O tratado "De
Cura pro Mortuis Gerenda" (O Cuidado Devido aos Mortos) foi escrito por
Santo Agostinho em 421, como resposta a uma consulta feita pelo bispo Paulino de
Nola, a respeito da vantagem de se sepultar um cristão junto ao túmulo de um
santo.
Embora a pergunta
fosse, de certa forma, simples, Santo Agostinho aborda uma série de fatos
importantes e interessantes a respeito dos mortos, que até hoje são conservados
e respeitados pela Igreja. Entre outras coisas, fala da utilidade da oração
pelos mortos (antiquíssimo testemunho do Purgatório, ainda que tal palavra não
apareça), a possibilidade da aparição dos mortos aos vivos (através do
ministério dos anjos ou por permissão direta de Deus), a oração dos santos
falecidos a nosso favor, o dia que a Igreja dedica a todos os falecidos (Dia de
Finados), etc.
É obrigatória a
leitura desta obra por todos os cristãos de boa vontade; podemos crer que, se
Lutero e Calvino - grandes admiradores de Santo Agostinho - tivessem lido este
tratado com o cuidado que merece (se é que tiveram acesso a ele), certamente o
protestantismo não teria se afastado tanto da belíssima doutrina da Comunhão
dos Santos, verdade bíblica conservada desde o princípio pela Igreja de Cristo.
Contudo, podemos louvar a Deus pelo fato de algumas igrejas cristãs -
principalmente entre os luteranos, anglicanos e reformados - estarem, aos
poucos, resgatando essa verdade, como podemos depreeender das recentes
declarações conjuntas a respeito de Maria e da Comunhão dos Santos.
CAPÍTULO I
Caríssimo Paulino, meu irmão no Episcopado: há muito devo-te uma
resposta... Devo-a desde que me enviaste uma carta - através dos familiares da
nossa piedosíssima irmã, Flora - onde me perguntavas se o cristão lucra algo
para si se for sepultado próximo à sepultura de algum santo. Essa questão
fora-te feita pela própria viúva que acabo de citar, em razão do seu falecido
filho, enterrado em alguma parte da sua capela. Para a consolar, disseste que
tal voto já havia se concretizado para o seu jovem filho, Cinérgio, em razão do
carinho que a mãe nutre para com seu filho, pois fora ele sepultado na Basílica
do bem-aventurado Félix, confessor da fé.
Tendo os mensageiros trazido a carta de resposta a Flora,
aproveitaste para me interrogar por escrito sobre tal prática, pedindo o meu
parecer sem esconder o que sentes.
Como me dizes, achais que não é coisa vã o sentimento que leva
pessoas fiéis e religiosas a tomarem tal cuidados com os seus falecidos.
Adiantas, ainda, que não é sem motivo que a Igreja universal mantém o costume
de orar pelos mortos. Assim, pode-se concluir que é útil para o homem, após sua
morte, ter uma sepultura desse gênero, providenciada pela piedade [de seus familiares],
onde possa contar a proteção dos santos.
Caro Paulino: consideras que, caso a opinião que diz ser útil
sepultar os entes queridos junto à sepulturas de santos seja verdadeira, então
existe uma controvérsia com relação às palavras do Apóstolo que diz: "Todos
nós certamente nos apresentaremos diante do tribunal de Cristo, para recebermos
a retribuição de acordo com aquilo que fizemos durante nossa vida corporal,
seja para o bem ou para o mal"1
De fato, a sentença do Apóstolo exorta-nos que é antes da morte
que podemos fazer o que seja útil para depois dela e não depois que ela ocorre,
quando recolhemos os frutos que praticamos durante a vida.
A questão então é resolvida da seguinte maneira: enquanto vivemos
neste corpo mortal, há uma certa forma de viver que permite, após a morte,
obter certo alívio através das obras pias feitas em seu sufrágio. Porém, tal
ajuda será proporcional ao bem que cada um de nós fizemos durante a vida.
Para alguns, tais auxílios são totalmente inúteis, pois a conduta
destes durante a vida foi tão má que simplesmente se tornaram indignos de os
aproveitarem. Também existem outros que viveram de forma tão irrepreensível que
não têm necessidade desses socorros. Assim, é através do modo de vida que cada
um levou durante a existência corpórea, que se determina a utilidade ou
inutilidade desses auxílios que lhes são piedosamente dedicados após a morte.
Se o mérito do proveito foi nulo durante a vida, permanecerá estéril também
após a morte.
Contudo, isso não significa que a Igreja e os fiéis perdem seu
tempo, ao inspirar, pela religião, o piedoso cuidado aos defuntos - ainda que
seja verdade que cada um receberá de acordo com o que praticou de bom ou de mau
durante a sua vida, já que o Senhor retribui a cada um conforme as suas obras;
logo, para que o cuidado tomado em relação a um ente querido seja-lhe útil após
sua morte, é necessário que essa pessoa tenha adquirido a faculdade de torná-lo
útil ainda durante o tempo em que viveu no seu corpo.
Esta resposta seria suficiente para a pergunta que me fizeste, mas
creio que ela acaba gerando outras questões que preciso também abordar.
Peço-te, assim, atenção! Lemos, no livro dos Macabeus2, que foi
oferecido um sacrifício pelos mortos. Ainda que não encontremos em qualquer
outra parte do Antigo Testamento uma outra referência a esse respeito, não
podemos subestimar a autoridade da Igreja universal, que manifesta esse
costume, pois, nas preces que o sacerdote dirige ao Senhor Deus junto ao altar,
existe espaço especialmente reservado para a encomendação dos falecidos.
CAPÍTULO II
Convém examinar se o lugar onde alguém foi sepultado exerce alguma
influência sobre a alma. Mas, primeiro, vejamos se existe algum efeito o fato
de deixar um corpo sem sepultura, seja para o início ou para o aumento das
penas no além. Julguemos, pois, esta questão fundamentando-se nas Sagradas
Escrituras da nossa religião e não conforme a crendice popular.
Não devemos crer, como lemos em Virgílio, que os mortos insepultos
não podem navegar nem atravessar na barca do rio do Hades, conforme esta
passagem da Eneida: "Não lhes é permitido passar para além dessas
horríveis margens e desse rio de ruído assustador, até que seus ossos não
recebam uma morada tranqüila"3.
Que inteligência cristã poderia crer em tais fábulas e ficções se
o próprio Senhor Jesus, ao tranqüilizar os cristãos que viriam a cair nas mãos
e poder de seus inimigos, afirmou que nenhum só fio de cabelo de sua cabeça se
perderá4 e os exortou a não temer aqueles que matam o corpo e nada
mais podem fazer [contra a alma]5?
Já falei muito sobre isso no primeiro livro da minha obra "A
Cidade de Deus"6, para calar a boca dos pagãos que nos acusam,
como cristãos que somos, como responsáveis pelas devastações promovidas pelos
bárbaros, especialmente aquelas sofridas por Roma, e alegam que Cristo não nos
socorreu nessa ocasião. Ao explicarmos que Cristo acolheu as almas dos fiéis
conforme o mérito de sua fé, eles nos insultam dizendo que muitos cadáveres
ficaram sem sepultura. Eis o que trato a esse respeito - quanto ao lugar do
sepultamento - na citada obra:
"Naquela espantosa quantidade de cadáveres, quantos fiéis
devem ter ficado sem sepultura? Contudo, tal infortúnio é pouco temido pela fé
viva, que tem por certa que os animais nada podem fazer contra a ressurreição
dos corpos de suas vítimas e delas não perecerá um só fio de cabelo da cabeça7.
A Verdade afirmaria: 'Não temais aquele que mata o corpo e não pode matar a
alma'8, se a engenhosa crueldade dos assassinos pudesse eliminar nos
corpos dos inimigos a semente da vida futura? Haveria alguém tão insensato que
acreditasse que os inimigos não devem ser temidos antes da morte, mas apenas
depois, por privá-lo de uma sepultura? Se fosse possível fazer tal mal aos
cadáveres, então as palavras de Cristo: 'não temais aquele que mata o corpo e
não pode matar a alma' seriam falsas. O quê? As palavras da Verdade falsas? Que
se afaste de nós tamanha blasfêmia! Está escrito que os assassinos dispõem de
tal poder no momento de matarem porque o corpo é sensível ao golpe da morte,
mas, em seguida, nada mais podem fazer pois o cadáver é desprovido de qualquer
sensibilidade. É verdade que a terra não recebeu o corpo de grande quantidade
de cristãos, mas, mesmo assim, ninguém separou a terra do céu, pois ela está
cheia da presença d'Aquele que sabe de onde chamar à vida para aquilo que
criou. Bem diz certo Salmo: 'Deram os corpos de teus servos como pasto para as
aves do céus e as carnes dos teus santos aos animais da terra. Derramaram o
sangue deles como água à roda de Jerusalém e não havia quem os sepultasse'9.
Mas o Salmista diz isso mais para exagerar a crueldade dos carrascos do que
para lamentar o infortúnio das vítimas. 'É preciosa aos olhos do Senhor a morte
dos seus santos'10. Assim, as providências quanto ao funeral, a
escolha da sepultura, a pompa do enterro, etc., é mais consolo para os vivos do
que alívio para os mortos. O quê? Poderiam os ímpios se aproveitarem das honras
fúnebres? Se sim, realmente seria um infortúnio para o justo possuir uma
sepultura pobre ou até mesmo não a possuir. Se para os olhos dos homens grande
número de escravos realiza magnífico cortejo fúnebre para o rico impiedoso11,
brilham muito mais para os olhos de Deus as exéquias que o ministério de anjos
ofereceram ao pobre Lázaro, todo coberto de úlceras. Para seus restos mortais,
não foi erguido um túmulo de mármore, mesmo assim, foi levado para o seio de
Abraão. Vejo rindo aqueles contra quem defendo a Cidade de Deus... Contudo, até
mesmo seus próprios filósofos menosprezaram a preocupação com o sepultamento e,
muitas vezes, exércitos inteiros pouco se preocuparam com o lugar onde seus
corpos haveriam de jazer - ao morrerem por sua pátria -, mesmo sabendo que os
animais se alimentariam deles. Desta forma, puderam os poetas dizer, com aplausos:
'A quem faltou o sepulcro, o céu serve de proteção'12. Portanto, que
loucura é essa de ultrajar os cristãos por terem deixado corpos insepultos, se
aos fiéis foi prometido que a carne e os membros - deixados sobre a terra ou
dispersos pelo interior de outros elementos - hão de retornar à vida, num
piscar de olhos, sendo restituídos à anterior integridade, como foi prometido
por Deus?13".
CAPÍTULO III
Mesmo assim, isso não é justificativa para abandonar sem cuidados
os despojos dos falecidos, principalmente dos justos e fiéis, que são órgãos e
instrumentos do espírito para toda boa obra. Se a roupa, o anel ou qualquer
outro objeto pertencente ao pai é precioso para os filhos, muito mais terna é a
piedade filial. Acaso o corpo não merece mais cuidados por estar muito mais
intimamente ligado a nós do que a roupa, seja ela qual for? Logo, o corpo não é
mero ornamento exterior do homem, mas parte de sua natureza humana. Este é o
verdadeiro motivo dos deveres de piedade solenemente prestados aos antigos
justos, a pompa de suas exéquias, os cuidados com suas sepulturas e as ordens
que eles mesmos, quando vivos, davam a seus filhos, para sepultá-los ou
transladá-los uma vez mortos14.
De acordo com o testemunho do anjo, Tobias atrai sobre si as
bênçãos de Deus devido a seu cuidado para com os mortos15. O próprio
Nosso Senhor, que ressuscitará no terceiro dia, divulga a boa ação da santa
mulher que lhe unge com precioso perfume, como que para sepultá-lo
antecipadamente16. Também o Evangelho recorda com louvores aqueles
que receberam piedosamente o Corpo, à descida da cruz, cobrindo-o com o sudário
e depositando-o no sepulcro17.
De forma alguma, tais exemplos não provam que os cadáveres
conservam algum tipo de sensibilidade. Mas provam que a Providência de Deus vela
os despojos dos falecidos e esses deveres de piedade lhe são agradáveis, por
demonstrarem a fé na ressurreição.
Além disso, existe salutar ensinamento para nós: ainda que Deus
retribua abundantemente as nossas esmolas prestadas a criaturas vivas e dotadas
de sensibilidade, também aos olhos de Deus nada se perde pela nossa caridade
prestada aos restos inanimados dos homens.
É certo que os santos patriarcas deixaram, por inspiração
profética do Espírito, outras recomendações sobre o sepultamento e a transladação
de seus corpos, porém, não é oportuno aprofundarmos em tais mistérios neste
momento. Basta, então, o que acabamos de dizer.
Se é verdade que a falta de coisas necessárias para a manutenção
da vida - como o alimento e o vestuário - são provações cruéis, mas impotentes
contra a corajosa paciência do homem virtuoso, longe de afastar a piedade do
seu coração, como poderia, então, que a falta das solenidades fúnebres
costumeiras, perturbasse o repouso de tal alma na santa e bem-aventurada
mansão? "E que os últimos deveres tenham faltado aos cristãos na
desolação de Roma ou de outras cidades, isto pouco importa: não foi falta dos
vivos, que nada puderam fazer; nem infortúnio para os mortos, que nada puderam
sentir"18.
Tal é a minha opinião sobre a causa e a razão de ser das
sepulturas. Se extraí essa passagem de algum dos meus livros para colocá-la
aqui, é porque me pareceu mais simples retomá-la do que exprimir em outras
palavras as mesmas idéias.
CAPÍTULO IV
Como esses princípios acima elencados são justos, não deixa de ser
marca dos bons sentimentos do coração humano escolher para seus entes queridos
que serão sepultados um lugar próximo aos túmulos dos santos.
Já que o sepultamento é, por si mesmo, uma obra religiosa, a
escolha do local não poderia ser estranha ao ato religioso. É consolo para os
vivos, uma forma de testemunhar sua ternura para com os familiares
desaparecidos. Não enxergo, porém, como os mortos podem encontrar aí alguma
ajuda, a não ser quando o lugar onde descansam é visitado e são encomendados,
pela oração [dos visitantes], à proteção dos santos junto ao Senhor. Contudo,
isso pode ser feito ainda quando não é possível sepultá-los em tais lugares
santos...
Se é verdade que denominam de "Memorial" ou
"Monumento" aos sepulcros vistosamente construídos, fazem-no, na
verdade, para trazer à memória aqueles que, pela morte, foram subtraídos aos
olhos dos vivos. Isto é feito para que as pessoas continuem a se lembrar deles,
para que não aconteça de, tendo sido retirados da presença dos vivos, também
sejam retirados do coração pelo esquecimento. Aliás, o termo
"Memorial" indica claramente esse sentido de recordação, da mesma
forma como "Monumento" significa "o que traz à mente", ou
seja, o que a faz recordar. Eis o motivo pelo qual os gregos chamam de
"mnemeion" ao que chamamos de "memória" ou
"monumentum". Na língua deles, "mnème" significa
"memória", a faculdade com a qual recordamos.
Assim, quando o pensamento de alguém se concentra sobre o lugar
onde o corpo de um ente querido jaz e esse local esteja consagrado pelo nome de
um mártir venerável, então a afeição amorosa recorda-se e reza, recomendando o
falecido querido a esse mártir.
Não se pode duvidar de que essas súplicas, feitas pelos fiéis em
nome dos seus caros defuntos, são úteis a estes caso apenas tenham merecido -
durante a vida - beneficiar-se após a morte. Ainda que se suponha que alguma
circunstância impediu o sepultamento ou que não foi dada a autorização para
sepultar num desses locais sagrados, não será por isso que deveremos
negligenciar as orações pelos falecidos.
A Igreja tomou para si o encargo de orar por todos aqueles que
morreram dentro da comunhão cristã e católica. Ainda que não conheça todos os
nomes [de seus fiéis defuntos], ela os inclui numa comemoração geral19.
Dessa forma, aqueles que não possuem mais pais, filhos ou outros parentes e
amigos para auxiliá-los, são amparados pelo sufrágio dessa piedosa Mãe comum.
Julgo, porém, que caso esses sufrágios pelos mortos sejam feitos
sem verdadeira fé e piedade, de nada valeria ao espírito deles que seus corpos
sem vida se encontrassem sepultados nos lugares mais santos.
CAPÍTULO V
Aquela mãe cristã de que me falaste desejou que o corpo de seu
filho fosse depositado na basílica de um mártir por ter aquele expirado na fé.
É que ela acreditava que a alma do finado poderia ser ajudada pelos méritos
desse mártir. Essa fé, a seu modo, já era uma súplica; e súplica útil, se
admitirmos isso, à medida em que voltar o seu pensamento freqüentemente em
direção a esse túmulo e, cada vez mais, recomendar o filho em suas orações... e
é isto o que realmente será útil para a alma do finado. O que vale não é o
lugar onde o corpo está enterrado, mas a viva afeição da mãe, revivificada pela
lembrança desse lugar. A isso, devemos acrescentar que o objeto de sua afeição
e o pensamento do santo protetor contribuirão bastante para tornar mais fecunda
sua oração e piedade.
Ocorre que aqueles que oram impõem a seus membros uma posição
condizente com a oração: ajoelham-se, estendem as mãos, prostram-se no chão e
praticam outros gestos do gênero. É certo que Deus conhece-lhes a verdade
oculta e a intenção do coração, e não tem a necessidade desses sinais sensíveis
para penetrar no íntimo da consciência humana. Entretanto, é por essas
demonstrações que a pessoa estimula-se a si mesma a orar e gemer com mais
humildade e fervor. Ainda que os gestos corporais não se produzam sem o
movimento interior da alma, esses atos externos e invisíveis aumentam - não sei
como - o ato interior e invisível.
Ainda que estivesse impedido ou impossibilitado de os realizar com
seus próprios membros, isso não incapacitaria o homem interior de orar. Deus o
vê, contrito e arrependido, prostrar-se no santuário secreto do seu coração.
De forma análoga, podemos dizer que o local de sepultamento é, por
certo, de grande importância para aquele que encomenda a Deus a alma do morto
querido, desde que a oração seja vivificada pelo espírito interior, já que foi
o sentimento interno do coração que escolheu com antecedência o lugar santificado
para o sepultamento. E esse local, após receber o corpo, renova e aumenta o
sentimento interior, que foi o princípio de tudo, pelas lembranças que suscita.
Contudo, se tão piedosa pessoa não consegue sepultar aquele que
ama no lugar onde desejaria por inspiração cristã, ela não deve, por isso,
suprimir as orações necessárias para a encomendação do defunto. Pouco interessa
se aqui ou ali está um corpo sem vida: o essencial é que a alma encontre seu
repouso. Deixando este mundo, ela leva conscientemente consigo o tipo de sorte
que lhe está reservada, se a felicidade ou o infortúnio.
Não é da carne que a alma espera ajuda para a sua vida futura. É
ela que lhe comunicava a vida na terra. Ao partir, ela retirou a vida; ao
voltar20, a devolveria. É a alma que prepara para a carne o que lhe
será devido no momento da ressurreição, e o corpo ela o fará revivificar, seja
para o castigo ou para a glória.
CAPÍTULO VI
Lemos na "História Eclesiástica" de Eusébio, escrita em grego
e traduzida para o latim por Rufino, o seguinte acontecimento: na Gália, os
corpos dos mártires de Lião foram atirados aos cães. A carne e os ossos que
restaram foram reduzidos a cinzas, até a última parcela, e foram jogadas
finalmente no rio Ródano, para que não sobrasse nada de sua memória.
Ora, devemos crer que se Deus permitiu tal destruição é para
demonstrar aos cristãos que, ao confessarem a Cristo, desprezando esta vida, os
mártires devem desprezar ainda mais a sepultura, pois se a detestável crueldade
com que foram tratados os corpos desses mártires pudesse afastar do
bem-aventurado repouso a alma vitoriosa, Deus certamente não o teria permitido.
Está bem claro o que o Senhor afirmou: "Não temais os que matam o corpo e
depois nada mais podem fazer"21. Isso não significa que os
perseguidores perderiam o poder sobre o corpo dos fiéis após a morte, mas ainda
que detivessem tal poder, nada mais podiam fazer para diminuir a felicidade das
suas vítimas, pois já não podiam atingir a vida consciente delas no além-túmulo
e também não podiam danificar mais os próprios corpos, do ponto de vista da
integridade da sua ressurreição.
CAPÍTULO VII
Existe no coração humano um sentimento natural que não permite
ninguém detestar sua própria carne21. Assim, se alguém vem a saber
que, após sua morte, seu corpo não receberá as honras de sepultura, conforme o
costume da cada raça e nação, sente-se perturbado como homem. Teme que seu
corpo, antes da morte, não atinja o destino pretendido após a morte.
É isto que lemos no livro dos Reis22, quando Deus envia
um profeta a outro profeta (um homem de Deus) que havia transgredido a Sua
Palavra, para anunciar-lhe que seu corpo, como castigo, não seria levado à
sepultura de seus pais. Eis o que diz as Escrituras: "Aquele profeta
disse ao homem de Deus que tinha vindo de Judá: 'Eis o que diz o Senhor: porque
não obedeceste à Palavra do Senhor e não guardaste o mandamento que o Senhor,
teu Deus, havia te imposto, voltando e comendo pão e tomando água, o teu
cadáver não será levado ao sepulcro de teus pais'".
Medindo a importância desta punição em relação ao Evangelho - onde
está escrito que, estando morto o corpo, os membros nada devem temer - não
podemos dizer que isso tenha sido uma punição, exceto se considerarmos o amor
que todo homem tem por sua própria carne: o profeta, em vida, com certeza
sentiu temor e tristeza com a idéia de um tratamento que não poderia sentir
após a morte. E era justamente essa a sua punição; esse sentimento de dor
diante da idéia do que sofreria o seu corpo, ainda que, de fato, não viesse a
sofrer em absoluto no momento em que a ameaça se concretizasse.
Ora, o Senhor quis apenas punir a desobediência do seu servo, não
por má vontade, mas por ter sido enganado pela mentira de um outro profeta. Não
se pode pensar que a mordida da fera selvagem o tenha matado para que a sua
alma fosse lançada no Inferno, pois o mesmo leão que o agredira montou guarda
de seu corpo, sem fazer mal algum ao jumento que assistia destemidamente ao
funeral do seu dono, ao lado da terrível fera. Esse fato notável é sinal de ter
sofrido o profeta tal morte como castigo temporal e não como punição eterna.
O Apóstolo lembra que muitos são punidos com doença ou morte por
causa de seus pecados, fazendo esta observação: "Se nos examinássemos a
nós mesmos, não seríamos julgados; mas com seus julgamentos, o Senhor nos
corrige, para que não sejamos condenados com o mundo"23.
O velho profeta, que enganara o homem de Deus, sepultou-o com
muita honra e tomou os procedimentos necessários para que, mais tarde, ele
mesmo fosse sepultado junto a aquele. Esperava que aqueles ossos encontrariam
graça quando chegasse o tempo em que, conforme a profecia do homem de Deus,
Josias, rei de Judá, exumaria os ossos de muitos mortos para profanar com eles
os altares sacrílegos erguidos aos ídolos. Contudo, passados mais de 300 anos,
Josias poupou o sepulcro onde havia sido enterrado o homem de Deus que
predissera esse fato. E, assim, graças a esse homem de Deus, a sepultura do
profeta que o enganara não foi violada.
O efeito que leva alguém a odiar a própria carne24, o
havia feito prever o destino do seu corpo, mesmo tendo matado sua alma por uma
mentira. Cada um ama sua própria carne por instinto. Assim, um profeta sofreu à
idéia de que não iria repousar no sepulcro de seus pais e o outro tomou o
cuidado de prover à segurança de seus ossos, fazendo-se enterrar em sepulcro
que ninguém haveria de violar.
CAPÍTULO VIII
Porém, os mártires venceram esse apego ao próprio corpo, em sua
luta pela verdade. Não é de surpreender que tenham desprezado as honras
reservadas aos seus despojos. Só estariam insensíveis a elas após a morte, pois
enquanto viviam e tinham sensibilidade, não se deixaram vencer pelo suplício.
O Senhor não permitiu ao leão tocar no cadáver daquele homem de
Deus, morto por essa mesma fera assassina que logo depois se tornou seu
guardião25. Do mesmo modo, Deus poderia, se quisesse, ter afastado
os cadáveres de seus fiéis dos cães aos quais foram jogados. Ele poderia, de
mil maneiras, dominar a crueldade dos carrascos, impedindo-os de queimar
aqueles corpos e dispersar suas cinzas. Porém, foi necessário que essa provação
se acrescentasse ainda à múltipla diversidade das tribulações, a fim de que a
firmeza da ferocidade da perseguição, armada contra o corpo deles, não temesse
diante da privação das honras fúnebres do sepultamento.
Em outras palavras: era necessário que a fé na ressurreição não
fosse abalada pela destruição do corpo. Logo, todas essas provações foram
permitidas para que os mártires, após demonstrarem tão grande coragem nos
sofrimentos, se tornassem ainda mais fervorosos para confessar a Cristo,
tornando-se testemunhas também desta verdade: os que matam o corpo, nada mais
podem fazer26. Qualquer que seja o tratamento imposto aos corpos sem
vida, em nenhum efeito resultará pois sendo o corpo desprovido de vida, que se
separou dele, nada mais pode sentir. E aquele que o criou nada pode perder.
Mas enquanto tratavam com tanta crueldade os corpos das vítimas -
e os mártires suportavam com grande coragem tais tormentos - entre os irmãos
erguia-se grande lamentação. Estavam aflitos por não terem a liberdade para
prestar os deveres fúnebres aos santos, como é de justiça. A vigilância dos
guarda proibia-os de subtrair às escondidas algum resto mortal desses mártires,
como nos atesta a mesma História27.
Após sua morte, os mártires não padeciam mais nenhum sofrimento,
nem mesmo do esfacelamento dos seus membros, nem das chamas que transformaram
em cinzas os seus ossos, e nem da dispersão destas cinzas. Mas os cristãos eram
atormentados por grande dor e piedade por não poderem sepultar a mínima porção
de suas relíquias. Eles sentiam em sua misericordiosa compaixão todos os
sofrimentos que aqueles mortos não mais podiam experimentar.
CAPÍTULO IX
Foi graças a esse sentimento de misericordiosa compaixão, que acabo
de citar, que o rei Davi louvou e bendisse aqueles que caridosamente forneceram
uma sepultura aos ossos secos de Saul e Jônatas28.
Mas que tipo de caridade se pode testemunhar para com aqueles que
nada mais sentem? Seria, por acaso, retornar àquela concepção de que os
falecidos privados da sepultura não podem cruzar o rio do Hades29?
Rejeitamos essa idéia contrária à fé cristã! De outra maneira, teríamos que
considerar que o pior castigo imposto aos mártires fora justamente o fato de
terem sido privados da sepultura e, nesse caso, a Verdade os teria enganado ao
dizer: "Não temais aqueles que matam o corpo e depois disso nada mais
podem fazer"30, pois seus perseguidores teriam conseguido
impedir-lhes de chegar à morada tão desejada.
Isso tudo é de uma falsidade evidente: os fiéis nada sofrem por
estarem privados da sepultura da mesma forma como os infiéis nada aproveitam
por a receberem.
Perguntemo-nos, então, por que aqueles que enterraram Saul e seu
filho Jônatas foram louvados, por executarem uma obra de misericórdia, e
abençoados pelo piedoso rei Davi31...
Ocorre que os corações piedosos obedecem a uma boa inspiração
quando, levados pelo sentimento de que "ninguém odeia a própria
carne"32, sofrem ao verem os cadáveres dos outros receberem
maus cuidados, pois não gostariam que seu próprio corpo sem vida recebessem tal
tratamento. E o que desejam que lhes proporcionem quando não mais existirem,
cuidam de proporcionar aos que já não existem, enquanto eles mesmos ainda gozam
dos sentidos.
CAPÍTULO X
Também nos são relatadas várias aparições, que não podemos negligenciar
de abordar na presente dissertação.
Fala-se que certos falecidos manifestaram-se a pessoas vivas
durante o sono ou através de outro modo. E à essas pessoas, que ignoravam o
lugar onde jazia os cadáveres insepultos, os mortos indicavam os lugares e
pediam para que lhes providenciasse a sepultura da qual foram privados.
Dizer que tais visões são falsas parece-nos afrontar e contradizer
testemunhos escritos de alguns autores cristãos, bem como a íntima convicção
que têm as pessoas que testemunharam tais fatos. Eis, portanto, a resposta mais
sensata: não é necessário pensar que os falecidos agem na realidade, quando parecem
dizer, indicar ou pedir em sonho aquilo que nos é relatado, pois muitas vezes
as pessoas vivas também aparecem em sonhos, sem disso terem consciência. E será
dessas mesmas pessoas a quem apareceram nos sonhos que saberemos terem dito ou
feito tal ou tal coisa durante a visão... Portanto, alguém pode me ver, durante
o sonho, anunciando certo acontecimento passado ou predizendo um fato futuro,
sendo que eu mesmo ignore totalmente a coisa, sem poder questionar o próprio
sonho que o outro teve, ou se ele estava acordado enquanto eu dormia, ou se ele
dormia enquanto eu estava acordado, ou se nós dois estávamos dormindo ou
acordados ao mesmo tempo ao ter ele o sonho em que me via.
Logo, o que há de estranho nos vivos verem os mortos em sonhos,
que nada sabem ou sentem, dizendo certas coisas que, ao acordarem, percebem que
são verdadeiras? Eu estou mais inclinado a crer na mediação dos anjos, que
receberiam do alto a permissão ou a ordem de se manifestarem em sonhos para
indicar os corpos a serem enterrados, sendo que aqueles que viveram nesses
corpos tudo ignoram a esse respeito.
Essas aparições podem ter sua utilidade, seja para o consolo dos
vivos - que vêem a imagem dos seus falecidos queridos - seja para recordar aos
homens o dever de humanidade que é o sepultamento dos falecidos. Isso não traz
auxílio para os mortos, mas a sua negligência poderia ser classificada de
impiedade culposa.
Algumas vezes ocorrem visões que levam a cometer erros grosseiros
aqueles que as tiveram. Imaginemos alguém que teve o mesmo sonho que Enéas33...
O poeta afirma ter visto no Inferno, em visão poética e falaciosa, a imagem de
um morto que não fora sepultado e põe a mensagem na boca de Palinuro; e quando
Enéas acorda, procura e encontra o corpo do defunto no exato lugar em que
jazia, como soubera pelo aviso que teve no sonho, e o sepulta conforme o pedido
que recebera no mesmo sonho. Como a realidade era igual à que teve no sonho,
passou a crer que é necessário sempre enterrar os mortos para que seja
permitido às almas atingirem a sua última morada. Sonhou, assim, que as leis do
Inferno nos impedem de entrar na morada eterna enquanto os nossos corpos não
recebem uma sepultura. Ora, se algum homem adotar tal crença, não estará ele se
afastando demais do caminho da Verdade?
CAPÍTULO XI
O homem é tão fraco que crê que viu a alma de alguém caso este
morto lhe apareça em sonho. Mas se sonha com uma pessoa viva, fica-se
demonstrado que não viu nem o corpo nem a alma dela, mas somente a sua imagem,
como se os mortos não pudessem aparecer do mesmo modo que os vivos, sob a forma
de imagens semelhantes.
Eis a narração de um fato que ouvi em Milão: certo credor
reclamava o pagamento de um dívida e exibia a cautela assinada por um senhor
recém-falecido ao seu filho, que ignorava que o pai havia efetuado o pagamento
do empréstimo [antes de falecer]. O jovem, muito aborrecido, estranhava o fato
de seu pai não ter-lhe falado nada sobre a existência dessa dívida, embora o
testamento tenha sido feito. Em sua extrema angústia, eis que vê o seu pai
aparecer-lhe em sonho indicando o lugar onde se encontrava o recibo que anulava
a cautela; ao encontrar o recibo, mostrou-o ao credor e anulou a reclamação
mentirosa, recuperando o documento assinado que não fora devolvido a seu pai
quando do pagamento da dívida.
Eis aí um fato em que se supõe que a alma do defunto tenha se
preocupado com o seu filho, vindo a seu encontro enquanto dormia, para
avisar-lhe o que este ignorava, livrando-o de uma séria preocupação.
Praticamente na mesma época em que me contaram esse fato, enquanto
eu ainda residia em Milão, aconteceu a Eulógio, ótimo professor de Cartago e
meu discípulo nessa arte, como ele mesmo me recordou, o seguinte acontecimento
(que ele próprio me narrou quando retornei à África): ele estava fazendo um curso
sobre as obras de Cícero e preparava uma lição sobre certa passagem obscura que
não conseguia compreender. Tal preocupação não o deixava dormir, mas eis que,
de repente, eu lhe apareço durante o sono e explico-lhe as frases que lhe eram
incompreensíveis. Ora, certamente não era eu, mas a minha imagem - sem eu o
saber! Eu estava bem longe, do outro lado do mar, ocupado com um outro trabalho
ou talvez dormindo, sem sentir qualquer tipo de preocupação com as dificuldades
dele...
Como, então, se produziram tais fenômenos? Não sei. Mas seja como
for, por que razão devemos acreditar que os mortos nos aparecem em sonhos, na
mesma forma de imagem, como acontece com os vivos? Uns e outros ignoram
completamente serem objeto de aparições e também não se preocupam em saber para
quem, onde e quando aconteceram.
CAPÍTULO XII
Algumas visões, ocorridas durante o estado de vigília, são
semelhantes aos sonhos. Acontecem a pessoas que estão com os sentimentos
conturbados, como os frenéticos e os loucos de todo gênero. Conversam consigo
mesmos, como se falassem com outras pessoas presentes ou ausentes, vivas ou
falecidas, cujas imagens aparecem-lhes à frente dos olhos. Mas os vivos não
sabem que essas pessoas imaginam estar conversando com eles, já que de fato não
se encontram lá, nem falam nada. Essas visões imaginárias surgem da perturbação
dos sentidos. Do mesmo modo, aqueles que já deixaram esta vida aparecem a
pessoas que têm o cérebro perturbado, como se estivessem presentes, sendo que,
de fato, não estão lá, mas bem longe, e nem supõem que alguém tenha percebido
as suas imagens em uma visão imaginária.
Abordemos um outro fato semelhante: existem pessoas que ficam sem
o domínio dos sentidos ainda mais do que ao dormir. Absorvidas que ficam em
suas visões imaginárias, julgam ver vivos e mortos. Ao retornar ao uso da
razão, declaram os nomes dos falecidos que viram, e as pessoas que os escutam
acreditam que realmente tal fato se verificou. Os ouvintes, contudo, não
percebem que nessas mesmas visões apareceram pessoas vivas que não estiveram lá
de verdade e que sequer souberam do ocorrido.
Isso aconteceu com um homem chamado Curma, habitante de Tullium,
município próximo a Hipona, que era membro do Conselho Municipal, pequeno
magistrado da aldeia e simples camponês. Caindo doente, entrou em profundo
estado de letargia e ficou como que morto durante vários dias; como exalava
pouquíssimo ar pelas narinas, indicando um grau mínimo de vida, não foi
sepultado; mas não mexia nenhum membro e seus olhos e outros sentidos permaneciam
insensíveis a qualquer tipo de estímulo. Mesmo assim, tinha visões como aqueles
que dormem e as contou alguns dias depois, quando se libertou do sono. Assim
disse quando abriu os olhos: "Vão imediatamente à casa do Curma ferreiro e
vejam o que está acontecendo por lá". Ao chegarem lá, ficaram sabendo que
esse Curma havia falecido no exato momento em que o primeiro saía do estado
letárgico e retornava à vida com sentidos. Interessados pelo ocorrido, os
assistentes interrogaram-no e ele lhes disse que o Curma ferreiro havia
recebido ordem de comparecer perante Deus no mesmo momento em que ele havia
sido reenviado para este mundo. Lá, no outro mundo que voltara, ficara sabendo
que não era o Curma da Cúria Municipal que deveria se apresentar à mansão dos mortos,
mas o Curma ferreiro. Nas visões que teve durante os sonhos, o Curma da Cúria
Municipal reconheceu entre os mortos alguns vivos que conhecera aqui, sendo
tratados de acordo com os méritos que cada um teve durante a vida.
Eu talvez acreditaria nessa história se todas as pessoas que viu
fossem realmente falecidas, isto é, se o doente não tivesse visto em seus
sonhos outras pessoas que ainda vivem, como, por exemplo, clérigos da sua
região e, entre outros, um padre que lhe disse para se batizar em Hipona, a
quem ele respondeu: "Eu já fui batizado". Portanto, em sua visão, ele
percebera também padres, clérigos e eu mesmo, ou seja, seres vivos. E entre
estes, vira outros mortos.
Portanto, por que não havemos de crer que ele viu esses mortos da
mesma forma como viu a nós, isto é, viu uns e outros sem que ninguém soubesse
disso e estando todos eles distantes? Pois tivera para si uma representação
imaginária de pessoas e lugares; ele viu a propriedade onde aquele padre morava
com seus clérigos, viu Hipona onde eu o tinha batizado - como alegara. Mas, de
fato, ele não estivera nesses lugares onde tinha a ilusão de ter estado; ele
ignorava o que aí se fazia no momento da visão. Se ele realmente tivesse estado
ali, certamente saberia o que ali se fazia. Portanto, foi uma espécie de visão
em que os objetos não se apresentam como são na realidade, mas sob a sombra de
suas imagens.
Finalmente, esse homem ainda contou que, na última das suas
visões, ele fora levado ao Paraíso e lá lhe disseram, antes de o devolverem aos
seus: "Ide e faze-te batizar se quiserdes um dia estar nesta morada de
bem-aventurados". Avisado de receber o batismo de minhas mãos, ele
respondeu que já o recebera, mas a voz que lhe falava insistiu: "Ide e
faze-te batizar realmente porque o teu batismo é imaginário". Assim, após
sua cura, ele veio a Hipona próximo do tempo da Páscoa; e fez-se inscrever na
lista dos aspirantes [ao batismo], sendo desconhecido de mim e de muitos
outros. Não confiou suas visões a mim ou a outros padres... Recebeu o batismo
e, terminados os dias santos, retornou para a sua casa. Fiquei sabendo da
história dois anos depois - ou até mais - por um amigo comum que foi fazer uma
refeição em minha casa, quando falávamos sobre esse tipo de assunto. Mais
tarde, consegui, depois de muita insistência, que me contasse a história, na
presença de seus concidadãos, gente honrada, que se apresentaram como
testemunhas da realidade dos fatos: a sua estranha doença, seus longos dias de
morte aparente, o caso do outro Curma, ferreiro - conforme narrado acima -,
enfim, todos os pormenores que se lembrava. E todos testemunharam já terem
ouvido essa narração de sua boca, à medida que ele a divulgava.
Conclui-se, assim, que ele vira seu batismo, a mim, Hipona, a
basílica e o batistério não na realidade, mas na imagem, da mesma forma como
vira outras pessoas vivas, sem que elas tenham percebido isto. Logo, por que
não admitir que ele viu os mortos sem que estes tenham percebido?
CAPÍTULO XIII
Por que não podemos atribuir a anjos essas operações permitidas
pela Providência Divina, que sabe se servir sabiamente dos bons e dos maus,
conforme a inescrutável profundidade de seus julgamentos? Essas visões podem
servir tanto para instruir quanto para enganar os vivos, para consolá-los ou
assustá-los, sendo cada um tratado com misericórdia ou com rigor por aquele que
a Igreja não celebra em vão "a misericórdia e a justiça"34.
Entenda como quiser isto que vou falar agora: se acaso os mortos
intervissem nos problemas dos vivos, aparecendo-nos e falando-nos durante o
sono, a minha piedosa mãe (para não falar de outras pessoas) não me abandonaria
uma noite sequer, pois ela sempre me seguiu por terra e mar, sempre partilhou
comigo a sua vida. Para mim é difícil crer que uma vida mais feliz a tornou
indiferente para comigo, a ponto de não mais me consolar nas tristezas, justo
eu que fui seu grande amor e a quem ela jamais quis ver triste!
Certamente as palavras do Salmo são verdadeiras: "Meu pai
e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me acolheu"35.
Ora, se os nossos pais nos abandonaram, como podem eles se
interessarem por nossos problemas? E se ficam indiferentes, que outros mortos
poderiam se inquietar pelo que fazemos ou sofremos? Assim declara o profeta
Isaías: "Porque tu é que és o nosso Pai. Abraão não nos conheceu, nem
Israel soube de nós"36.
Se os grandes patriarcas desconheceram o destino do povo do qual
eram a fonte e cuja raça saiu como fruto de sua fé em Deus, como seria possível
aos mortos intervir, para conhecer e proteger nos negócios e empreendimentos
dos vivos? E como poderíamos declarar bem-aventurados os santos que morreram
antes das nossas infelicidades se eles continuassem sensíveis às desolações da
vida humana? Acaso não estaríamos enganados se disséssemos que eles se
encontram em um lugar de absoluta tranqüilidade se porventura eles se
inquietassem com a atormentada existência dos vivos? O que significaria, então,
esta promessa feita por Deus em benefício do piedoso rei Josias, de que ele
morreria antes dos males que estavam para se abater sobre sua nação e seu povo,
para que não sentisse tristeza de ver tal tragédia? Eis a Palavra de Deus: "Direis
ao rei de Judá que vos enviou a consultar o Senhor: 'Eis o que diz o Senhor
Deus de Israel: como ouviste as palavras do livros e o teu coração se
atemorizou a ponto de te humilhares diante do Senhor, após ouvir as palavras
contra esta terra e seus habitantes, que virão a ser objeto de espanto e
reprovação, e também por rasgardes as vestes e chorardes diante de Mim, eu te
escutei - diz o Senhor - e por isso te farei descansar com teus pais e sereis
sepultado em paz, para que teus olhos não vejam o mal que farei cair sobre esta
terra"37.
Aterrorizado por essas ameaças de Deus, Josias chorou e rasgou
suas vestes, mas a certeza de que sua morte precederia as desgraças que estavam
por vir, bem como a certeza de que fora chamado a gozar a paz no repouso, sem
ter que ver aqueles males, devolveram-lhe a serenidade da alma.
Portanto, as almas dos mortos encontram-se em um lugar onde não
podem ver o que se passa ou acontece aos homens da terra. E como poderiam
partilhar das misérias dos vivos se estão a suportar as próprias penas, caso as
tenham merecido, ou estão em paz repousando, como foi prometido a Josias? Aí
não sofrem nem por si, nem por outros, pois se livraram de todas as penas por
suportarem a dor pessoal e a compaixão por outrem quando viviam sobre a terra.
CAPÍTULO XIV
Alguém me dirá por objeção: se os mortos não se interessam pelos
vivos então porque aquele rico que passava tormentos no Inferno suplicou a
Abraão para que enviasse Lázaro a seus cinco irmãos vivos, para convencê-los a
mudar de vida e, assim, evitarem aquele lugar de sofrimentos?38.
Será que é possível deduzir dessa passagem que ele sabia o que seus irmãos
faziam ou sofriam nesse tempo? Estava ele preocupado com os vivos, sem saber o
que faziam, da mesma forma como nos preocupamos com os mortos, sem sabermos o
que fazem? Na verdade, se não nos interessássemos por eles, também não
oraríamos na intenção deles. Aliás, Abraão não enviou Lázaro à terra, mas
respondeu ao condenado que seus irmãos tinham Moisés e os profetas; deveriam
ouvi-los se desejassem escapara daqueles suplícios...
Neste ponto, pode-se novamente objetar: "como poderia Abraão
ignorar o que se passava sobre a terra, já que sabia viver Moisés e os
profetas, isto é, seus escritos, e que, seguindo-os, escapariam dos tormentos
do Inferno? Ele não sabia também que o rico havia gozado as delícias e que o
pobre Lázaro vivera na miséria e no sofrimento, pois disse: 'Filho, lembra-te
de que recebeste teus bens em vida e Lázaro, por sua vez, os males'39?
Logo, Abraão conhecia os fatos referentes aos vivos e não aos mortos". É
certo, mas esses fatos ele podia não ter conhecimento no momento em que
ocorreram, mas após o falecimento dos dois e sob as indicações do próprio
Lázaro. Desse modo, a palavra do profeta não está desmentida: "Abraão
não nos conheceu"40.
CAPÍTULO XV
Convenhamos que os mortos ignoram o que acontece na terra, pelo
menos no momento em que ocorrem. Pode vir a conhecer mais tarde, por intermédio
daqueles que vão ao seu encontro, uma vez falecidos. Certamente, não ficam
sabendo de tudo, mas apenas aquilo que lhe for autorizado saber e que têm
necessidade de saber.
Os anjos, que velam sobre as coisas deste mundo, também podem lhes
revelar alguns pontos que julguem convenientes a cada um, por Aquele que tudo
governa, pois se os anjos não tivessem o poder de estarem presentes tanto na
morada dos vivos quanto na dos mortos, o próprio Senhor Jesus não teria dito: "Aconteceu
que o pobre [Lázaro] morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão"41.
Eles estão, assim, ora na terra, ora no céu, já que foi da terra que levaram
aquele homem que Deus os confiou.
As almas dos mortos também podem conhecer alguns acontecimentos
aqui da terra por revelação do Espírito Santo, acontecimentos estes cujo
conhecimento seja necessário. E isto não se restringe somente a fatos passados
ou presentes, mas também futuros. É assim que os homens - não todos, mas apenas
os profetas - conheceram durante sua vida mortal, não todas as coisas, mas
apenas aquelas que a Providência Divina julgava bom lhes revelar.
A Sagrada Escritura atesta-nos que alguns mortos foram enviados a
certas pessoas vivas e, da mesma forma, algumas pessoas foram até a morada dos
mortos: Paulo foi arrebatado até o Paraíso42; e o profeta Samuel,
após sua morte, apareceu a Saul, ainda vivo, e lhe predisse o futuro43.
É bem verdade que alguns não admitem que tenha sido Samuel que apareceu, já que
sua alma não acatava a tais procedimentos mágicos, como dizem. Julgam, assim,
que foi outro espírito que se submete a essa arte maléfica que se revestiu de
uma imagem semelhante a dele. Mas o livro do Eclesiástico, atribuído a Jesus,
filho de Sirac - cujas semelhanças de estilo poderiam ser do próprio Salomão -,
relata-nos um elogio aos Patriarcas onde afirma que "Samuel profetizou
mesmo depois de morrer"44, e isto não poderia se referir a
outra coisa a não ser essa aparição do defunto Samuel a Saul. Alguém poderia
discutir a autoridade desse livro, sob o pretexto de que não se encontra no
cânon dos hebreus, mas existe um outro texto que nos convida a admitir esse
envio de mortos aos vivos: trata-se da passagem das aparições de Moisés e Elias
no [monte] Tabor. O que dizer de Moisés, cujo livro do Deuteronômio nos
certifica da sua morte45, aparecendo vivo ao lado de Elias - que não
morreu - como lemos no Evangelho?46
CAPÍTULO XVI
Tudo o que foi escrito até agora serve para resolvermos esta
questão: como os mártires que se interessam pelas coisas humanas se manifestam,
atendendo as nossas orações, uma vez que os mortos ignoram o que fazem os
vivos?
Com efeito, sabemos, não por vagos rumores, mas por testemunhas
dignas de fé, que o confessor Félix - cujo túmulo tu veneras piedosamente como
santo asilo - deu não apenas mostras de seus benefícios, mas até de sua
presença, ao aparecer aos olhos dos homens durante o cerco da cidade de Nola
pelos bárbaros.
Esses fatos excepcionais acontecem graças à permissão divina e
estão longe de entrar na ordem normalmente estabelecida para cada espécie de
criatura. Não podemos concluir pelo fato da água ter se transformado em vinho
pela palavra do Senhor47, que a água tenha poder de operar por si
mesma essa transformação pela propriedade natural de seus elementos, visto que
tratou-se de uma operação divina excepcional e até única! Também o fato de Lázaro
ter ressuscitado48 não significa que todo morto possa se levantar
quando quiser ou que possa ser normalmente acordado como qualquer homem
adormecido. Uns são os limites do poder humano; outras são as marcas do poder
divino. Uns são fatos naturais; outros, miraculosos, ainda que Deus esteja
presente na natureza para a manter na existência e a natureza tenha seu lugar
inclusive para os milagres.
Assim, é necessário não crer que todos os defuntos - sem exceção -
podem intervir nos problemas dos vivos apenas pelo fato de que os mártires
tenham obtido curas ou prestado outros socorros. É preciso compreender, ao
invés, que é por causa do poder de Deus que os mártires intervêem nos nossos
interesses, pois os mortos não possuem tal poder por sua própria natureza.
Há, porém, uma questão que ultrapassa os limites da minha
inteligência: como os mártires, que sem sombra de dúvida socorrem seus devotos,
aparecem... em pessoa e no mesmo momento? em vários lugares e afastados uns dos
outros? sua ação se faz notar apenas onde se encontra o seu túmulo ou em
qualquer outro lugar? se permanecem confinados na morada reservada a seus
méritos, longe de qualquer relacionamento com os mortais, contentam-se em
interceder pelas necessidades daqueles que lhes suplicam? oram da mesma forma
que nós oramos pelos mortos, sem estar presentes e sem saber onde estão e o que
fazem?
Não será Deus, o Deus onipotente e onipresente, que não se acha
confinado em nós e muito menos afastado de nós, que atende as orações dos
mártires, servindo do ministério dos anjos, cuja ação se estende sobre todas as
coisas, para distribuir o consolo aos homens que Ele julga ser necessário para
enfrentar as misérias da vida presente? Não será Ele que, com poder admirável e
infinita bondade, faz resplandecer os méritos dos mártires onde Ele o quer,
quando quer, como quer, especialmente nos locais onde se ergueram suas
sepulturas, por saber que a lembrança dos sofrimentos suportados em confissão a
Cristo, nos é útil para nos confirmar na fé?
Repito: esta é uma questão muito elevada e complexa para mim, de
forma que não a posso explicá-la a fundo... Dessas duas hipóteses que indiquei,
qual será a verdadeira? Talvez os dois processos sejam empregados em conjunto,
de maneira que, às vezes, os mártires nos atendem com sua presença pessoal, e,
às vezes, por intermédio dos anjos que tomam a sua forma. Não ouso decidir e
preferiria esclarecer-me junto a homens sábios que conheçam o assunto. Não digo
que ignore ou imagine que saiba pois é impossível que não haja alguém que saiba
porque Deus, em suas liberalidades, concede certos dons a alguns e outros dons
a outros, conforme o ensino do Apóstolo que diz que a ação do Espírito Santo
manifesta-se em cada um de acordo com uma utilidade comum. Eis o que diz Paulo:
"Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para utilidade
de todos. A um, o Espírito dá a mensagem da sabedoria; a outro, a palavra da
ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro,
ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de
fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a
outro, o dom de falar em línguas; a outro, ainda, o dom de as interpretar. Mas
tudo isso é realizado pelo único e mesmo Espírito, que distribui os seus dons a
cada um conforme lhe apraz"49.
Ora, entre todos esses dons elencados pelo Apóstolo, quem recebeu
o dom do discernimento dos espíritos é que conhece essas questões - que agora
tratamos - da forma como é necessário conhecer.
CAPÍTULO XVII
Creio que esse é o caso do famoso monge João, a quem o imperador
Teodósio Magno consultou a respeito de uma guerra civil. De fato, ele possuía o
dom da profecia... Mas eu não duvido que os dons [do Espírito] sejam
distribuídos um por pessoa, isto é, acho que é possível a uma mesma pessoa
receber diversos dons.
Certa vez, esse monge João soube que uma mulher muito piedosa
desejava vê-lo. Então, através de seu marido, ela insistiu em marcar uma
entrevista, mas ele recusou, como costumava a fazer quando se tratava de
mulheres. Contudo, disse ao marido: "Ide e dize à tua esposa que ela me
verá esta noite durante o sono". E, de fato, ela o viu dando-lhe conselhos
convenientes a uma mulher cristã casada. Quando acordou, essa mulher contou
tudo a seu marido, que conhecera pessoalmente esse homem de Deus e o reconheceu
tal como ela o descreveu. O casal, então, revelou esse fato a um senhor que me
comunicou, senhor esse sério, nobre e digno de fé.
Ora, se me fosse possível encontrar esse santo monge que, como me
disseram, se deixava interrogar pacientemente, sabendo responder tudo com
grande sabedoria, perguntar-lhe-ia algo que nos interessa aqui: se ele
realmente se apresentou a essa mulher que dormia, pessoalmente, sob os traços
aparentes do seu corpo, tal como os nossos corpos se apresentam a nós mesmos
durante nossos sonhos; ou se a visão ocorreu pelo ministério dos anjos ou outra
modalidade, enquanto ele mesmo fazia outra coisa ou até mesmo dormia, tendo
seus próprios sonhos... E, caso confirmasse esta segunda hipótese,
perguntar-lhe-ia se foi por uma revelação do Espírito de profecia que pôde
prometer sua aparição naquela noite, durante o sonho da mulher.
Ora, se ele se apresentou pessoalmente em sonho à mulher, ele o
fez por uma graça extraordinária e não por meios naturais, isto é, por um dom
de Deus e não por seu próprio e natural poder. Mas, se essa mulher o viu
enquanto ele fazia uma outra coisa (por exemplo: estivesse ele dormindo e tendo
seus próprios sonhos), o fato se assemelhará ao que lemos nos Atos dos Apóstolos,
quando o Senhor Jesus, falando a Ananias sobre Saulo, revela-lhe que Saulo vê
Ananias ir até ele, ao passo que este nada sabia sobre isso50.
Porém, qualquer que fosse a resposta dada pelo monge João, esse
homem de Deus, às minhas perguntais, eu ainda o teria questionado sobre os
mártires. Perguntar-lhe-ia se eles aparecem pessoalmente durante o sono ou
outro modo, sob figura que lhes apraz. E perguntaria, principalmente, como
explicar o fato de demônios que habitam pessoas possessas queixarem-se de ser
atormentados pelos mártires, a ponto de suplicarem que sejam poupados. Ainda
lhe perguntaria se a sua intervenção se produz por ordem de Deus e pelo
ministério dos anjos, para a glorificação dos santos e utilidade dos homens, já
que os mártires encontram-se em repouso, longe de nós, em visões mais altas,
contentando-se em orar por nossa intenção. De fato, em Milão, junto à sepultura
de Gervásio e Protásio, quando se pronunciava os nomes desses heróis e dos
falecidos comemorados com eles, os demônios gritavam o nome de Ambrósio, que
ainda era vivo, suplicando-lhe que os poupasse. E o bispo encontrava-se longe
dali, ignorando o que se passava e entretido com outras ocupações...
Será que podemos pensar que os mártires às vezes agem por presença
efetiva e outras vezes pelos ministérios dos anjos? Podemos discernir o modo
empregado por eles? Sob quais sinais podemos reconhecer isso? Somente quem
recebeu esse dom do Espírito Santo é que pode discernir, pois é o Espírito que
distribui os favores particulares a cada um, conforme lhe apraz.
Creio que o monge João, a meu pedido, poderia me esclarecer sobre
essas dificuldades. Em sua escola eu poderia aprender o verdadeiro e correto
conhecimento, ou até mesmo poderia crer - mesmo sem o compreender - naquilo que
me afirmasse saber com certeza. Talvez até ele me responderia com as seguintes
palavras da Escritura:
"Não procures saber o que excede a tua capacidade e não
especules o que ultrapassa as tuas forças; mas creia sempre no que Deus te
mandou"51.
Com gratidão, eu também acolheria esse conselho, pois não é de
pouco proveito, nas coisas obscuras e incertas - e que não podemos compreender,
adquirir a convicção clara e correta de que elas não devem ser investigadas, ou
seja, convencer-se de que não é nocivo ignorar aquilo que se quer saber,
imaginando que poderíamos tirar proveito em o saber.
CAPÍTULO XVIII
Conforme o que expomos anteriormente, eis o que devemos pensar a
respeito dos benefícios prestados aos mortos a quem dedicamos os nossos
cuidados: nossas súplicas só lhes serão proveitosas se forem oferecidas de modo
conveniente, no sacrifício do altar, em nossas orações e esmolas. Também é
necessário dizer que [nossas súplicas] não serão proveitosas a todos a quem
pretendemos ajudas, mas tão somente àqueles que tornaram-se dignos, durante a
vida, de receber tal benefício. Contudo, como não podemos discernir quem sejam,
convém apresentar súplicas a todos os regenerados, para que não omitamos alguém
entre aqueles que possam se servir desses benefícios. Melhor ainda é que haja
sobras dessas boas obras, mesmo oferecidas para aqueles que não podem se
beneficiar delas, para que não venham a faltar para aqueles que podem tirar
proveito. Entretanto, é mais natural que sejam oferecidas pelos amigos, a fim
de que tais cuidados também sejam prestados mais tarde à nós.
Tudo o que se faz quanto ao sepultamento digno dos falecidos não é
para obter a sua salvação, mas para cumprir um dever de humanidade, conforme o
sentimento natural de que "ninguém odeia a sua própria carne"52.
Portanto, é certo que se tenha pelo corpo do próximo o cuidado que ele próprio não
pode mais se dar por ter deixado esta vida. E, já que esse cuidado é tido até
mesmo por aqueles que negam a ressurreição da carne, nada mais justo que
aqueles que crêem [na ressurreição] o façam ainda com maior solicitude. Assim,
que o cuidado tributado a esse corpo sem vida - mas que haverá de ressuscitar e
permanecer por toda a eternidade - se constitua no testemunho claro dessa mesma
fé.
Quanto à sepultura próxima ao túmulo dos mártires, eis a única
utilidade que me parece trazer para o defunto: colocando-a sob a proteção dos
mártires, ela torna mais viva a caridade daqueles que oram por ele.
Tais são as respostas que posso apresentar às tuas questões.
Desculpa-me se me estendi por demais, mas isso decorre do prazer e afeição que
sinto ao conversar contigo. Peço-te que me escrevas, para que eu possa conhecer
as impressões que Vossa Venerável Caridade sentiu ao ler este trabalho.
Sem sombra de dúvida, o portador desta carta torna-la-á mais
agradável. Trata-se do nosso irmão no sacerdócio, Candidiano, que conheci por
ter-me trazido as tuas cartas. Acolhi-o de corações e vejo-o partir com pesar,
pois sua presença na caridade de Cristo foi grande consolo para mim. Graças à
sua insistência - devo confessar - vi-me obrigado a responder-te, pois o meu
coração está sobrecarregado por muitas e muitas preocupações; se ele não me
lembrasse freqüentemente, certamente teria me esquecido e o teu pedido ficaria
sem resposta.
1cf. 2Cor 5,10.
2cf. 2Mc 12,43.
3Virgílio,
"Eneida" VI,327-328: "Nec ripas datur horrendas, nec rauca
fluenta transportare prius quam sedibus ossa quierunt".
4cf. Mt 10,30.
5cf. Lc 12,4.
6cf.
Sto. Agostinho, "A Cidade de Deus" I,12-13.
7cf. Lc 21,18.
8cf. Mt 10,28.
9cf. Sl 78,2-3.
10cf. Sl 115,15.
11v. Lc 16,22.
12Lucano,
"Farsália",VIII: "Coelis tegitur, qui non habet urnam".
13cf. 1Cor 15,52.
14cf. Gn 25,9; 35,29; 47,30; 50,2.13.
15cf. Tb 2,9; 12,12.
16cf. Mt 26,10-13.
17cf. Jo 19,38-42.
18Sto. Agostinho, "A Cidade de Deus" I,12-13.
19Clara menção à Missa de Finados.
20Através da ressurrreição.
21Lc 12,4.
21cf. Ef 5,29.
22cf. 1Rs 13,21-22.
23cf. 1Cor 11,31-32.
24v. nota 21.
25cf. 1Rs 13,24.
26cf. Lc 12,4.
27Eusébio de Cesaréia, "História Eclesiástica" V,1,61.
28cf. 2Sm 2,4-6.
29Virgílio, "Eneida" VI.
30v. nota 26.
31v. nota 28.
32v. nota 21.
33Virgílio, "Eneida" VI,337.
35cf. Sl 26,10.
36cf. Is 63,16.
37cf. 2Rs 22,18-20.
38cf. Lc 16,27.
39cf. Lc 16,25.
40v. nota 36.
41cf. Lc 16,22.
42cf. 2Cor 12,2.
43cf. 1Sm 28,15-19.
44cf. Eclo 46,23.
45cf. Dt 34,5.
46cf. Mt 17,3.
47cf. Jo 2,9.
48cf. Jo 11,44.
49cf. 1Cor 12,7-11.
50cf. At 9,12.
51cf. Eclo 3,22.
52cf. Ef 5,29.