EPÍSTOLA DE EFRÉM
DA SÍRIA A UM MONGE SOBRE A HUMILDADE, A CARIDADE E A FIDELIDADE À FÉ DA IGREJA
CATÓLICA
Tradução:
Carlos Martins Nabeto
(Agnus Dei)
Santo Efrém da Síria
(306-373 d.C. aprox.), Padre da Igreja, expõe nesta epístola uma série de
questões espirituais referentes à vida monástica, entre elas a humildade, a
vivência da caridade e a exortação para que o cristão seja sempre fiel à fé que
recebeu da Igreja Católica.
Meu
bem-amado no Senhor,
Quando
desejardes dar alguma resposta, deves por em tua boca, antes de mais nada, a
humildade uma vez que sabes muito bem que, por ela, todo o poder do inimigo se
reduz a nada. Tu conheces a bondade do teu Mestre, que foi blasfemado, e como
Ele se fez humilde e obediente inclusive até a morte. Filho meu, trabalha por
ti mesmo para firmar a humildade em tua boca, em teu coração e em teu colo,
pois há um mandamento que a exige. Lembra-te de Davi, que vangloriava-se por
sua humildade e disse: “Porque me humilho, o Senhor me libertou e me abençoou”
(Sal 29 [30], 8-12). Filho meu, apega-te à humildade e farás com que as
virtudes de Deus te acompanhem. E se permanecerdes no estado de humildade, nenhuma
paixão, qualquer que seja, poderá dominar-te. Não existe medida para a beleza
do homem que é humilde. Não há paixão, qualquer que seja, capaz de dominar o
homem humilde; e não há medida para a sua beleza. O homem humilde é um
sacrifício a Deus. O coração de Deus e de seus anjos descansam naquele que é
humilde. Mais ainda: quando os anjos o glorificam, é porque houve uma razão
para ele obter todas as virtudes; porém, aquele que se revestiu da humildade
não necessita de nenhuma razão além de se Ter feito humilde.
Filho meu,
estas são as virtudes da humildade. Filho meu, conserva a paz, pois está
escrito: “Aquele que é sábio, nesse momento conservará a paz” (Am 5, 13).
Mantém a paz até que te questionem. E quando te questionarem, fale usando
palavras humildes; comporta-te também de maneira humilde. Não lamentes. Se a
pergunta exigir extensa resposta, senta-te. Nunca fales enquanto os outros
estiverem usando palavras de desprezo; mas, alegremente, não esqueças que teus
pensamentos devem ser estes: “não escutei [as palavras de desprezo]”. Prestai
tua máxima atenção, porém, à toda palavra valiosa, pois está escrito: “Se tu
deixas passar a palavra e não a escuta, te enganas a ti mesmo, filho meu no
Senhor”. Te dei mandamentos desde o princípio; guarda-os desde a juventude.
Examina o que diz Paulo; disse: “Desde o tempo em que eras um menino, conhecias
a Santa Escritura, que tem o poder para te salvar” (2Tim 3,15). Aprende toda
regra dos preceitos do monge, e faz-te querido em todos os teus trabalhos. Se
tu, que sois jovem, vais para o deserto e te estabeleces em um local muito
grande para ti e vês que Deus ali está, não deixes esse lugar para ir para
outro, porque estais descontente. Deixa que o deserto em que te estabeleceste
te seja suficiente, não deixeis que Ele se ofenda, pois está escrito: “Não é
uma pequena coisa contrária que provocará a ira nos homens”.
No deserto
em que te estabeleceste mantém esta maneira de agir e não fujas de um lugar
para outro. Não te dirija à morada de ninguém para lamentar no que crês, muito
menos por causa dos desejos do teu estômago. Não estejas em companhia do homem
agitado e problemático, mas assegura-te em continuar com tua vida silenciosa;
não estejas também na boca dos teus irmãos. Te suplico, meu amado no Senhor,
que deixeis que tua meta principal seja aprender; escutar com atenção (ou
obedecer) te dará a paz, pois está escrito: “O proveito da instrução não é a
prata”. Cuida-te para jamais deixar de escutar (ou desobedecer). Que a palavra
de Saul não se realize em ti, nem em tua geração, pois Deus é mais facilmente
persuadido pela obediência do que pelo sacrifício (cf. 1 Sam 15, 22).
Estas são,
então, as regras do ofício do monge: deves comer com os irmãos; não levantes a
cabeça enquanto não tiver terminado de comer; come com a roupa que te deixas
ver em público; se acontecer de serdes o último a ser servido, não digas:
“Traga-me logo, pois aqui está sentado alguém maior que tu”; quando desejares
beber da garrafa de água, não deixes que tua garganta cause confusão como um
homem comum; quando estiverdes sentado no meio dos irmãos e desejares cuspir,
não o faça no meio deles, mas afasta-te a certa distância e então cospe.
Quando
estiverdes dormindo em algum lugar com os irmãos, não permitas que pessoa
alguma se aproxime a menos de um cotovelo de distância. Se o trabalho for
tranqüilo, não durmas sobre a esteira, mas dobra-a pois sois um homem jovem.
Não durmas estendido, nem tampouco de costas, para que teus sonhos não te
molestem.
Quando
estiverdes caminhando com os irmãos, mantém-te sempre a alguma distância deles,
pois quando caminhas com um irmão fazes com que teu coração esteja ocioso. Se
estiverdes usando sandálias nos pés e o que caminha contigo não as têm,
desata-as e caminha como ele, pois está escrito: “Sofrereis”.
Faz o
trabalho do pregador. Faça-o cuidadosamente enquanto estiverdes em tua
habitação. Não comas enquanto o sol estiver brilhando. Não acendas a fogueira
para ti apenas, ou te transformarás num homem exibido. Quando for necessário
aquecer-se, chama algum homem pobre e miserável que está contigo no deserto, e
serás elogiado, ao dizer: “Não posso comer sozinho o meu pão”.
Se
estiverdes numa montanha ou em um lugar onde há algum irmão doente, visita-o
duas vezes ao dia: de manhã, antes de começardes a trabalhar com tuas mãos, e à
tarde; pois está escrito, meu amado no Senhor: “Estive doente e tu me
visitaste” (Mt 25, 36. 43). Quando um irmão morre na montanha onde estás, não
te sentes na cela onde consegues ouvir a notícia, mas vai sentar-te com ele e
chora sobre ele; pois está escrito: “Chora pelo homem falecido e caminha com
ele até que seja enterrado”, pois esta é a última coisa que se pode fazer por
seu irmão. Saúda seu corpo com compaixão, dizendo: “Lembra-te de mim diante do
Senhor”.
Filho meu,
faz tudo o possível para observar as coisas que escrevi para ti, pois elas são
as regras do ofício do monge. Deixa que a morte se aproxime de ti de dia e de
noite, pois tu sabes que conheces ela e te dirá: “Eu nunca a pus em meu
coração. Meus pés estão no umbral e viverei até cruzar o umbral da porta”.
Filho meu, põe sempre toda a tua mente diante de Deus e não deixes que todos
estes pensamentos instáveis te desviem do caminho. Tem sempre em vista os
castigos que vêm. Enquanto estiverdes em tua habitação, faz-te semelhante a
Deus.
Se um irmão
vem até ti, regozija-te com ele. Saúda-o. Prepara água para seus pés. Não
esqueça isto. Que ele reze. Ficai sentado. Saúda suas mãos e seus pés. Não o
incomodes com perguntas como: “De onde vens?”; pois está escrito: “Desta maneira,
alguns, sem saber, têm recebido anjos em sua morada” (Heb 12, 2). Crê naquele
que veio a ti da mesma forma como crerias em Deus. Se ele for um homem mais
virtuoso que tu, diga-lhe humildemente: “Que teu favor esteja sobre mim”, o que
equivale a dizer: “Tu és meu mestre”. Guarda tua comida e come com ele. E se
tiverdes algum compromisso, desmarca-o; pois está escrito: “Filho meu, sempre
me traz prazer acompanhar o homem que quer caminhar”. Deves regozijar-te com
ele e estar feliz. Fazei o máximo que puder para que te bendiga três vezes,
para que a bênção do anjo que entrou com ele venha sobre ti.
E como exige
a mesma fé da Igreja Católica, não te desvies dela, nem te ponhas fora dela.
Cremos em só Deus, Pai todo-poderoso, e em seu Filho único, Jesus Cristo, nosso
Senhor, por quem foi feito o universo, e no Espírito Santo, ou seja, [cremos]
na Santíssima Trindade, a divindade plena. Ele [Jesus] é Deus, Ele estava com
Deus, Ele é a Luz que vem da Luz, Ele é o Senhor que vem do Senhor. Ele foi
gerado, não criado. Foi gerado como homem. Ele não é uma criatura, é Deus. Foi
gerado pela Santíssima Virgem Maria, a mulher que levou Deus em seu seio. Ele
tomou a carne do homem para o nosso bem, [veio] à terra e dela ascendeu.
Escolheu pregadores, os Santos Apóstolos, cujas vozes, conforme o que está
escrito, têm sido ouvidas em toda a terra (Sal 18 [19],4). Fui crucificado e
traspassado com uma lança. Daí veio a nossa salvação, Água e Sangue, isto é, o
Batismo e o glorioso Sangue; quem não recebeu o Sangue, não foi batizado.
Faz isto,
filho meu. Mantém esta fé e o Deus da paz estará contigo, e te salvará, e te
libertará, e estarás em paz pelo resto dos teus dias. A salvação está no
Senhor, filho querido, no Senhor. Lembra-te de mim, amado no Senhor, por Jesus,
o Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos
séculos. Amém.