por teres te despido do velho homem, mas estás
em festa porque te revestiste com a vestimenta da salvação, Jesus Cristo.
11 Tudo
isto se realizou no edifício exterior. Se aprouver a Deus, quando nas
Catequeses Mistagógicas seguintes entrarmos no Santo
dos Santos, conheceremos, então, os símbolos das coisas que lá se realizam.
A Deus
glória, poder e magnificência, com o Filho e o Espírito Santo pelos séculos dos
séculos. Amém.
2ª CATEQUESE MISTAGÓGICA
Segunda Catequese Mistagógica sobre o Batismo e leitura da epistola aos
romanos: «Ou ignorais que todos nós que fomos batizados para Cristo Jesus fomos
batizados para [participar da] sua morte?» até: «Pois que não estais sob a lei,
mas sim sob a graça».
1 Úteis vos são
as cotidianas mistagogias e os novos ensinamentos que
vos anunciam novas realidades, e isto tanto mais a vós que fostes renovados da vetustez para a novidade. Por isso é necessário que vos
proponha o que se segue à instrução mistagógica de
ontem, a fim de que compreendais a significação simbólica do que foi realizado
por vós no interior do edifício.
Despojamento dos vestidos
2 Logo que entrastes, despistes a
túnica. E isto era imagem do despojamento do velho homem com suas obras.
Despidos, estáveis nus, imitando também nisso a Cristo
nu sobre a cruz. Por sua nudez despojou os principados e as potestades e no
lenho triunfou corajosamente sobre eles. As forças inimigas habitavam em vossos
membros. Agora já não vos é permitido trazer aquela velha túnica, digo, não esta túnica visível, mas o homem velho corrompido
pelas concupiscências falazes. Oxalá a alma, uma vez despojada dele, jamais
torne a vesti-la, mas possa dizer com a esposa de Cristo, no Cântico dos
Cânticos: «Tirei minha túnica, como irei revesti-la?». Ó maravilha, estáveis
nus à vista de todos e não vos envergonhastes. Em verdade éreis
imagem do primeiro homem Adão, que no paraíso andava nu e não se envergonhava.
Unção
3 Depois de despidos, fostes ungidos com óleo exorcizado desde o alto da cabeça
até os pés. Assim, vos tornastes participantes da
oliveira cultivada, Jesus Cristo. Cortados da oliveira bravia,
fostes
enxertados na oliveira cultivada e vos tornastes participantes da abundância da
verdadeira oliveira. O óleo exorcizado era símbolo, pois, da participação da
riqueza de Cristo. Afugenta toda presença das forças adversas. Como a
insuflação dos santos e a invocação do nome de Deus, qual chama impetuosa,
queima e expele os demônios, assim este óleo exorcizado recebe, pela invocação
de Deus e pela prece, uma tal força que, queimando,
não só apaga os vestígios dos pecados, mas ainda põe em fuga as forças
invisíveis do maligno.
Imersão baptismal
4 Depois disto fostes conduzidos
pela mão à santa piscina do divino batismo, como Cristo da cruz ao sepulcro que
está à vossa frente. E cada qual foi perguntado se cria no nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo. E fizestes a profissão
salutar, e fostes imersos três vezes na água e em seguida emergistes,
significando também com isto, simbolicamente, o sepultamento de três dias de
Cristo. E assim como nosso Salvador passou três dias e três noites no coração
da terra , do mesmo modo vós, com a primeira imersão,
imitastes o primeiro dia de Cristo na terra, e com a imersão, a noite. Como
aquele que está na noite nada enxerga e ao contrário o que está no dia tudo
enxerga na luz, assim vós na imersão, como na noite, nada enxergastes; mas na
emersão, de novo vos encontrastes no dia. E no mesmo momento morrestes e
nascestes. Esta água salutar tanto foi vosso sepulcro como vossa mãe. E o que
Salomão disse em outras circunstâncias, sem dúvida, pode ser adaptado a vós:
«Há tempo para nascer, e tempo para morrer». Mas para vós foi o inverso: tempo
para morrer, e tempo para nascer. Um só tempo produziu ambos os efeitos e o
vosso nascimento ocorre com vossa morte.
Efeitos místicos
5 Oh! fato
estranho e paradoxal! Não morremos em verdade, não fomos sepultados em verdade,
não fomos crucificados e ressuscitados
6 Ninguém,
pois, creia que o batismo só obtém a remissão dos pecados, como o batismo de
João só conferia o perdão dos pecados. Também nos concede a graça da adoção de
filhos. Mas nós sabemos, com precisão, que como é purificação dos pecados e prodigalizador do dom do Espírito Santo, é também figura da
Paixão de Cristo. Por isso clama a propósito Paulo, dizendo: «Ou ignorais que
todos nós, que fomos batizados para Cristo Jesus, fomos batizados para
[participar da] sua morte? Com ele fomos sepultados pelo batismo». Talvez
dissesse estas coisas por causa de alguns, dispostos a ver o batismo como prodigalizador da remissão dos pecados e da adoção, mas não
como participação, por imitação, dos verdadeiros sofrimentos de Cristo.
7 Para que aprendêssemos que tudo
o que Cristo tomou sobre si foi por nós e pela nossa salvação, tudo sofrendo em
verdade e não em aparência e para que nos tornássemos participantes dos seus
sofrimentos, exclamava veementemente Paulo: «Se fomos plantados com [Ele] pela
semelhança de sua morte, também o seremos pela semelhança de sua ressurreição».
Boa é a expressão «plantados com Ele». Logo que foi plantada a verdadeira vide,
nós também pela participação do batismo da sua morte «fomos plantados». Fixa a
mente com toda a atenção nas palavras do Apóstolo. Não disse: Fomos plantados
com Ele pela morte, mas, pela semelhança da morte. Deveras, houve em Cristo uma
morte real, pois a alma se separou do corpo. Houve verdadeiramente
sepultamento, pois seu corpo sagrado foi envolvido em lençol limpo e foi
verdadeiro tudo o que nele ocorreu. Para nós há a semelhança da morte e dos
sofrimentos. Quando se trata da salvação, porém, não é semelhança e sim
realidade.
8 Todas estas coisas foram
ensinadas suficientemente: retende tudo em vossa memória, rogo-vos, para que
eu, ainda que indigno, possa dizer-vos: «Amo-vos porque sempre vos lembrais de
mim e conservais as tradições que vos transmiti». Ademais, poderoso é Deus que
de mortos vos fez vivos, para conceder-vos que andeis em novidade de vida. A
Ele a glória e o poder, agora e pelos séculos. Amém.
3ª CATEQUESE MISTAGÓGICA
Terceira Catequese Mistagógica sobre a Crisma e leitura da primeira epístola
de São João, a começar com: «Vós tendes a unção de Deus e conheceis todas as
coisas» até: «e por Ele não sejamos confundidos na sua vinda».
Significação espiritual
1 Batizados em
Cristo e dele revestidos, vos tornastes conformes ao Filho de Deus. Em
verdade, Deus, predestinando-nos à adoção de filhos, nos fez conformes ao corpo
glorioso de Cristo.Feitos, pois, participes de Cristo,
não sem razão, sois chamados cristos e é de vós que Deus disse: «Não toqueis os
meus cristos». Ora, vós vos tornastes cristos, recebendo o sinal do Espírito
Santo, e tudo se cumpriu em vós em imagem, pois sois
imagens de Cristo. Ele, quando banhado no rio Jordão e comunicando às águas a
força da Divindade, delas saiu e se produziu sobre ele a vinda substancial do
Espírito Santo, pousando igual sobre igual. Também a vós, ao sairdes das águas
sagradas da piscina, se concede a unção, figura daquela com que Cristo foi
ungido. Refiro-me ao Espírito Santo, do qual o bem-aventurado Isaías, na
profecia a respeito dele, disse, na pessoa do Senhor: «O Espírito do Senhor
[repousa] sobre mim, pelo que me ungiu; enviou-me para levar a boa-nova aos pobres».
2 Na verdade, Cristo não foi
ungido com óleo ou ungüento material por um homem. Mas foi o Pai que,
estabelecendo-o com antecedência como Salvador de todo o universo, o ungiu com
o Espírito Santo, conforme diz Pedro: «Jesus de Nazaré, a quem Deus ungiu com o
Espírito Santo». E o profeta Davi exclamou: «Teu trono, ó Deus, é para os
séculos dos séculos; cetro de retidão, o cetro de tua realeza. Amaste a justiça
e por isso te ungiu Deus, teu Deus, com o óleo da alegria, mais que teus
companheiros». E como Cristo foi verdadeiramente crucificado e sepultado e
ressuscitou, e vós, pelo batismo, fostes, por semelhança, tidos por dignos de
com ele ser crucificados, sepultados e ressuscita-dos,
assim também na unção do crisma. Ele foi ungido com o
óleo espiritual da alegria, isto é, com o Espírito Santo, chamado óleo de
alegria, por ser causa da alegria espiritual. Vós fostes ungidos com o óleo,
feitos, partícipes e companheiros de Cristo.
3 Vê,
porem, que não imagines ser um simples ungüento. Pois, como o pão da
Eucaristia, depois de epiclese do Espírito Santo, já
não é simples pão, mas o corpo de Cristo, assim também este santo ungüento, com
a epiclese, já não é puro e simples ungüento, mas é
dom de Cristo e obra do Espírito Santo, pela presença de sua divindade. Com ele
se unge simbolicamente tua fronte e os outros sentidos. Se, por um lado, o
corpo é ungido com o ungüento sensível, por outro, a alma é santificada pelo
santo e vivificado Espírito.
O rito da unção
4 E primeiro sois ungidos na
fronte para serdes libertados da vergonha que o primeiro homem transgressor
levou por toda parte e para que, de face descoberta, contempleis a glória do
Senhor. Depois nos ouvidos, para terdes ouvidos conforme disse Isaías: «E o
Senhor me deu um ouvido para ouvir» e o Senhor no Evangelho: «Quem tem ouvidos
para ouvir que ouça». Em seguida nas narinas, para que, ao receberdes este
divino ungüento, possais dizer: «Somos para Deus, entre os que se salvam, o bom odor de Cristo». Depois no peito, a fim de
que, «tendo revestido a couraça da justiça, resistais aos artifícios do diabo».
Como na verdade o Salvador, após seu batismo e a descida do Espírito Santo,
saiu a combater o adversário, assim também vós, depois do santo batismo e da
mística unção, revestidos da armadura do Espírito Santo, resistis à força
inimiga e a venceis dizendo: «Tudo posso naquele que
me conforta, Cristo».
5 Feitos dignos desta santa
unção, sois chamados cristãos. Assim, pela regeneração, mostra ser de direito o
nome [de cristãos]. Antes, pois, de serdes declarados dignos do batismo e da
graça do Espírito Santo, não éreis dignos deste nome, mas estáveis a caminho de
serdes cristãos.
Prefigurações escriturísticas
6 É
necessário que saibais que há ó símbolo desta unção na Escritura Antiga. E na
verdade, quando Moisés comunicou ao irmão a ordem de Deus e o estabeleceu sumo
sacerdote, depois de lavar-se com água, o ungiu e foi ele chamado Cristo, em
virtude, evidentemente, da unção figurativa. Do mesmo modo, o sumo sacerdote,
ao elevar Salomão à dignidade de rei, o ungiu, depois de lavar-se no Gion. Mas essas coisas lhes aconteceram
7 Guardai imaculada esta unção:
ensinar-vos-á todas as coisas, se permanecer em vós,
como ouvistes há pouco dizer o bem-aventurado João, explicando muitas coisas
sobre a unção. Esta unção é a salvaguarda espiritual do corpo e a salvação da
alma. Foi isto que desde tempos antigos o santo Isaías profetizou, dizendo: «E
preparará o Senhor para todos os povos nesta montanha». Por montanha ele
designa a Igreja, como outras vezes quando diz: «E nos últimos dias será
visível a montanha do Senhor»; «Beberão vinho, beberão a alegria, serão ungidos
de ungüento». E para que mais te assegures, ouve o que diz sobre este ungüento
em sentido místico: «Transmite tudo isso às nações, pois o desígnio do Senhor
se estende sobre todos os povos». Assim, pois, ungidos com este santo crisma,
guardai-o sem mancha e irrepreensível em vós, progredindo em boas obras e
tornando-vos agradáveis ao autor de nossa salvação, Cristo
Jesus, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
4ª CATEQUESE MISTAGÓGICA
Quarta Catequese Mistagógica sobre o Corpo e Sangue de Cristo e leitura da
primeira epistola aos Coríntios: «Porque eu recebi do
Senhor o que vos transmiti» etc.
1 Este ensinamento do
bem-aventurado Paulo foi estabelecido como suficiente para vos assegurar acerca
dos divinos mistérios, dos quais tendo sido julgados dignos, vos tornastes concorpóreos e consangüíneos com Cristo. O próprio Paulo
proclama precisa-mente: «Na noite em que foi entregue,
Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando o pão e depois de ter dado graças, partiu-o
e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E tomando
o cálice e tendo dado graças, disse: Tomai, bebei,
isto é o meu sangue».
2 Se ele em pessoa declarou e
disse do pão: «Isto é o meu corpo», quem se atreveria a duvidar doravante? E
quando ele afirma categoricamente e diz: «Isto é o meu sangue», quem duvidaria
dizendo não ser seu sangue? Outrora, em Caná da Galiléia, por própria autoridade, transformou a água
Presença real de Cristo
3 Portanto, com toda certeza
recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo,
e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de
Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo. Assim
nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos),
sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse modo, como diz o
bem-aventurado Pedro, «tornamo-nos participes da natureza divina».
4 Falando, outrora, aos judeus
Cristo dizia: «Se não comerdes minha carne e não
beberdes meu sangue, não tereis a vida em vós». Como não entendessem
espiritualmente o que era dito, escandalizados, se retiraram, imaginando que o
Salvador os incitava a comer carne humana.
5 Também no Antigo Testamento
havia pães de proposição. Mas esses pães, por pertencerem à antiga aliança,
tiveram fim. Na nova aliança o pão celeste e o cálice de salvação santificam a
alma e o corpo. Pois, como o pão se adequa ao corpo,
assim o Verbo se harmoniza com a alma.
6 Não consideres,
portanto, o pão e o vinho como simples elementos. São, conforme a afirmação do
Mestre, corpo e sangue. Se os sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não
julgues o que se propõe segundo o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que
foste julgado digno do corpo e sangue de Cristo.
Prefigurações escriturísticas
7 O bem-aventurado Davi te
anuncia a força [deste mistério] dizendo: «Preparaste
para mim a mesa à vista de meus inimigos». Com isso ele quer dizer: Antes de
tua vinda os demônios preparavam para os homens uma mesa contaminada e
manchada, cheia de poder diabólico. Mas depois de tua vinda, ó Senhor, tu
preparaste diante de mim uma mesa. Quando o homem diz a Deus: «Tu preparaste
diante de mim uma mesa» , que outra coisa quer ele
insinuar, senão a mística e espiritual mesa, que Deus nos preparou em oposição
ao adversário, isto é, em oposição ao demônio? Sim, é isso mesmo. Pois a
primeira mesa tinha comunhão com os demônios, essa, ao contrário, comunhão com
Deus. «Ungiste de óleo minha cabeça». Com o óleo te
ungiu a cabeça, sobre a fronte, pelo sinal que tens de Deus, a fim de que te
tornes assinalado santo de Deus. «E teu cálice inebria-me como o melhor». Vês
aqui mencionado o cálice que Jesus tomou em suas mãos e sobre o qual rendeu
graças dizendo: «Este é o meu sangue, que é derramado por todos, em remissão
dos pecados».
8 Por isso também Salomão,
aludindo a essa graça, disse: «Vem, come teu pão na alegria», o pão espiritual.
«Vem» designa o apelo salutar e que faz bem-aventurado. «E bebe, de bom
coração, teu vinho», o vinho espiritual. «Derrama o óleo sobre tua cabeça (vês
aqui mais uma alusão à unção mística?) Traja sempre vestes brancas, já que Deus
sempre favorece as tuas obras». Pois agora Deus se agradou de tuas obras. Antes
de te aproximares da graça eram tuas obras «vaidade das vaidades». Todavia
agora, tendo despido as velhas vestes e revestido espiritualmente a veste
branca, é necessário estar sempre vestido de branco. Não dizemos isso
absolutamente porque é preciso estar trajado de branco, mas porque deves, em
realidade, revestir a veste branca, brilhante e espiritual, a fim de dizeres
com o bem-aventurado Isaías: «Com grande alegria me rejubilei no Senhor, porque
me fez revestir a vestimenta da salvação e me cobriu com a túnica da alegria».
9 Tendo aprendido e estando
seguro de que o que parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o
corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira,
mas o sangue de Cristo ? e
porque sobre isto dizia vibrando Davi: «O pão fortalece o coração do homem,
para que no óleo se regozije o semblante» ? fortalece
o teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de
tua alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência
pura, contempleis a glória do Senhor, para ir de glória em glória,
5ª CATEQUESE MISTAGÓGICA
Quinta Catequese Mistagógica e leitura da epístola católica de Pedra:
«Despojai-vos, pois, de toda malícia e falsidade e maledicência» , etc.
A Celebração Eucarística
1 Pela benignidade de Deus, ouvistes de maneira suficiente, nas reuniões precedentes,
sobre a batismo, a crisma e a participação do corpo e sangue de Cristo. Mas
agora é necessário ir adiante, para coroar o edifício espiritual de vossa
instrução.
2 Vistes o diácono oferecer água
ao pontífice e aos presbíteros que rodeiam o altar de Deus para lavarem-se. Não
a deu, absolutamente, por causa da sujeira corporal. Não é isso. Pois com o
corpo sujo nem sequer teríamos entrado na igreja. Mas lavar as mãos é símbolo
de que nos devemos purificar de todos os pecados e de todas as faltas. Já que
as mãos são símbolo das obras, lavamo-las, indicando
evidentemente a pureza e a irrepreensibilidade das obras. Não ouviste como o
bem-aventurado Davi te introduziu neste mistério ao dizer: «Lavarei as mãos
entre os inocentes e andarei ao redor do teu altar, Senhor»? Então, lavar as
mãos é estar limpo de pecado.
3 Depois o diácono proclama:
«Acolhei-vos mutuamente e dai-vos o ósculo da paz». Não suponhas que este
ósculo seja como os que os amigos íntimos se dão na
praça pública. Este ósculo não é assim. Mas este ósculo une as almas entre si e
é para elas penhor de esquecimento de todos os ressentimentos. É sinal de que
as almas se unem e afastam toda lembrança de toda injúria. Por isso Cristo
disse: «Quando fores apresentar uma oferta perante o altar, e ali te lembrares
de que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois volta para apresentar a tua
oferta». Então, o ósculo é reconciliação, e é por esta razão que é santo, como
o bem-aventurado Paulo o proclama alhures: «Saudai-vos uns aos outros no ósculo
santo». E Pedro: «Saudai-vos uns aos outros no ósculo de caridade».
Introdução à anáfora
4 Depois disso o sacerdote proclama: «Corações ao alto!» Verdadeiramente, nesta hora
mui tremenda, é preciso ter o coração no alto, junto de Deus, e não embaixo, na
terra, nas coisas terrenas. Com autoridade, pois, o sacerdote ordena que nesta
hora se abandonem todas as preocupações da vida e os cuidados do-mésticos e que se tenha o coração no céu, junto ao Deus
benevolente. Vós então respondeis: «Já os temos no Senhor!» assentindo à ordem
por causa do que confessais. Ninguém esteja presente dizendo apenas com a boca:
«Nós os temos no Senhor», tendo a mente voltada para as preocupações da vida.
Sempre devemos estar lembrados de Deus. Se isso é impossível pela fraqueza
humana, naquela hora isto é o que mais deve ser procurado.
5 Depois diz
o sacerdote: «Demos graças ao Senhor». Deveras, devemos agradecer-lhe, porque
sendo indignos chamou-nos a tamanha graça que nos reconciliou, sendo seus
inimigos, e nos fez dignos da adoção do Espírito.6 E
vós dizeis: «É digno e justo». Pois quando damos graças nós fazemos algo digno
e justo. Ele nos beneficiou não com a justiça, mas além de toda justiça,
fazendo-nos dignos de grandes bens.
Anáfora, prece de louvor
6 Depois disso mencionamos o céu,
a terra e o mar, o sol e a lua, os astros, toda criatura racional e irracional,
visível e invisível, os anjos e arcanjos, as virtudes, dominações, principados,
potestades, tronos, os querubins de muitas faces e, com vigor, dizemos com
Davi: «Celebrai comigo o Senhor». Lembramo-nos ainda dos serafins,
que Isaías, no Espírito Santo, contemplava. Estavam colocados em círculo ao
redor do trono de Deus. Com duas asas cobriam o rosto, com outras duas os pés,
e com mais duas voavam e diziam: «Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos».9 Por isso recitamos essa doxologia
que nos foi transmitida pelos serafins, para que
neste canto nos associemos aos exércitos celestes.
Epiclese
7 Depois de santificados por
esses hinos espirituais, suplicamos ao Deus benigno que envie o Espírito Santo
sobre os dons colocados, para fazer do pão corpo de Cristo e do vinho sangue de
Cristo. Pois tudo o que o Espírito Santo toca é santificado e transformado.
Intercessões
8 Em seguida, realizado o sacrifício
espiritual, o culto incruento, em presença dessa
vítima de propiciação, invocamos a Deus pela paz
comum das igrejas, pelo bem-estar do mundo, pelos imperadores, pelos exércitos
e aliados, pelos doentes, pelos aflitos e, em geral, todos nós rezamos por
todos aqueles que têm necessidade de socorro e oferecemos essa vítima.
9 Depois fazemos menção dos que adormeceram, primeiro dos patriarcas, profetas, apóstolos,
mártires, para que Deus, por suas preces e intercessão, aceite nossa súplica.
Depois ainda rezamos pelos santos padres, bispos adormecidos e, enfim, por
todos os que nos precederam, persuadidos de que será de máximo proveito para as
almas, pelas quais a súplica é elevada ante a santa e
tremenda vítima.
10 E quero persuadir-vos com um
exemplo. Sei que muitos dizem: Que aproveita à alma que parte deste mundo com
faltas ou sem elas, se é mencionada na oferenda [eucarística]? Porventura, se
um rei banisse aos que se rebelaram contra ele, e se
em seguida seus companheiros, trançando uma coroa, a presenteiam ao rei em
favor dos condenados, não lhes concederá a remissão dos castigos? Do mesmo modo
nós também, apresentando a Deus as súplicas pelos
adormecidos, embora tenham sido pecadores, nós não trançamos uma coroa, mas
apresentamos o Cristo imolado por nossos pecados, tornando propício em favor
deles e em nosso o Deus benigno.
O "Pater"
11 Depois disso, tu dizes aquela oração que o Salvador transmitiu aos
discípulos, atribuindo a Deus, com pura consciência, o nome de Pai e dizes:
«Pai nosso, que estás nos céus». Ó incomen-surável
benignidade de Deus! Aos que o tinham abandonado e jaziam em extremos males, é
concedido o perdão dos males e a participação da graça, a ponto de ser invocado
como Pai. Pai nosso que estás nos céus. Os céus poderiam bem ser os que portam
a imagem do celestial, nos quais Deus habita e vive.
12 «Santificado seja teu nome».
Santo é por natureza o nome de Deus, quer o digamos ou não. Mas uma vez que
naqueles que pecam por vezes é profanado, segundo o que se diz: «Por vós meu
nome é continuamente blasfemado entre as nações», oramos que em nós o nome de
Deus seja santificado. Não que por não ser santo chegue a sê-lo, mas porque em
nós ele se torna santo quando nos santificamos e praticamos obras dignas de
santificação.
13 «Venha o teu reino». É próprio
de uma alma pura dizer com confiança: «Venha o teu reino». Quem ouviu Paulo
dizer: «Que o pecado não reine em vosso corpo mortal» e se purificar em obra,
pensamento e palavra, dirá a Deus: «Venha o teu reino».
14 «Seja feita a tua vontade,
assim no céu como na terra». Os divinos e bem-aventurados anjos de Deus fazem a vontade de Deus, como Davi dizia no salmo: «Bendizei ao
Senhor, todos os seus anjos, heróis poderosos, que executais sua palavra».
Rezando, pois, com vigor, dize isto: como nos anjos se faz a tua vontade,
Senhor, assim na terra se faça em mim.
15 «Nosso pão substancial dá-nos
hoje». O pão comum não é substancial. Mas este pão é substancial, pois se
ordena à substância da alma. Este pão não vai ao ventre nem é lançado em lugar
escuso mas se distribui sobre todo o organismo, em
proveito da alma e do corpo. O «hoje» equivale a dizer de «cada dia» , como também dizia Paulo: «Enquanto perdura o hoje».
16 «E perdoa-nos as nossas
dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores». Temos muitos pecados.
Caímos, pois, em palavra e em pensamento e fazemos muitas coisas dignas de
condenação. «E se dissermos que não temos pecado, mentimos», como diz João.
Fazemos com Deus um pacto pedindo-lhe nos perdoe nossos pecados como também nós
perdoamos ao próximo suas dívidas. Tendo presente, portanto, o
que recebemos em troca do que damos, não sejamos negligentes, nem
deixemos de perdoar uns aos outros. As ofensas que se nos fazem são pequenas,
simples, fáceis de reconciliar. As que nós fazemos a Deus são enormes e temos
necessidade só de sua benignidade. Cuida, então, que por faltas pequenas e
simples contra ti não te excluas do perdão, por parte de Deus, dos pecados
gravíssimos.
17 «E não nos induzas em
tentação», Senhor. Porventura com isto o Senhor nos ensina a pedir que de modo
algum sejamos tentados? Como se encontra em outro lugar: «Aquele que foi
tentado não tem experiência» e ainda: «Tende por suma alegria, meus irmãos, se cairdes
em diversas provações»? Mas jamais entrar em tentação é o mesmo que ser
submerso por ela. A tentação, pois, se assemelha a uma torrente difícil de
atravessar. Os que, então, não são submersos nas tentações, atravessam, como
bons nadadores, sem serem arrastados pela corrente. Os que não são assim, uma
vez que entram, são submersos. Assim, por exemplo, Judas, entrando na tentação
da avareza, não passou a nado, mas, submergindo, afogou-se corporal e
espiritualmente. Pedro entrou na tentação de negação, mas, tendo entrado, não
submergiu; antes, nadando com vigor, se salvou da tentação,
Escuta novamente, em outro lugar,
o coro dos santos todos rendendo graças por terem sido subtraídos à tentação:
«Tu nos provaste, ó Deus, acrisolaste-nos como se faz
com a prata. Dei-xaste-nos cair no laço; carga pesada puseste em nossas costas; submeteste-nos ao
jugo dos tiranos. Passamos pelo fogo e pela água, mas tu nos conduziste ao
refrigério». Tu os vês falar abertamente de sua travessia sem serem vencidos?
«Tu nos conduziste ao refrigério». Chegar ao refrigério é ser livrado da
tentação.
18 «Mas livra-nos do Mal». Se a
expressão «não nos induzas em tentação» significasse não sermos de modo algum
tentados, não se diria: «Mas livra-nos do Mal». O Mal é o demônio, nosso
adversário, do qual pedimos ser libertos.
Depois, terminada a prece, dizes:
«amém», selando com este amém ? que
significa «faça-se» ? o que se contém na oração
ensinada por Deus.
Comunhão
19 Depois disso, diz o sacerdote:
«As coisas santas aos santos». As coisas são as oferendas aí colocadas, pois
receberam a vinda do Espírito Santo. Santos sois também vós, julgados dignos do
Espírito Santo. As coisas santas, então, convêm aos santos. Em seguida vós
dizeis: «Um é o santo, um o Senhor, Jesus Cristo». Verdadeiramente um é o
santo, santo por natureza. Nós, porém, se santos, o somos não pela natureza,
mas pela participação, ascese e prece.
20 Depois dessas coisas, ouvis o cantor que, com uma melodia divina, vos convida à
comunhão dos santos mistérios, dizendo: «Provai e vede como o Senhor é bom».
Não confieis o julgamento ao gosto corporal, mas à fé inabalável. Pois provando
não provais pão e vinho, mas o corpo e sangue de Cristo que aqueles significam.
21 Ao te aproximares [da
comunhão], não vás com as palmas das mãos estendidas,
nem com os dedos separados; mas faze com a mão esquerda um trono para a direita
como quem deve receber um Rei e no côncavo da mão espalmada recebe o corpo de
Cristo, dizendo: «Amém». Com segurança, então, santificando teus olhos pelo
contato do corpo sagrado, toma-o e cuida de nada se perder. Pois se algo
perderes é como se tivesses perdido um dos próprios membros. Dize-me, se alguém
te oferecesse lâminas de ouro, não as guardarias com
toda segurança, cuidando que nada delas se perdesse e fosses prejudicado? Não
cuidarás, pois, com muito mais segurança de um objeto mais precioso que ouro e
pedras preciosas, para dele não perderes uma migalha sequer?
22 Depois de teres comungado o
corpo de Cristo, aproxima-te também do cálice do seu sangue. Não estendas as
mãos, mas inclinando-te, e num gesto de adoração e respeito, dize «amém».
Santifica-te também tomando o sangue de Cristo. E enquanto teus lábios ainda
estão úmidos, roça-os de leve com tuas mãos e santifica teus olhos, tua fronte
e teus outros sentidos. Depois, ao esperares as orações [finais], rende graças
a Deus que te julgou digno de tamanhos mistérios.
23 Conservai inviolavelmente essas tradições e vós mesmos guardai-vos sem ofensa. Não vos separeis da comunhão nem pela mancha do pecado vos priveis desses santos e espirituais mistérios. «O Deus da paz santifique-vos completamente. Conserve-se inteiro o vosso espírito, e a vossa alma e o vosso corpo sem mancha, para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo», a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.