1º Domingo da Quaresma (B)
Pe. Geraldo Morujão
1ª Leitura
Génesis 9, 8-15
8Deus disse a Noé e a seus filhos: 9«Estabelecerei
a minha aliança convosco, com a vossa descendência 10e com todos os seres vivos
que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão
convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. 11Estabelecerei
convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada
pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra». 12Deus disse
ainda: «Este é o sinal da aliança que estabeleço convosco e com todos os
animais que vivem entre vós, por todas as gerações futuras: 13farei aparecer o
meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra.
14Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco,
15recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos e nunca mais
as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas».
A aliança de que fala o texto não é ainda a que
veio a ser feita com o povo escolhido, mas é a chamada “aliança cósmica”, com
toda a humanidade e com toda a obra da criação. Quando lemos o texto do dilúvio
na Igreja – os estudiosos falam de duas fontes fundidas e entrelaçadas, a da
tradição javista e a da tradição sacerdotal –, não devemos ficar parados ou
perdidos nas questões histórico-literárias e nas interessantes semelhanças com
outros relatos, ou mitos, de diversas culturas antigas que falam de cataclismos
imemoriais do género. Como se lê em 2 Tim 3, 15-17, o que acima de tudo nos interessa
no contacto com “toda a Escritura, inspirada por Deus”, é alcançar “a sabedoria que conduz à salvação por meio
da fé
12-16 “O arco-íris” – fenómeno natural anterior ao
dilúvio – adquire um significado simbólico. Ele é o sinal da benevolência
divina, expressa em categorias de aliança, para com toda a criação; não é mais
um tremendo arco de guerra (o termo hebraico, quéxet, é o mesmo), mas é sim o
abraço de paz do Criador! Ainda que persistam na memória dos povos tremendas
catástrofes, como o dilúvio, justo castigo do pecado, o ser humano não deve
viver esmagado sob o pesadelo constante dos terrores que não podem deixar de
sentir aqueles que ignoram a Revelação divina.
A Liturgia, ao apresentar este texto no começo da
Quaresma, além de introduzir a 2.ª leitura, facilita-nos a animadora
consideração da misericórdia divina, a qual permite que nos elevemos acima das
nossas misérias e saiamos dos nossos pecados pela graça de Cristo, que nos
chega particularmente através dos Sacramentos.
2ª Leitura
1 São Pedro 3, 18-22
Caríssimos: 18Cristo morreu uma só vez pelos
pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a
carne, mas voltou à vida pelo Espírito. 19Foi por este Espírito que Ele foi
pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte 20e tinham sido outrora
rebeldes, quando, nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se
construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da
água. 21Esta água é figura do Baptismo que agora vos salva, que não é uma
purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa
consciência, pela ressurreição de Jesus Cristo, 22que subiu ao Céu e está à
direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as
Potestades.
A 1ª Carta de Pedro, donde é tirada a leitura,
parece ter como base uma catequese baptismal; aparece na liturgia de hoje em
relação com a 1ª leitura, que fala do dilúvio, o qual é apresentado aqui como
figura do Baptismo.
18 “Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo
Espírito (cf. 1 Pe 2, 21.24; Rom 6, 10; Hbr 9, 28). Foi por este (Espírito) que
Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte…” A tradução
procura oferecer aos fiéis que ouvem a leitura uma forma de entenderem um texto
deveras difícil. O v. 18 pode entender-se: “morto” como homem, e “vivo” como
Deus (cf. Rom 1, 4; 1 Tm 3, 16.), ou talvez se trate antes de uma formulação
primitiva para exprimir que Jesus, ao morrer, abandonou de vez a sua condição
mortal para passar a viver no seu estado glorioso e imortal.
19 “Pregar” sempre indica, no NT, a pregação da
salvação. Esta pregação de Jesus “aos espíritos que estavam na prisão” é a
referência bíblica mais clara à verdade professada no Credo acerca de Jesus que
“desceu à mansão dos mortos” (cf. 1 Pe 4, 6; Rom 10, 6-7; Ef 4, 8-9; Apoc 1,
18; Mt 12, 40; Lc 23, 43; Act 2, 31) a anunciar-lhes a mensagem da salvação,
segundo uns com a sua alma separada do corpo, segundo outros na sua nova
condição gloriosa. Lembramos que a “mansão dos mortos” (o Xeol hebraico, o
Hades grego, os Infernos em latim) representava o estado dos que tinham
morrido, que se pensava ser num espaço interior da Terra. O autor, ao dizer que
Jesus pregou (a salvação) também (kai, uma partícula a que o tradutor não
valorizou) aos que… tinham sido outrora rebeldes … nos dias de Noé, parece
querer dizer que até (kai) àquela gente, que na tradição bíblica era
considerada como os maiores pecadores (cf. Gn 6, 5.11-12), chegou a salvação de
Jesus: é o alcance universal da Redenção para todos os pecadores arrependidos
(cf. 4, 6), por mais pecadores que tenham sido; a salvação é levada por Jesus a
todos e não apenas à gente aqui nomeada dos tempos de Noé, como sendo o tipo da
gente mais perversa, mas certamente arrependida dos seus pecados (argumentação
a fortiore).
No entanto, esta passagem da pregação de Jesus aos
espíritos cativos é muito obscura e, para além da interpretação tradicional,
que a entende como a descida de Jesus aos Infernos, ou Mansão dos Mortos, para
levar para o Céu todas as almas que aguardavam a hora da redenção, deu aso às
mais diversas e desacertadas interpretações: a) para uns seria uma referência à
salvação de certos condenados que se salvaram com a descida de Cristo ao
Inferno (assim pensou Orígenes, mas a Igreja reprovou esta opinião); b) para
Sto. Agostinho (fazendo uma violência inaceitável ao texto) refere-se ao Verbo,
que, antes da Incarnação, através dos avisos de Noé, se dirigiu àqueles ímpios
cativos da ignorância e da perversão; c) para uns poucos (em especial alguns
protestantes), estes “espíritos cativos” seriam anjos caídos (cf. v. 22), a
quem Cristo teria convencido da sua condenação definitiva; d) até houve quem
conjecturasse , mas sem ter tido aceitação, que a expressão “neste também” (em grego: en ô kai), ao admitir a leitura “Henoc
também” (em grego: Enôc kai), se referia ao patriarca anterior ao dilúvio, que,
segundo Gn 5, 24, não morreu e, segundo a literatura apócrifa, proclamou a
condenação aos anjos rebeldes. Na nossa tradução da Nova Bíblia da Difusora
Bíblica traduzimos en ô como sendo uma expressão adverbial: “então” (e não
“neste”, referido a “espírito”, como tem a tradução litúrgica).
20 “Se salvaram através da água”: Noé, a mulher, 3
filhos e 3 noras (8 pessoas, sem contar os netos: cf Gn 6 – 9). Como se vê, a
água aqui não é tomada no seu aspecto de castigo e destruição, como uma água
mortífera, mas como uma água salvadora, um meio de os sobreviventes se
salvarem, navegando através da água. É de notar um deslizamento semântico na
preposição grega diá do sentido local – através de – para o sentido
instrumental – por meio de –, de maneira a pôr em evidência um simbolismo
oculto: a água do dilúvio é a figura (o tipo) do “Baptismo”, o qual é a
autêntica realidade (em grego: o antitipo) “que agora vos salva”. Com efeito, se
o Baptismo salva, não é pelo facto de limpar a sujidade do corpo, mas é “pela
ressurreição de Jesus” (v. 21), quando a Ele se adere pela fé concretizada nas
promessas do Baptismo, isto é, “o compromisso para com Deus de uma boa
consciência” (v. 22).
22: “Subiu ao Céu” é uma clara referência à
Ascensão de Jesus, bem atestada no N. T., e frequente nos Escritos Paulinos (Mc
16, 19; Lc 24, 50-51; Jo 6, 62; Act 1, 33-34; Rom 8, 34; ; Ef 1, 20; Col 3, 1;
Hebr 1, 3; 8, 1; 10, 12; 12, 2). “E está à direita de Deus” exprime a suma
dignidade de Cristo, acima de todas as criaturas, bem como o seu domínio sobre
todas elas, incluindo as criaturas mais elevadas e invisíveis, isto é, o mundo
dos anjos, “Anjos, Dominações e Potestades”, seres que também
Evangelho
São Marcos 1, 12-15
Naquele tempo, 12o Espírito Santo impeliu Jesus
para o deserto. 13Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por
Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. 14Depois de
João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o
Evangelho, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Todos os anos temos no 1º Domingo da Quaresma o
texto evangélico das tentações de Jesus; neste ano B, temo-las na forma mais simples,
desprovida de qualquer espécie de encenação, a do Evangelista do ano, S.
Marcos.
13 “Esteve no deserto 40 dias”. A nossa Quaresma
recorda esses dias. S. Marcos não se refere ao jejum do Senhor, mas apenas às
tentações, e apenas dum modo genérico – “era tentado. Vivia com os animais
selvagens e os Anjos serviam-no” (cf. Mt 4, 1-11). Satanás (em hebraico,
“xatan”) significa adversário, acusador (em grego, “diábolos”, caluniador. As
tentações do demónio visavam desviar Jesus da sua missão, com a sedução do
protagonismo para vir a ser um messias milagreiro, espectacular e ambicioso. O
Evangelho põe em evidência o maravilhoso exemplo do Senhor: um exemplo de
humildade, ao sujeitar-se aos ataques do demónio, e de fortaleza, ao resistir
decididamente, sem a mais pequena vacilação ou cedência. Vem a propósito o belo
comentário de Sto. Agostinho, que se lê no Ofício de Leituras: “A nossa vida,
enquanto somos peregrinos na terra, não pode estar livre de tentações, e o
nosso aperfeiçoamento realiza-se precisamente através das provações. Ninguém se
conhece a si mesmo, se não for provado; ninguém pode receber a coroa, se não
tiver vencido; ninguém pode vencer, se não combate; e ninguém pode combater, se
não tiver inimigos e tentações. Bem poderia Ele ter mantido o demónio longe de
Si; mas se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação”
(Enar. in Ps. 60).