2.º
Domingo do Advento B
Pe. Geraldo
Morujão
1.ª leitura
Isaías 40, 1-5.9-11
1Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. 2Falai
ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram
os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa, porque recebeu da mão
do Senhor duplo castigo por todos os seus pecados. 3Uma voz clama:
«Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada
para o nosso Deus. 4Sejam alteados todos os vales e abatidos os
montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas
escarpadas. 5Então se manifestará a glória
do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência, porque a boca
do Senhor falou».9Sobe ao alto dum monte, arauto de Sião!
Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz
e diz às cidades de Judá: «Eis o vosso Deus. 10O
Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará. Com Ele vem
o seu prémio, precede-O a sua recompensa. 11Como um pastor
apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará
os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».
A leitura corresponde ao início do Segundo Isaías (Is 40,
1 – 55, 13), também chamado “Livro da Consolação”,
que começa com uma voz misteriosa que diz em nome de Deus: “Consolai,
consolai o meu povo, diz o nosso Deus” (v. 1). O contexto deuteroisaiano
é o da situação do Povo no cativeiro de Babilónia,
para onde os judeus mais válidos e importantes tinham sido levados
em sucessivas deportações, que culminaram com a destruição
de Jerusalém e do Templo em 587. O Profeta, continuador do grande Isaías
do século VIII, começa, no início da 1ª parte desta
obra (cap. 40 – 48), por animar os deportados abatidos a disporem-se
para o caminho de regresso à terra-mãe, aproveitando o decreto
de Ciro, rei dos Persas, que, tendo em 539 conquistado Babilónia, autorizava
os deportados a regressarem às suas terras de origem. O Profeta esclarece
que esta libertação é obra de Deus, Senhor do mundo e
do curso da história, que se serve do rei Ciro, como seu “ungido”,
para trazer a liberdade ao Povo. Este regresso, difícil sobretudo para
quem já tinha nascido no desterro e para quem ali se encontrava sofrivelmente
instalado, é enaltecido e apresentado poeticamente como um “novo
êxodo”, ainda mais maravilhoso do que o primeiro. O regresso não
será um caminho difícil e penoso, pois o Senhor vai fazer grandes
prodígios a favor dos retornados.
3 “Uma voz clama: 'Preparai
no deserto o caminho do Senhor…’”, tem uma esplêndida
actualização na abertura do Evangelho de S. Marcos, o Evangelista
deste ano B. Na tradição bíblica o deserto, passa a ter um profundo significado
simbólico, como o lugar do encontro com Deus, na solidão e na
intimidade da alma em oração, como o tempo de prova e purificação.
O abater dos montes e o altear
das terras abatidas para construir estradas – coisa então impensável
sem a potente maquinaria moderna – é uma ousada metáfora,
que se presta a ser aplicada às disposições da alma para
que Deus entre nela. O texto da leitura, admiravelmente musicado no início
do Messias de Händel, é bem adequado para nos introduzir no espírito
do Advento, a preparar a vinda do Senhor, com disposições de
humildade e rectidão para endireitar tudo o que na nossa vida ande
mais ou menos desviado da vontade de Deus (cf. v. 4).
2.ª leitura
2 São
Pedro 3, 8-14
8Há uma coisa, caríssimos, que não deveis
esquecer: um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um
dia. 9O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa,
como pensam alguns. Mas usa de paciência para convosco e não
quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se.
10Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão:
nesse dia, os céus desaparecerão com fragor, os elementos dissolver-se-ão
nas chamas e a terra será consumida com todas as obras que nela existem.
11Uma vez que todas as coisas serão assim dissolvidas, como
deve ser santa a vossa vida e grande a vossa piedade, 12esperando
e apressando a vinda do dia de Deus, em que os céus se dissolverão
em chamas e os elementos se fundirão no ardor do fogo! 13Nós
esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra,
onde habitará a justiça. 14Portanto, caríssimos,
enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de
censura, para que o Senhor vos encontre na paz.
No final desta epístola o autor
inspirado tenta dar uma resposta aos que estavam perplexos com a demora da
segunda vinda de Cristo; com efeito, tão grande era o desejo de que
Ele chegasse, que chegaram a convencer-se da sua proximidade! Temos aqui um
apelo à fé, pois o Senhor sempre cumpre o que promete, mas a
verdade é que o dia da sua vinda nos é desconhecido e todos
os cálculos humanos estão destinados a falhar, uma vez que para
Deus “mil anos são como
um só dia”, no dizer do Salmo 89 (90), 4; por outro lado,
Ele quer dar tempo para que “todos
se possam arrepender” (v. 9).
10 “O dia do Senhor chegará como um ladrão” é
uma expressão tradicional que consta dos ensinamentos de Jesus e dos
Apóstolos: cf. Mt 24, 36.43-44.48-50; Lc 12, 35-48; 1 Tes 5, 4-6;2 Tim 2, 13-14; Apoc 3, 3.
12-13 “Os céus se dissolverão em chamas e os elementos se
fundirão no ardor do fogo”: Não parece que se esteja
a falar dos quatro elementos da Natureza, segundo os antigos: terra, água,
ar e fogo; pela oposição à “Terra”, parece
que a expressão se refere aos corpos celestes. No entanto, o género
destas expressões é claramente apocalíptico, uma linguagem
figurada, grandiosa e aterradora, com que se alude a uma poderosa intervenção
de Deus, mas sem que nada de concreto se possa especificar. Mas não
se pense que tudo vá terminar na destruição; acabará
certamente este tipo de vida e, em vez de aniquilamento, o que acontecerá
há-de ser uma radical transformação – “os
novos céus e a nova terra” –, que também não
sabemos em que vai consistir. Estamos perante uma outra rara citação
do A. T. na Secunda Petri (Is 65,
17; 66, 22; cf. Rom 8, 18-30; 2 Cor 5, 14-15; Apoc 21, 1; cf. tb. Jds 24).
Trata-se de uma nova ordem de coisas, “onde habitará a justiça”, isto é,
a santidade e a plena harmonia de acordo com o projecto de Deus, pois não
haverá mais pecado e os pecadores rebeldes estarão para sempre
apartados para o fogo eterno (cf.
Mt 25, 41). O mais que se diga é especulação e alimento
mais ou menos edificante da imaginação.
Evangelho
São Marcos
1, 1-8
1Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
2Está escrito no profeta Isaías: «Vou enviar
à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho.
3Uma voz clama no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai
as suas veredas'». 4Apareceu João Baptista no deserto
a proclamar um baptismo de penitência para remissão dos pecados.
5Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos
os habitantes de Jerusalém e eram baptizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados. 6João vestia-se de pêlos
de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos
e mel silvestre. 7E, na sua pregação, dizia: «Vai
chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu
não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias.
8Eu baptizo-vos na água, mas Ele baptizar-vos-á no
Espírito Santo».
S. Marcos começa o seu Evangelho com umas breves referências
à pregação do Baptista (vv. 2-8) e ao Baptismo de Jesus
(vv. 9-11) e uma brevíssima alusão às tentações
no deserto (vv. 12-13), que constituem como que o prólogo da sua obra.
À primeira vista, poderia parecer que no 1º versículo –
“Princípio do Evangelho
de Jesus Cristo, Filho de Deus” – a palavra Evangelho designaria
o seu escrito. Mas a verdade é que estas palavras são como que
a síntese de toda a obra: “Jesus” é “Cristo”,
isto é, o Messias anunciado pelos profetas e também o “Filho de Deus”. Todo o Evangelho
de Marcos está enquadrado nesta confissão de fé, com
que também finaliza a vida terrena de Jesus: ”verdadeiramente este homem era Filho de Deus (Mc 15, 39). O
próprio Jesus é Ele mesmo o “princípio”
da salvação, pois Ele é a Boa Nova, o “Evangelho”. A palavra grega “evangelho” significa boa notícia; no Novo Testamento
é o feliz anúncio da salvação que Deus comunica
aos homens por meio de seu Filho.
A citação inicial (vv. 2-3) de Isaías 40, 3 (cf.
1ª leitura de hoje) tem o valor da citação do Profeta messiânico
por excelência, por isso engloba na citação uma parte
que nem sequer é de Isaías, o v. 2, mas do profeta Malaquias
(Mal 3, 1; cf. Ex 23, 20). A grandeza de Jesus é posta em relevo pela
humildade de João que afirma: “eu não sou digno de me inclinar
para desatar as correias das suas sandálias” (v. 7); com
efeito desatar as sandálias era considerado algo tão humilhante,
que nem sequer se podia exigir a uma escravo que fosse judeu. O convite do
Baptista à “penitência”
(v. 4) é o melhor apelo a “preparar o caminho do Senhor”
para o Natal que se aproxima;
o próprio João aparece como um modelo de preparação:
um homem desprendido e penitente (cf. v. 6).