Parábolas
PRIMEIRA PARÁBOLA
CAPÍTULO 50
Ele me disse: "Vós, servos
de Deus, sabeis que habitais em terra estrangeira. De fato, vossa cidade acha-se
longe desta cidade. Portanto, se conheceis vossa cidade, aquela que deveis
habitar, por que correis assim atrás de campos, instalações luxuosas, palácios
e mansões inúteis? Quem procura tais coisas nesta cidade não espera retornar à
sua própria cidade. Insensato, vacilante, homem infeliz! Ignoras que tudo isso
é estrangeiro e está em poder de outro? De fato, o dono desta cidade dirá: 'Não
quero que habites na minha cidade. Vai embora daqui, porque não obedeces às
minhas leis'. Então, tu, que possuis campos, casas e muitos bens, ao ser
expulso por ele, o que farás com teu campo, tua casa e tudo o que te resta do
que acumulaste? Porque o dono desta cidade te diz justamente: 'Ou obedeces às
minhas leis, ou sais do meu país'. Portanto, o que farás, tu que segues a lei
da tua cidade? Por causa de teus campos e do resto de teus bens, renegarás tua
lei e andarás de acordo com a lei dessa cidade? Atenção! É perigoso renegar tua
lei, porque, se queres retornar à tua cidade, temo que não te acolham mais, por
teres renegado a lei de tua cidade, e assim sejas excluído dela. Vigia,
portanto. Visto que moras em terra estrangeira, não reserves para ti senão o
estritamente necessário, e estejas pronto. Desse modo, quando o dono dessa
cidade quiser te expulsar, porque te opões às suas leis, sairás da sua cidade,
chegarás à tua, e aí viverás conforme tua lei, sem prejuízo e com alegria.
Atenção, vós que servis ao Senhor e o tendes no coração. Praticai as obras de
Deus, lembrando-vos de seus mandamentos e das promessas que ele vos fez. Crede
que ele as manterá, se seus mandamentos forem observados. Em lugar de campos,
resgatai os oprimidos, conforme cada um puder; visitai as viúvas e os órfãos, e
não os desprezeis. Gastai vossas riquezas e todos os vossos bens, que recebestes
de Deus, nesses campos e casas. De fato, o Senhor vos enriqueceu, para que
presteis a ele tais serviços. E melhor adquirir esses campos, bens e casas, que
reencontrarás em tua cidade, quando aí retornares. Esse investimento é nobre e
alegre, não produz tristeza, nem medo, mas alegria. Não procureis o
investimento dos pagãos, perigoso para os servos de Deus. Fazei vossos próprios
investimentos, com os quais podeis alegrar-vos. Não cometais fraude, não
toqueis nos bens de outros, nem os desejeis, porque é mau desejar os bens
alheios. Realiza tua tarefa, e serás salvo."
SEGUNDA PARÁBOLA
CAPÍTULO 51
Caminhava eu para o meu campo e,
observando um olmeiro e uma videira, refletia sobre essas árvores e seus
frutos. Então o Pastor me apareceu e disse: "O que pensas sobre o olmeiro
e a videira?" Eu respondi: "Senhor, penso que eles se completam
perfeitamente." Ele disse: "Essas duas árvores existem para servir de
modelo aos servos de Deus." Eu pedi: "Desejaria saber o modelo que
podem oferecer essas árvores das quais falas." Ele perguntou: "Vês o
olmeiro e a videira?" Respondi: "Sim, senhor." Ele continuou:
"A videira produz frutos, mas o olmeiro é estéril. Entretanto, se essa
videira não se prende ao olmeiro, fica estendida no chão e não produzirá
frutos. Os frutos que produzir apodrecerão, se ela não estiver suspensa no
olmeiro. Vês, portanto, que o olmeiro também dá muitos frutos, não menos que a
videira, e até mais." Eu perguntei: "Por que mais, Senhor?" Ele
respondeu: "Porque a videira suspensa no olmeiro dá muitos frutos belos,
ao passo que estendida no chão só produz frutos podres e poucos. Essa parábola
vale para os servos de Deus, o pobre e o rico." Eu perguntei:
"Senhor, como assim? Explica-me." Ele respondeu: "Escuta. O rico
tem muitos bens, mas aos olhos do Senhor ele é pobre, porque se distrai com
suas riquezas. A oração e a confissão ao Senhor não lhe são importantes e, se
ele as faz, são breves, fracas e sem nenhum poder. Contudo, se o rico se volta
para o pobre e atende às suas necessidades, crendo que o bem que ele fez ao
pobre poderá encontrar sua retribuição junto a Deus (porque o pobre é rico por
sua oração e confissão, e sua oração tem grande poder junto de Deus), então o
rico atende sem hesitação às necessidades do pobre. Assim, o pobre, socorrido pelo
rico, reza por ele e agradece a Deus pelo seu benfeitor; este, por sua vez,
redobra o zelo para com o pobre, para que não lhe falte nada na vida, pois sabe
que a oração do pobre é bem acolhida e rica junto a Deus. Desse modo, ambos
cumprem sua tarefa: o pobre o faz mediante sua oração, que é sua riqueza
recebida do Senhor. Ele a devolve ao Senhor na intenção daquele que o ajuda. E
o rico, sem hesitação, dá ao pobre a riqueza que recebeu do Senhor. Essa é uma
ação nobre e bem acolhida por Deus, porque o rico compreendeu perfeitamente o
sentido da sua riqueza e partilhou com o pobre os dons do Senhor, cumprindo
assim, convenientemente, a sua tarefa. Para os homens, o olmeiro parece não
produzir fruto. Eles não ignoram e não compreendem que, se vier seca, o
olmeiro, que conserva água, nutre a videira, e esta, continuamente provida de
água, produz o duplo de frutos, para ela mesma e para o olmeiro. Da mesma
forma, os pobres, rezando ao Senhor para os ricos, asseguram pleno
desenvolvimento às riquezas deles. Por sua vez, os ricos, atendendo às
necessidades dos pobres, dão satisfação à sua alma. Portanto, ambos participam
da ação justa. Quem age assim não será abandonado por Deus, mas será inscrito
no livro dos viventes. Felizes os que possuem e compreendem que o Senhor
preserva suas riquezas, pois aquele que o compreende poderá também prestar bons
serviços."
TERCEIRA PARÁBOLA
CAPÍTULO 52
Ele me mostrou muitas árvores sem
folhas, que me pareciam mortas, e eram todas semelhantes. E me perguntou:
"Vês essas árvores?" Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo: são
semelhantes e mortas." Ele continuou: "Essas árvores que vês são os
habitantes deste mundo." Eu perguntei: "Senhor, então por que são
semelhantes e mortas?" Ele respondeu: "Porque os justos e os
pecadores não se distinguem neste mundo, mas são semelhantes. De fato, para os
justos este mundo é inverno, e eles não se distinguem, pois nele habitam
juntamente com os pecadores. No inverno, despojadas de suas folhas, as árvores
são semelhantes, e não se distingue quais estão mortas e quais vivas. Da mesma
forma, os justos e os pecadores não se distinguem neste mundo; são todos
semelhantes."
QUARTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 53
De novo, ele me mostrou muitas
árvores, umas verdes e outras secas. E me disse: "Vês essas árvores?"
Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo: umas estão verdes e outras
secas." Ele continuou: "As árvores verdes são os justos, que
habitarão no mundo que está para chegar. De fato, o mundo que está para chegar
será verão para os justos e inverno para os pecadores. Portanto, quando brilhar
a misericórdia do Senhor os servos de Deus poderão ser distinguidos e serão
visíveis para todos. No verão, os frutos de cada árvore aparecem e se pode
saber de que espécie são. Do mesmo modo, naquele mundo os frutos dos justos serão
manifestos e se saberá que todos eles são vigorosos. Entretanto, naquele mundo,
os pagãos e os pecadores, as árvores secas que viste, serão encontrados secos e
mortos, e serão queimados, como madeira morta, patenteando-se assim que durante
a vida deles sua conduta foi má. De fato, os pecadores serão queimados, porque
pecaram e não fizeram penitência; os pagãos serão queimados porque não
conheceram o seu Criador. Portanto, leva frutos em ti mesmo, para que, naquele
verão, teu fruto seja conhecido. Evita muitas ocupações e não cometas nenhum
pecado. Os que se carregam de muitas ocupações cometem também muitos pecados.
São absorvidos por seus negócios e não servem mais em nada ao Senhor. Como
poderia o homem assim pedir algo ao Senhor e ser atendido, se ele não serve ao
Senhor? Os que o servem, receberão o que pedem, mas os que não o servem, não
receberão absolutamente nada. Aquele que tem apenas uma ocupação, pode também
servir ao Senhor; o seu pensamento não se corromperá longe do Senhor, mas o
servirá, conservando pensamento puro. Se assim fizeres, poderás levar frutos
para o mundo que está para chegar. Qualquer um que fizer isso, levará
frutos."
QUINTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 54
Eu jejuava, sentado sobre um
monte, e agradecia a Deus tudo o que ele fizera por mim. Então vi o Pastor
sentado junto de mim, dizendo: "Por que vieste aqui tão cedo?" (Eu
respondi): "Senhor, porque estou montando guarda." EIe perguntou:
"Que quer dizer guarda?" Eu respondi: "Senhor, estou
jejuando." Ele continuou: "E que jejum é esse que estás
fazendo?" Eu respondi: "Senhor, eu jejuo por costume." Ele
disse: "Não sabes jejuar para o Senhor, e esse jejum que fazes é sem
valor." Eu perguntei: "Senhor, por que dizes isso?" Ele
explicou: "Digo-te que não é jejum esse que imaginas fazer. Eu te
ensinarei, porém, qual é o jejum agradável e perfeito para o Senhor." Eu
disse: "Sim, senhor. Tu me farás feliz, se eu puder conhecer o jejum que
agrada a Deus." Então ele explicou: "Escuta. Deus não deseja esse
jejum vazio. Com efeito, jejuando desse modo para Deus, não farás nada para a
justiça. Jejua do seguinte modo: Não faças nada de mau em tua vida e serve ao
Senhor de coração puro; observa seus mandamentos, andando conforme seus
preceitos, e que nenhum desejo mau entre em teu coração, e crê em Deus. Se
fizeres isso e o temeres, abstendo-te de toda obra má, viverás em Deus. Se
cumprires essas coisas, farás um jejum grande e agradável ao Senhor."
CAPÍTULO 55
Escuta a parábola sobre o jejum.
Um homem possuía um campo e muitos escravos, e mandou plantar uma vinha numa
parte do campo. Ele escolheu um servo muito fiel e estimado, chamou-o e lhe
disse: "Toma conta desta vinha que plantei e, durante minha ausência, coloca
as estacas. Não faças mais nada na vinha. Observa esta minha ordem e serás
livre na minha casa." Então o senhor do escravo saiu de viagem. Depois que
partiu, o escravo tomou conta e estaqueou. Tendo terminado de estaquear, viu
que a vinha estava cheia de mato. Então refletiu e disse: "Já executei a
ordem do senhor. Agora capinarei a vinha, pois capinada ficará mais bela e, não
sendo sufocada pelo mato, produzirá mais fruto. Decidido, capinou a vinha e
arrancou todo o mato que havia nela. Sem o mato que a sufocava, a vinha ficou
mais bela e florescente. Depois de certo tempo, o senhor do campo e do servo
voltou. Foi até à vinha e, vendo que estava muito bem estaqueada, capinada, o
mato extirpado e que as videiras floresciam, ficou muito satisfeito com o
trabalho do escravo. Chamou então seu filho amado, que era o herdeiro, e seus
amigos conselheiros. Disse-lhes o que ordenara ao escravo e tudo o que ele vira
executado. Eles se alegraram com o escravo, por causa do testemunho que o
patrão dera dele. Então o patrão lhe disse: "Prometi a liberdade a esse
escravo, se ele executasse a ordem que lhe dera. Ele não só executou a ordem,
mas fez bom trabalho na vinha, e isso me agradou muito. Portanto, como
recompensa do trabalho que ele realizou, quero que seja herdeiro junto com meu
filho, porque teve uma boa idéia e, ao invés de descartá-la, a realizou."
O filho do senhor aprovou a intenção de designar o escravo como seu
co-herdeiro. Alguns dias mais tarde, o patrão dava um banquete e enviou muita
comida do banquete ao escravo. Este aceitou a comida que o senhor lhe enviara,
reteve o suficiente para si e distribuiu o resto a seus companheiros de
escravidão. Os companheiros o receberam, se alegraram e começaram a rezar para
que ele, que os tratara tão bem, recebesse ainda mais favores do senhor.
"O senhor soube de tudo o que acontecera e de novo se alegrou muito com a
conduta do escravo. Chamou novamente os amigos e o filho e contou-lhes a
respeito da atitude do servo quanto à comida recebida. E eles concordaram mais ainda
que o servo se tornasse herdeiro juntamente com o filho do senhor."
CAPÍTULO 56
Eu lhe disse: "Senhor, não
compreendo essas parábolas, nem as poderei entender, se não me
explicares." EIe respondeu: "Vou te explicar tudo, e, te esclarecerei
tudo que eu falar. Guarda os mandamentos do Senhor, e lhe serás agradável e
contado entre os que observam seus mandamentos. Se fizeres algo de bom, além do
mandamento de Deus, conseguirás glória maior e serás glorificado junto a Deus,
mais do que deverias ser. Portanto, se, observando os mandamentos de Deus,
acrescentares essas boas obras, te alegrarás, se as observares conforme a minha
ordem." Eu lhe disse: "Senhor, observarei tudo o que me indicares,
pois sei que estás comigo." Ele me respondeu: "Estarei contigo, pois
tens esse desejo de fazer o bem, e estarei com todos os que têm o mesmo desejo.
Se os mandamentos do Senhor são observados, teu jejum é muito bom. Eis como
observarás o jejum que queres praticar: Antes de tudo, guarda-te de toda
palavra má, de todo desejo mau, e purifica teu coração de todas as coisas vãs
deste mundo. Se observares isso, teu jejum será perfeito. E jejuarás do
seguinte modo: depois de cumprir o que foi escrito, no dia em que jejuares, não
tomarás nada, a não ser pão e água. Calcularás o preço dos alimentos que
poderias comer nesse dia e o porás à parte para dar a uma viúva, a um órfão ou
necessitado e, desse modo, te tornarás humilde. Graças a essa humildade, quem
tiver recebido ficará saciado e rogará ao Senhor por ti. Se jejuares como te ordenei,
teu sacrifício será aceito por Deus, teu jejum será anotado, e o serviço, assim
realizado, será bom, alegre e bem acolhido pelo Senhor. Observarás isso com
teus filhos e toda a tua família. Desse modo, serás feliz, e todos os que
ouvirem esses preceitos e os observarem, serão felizes e receberão do Senhor as
coisas que pedirem."
CAPÍTULO 57
Eu lhe pedi insistentemente que
me explicasse o sentido simbólico do campo, do senhor, da vinha, do escravo que
estaqueara a vinha, do filho e dos amigos conselheiros, pois compreendera que
tudo isso era uma parábola. Ele me respondeu: "És muito ousado em tuas
perguntas! De modo algum deves perguntar, pois, se alguma coisa se deve
explicar a ti, será explicada." Eu lhe disse: "Senhor, tudo o que me
mostrares sem explicar, será inútil que eu veja, pois não compreenderei o que
significa. Da mesma forma, se me contas parábolas sem explicá-las, terei ouvido
em vão alguma coisa de ti." De novo, ele me respondeu, dizendo: "Todo
servo de Deus que tem o Senhor em seu coração, pode lhe pedir a compreensão e
obtê-la. Ele poderá, então, explicar qualquer parábola e, graças ao Senhor,
tudo o que for dito em parábolas será compreensível para ele. Os indolentes e
preguiçosos para a oração, porém, vacilam em pedir ao Senhor. O Senhor é
misericordioso e atende todos os que lhe pedem sem hesitação. Tu, porém, que
foste fortificado pelo anjo glorioso e dele recebeste essa oração, e não és
preguiçoso, por que não pedes a compreensão? Tu a receberás." Eu
repliquei: "Senhor, tendo a ti comigo, tenho necessidade de te pedir e
perguntar. Com efeito, tu me mostras tudo e falas comigo. Se eu visse ou
ouvisse essas coisas sem ti, pediria ao Senhor que as explicasse a mim".
CAPÍTULO 58
Ele continuou: "Já te disse,
e não faz muito, que és esperto e ousado para pedir explicação das parábolas.
Como és tão perseverante, vou te explicar o sentido simbólico do campo e de
tudo o mais que o acompanha, para que possas explicá-lo a todos. Escuta,
portanto, e compreende. O campo é este mundo, e o dono do campo é aquele que
criou todas as coisas, que as organizou e lhes deu força. O filho é o Espírito
Santo, e o escravo é o Filho de Deus. As videiras são o povo, que ele mesmo
plantou. As estacas são os santos anjos do Senhor, que protegem o seu povo. O mato
arrancado da vinha são as iniqüidades dos servos de Deus. A comida do banquete
que ele enviou ao escravo são os mandamentos que ele deu por meio de seu filho.
Os amigos e conselheiros, são os primeiros santos anjos criados. A viagem do
senhor é o tempo que resta para a sua parusia." Eu lhe perguntei:
"Senhor, tudo isso é grande, admirável e glorioso. Como poderei, Senhor,
compreender essas coisas por mim mesmo? Nenhum outro homem, ainda que fosse
muito inteligente, poderia compreendê-las. Explica-me ainda, Senhor, o que vou
perguntar." Ele disse: "Se desejas alguma explicação, podes
pedi-la." Eu perguntei: "Senhor, por que o Filho de Deus aparece na
parábola sob forma de escravo?"
CAPÍTULO 59
Ele respondeu: "Escuta. O
Filho de Deus não aparece sob a forma de escravo, mas com grande poder e
soberania." Eu disse: "Como, senhor? Não compreendo." Ele
continuou: "Porque Deus plantou a vinha, isto é, criou o seu povo e o
entregou a seu Filho, e o Filho estabeleceu os anjos sobre eles para guardá-los
individualmente. Ele próprio purificou os pecados deles, trabalhando muito e
suportando muitas fadigas, pois ninguém pode capinar uma vinha sem trabalho e
fadiga. Ele, portanto, tendo purificado os pecados do povo, ensinou os caminhos
da vida, dando-lhes a lei, que recebera de seu Pai. Observa que ele é o senhor
do povo, porque recebeu todo o poder do seu Pai. Escuta por que o Senhor nomeou
seu Filho conselheiro e os anjos gloriosos para decidir a herança que deveria
ser dada ao escravo. Deus fez habitar na carne que ele havia escolhido o
Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas. Essa carne, em que o
Espírito Santo habitou, serviu muito bem ao Espírito, andando no caminho da
santidade e pureza, sem macular em nada o Espírito. Ela se portou digna e santamente,
participou dos trabalhos do Espírito e colaborou com ele em todas as coisas.
Comportou-se com firmeza e coragem e, por isso, Deus a escolheu como
companheira do Espírito Santo. Com efeito, a conduta dessa carne agradou a
Deus, pois ela não se maculou na terra, enquanto possuía o Espírito Santo. Ele
tomou então o Filho e os anjos gloriosos por conselheiros, para que essa carne,
que tinha servido ao Espírito irrepreensivelmente, obtivesse um lugar de
repouso e não parecesse ter perdido a recompensa pelo seu serviço. Toda carne
em que o Espírito Santo habitou e que for encontrada pura e sem mancha,
receberá sua recompensa. Aí tens a explicação dessa parábola."
CAPÍTULO 60
Eu disse: "Senhor, fiquei
contente em ouvir a explicação." Ele disse: "Escuta agora. Guarda tua
carne pura e sem mancha; para que o espírito, que nela habita, dê testemunho em
favor dela e assim seja justificada. Cuida para que nunca entre em teu coração
a idéia de que tua carne é perecível. E cuidado para não abusar dela com alguma
impureza. Se manchas tua carne, mancharás também o Espírito Santo. Portanto, se
manchas tua carne, não viverás." Eu perguntei: "Senhor, se tiver
havido alguma ignorância antes que essas palavras tivessem sido ouvidas, como
se pode salvar o homem que manchou a sua carne?" Ele respondeu:
"Quanto às ignorâncias anteriores, somente Deus pode conceder a cura, pois
ele tem todo o poder. Agora, porém, estejas atento, e o Senhor, em sua grande
misericórdia, as curará, se doravante não manchares nem tua carne, nem teu
espírito, pois os dois vão juntos e não podem manchar-se um sem o outro.
Portanto, conserva os dois puros, e viverás em Deus."
SEXTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 61
Sentado em casa, eu glorificava
ao Senhor por tudo que tinha visto, e meditava sobre os mandamentos,
descobrindo que eles são bons, fortes, alegres, gloriosos e capazes de salvar a
alma do homem. E dizia a mim mesmo: "Serei feliz, se caminhar conforme
esses mandamentos, e qualquer um que andar nesse caminho também será
feliz." Enquanto dizia isso a mim mesmo, de repente vi o pastor ao meu
lado dizendo: "Por que duvidas a respeito dos mandamentos que te dei? Eles
são bons. Não duvides em nada. Ao contrário, reveste-te da fé do Senhor e
andarás em seus caminhos, porque eu te fortificarei neles. Esses mandamentos
são úteis para os que farão penitência, porque, se não andarem nesse caminho,
sua penitência será inútil. Vês, portanto, que fazeis penitência, rejeitai os
males deste mundo, que vos aniquilam. Revestidos de toda a virtude de justiça,
podereis observar os meus preceitos, mas não acrescenteis pecados aos vossos
pecados. Se não acrescentardes mais pecados, cancelarei os vossos pecados
passados. Caminhai, portanto, conforme os meus mandamentos, e vivereis em Deus.
Todas essas coisas vos foram ditas por mim." Depois de me dizer isso, ele
acrescentou: "Vamos ao campo, e te mostrarei os pastores das
ovelhas." Eu disse: "Vamos, Senhor." Fomos para uma planície, e
ele me mostrou um jovem pastor, vestido com roupa amarela. Apascentava
numerosas ovelhas, as quais viviam de modo voluptuoso e dissoluto, saltando
alegremente de cá para lá. O pastor também estava muito satisfeito com seu
rebanho; sua fisionomia era alegre, e ele andava de um lado para o outro, no
meio das ovelhas. Vi também outras ovelhas juntas, dissolutas e voluptuosas;
mas estas não saltavam.
CAPÍTULO 62
Então ele me perguntou: "Vês
esse pastor?" Eu respondi: "Vejo, senhor." Ele continuou:
"E o anjo da volúpia e do erro. Ele aniquila as almas dos servos de Deus
que são vazios, desviando-os da verdade e enganando-os com maus desejos, nos
quais eles morrem. De fato, eles esquecem os mandamentos do Deus vivo e
caminham nos enganos e volúpias vãs, e são destruídos por esse anjo: alguns
morrem, outros se corrompem." Eu lhe disse: "Senhor, não sei o que é
essa morte e essa corrupção." Ele respondeu: "Escuta. Todas as
ovelhas que viste muito alegres e saltitantes são os que se separaram
definitivamente de Deus e se entregaram às paixões deste mundo. Para eles não
há mais penitência para a vida, porque, além de tudo, blasfemaram contra o nome
do Senhor. Para eles, portanto, resta apenas a morte. Aquelas que viste,
pastando no mesmo lugar sem saltitar, são os que se entregaram às volúpias e
aos enganos, mas sem blasfemar contra o Senhor. Corromperam-se longe da
verdade. Para eles, portanto, existe esperança de penitência, a fim de que
possam viver. A corrupção conserva ainda alguma esperança de restauração, ao
passo que a morte implica em perdição eterna." Avançamos um pouco, e ele
me mostrou um pastor de porte alto e de aspecto selvagem, vestido com pele
branca de cabra, com bornal nas costas, e na mão um cajado rude e cheio de nós
e um grande chicote. Seu olhar era tão severo que me infundiu medo. Assim era o
seu olhar! Esse pastor recebia do pastor jovem as ovelhas dissolutas e
voluptuosas, mas que não saltitavam. Ele as impelia para lugar escarpado, cheio
de espinhos e cardos, e as ovelhas não conseguiam livrar-se dos espinhos e dos
cardos, pois ficavam emaranhadas neles. Pastavam presas, entre os espinhos e
cardos, e sofriam muito, açoitadas pelo pastor, o qual as fazia andar de cá
para lá, sem lhes dar descanso, e elas jamais se tranqüilizavam.
CAPÍTULO 63
Ao vê-Ias assim flageladas e
atormentadas, fiquei triste por elas, porque assim torturadas não tinham nenhum
tipo de trégua. Então perguntei ao pastor que conversava comigo: "Senhor,
quem é esse pastor tão cruel e severo, que não tem nenhuma piedade dessas
ovelhas?" Ele respondeu: "Esse é o anjo do castigo. Ele é justo, mas
foi encarregado do castigo. Ele recebe aqueles que vagueiam longe de Deus e que
seguiram o caminho dos desejos e enganos deste mundo. Ele os pune conforme cada
um merece, com castigos terríveis e variados." Eu pedi: "Senhor, eu
desejaria saber quais são esses diversos castigos." Ele continuou:
"Escuta quais são as diversas provações e castigos. As provações são as da
vida. Alguns são castigados com prejuízos, outros pela indigência outros por
doenças diversas, outros por alguma insegurança e outros ainda são injuriados
por pessoas indignas e têm que sofrer muitas outras calamidades. De fato,
incertos em suas intenções, muitos se lançam a muitas coisas, mas em nada
conseguem sucesso. Dizem que não são felizes em seus negócios e não lhes entra
no coração que cometeram ações más; ao contrário, acusam o Senhor. Quando são
atribulados por essas provações, são entregues a mim para uma boa reeducação.
Eles se reforçam na fé do Senhor e o servem, de coração puro, pelo resto de
seus dias. Quando fazem penitência, as obras más que praticaram lhes entram no
coração e então eles glorificam a Deus, porque é juiz justo e porque cada um
sofreu justamente por suas próprias ações. Doravante, eles servem ao Senhor de
coração puro e têm sucesso em tudo o que fazem, pois recebem do Senhor tudo o
que pedem. Então eles glorificam ao Senhor, por terem sido entregues a mim, e
já não sofrem mal nenhum".
CAPÍTULO 64
Eu lhe disse: "Senhor,
explica-me ainda esse ponto." Ele perguntou: "O que procuras
ainda?" Eu continuei: "Senhor, os voluptuosos e transviados são
atormentados por tanto tempo quanto aquele em que foram voluptuosos e
transviados?" Ele respondeu: "São atormentados durante tempo
igual." Observei: "Senhor, são atormentados por pouquíssimo tempo.
Com efeito, seria preciso que as pessoas que vivem assim na volúpia e se
esquecem de Deus, fossem torturadas por tempo sete vezes maior." Ele me
disse: "Insensato! Não conheces a força do tormento." Eu respondi: "Senhor,
se eu conhecesse, não pediria explicação." Ele continuou: "Escuta
qual é a força de uma e outra coisa. O tempo da volúpia e do engano é de uma
hora; mas uma hora de tormento tem a força de trinta dias. Passando um dia na
volúpia e no engano, e um dia nos tormentos, esse dia de tormento vale por um
ano inteiro. A pessoa é atormentada por tantos anos quantos dias passou na
volúpia. Vês, portanto, que o tempo da volúpia e do engano é mínimo, mas o do
castigo e do tormento é longo."
CAPÍTULO 65
Eu disse: "Senhor, não
compreendi inteiramente os tempos do engano, da volúpia e do tormento.
Explica-me com mais clareza." Ele respondeu: "Tua insensatez é
insistente e não queres purificar teu coração e servir a Deus. Cuidado para que
o tempo não se cumpra e sejas encontrado insensato. Ouve, portanto, para
compreender o que desejas. Aquele que vive um dia na volúpia e no engano,
fazendo o que quer, reveste-se de muita insensatez e não percebe a ação que
faz. No dia seguinte, esquece o que fez no dia anterior. A volúpia e o engano
não têm memória, por causa da insensatez de que se revestem. Quando, porém, o
castigo e o tormento se ligam ao homem por um dia, é durante um ano todo que
ele é castigado e atormentado, pois o castigo e o tormento têm grande memória. Atormentado
e castigado durante um ano inteiro, ele se lembra então da volúpia e do engano,
e reconhece que é por causa deles que sofre esses males. Todo homem que vive na
volúpia e no engano é assim atormentado, porque, possuindo a vida, ele se
entregara à morte." Eu perguntei: "Senhor, quais são as volúpias
perniciosas?" Ele respondeu: "Tudo o que o homem faz com prazer, é
volúpia. Assim o colérico, fazendo aquilo que é conforme a sua paixão, é
voluptuoso. O mesmo acontece com o adúltero, o bêbado, o maledicente, o
mentiroso, realizando aquilo que é conforme à sua própria doença, se entrega
por esse ato à volúpia. Todas essas volúpias são más para os servos de Deus.
Portanto, é por causa desses enganos que sofrem aqueles que são castigados e
atormentados. Contudo, há também volúpias que salvam os homens, pois muitos
experimentam volúpia em fazer o bem: são impulsionados pelo próprio prazer.
Essa é volúpia proveitosa para os servos de Deus e traz vida para o homem. As
volúpias perniciosas, de que falamos antes, só lhe trazem tormentos e castigos.
Caso se obstinem e não se arrependam, acarretam a morte para si mesmos."
SÉTIMA PARÁBOLA
CAPÍTULO 66
Poucos dias depois, vi o pastor
na mesma planície onde tinha visto também os pastores, e ele me perguntou:
"O que procuras ainda?" Respondi: "Senhor, estou aqui a fim de
te pedir que mandes o pastor justiceiro sair da minha casa, pois ele me
atribula muito." Ele disse: "É preciso que sejas atribulado. Com
efeito, foi assim que o anjo glorioso ordenou a respeito de ti. Ele quer que
sejas provado." Perguntei: "Senhor, o que fiz de tão mau, para ser
entregue a esse anjo?" Ele respondeu: "Escuta. Teus pecados são
numerosos, mas não tanto para que sejas entregue a esse anjo. Todavia, tua
família cometeu grandes pecados e iniqüidades, e o anjo glorioso ficou irritado
com as obras deles e, por isso, ordenou que sejas atribulado por algum tempo.
Dessa forma, eles farão penitência e se purificarão de todo desejo deste mundo.
Quando se tiverem arrependido e purificado, o anjo do castigo se
afastará." Perguntei-lhe: "Senhor, se foram eles que fizeram essas
coisas para irritar o anjo glorioso, que fiz eu? Ele respondeu: "E que não
há outro modo para que eles sejam atribulados, se tu, chefe da família, não
sofreres tribulação. Porque sendo tu atribulado, eles forçosamente o serão
também, mas, se tiveres prosperidade, nenhuma tribulação poderá
atingi-los." Eu repliquei: "Senhor, eles já fizeram penitência de
todo o coração." Ele respondeu: "Eu sei muito bem que eles fizeram
penitência do fundo do coração. Você pensa que os pecados daqueles que fazem
penitência são imediatamente remidos? De modo algum. E preciso que aquele que
fez penitência prove sua própria alma, se humilhe profundamente em tudo o que
faz e passe por muitas e variadas tribulações. Se ele suportar as tribulações
que lhe sobrevierem, aquele que tudo criou e fortaleceu terá compaixão dele e
lhe concederá a cura. Isso acontecerá seguramente, se ele vir puro de toda
coisa má o coração do penitente. E, portanto, proveitoso a ti e à tua família
passar agora por tribulações. Mas, por que estou falando tanto? Tens que passar
por tribulações, conforme ordenou esse anjo do Senhor que te confiou a mim.
Agradece ao Senhor por julgar-te digno de te mostrar previamente a tribulação.
Dessa forma, conhecendo-a de antemão, tu a suportarás valorosamente." Eu
lhe pedi: "Senhor, fica comigo, e eu poderei suportar qualquer
tribulação." Ele respondeu: "Eu estarei contigo, e pedirei ao anjo
justiceiro para te atribular mais suavemente. Todavia, serás atribulado por
pouco tempo, e depois serás restabelecido em teu lugar. Continua, porém, a te
humilhar e a servir ao Senhor de coração puro - tu, teus filhos e tua família -
e anda conforme os meus mandamentos que te dei. Desse modo, tua penitência
poderá ser firme e pura. Se observares isso com tua família, toda tribulação se
afastará de ti. E a tribulação também se afastará de todos os que andarem
conforme os meus mandamentos."
OITAVA PARÁBOLA
CAPÍTULO 67
Ele me mostrou um grande
salgueiro, que cobria planícies e montanhas, e ao abrigo do salgueiro tinham-se
recolhido todos os que são chamados pelo nome do Senhor. Debaixo do salgueiro,
estava de pé o anjo glorioso do Senhor, com enorme estatura. Tinha uma grande
foice, e cortava ramos do salgueiro e as dava à multidão abrigada debaixo do
salgueiro. Os ramos que entregava eram pequenos, com cerca de meio metro.
Depois de todos terem recebido seu ramo, o anjo deixou a foice, e a árvore
estava inteira, da mesma forma como eu a vira. Eu me admirava e dizia a mim
mesmo: "Como é possível que, depois de tantos ramos cortados, a árvore
esteja inteira?" O pastor me disse: "Não te admires que essa árvore
permaneça inteira, depois que tantos ramos foram cortados. Espera e, depois de
ver tudo, te será explicado o que significa isso." O anjo que entregara os
ramos à multidão, pediu-os de novo. Pedia-os na ordem segundo a qual eles os
haviam recebido, e cada um entregava seu ramo. O anjo do Senhor os tomava e os
examinava. De alguns, ele recebia ramos secos e roídos como por vermes, e aos
que entregavam tais ramos o anjo dizia que formassem um grupo à parte. Outros
entregavam ramos secos, mas não roídos por vermes. Também a estes o anjo dizia
que formassem um grupo separado. Outros os entregavam meio secos, e também
estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos meio secos e
fendidos, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus
ramos verdes e fendidos, e também estes formavam um grupo separado. Outros
entregavam ramos com metade seca e metade verde, e também esses formavam um
grupo separado. Outros devolviam seus ramos, dois terços verdes e secos no
resto, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos,
dois terços secos, e verdes no resto, e também estes formavam um grupo
separado. Outros entregavam seus ramos quase completamente verdes; apenas uma
pequena parte dos seus ramos estava seca, bem na ponta, mas estavam fendidos. E
também estes formavam um grupo separado. Os ramos de alguns outros tinham
apenas uma pequena ponta verde e o resto estava seco, e também estes formavam
um grupo separado. Outros vinham com os ramos verdes, como os tinham recebido
do anjo. A maior parte da multidão entregava ramos assim, e o anjo alegrava-se
muito com isso. E também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam
seus ramos verdes com brotos novos, e também estes formavam um grupo separado,
e o anjo ficava muito alegre com eles. Outros entregavam seus ramos verdes e
com brotos, os quais traziam uma espécie de fruto. Os homens, cujos ramos foram
encontrados assim, estavam muito alegres. Também o anjo se alegrava com eles, e
igualmente o pastor estava muito alegre com eles.
CAPÍTULO 68
O anjo do Senhor ordenou que
trouxessem coroas, e foram trazidas coroas que pareciam feitas de palmas. Então
coroou os homens que haviam entregue os ramos que tinham brotos e uma espécie
de fruto, e enviou-os para a torre. Também enviou para a torre aqueles que
haviam entregue os ramos com brotos, mas sem fruto, dando-lhes um selo. Todos
os que iam para a torre vestiam roupas brancas como a neve. Enviou também
aqueles que tinham entregue os ramos verdes como os haviam recebido, dando-lhes
roupas brancas e o selo. Ao terminar isso, o anjo disse ao pastor: "Eu
também vou. Conduze tu para dentro das muralhas os que são dignos de habitar
aí. Examina com cuidado seus ramos, e depois os conduze. Examina
cuidadosamente. Atenção para que ninguém te escape, pois, se alguém escapar, eu
mesmo julgarei junto ao altar." Dito isso ao pastor, foi embora. Depois
que o anjo saiu, o pastor me disse: "Tomemos os ramos de todos e os
plantemos, para ver se alguns dentre eles viverão." Eu lhe perguntei:
"Senhor, como esses ramos secos viverão?" Ele me respondeu:
"Esta árvore é salgueiro, e é cheia de vida por natureza. Plantando esses
ramos, muitos deles viverão, se receberem um pouco de umidade. Por isso,
procurarei água para regá-los. Se algum deles viver, eu me alegrarei com ele;
se não viver, não terei sido negligente." O pastor me ordenou que os
chamasse conforme estavam agrupados. Eles vieram, grupo por grupo, e entregaram
seus ramos ao pastor. O pastor os tomou e, por grupo, os replantou; depois de
plantados, jogou tanta água neles, de modo que os ramos não apareciam sobre a
água. Depois de regar os ramos, disse-me: "Vamos embora. Dentro de poucos
dias, voltaremos para examinar todos esses ramos, pois aquele que criou esta
árvore deseja que vivam todos aqueles que receberam um ramo dela. Quanto a mim,
espero que, encontrando umidade e regados com água, a maioria desses ramos
viverá."
CAPÍTULO 69
Eu lhe disse: "Senhor,
faze-me compreender o que é essa árvore, pois não entendo como ela, aparada de
tantos ramos, continua inteira, sem parecer em nada que foi aparada. É isso que
eu não entendo." Ele me respondeu: "Escuta. Essa grande árvore que
cobre planícies, montanhas e toda a terra, é a lei de Deus dada ao mundo
inteiro, e essa lei é o Filho de Deus anunciado até os confins da terra. Os
povos que se encontram debaixo da árvore são aqueles que ouviram o anúncio e
creram. O anjo grande e glorioso é Miguel, que tem o poder sobre esse povo e o
governa. É ele que dá a lei e grava no coração daqueles que crêem. Ele examina,
portanto, se aqueles a quem deu a lei, a observaram bem. Vês muitos ramos
inúteis. Reconhecerás entre eles os que não observaram a lei, e verás a morada
de cada um." Perguntei-lhe: "Senhor, por que o anjo enviou alguns
para a torre e deixou para ti os outros?" Ele respondeu: "Todos aqueles
que transgrediram a lei que receberam dele foram deixados em meu poder para
fazerem penitência. Todos os outros que se alegraram na lei e a observaram, ele
os tem em seu próprio poder." Perguntei: "Senhor, quem são aqueles
que foram coroados e se dirigiram para a torre?" Ele me respondeu:
"Esses coroados são os que lutaram contra o diabo e o venceram; eles
sofreram pela lei. Os outros que entregaram seus ramos verdes com brotos novos,
mas sem fruto, foram atribulados por causa da lei, sem entretanto serem
torturados por ela, mas não a renegaram. Os que entregaram os ramos verdes como
os haviam recebido, são santos e justos. Caminharam muito de coração puro,
observando os mandamentos do Senhor. Conhecerás o resto, quando eu examinar os
ramos plantados e regados."
CAPÍTULO 70
Alguns dias depois, voltamos a
esse lugar e o pastor sentou-se no lugar do anjo grande, e eu fiquei ao seu
lado. Então ele me disse: "Cinge-te com uma toalha e serve-me.” Eu me
cingi com uma toalha limpa, feita de saco. Vendo-me cingido e pronto para servi-lo,
ele me disse: "Chama os homens cujos ramos foram plantados, na mesma ordem
em que cada um o devolveu." Fui até à planície, chamei a todos, e todos os
grupos se apresentaram. O pastor lhes disse: "Cada um arranque seu próprio
ramo e o traga a mim." Os primeiros a devolvê-los foram aqueles cujos
ramos estavam secos e corroídos. Como estavam secos e corroídos, ele mandou que
fossem colocados à parte. Em seguida, os devolveram os que tinham os ramos
secos, mas não corroídos. Alguns deles os devolveram verdes, e outros, secos e
corroídos como por vermes. Aos que os devolveram verdes, o pastor mandou formar
um grupo separado; aos que os devolveram secos e corroídos, ele mandou que os
colocassem com os primeiros. Depois, os devolveram os que os tinham recebido
metade secos e fendidos, e muitos deles os devolveram verdes e sem fendas;
alguns, verdes com brotos novos e frutos nesses brotos, como os tinham aqueles
que foram coroados para a torre. Alguns os devolveram secos e carcomidos;
outros, secos mas não carcomidos; outros ainda, tais como estavam antes: meio
secos e fendidos. E o pastor mandou que eles se separassem, cada um em seu
grupo respectivo, e os outros restantes, à parte.
CAPÍTULO 71
Em seguida, os devolveram os que
tinham recebido os ramos verdes, mas fendidos. Todos esses os devolveram verdes
e tomaram lugar em seu próprio grupo. O pastor alegrou-se com estes, pois todos
se tinham transformado e livrado de suas fendas. Também os devolveram aqueles
que os haviam recebido metade verdes e metade secos. Os ramos de alguns foram
encontrados inteiramente verdes; de outros, metade verdes; de outros, secos e
carcomidos; e de outros ainda, verdes com brotos novos. Todos esses foram
mandados para seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram aqueles que os
tinham recebido com dois terços verdes e um terço seco. Muitos deles os
devolveram verdes; muitos outros, metade secos; e outros, secos e carcomidos.
Todos esses foram mandados cada um para seu próprio grupo. Em seguida, os
devolveram aqueles que tinham recebido ramos secos em dois terços e verdes no
resto. Muitos deles os devolveram metade secos; alguns, secos e carcomidos; e
alguns ainda, metade secos e fendidos. Muito poucos os devolveram verdes. E
todos esses tomaram lugar em seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram
aqueles que tinham recebido ramos verdes, mas com mínima parte seca e fendida.
Desses, alguns os devolveram verdes; e alguns, verdes com brotos novos. Também
esses se foram para seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram aqueles
que tinham recebido com mínima parte verde e todo o resto seco. Os ramos
destes, em sua maior parte, foram encontrados verdes, com brotos novos e com
frutos neles; e outros, inteiramente verdes. O pastor se alegrou muito com
esses ramos, por tê-los encontrado assim. E também esses se foram, cada um para
seu próprio grupo.
CAPÍTULO 72
Depois de examinar os ramos de
todos, o pastor me falou: "Eu lhe disse que esta árvore é cheia de vida.
Vês quantos fizeram penitência e foram salvos?" Eu respondi: "Vejo,
senhor." Ele continuou: "Isso é para que saibas que a misericórdia de
Deus é grande e gloriosa, e como ele deu um espírito àqueles que eram dignos de
fazer Penitência." Perguntei: "Senhor, então, por que nem todos fizeram
penitência?" Ele respondeu: "O Senhor concedeu a penitência àqueles
cujo coração ele viu que estava pronto para se purificar e que haviam de
servi-lo de todo o coração. Contudo, àqueles nos quais viu a perfídia e a
maldade e que iriam arrepender-se apenas hipocritamente, ele não concedeu a
penitência, para que não blasfemassem novamente sua lei." Eu lhe pedi:
"Senhor, explica-me quem é cada um daqueles que te devolveram os ramos, e
a morada que lhes cabe. Desse modo, após terem ouvido, aqueles que acreditaram
e receberam o selo, mas que o quebraram e não o preservaram inteiro,
reconhecerão suas obras, farão penitência e receberão de ti um selo. Assim
glorificarão o Senhor, por ter usado piedade com eles e te haver enviado para
renovar seus espíritos." Ele explicou: "Escuta. Aqueles cujos ramos
foram encontrados secos e carcomidos por vermes, são os apóstatas e traidores
da Igreja que, com seus pecados, blasfemaram o Senhor e que ainda se
envergonharam do nome do Senhor invocado sobre eles. Tais indivíduos estão
definitivamente mortos para Deus. Vês que nenhum deles fez penitência, embora
tenham ouvido as palavras que lhes transmitiste, sob minha ordem. A vida,
portanto, foi tirada desses homens. Aqueles que devolveram os ramos secos, mas
não apodrecidos, estão próximos dos anteriores: eram hipócritas que introduziam
ensinamentos errados, que desviavam os servos de Deus e sobretudo os pecadores,
não lhes permitindo fazer penitência, mas persuadindo-os com ensinamentos
loucos. Todavia, esses têm esperança de fazer penitência. Vês que muitos dentre
eles já fizeram penitência, desde quando lhes falaste sobre os meus preceitos.
Outros ainda farão penitência, e todos aqueles que não fizerem penitência, já
perderam a vida. Aqueles que fizeram penitência tornando-se bons, têm sua
morada nas primeiras muralhas; alguns subiram à torre. Vês, portanto, que a
penitência dos pecadores traz vida, e a impenitência, traz morte."
CAPÍTULO 73
Escuta também sobre aqueles que
devolveram os ramos metade secos e fendidos. Aqueles cujos ramos estavam somente
secos pela metade, são os que duvidam; não estão nem vivos nem mortos. Os que
os tinham secos pela metade e fendidos, são os que duvidam e murmuram, e que
nunca estão em paz entre si, mas sempre em discórdia. Também esses ainda têm
possibilidade de fazer penitência. Vês que alguns deles já fizeram penitência e
ainda há esperança de penitência para eles. Todos os que dentre eles fizeram
penitência, têm sua morada na torre. Aqueles, porém, que se arrependerem
demasiadamente tarde, habitarão nos muros; aqueles que não fizerem penitência,
persistindo em suas ações, certamente morrerão. Aqueles que devolveram ramos
verdes, mas fendidos, sempre foram fiéis e bons, mas têm entre si inveja pelos
primeiros lugares e por alguma honraria. Todos eles são loucos em rivalizarem
entre si pelos primeiros lugares. Todavia, depois de terem ouvido meus
mandamentos, como eram bons, eles se purificaram e logo fizeram penitência. A
morada deles foi na torre. Contudo, se um deles voltar novamente à discórdia,
será expulso da torre e perderá a própria vida. A vida pertence a todos os que
observam os mandamentos do Senhor. Ora, nesses mandamentos nada se diz de
primeiros lugares, nem de alguma honraria, mas fala-se da paciência e humildade
do homem. Nessas pessoas, portanto, está a vida do Senhor; nos que provocam
discórdia e violam a lei, está a morte."
CAPÍTULO 74
"Aqueles que devolveram seus
ramos metade verdes e metade secos, são os que estavam imersos em seus negócios
e não se juntavam aos santos. Por isso, metade neles estava viva, e metade
estava morta. Todavia, depois de terem ouvido meus mandamentos, fizeram penitência
e foram morar na torre. Alguns outros se afastaram definitivamente, e não têm
possibilidade de fazer penitência. Com efeito, por causa de seus negócios, eles
blasfemaram o Senhor e o renegaram. Portanto, perderam a vida, por causa da
maldade que praticaram. Muitos dentre eles são vacilantes; esses ainda têm
possibilidade de fazer penitência, se logo se arrependerem, e sua morada será
na torre. Se levarem demasiado tempo para fazerem penitência, irão morar nas
muralhas; se não fizerem penitência, também eles já terão perdido a vida.
Aqueles que devolveram os ramos dois terços verdes e no resto secos, são
aqueles que renegaram de diversas formas. Muitos deles fizeram penitência e
foram morar na torre. Outros se afastaram definitivamente de Deus; esses
perderam definitivamente a vida. Alguns deles duvidaram e provocaram discórdia;
estes ainda têm possibilidade de fazer penitência, se a fizerem logo, sem
persistir em seus prazeres. Mas, se eles se obstinarem em suas ações, estarão
trabalhando para a própria morte."
CAPÍTULO 75
"Aqueles que devolveram
ramos com dois terços secos e no resto verdes, são os que foram fiéis, mas que
se enriqueceram e adquiriram honra entre os pagãos. Revestiram-se de grande
orgulho, tornaram-se arrogantes, abandonaram a verdade e se separaram dos
justos. Ao contrário, conviveram com os pagãos, e esse caminho lhes pareceu
mais agradável. Eles não se afastaram de Deus, permaneceram na fé, mas não
praticaram as obras da fé. Muitos deles fizeram penitência e tiveram sua morada
na torre. Outros, convivendo inteiramente com os pagãos e arrastados pelas suas
glórias vãs junto aos pagãos, afastaram-se de Deus e praticaram as obras dos
pagãos; esses foram contados como pagãos. Outros entre eles ficaram na dúvida,
porque não esperavam mais ser salvos, por causa das ações que haviam praticado.
Outros ainda, não só duvidaram, mas fomentaram divisões entre si. Para esses
indivíduos e para aqueles que permaneceram na dúvida por causa de suas ações,
ainda há possibilidade de penitência. Mas a sua penitência deve ser rápida,
para que a morada deles seja dentro da torre. Para os que não fazem penitência,
mas permanecem nos seus prazeres, a morte está próxima."
CAPÍTULO 76
"Os que devolveram ramos
verdes, mas com a ponta seca e fendida, são os que sempre foram bons, fiéis e
gloriosos junto de Deus, mas pecaram um pouco, por leve concupiscência e leves
rancores mútuos. Depois de ouvirem minhas palavras, a maioria deles
arrependeu-se logo, e tiveram sua morada na torre. Alguns duvidaram, e outros,
por causa de sua dúvida, promoveram maiores divisões. Estes ainda têm esperança
de penitência, pois sempre foram bons; é difícil que um deles morra. Aqueles
que devolveram seus ramos secos e com uma pequenina parte verde, são os que
apenas creram, mas praticaram as obras da iniqüidade. Nunca se afastaram de
Deus, levaram com alegria o Nome, e receberam com alegria os servos de Deus em
sua casa. Ouvindo o anúncio desta penitência, arrependeram-se sem hesitação e
praticam toda a virtude da justiça. Alguns até sofrem e são atribulados com
alegria, pois conhecem as ações que praticaram. A morada de todos esses será na
torre."
CAPÍTULO 77
Quando terminou de explicar
acerca de todos os ramos, o pastor me disse: "Vai e dize a todos que façam
penitência, e viverão em Deus. De fato, o Senhor teve compaixão, e me enviou
para oferecer a ocasião de penitência a todos, embora alguns, por causa de suas
obras, sejam indignos da salvação. O Senhor, porém, é paciente e quer que o
chamado feito pelo Filho não seja invalidado." Eu lhe disse: "Senhor,
espero que, depois de ouvir essas coisas, todos farão penitência. Estou
persuadido de que cada um, conhecendo suas ações e temendo a Deus, faça
penitência." Ele me respondeu: "Todos os que se arrependerem do fundo
do coração, se purificarem dos pecados anteriormente assinalados e não
acrescentarem mais nada a seus pecados, receberão do Senhor a cura de seus
pecados passados, se não duvidarem a respeito desses mandamentos; então eles
viverão em Deus. Todos aqueles, porém, que aumentarem seus pecados e caminharem
nas paixões deste mundo, se condenarão à morte. Quanto a ti, caminha segundo os
meus mandamentos e viverás em Deus. Do mesmo modo, aquele que andar no caminho
dos mandamentos e os praticar retamente, viverá em Deus." Depois de meter
mostrado tudo isso, ele me disse: "O resto, eu te explicarei dentro de
poucos dias."
NONA PARÁBOLA
CAPÍTULO 78
Depois que escrevi os mandamentos
e as parábolas do pastor, anjo da penitência, ele veio a mim e disse:
"Quero te mostrar tudo o que te mostrou o Espírito Santo, que te falou na
figura da Igreja. Esse Espírito é o Filho de Deus. Estavas muito fraco na carne
e, por isso, não te foi revelado por meio de anjo. Contudo, quando ficaste
fortalecido pelo Espírito e tu mesmo tiveste a força para poderes ver um anjo,
então te foi revelada, por meio da Igreja, a construção da torre. Viste bem e
santamente, qual uma virgem, todas as coisas. Agora, graças a um anjo, vês por
meio do próprio Espírito. E preciso que compreendas tudo, por meu intermédio,
de modo mais preciso. O anjo glorioso me conferiu a missão de habitar em tua
casa, para que vejas tudo com coragem, e não mais com apreensão, como
antes." Então me transportou para a Arcádia, sobre um monte de forma
cônica. Fez-me sentar no topo da montanha, e me mostrou uma grande planície e,
ao redor da planície, outras doze montanhas, cada uma com aspecto diferente. A
primeira era negra como fuligem; a segunda, seca e sem vegetação; a terceira,
cheia de espinhos e cardos; a quarta, com vegetação meio seca, verde na parte
de cima e seca junto às raízes; quando o sol brilhava, parte da vegetação
secava. A quinta montanha era muito rochosa, mas tinha vegetação verde. A sexta
montanha estava cheia de fendas, algumas pequenas, outras grandes; nas fendas havia
vegetação, mas não era muito verdejante: parecia antes estar murcha. A sétima
montanha tinha vegetação cheia de viço e a montanha toda era exuberante; todas
as espécies de rebanhos e aves se alimentavam sobre a montanha e, quanto mais
os rebanhos e aves comiam, tanto mais a vegetação brotava da montanha. A oitava
montanha estava cheia de fontes, e todas as espécies da criação do Senhor
vinham beber nessas fontes da montanha. A nona montanha não tinha água nenhuma,
e estava completamente deserta; havia nela animais selvagens e répteis
mortíferos, que provocam a morte dos homens. Na décima montanha havia árvores
gigantes e estava coberta de sombras; debaixo das sombras estavam deitadas
muitas ovelhas, que repousavam e ruminavam. A décima primeira montanha era
coberta de árvores, as quais eram frutíferas e carregadas de frutas de toda
espécie, e quem as via, desejava comê-las. A décima segunda montanha era
inteiramente branca; seu aspecto era muito exuberante, e a montanha em si mesma
era belíssima.
CAPÍTULO 79
No meio da planície, ele me
mostrou uma grande rocha branca que se erguia da planície. Era mais alta que as
montanhas, e quadrada, de modo a conter o mundo inteiro. A rocha era antiga, e
havia nela uma porta escavada, que parecia ter sido escavada recentemente.
Resplandecia mais do que o sol, e eu me maravilhava com tal esplendor. Ao redor
da porta estavam doze virgens. As quatro que havia nos cantos me pareciam mais
gloriosas, mas as outras o eram também. As virgens estavam nos quatro lados da
porta, duas a duas, à meia distância das quatro primeiras. Vestiam túnica de
linho, belamente cingidas, com o ombro direito descoberto, como para
transportar algum peso. Estavam prontas, alegres e animadas. Vendo isso, fiquei
admirado pelas coisas grandes e gloriosas que via. Além disso, fiquei perplexo
com essas virgens, que eram delicadas, mas que se comportavam virilmente, como
se devessem sustentar todo o céu. Então o pastor me disse: "Em que estás
pensando, preocupando-te e causando tristeza a ti mesmo? As coisas que não
consegues compreender, não as trates como se fosses inteligente. Pede antes ao
Senhor que te dê inteligência para compreender essas coisas. Não podes ver o
que está atrás de ti, mas vês o que está diante de ti; não te atormentes pelo
que não podes ver. Procura dominar as coisas que vês, e não te angusties com o
resto. Explicarei tudo o que te vou mostrar. Vê, portanto, o resto."
CAPÍTULO 80
Então vi que haviam chegado seis
homens altos, gloriosos e de aspecto semelhante. Chamaram uma multidão de
homens. Estes recém-chegados eram de grande estatura, muito belos e fortes. Os
seis homens lhes deram ordens de construir uma torre sobre a rocha. Os homens
que vieram construir a torre fizeram então grande tumulto, correndo de cá para
lá ao redor da porta. As virgens que estavam ao redor da porta diziam aos
homens que apressassem a construção da torre. Elas estendiam as mãos, como se
devessem receber alguma coisa dos homens. Os seis homens ordenaram que subissem
pedras de um abismo e se colocassem na construção da torre. Então subiram dez
pedras quadradas e brilhantes, não lavradas. Os seis homens chamaram as virgens
e lhes disseram que carregassem todas as pedras que haviam de entrar na
construção da torre, que as passassem através da porta, e entregassem aos
homens que iriam construir a torre. As virgens então carregaram sobre si,
mutuamente, as dez primeiras pedras que haviam subido do abismo, e as transportaram
juntas, pedra por pedra.
CAPÍTULO 81
Elas carregavam as pedras na
mesma ordem em que estavam ao redor da porta: as virgens que pareciam
vigorosas, se colocavam nos ângulos da pedra; as outras se colocavam dos lados.
E assim carregavam todas as pedras, passando pela porta, conforme lhes fora
ordenado, e as entregavam aos homens na torre, os quais recebiam as pedras e
construíam. A torre era construída sobre a grande rocha e em cima da porta. As
dez pedras foram então ajustadas e cobriram toda a rocha, tornando-se, desse
modo, o alicerce da construção da torre. A rocha e a porta suportavam toda a
torre. Depois das dez pedras, subiram do abismo outras vinte e cinco. Elas
também foram ajustadas à construção, carregadas pelas virgens como as anteriores.
Depois, subiram trinta e cinco pedras, que foram igualmente ajustadas à torre.
A seguir, subiram outras quarenta pedras, e todas foram também empregadas na
construção da torre. Desse modo, formaram-se quatro camadas no alicerce da
torre. Pararam então de subir do abismo, e os construtores descansaram um
pouco. Depois, os seis homens ordenaram à multidão numerosa que trouxesse
pedras das montanhas, a fim de construir a torre. Eram trazidas de todas as
montanhas, de cores variadas, lavradas pelos homens, e entregues às virgens, as
quais as transportavam pela porta e as entregavam para a construção da torre.
Quando essas pedras de cores diferentes eram colocadas na construção,
tornavam-se igualmente brancas, mudando as cores precedentes. Algumas pedras eram
entregues aos homens para a construção, mas não se tornavam brilhantes;
continuavam tais como eram antes, pois não tinham sido entregues pelas virgens,
nem tinham passado pela porta. Tais pedras, portanto, destoavam na construção
da torre. Os seis homens viram que essas pedras destoavam na construção, e
ordenaram que fossem retiradas, levadas para baixo, para o lugar de onde tinham
sido transportadas. Então disseram aos homens que transportavam as pedras:
"De modo nenhum, não entregueis vós mesmos pedras aos construtores.
Colocai-as perto da torre, para que as virgens, fazendo-as passar pela porta,
as entreguem para a construção. Com efeito, se elas não passarem a porta pelas
mãos das virgens, não poderão mudar suas cores. Portanto, não vos afadigueis em
vão."
CAPÍTULO 82
Terminou naquele dia o trabalho
de construção, mas a torre não ficou concluída. Devia-se retomar a construção,
mas houve uma pausa. Os seis homens mandaram que todos os construtores se
retirassem um pouco e descansassem; às virgens, porém, ordenaram que não se
afastassem da torre. Parecia-me que as virgens foram deixadas aí para
guardá-la. Depois que todos se retiraram para descansar, eu perguntei ao
pastor: "Senhor, por que não foi terminada a construção da torre?"
Ele respondeu: "A torre não pode ser terminada enquanto o seu proprietário
não vier examinar a construção, para trocar as pedras que estiverem corroídas.
A torre foi construída segunda a vontade dele." Eu então pedi:
"Senhor, desejaria saber o que significa a construção da torre e a rocha,
a porta, as montanhas, as virgens e as pedras que subiram do abismo, porque não
foram lavradas, mas entraram na construção tais quais eram. Também desejaria
saber por que primeiro foram postas no alicerce dez pedras, depois vinte e
cinco, trinta e cinco, e quarenta. E também o que significam as pedras que
entraram na construção e depois foram logo retiradas e recolocadas em seu
lugar. Senhor, tranqüiliza a minha alma sobre tudo isso, e explica-me
tudo." Ele respondeu: "Se tua curiosidade não for considerada vã,
conhecerás tudo. Daqui a poucos dias voltaremos aqui, e verás o resto do que
acontecerá a esta torre, e saberás completamente todas as parábolas."
Poucos dias depois, voltamos ao lugar onde estivéramos sentados, e ele me
disse: "Vamos até à torre, pois o proprietário virá examiná-la."
Então fomos até à torre, e perto dela não havia absolutamente ninguém, exceto
as virgens. O pastor perguntou às virgens se o proprietário da torre estava aí,
e elas responderam que ele chegaria para examinar a construção.
CAPÍTULO 83
Eis que pouco depois vejo um
cortejo de muitos homens chegando, e no meio deles um homem tão alto que
ultrapassava a torre. Os seis homens que trabalharam na construção caminhavam
com ele à direita e à esquerda, e todos os que trabalharam na construção
estavam com ele, e muitos outros, gloriosos, ao seu redor. As virgens que
guardavam a torre correram ao seu encontro, o beijaram e começaram a caminhar
com ele ao redor da torre. Esse homem examinava minuciosamente a construção, a
ponto de apalpar pedra por pedra; com um bastão na mão, batia em cada uma das
pedras da construção. À medida que batia nelas, algumas ficavam negras como
fuligem; outras, corroídas, ou fendidas, ou mutiladas, ou nem brancas nem
negras; outras, desiguais, já não se harmonizavam com as demais pedras; e
outras ainda, cheias de manchas. Tais foram as variedades de pedras achadas
inúteis para a construção. E ele ordenou retirá-las todas da torre, colocá-las
junto dela e trazer outras para substituí-Ias. Os construtores lhe perguntaram
de qual montanha ele queria que tirassem as pedras para colocar no lugar das
outras. Ele ordenou que fossem tiradas, não das montanhas, mas de uma planície
vizinha. Cavou-se então a planície e foram encontradas pedras brilhantes,
quadradas, e algumas redondas. Todas as pedras encontradas nessa planície foram
trazidas, e as virgens as transportaram através da porta. As pedras quadradas
foram lavradas e colocadas no lugar das que tinham sido tiradas; as redondas
não foram colocadas na construção, porque eram duras, e o trabalho de lavrá-las
era lento. Foram colocadas perto da torre, pois deviam ser lavradas para serem
colocadas na construção, já que eram muito brilhantes.
CAPÍTULO 84
Terminando isso, o homem glorioso
e senhor de toda a torre chamou o pastor e lhe entregou todas as pedras que se
achavam perto da torre e que foram tiradas da construção, e lhe disse:
"Limpa cuidadosamente todas essas pedras, e emprega na construção da torre
as que se ajustam às outras; as que não se ajustarem, atira-as para longe da
torre." Depois de ordenar isso ao pastor, foi embora, acompanhado de todos
os que tinham vindo com ele; as virgens, porém, permaneceram ao redor da torre,
para guardá-la. Eu perguntei ao pastor: "Como podem essas pedras, que
foram rejeitadas como indignas, voltar à construção da torre?" Ele me
respondeu: "Vês estas pedras?" Eu disse: "Sim, senhor, estou
vendo." Ele continuou: "Lavrarei a maior parte delas e as empregarei
na construção, e elas se ajustarão às outras." Eu perguntei: "Senhor,
como poderão, depois de esquadradas, preencher o mesmo lugar?" Ele me
respondeu: "As que forem achadas pequenas serão colocadas no interior da
construção; as maiores serão colocadas no lado externo e sustentarão as outras."
Dito isso, continuou: "Vamos embora. Dentro de dois dias voltaremos,
limparemos essas pedras e as colocaremos na construção. E preciso limpar tudo
ao redor da torre, pois, se o proprietário vier de improviso e encontrar tudo
sujo ao redor da torre, ficará irritado. Nesse caso, essas pedras não entrariam
na construção da torre, e aos olhos do proprietário eu pareceria
negligente." Dois dias depois, voltamos à torre e ele me disse:
"Examinemos todas as pedras e vejamos quais delas podem entrar na
construção." Eu respondi: "Sim, senhor, vamos examiná-las".
CAPÍTULO 85
Para começar, examinamos primeiro
as pedras negras. Da forma como foram retiradas da torre, assim as encontramos.
O pastor ordenou que fossem levadas embora da torre e colocadas à parte.
Depois, examinou as corroídas. Pegou muitas delas, lavrou-as e ordenou que as
virgens as levantassem e as colocassem na construção. As virgens as levantaram
e as colocaram no interior da construção da torre. Ele ordenou então que as
restantes fossem colocadas com as pretas, pois elas também foram encontradas
pretas. Em seguida, examinou as fendidas. Lavrou muitas e mandou que as virgens
as levassem para a construção. Puseram-nas, porém, no lado externo, pois eram
mais sólidas. As outras, como tinham muitas fendas, não puderam ser lavradas e,
por isso, foram excluídas da construção da torre. Examinou depois as mutiladas.
Entre elas se encontraram muitas pedras pretas, e algumas com grandes fendas, e
ele mandou que também essas fossem colocadas com as rejeitadas. Quanto às restantes,
ele as limpou, lavrou e mandou colocar na construção. As virgens as levantaram
e as ajustaram no meio da construção, pois eram muito fracas. Depois, examinou
as meio brancas e meio pretas, e muitas delas foram encontradas pretas. Mandou
que também essas fossem levantadas e colocadas junto com as que tinham sido
rejeitadas. Todas as outras foram levantadas pelas virgens. Como eram brancas,
foram ajustadas à construção pelas próprias virgens. Foram postas no lado
externo da muralha, pois foram encontradas sólidas, de modo que podiam
sustentar as que eram colocadas no meio. Nada foi cortado delas. Em seguida,
examinou as que eram duras e ásperas, e algumas delas foram rejeitadas; não era
possível lavra-las, porque eram muito duras. As outras foram lavradas,
levantadas pelas virgens, e ajustadas no interior da construção da torre, pois
eram mais fracas. Em seguida, ele examinou as que tinham manchas, e delas
poucas ficaram pretas e foram rejeitadas com as outras. As que restaram foram
encontradas brilhantes e sólidas, ajustadas pelas virgens à construção; foram
colocadas no lado externo, porque eram resistentes.
CAPÍTULO 86
Em seguida, ele foi examinar as
pedras brancas e redondas, e me disse: "Que faremos com essas
pedras?" Eu respondi: "Que sei eu, senhor?" (Ele continuou:)
"Não tens nenhuma idéia sobre isso?" Eu respondi: "Senhor, não
conheço esse ofício, não sou talhador de pedras, nem consigo entender
nada." Ele continuou: "Não vês que elas são redondas e que, se eu
quiser deixá-las quadradas, será preciso cortar bastante? Contudo, é preciso
que algumas delas entrem na construção." Eu perguntei: "Senhor, se é
necessário, por que te preocupas? Por que não escolhes para a construção
aquelas que preferes e as ajustas na construção?" Ele escolheu as maiores e
mais brilhantes delas, e as lavrou. As virgens as levantaram e as ajustaram no
lado externo da construção. As restantes foram levantadas e colocadas na
planície, de onde tinham sido tiradas. Não foram, porém, reprovadas. Ele me
disse: "Porque resta ainda um pouco da torre para construir, e o
proprietário dela quer de todo modo que essas pedras sejam ajustadas à
construção, pois são muito brilhantes." Então ele chamou doze mulheres
muito belas, vestidas de preto e cingidas, com os ombros descobertos e os cabelos
soltos. Elas me pareceram selvagens, e o pastor ordenou que levantassem as
pedras rejeitadas da construção e as levassem para as montanhas de onde tinham
sido tiradas. EIas as levantaram, alegres, e transportaram todas e as puseram
no lugar de onde haviam sido tiradas. Quando todas as pedras foram retiradas, e
não restou nenhuma pedra ao redor da torre, o pastor me disse:
"Percorramos ao redor da torre, para ver se não há nenhum defeito."
Dei a volta com ele. Vendo que a torre era bela em sua construção, o pastor
ficou muito contente. Com efeito, a torre era tão bem construída, que eu
experimentei o desejo de habitá-la, pois ela era construída como se fosse uma
pedra única, sem a mínima juntura. A pedra parecia ter sido cortada da rocha,
pois me parecia formar um único bloco.
CAPÍTULO 87
Andando com ele, eu estava
contente de ver coisas tão boas. E o pastor me disse: "Vai me buscar cal e
cacos para igualar as formas das pedras que foram levantadas e empregadas na
construção. E preciso que todo o contorno da torre fique igualado." Fiz
conforme ele ordenou e lhe trouxe tudo. Ele pediu: "Ajuda-me, para que a
obra fique logo terminada." Então ele igualou as formas das pedras que
entraram na construção; depois mandou varrer e limpar ao redor da torre. As virgens
pegaram vassouras e varreram, tirando toda a sujeira da torre, e espalharam
água. Então o lugar da torre ficou alegre e muito belo. O pastor me disse:
"Tudo foi lavado. Se o proprietário vier examinar a torre, não terá nada a
nos reprovar." Dito isso, queria ir embora. Eu, porém, o segurei pelo
bornal e comecei a conjurá-lo, pelo Senhor, que me explicasse o que me
mostrara. Ele me disse: "Ainda tenho coisas para fazer. Depois te
explicarei tudo. Espera-me aqui até que eu volte." Eu lhe perguntei:
"Senhor, que farei aqui sozinho?" Ele respondeu: "Não estás
sozinho. As virgens estão contigo." Eu lhe pedi: "Recomenda-me então
a elas." Então o pastor as chamou, e lhes disse: "Confio a vós este
homem, até que eu volte." E foi embora. Fiquei sozinho com as virgens.
Elas estavam muito contentes, e me trataram com muita atenção, principalmente
as quatro mais gloriosas.
CAPÍTULO 88
As virgens me disseram: "O
pastor não voltará aqui hoje." Eu perguntei: "Então, o que é que eu
faço?" Elas responderam: "Espera-o até à tarde. Se ele vier, falará
contigo; se não vier, ficarás até que ele volte." Eu lhes disse: "Vou
esperá-lo até à tarde. Se não vier, voltarei para casa e retornarei amanhã de
manhã." Elas responderam: "Foste confiado a nós. Portanto, não podes
sair de perto de nós." Eu perguntei: "Onde ficarei?" Elas
responderam: "Dormirás conosco, como irmão, e não como marido, pois tu és nosso
irmão e, doravante, habitaremos contigo, porque te amamos muito." Eu
fiquei envergonhado de permanecer com elas. Então, aquela que me parecia ser a
primeira delas começou a beijar-me e abraçar-me. As outras, vendo-a abraçar-me,
começaram também a beijar-me, a andar ao redor da torre e a brincar comigo. De
minha parte, eu me senti rejuvenescido, e também comecei a brincar com elas.
Umas formavam coros de danças, outras dançavam e outras cantavam. Eu fiquei em
silêncio, passeava com elas ao redor da torre, e estava alegre com elas.
Chegando a tarde, quis retirar-me para casa. Elas, porém, não me deixaram e me
retiveram. Fiquei com elas à noite e dormi perto da torre. As virgens
estenderam no chão suas túnicas de linho e me fizeram deitar no meio delas. E
nada mais fizeram do que rezar. Eu comecei a rezar sem cessar com elas, e não
menos que elas. As virgens se alegraram, vendo-me rezar assim. Permaneci aí com
as virgens até à manhã seguinte, pela décima hora. Em seguida, o pastor chegou
e perguntou: "Não lhe fizestes nenhuma insolência?" Elas responderam:
"Pergunta a ele mesmo." Eu lhe respondi: "Senhor, estou muito
contente de ter ficado com elas." Ele me perguntou: "O que você
comeu?" Eu respondi: "Comi palavras do Senhor a noite inteira."
Ele perguntou: "Elas te receberam bem?" Eu respondi: "Sim,
senhor." EIe continuou: "Agora, o que queres ouvir em primeiro
lugar?" Eu disse: "Senhor, quero ouvir na mesma ordem que me
mostraste desde o começo. Peço-te, senhor, que me expliques à medida que eu for
perguntando." Ele me disse: "Explicarei como quiseres e não
esconderei de ti absolutamente nada."
CAPÍTULO 89
Eu perguntei: "Antes de
tudo, explica-me o que representam a rocha e a porta." Ele me respondeu:
"A rocha e a porta são o Filho de Deus." Eu continuei: "Como é
que a rocha é antiga e a porta é recente?" Ele explicou: "Escuta,
homem insensato, e compreende. O Filho de Deus nasceu antes de toda a criação,
embora ele tenha sido o conselheiro de seu Pai para a criação. E por isso que a
rocha é antiga." Eu lhe perguntei: "E por que a porta é nova,
senhor?" Ele respondeu: "Por que ele se manifestou nos últimos dias
da consumação. Aporta foi feita recentemente, para que os que devem salvar-se
entrem por ela no Reino de Deus." Viste que as pedras que passaram pela
porta foram utilizadas na construção da torre, mas as que não passaram por ela
foram rejeitadas para seu antigo lugar?" Eu respondi: "Sim, senhor,
eu vi." Ele continuou: "Da mesma forma, ninguém entrará no Reino de
Deus, se não tiver recebido o seu nome santo. Se quiseres entrar numa cidade e
ela for cercada de muralhas e só houver uma porta, poderias entrar nela sem ser
pela única porta que tem?" Eu respondi: "Como poderia ser de outra
maneira, senhor?" Ele continuou: "Da mesma forma que não poderias entrar
na cidade a não ser pela sua porta, também o homem não pode entrar no Reino de
Deus senão pelo nome de seu Filho amado. Viste a multidão que construía a
torre?" Eu respondi: "Sim, senhor, eu vi." Ele continuou:
"Todos eles são anjos gloriosos. E por meio deles que o Senhor foi cercado
com muralha. A porta é o Filho de Deus. É a única entrada para o Senhor.
Ninguém chegará até ele, senão por meio de seu Filho. Viste os seis homens e,
no meio deles, um homem grande e glorioso, que andava ao redor da torre e que
rejeitou como indignas as pedras da construção?" Eu disse: "Sim,
senhor, eu vi." Ele explicou: "O homem glorioso é o Filho de Deus, e
os outros seis são os anjos gloriosos que o escoltam, à sua direita e à sua
esquerda. Sem ele, nenhum desses anjos gloriosos poderá entrar para junto de
Deus. Quem não tiver recebido o nome dele, não entrará no Reino de Deus."
CAPÍTULO 90
Eu perguntei: "O que é a
torre?" Ele disse: "A torre é a Igreja". (Eu perguntei:) "E
quem são as virgens?" Ele respondeu: "São espíritos santos. Um homem
não pode entrar de outra forma no Reino de Deus, se essas virgens não o
revestirem com a própria veste delas. Se receberes apenas o nome, mas não a
veste, nada adiantará, porque essas virgens são os poderes do Filho de Deus. Se
levas o nome, mas não a força dele, é em vão que serás o portador do nome. As
pedras que viste rejeitadas, são as pessoas que levaram o nome, mas não foram
revestidas com as vestes das virgens." Eu perguntei: "Senhor, qual é
a veste delas?" Ele, respondeu: "O próprio nome delas é sua veste.
Aquele que leva o nome do Filho de Deus, deve levar também os nomes delas,
porque o próprio Filho de Deus leva o nome dessas virgens. Todas as pedras que
viste entrar na construção da torre, levadas pela mão delas, e aí permanecem,
são pessoas revestidas com o poder dessas virgens. Por isso vês a torre formar
um só bloco com a rocha. O mesmo acontece com os que acreditaram no Senhor por
meio do seu Filho e, revestidos com esses espíritos, formarão um só espírito,
um só corpo, e suas vestes terão uma só cor. Tais pessoas que portam o nome das
virgens têm sua morada na torre." Eu perguntei: "Senhor, e as pedras
que foram rejeitadas? Por que o foram? Elas tinham passado pela porta e foram
colocadas na construção da torre pela mão das virgens." Ele respondeu:
"Uma vez que te preocupas de tudo e pesquisas acuradamente, escuta o que
se refere às pedras rejeitadas. Todos esses indivíduos receberam o nome do
Filho de Deus e também o poder das virgens. Acolhendo esses espíritos, eles foram
fortalecidos e se encontraram entre os servos de Deus. Tinham um só espírito,
um só corpo e uma só veste, pois todos pensavam a mesma coisa e praticavam a
justiça. Depois de certo tempo, porém, foram seduzidos pelas mulheres que viste
vestidas de preto, com os ombros descobertos, cabelos soltos e belos. Vendo-as,
eles as desejaram e se revestiram com o poder delas, rejeitando a veste e o
poder das virgens. Esses foram rejeitados da casa de Deus e entregues a essas
mulheres. Mas os que não se deixaram seduzir pela beleza delas, permaneceram na
casa de Deus. Aí tens a explicação das pedras rejeitadas."
CAPÍTULO 91
Eu perguntei: "Senhor, se
esses homens, mesmo que sejam assim, fizerem penitência, rejeitarem o desejo
por essas mulheres e voltarem às virgens, andando conforme seus poderes e suas
obras não entrarão na casa de Deus?" Ele respondeu: "Eles entrarão se
renunciarem às obras dessas mulheres, assumirem o poder das virgens e andarem
em suas obras. Houve uma pausa na construção, justamente para que eles
pudessem, no caso de se arrependerem, entrar de novo na construção da torre.
Caso não fizerem penitência, outros entrarão, e eles serão definitivamente
rejeitados." Dei graças ao Senhor por todas essas coisas, por se ter
compadecido de todos os que são chamados pelo nome dele, por nos ter enviado o
anjo da penitência, a nós que pecamos contra ele; por ter concedido nova vida,
a nós que já estávamos corrompidos e sem esperança de viver. Eu disse:
"Agora, Senhor, explica-me por que a torre não está construída no chão,
mas sobre a rocha e sobre a porta." Ele respondeu: "Ainda és idiota e
insensato!" Eu repliquei: "Senhor, tenho necessidade de perguntar
tudo, pois não consigo compreender absolutamente nada. Essas coisas são
grandes, gloriosas e difíceis para os homens compreenderem." Ele explicou:
"Escuta. O nome do Filho de Deus é grande, imenso e sustenta o mundo
inteiro. Se toda a criação é sustentada pelo Filho de Deus, o que pensar então
daqueles que foram chamados por ele, que levam o nome do Filho de Deus e andam
conforme os seus mandamentos? Estás vendo, portanto, os que ele sustenta? São
os que levam o seu nome de todo o coração. Por isso, ele se constituiu alicerce
deles e, para ele é uma alegria sustentá-los, pois eles não se envergonham de
levar o nome dele."
CAPÍTULO 92
Eu pedi: "Senhor, dize-me o
nome das virgens e das mulheres trajadas de preto." Ele respondeu:
"Escuta o nome das virgens mais fortes, que estão nos ângulos (da porta).
A primeira é a Fé; a segunda, a Temperança; a terceira, a Força; a quarta, a
Paciência. As outras, colocadas entre as primeiras, chamam-se: Simplicidade,
Inocência, Castidade, Alegria, Verdade, Inteligência, Concórdia, Caridade.
Aquele que leva esses nomes e também o nome do Filho de Deus, poderá entrar no
Reino de Deus. Escuta também os nomes das mulheres trajadas de preto. Quatro
delas são mais fortes: a primeira é a Incredulidade; a segunda, Intemperança; a
terceira, Desobediência; a quarta, Engano. As que se seguem chamam-se:
Tristeza, Maldade, Dissolução, Cólera, Falsidade, Insensatez, Maledicência e
Ódio. O servo de Deus que leva esses nomes verá o Reino de Deus, mas nele não
entrará." Eu perguntei: "Senhor, e as pedras que saíram do abismo e
foram ajustadas à construção? Quem são elas?" Ele respondeu: "As dez
primeiras, colocadas no alicerce, é a primeira geração; as vinte e cinco
seguintes são a segunda geração de homens justos; as trinta e cinco seguintes
são os profetas de Deus e seus servos; as quarenta são os apóstolos e doutores
que anunciaram o Filho de Deus." Eu perguntei: "Senhor, por que as
virgens passaram as pedras pela porta, para entregá-las aos construtores da
torre?" EIe respondeu: "Porque eles foram os primeiros a levar esses
espíritos e não se separaram uns dos outros; nem os espíritos se separaram dos
homens; nem os homens, dos espíritos. Os espíritos permaneceram com eles até à
morte. Se não levassem em si esses espíritos, tais homens não teriam sido úteis
à construção da torre."
CAPÍTULO 93
Eu pedi: "Senhor, explica-me
mais ainda." Ele respondeu: "O que procuras mais?" Eu continuei:
"Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser colocadas
na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?" Ele respondeu:
"Era preciso que saíssem da água, para receber a vida. Elas não podiam
entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior. Tais
mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De fato,
antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe o
selo, deixa a morte e retoma a vida. O selo é a água: eles descem à água e daí
saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para entrar
no Reino de Deus." Eu perguntei: "Senhor, por que as quarenta pedras
também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o
selo?" Ele respondeu". "Porque esses apóstolos e doutores que
anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de
Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram
o selo do anúncio. Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo,
desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles
desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o
nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção
da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza.
Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas." Eu
respondi: "Sim, senhor."
CAPÍTULO 94
(Eu perguntei): "Senhor, explica-me
agora a respeito das montanhas. Por que são tão diferentes entre si e suas
formas variadas?" Ele respondeu: "Escuta. Essas doze montanhas são as
doze tribos, que habitam o mundo inteiro. O Filho de Deus lhes foi anunciado
por meio dos apóstolos." (Eu pedi): "Porque as montanhas têm formas
variadas entre si? Explica-me, senhor." Ele respondeu: "Escuta. Essas
doze tribos que habitam o mundo inteiro são doze nações. Elas são diferentes no
sentimento e no pensamento. Assim como são diversas as montanhas que vês,
também o são as qualidades do pensamento e do sentimento das nações. Eu te
explicarei, porém, o comportamento de cada uma em particular." Eu pedi:
"Senhor, explica-me primeiramente porque, apesar da diversidade dessas
montanhas, as pedras, quando colocadas na construção, se tornaram brilhantes e
com a mesma cor branca, como as pedras que subiram do abismo." Ele me
respondeu: "E porque todas as nações que habitam debaixo do céu, tendo
ouvido e acreditado, foram chamadas com o nome do Filho de Deus. Depor de terem
recebido o selo, tiveram todas um só sentimento e um só pensamento, uma só fé e
uma só caridade. Com o nome levaram também os espíritos das virgens. Por isso,
a construção da torre tornou-se de uma só cor, brilhante como o sol. Mas, depois
de terem entrado para o mesmo lugar e terem formado um só corpo, alguns deles
se contaminaram. Foram excluídos do povo dos justos e se tornaram como antes,
ou talvez piores."
CAPÍTULO 95
Eu perguntei: "Senhor, como
puderam tornar-se piores, depois de conhecer a Deus?" Ele respondeu:
"Aquele que não conhece a Deus e pratica o mal, merece alguma punição por
seu mal. Contudo, aquele que conhece a Deus não deve praticar o mal, e sim o
bem. Se aquele que deve praticar o bem, pratica o mal, não te parece que comete
erro maior do que aquele que não conhece a Deus? Por isso, aqueles que não
conhecem a Deus e praticam o mal, são condenados à morte. Mas os que conhecem a
Deus, que viram sua grandeza, e ainda praticam o mal, serão duplamente
castigados, e morrerão para sempre. É desse modo que a Igreja de Deus será
purificada. Viste essas pedras tiradas da torre, entregues aos espíritos maus e
rejeitadas dela. Aqueles que tiverem sido purificados, formarão um só corpo.
Desse modo, a torre, depois de purificada, ficou aparentemente como de uma só
pedra. Igualmente acontecerá com a Igreja de Deus, depois que for purificada e
forem expulsos os maus, os hipócritas, os blasfemadores, os vacilantes e os que
tiverem praticado todo tipo de mal. Depois da exclusão deles, a Igreja de Deus
será um só corpo, um só sentimento, um só pensamento, uma só fé, uma só
caridade. Então, o Filho de Deus se alegrará e se regozijará com eles por ter
encontrado puro o seu povo." Eu disse: "Senhor, tudo isso é grande e
glorioso. Mas agora, Senhor, mostra-me o poder e a conduta de cada uma das
montanhas, a fim de que cada alma fiel ao Senhor, ouvindo isso, glorifique o
seu nome grande, admirável e glorioso." Ele respondeu: "Escuta a
respeito da diversidade das montanhas e das doze nações."
CAPÍTULO 96
"Os fiéis que vieram da
primeira montanha, a preta, são apóstatas, pessoas que blasfemaram contra o
Senhor e traíram os servos de Deus. Para esses não há penitência, mas a morte;
são pretos porque é geração sem lei. Os fiéis que vieram da segunda montanha, a
seca, são hipócritas e mestres do mal. São semelhantes aos anteriores: não
produziam nenhum fruto de justiça. Com efeito, assim como a montanha deles é
infrutífera, tais homens possuem o nome, mas são vazios de fé, e neles não há
nenhum fruto de verdade. A penitência é possível para eles, caso se arrependam
logo; porém, se tardarem, a morte será o destino deles, junto aos
primeiros." Eu perguntei: "Senhor, por que existe penitência para
estes, enquanto para os primeiros não? Até certo ponto, as ações deles são
semelhantes." Ele respondeu: "A penitência é possível para eles,
porque não blasfemaram o seu Senhor, nem traíram os servos de Deus. Agiram
hipocritamente pelo desejo do lucro, e cada um ensinou conforme os desejos dos
homens pecadores. Por isso, sofrerão alguma pena. Para eles há possibilidade de
penitência, porque não foram blasfemadores, nem traidores."
CAPÍTULO 97
"Os fiéis que vieram da
terceira montanha, a coberta de espinhos e cardos, são estes: alguns deles são
ricos e outros enredados em numerosos negócios. Os cardos simbolizam os ricos,
e os espinhos são os que se enredaram em múltiplos negócios. Estes últimos,
enredados em múltiplos negócios, não se ligam aos servos de Deus, mas se
extraviam, afogados em seus negócios. Os ricos dificilmente se ligam aos servos
de Deus, porque temem que alguém lhes peça alguma coisa e, por isso,
dificilmente entrarão no Reino de Deus. Assim como é difícil andar descalço
sobre os cardos, também-o é para eles entrar no Reino de Deus. Todavia, para
todos esses existe possibilidade de penitência, com a condição de que seja
logo, para recuperar nesses dias o que não fizeram no passado, e assim praticar
alguma coisa boa. Se fizerem penitência e praticarem algo de bom, viverão em
Deus; mas, se persistirem obstinados em suas obras, serão entregues àquelas
mulheres que os matarão."
CAPÍTULO 98
"Os fiéis que vieram da
quarta montanha, a que possui muita vegetação verde na ponta e seca perto das
raízes, e alguma ressequida pelo sol, são os seguintes: alguns são vacilantes,
outros têm o Senhor nos lábios, mas não no coração. Por isso, a base deles é
seca e sem força; somente suas palavras são vivas, mas suas obras são mortas.
Tais pessoas não estão vivas, nem mortas; são parecidas com os vacilantes, que
não são nem verdes, nem secos, pois eles não vivem nem estão mortos. Assim como
essa vegetação seca ao ver o sol, também os vacilantes, quando ouvem falar de
perseguição, por causa de sua covardia, sacrificam aos ídolos e se envergonham
do nome do seu Senhor. Eles, portanto, nem vivem, nem estão mortos. Contudo,
também eles, se fizerem logo penitência, viverão; se não fizerem penitência,
porém, já estão entregues às mulheres que lhes tirarão a vida."
CAPÍTULO 99
"Os fiéis que vieram da
quinta montanha, que tinha vegetação verde e era pedregosa, são os seguintes:
indóceis, arrogantes, cheios de si; querem saber tudo, mas não sabem nada. Por
causa de sua presunção, a inteligência se afastou deles e a loucura insensata
neles penetrou. Gabam-se de como se tivessem inteligência e desejam ser
mestres, quando são apenas insensatos. Por causa desse orgulho, muitos,
enaltecendo a si mesmos, acabaram se esvaziando. De fato, a presunção e a
vaidade são um grande demônio. Muitos deles, foram rejeitados; alguns fizeram
penitência, creram e, reconhecendo sua própria insensatez, submeteram-se aos
que têm inteligência. Os outros também ainda podem fazer penitência, pois não
eram maus, mas idiotas e insensatos. Se fizerem penitência, viverão em Deus;
mas, se não fizerem penitência, habitarão com as mulheres que lhes fazem
mal."
CAPÍTULO 100
"Os fiéis que vieram da
sexta montanha, a que tem grandes e pequenas fendas e vegetação murcha nas
fendas, são os seguintes: os que têm pequenas fendas são os que guardam algum
rancor mútuo e, por causa de suas maledicências recíprocas, estão murchos na
fé. Muitos deles, porém, fizeram penitência; outros a farão quando ouvirem os
meus mandamentos, pois suas maledicências são pequenas e eles se arrependerão
logo. Os que têm grandes fendas, obstinam-se na maledicência, tornam-se
rancorosos e furiosos uns com os outros. Esses foram rejeitados para longe da
torre e julgados indignos da sua construção. Tais homens dificilmente viverão.
Deus nosso Senhor, que domina tudo e tem poder sobre toda a sua criação, não
guarda rancor para com os que confessam seus pecados. Se ele é misericordioso,
por que o homem, que é mortal e cheio de pecados, guarda rancor contra o homem,
como se tivesse poder de destruí-lo ou salvá-lo? Eu, o anjo da penitência, vos
digo: Vós que tendes essa tendência, afastai-a e fazei penitência. O Senhor
curará vossos pecados passados, se vos purificardes desse demônio; caso
contrário, sereis entregues a ele para a morte."
CAPÍTULO 101
"Os fiéis da sétima
montanha, onde crescia vegetação verde e viçosa, e onde tudo era exuberante,
todo tipo de rebanho e aves se alimentavam da vegetação dessa montanha, e cuja
vegetação, quanto mais era cortada, mais abundante brotava, são os seguintes:
aqueles que sempre foram simples, inocentes, felizes, sem rancor mútuo, sempre
satisfeitos com os servos de Deus e revestidos com o santo espírito dessas
virgens, sempre cheios de compaixão para com todos os homens e, graças a seus
esforços, puderam socorrer a todos, sem altivez e sem hesitação. O Senhor,
vendo sua simplicidade e candura, multiplicou o fruto do trabalho de suas mãos
e os favoreceu em todas as ações. Eu, o anjo da penitência, digo a vós que
assim sois: permanecei assim, e vossa descendência jamais será destruída. Com
efeito, o Senhor vos experimentou e vos inscreveu no número dos nossos, e toda
a vossa posteridade habitará com o Filho de Deus, pois recebestes do seu
Espírito."
CAPÍTULO 102
"Os fiéis que vieram da
oitava montanha, cheia de fontes, nas quais ia beber toda a criação do Senhor,
são os seguintes: apóstolos e doutores que anunciaram no mundo inteiro e que
ensinaram, com santidade e pureza, a palavra do Senhor. Não se deixaram de modo
algum desviar por paixão má, mas sempre caminharam na justiça e na verdade,
conforme o Espírito Santo que receberam. O lugar desses homens é ao lado dos
anjos."
CAPÍTULO 103
"Os fiéis que vieram da nona
montanha, repleta de répteis e feras que causam a morte do homem, são os
seguintes: aqueles que têm manchas são diáconos que administraram mal a sua
função, roubando a subsistência de viúvas e órfãos Enriqueceram-se com os
recursos que receberam para socorrer. Se continuarem nessa ambição, já estão mortos
e não têm mais nenhuma esperança de viver. Contudo, se fizerem penitência e
desempenharem retamente seu ministério, poderão viver. Os que têm sarna são
aqueles que renegaram seu Senhor e não se converteram a ele. Tornando-se áridos
e solitários, não se vinculam aos servos de Deus, mas vivem isolados e perdem a
vida. A vinha abandonada em alguma parte degenera por falta de cuidados;
sufocada pelas ervas daninhas, com o tempo ela se torna selvagem, e seus frutos
não são mais úteis para o seu dono. Da mesma forma, esses homens, abandonados a
si mesmos, tornam-se selvagens e inúteis para o seu Senhor. Eles ainda podem
fazer penitência, se não tiverem de coração renegado o Senhor; contudo, se
alguém o tiver renegado de coração, não sei se poderá viver. O que digo não
vale para o tempo presente, de modo que alguém o negue e faça penitência. Para
aqueles que o renegaram no passado é que parece haver possibilidade de
penitência. Portanto, se alguém quiser fazer penitência, que a faça logo, antes
que a torre esteja terminada. Caso contrário, será morto pelas mulheres. Os
mutilados são os espertos e maledicentes; eles são as feras que viste na
montanha. Essas feras, com seu veneno, matam e destroem o homem. Da mesma
forma, as palavras dessas pessoas envenenam o homem e o fazem morrer. Eles
estão mutilados na fé, por causa da conduta que assumem. Alguns fizeram
penitência e foram salvos; os outros, sendo como são, podem ser salvos, se se
arrependerem. Se não fizerem penitência, morrerão vitimados pelas mulheres, das
quais têm o poder."
CAPÍTULO 104
"Os fiéis que vieram da
décima montanha, onde as arvores abrigavam ovelhas, são os seguintes: bispos e
pessoas hospitaleiras, que sempre receberam com prazer os servos de Deus em sua
casa, sem nenhuma hipocrisia. Os bispos, com seu ministério, continuamente
protegeram os necessitados e as viúvas, e sempre levaram vida pura. Eles serão,
por sua vez, protegidos pelo Senhor, para sempre. Os que assim agiram são
gloriosos junto de Deus; seu lugar já é junto com os anjos, se perseverarem até
o fim no serviço ao Senhor.
CAPÍTULO 105
"Os fiéis que vieram da
décima primeira montanha, cujas árvores estavam cheias de frutos de várias
espécies, são os seguintes: homens que sofreram por causa do nome do Filho de
Deus, que sofreram corajosamente, de todo o coração, entregando a própria
vida." Eu perguntei: "Senhor, por que todas essas árvores têm frutos
e, algumas delas, frutos mais belos?" Ele respondeu: "Escuta. Todos
aqueles que sofreram por causa do Nome são gloriosos junto de Deus. Os pecados
de todos eles foram perdoados, porque sofreram por causa do nome do Filho de
Deus. Escuta, porém, por que os frutos deles são variados, e alguns deles
melhores. Aqueles que foram arrastados diante das autoridades, submetidos a
interrogatórios e não renegaram, mas sofreram corajosamente, são muito mais
gloriosos junto do Senhor, e o fruto deles é o melhor. Aqueles, porém, que
tremeram e hesitaram e interrogavam no coração se renegariam ou confessariam, e
sofreram, esses levam frutos inferiores, por lhes ter entrado essa intenção no
coração. Com efeito, é má intenção um servo renegar seu próprio Senhor. Vigiai,
portanto, vós que tendes essa intenção, para que ela não permaneça em vosso
coração, e morrais para Deus. Vós que sofreis por causa do Nome deveis
glorificar a Deus, por vos ter julgado dignos de levar seu nome e ser curados
de todos os vossos pecados. Felicitai-vos, portanto, e crede também que
realizastes grande obra, quando algum de vós sofrer por causa de Deus. O Senhor
vos agracia com a vida, e vós não compreendeis. De fato, os vossos pecados se
tornaram pesados, e se não sofrêsseis pelo nome do Senhor, estaríeis mortos
para Deus por causa de vossos pecados. Digo isso a vós que hesitais em negar ou
confessar. Confessai que tendes um Senhor, pois, se o negardes, sereis
entregues à prisão. Se os pagãos punem o escravo que renega seu senhor, o que
pensais que fará convosco o vosso Senhor, que tem poder sobre todas as coisas?
Afastai esses desejos de vossos corações, a fim de viver eternamente para
Deus."
CAPÍTULO 106
"Os fiéis que vieram da
décima segunda montanha, a branca, são os seguintes: são como crianças
pequeninas, em cujo coração não entra maldade nenhuma. Eles nem sequer sabem o
que é o mal, e sempre permaneceram na inocência. Tais homens certamente
habitarão no Reino de Deus, pois em nada violaram os mandamentos de Deus, mas
perseveraram todos os dias de sua vida na inocência e no mesmo sentimento.
Todos vós que assim perseverardes e fordes sem malícia, como crianças pequenas,
sereis mais gloriosos do que todos os anteriores. Com efeito, todas as crianças
são gloriosas diante de Deus e os primeiras diante dele. Felizes, portanto,
sereis vós, se arrancardes de vós mesmos o mal e vos revestirdes da inocência,
pois sereis os primeiros de todos a viver em Deus." Depois que ele
terminou (de explicar) as parábolas a respeito das montanhas, eu lhe pedi:
"Senhor, explica-me agora o que são as pedras tiradas da planície e
colocadas no lugar das pedras que foram tiradas da torre, e também as pedras
redondas que foram colocadas na construção, e aquelas que ainda são
redondas."
CAPÍTULO 107
Ele respondeu: "Escuta
também o sentido de todas essas coisas. As pedras tiradas da planície e que
entraram na construção da torre, no lugar das pedras que foram tiradas, são as
raízes dessa montanha branca .2Como os fiéis que vieram dessa montanha branca
foram todos encontrados inocentes, o Senhor da torre mandou empregar, na
construção da torre, pedras que vieram das raízes dessa montanha. De fato, ele sabia
que se essas pedras entrassem na construção da torpe, elas permaneceriam
brilhantes, e nenhuma delas escureceria. Se ele tivesse acrescentado pedras
vindas de outras montanhas ter-lhe-ia sido necessário examinar e purificar a
torre novamente. Estes, porém, foram encontrados brancos, tanto os que creram,
como os que creriam, pois eles pertencem à mesma geração. Feliz essa geração,
pois ela é inocente! Escuta agora o que se refere às pedras redondas e
brilhantes. Elas vêm todas dessa montanha branca. Escuta, porém, por que foram
encontradas redondas. Suas riquezas os obscureceram um pouco na verdade e os
ofuscaram; porém, nunca se afastaram de Deus, nem saiu palavra má, de sua boca,
mas sempre a eqüidade e a virtude da verdade. Vendo, pela mente deles, que
poderiam servir à verdade permanecendo bons, o Senhor mandou cortar suas
riquezas, sem as tirar de todo, para que pudessem fazer algum bem com o que
lhes restava. Essas pessoas viverão em Deus, porque são de índole boa. E por
isso que essas pedras foram cortadas ligeiramente, e depois colocadas na
construção dessa torre."
CAPÍTULO 108
"Quanto às outras, que até
agora se conservaram redondas e não foram ajustadas à construção, porque não
tinham ainda recebido o selo, foram recolocadas em seu lugar; de fato, foram
encontradas demasiadamente redondas. É preciso cortá-los deste século e da
vaidade de suas riquezas, e então se adaptarão ao Reino de Deus. De fato, é
necessário que eles entrem no Reino de Deus, pois o Senhor abençoou essa
geração inocente. Dessa geração, ninguém perecerá. Pode ser que alguém deles,
seduzido pelo diabo infame, cometa algum pecado e imediatamente recorra a seu
Senhor. Eu, o anjo da penitência, vos julgo todos felizes. Sois inocentes como
as crianças, pois vossa herança é boa e honrada diante de Deus. Digo a todos
vós, que recebestes esse selo: sede simples, esquecei as ofensas, não
permaneçais em vossa malícia ou na lembrança amarga das ofensas. Tende um só
espírito, remediai e tirai de vós essas más divisões, a fim de que o Senhor das
ovelhas se alegre com isso. Ele ficará contente, se encontrar todas as suas
ovelhas, e nenhuma transviada. Ai, porém, dos pastores, se ele encontrar
transviada alguma delas. Se os próprios pastores forem encontrados desviados, o
que poderão dizer ao Senhor do rebanho? Poderão talvez dizer que foram
desviados pelas ovelhas? Não se dará crédito a eles, pois é incrível que o
pastor sofra alguma coisa por parte das ovelhas. Será mais gravemente punido
por causa de sua mentira. Eu também sou pastor, e é preciso que eu preste
rigorosamente conta de vós."
CAPÍTULO 109
"Curai-vos, portanto,
enquanto a torre ainda está em construção. O Senhor habita nos homens que amam
a paz, pois de fato a paz lhe é agradável, e ele se afasta para bem longe dos
que brigam e dos que se perderam pela malícia. Devolvei-lhe, portanto, o espírito
íntegro, como o recebestes. Se entregas ao lavadeiro uma roupa nova e intacta,
esperas recebê-la de volta intacta. Se o lavadeiro te devolver a roupa rasgada,
tu a receberás? Não te irritarás e o perseguirás com reprovação, dizendo:
"Eu te entreguei uma roupa intacta. Por que a rasgaste, tornando-a inútil?
Por causa do rasgão que nela fizeste, agora não pode ser mais usada." Não
dirás tudo isso ao lavadeiro, por causa do rasgão que ele fez em tua roupa? Se
ficas aborrecido assim com a tua roupa e te lamentas, por não tê-la recebido
intacta, o que julgas que te fará o Senhor, que te deu espírito intacto, e tu o
devolves completamente inútil, a ponto de não servir para mais nada ao teu
Senhor? De fato, ele se tornou inútil, desde o dia em que o corrompeste. O
Senhor desse espírito não te fará morrer por teres feito isso?" Eu
respondi: "Certamente. Ele tratará assim todos aqueles que conservarem o
rancor." Ele concluiu: "Não calceis nos pés a clemência dele, mas
glorificai-o por ser tão paciente frente aos vossos pecados e por não ser
semelhante a vós. Fazei, portanto, penitência útil para vós."
CAPÍTULO 110
Eu, o pastor, o anjo da
penitência, mostrei e expliquei aos servos de Deus todas essas coisas, que
estão acima escritas. Portanto, podereis viver se acreditardes e ouvirdes as
minhas palavras, se caminhardes nelas e corrigirdes os vossos caminhos. No
entanto, se permanecerdes na malícia e no rancor, não vivereis em Deus. Tudo o
que devia dizer, eu vos disse. Então o pastor me disse: "Fizeste-me todas
as perguntas?" Eu respondi: "Sim, senhor." (Então ele me
perguntou:) "Por que não me perguntaste sobre a forma das pedras
recolocadas na construção, das quais melhoramos as formas?" Eu respondi:
"Senhor, eu esqueci." Ele explicou: "Escuta agora sobre elas. São
aqueles que ouviram os meus mandamentos e fizeram penitência de todo o coração.
Tendo visto que a penitência deles era boa e pura, e que podiam nela
perseverar, o Senhor mandou apagar seus pecados anteriores. Aquelas formas eram
os pecados deles, e foram igualadas, para que não aparecessem mais."
DÉCIMA PARÁBOLA
CAPÍTULO 111
Quando terminei de escrever este
livro, o anjo que me confiara a esse pastor, veio à casa onde eu me encontrava,
e sentou sobre o leito. O pastor apareceu de pé à direita. Então o anjo me
chamou, e disse: "Eu te confiei a esse pastor a ti e à tua casa, para que
fosses protegido por ele." Eu respondi: "Sim, senhor." Ele
continuou: "Se queres, portanto, ser protegido de toda tribulação e
violência, ter sucesso em toda boa obra e palavra, e ter toda a virtude da
eqüidade, caminha nos seus mandamentos que te dei, e poderás dominar todo mal.
Com efeito, se guardares os seus mandamentos, toda ambição e delícias deste
mundo serão dominadas, e o sucesso te acompanhará em toda boa obra. Acolhe em
ti a sua santidade e a sua modéstia e dize a todos que ele goza de grande honra
e dignidade junto ao Senhor. Ele detém grande poder, e a sua função é forte.
Somente a ele foi conferido o poder da penitência para o mundo inteiro. Não te
parece poderoso? Mas vós desprezais a sua santidade e moderação, que ele tem
para convosco."
CAPÍTULO 112
Eu disse: "Senhor, pergunta
ao pastor se eu fiz alguma coisa errada desde que ele está em minha casa."
O anjo respondeu: "(quanto a mim, sei que não fizeste nada de errado e que
também não o farás. Eu te digo isso para que perseveres. O pastor disse-me que
tem boa impressão de ti. Quanto a ti, transmitirás essas palavras aos outros,
para que aqueles que fizeram ou estão para fazer penitência, tenham os mesmos sentimentos
que tu. Dessa forma, o pastor falará bem deles para mim, e eu ao Senhor."
Eu disse: "Senhor, de minha parte mostrarei a todo homem as grandezas do
Senhor. E espero que todos os que outrora pecaram, ao ouvirem essas coisas,
façam espontaneamente penitência, para recuperar a vida." Ele me disse:
"Permanece nessa missão, realizando-a até o fim. Todos aqueles que
praticam os mandamentos do pastor, terão vida e grande honra junto ao Senhor.
Por outro lado, todos aqueles que não observam seus mandamentos, afastam-se da
vida e desprezam o pastor. No entanto, o pastor, tem a sua honra junto de Deus.
Todos aqueles que o desprezam e não observam seus mandamentos, se entregam à
morte, e cada um deles se torna réu do seu próprio sangue. Digo-te mais uma
vez: coloca-te a serviço desses mandamentos e terás o remédio para os seus
pecados."
CAPÍTULO 113
"Eu te enviei essas virgens,
para que habitem contigo; percebi que são afáveis contigo. Tu as tens como
auxiliares, de modo que possas observar melhor os mandamentos do pastor. Não é
possível observar esses mandamentos, sem essas virgens. Vejo, porém, que elas
estão contigo de boa vontade; mas ordenei-lhes que de modo algum se afastem de
tua casa. Apenas limpa bem a tua casa, pois elas habitarão com prazerem casa limpa.
Elas são limpas e castas, ativas, e todas gozam de grande crédito junto ao
Senhor. Portanto, se encontrarem tua casa limpa, permanecerão contigo. Se
houver, porém, alguma coisa poluída, imediatamente elas deixarão tua casa, pois
essas virgens não gostam de nenhum tipo de poluição." Eu lhe respondi:
"Senhor, espero poder agradar-lhes, de modo que elas habitem sempre em
minha casa de boa vontade. O pastor, a quem me confiaste, não se queixa de mim;
elas também não se queixarão de mim." O anjo disse ao pastor: "Vejo
que o servo de Deus quer viver, que guardará esses mandamentos, e instalará as
virgens numa casa limpa." Tendo dito isso, confiou-me de novo ao pastor,
chamou as virgens e lhes disse: "Como estou vendo que habitais com satisfação
na casa desse homem, eu vo-lo recomendo, tanto a ele como à sua casa, para que
não vos afasteis da casa dele". Elas, por sua vez, ouviram com prazer
essas palavras.
CAPÍTULO 114
Em seguida, ele me disse:
"Sê forte nesse ministério, mostra a todos os homens as grandezas do
Senhor, e alcançarás a graça nesse ministério. Todo aquele que se comportar
conforme esses mandamentos, viverá, e será feliz em sua vida. Por outro lado,
quem os deixar à margem, não viverá, e será infeliz em sua vida. Dize a todos
que não deixem de fazer tudo o que puderem praticar de bom, porque praticar
boas obras é útil para eles. Digo também que é necessário arrancar da miséria
todo homem. O necessitado e que sofre revezes em sua vida cotidiana está em
grande tormento e angústia. Aquele, pois, que livrar uma pessoa da necessidade,
adquire para si uma grande alegria. Com efeito, quem se encontra na miséria,
sofre o mesmo tormento e as mesmas torturas que alguém que está na prisão.
Muitos, não podendo suportar essas calamidades, se suicidam. Aquele, portanto,
que conhece a miséria de tal homem e dela não o retira, comete grande pecado e
se torna réu do sangue dele. Fazei, portanto, boas obras, todos vós que
recebestes bens do Senhor, para que a construção da torre não termine, enquanto
tardais em praticá-las. E por vossa causa que os trabalhos da construção foram
interrompidos. Portanto, se não vos apressais em agir bem, a torre será
terminada, e vós sereis excluídos dela." Quando ele terminou de falar
comigo, o anjo se ergueu do leito e, tomando consigo o pastor e as virgens,
retirou-se. Disse-me, porém, que me enviaria de novo o pastor e as virgens à
minha casa.