Missa: missa
obrigatória, tem valor mesmo quando não sinto vontade?
Dom Estevão
Bettencourt, OSB
(Revista Pergunte e
Responderemos, PR 152/1972)
Em síntese: A S. Missa é
o sacrifício do Calvário perpetuada sobre os altares; Cristo
se oferece então com a sua Igreja ao Pai. Sem Missa não há Cristianismo, como não o há sem o Calvário. Por
isto é que a Igreja estabeleceu para
os seus fieis o preceito da Missa dominical. O Concílio do Vaticano II, longe de diminuir a importância
desta norma. valorizou de novo modo o
domingo e abriu novas possibilidades de participação da S. Missa : diversos estilos de celebração, horários dilatados, etc. A espontaneidade
com que o fiel católico vai a Missa no domingo, não é condição para que tal ato tenha valor e sentido; há
valores que exigem sacrifício e disciplina, mas nem por isto podem ser
menosprezados. De resto, a espontaneidade da
participação e a estima da S. Missa não podem faltar em quem tenha exata consciência do que é a Missa;
a pastoral deverá avivar tal consciência nos fieis, e lembrar-lhes que o Cristianismo só se vive plenamente em
contato com o Sacramento e a Comunidade.
O episcopado do Canadá publicou
recentemente uma Declaração sobre o assunto, que vai transcrita nas
paginas seguintes.
***
Resposta: É freqüente
indagar-se, entre fieis católicos, se a Missa aos
domingos (ou aos sábados de tarde) ainda é obrigatória. A
mentalidade aberta e compreensiva do Concilio do Vaticano II não dispensa o
cristão de lei tão minuciosa? E, que valor pode ter a Missa para quem a ela
assista constrangido e a contragosto?
Estas perguntas, decisivas na prática da catequese
e na formação das consciências, serão o objeto das reflexões que se seguem.
1 . Tem valor?
Para começar, leve-se em conta que pode haver
autênticos valores que custem sacrifícios; o próprio comer - condição indispensável à vida - pode ser penoso, de modo que o indivíduo
só se alimente vencendo fastio e
capricho. O tratamento da saúde, em geral, pode exigir dura disciplina.
Todavia nem por isto o bom senso o rejeita.
Apesar de praticado com sacrifício e
constrangimento, conserva pleno sentido e não deixa de ser obrigatório
para quem queira sobreviver; a “espontaneidade”,
no caso, não a critério decisivo.
Em conseqüência, vê-se que a freqüentação da S.
Missa aos domingos pode ter pleno sentido e valor mesmo quando o cristão não
“sinta vontade” de ir à igreja. O fato de, não obstante,
vencer-se e participar da Eucaristia é um testemunho de fé e de amor a Deus (testemunho que Deus reconhece e que o próprio individuo pode reconhecer). Em verdade,
o homem fala ao Senhor principalmente
pela inteligência e a vontade, que a
fé ilumina; a sensibilidade e os afetos são subordinados as faculdades superiores; por isto é que, mesmo
quando no plano afetivo o cristão se
sente indiferente e frio em relação aos valores religiosos, conservam pleno valor os atos que ele pratique em virtude da sua fé religiosa esclarecida. - Ademais
note-se que a pessoa que quisesse
seguir suas inclinações espontâneas - caprichosas
e volúveis como por vezes são - nunca se
desabrocharia nem realizaria algum ideal. Toda autentica personalidade
subordina suas tendências inatas a luz da
razão e da fé.
Logicamente então indagamos: em que consiste o
valor da Missa?
2. Missa, valor cuja
nobreza obriga.
1. Para o cristão, a Missa é o sacrifício que
Cristo ofereceu uma vez no Calvário e agora perpetua sobre os altares; na Missa
Cristo, como Sacerdote e Hóstia, se entrega ao Pai, envolvendo
na sua oblação a Igreja, isto é, cada um de seus fiéis. Ora o sacrifício do
Calvário é o sacrifício da Redenção; sem ele não há Cristianismo nem vida crista. Por
conseguinte, sem a Missa o Cristianismo se
torna mera escola de bons costumes ou sistema de morigeração; já não é a comunicação da vida de Deus Pai aos homens mediante Cristo; já não e
inserção dos homens no Corpo Místico de Cristo para que com Cristo voltem ao Pai.
2. Consciente disto, a S. Igreja incluiu entre os
seus preceitos o da participação da Missa aos domingos. Mediante esta norma, a Igreja quer
lembrar aos seus filhos a importância capital da S. Missa e
propiciar-lhes o estimulo para que não se afastem dela por muito tempo.
É compreensível que, ao terminar um ciclo de sete dias (semana), o cristão consagre o sétimo dia ao Senhor e participe da S. Missa; é por
esta que o fiel católico oferece ao Pai com
Cristo sua labutas, dores, alegrias e
esperanças vividas durante a semana; dá assim um sentido novo aos seus trabalhos e sentimentos; em
resposta, recebe do Pai o viático ou alimento
necessário para caminhar certeiramente
por mais uma semana, procurando construir o mundo e atingir finalmente a
mansão do Pai.
Esta lei da Igreja é sabia;
inspira-se na mais autentica consciência do terceiro preceito do Decálogo
(“Guardar o dia do Senhor”) assim como
do significado da S. Missa para a vida crista.
3. Sem dúvida, a Igreja poderia modificar o
preceito da Missa dominical, pois se trata de uma lei positiva. Todavia ate hoje não
concorrem razões peremptórias para tanto. Não parece demasiado exigir dos cristãos que consagrem
trinta ou quarenta minutos de cada semana ao culto de Deus
e ao seu revigoramento espiritual na mais autentica fonte; são esses trinta
ou quarenta minutos - ponto alto da
vida crista - que comunicam
significado e valor aos restantes minutos de toda a semana. É lógico que, se
alguém, por motivos realmente imperiosos,
está impossibilitado de participar da S. Missa, já não se acha sujeito à lei. Também se compreende que a cada cristão seja licito procurar a igreja e o tipo de celebração eucarística (fiel às
normas da Igreja) que mais correspondam ao seu estilo pessoal de oração e vivencia comunitária.
O Concilio do Vaticano II, longe de afrouxar ou
desvalorizar a participação da S. Missa no dia do Senhor, quis,
ao contrário, recomendá-la e
facilitá-la; em vista disto, ampliou o prazo útil para o cumprimento do
preceito: já que o dia do Senhor na Bíblia é contado de por do sol a por
do sol, a S. Igreja, inspirada pela recente
renovação litúrgica, permite que, desde
o sábado a tarde até o domingo a noite,
os fieis possam satisfazer a observância do preceito (seja recordado que ate
poucos anos atrás só se
celebrava a Eucaristia no domingo de manhã).
4. Talvez, porém, queira alguém dizer: prefiro ir à igreja em
dia de semana, quando não há o movimento de pessoas e vozes que caracterizam uma assembléia eucarística de
domingo, principalmente nas igrejas
paroquiais. Rezo então mais sossegado e recolhido.
- O cristão tem plena razão ao procurar rezar
profundamente em lugares silenciosos. Faça-o freqüentemente e com fervor.
Isto, porem, não impedirá que vá também a assembléia eucarística do domingo. O homem é um ser de dimensões sociais; essas dimensões foram assumidas pelo
Cristianismo, que dos seus membros
faz uma só família, um só povo
em marcha; esse povo caminha
conjuntamente para a Casa do Pai, celebrando
a mesma Eucaristia e comendo o mesmo pão da unidade. Assim como ninguém se realiza a sós na sua vida
civil ou profissional, assim também
ninguém vive a sua fé isoladamente, mas
é na Igreja e na comunidade que cada
cristão encontra o alimento e o estimulo para o seu pleno desabrochar
espiritual. Não há Cristianismo sem
adesão à Igreja e sem vida eclesial.
Tal a escolha, por parte da Igreja,
de um dia determinado da semana
para se realizar, por excelência, a assembléia eucarística do povo de Deus. Não há dúvida, o domingo é o
dia mais indicado para isso, pois
comemora a ressurreição do Senhor, ou
seja, a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, vitória em conseqüência da qual o gênero humano entrou na
posse da vida eterna.
5. O cristão que tenha compreendido o que é a S.
Missa e o que é ser cristão não pode deixar de conceber o desejo
espontâneo de participar regularmente da S. Missa. Esta já não é para ele um fardo, mas uma necessidade vital. Há
deveres exigentes que praticamos sem
ter consciência de que são deveres,
mas, ao contrario, movidos por plena espontaneidade; tais são os deveres vitais do comer, respirar,
repousar, etc. A S. Missa assume
este aspecto para quem a compreendeu devidamente: a fonte e condição de
vida, encontro com o Pai, antegozo
dos valores eternos. O cristão consciente disto não consegue ,dispensar-se da freqüentação da S. Missa.
Vê-se, pois, que a pastoral hoje em dia deve interessar-se especialmente
por esclarecer os fieis sobre a S. Missa e a vida crista em geral: de a ver que
o Cristianismo não é nem simplesmente
mensagem de amor, fraternidade e justiça, nem mero sistema de morigeração ou
educação moral, nem apenas relacionamento subjetivo e privado da criatura com o
Criador. Embora tenha essas dimensões, o Cristianismo as envolve todas numa visão de sacramento: é Deus que se da primeiramente ao homem, suscitando
a resposta do homem; e Deus se dá objetivamente, mediante o Corpo de
Cristo prolongado Igreja e na Eucaristia.
3. Um documento
recente
Precisamente a fim de atender aos fieis que indagam
só o preceito da S. Missa Dominical, os bispos do Canadá promulgaram
recentemente uma Instrução assaz significativa. Visto que o
documento é de alta utilidade também para os cristãos no
Brasil, vai abaixo transcrito em tradução portuguesa:
“Alguns cristãos interrogam a
si mesmos sobre o sentido e o dever da celebração da Eucaristia
aos domingos.
O domingo é o dia do Senhor.
Toda a comunidade cristã se reúne para comemorar no mistério da
Eucaristia a morte e a ressurreição de Cristo. O
Concilio do Vaticano II quis valorizar a Liturgia do domingo na vida do cristão. Seria
grave erro pensar que os bispos do Concilio
tenham intencionado diminuir a importância do domingo para os cristãos.
Hoje como ontem, e até o fim
dos tempos, os fieis devem reunir-se no
domingo, e eles se reúnem, para glorificar a Deus e celebrar a
ressurreição do Senhor. Escutam a palavra de Deus; nela encontram vida e luz. Compartilham o corpo e o sangue
do Senhor. Junto fazem a descoberta
de como o Senhor prepara com eles ‘céus novos e terra nova’.
O cristão e a comunidade dos fieis precisam de se
reencontrar como irmãos em momentos nos
quais, mediante a comunhão com o Corpo
de Cristo, podem reanimar a sua fé e a sua esperança a serviço do mundo
a transformar.
A celebração do domingo nas paróquias, reunindo
todos cristãos, ricos e pobres, de todas as
classes sociais e idades, é manifestação
da universalidade da Igreja e o ato pelo qual ela torna visível aos homens.
Longe de desaparecer como
obrigação ultrapassada após Concilio do Vaticano II, a celebração do domingo
tornou-se ainda mais importante em virtude da
luz, dos valores e das facilidades que o Concilio proporcionou aos
cristãos.
Mais ainda: numa época em que os homens
procuram a sua libertação
em todas as acepções desta palavra, o sentido da assembléia de domingo toma dimensões correspondentes as novas
necessidade.
Sinal de Deus entre os
homens, via que indica em que direção se prepara a terra nova a qual os homens aspiram, força que sustenta a difícil procura, a assembléia fraterna dos cristãos a um liame capital e um gesto privilegiado.
Assim, pois, a celebração do
domingo não se pode subtrair as exigências da lei do Evangelho,
que é a lei de amor! É uma obrigação que a maturidade dos cristãos estima como
responsabilidade pessoal e primordial. Como preceito da Igreja, a lei da
participação na Eucaristia do domingo é
mantida e reafirmada por causa da sua nobreza nativa.
A estrutura das paróquias de
hoje tornar-se-á acolhedora para todas as formas de expressão, de animação e de agrupamento que contribuam para se construírem células de comunidades, uma rede
mais articulada de oração,
uma melhor experiência da comunhão
eclesial, um engajamento aberto a todos e uma promoção da
comunidade maior. Para se atingirem tais fins, as comunidades de base podem
tornar-se um instrumento eficaz. Outros meios poderão ainda ser
procurados. E para um esforço
coletivo de penetração
do sentido da assembléia
eucarística que desejamos convidar
os cristãos” (traduzido de “L'Osservatore Romano”, ed. francesa, 12/V/1972, p. 6).
Em suma, com este documento os bispos do Canadá lembram que ser
cristão não é simplesmente cultivar uma sã filosofia e um generoso amor aos
homens, mas é receber de Deus a vida eterna, prenhe de sabedoria e de amor, a fim de derramá-la sobre todos os homens; assim penetrado pelo
dom de Deus, o cristão pode
validamente aspirar a colaborar na transformação deste mundo, que a ciência e a técnica
tornam cada vez mais complexo e
exigente. Ora é precisamente na S. Missa, fielmente participada de domingo em domingo, que o cristão recebe um pouco de eternidade para poder dar
sentido e valor a labuta dos seis
dias de trabalho da semana.