EPÍSTOLA
DE BARNABÉ
Autor: Barnabé Apóstolo
Tradução: Ivo Storniolo/Euclides M. Balancim
Fonte: Ictis
Encontrada nos manuscritos no século passado, no
Sinaítico, por Tischendorf, em 1859, e no Gerusolemitano, por Bryennios, em
1875, esta carta não nos fornece o nome de seu autor, nem a data e o local de
composição.
Foi Clemente de Alexandria quem deu origem à
tradição que atribui a autoria desta carta a Barnabé, companheiro e colaborador
de São Paulo. Em Stromates 5,63,1-6 e no fragmento Hypotyposes mencionado por
Eusébio em História Eclesiástica II,1,4, Clemente diz: “A Tiago, o Justo, a
João e a Pedro, o Senhor, após sua ressurreição, transmitiu a gnose, estes a
transmitiram aos outros apóstolos e os outros apóstolos aos 70, dos quais um
era Barnabé”. A identificação desta carta com o colaborador de São Paulo foi
adotada, em seguida, por Orígenes e o argumento aduzido se deve a que a carta
fora encontrada entre os escritos do Novo Testamento, nos manuscritos
Sinaíticos. Este argumento é responsável, também, pela inclusão da carta entre
os livros canônicos, inspirados, por parte de Clemente e Orígenes... Contudo,
Eusébio e Jerônimo não aceitam este argumento e excluem a carta dentre os
livros inspirados.
O ponto de partida para fixação da data da
composição desta obra são os capítulos IV e XVI. (...) A carta teria sido
escrita durante o período de reconstrução do templo, se pudermos dizer que 16,4
se refere, conforme querem Harnack e Lietzmann, a este fato. Tudo leva a crer
que esta é a hipótese mais provável. De fato, evocando Isaías, o autor diz:
"Eis que aqueles que destruíram esse templo, eles mesmos o
edificarão". E prossegue: "E o que está se realizando, pois, por
causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. E agora os mesmos
servos dos inimigos o reconstruirão". Este "é o que está se
realizando" e o "agora" dão a impressão de que o autor está bem
informado e é contemporâneo aos acontecimentos. Este escrito estaria datado,
portanto, em torno dos anos 134-135.
A obra está dividida em duas partes bem distintas e
muito desiguais. A primeira parte, correspondem os capítulos 2 a 16. O cap. 1 é
uma introdução e o cap. 17 se constitui na conclusão desta primeira parte. A
segunda parte, correspondem os caps. 18-21. A 1ª parte é doutrinária,
dogmática. A 2ª, utilizando a imagem dos "Dois caminhos", transmite
ensinamento moral.
CAPÍTULO 1
Saudação
Filhos e filhas, eu vos saúdo na paz,
em nome do Senhor que nos amou.
A fé dos destinatários Grandes e ricos são os decretos de
Deus a vosso respeito. Acima de tudo, eu me alegro imensamente pelos vossos
espíritos felizes e gloriosos, pois dele recebestes a semente plantada em vós
mesmos, a graça do dom espiritual. Por isso, eu me alegro mais na esperança de
me salvar, porque verdadeiramente vejo em vós que o Espírito da fonte abundante
do Senhor foi derramado sobre vós. Em vosso caso, foi isso que me chamou a
atenção ao vê-los, o que eu tanto desejava.
Intenções do autor
Estou convencido e intimamente
persuadido disso, porque conversei muito convosco. O Senhor caminhou comigo no
caminho da justiça e eu também me sinto impulsionado a amar-vos mais do que à
minha própria vida, pois a fé e o amor que habitam em vós são grandes e
fundados sobre a esperança da vida dele. Pensei que, se eu me preocupasse em
participar-vos aquilo que recebi, eu teria recompensa por ter servido a espíritos
como os vossos. Esforcei-me então para vos enviar estas poucas linhas, para
que, além de vossa fé, tenhais também o conhecimento perfeito. Os ensinamentos
do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça,
começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento
das obras realizadas na justiça. Com efeito, por meio dos profetas, o Senhor
nos fez conhecer o passado e o presente, e nos fez saborear antecipadamente o
futuro. Vendo que uma e outra coisa se realizam conforme ele falou, devemos
progredir no seu temor, de maneira mais rica e mais elevada. 8 Quanto a mim,
não é como mestre, mas como um de vós, que vos preparei umas poucas coisas.
Através delas, vocês se alegrarão nas circunstâncias presentes.
CAPÍTULO 2
O culto que Deus quer
Introdução
Como os dias são maus e é aquele que
exerce o poder, devemos, para o nosso próprio bem, procurar as decisões do
Senhor. Os auxiliares da nossa fé são o temor e a perseverança, e nossos
companheiros de luta são a paciência e o autocontrole. Se essas virtudes
permanecem puras diante do Senhor, a sabedoria, a inteligência, a ciência e o
conhecimento virão regozijar-se com elas.
Os sacrifícios
De fato, foi-nos mostrado, mediante
todos os profetas, que Deus não tem necessidade de sacrifícios, nem de
holocaustos, e nem de ofertas. Em certa ocasião, ele diz: "Que me importa
a multidão de vossos sacrifícios?" diz o Senhor. "Estou farto dos
holocaustos de carneiros e da gordura de cordeiros não sangue de touros e de
bodes, e nem que venhais vos apresentar diante de mim. Quem pediu essas coisas
de vossas mãos? Não continueis a pisar em meu átrio. Se ofereceis flor de
farinha, é em vão; vosso incenso para mim é abominação. Não suporto vossas
neomênias e vossos sábados." Ele rejeitou essas coisas, para que a lei
nova de nosso Senhor Jesus Cristo, que é sem o jugo da necessidade, não precise
de oferta preparada por homens. Ele ainda lhes disse: "Por acaso, ordenei
a vossos pais, ao saírem do Egito, que me oferecessem holocaustos? Pelo
contrário, eis o que lhes ordenei: Que nenhum de vós guarde em seu coração
rancor contra o próximo e que não ame o juramento falso." Devemos,
portanto, compreender, pois não somos sem inteligência, o desígnio de nosso Pai
em sua bondade, pois ele se dirige a nós, desejando que procuremos o modo de
nos aproximar dele, sem nos extraviar, como aqueles homens. Eis, portanto, o
que ele nos diz: "O sacrifício para Deus é um coração contrito; o perfume
de suave odor para o Senhor é o coração que glorifica o seu Criador."
Irmãos, devemos, portanto, cuidar de nossa salvação, para que o maligno não
introduza em nós o erro, e nos atire, como pedra de funda, para longe da nossa
vida.
CAPÍTULO 3
O jejum
A respeito disso, falou-lhes ainda,
"Com que finalidade jejuais para mim", diz o Senhor, "como se
ouve hoje aos gritos a vossa voz? Não é esse jejum que escolhi", diz o
Senhor, "não o homem que humilha a si mesmo. Nem quando dobrais vosso
pescoço como um círculo, nem quando vos cobris de pano de saco e cinza, não
chameis isso de jejum agradável." Para nós, porém, ele diz: "Eis o
jejum que eu escolhi", diz o Senhor: "Desata todas as amarras da
injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em
liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se
vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum
pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família. Então tua
luz romperá pela manhã, tuas vestes rapidamente resplandecerão, a justiça irá à
tua frente e a glória de Deus te envolverá. Então outra vez gritarás, e Deus te
ouvirá. Ao falar, ele te dirá: Eis-me aqui! Isso, se renunciares a tecer
amarras, a levantar a mão, a murmurar, e se deres de coração o teu pão ao
faminto e tiveres compaixão da pessoa necessitada." Por isso, irmãos, o
paciente (Deus), prevendo que o povo, que ele preparou através do seu Amado,
acreditaria com simplicidade, nos antecipou todas essas coisas, para que nós,
como prosélitos, não nos arrebentássemos contra a lei deles.
CAPÍTULO 4
Vigilância
Exortação geral
É preciso, portanto, que examinemos com
grande atenção a situação presente, para procurar o que nos pode salvar.
Fujamos, pois, radicalmente de todas as obras iníquas, para que as obras
iníquas jamais se apoderem de nós. Odiemos o erro do mundo presente, para que
sejamos amados no mundo futuro. Não demos à nossa alma a liberdade, de modo que
ela não tenha poder de correr com os maus e pecadores, a fim de que não nos
tornemos semelhantes a eles.
Iminência do fim
O máximo do escândalo se aproxima,
conforme está escrito, como diz Henoc . Com efeito, é por isso que o Senhor
abreviou os tempos e os dias, a fim de que seu Amado chegue mais depressa à herança.
Assim diz o profeta: "Dez reis reinarão sobre a terra e, depois disso,
surgirá um pequeno rei que humilhará três reis de uma só vez." Sobre isso,
Daniel diz algo semelhante: "Vi a quarta besta, maligna, forte e mais
terrível do que todas as bestas do mar. Dela brotaram dez chifres, e desses
saiu um pequeno chifre, como broto. Este, de uma só vez, humilhou três dos
chifres grandes." Deveis, portanto, compreender.
A Aliança tem exigências
Além disso, peço- vos insistentemente,
eu que sou um e vós e vos amo a todos e a cada um em particular mais do que a
.mim mesmo: tomai cuidado para não ficardes como certas- pessoas, que acumulam
pecados, dizendo que a Aliança está garantida para nós. Claro que era é nossa.
Eles (os judeus) a perderam definitivamente, embora Moisés já a tivesse
recebido. De fato, a Escritura diz: "Moisés jejuou na montanha durante
quarenta dias e quarenta noites, e depois recebeu do Senhor a Aliança, as
tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor." Eles, porém, a perderam,
por se terem voltado para os ídolos. Com efeito, assim disse o Senhor:
"Moisés, Moisés, desce depressa, pois teu povo pecou, aqueles que fizeste
sair da terra do Egito." Moisés compreendeu, e jogou as duas tábuas de
suas mãos. A Aliança deles foi rompida, para que a de Jesus, o Amado, fosse
selada em nossos corações pela esperança da fé que nele temos. Querendo
escrever muitas coisas, não como mestre, mas como convém a quem ama, não
deixando perder nada do que possuímos, apliquei-me a escrever, como vosso humilde
servidor. Estejamos atentos nestes últimos dias! Nada adiantará todo o tempo de
nossa vida e de nossa fé, se agora, neste tempo de impiedade e na iminência dos
escândalos, não resistirmos, como convém a filhos de Deus. A fim de que a Treva
não se infiltre em nós e às escondidas, fujamos de toda vaidade e odiemos
completamente as obras do mau caminho. Não vos isoleis, dobrando-vos sobre vós
mesmos, como se já estivésseis justificados, mas reuni-vos, para procurar
juntos o vosso bem comum. De fato, a Escritura diz: "Ai daqueles que se
crêem inteligentes e que são sábios diante de si mesmos!" Tornemo-nos
espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto nos for possível,
apliquemo-nos ao temor de Deus e combatamos para observar seus mandamentos, a
fim de nos alegrarmos em suas disposições. O Senhor julgará o mundo com
imparcialidade; cada um receberá segundo o que fez. Se for bom, sua justiça o
precederá; se for mau, diante dele irá o salário do mal. 13. Tomemos cuidado
para não ficarmos tranqüilos como chamados, adormecendo sobre nossos pecados,
de modo que o príncipe do mal se apodere de nós e nos afaste do reino do
Senhor. Meus irmãos, compreendei ainda o seguinte: quando vedes que, depois de
tantos sinais e prodígios acontecidos em Israel, assim mesmo eles foram
abandonados, tomemos cuidado, como está escrito, para que não sejamos
encontrados "muitos chamados, mas poucos escolhidos."
CAPÍTULO 5
Sofrimento do Senhor
O Senhor sofreu para purificar-nos de
nossos pecados
O Senhor suportou entregar sua própria
carne à destruição, para que fôssemos purificados pelo perdão dos pecados, isto
é, pela aspersão feita com seu sangue. A respeito dele, a Escritura diz o
seguinte sobre Israel e sobre nós: "Ele foi ferido por causa de nossas
iniqüidades e maltratado por causa de nossos pecados, e nós fomos curados por
sua chaga. Foi conduzido como ovelha ao matadouro e, como cordeiro, ficou mudo
diante do tosquiador."
Responsabilidade do homem
Precisamos, portanto, multiplicar
nossos agradeci mentos ao Senhor, porque ele nos fez conhecer as coisas
passadas, tornou-nos sábios no presente e não estamos sem inteligência para as
coisas futuras. A Escritura diz: "Não se estendem injustamente as redes
para os pássaros." Isso quer dizer que, com razão, se perderá o homem que,
tendo conhecimento do caminho da justiça, toma entretanto o caminho das trevas.
O Senhor sofreu para cumprir a promessa
Ainda o seguinte, meus irmãos: "Se
o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do mundo inteiro, a
quem Deus disse desde a criação do mundo: ‘Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança', como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens? Aprendei. Os
profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu respeito. E ele afim de
destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, teve que se encarnar e
sofrer, afim de cumprir a promessa feita aos pais e preparar para si o povo
novo e demonstrar, durante sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria,
depois de ter realizado a ressurreição.
O Senhor sofreu na carne para que os
pecadores pudessem vê-lo
Por fim, embora ele tivesse ensinado a
Israel e realizado tão grandes prodígios e sinais, eles não foram levados por
sua pregação a amá-lo acima de tudo. Porém, quando ele escolheu seus próprios
apóstolos, que iriam anunciar o seu Evangelho, homens cujo pecado ultrapassava
a medida, foi para mostrar que ele não tinha vindo chamar os justos, e sim os
pecadores. Então ele manifestou que era Filho de Deus. Com efeito, se não se
tivesse encarnado, como os homens poderiam ter sido salvos ao vê-lo, uma vez
que eles não podem levantar os olhos para olhar de frente os raios do sol, que
todavia um dia deixará de existir e que é tão-somente obra de suas mãos?
O Senhor sofreu para levar ao máximo o
pecado de Israel
Se o Filho de Deus se encarnou, foi
para levar ao máximo os pecados daqueles que tinham perseguido mortalmente os
profetas dele. E por isso que ele suportou. De fato, Deus diz que é deles que
vem a ferida de sua carne: "Quando ferirem o seu pastor, então as ovelhas
do rebanho perecerão." Foi ele, porém, que quis sofrer desse modo. Com
efeito, era preciso que ele sofresse sobre o madeiro, pois o profeta diz a seu
respeito: "Poupa à minha vida à espada." E "transpassa com cravo
a minha carne, porque uma assembléia de malfeitores se levantou contra
mim." E diz ainda: "Eis que ofereci minhas costas aos açoites e minha
face para as bofetadas. Contudo, mantive o meu rosto como pedra dura."
CAPÍTULO 6
Vitória pascal
O que diz ele, quando cumpriu o
mandamento? "Quem é que me julga? Coloque-se diante de mim. Ou quem quer
ser declarado justo diante de mim? Que se aproxime do servo do Senhor. Ai de
vós! Porque todos vós envelhecereis como veste e a traça vos roerá." E o profeta
continua, uma vez que ele foi colocado como sólida pedra para esmagar:
"Eis que colocarei nos alicerces de Sião uma pedra de grande valor,
escolhida, angular e preciosa." O que diz em seguida? "Aquele que
nela crer, viverá para sempre." Será que a nossa esperança está numa
pedra? De modo nenhum. Mas foi o Senhor que tornou forte a sua carne. Com
efeito, ele diz: "Ele me tornou como pedra dura". O profeta continua:
"A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça de ângulo."
E diz ainda: "Este é o dia grande e maravilhoso que o Senhor fez."
A paixão
Eu, humilde servo do amor, vos escrevo
com simplicidade, para que compreendais. O que diz ainda o profeta? "Uma
assembléia de malfeitores me rodeou. Eles me cercaram como abelhas ao
favo." E "sobre minhas vestes tiraram sortes." E como era na sua
carne que ele devia revelar-se e sofrer, sua paixão foi revelada de antemão. De
fato, o profeta diz a respeito de Israel: "Ai da vida deles! Pois
conceberam um desejo mau contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque
ele nos incomoda."
Nova criação
Que lhes diz Moisés, outro profeta?
"Eis o que diz o Senhor Deus: Entrai na terra boa, que o Senhor prometeu a
Abraão, Isaac e Jacó. Tomai posse dessa terra, onde correm leite e mel." 0
que diz a sabedoria? Aprendei: "Ponde vossa esperança em Jesus, que deve
revelar-se a vós na carne." Com efeito, o homem é terra que sofre, pois é
da terra que Adão foi plasmado. Que significa: "Na terra boa, terra onde
correm leite e mel"? Bendito seja nosso Senhor, irmãos, pois ele pôs em
nós a sabedoria e o entendimento de seus segredos. Pois o profeta diz:
"Quem poderá compreender uma parábola do Senhor, a não ser o sábio que
conhece e ama o seu Senhor?" Depois de nos ter renovado com o perdão dos
pecados, ele fez de nós um novo ser, de modo que tenhamos alma de criança, como
se ele nos tivesse plasmado novamente. De fato, a Escritura fala a nosso
respeito, quando ele diz ao Filho: "Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os
peixes do mar." E, vendo que nós éramos boa criação, o Senhor disse:
"Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra." Foi isso que ele disse
ao Filho. Vou agora te mostrar como ele fala de nós. Ele realizou segunda
criação nos últimos tempos. O Senhor diz: "Eis que faço as últimas coisas
como as primeiras." Nesse sentido, assim falou o profeta: "Entrai na
terra onde correm leite e mel, e dominai-a." Eis-nos, portanto, criados de
novo, conforme o que ele diz ainda por outro profeta: "Eis", diz o
Senhor, "que arrancarei deles" -isto é, daqueles que o Espírito do
Senhor via de antemão-"os corações de pedra, e implantarei neles corações
de carne." De fato, é na carne que ele devia manifestar-se e habitar em
nós. Com efeito, meus irmãos, nossos corações assim habitados formam um templo
santo para o Senhor. E o Senhor diz ainda: "Como me apresentarei diante do
Senhor e serei glorificado?" Ele diz: "Celebrar-te-ei na assembléia
de meus irmãos e cantarei teus louvores em meio à assembléia dos santos."
Portanto, somos nós que ele fez entrar na terra boa. E o que significam o
"leite" e o "mel"? E porque a criança é nutrida primeiro
com o mel e depois com o leite. Igualmente nós, alimentados pela fé na promessa
e na palavra, vivemos dominando a terra. Ora, ele tinha dito antes: "Que
eles cresçam, se multipliquem e dominem os peixes." E quem pode hoje
dominar as feras, ou os peixes, ou os pássaros do céu? Devemos compreender que
dominar implica poder, a fim de que aquele que ordena possa dominar. Se hoje não
é assim, ele nos disse o tempo: Quando formos perfeitos para sermos herdeiros
da aliança do Senhor.
CAPÍTULO 7
Jejum e o bode expiatório
Compreendei, portanto, filhos da
alegria, que o bom Senhor nos revelou tudo de antemão, para que saibamos a quem
constantemente celebrar com ação de graças. Se o Filho de Deus, que é Senhor e
julgará os vivos e os mortos, sofreu para nos dar a vida por meio de seus
ferimentos, acreditamos que o Filho de Deus não podia sofrer, a não ser por
causa de nós. Além disso, já crucificado, deram-lhe a beber vinagre e fel.
Escutai como os sacerdotes do templo se expressaram sobre isso. O mandamento
escrito dizia: "Quem não jejuar no dia do jejum, será condenado à
morte." O Senhor deu esse mandamento, porque também ele devia oferecer a
si próprio pelos nossos pecados, como receptáculo do Espírito, em sacrifício, a
fim de que fosse cumprida a prefiguração manifestada em Isaac, oferecido sobre
o altar. O que diz ele por meio do profeta? "Que comam, durante o jejum,
do bode oferecido por todos os pecados." Notai bem: "E que todos os
sacerdotes, e somente eles, comam as vísceras não lavadas com vinagre."
Por que isso? "Porque vós me fareis beber fel com vinagre, a mim que
ofereci minha carne pelos pecados do meu novo povo. Somente vós comereis,
enquanto o povo jejuará e se flagelará com pano de saco e cinza." Isso era
para mostrar que ele deveria sofrer na mão deles. Como ele ordenou? Prestai
atenção: "Tomai dois bodes bonitos e iguais, e oferecei-os em sacrifício.
Que o sacerdote tome o primeiro como holocausto pelos pecados." E o que
farão com o outro? Ele diz: "O outro é maldito." Notai como a figura
de Jesus é manifestada. "Cuspi todos nele, transpassai-o, coroai sua
cabeça com lã escarlate e, desse modo, seja expulso para o deserto." Feito
isso, aquele que leva o bode o conduz ao deserto, tira-lhe a lã e a coloca
sobre um arbusto chamado sarça, cujos frutos costumamos comer quando nos
encontramos no campo. Somente os frutos da sarça são doces. O que significa
isso? Prestai atenção: "O primeiro bode sobre o altar, o outro é
maldito". Justamente o maldito é que é coroado. É que eles o verão,
naquele dia, trazendo sobre sua carne o manto escarlate, e dirão: "Não é
este que outrora crucificamos, depois de o ter desprezado, transpassado e
cuspido? Na verdade, era este que então se dizia Filho de Deus." Qual a
sua semelhança com aquele? São bodes "semelhantes",
"belos", iguais, para que quando o virem então vir, fiquem espantados
com a semelhança do bode. Eis, portanto, a figura de Jesus que devia sofrer. E
por que se coloca a lã no meio dos espinhos? É uma figura de Jesus proposta
para a Igreja: porque os espinhos são terríveis, aquele que quer pegar a lã
escarlate deve sofrer muito, e deve apossar-se dela através da dor. Ele diz:
"Dessa forma, aqueles que desejam ver-me e alcançar o meu Reino devem
passar por tribulações e sofrimentos, para se apossar de mim."
CAPÍTULO 8
Sacrifício da novilha
E que figura pensais que representa o
mandamento dado a Israel: os homens que têm pecados consumados ofereçam a
novilha, a imolem e, depois queimem? Além disso, as crianças deviam recolher as
cinzas, colocá-las nos vasos, enrolar a lã escarlate num pedaço de madeira - de
novo aqui a imagem da cruz e a lã escarlate - e o hissopo. E assim, as crianças
deviam aspergir todos os membros do povo, para que ficassem purificados dos
pecados. Reconhecei como ele vos fala com simplicidade: a novilha é Jesus; os
pecadores que a oferecem são aqueles que o conduziram para ser imolado. Basta
com esses homens! Basta com a glória dos pecadores! As crianças que fazem a
aspersão são aqueles que nos anunciaram a remissão dos pecados e a purificação
do coração. A eles foi conferida a autoridade de anunciar o Evangelho, e são
doze para testemunhar às tribos, pois as tribos de Israel eram doze. E por que
são três crianças que fazem a aspersão? Para testemunhar Abraão, Isaac e Jacó,
que são grandes diante de Deus. E a lã sobre o madeiro? Ela significa que o
Reino de Jesus está sobre o madeiro e os que nele esperam viverão para sempre.
Contudo, por que se põem juntos a lã e o hissopo? Porque no seu Reino haverá
dias maus e poluídos, durante os quais seremos salvos. Com efeito, é pelo
respingo poluído do hissopo que se cura aquele cuja carne está doente. E por
isso que esses acontecimentos são tão claros para nós, mas para eles tão
obscuros, pois eles não ouviram a voz do Senhor.
CAPÍTULO 9
A verdadeira circuncisão
Circuncisão do ouvido
De fato, é dos ouvidos que ele fala
ainda, quando diz que circuncidou nossos ouvidos e nossos corações. O Senhor
diz por meio do profeta: "Obedeceram-me com os ouvidos." E diz ainda:
"Os que estão longe escutarão com o ouvido e conhecerão o que eu
fiz". E mais: "Circuncidai vossos ouvidos, diz o Senhor." E diz
também: "Escuta, Israel, eis o que diz o Senhor teu Deus: Quem deseja
viver para sempre? Que ele escute com o ouvido a voz do meu servo." E diz
ainda: "Escuta, ó céu; dá ouvidos, ó terra, pois o Senhor falou isso como
testemunho." E diz mais: "Escutai a palavra do Senhor, príncipes
deste povo." E diz ainda: "Filhos, escutai a voz que grita no
deserto." Ele, portanto, circuncidou nossos ouvidos, para que escutemos a
palavra e creiamos.
Circuncisão do coração
Contudo, a circuncisão, na qual eles
depositavam confiança, foi rejeitada. De fato, ele dissera que a circuncisão
não devia ser da carne, mas eles transgrediram, porque um anjo mau os enganou.
Todavia, ele lhes diz: "Assim fala o Senhor vosso Deus" - é aí que
encontro o mandamento -: "Não semeeis entre os espinhos, mas circuncidai-vos
para o vosso Senhor." E o que diz ele? "Circuncidai a maldade do
vosso coração." E diz ainda: "Eis, diz o Senhor, que todas as nações
têm o prepúcio incircunciso, mas este povo tem o coração incircunciso."
Circuncisão de Abraão
Vós, porém, direis: "O povo
recebeu a circuncisão como selo." Contudo, todos os sírios, os árabes e
todos os sacerdotes dos ídolos também têm a circuncisão. Pertencem também eles
à sua aliança? Até os egípcios praticam a circuncisão! Filhos do amor, aprendei
mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a
circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar
para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito, ele diz:
"E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito
homens." Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele
menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os
trezentos. Dezoito se escreve: I, que vale dez, e H, que representa oito. Tens
aí: IH(sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele
menciona também trezentos (= T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas
duas primeiras letras e a cruz pela terceira. Quem depositou em nós o dom do
seu ensinamento sabe bem disto: Ninguém recebeu de mim ensinamento mais digno
de fé. Sei, porém, que vós sois dignos.
CAPÍTULO 10
Significado espiritual das prescrições
alimentares
Primeira formulação
Moisés disse: "Não comereis porco,
nem águia, nem gavião, nem corvo, nem peixe algum que não tenha escamas".
Porque ele tinha em mente três ensinamentos. Por fim, ele diz a eles no
Deuteronômio: "Exporei a esse povo as minhas decisões." A proibição
de comer não é, portanto, mandamento de Deus, pois Moisés falava
simbolicamente. Eis o significado do que ele diz sobre o "porco". Não
te ligarás a esses homens que se assemelham aos porcos; isto é, que quando
vivem na abundância, se esquecem do Senhor; mas na necessidade reconhecem o
Senhor. Assim é o porco: enquanto está comendo, ele não conhece seu dono; mas
quando está com fome, ele grunhe e, uma vez tendo comido, volta a se calar. Ele
diz: "Também não comerás a águia, nem o gavião, nem o milhafre, nem o
corvo." Isto é: não te ligarás, imitando-os, a esses homens que não sabem
ganhar o alimento por meio do trabalho e do suor, mas que, em sua injustiça,
arrebatam o bem alheio. Andam com ar inocente, mas espionam e observam a quem
vão despojar por ambição. Eles são como essas aves, as únicas que não
providenciam o alimento por si próprias, mas se empoleiram ociosamente,
procurando a ocasião de se alimentar da carne dos outros. São verdadeiros
flagelos por sua crueldade. Ele continua: "Não comerás moréia, nem polvo,
nem molusco." Isto é: não te assemelharás, ligando-te a esses homens que
são radicalmente ímpios e já estão condenados à morte. O mesmo acontece com
esses peixes: são os únicos amaldiçoados, que nadam nas profundezas, sem
subirem como os outros; permanecem no fundo da terra, habitando o abismo.
Segunda formulação
Também "não comerás a lebre."
Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que
são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos
orifícios quanto o número de seus anos. Também "não comerás a hiena".
Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te Assemelharás
àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os
anos e torna se ora macho, ora fêmea. EIe odiou também "a doninha".
Muito bem! Não serás como aqueles que cometem, como se diz, iniqüidade com a
boca por depravação, nem te ligarás a esses depravados que cometem iniqüidade
com sua boca. De fato, esse mal se concebe pela boca. Moisés, tendo recebido
tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem simbólica. Eles, porém,
o entenderam sobre os alimentos materiais, por causa do desejo carnal.
Davi confirma o ensinamento
Davi recebeu o conhecimento desse mesmo
ensinamento tríplice. Ele fala de forma semelhante: "Feliz o homem que não
vai ao conselho dos ímpios", como os peixes que se movem nas trevas para o
fundo; "e que não pára no caminho dos pecadores", como aqueles que
aparentam temer ao Senhor, mas pecam como o porco; "e que não se assentou
na cátedra da pestilência", como as aves que se postam para a rapina. Aí
tendes perfeitamente o que se refere à comida.
Conclusão
Moisés, porém, disse: "Comei de
todo animal que tem o casco fendido e que rumina." O que ele quer dizer?
Que (tal animal), quando recebe a comida, conhece aquele que o alimenta, e
quando repousa, parece que se alegra com ele. Disse-o bem, considerando o
mandamento. Que quer ele dizer? Vinculai-vos àqueles que temem o Senhor, que
meditam no coração sobre o sentido exato da palavra que receberam, que ensinam
e observam as decisões do Senhor, que sabem que a meditação é alegre exercício
e que ruminam a palavra do Senhor. O que significa o "casco fendido"?
É que o justo caminha neste mundo e espera o mundo santo. Vede como Moisés
legislou bem! Mas, para eles, como é possível compreenderem ou entenderem essas
coisas? Nós, tendo compreendido exatamente os mandamentos, os exprimimos como o
Senhor desejou. Por isso, ele circuncidou nossos ouvi dos e nossos corações,
para compreendermos essas coisas.
CAPÍTULO 11
Profecias do Batismo e da Cruz
A água
Pesquisemos se o Senhor teve intenção
de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz. Quanto à água, está
escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos
pecados, mas que eles próprios teriam constituído um. Com efeito, diz o profeta:
"Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu mal
duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para
si mesmos uma cisterna de morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é
rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o
ninho." E o profeta diz ainda: "Eu marcharei à tua frente, aplainarei
as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro,
e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que
eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a
água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor
do Senhor."
A água e o madeiro
EIe diz ainda por meio de outro profeta:
"Quem assim age, será como a árvore plantada junto à corrente d'água, e
que dá seu fruto no tempo certo. Sua folhagem não cairá; e tudo o que ele fizer
terá sucesso. Não são assim os ímpios, não são assim. Eles são, antes, como a
poeira que o vento espalha na face da terra. E por isso que os ímpios não se
levantarão no julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos. Pois o
Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá."
Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz. Com efeito, ele quer
dizer: "Felizes aqueles que, tendo lançado sua esperança na cruz, desceram
para a água. Pois ele diz que o salário vem "no tempo certo". Então,
diz ele, eu retribuirei. Mas para hoje, ele diz: "Sua folhagem não
cairá." Isso significa que toda palavra de fé e amor que sair da vossa
boca será para muitos causa de conversão e de esperança. E outro profeta diz
ainda: "E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra
terra." Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que
diz ele a seguir? "Havia um rio que corria, vindo da direita, e árvores
esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer,
viverá eternamente." Isso significa que descemos para a água carregados de
pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no
Espírito o temor e a esperança em Jesus. "Quem comer deles viverá
eternamente", quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e
crer nelas, viverá eternamente.
CAPÍTULO 12
O madeiro
Da mesma forma, é sobre a cruz que ele
fala por meio de outro profeta: "Quando tais coisas se cumprirão? Diz o
Senhor: Quando um madeiro for estendido no chão e depois novamente levantado, e
quando o sangue gotejar do madeiro." Eis que se fala de novo da cruz e
daquele que seria crucificado. Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado
pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos
pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de
Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz e de quem sofreria,
pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés
amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos,
estendeu os braços, e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez. que
os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez. Por quê? Para que soubessem que
não podiam ser salvos, se não confiassem nele. Por meio de outro profeta, ele
diz ainda: "O dia inteiro estendi meus braços para um povo desobediente e
que se opõe ao meu justo caminho." Outra vez ainda, no momento em que
Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus, mostrando que ele devia
sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar
a vida. De fato, o Senhor fez com que todo tipo de serpentes os mordessem, e
eles morriam, embora a serpente tenha sido para Eva o instrumento da
desobediência. Ele queria assim convencê-los de que era por causa da
desobediência deles que seriam entregues à tortura da morte. Finalmente, o
próprio Moisés tinha ordenado: "Não tereis, como vosso deus, nenhuma
imagem fundida ou esculpida." Mas ele próprio fez uma serpente de bronze,
colocou-a diante de todos, e convocou o povo. Quando se reuniram naquele lugar,
suplicaram a Moisés que intercedesse pela cura deles. Moisés porém, lhes
respondeu: "Quando alguém de vós for mordido, venha até à serpente fixada
ao madeiro e creia com confiança. Crendo que essa serpente, embora morta, possa
dar a vida, no mesmo instante será salvo." Assim fizeram eles. Eis aqui de
novo a glória de Jesus, porque tudo está nele e tudo é para ele.
Jesus, Filho de Deus
Que diz ainda Moisés a respeito do
profeta Jesus, filho de Nave, dando-lhe esse nome, somente para que todo o povo
ouvisse que o Pai revela todas as coisas em torno de seu Filho Jesus?
Enviando-o para explorar o país, depois de lhe ter dado esse nome, Moisés disse
a Jesus, filho de Nave: "Toma em tuas mãos um livro e escreve o que diz o
Senhor: Nos últimos dias, o Filho de Deus arrancará pelas raízes a casa de
Amalec." Mais uma vez, eis que Jesus, manifestado em prefiguração carnal,
não filho de homem, mas Filho de Deus. Porque diriam que o Cristo é filho de
Davi, o próprio Davi, temendo e prevendo o erro dos pecadores, profetiza:
"Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu
ponha os teus inimigos como estrado para teus pés." Isaías também diz:
"O Senhor disse ao Cristo, meu Senhor: Eu o tomei pela mão direita, para
que as nações lhe obedeçam, e eu romperei a força dos reis." Vede como
Davi o chama Senhor, e não filho!
CAPÍTULO 13
A Aliança
Qual povo é o herdeiro?
Vejamos agora qual é o povo que recebe
a herança. Se este, ou se o primeiro. E a Aliança, é para nós, ou para aqueles?
Escutai, então, o que diz a Escritura a respeito do povo: "Isaac rezava
pela sua mulher Rebeca, que era estéril, e ela concebeu". Depois:
"Rebeca saiu para consultar o Senhor, e o Senhor lhe disse: Há duas nações
em teu seio e dois povos em tuas entranhas. Um povo dominará o outro, e o mais
velho servirá ao mais jovem." Deveis compreender quem é Isaac e quem é
Rebeca, e a quem se referia ao mostrar que este povo é maior do que aquele. Em
outra profecia, Jacó se dirige mais claramente ainda a seu filho José, dizendo:
"Eis que o Senhor não me privou de tua presença. Traze-me teus filhos,
para que eu os abençoe." Ele levou Efraim e Manasses, querendo que
Manassés, o mais velho, recebesse a bênção. José o conduziu para a mão direita
de seu pai Jacó. No entanto, Jacó viu em espírito a prefiguração do povo futuro.
E o que disse ele? "E Jacó cruzou as mãos, e colocou a direita sobre a
cabeça de Efraim, o segundo e o mais novo, e o abençoou. Então José disse a
Jacó: ‘Desvia tua mão direita e coloca-a sobre a cabeça de Manassés, pois ele é
o meu filho primogênito'. Então Jacó disse a José: ‘Eu sei, meu filho, eu sei.
O mais velho servirá ao mais jovem, e é este que será abençoado.'" Vede a
quem ele se referia ao decidir que este povo seria o primeiro e o herdeiro da
Aliança. Se isso ainda nos é lembrado no caso de Abraão, então nosso
conhecimento torna-se completo. O que é que ele diz então a Abraão, pelo fato
de que somente ele tinha acreditado, e foi estabelecido na justiça?
"Abraão, eis que eu te estabeleci como pai de nações que, embora
incircuncisas, acreditam em Deus."
CAPÍTULO 14
A quem Deus dá sua Aliança?
Muito bem. Porém vejamos: Pesquisemos,
para ver se ele deu ao povo a Aliança que prometera - juramento a seus
antepassados. Certamente ele a deu, mas eles não foram dignos de recebê-la, por
causa de seus pecados. De fato, o profeta diz: "Moisés jejuou quarenta
dias e quarenta noites no monte Sinai, para receber a Aliança do Senhor com o
povo. E Moisés recebeu do Senhor as duas tábuas escritas em espírito pelo dedo
da mão do Senhor. Moisés as tomou, e começou a descer, para levá-las ao povo.
Então disse a Moisés o Senhor: `Moisés, Moisés, apressa-te a descer, pois teu
povo, que fizeste sair da terra do Egito, pecou.' Moisés compreendeu que eles
ainda tinham feito para si imagens de metal fundido. Então ele atirou de suas
mãos as tábuas, e as tábuas da Aliança do Senhor se quebraram." Moisés,
portanto, a recebeu, mas eles não foram dignos dela. Aprendei como nós a
recebemos. Moisés a recebeu como servo, mas o próprio Senhor, depois de sofrer
por nós, no-la entregou como povo da herança. Ele apareceu, para que aqueles
levassem ao máximo a medida dos pecados e nós recebêssemos a Aliança mediante o
Senhor Jesus, o herdeiro. Jesus foi preparado por ocasião de sua manifestação,
para libertar das trevas nossos corações já consumidos pela morte e entregues
aos desvios da iniqüidade, e para estabelecer conosco uma Aliança com a
palavra. De fato, está escrito que o Pai lhe ordenou libertar-nos das trevas, a
fim de preparar para si um povo santo. Diz, portanto, o profeta: "Eu, o
Senhor teu Deus, te chamei na justiça, e te tomarei pela mão e te fortificarei.
Eu te coloquei como Aliança de um povo, como luz das nações, para abrir os
olhos dos cegos, para libertar das cadeias os prisioneiros e da prisão aqueles
que estão nas trevas." Sabei, portanto, de onde fomos libertos! O profeta
diz ainda: "Eis que eu te coloquei como luz das nações, a fim de que
sirvas para a salvação, até os confins da terra. Assim diz o Senhor, o Deus que
te libertou." E o profeta diz ainda: "O Espírito do Senhor está sobre
mim e, por isso, me ungiu para anunciar aos pobres o evangelho da graça. Ele me
enviou para curar os corações quebrantados, para proclamar aos prisioneiros a
liberdade e aos cegos a vista, para anunciar o ano favorável do Senhor e o dia
da retribuição, para consolar todos os que choram."
CAPÍTULO 15
O Sábado de Deus
Ainda, sobre o sábado, está escrito no
Decálogo que Deus o entregou pessoalmente a Moisés sobre o monte Sinai:
"Santificai o sábado do Senhor com mãos puras e coração puro." Em
outro lugar, ele diz: "Se meus filhos guardarem o sábado, então estenderei
sobre eles a minha misericórdia." Ele menciona o sábado no princípio da
criação: "Em seis dias, Deus fez as obras de suas mãos e as terminou no
sétimo dia, e nele descansou e o santificou." Prestai atenção, filhos,
sobre o que significa: "terminou no sétimo dia". Isso significa que o
Senhor consumará o universo em seis mil anos, pois um dia para ele significa
mil anos. Ele próprio o atesta, dizendo: "Eis que um dia do Senhor será
como mil anos." Portanto, filhos, em "seis dias", que são seis
mil anos, o universo será consumado. "E ele descansou no sétimo dia."
Isso quer dizer que seu Filho, quando vier para pôr fim ao tempo do Iníquo,
para julgar os ímpios e mudar o sol, a lua e as estrelas, então ele, de fato,
repousará no sétimo dia. Por fim, ele diz: "Tu o santificarás com mãos
puras e coração puro." Contudo, se alguém atualmente pudesse santificar,
de coração puro, esse dia que Deus santificou, então nós nos teríamos enganado
completamente. Porém, se este agora não é o caso, ele o santificará
verdadeiramente no repouso, quando nós formos capazes disso, isto é, quando
tivermos sido justificados e tivermos recebido o objeto da promessa, quando não
houver mais iniqüidade, e o Senhor tiver renovado tudo. Então, poderemos
santificá-lo, tendo sido primeiro nós mesmos santificados. Ele finalmente lhes
disse: "Não suporto vossas neomênias e vossos sábados". Vede como ele
diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual,
depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia,
isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o
oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu
aos céus.
CAPÍTULO 16
O Templo
No que se refere ao templo, eu vos
direi ainda como esses infelizes extraviados puseram sua esperança num
edifício, como se fosse a casa de Deus, e não no Deus deles, que os criou. Com
efeito, quase como os pagãos, eles o consagraram no templo. Mas, como fala o
Senhor, abolindo-o? Aprendei: "Quem mediu o céu com o palmo e a terra com
a mão? Não fui eu? diz o Senhor: O céu é o meu trono e a terra é o estrado dos
meus pés. Que casa construireis para mim, ou qual será o lugar do meu
repouso?" Vede como era vã a esperança deles. Por fim, ele diz ainda:
"Eis! aqueles que destruíram esse templo, eles mesmos o edificarão."
E o que está acontecendo. De fato, por causa da guerra deles, o templo foi
destruído pelos inimigos. E agora, os mesmos servos dos inimigos o
reconstruirão. Ele tinha igualmente revelado que a cidade, o templo e o povo de
Israel seriam entregues. Com efeito, a Escritura diz: "Acontecerá no fim
dos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o aprisco e a
sua torre." E aconteceu conforme o Senhor tinha dito. Indaguemos se existe
um templo de Deus. Sim, existe onde ele mesmo diz que o há de construir e
aperfeiçoar. De fato, está escrito: "Quando a semana estiver terminada,
será construído um templo de Deus, com esplendor, sobre o nome do Senhor."
Acho pois que existe um templo. E como ele "será construído sobre o nome
do Senhor"? Aprendei: antes que acreditássemos em Deus, nossos corações
eram uma habitação corruptível e frágil, exatamente como um templo construído
por mão humana. Com efeito, estava cheio de idolatria e era casa de demônios
pois todas as nossas ações se opunham a Deus. Contudo, "ele será
construído sobre o nome do Senhor." Estai atentos, para que o templo do
Senhor seja construído "com esplendor". De que modo? Aprendei:
recebendo o perdão dos pecados e pondo nossa esperança no Nome, nós nos
tornamos novos, recriados desde o princípio. É por isso que Deus habita
verdadeiramente em nós, tornando-nos sua morada. Como? Pela sua palavra de fé,
pelo chamado da sua promessa, pela sabedoria das suas leis, pelos mandamentos
da doutrina, e ele próprio profetizando em nós, habitando em nós, abrindo para
nós a porta do templo, que é a nossa boca, e dando-nos o arrependimento, ele
nos introduz no templo incorruptível. De fato, quem deseja ser salvo não olha
para o homem, mas para aquele que habita nele e fala por meio dele, maravilhado
"Neomênias" é o primeiro dia do mês (lunar), a "lua nova"
ou "neomênia", era uma festa celebrada tanto entre os israelitas como
entre os cananeus (cf. Lv 23,24; 1Sm 20,5.24; Is 13; Am 8,5). Como o sábado, a
lua nova (neoménia) interrompia as transações comerciais. de não ter ouvido as
palavras daquele que fala através de uma boca humana, nem de ter desejado
ouvi-Ias. Esse é o templo espiritual construído pelo Senhor.
CAPÍTULO 17
Conclusão
Eu vos expliquei essas coisas com a
maior simplicidade possível, e espero não ter deixado nada de lado. Com efeito,
se vos escrevesse sobre o presente ou o futuro, não compreenderíeis, pois isso
permanece em parábolas.
PARTE
MORAL
CAPÍTULO 18
Os Dois Caminhos
Introdução
Sobre esse assunto, chega. Passemos
para outro tipo de conhecimento e ensinamento. Existem dois caminhos de
ensinamento e autoridade: o da luz e o das trevas. A diferença entre os dois é
grande. De fato, sobre um estão postados os anjos de Deus, portadores da luz; e
sobre o outro, os anjos de satanás. Um é Senhor de eternidade em eternidade, o
outro é príncipe do presente tempo da iniqüidade.
CAPÍTULO 19
O caminho da luz
Este é o caminho da luz: se alguém quer
andar no caminho e chegar ao lugar determinado, que se esforce em suas obras.
Eis, portanto, o conhecimento que nos foi dado para andar nesse caminho.
Ama aquele que te criou. Teme aquele
que te formou. Glorifica aquele que te resgatou da morte. Sê simples de coração
e rico de espírito. Não te ligues àqueles que andam no caminho da morte. Odeia
tudo o que não é agradável a Deus. Odeia toda hipocrisia.
Não abandones os mandamentos do Senhor.
Não te engrandeças a ti mesmo, mas sê humilde em todas as circunstâncias. Não
te arrogues glória. Não planejes o mal contra o teu próximo. Não te entregues à
insolência.
Não pratiques a prostituição, nem o
adultério, nem a pederastia. Não divulgues a palavra de Deus entre pessoas
impuras. Não faças diferença entre as pessoas, ao corrigir alguém por sua
falta. Sê manso, tranqüilo, respeitando as palavras que ouviste. Não sejas
vingativo para com teu irmão.
Não fiques hesitando sobre o que vai ou
não acontecer. Não tomes em vão o nome do Senhor. Ama o teu próximo mais do que
a ti mesmo. Não mates a criança no seio da mãe, nem logo que ela tiver nascido.
Não te descuides de teu filho ou de tua filha. Pelo contrário, dá-lhes
instrução desde a infância no temor do Senhor.
Não cobices os bens do teu próximo. Não
sejas avarento, não te juntes de coração com os grandes, mas conversa com os
justos e pobres. Aceita como boas as coisas que te acontecem, sabendo que nada
acontece sem o consentimento de Deus.
Não sejas dúplice no pensar e no falar,
porque a duplicidade é armadilha mortal. Sê submisso a teus senhores, com
respeito e reverência, como à imagem de Deus. Não dês ordens com rudeza ao teu
servo ou à tua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam
o temor de Deus, que está acima de uns e de outros; com efeito, ele não vem
chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou.
Compartilha tudo com o teu próximo, e
não digas que são coisas tuas. Se estais unidos nas coisas incorruptíveis,
tanto mais nas coisas corruptíveis. Não sejas loquaz, porque a boca é armadilha
mortal. O quanto podes, sê puro com a tua alma.
Não sejas como os que estendem a mão na
hora de receber, e a retiram na hora de dar. Ama, como a pupila do teu olho, todo
aquele que te anuncia a palavra de Deus.
Lembra-te noite e dia, do dia do
julgamento. A cada dia, procura a companhia dos santos. Empenha-te com a
pregação, exortando e preocupando-te em salvar uma alma pela palavra, ou então
em trabalhar com tuas mãos, para resgatar teus pecados.
Não hesites em dar, nem dês reclamando,
pois sabes quem é o verdadeiro remunerador da tua recompensa. Guarda o que
recebeste, sem nada acrescentar ou tirar. Odeia totalmente o mal. Julga de modo
justo.
Não provoques divisão. Pelo contrário,
reconcilia aqueles que brigam entre si. Confessa os teus pecados. Não te
apresentes em má consciência para a oração.
CAPÍTULO 20
O caminho da treva
O caminho da treva é tortuoso e cheio
de maldições. De fato, em sua totalidade, ele é o caminho da morte eterna nos
tormentos. Nele se encontram as coisas que arruínam a alma dos homens:
idolatria, insolência, altivez do poder, hipocrisia, duplicidade de coração,
adultério, homicídio, rapina, orgulho, transgressão, fraude, maldade, arrogância,
feitiçaria, magia, avareza e ausência do temor de Deus. (São) os que perseguem
os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, ignoram a recompensa da justiça, não
se ligam ao bem nem ao julgamento justo, não cuidam da viúva e do órfão, não
vigiam para o temor de Deus, mas para o mal, afastam-se da mansidão e da
paciência, amam as vaidades, correm atrás da recompensa, não têm misericórdia
para com o pobre, recusam ajudar o oprimido, difamam facilmente, ignoram o seu
Criador, matam crianças, corrompem a imagem de Deus, não se compadecem do
necessitado, não se importam com os atribulados, defendem os ricos, são juízes
injustos com os pobres, e, por fim, são pecadores consumados.
CAPÍTULO 21
Conclusão
É bom, portanto, aprender as sentenças
do Senhor, que estão escritas, e a elas conformar o comportamento. Com efeito,
aquele que as pratica será glorificado no Reino de Deus, mas aquele que
escolher o outro (Caminho) perecerá com suas obras. Por isso, existe
ressurreição, e por isso existe retribuição. A vós, que sois superiores, peço
que aceitem um conselho da minha benevolência: Tendes no meio de vós pessoas
para com as quais praticar o bem. Não deixem de o fazer. Está próximo o dia, no
qual todas as coisas perecerão com o Maligno. Está próximo o Senhor, justo com
a sua retribuição. Peço-vos ainda: sede bons legisladores para vós mesmos,
permanecei fiéis conselheiros para vós mesmos, afastai de vós toda hipocrisia.
O Deus, que reina sobre o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência,
ciência, conhecimento de suas decisões, e perseverança. Deixai-vos instruir por
Deus, procurando o que o Senhor quer de vós, e praticai-o, para que vos
encontreis no dia do julgamento. Se vos recordais do bem, lembrai-vos de mim ao
meditar sobre essas coisas. Desse modo, meu desejo e minha vigilância levarão a
realizar algum bem. Peço-vos com insistência, como uma graça: enquanto o belo
vaso ainda está convosco, não negligencieis nada das vossas coisas, mas
buscai-as constantemente e cumpri todos os mandamentos, pois eles são dignos.
Eis por que me esforcei em vos escrever, segundo minhas possibilidades. Eu vos
saúdo, filhos do amor e da paz. Que o Senhor da glória e de toda graça esteja
com vosso espírito.