SERMÃO
DA VIGÍLIA DA PÁSCOA
Autor: Santo Agostinho de Hipona
Fonte: Livro"Antologia dos Santos Padres"
Tradução: Cirilo Folch Gomes
(Fonte:
Agnus Dei)
O bem-aventurado apóstolo Paulo,
exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o
seguinte: "freqüente nas vigílias" [2Cor 11,27].
Com quanto maior júbilo não devemos
também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias,
e na qual o mundo todo vigia?
Não o mundo, do qual está escrito:
"Se alguém amar o mundo, nele não está a caridade do Pai, pois tudo o que
há no mundo é concupiscência dos olhos e ostentação do século, e isto não
procede do pai" [1Jo 2,15].
Sobre tal mundo, isto é, sobre os
filhos da iniqüidade, reinam o demônio e seus anjos. E o Apóstolo diz que é
contra estes que se dirige a nossa luta: "Não contra a carne e o sangue
temos de lutar, mas contra os principados e as potestades, contra os
dominadores do mundo destas trevas" [Ef 6,12].
Ora, maus assim fomos nós também, uma
vez; agora, porém, somos luz no Senhor. Na Luz da Vigília resistamos, pois, aos
dominadores das trevas.
Não é, portanto, esse o mundo que vigia
na solenidade de hoje, iras aquele do qual está escrito: "Deus estava
reconciliando consigo o mundo, em Cristo, não lhe imputando os seus
pecados" [2Cor 5,19].
E é tão gloriosa a celebridade desta
vigília, que compele a vigiarem na carne mesmo os que, no coração, não digo
dormirem, mas até jazerem sepultos na impiedade do tártaro. Vigiam também eles
esta noite, na qual visivelmente se cumpre o que tanto tempo antes fora
prometido: "E a noite se iluminará como o dia" [Sl 138,12].
Realiza-se isto nos corações piedosos, dos quais se disse: "Fostes outrora
trevas, mas agora sois luz no Senhor". Realiza-se isto também nos que
zelam por todos, seja vendo-os no Senhor, seja invejando ao Senhor. Vigiam,
pois, esta noite, o mundo inimigo e o mundo reconciliado. Este, liberto, para
louvar o seu Médico; aquele, condenado, para blasfemar o seu juiz. Vigia um,
nas mentes piedosas, ferventes e luminosas; vigia o outro, rangendo os dentes e
consumindo-se. Enfim, ao primeiro é a caridade que lhe não permite dormir, ao
segundo, a iniqüidade; ao primeiro, o vigor cristão, ao segundo o diabólico.
Portanto, pelos nossos próprios inimigos sem o saberem eles, somos advertidos
de como devamos estar hoje vigiando por nós, se por causa de nós não dormem
também os que nos invejam.
Dentre ainda os que não estão
assinalados com o nome de cristãos, muitos são os que não dormem esta noite por
causa da dor, ou por vergonha. Dentre os que se aproximam da fé, há os que não
dormem por temor. Por motivos vários, pois, convida hoje à vigília a solenidade
(da Páscoa), Por isso, como não deve vigiar com alegria aquele que é amigo de
Cristo, se até o inimigo o faz, embora contrariado? Como não deve arder o
cristão por vigiar, nessa glorificação tão grande de Cristo, se até o pagão se
envergonha de dormir? Como não deve vigiar em sua solenidade, o que já
ingressou nesta grande Casa, se até o que apenas pretende nela ingressar já
vigia?
Vigiemos, e oremos; para que tanto
exteriormente quanto interiormente celebremos esta Vigília. Deus nos falará
durante as leituras; falemos-lhe também nós em nossas preces. Se ouvimos
obedientemente as suas palavras, em nós habita Aquele a quem oramos.