ESCRÚPULOS: QUE SÃO? COMO CURÁ-LOS?
Autor: d. Estevão Bettencourt
(Fonte: Pergunte e Responderemos 452 - pp. 9-20)
Crise de consciência:
Em síntese: Os escrúpulos de consciência são um estado de
alma que vê pecado em tudo, situação esta que gera profunda angústia e mesmo
desânimo e desespero. Podem ter um fundo doentio ou neurastênico. O escrupuloso
tende a se fechar em seus julgamentos de ordem moral e não dar crédito aos conselhos que sabiamente lhe são ministrados
para que se liberte de seu estado aflitivo. A escrupulosidade
pode ter causas diversas: umas de ordem física, outras de ordem psíquica ou
ainda de ordem moral. A superação de tal condição mórbida só pode ser obtida
pela oração e pela obediência incondicional às normas provenientes de um
diretor espiritual firme e bondoso. Pode ser útil também a colaboração de um
psicólogo ou de um médico de formação cristã, respeitoso dos valores da fé.
* * *
A Redação de PR recebeu a seguinte solicitação via internet:
«Tenho confusões dentro de mim a respeito do pecado grave ou
mortal. Parece que estou sempre no risco iminente de cometer um deles. Sei o
que o catecismo diz, só que na minha vivência ainda não o entendi. O emocional
e o coraçáo não o entendem. Poderia trocar em miúdos
a prática do dia a dia?»
Como se percebe, a questão toca em dois pontos: o conceito
de pecado e o problema dos escrúpulos. Abaixo trataremos de um e outro tema
sucessivamente.
1. Pecado
O pecado é um Não dito a Deus. Distinguem-se duas modalidades
de pecado: o mortal ou grave e o leve ou venial.
1) O pecado mortal ou grave ocorre quando se preenchem três
condições:
a) haja matéria grave ou importante: calúnia danosa, injúria
penosa, roubo, adultério, homicídio...;
b) haja conhecimento de causa: o pecador deve estar
consciente de que a matéria e o ato correspondente são pecaminosos;
c) haja vontade deliberada, ou seja, a vontade livre de
cometer tal ato.
Tal pecado é dito mortal porque, conforme a Escritura, leva
à morte ou à perda da vida definitiva; cf. 1Jo 3, 15; 1Cor 6, 9; Gl 5, 19s.
2) O pecado venial ou leve se dá quando falta um dos três
requisitos atrás. Não tira a vida da graça ou a filiação divina, mas contribui
para torná-la anêmica. Somente o pecado grave ou mortal é pecado propriamente
dito; é desobediência formal ou é um Não categórico dito a Deus. O pecado
venial é desobediência imperfeita; pode coexistir com a orientação fundamental
do cristão para Deus.
Nem sempre é fácil ao cristão traçar a linha divisória entre
pecado grave e pecado leve, pois a pessoa por vezes não pode definir até que
ponto consentiu no pecado nem sabe exatamente avaliar a importância da matéria
em torno da qual pecou. Daí podem originar-se escrúpulos, dos quais passamos a
tratar.
2. Escrúpulos
Serão considerados: 1) o conceito de escrúpulo; 2) as causas
respectivas; 3) os principais meios para os debelar.
2.1. Que é a escrupulosidade?
1. Etimologicamente, o termo "escrúpulo" se deriva
do latim scrupulus, pedrinha pontiaguda
que, entrando no calçado de alguém, muito perturba o andar. A forma
neutra do vocábulo, scrupulum, designava entre os
romanos uma unidade de peso equivalente a cerca de um
grama.
Aplicado ao setor da Moral cristã, o termo
"escrúpulo" significa naturalmente um entrave ao progresso
espiritual. Mais exatamente: significa uma disposição da alma que lhe faz crer
sem motivo adequado, haja pecado onde de fato não o há. A pessoa acometida de
escrúpulos se vê obcecada pelo temor de pecar; em conseqúência,
não ousa decidir-se à ação no momento devido, e vive em contínua angústia,
considerando os males que pretensamente cometeu no passado e as crises que o
futuro lhe parece reservar.
Em outros termos: o escrúpulo de consciência é uma
modalidade do que a Psicologia moderna chama "obsessão", modalidade,
porém, que só pode ser devidamente entendida e tratada por quem admita a fé e o
pecado no sentido cristão.
Em vista de maior precisão, duas distinções se impõem:
- Consciência escrupulosa não é consciência delicada. Esta
sabe delimitar devidamente os pecados e a sua gravidade; observa a diferença
exata entre falta e imperfeição; por isto pode empregar os meios oportunos para
evitar até mesmo os mínimos desvios, sem perder a paz. Ao contrário, a
consciência escrupulosa está incapacitada de avaliar adequadamente o que é
pecado.
- Distinga-se outrossim a idéia obsessiva que causa o
escrúpulo, da idéia fixa. Idéia fixa vem a ser uma noção que paira sempre ante
a mente do indivíduo, de tal modo, porém, que este a acaricia e cultiva, porque
condiz com suas tendências espontâneas (não raro megalomaníacas); assim a idéia
fixa de ter importante missão a realizar em tal região da terra..., a idéia
fixa de ser Pitágoras ou Alexandre Magno redivivo, etc.
- Ao contrário, a idéia obsessiva é aquela que sempre volta
à mente do sujeito, mas que este reconhece como estranha à sua personalidade e
intrusa ao seu pensamento, de modo a lutar contra ela, sem contudo poder
livrar-se da sua perspectiva; daí resultam naturalmente temor e angústia na
alma. Uma das idéias obsessivas mais comuns e funestas é a de haver ofendido a
Deus por ações ou omissões, principalmente por pensamentos e, conseqüentemente,
haver merecido o justo castigo do Senhor. Na alma escrupulosa o juízo da razão
assegura que ela não pecou; contudo a pessoa não tem a coragem de confiar nesse
juízo; a emotividade ou o temor sensível nela prepondera.
2. O estado de alma escrupulosa se pode reconhecer mediante
alguns sintomas característicos:
a) insegurança de alvitre. A pessoa escrupulosa julga nunca
poder chegar à certeza em questões de moral; por isto dificilmente toma algum
alvitre, e mais dificilmente mantém alvitre tomado;
b) impermeabilidade ao juízo alheio. A atmosfera de
incerteza em que a alma escrupulosa versa, torna-a mais ou menos impermeável
aos pareceres de outras pessoas, mesmo que ela lhes reconheça grande
autoridade.
Assim o escrupuloso, depois de ouvir a sentença tranquilizadora de algum sacerdote ou conselheiro, procura
esquivar-se à mesma, alegando não haver relatado suficientemente o seu caso, ou
não haver sido devidamente entendido pelo conselheiro, ou não haver
compreendido com lucidez o teor do conselho... Em conseqüência, a pessoa
escrupulosa ou tenta relatar de novo a "história" ao seu interlocutor
ou vai consultar a outros, com esperança de encontrar finalmente "a
sentença acertada"... Passando, porém, de sacerdote a sacerdote ou de
conselheiro a conselheiro, o escrupuloso arrisca-se a cair em estado de
perplexidade ainda maior, pois é de crer que ouça pareceres diversos pelo fato
mesmo de que nem todos o conhecem de modo a julgar adequadamente o seu caso;
c) inquietude quanto à integridade da confissão sacramental.
O escrupuloso receia não ter manifestado todos os pormenores característicos do
seu pecado; por isto deseja renovar acusações sacramentais já validamente
efetuadas. Também costuma indicar cifras exageradas e inverossímeis, ao
enunciar quantas vezes pecou. Interroga, sem acabar, o seu confessor a respeito
do que este lhe tenha mandado ou sugerido fazer... Tendo-se confessado no
sábado à tarde, deseja voltar à confissão no domingo de manhã para comungar;
d) recurso a sinais nervosos. Intencionando
resistir de maneira bem concreta ao que eles julgam ser tentação,
muitos escrupulosos realizam gestos descontrolados, fazem caretas e
tomam atitudes de corpo assaz estranhas. Tendem a repetir as mesmas orações,
julgando-as inválidas por falta de atenção; entregam-se assim a uma tensão
física mais ou menos doentia.
Um dos sinais mais característicos a que não raro recorrem as pessoas escrupulosas, é a "loção das suas mãos"
ou, mais largamente, o culto constante do asseio do corpo, atitude mediante a
qual professam o seu desejo de pureza de alma.
Conta-se o caso de uma mulher que tinha a preocupação
exagerada da limpeza. Seu marido queixava-se de que ela lhe tornava a vida
quase insuportável por exigir o mais rigoroso asseio para ela, suas vestes,
seus filhos e o domicílio inteiro; trajava-se da maneira mais imaculada
possível, desprezando todas as mulheres que não compartilhassem seus austeros
princípios, que ela chamava simplesmente seus "bons modos".
Ora, em vista dessa obcecação foi submetida a exame
psíquico, dando então a saber que, durante cinco anos de vida conjugal, tivera
relações extra-matrimoniais. Havia cedido a esse
vicio, depois de receber em sua adolescência uma educação muito severa;
tinham-lhe dito freqüentemente que os abusos sexuais não convinham a jovens de
sua categoria, pois eram o apanágio das pessoas "sujas".
Destarte acostumara-se a associar em sua mente as idéias de desordem carnal e
imundice física. Em conseqüência, tal pessoa, vindo em época posterior a se
entregar ao pecado da carne, passara a sentir os protestos de sua consciência,
protestos que se traduziam pelo desejo espontâneo e cada vez mais imperioso de
limpeza física. Tal desejo exigente nela permanecia mesmo depois de haver
abandonado o vício, em sinal de arrependimento e remorso de alma.
Esboçada a natureza da escrupulosidade
de consciência, faz-se agora mister indagar sumariamente quais seriam as raízes
de tal estado de alma.
2.2. As causas de escrúpulos de consciência
Podem ser agrupadas sob cinco títulos:
1) Causas de origem fisiológica ou somática
Entendem-se nesta categoria, primeiramente, os estados de
saúde física debilitada, em conseqüência de excesso de trabalho, nutrição
insuficiente, perturbações digestivas, moléstia prolongada, jejum, vigílias e
outras austeridades físicas não regradas pela virtude da prudência. Em tais
circunstâncias, a pessoa se sente como que de antemão derrotada diante dos
embates da vida; carece da energia necessária para considerar serenamente as
situações e tomar resoluções adequadas. A mesma debilidade pode ser acarretada
por falta de recreios honestos, que permitam ao individuo mudar de idéias,
desfazendo-se de preocupações que podem tomar proporções obsessivas.
2) Causas de ordem psíquica
Tenham-se em vista principalmente:
- os temperamentos melancólicos, dados à
suspeita e à tristeza;
- os temperamentos meticulosos, sempre prontos a descobrir
razões de duvidar, sempre desejosos de possuir certeza absoluta, mesmo ao se
tratar de causas contingentes;
- o infantilismo e a imaturidade de juízo. Em não poucos
casos, a consciência do adulto escrupuloso ficou no nível que tinha quando era
criança; conseqüentemente, incapacitado de formar seus juízos, o escrupuloso
vê-se impelido a procurar a tutela ou a autoridade de outros para regrar a sua
vida.
3) Causas de ordem moral
Enumeram-se aqui:
- a fuga de uma situação desagradável... É o que se dá
quando alguém, não tendo coragem para emendar algum costume de vida irreguIar, procura esquecer tal problema concentrando toda
a sua atenção sobre outros pontos de sua conduta que absolutamente não merecem tanto cuidado; têm-se então os "escrúpulos de
compensação". Pode haver pessoas muito escrupulosas quanto ao dinheiro,
mas muito laxas quanto ao sexo;
- o egocentrismo, a vaidade, o desejo quiçá inconsciente de
chamar a atenção para si. Há, com efeito, pessoas que não manifestam a mais
pálida aspiração a se ver livres dos seus escrúpulos; ao contrário, parecem
apegadas à sua situação, como que contentes por merecerem a atenção de
diretores espirituais e médicos. Tais pessoas são, de um lado, as que mais
procuram conselheiros e guias e, de outro lado, as que menos prontas estão a
submeter-se ao arbítrio alheio. Alguns autores chegam a crer que a maior parte
dos casos de escrúpulos se deve a um lastro de orgulho e espírito de reivindicação latentes na pessoa afetada. Esta opinião,
porém, parece exagerar, visto que elevado número de escrupulosos se ressente
realmente da insuficiência de discernimento, sem que se possa asseverar haja
nisto alguma ponta de vaidade ou orgulho;
- faltas graves cometidas na vida passada. Pode acontecer
que alguém, após longo período de vida desregrada, se emende definitivamente,
mas não consiga desvencilhar-se de obsessiva recordação das suas culpas
anteriores; revolve-as constantemente em seu espírito, deixando de dar a devida
atenção às ocupações da hora presente.
4) Causas extrínsecas
Entre estas, devem ser citadas:
- as falhas de educação. Afagos e mimos demasiados
facilmente provocam na adolescência uma atitude de insegurança, que pode vir a
ser a raiz de escrupulosidade. O mesmo se diga de uma
disciplina excessivamente rigorosa, inspirada por normas morais estreitas e
pessimistas; tal regime só faz onerar e amedrontar, além do necessário, a
consciência dos jovens;
- a convivência com pessoas escrupulosas e a leitura de
obras que desfigurem a idéia de Deus Pai Misericordioso, sobrepondo-Lhe a de um
terrível Juiz, são outros tantos fomentos de escrúpulos.
5) Por fim, há autores que aludem à ação do demônio em
certos casos de escrúpulos (não se creia, porém, que são muito numerosos).
O Maligno tem interesse em paralisar o progresso espiritual
dos fiéis, provocando neles a confusão característica da escrupulosidade.
O Senhor permite a ação do demônio, visando com isto ao bem dos fiéis; com
efeito, uma crise de escrúpulos pode ser ocasião providencial para que o
cristão pratique as virtudes da humildade e da obediência,... para que aguce em
si o horror ao pecado e forme a sua consciência dentro dos moldes da
delicadeza, que é penhor de santificação crescente. Aliás, provocada ou não
pelo demônio, toda crise de escrúpulos é sempre acompanhada pela graça de Deus,
que fornece a alma o auxílio necessário para que tire da sua provação todo o proveito
espiritual (purificação, acrisolamento das virtudes);
deve-se mesmo dizer que é sempre em vista desse enriquecimento espiritual que
Deus permite sejam as pessoas acometidas de escrúpulos.
Os estudiosos costumam indicar algumas notas que desde cedo
caracterizam as pessoas predispostas à escrupulosidade.
Ei-las em resumo: já em idade
infantil, manifestam tendência a manias e "tiques" nervosos; têm
pavor de estar sós e mostram-se muito sensíveis a
repreensões. Com o decorrer do tempo, revelam dificuldade para tomar alvitre na
vida; visando então a obter luz e certeza para suas opções, dão-se
mais e mais à introspecção ou à reflexão sobre si mesmas - o que não pode
deixar de deformar progressivamente a sua mentalidade, sujeitando-a
paulatinamente a verdadeira obsessão.
Adotando-se oportunas medidas na educação, pode-se impedir
que a tendência aos escrúpulos prevaleça nas pessoas inclinadas a eles;
evitam-se assim crises penosas. Essa preservação requer cuidado zeloso por
parte dos educadores.
Como meios eficazes de profilaxia, recomendam-se:
- Regime de vida higiênica, em que oportunamente se ministra
um tônico do sistema nervoso, assim como os demais tratamentos médicos de que
possa necessitar o paciente;
- Formação moral muito sólida, baseada em visão larga e
profunda da vida espiritual mais do que em ameaças aterradoras;
- Combate ao isolacionismo e à
demasiada introspecção do adolescente.
A psicoterapia poderá ser útil se for orientada por um
médico respeitoso dos valores sobrenaturais.
Dado, porém, que alguém se torne vítima de escrupulosidade, quais as medidas a tomar?
É o que o parágrafo abaixo considerará.
2.3. Remediar!... E como?
1. Tenha-se consciência de que a escrupulosidade,
apesar da sua semelhança com delicadeza de alma, é um mal a ser energicamente
combatido. A energia será tanto mais necessária no caso quanto mais puros ou
santos forem os aspectos sob os quais se poderá encobrir o veneno da escrupulosidade.
A fim de avivar a consciência dos perigos em que incorre uma pessoa escrupulosa, vão aqui apontados alguns
dos nocivos efeitos de que pode vir a ser vítima.
No plano físico, os escrúpulos debilitam mais e mais o
sistema nervoso e a saúde física, chegando a ocasionar
neurastenia crônica e outras moléstias.
No plano psíquico e religioso, os escrúpulos podem tornar a
pessoa vítima de manias em graus mais ou menos próximos do ridículo. Fecham o
coração no egocentrismo, com prejuízo para a caridade fraterna. Julgando estar
em pecado grave e, por conseguinte, condenado por Deus, o escrupuloso
facilmente perde a coragem na vida assim como a confiança no Senhor, que ele
mais e mais tende a considerar como juiz excessivamente severo. A oração se lhe
torna cada vez mais difícil, absorvido que está por suas preocupações subjetivas;
não reconhecendo mais em Deus a face do Pai misericordioso, insensivelmente
perde o gosto da oração assim como o da recepção dos sacramentos da Penitência
e da Eucaristia.
Também acontece que o escrupuloso, dando atenção exagerada a
coisas que não a merecem, perca tempo em "resolver" pseudo-problemas, deixe de cumprir importantes deveres de
estado e negligencie o verdadeiro serviço de Deus. Compreende-se outrossim que,
vítima de desatinos, a pessoa escrupulosa se ponha a viver uma vida de
contrastes: hoje submete-se a rigorosas práticas de
mortificação, prestes a ir procurar amanhã um desafogo na licenciosidade e no
gozo dos ilícitos prazeres. A noção do bem assim se obscurece na sua mente, a
vida cristã se lhe torna impossível.
2. Será preciso, pois, reagir sem demora contra as primeiras
manifestações de escrupulosidade, em vista disto, os
mestres enumeram uma série de diretivas oportunas.
Distinguiremos abaixo entre diretivas cuja aplicação depende
do paciente e do seu diretor conjuntamente, e diretivas que dizem respeito ao
diretor espiritual apenas.
A. Normas cuja aplicação depende tanto do paciente como do
diretor de consciência
1) O paciente deve chegar a reconhecer que é escrupuloso e
que o escrúpulo é um grande mal; enquanto não esteja convicto dessas verdades,
qualquer tratamento torna-se vão.
2) A oração é arma capital no combate a qualquer mal.
Acontece, porém, freqüentemente que o escrupuloso deva reaprender a rezar,
restaurando em si uma atitude de piedade filial para com o Pai das
Misericórdias e de confiança no Redentor; terá que vencer, portanto, o
afastamento em relação a Deus que a obsessão angustiosa do Juízo Final lhe
possa ter ocasionado. Nessa tarefa, poderão e deverão ser úteis ao paciente o
seu diretor espiritual e os seus amigos, dando-lhe esclarecimentos e conselhos.
Na oração, o escrupuloso pedirá amor a Deus e paciência na
provação, força na luta e libertação da obsessão.
3) Após a prece, o remédio por excelência vem a ser a
obediência total a um diretor espiritual prudente e esclarecido. Sem
obediência, e obediência absoluta, pode-se crer que o paciente jamais
conseguirá libertar-se do seu mal.
Por isto, uma vez escolhido o respectivo diretor de
consciência, o escrupuloso, por pretexto nenhum, deve trocá-lo; caso tenha que
se afastar dele por motivo de viagem, confesse-se com outro sacerdote, mas
permaneça fiel às instruções do antigo diretor espiritual. Dado que o
escrupuloso recuse obediência integral, o diretor está habilitado a lhe dizer
que não o pode dirigir.
4) O escrupuloso deve aos poucos habituar-se
a desprezar os escrúpulos. Saiba que uma das melhores táticas para vencer as
suas angústias é a de não lhes dar importância; por conseguinte, em vez de se
agitar diante de alguma tentação, como se tivesse de enfrentar um adversário
real e perigoso, conserve sua superioridade serena e indiferente.
Principalmente não se entregue a gestos, contorsões e
atitudes estranhas, visando a simbolizar a sua resistência à tentação. Tais
gestos não estão à altura de gerar a almejada certeza e paz na alma, pois com o
tempo esta já não se contenta com um, dois, três gestos,
mas tende a multiplicá-los indefinidamente, podendo assim chegar às raias da
demência.
Concretizando as idéias acima, diremos: uma pessoa escrupulosa
tentada por pensamentos contra a fé não reaja diretamente pronunciando
mentalmente um ato de fé, pois com isto só contribuiria para aumentar as
tentações e os escrúpulos... O que ela deve fazer, é simplesmente desprezar o
pensamento, lembrando-se de que este só se torna pecado, caso haja
consentimento, e consentimento certamente dado. Em geral, tais tentações não
são em si coisa grave, mas reduzem-se a atos de
imaginação sem grande importância.
O desprezo dos escrúpulos assim recomendado implica um
conjunto de pequenas normas práticas, que vão abaixo enunciadas:
a) Ao agir, para formar sua consciência, a pessoa
escrupulosa valer-se-á do seguinte princípio: "Enquanto
eu não vir, como dois e dois são quatro, que tal ação é pecaminosa, poderei
praticá-la ou... que tal omissão é pecaminosa, poderei abster-me".
Em outros termos: o escrupuloso seguirá o axioma: «Lex dubia, lex
nulla», isto é, «A lei duvidosa não obriga». Esta
norma, que não se poderia, sem mais, recomendar às pessoas de consciência laxa,
há de ser inculcada aos escrupulosos.
Se, depois de agir conforme tal regra, o escrupuloso começar
a suspeitar de haver cometido pecado grave, não julgue ter realmente pecado, a
não ser que isto se lhe incuta tão evidentemente como a proposição «dois e dois
são quatro».
b) Eis outra norma valiosa para formar a consciência da
pessoa escrupulosa que esteja obrigada a tomar alguma atitude. Pergunte a si
mesma: «Que diria eu a quem se visse na situação embaraçosa em que me acho?». A
resposta à pergunta proposta de maneira tão objetiva talvez aflore sem grande
dificuldade à mente do escrupuloso. Dado que resolva o caso assim formulado,
não hesite em seguir praticamente tal solução.
c) O paciente não deverá esperar entrar finalmente em paz
mediante capitulação, isto é, cedendo, «ao menos desta vez,... pela última
vez», aos escrúpulos. Será ilusória a paz assim conseguida, pois sem demora a
pessoa verá outro motivo de angústia, que lhe parecerá tanto mais grave quanto
mais fraca ela se tiver mostrado anteriormente.
d) Abstenha-se o escrupuloso de repetir atos que lhe pareçam
inválidos (por exemplo, orações afetadas por distrações involuntárias; o
escrupuloso é propenso a julgá-las inválidas, embora não o sejam), mesmo quando
se tratar de atos gravemente preceituados. Repetindo-os, o paciente, longe de
solucionar sua angústia, entrará num verdadeiro labirinto, pois constantemente
verá falhas nos atos repetidos, falhas tanto mais graves quanto mais ele se for
cansando pela multiplicação.
Em particular, no tocante à confissão de seus pecados, o
escrupuloso tende a multiplicar as mesmas acusações, julgando não se ter feito
compreender devidamente nas confissões anteriores. Resista, porém,
energicamente a tal propensão, pelos motivos indicados. O confessor, do seu
lado, ajudará o paciente a relutar, replicando-lhe o seguinte:
«Concordo em ouvir a acusação de pecados de tua vida passada
desde que, em presença de Deus, me possas afirmar estes três pontos:
- tens certeza de haver cometido tais pecados;
- cometendo-os, tinhas certeza de estar praticando pecados
mortais;
- nunca acusaste tais pecados em confissão sacramental».
Caso o penitente titubeie a respeito de algum desses itens,
o confessor deverá tranqüilamente proibir-lhe a acusação.
Note-se bem: o penitente não deve julgar ter sido pecado
grave uma ação que não lhe tenha parecido tal desde que ele a cometeu ou uma
ação que só tardiamente ele imagina haver sido grave. Na verdade, o pecado
grave só é tal quando cometido com pleno conhecimento de causa, conhecimento
que não pode deixar de suscitar imediatamente perturbação na alma do pecador.
5) O escrupuloso procurará debelar tudo que possa ser fonte
ou fomento de melancolia em sua vida (leituras demasiado
severas, convivência com pessoas escrupulosas...).
Esforce-se por ter um horário em que trabalho e recreio
estejam devidamente equilibrados.
Com outras palavras: trabalhe de maneira metódica,
de modo a evitar atropelos e imprevistos, que agitam os nervos e podem
levar à exaustão; na medida do cabível, proporcione ao organismo a restauração
de suas forças. - Doutro lado, todo tipo de
ociosidade há de ser evitado, pois vem a ser fonte de tédio, tédio que
proporciona o surto de angústias; o trabalho regrado entretém a alegria de
viver.
6) Em muitos casos, será oportuno que o paciente consulte um
médico ou um psiquiatra, de consciência bem formada, e siga fielmente a
orientação que tal especialista lhe der.
B. Normas que dizem respeito ao diretor apenas
O diretor de consciência a quem uma pessoa escrupulosa se
chegue, pedindo orientação, procurará levar em conta algumas regras de
sabedoria, que os mestres costumam assim delinear:
1) Esforce-se, antes do mais, por ganhar a confiança do
consulente; e isto, mediante duas atitudes:
- mostre dedicação, sendo paciente para ouvir histórias e
explicações, e respondendo com brandura, sem, porém, permitir desobediência;
- dê provas de segurança e competência.
Depois de deixar o paciente falar, o diretor não deve
repetir o relato, pois a pessoa escrupulosa poderia encontrar meios de dizer
que não foi exatamente assim,... e recomeçaria toda a sua exposição...
As questões formuladas pelo diretor serão simples e claras,
não se detendo em pormenores que não mereçam grande atenção.
A fisionomia do pai espiritual se conservará firme e calma.
Isto não poderá deixar de redundar em alívio e paz para o paciente.
2) Tendo ganhado a confiança da pessoa escrupulosa, o
diretor tratará de obter a sua obediência.
Em vista disto, incutirá ao paciente o princípio de que só a
obediência o poderá curar; acentuará bem que o escrupuloso sempre poderá
obedecer com a consciência tranqüila, mesmo que o diretor esteja errado, pois
Deus pede do escrupuloso uma só atitude: a obediência.
As ordens deverão ser breves, claras e categóricas, evitando
qualquer frase condicionada («se isso te perturba...») ou qualquer tipo de
hesitação («parece..., melhor seria..., provavelmente...»). O diretor
espiritual não precisará de apresentar os motivos de
suas normas, pois o paciente poderia querer discuti-los, o que seria vão ou
mesmo nocivo. O diretor ponderará previamente as normas a dar, de modo a não
ter que se desdizer; a desdita redundaria em detrimento da autoridade.
Por fim, o pai espiritual procurará certificar-se de que
suas diretivas foram devidamente observadas; em mais de um caso, terá que
repetir várias vezes a mesma prescrição; deverá mesmo
entregá-la por escrito para que finalmente venha a ser cumprida (diz-se que, no
momento de obedecer, o escrupuloso tende a recuar como o condenado diante do
suplício).
3) Em particular, no tocante à confissão sacramental,
lembre-se o sacerdote de que existem os chamados «privilégios dos
escrupulosos». Do seu lado, o penitente deverá ter consciência de que o uso
desses privilégios não lhe é apenas facultativo, mas chega a ser obrigatório,
desde que o confessor o imponha. Tais privilégios dizem respeito à integridade
material da confissão. Assim, a juízo do confessor, o penitente deverá reduzir
seu exame de consciência a poucos minutos ou mesmo
omiti-lo; o sacerdote encarregar-se-á então de interrogar o penitente. Em
outros casos, o escrupuloso limitar-se-á a acusar dois ou três pecados
certamente cometidos e de maior importância, abstendo-se em geral de relatar
pormenores; de resto, tratará de excitar contrição e propósito, principalmente
a respeito das faltas mais notáveis da vida passada.
A satisfação imposta pelo confessor deverá ser leve e fácil.
Quanto à periodicidade da penitência sacramental, o sacerdote
tomará como norma não permitir mais de uma confissão por semana; caso o
penitente volte após intervalo mais breve sem ter cometido evidente pecado
mortal, o confessor apenas lhe dará a bênção, recomendando-lhe que faça um ato
de contrição e continue tranqüilamente a comungar.
4) Por fim, o sacerdote estimará a colaboração do médico,
sempre que for oportuna. Em geral, a ação conjunta do padre e do clínico dá
ótimos resultados; a fim de que estes frutos sejam realmente obtidos, requer-se
consonância nas respostas e nas diretivas de um e de outro.
Assim ficam delineados os principais remédios (ditados pela
fé e pela ciência) a ser utilizados para a cura dos
escrúpulos de consciência. Devidamente aplicados, tais recursos podem restituir
paz e alegria às pessoas afetadas.