TRATADO SOBRE A TRINDADE
(ou: "Como a Trindade é um Deus e não três deuses")
Boécio
Introdução
Pesquisei por muitíssimo tempo a
questão da Trindade, até onde podem as forças da pequena chama da mente, que a
luz de Deus se dignou conceder-nos.
Tendo chegado a estruturar os
argumentos e a redação, submeto-os a ti (Quintus Aurelius Memmius Symmachus, o sogro), pois anseio pelo teu abalizado juízo,
tanto quanto pelas próprias descobertas de minha diligente pesquisa.
Bem poderás compreender o que sinto
todas as vezes que confio à pena meus pensamentos: seja pela própria
dificuldade do tema, seja pela escassez de interlocutores: na verdade és o único capaz de entendê-los e o único com quem os
discuto.
Não escrevo por desejo de fama
nem pelo vão aplauso do vulgo; se houver algum fruto externo não pode ser outro
que esperar o teu juízo sobre o assunto tratado. Pois, excetuando a ti, para
onde quer que eu olhe só vejo, por um lado, a pasmaceira ignorante e, por
outro, a inveja astuta, de modo que pareceria um insulto aos tratados de
teologia submetê-los a esses brutos que, mais do que interessar-se por
aprendê-los, calcá-los-iam aos pés.
Assim, serei conciso, e o que
extraí do fundo da Filosofia encobrirei sob palavras novas que falam só a ti e
a mim, se te dignares a olhar para elas; quanto aos demais, eles não nos
interessam: não podem chegar a compreendê-las e não são dignos de lê-las.
Certamente, devemos pesquisar até
onde for dado ao olhar da razão humana ascender às alturas do conhecimento da
divindade. Pois também nas outras disciplinas há limites além dos quais a razão não pode chegar. A Medicina nem sempre traz a
saúde ao doente e a culpa não será do médico, se tiver feito tudo o que estava
ao seu alcance. E o mesmo vale para os outros conhecimentos.
No caso do presente estudo, tanto
mais benevolente deve ser o julgamento, quanto tão mais difícil é a questão. No
entanto, tu examinarás se as sementes lançadas em mim pelos escritos de S.
Agostinho produziram seus frutos. Mas comecemos a discussão da questão
proposta.
I
Há muitos que usurpam a dignidade
da religião cristã, mas a fé que é válida principal e exclusivamente é aquela
que, tanto pelo caráter universal de seus preceitos - que dão a medida da autoridade da religião -, quanto pelo seu culto,
se espalhou por quase todo o mundo e é chamada católica ou universal. Dessa fé,
a sentença da unidade da Trindade é: "O Pai é Deus, o Filho é Deus, o
Espírito Santo é Deus". E, portanto, Pai, Filho e Espírito Santo são um deus e não três deuses.
A razão de sua unidade é a
ausência de diferença: e na diferença incorrem aqueles que aumentam ou diminuem
a Unidade, como os arianos que, atribuindo graus de dignidade à Trindade,
desfazem a unidade e caem na pluralidade.
Pois o princípio da pluralidade é
a alteridade: fora da alteridade nem sequer pode ser entendida a pluralidade.
Pois a diferença entre três (ou qualquer número de) coisas reside no gênero, na
espécie ou no número.
O número de modos de igualdade
acompanha o de diversidade. Ora, a igualdade pode se dar de três modos:
1) pelo gênero: como são iguais
quanto ao gênero (animal) o homem e o cavalo;
2) pela espécie: como Catão e Cícero são iguais quanto à espécie (homem);
3) pelo número: como Túlio e
Cícero são um e o mesmo.
Do mesmo modo, a diversidade
também se dá pelo gênero ou pela espécie ou pelo número. Mas a diferença pelo
número se dá pela variedade de acidentes. Pois três homens não diferem pelo
gênero, nem pela espécie, mas pelos seus acidentes. E se nós mentalmente retiramos
deles todos os demais acidentes, cada um, no entanto, continua ocupando um
lugar diferente e de modo algum podemos supô-los num mesmo e único lugar, pois
dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar. Ora, o lugar é um dos acidentes. E
assim, porque são plurais em seus acidentes, são plurais em número.
II
Trata-se, pois, de adentrar, e
examinar com atenção cada ponto para que possamos entender e captar; pois, como
muito bem se disse: "ao erudito compete tratar de captar a sua fé, tal
como na realidade ela é".
Ora, são três as ciências
especulativas: a Física, que está em movimento e não é abstrativa ou separável
- anypexairetos - não abstrai o movimento, pois
considera as formas dos corpos com matéria, formas que em ato não se podem
separar dos corpos. E os corpos, estando em movimento, a
forma, unida à matéria, tem movimento: com a terra, tendem para baixo;
com o fogo, para cima. A Matemática, está sem
movimento e não é abstrativa, pois ela estuda as formas dos corpos sem a
matéria e, por isso, sem movimento. Porém essas formas, em união com a matéria,
não podem separar-se dela. A Teologia, está sem
movimento e é abstrativa, pois a substância de Deus carece de matéria e de
movimento.
Das três ciências, a Física
trabalha racionalmente (rationabiliter); a
Matemática, disciplinarmente (disciplinaliter) e a
Teologia, intelectualmente (intellectualiter): : pois não se trata aqui de lidar com imagens, mas antes
de olhar para a forma que é, não imagem, mas verdadeira forma: ela mesma é e é
por ela que o ente é .
Pois tudo é pela forma. Uma
estátua se constitui como tal e se diz efígie de ser vivo, não pelo bronze, que
é matéria, mas pela forma nela esculpida. E, do mesmo modo, o próprio bronze é
bronze não pela terra que é sua matéria, mas pela forma. E mesmo a própria
terra não é terra por ser matéria informe (apoion hylen), mas por causa da secura e do peso que são formas.
Não há nada, pois, que seja o que é pela matéria, mas sempre pela forma
própria.
Ora, a divina substância é forma
sem matéria e, portanto, é Um e é o que é. Qualquer outro ente não é o que é,
pois, cada ente tem seu ser das partes de que está constituído, da conjunção de
suas partes: mas não tal e tal tomadas separadamente.
Por exemplo, o homem na condição presente consiste em corpo e alma, é corpo e alma, não corpo ou alma separadamente e, portanto,
não é o que é. Aquele, porém, que não é composto disto e daquilo, mas é
simplesmente isto, esse verdadeiramente é o que é, e é belíssímo
e poderosíssimo porque em nada se assenta.
Daí que Ele seja verdadeiro Um,
no qual não há número nem nada que não seja o que é. Nem pode tornar-se
substrato de algo, pois é forma e as formas não po- dem
ser substratos. Pois o que nas outras formas é substrato para os acidentes,
como por exemplo a hominalidade,
não recebe os acidentes pelo fato de ela mesma ser, mas sim pela matéria que
lhe está sujeita. Assim, quando a matéria sujeita à hominalidade
recebe um acidente qualquer, parece que é a própria hominalidade
que o assume.
Já a forma que é sem matéria não
pode ser substrato, nem nela inerir matéria, senão
não seria forma, mas imagem. Pois da forma que está à margem da matéria
procedem as que estão na matéria e produzem o corpo. É, pois, um abuso de
linguagem que cometemos quando chamamos formas o que são imagens, somente
assemelham-se à forma que não está constituída em matéria: nEle nada há de diversidade; nem de pluralidade
decorrente da diversidade, nem de multiplicidade decorrente de acidentes; e daí
que tampouco haja número.
III
Assim, Deus não difere de Deus a
título algum, pois não há diversidade de sujeitos por diferenças acidentais ou
substanciais. Onde, pois, não há diferença, não haverá pluralidade alguma, e
daí tampouco número, mas somente unidade. E quando dizemos três vezes Deus e dizemos
Pai, Filho e Espírito Santo, estas três unidades não
fazem pluralidade numérica naquilo que elas mesmas são, se consideramos a
própria realidade numerada e não o modo pelo qual numeramos. Neste caso, a
repetição de unidades produz pluralidade numérica; quando, porém, se trata da
consideração da realidade numerada, a repetição da unidade e o uso plural não
produzem de modo algum diferença numérica nas realidades.
Pois há dois tipos de números:
um, pelo qual numeramos; outro, que consiste nas
coisas numeráveis. Assim, dizemos um para a coisa real; enquanto unidade
designa aquilo pelo que dizemos que algo é um. Assim também dois pode
referir-se à realidade - como, por exemplo, homens ou pedras -, mas dualidade
não: dualidade refere-se somente àquilo por que se constituem dois: homens ou
pedras. E assim também para os outros números.
Portanto, no caso do número pelo
qual numeramos, a repetição da unidade faz pluralidade; nas coisas, porém, a
repetição de unidades não produz número, como por exemplo
se da mesma e única coisa eu dissesse: "uma espada, um gládio, uma
lâmina". Podemos referir-nos a essa realidade com um único vocábulo,
"espada", e a repetição de unidades (palavras) não é uma numeração:
se dizemos "espada, gládio, lâmina" é uma reiteração e não uma
enumeração de diversos; do mesmo modo, quando repito: "sol, sol, sol"
não se trata de três sóis, mas de um só.
Assim, pois, se se predica do Pai, Filho e Espírito Santo três vezes Deus,
a predicação tríplice não constitui número plural. Este é, pois, como dissemos, o perigo daqueles que fazem distinção por
dignidade entre os três. Nós, os católicos, porém, não admitimos nenhuma
diferença no que constitui a própria forma e afirmamos não ser Ele outra coisa
que aquele que é. E para esta doutrina, dizer: "Deus Pai, Deus Filho, Deus
Espírito Santo, e esta Trindade é um só Deus", é tal como dizer: "uma
espada, um gládio, uma lâmina" ou "sol, sol, sol: um sol".
Com o que até aqui dissemos,
procuramos deixar claro que nem toda repetição de número produz pluralidade.
Quando, porém, dizemos, "Pai e Filho e Espírito Santo" não estamos
usando sinônimos diversos como seria o caso de "espada" e
"gládio", que são iguais e idênticos.
Pois Pai, Filho
e Espírito Santo, são iguais, mas não são o mesmo. Este ponto merece um
pouco de atenção. A quem pergunta: "É o Pai o próprio Filho?", respon-demos: "De modo
algum". E: "É um o mesmo que o outro?", novamente:
"Não!".
Não há, pois, entre eles - sob um
determinado aspecto - uma total indiferença em todos os aspectos; e assim
pode-se falar em número que, como explicamos acima, procede da diversidade de sujeitos.
Discutiremos brevemente esse determinado aspecto, depois de termos examinado
como é que se predica de Deus.
IV
Há ao todo dez categorias que
podem ser universalmente predicadas de todas as coisas: substância, qualidade,
quantidade, relação, lugar (onde), tempo (quando), condição, situação,
atividade e passividade.
Elas são determinadas pelo
sujeito a que se referem: parte delas - quando se aplicam a
outras coisas que não Deus -, referem-se à substância; parte, aos
acidentes. Quando, porém, estas categorias são aplicadas à divindade, todas
elas se tornam substanciais. Quanto à relação, ela não pode de modo algum ser
predicada de Deus, pois a substância nEle
não é propriamente substância, mas ultra-substância. Também não podem ser
predicadas de Deus a qualidade e as demais categorias, das quais vamos dar
exemplos para melhor compreensão.
Ao dizermos "Deus",
aparentemente estamos designando uma certa substância,
mas, na verdade, aquela que é ultra-substância; ao dizermos "justo"
(aplicado a Deus), referimo-nos a uma qualidade, mas não à qualidade acidental,
e sim à própria substância ou ultra-substância. Pois em Deus não é uma coisa
ser, e outra ser justo, mas é-Lhe idêntico ser Deus e
ser justo. E quando dizemos "grande ou o
maior" parece que nos estamos referindo a uma determinada quantidade; mas,
no caso, é à própria substância ou, como dissemos, ultra-substância: para Deus
é o mesmo ser e ser grande. E quanto à sua forma, já mostramos acima como Ele é
Forma e certamente Um e excluindo toda pluralidade.
Mas essas categorias são tais que
dão à coisa a que se aplicam o caráter que expressam:
nas coisas criadas, a divisão; em Deus, porém, apresentam-se conjugadas e
unidas: quando dizemos "substância" (aplicada por exemplo a homem ou
Deus) é como se aquilo de que predicamos fosse ele mesmo substância, como
substância "homem" ou "Deus". Na verdade, porém, não é a
mesma coisa: o homem não realiza em si a totalidade do ser humano, e por isso
não é substância; o que ele é, deve-o a outras coisas
que não são homem. Deus, porém, é o próprio Deus; não é outra coisa senão
"o que é" e, por isso, é Deus mesmo.
E assim também quando dizemos
"justo", que é uma qualidade, dizemos como predicação do sujeito,
isto é, se dizemos: "homem justo" ou "Deus justo", afirmamos
que o próprio homem ou o próprio Deus são justos. Porém, uma coisa é o homem; e
outra, o homem justo; enquanto Deus Ele mesmo é o que é justo.
"Grande" também se diz
do homem ou de Deus como se fosse a mesma coisa dizer
"homem grande" ou "Deus grande"; na verdade, porém, o homem
pode até ser grande; mas Deus é, Ele mesmo, o próprio grande.
Quanto às outras categorias,
também elas não podem ser predicadas de Deus nem (substancialmente) dos outros
entes. Pois o lugar não se pode predicar do homem nem de Deus: do homem se diz
que está na praça; de Deus, que está em toda a parte; mas não como se fosse o
mesmo a coisa e o que dela se predica. Pois dizer que o homem está na praça é
totalmente diferente do que afirmar seu modo de ser, por exemplo, branco ou alto
ou qualquer propriedade que, por assim dizer, o circunscreva e determine e pela
qual se possa descrevê-lo
Com Deus, porém, não é assim,
pois "estar em toda parte" não significa que esteja
em cada lugar (Ele absolutamente não pode estar num lugar), mas que cada lugar
é-Lhe presente para ocupar, embora Ele não possa ser recebido espacialmente e,
por isso, não se diz que ele esteja situado em lugar algum porque está em toda
parte, mas não alocado.
O mesmo se dá com o
"quando", a categoria de tempo: tal homem veio ontem; Deus é sempre.
Quando se predica o "vir ontem", aqui, novamente, não se diz algo
sobre o homem em si, mas o que lhe sucedeu no tempo. Já o que se diz de Deus,
"sempre é", significa um contínuo presente que abarca todo o passado
e todo o futuro. Os filósofos dizem que isso pode ser também afirmado do céu e
de outros corpos imortais, mas, mesmo assim, não do mesmo modo que de Deus.
Pois Ele é sempre porque "sempre" é para Ele presente: e há uma
grande diferença entre o nosso "agora", que é do tempo que corre, e a
sempiternidade: o "agora" divino permanece, não corre, e consistindo, faz a eternidade. Junta
eternidade e sempre, e terás o agora perene e incessante e, portanto, o
transcurso perpétuo que é a sempiternidade.
Também são válidas essas
considerações para as categorias condição e atividade; pois dizemos do homem:
"ele, vestido, corre", e de Deus: "Ele, possuidor de todas as
coisas, governa". Aqui também não se diz nada do ser de ambos e essas são
predicações exteriores; e todas as categorias até agora tratadas referem-se a
outras dimensões que não à substância.
A diferença entre um e outro caso
é fácil de perceber: "homem" e "Deus" referem-se à
substância pela qual o sujeito é algo: homem ou Deus; "justo"
refere-se a uma qualidade pela qual o sujeito é algo, a saber: justo;
"grande", à quantidade pela qual ele é algo: grande. Já com as demais
categorias isto não se dá: quando se diz que alguém está na praça ou em toda a
parte, referimo-nos à categoria lugar, que não faz com que o sujeito seja algo,
como pela justiça ele é justo.
O mesmo ocorre quando se diz
"ele corre" ou "governa" ou "é agora" ou "é
sempre": nestes casos estamos expressando tempo ou atividade - se é que o
"sempre" divino pode-se encaixar em tempo -, mas não algo pelo qual é
algo, como pela magnitude se é grande. Quanto às categorias situação e
passividade nem precisamos ocupar-nos delas porque, claramente, sequer ocorrem
em Deus.
Já se tornam evidentes as
diferenças da predicação? Algumas categorias apontam para a coisa; outras, para
circunstâncias da coisa. Aquelas dizem que a coisa é algo; estas
, não incidem sobre o ser da coisa, mas sobre aspectos antes extrínsecos
que lhe são aderentes. As categorias que determinam de algum modo o ser de algo
chamam-se categorias segundo o ser; quando pressupõem
sujeito, são chamadas acidentes segundo o ser. Quando se trata de Deus, que de modo
algum é sujeito, só se pode falar de predicação segundo a substância.
V
Trata-se agora de examinar a
categoria relação, para cuja discussão valer-nos-emos
de tudo o que anteriormente foi tratado; a relação, mais do que qualquer outra
categoria, constitui-se por referência a outro e parece especialmente não ser
predicação relativa à coisa em si.
"Senhor" e
"servo", por exemplo, são relativos; examinemos se são predicados da
substância. Suprimindo o servo, suprime-se o senhor. Mas se suprimimos a brancura
não suprimimos alguma coisa branca, embora, certamente, ao suprimir a brancura
particular desta coisa branca suprimamos também conjuntamente a coisa. No caso
do senhor, se suprimimos a palavra "servo", destrói-se também a
palavra "senhor": não porque o senhor seja substrato do servo como a
coisa branca é substrato da brancura, mas sim porque se desfaz a relação (o
poder) que sujeitava o servo ao senhor. Já que o poder se desfaz ao suprimir-se
o servo, vê-se que o poder não é algo que per se esteja no senhor, mas é algo
extrínseco que lhe advém pela relação com os servos.
Não se pode, portanto, afirmar
que uma predicação de relação acresça, diminua ou altere de algum modo a coisa em si a que se refere. Pois a categoria relação não
diz respeito à coisa em si; ela simplesmente aponta uma condição de
relatividade (e não sempre ou necessariamente para outra substância mas às vezes para uma mesma).
Assim, suponhamos um homem
Essas categorias que não afetam a
coisa em si não podem mudar, alterar ou afetar de
nenhum modo sua essência. Daí que se Pai e Filho são termos de relação e, como
dissemos, não têm outra diferença que a de relação, e se a relação não é predi-cada daquele de quem se predica como se fosse o
próprio sujeito e qualidade sua, en-tão ela não
produzirá nenhuma alteridade de substância em seu sujeito mas
- numa frase dificilmente compreensível e que requer explicação - uma
alteridade de pessoas.
Pois é uma regra básica a de que
as distinções em realidades incorpóreas são estabelecidas por diferenças e não
por separação espacial. Não se pode dizer que Deus se tornou Pai pelo acréscimo
de algo; pois Ele nunca começou a ser Pai, já que a produção do Filho pertence
à sua própria substância; embora o predicado Pai, enquanto tal seja relativo. E
se nos lembramos de todas as proposições feitas sobre Deus na discussão prévia,
devemos admitir que Deus Filho procede de Deus Pai e
Deus Espírito Santo de ambos e que eles não podem ser espacialmente diferentes
por serem incorpóreos. Mas já que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito
Santo é Deus, e já que em Deus não há pontos de diferença que o distingam de
Deus, Ele não difere dEles.
Mas onde não há diferença, não há pluralidade; e onde não há pluralidade, há
unidade. E, novamente, nada senão Deus pode ser gerado por Deus e, na realidade
numerada, a repetição da unidade não produz pluralidade. E assim a unidade dos
três está convenientemente estabelecida.
VI
Mas, como toda relação sempre se
refere a outro, pois a predicação que se refere ao próprio sujeito é sem
relação, a numerosidade da Trindade é garantida pela categoria relação,
enquanto a unidade é preservada pelo fato de que não há diferen-ça
de substância ou de operação ou de qualquer predicado substancial. Assim, a subs-tância é responsável pela unidade e a relação faz a
Trindade. E assim, somente os termos referentes à relação podem ser aplicados
distintamente a cada um. Pois o Pai não é o mesmo que o Filho, nem cada um dos
dois é o mesmo que o Espírito Santo. Ainda que Pai, Filho e
Espírito Santo sejam o mesmo e único Deus, o mesmo em justiça, em
bondade, em grandeza e em tudo que pode ser predicado segundo o ser.
Não se deve esquecer que a
predicação de relatividade nem sempre envolve diferença (como servo para o
senhor). Porque o igual é igual ao igual, o semelhante é semelhante ao
semelhante, e o mesmo é o mesmo que o mesmo; e a relação do Pai para o Filho, e
de ambos para o Espírito Santo, é relação de igual para igual.
Uma tal
relação não será encontrada nas coisas criadas, mas isto é por causa do modo de
diferenciação que afeta as transitórias criaturas. Ao falar de Deus, porém, não
devemos deixar-nos guiar pela imaginação; mas pelo puro intelecto elevar-nos e
acometer o entendimento de tudo o que importa conhecer.
Mas já basta acerca da questão
proposta. Agora a acuidade da discussão aguarda o critério do teu julgamento: o
pronunciamento de tua autoridade sobre se discorri corretamente ou não. Se pela
graça de Deus apresentei argumentos para este ponto que se sustenta por si no
firmíssimo fundamento da fé, volto-me gozosamente em louvor, pela obra feita,
para Aquele de quem procede o efeito. Se, porém, a
natureza humana não logrou transcender seus limites naturais, valha pela
intenção o que tiver falhado pela fraqueza.
Fonte: www.ricardocosta.com
Tradução: Prof. Luiz Jean Lauand