2º Domingo da Quaresma (B)
12 de Março de 2006
Tema do 2º Domingo do Tempo da
Quaresma
No segundo Domingo da Quaresma, a
Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir para
chegar à vida nova: é o caminho da escuta atenta de
Deus e dos seus projectos, o caminho da obediência total
e radical aos planos do Pai.
O Evangelho relata a
transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo
Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de
Deus, que vai concretizar o seu projecto libertador
em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e
assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à
vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.
Na primeira leitura apresenta-se
a figura de Abraão como paradigma de uma certa atitude
diante de Deus. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus,
que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total (mesmo
quando os planos de Deus parecem ir contra os seus sonhos e projectos
pessoais). Nesta perspectiva, Abraão é o modelo do crente que percebe o projecto de Deus e o segue de todo o coração.
A segunda leitura lembra aos
crentes que Deus os ama com um amor imenso e eterno. A melhor prova desse amor
é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus que morreu para ensinar ao homem o
caminho da vida verdadeira. Sendo assim, o cristão nada tem a temer e deve
enfrentar a vida com serenidade e esperança.
LEITURA I – Gen
22,1-2.9a.10-13.15-18
Leitura do Livro do Génesis
Naqueles dias,
Deus quis pôr à prova Abraão e
chamou-o:
«Abraão!»
Ele respondeu: «Aqui estou».
Deus disse: «Toma o teu filho,
o teu
único filho, a quem tanto amas, Isaac,
e vai à
terra de Moriá,
onde o
oferecerás em holocausto,
num dos
montes que Eu te indicar.
Quando chegaram ao local
designado por Deus,
Abraão levantou um altar e
colocou a lenha sobre ele.
Depois, estendendo a mão, puxou
do cutelo para degolar o filho.
Mas o Anjo do Senhor gritou-lhe
do alto do Céu:
«Abraão, Abraão!»
«Aqui estou,
Senhor», respondeu ele.
O Anjo prosseguiu:
«Não levantes a mão contra o
menino,
não lhe
faças mal algum.
Agora sei que na verdade temes a
Deus,
uma vez
que não Me recusaste o teu filho, o teu único filho».
Abraão ergueu os olhos
e viu
atrás de si um carneiro, preso pelos chifres num silvado.
Foi buscá-lo e ofereceu-o em
holocausto, em vez do filho.
O Anjo do Senhor chamou Abraão do
Céu pela segunda vez
e
disse-lhe:
«Por Mim próprio te juro –
oráculo do Senhor –
já que
assim procedeste
e não Me
recusaste o teu filho, o teu único filho,
abençoar-te-ei
e multiplicarei a tua descendência
como as
estrelas do céu e como a areia das praias do mar,
e a tua
descendência conquistará as portas das cidades inimigas.
Porque obedeceste à minha voz,
na tua
descendência serão abençoadas todas as nações da terra».
AMBIENTE
A primeira leitura de hoje faz
parte de um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições
patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto
de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande
unidade e sem carácter de documento histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de
origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã),
“lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao
patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o 2º milénio e reflexões teológicas posteriores destinadas a
apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
O relato do sacrifício de Isaac (Gn 22) é uma “lenda cultual”. Nasceu, provavelmente, num
santuário do sul do país, muito antes de os patriarcas bíblicos se terem
instalado na zona. A lenda primitiva contava como num lugar sagrado (o texto
sugere que esse lugar se chamaria “El Yreêh”) o deus aí adorado tinha salvo
uma criança destinada a ser oferecida em sacrifício (no mundo dos cananeus, os sacrifícios humanos eram relativamente frequentes). A partir daí, nesse lugar, os sacrifícios de
crianças tinham sido substituídos por sacrifícios de animais. Foi essa a
primeira etapa da tradição que nos é hoje proposta.
Numa segunda fase, esta história
primitiva foi aplicada à figura de Abraão, quando o clã de Abraão se instalou
na zona. O pai cananeu da primitiva história, que
levava o filho para ser oferecido em sacrifício, foi identificado com o
patriarca Abraão. A tradição acabou por englobar um clã ligado ao de Abraão, o
clã de Isaac. Isaac tornou-se, assim, o filho destinado ao sacrifício de que
falava a velha lenda pré-israelita.
Numa terceira fase, os teólogos elohistas (séc. VIII a.C.) pegaram na antiga lenda cultual
e puseram-na ao serviço da sua catequese. Na reflexão dos catequistas de
Israel, a antiga lenda cultual de “El Yreêh” tornou-se uma catequese sobre uma “prova” em que o
justo Abraão manifestou a sua obediência radical e a sua confiança em Elohim.
Por fim, um redactor
pós-elohista acrescentou ao texto outros elementos de
carácter teológico. Foi, certamente, ele que ligou a
lenda do sacrifício de Isaac com o monte santo dos sacrifícios do Templo de
Jerusalém; foi ele, também, que acrescentou à história a ideia
de que o comportamento de Abraão para com Deus mereceu uma recompensa e que
essa recompensa iria, no futuro, derramar-se sobre todos os descendentes de Abraão.
MENSAGEM
No início da narração (vers. 1) aparece um verbo que vai presidir a todo o relato
e vai definir o sentido que os catequistas elohistas
atribuíram a esta história: o verbo “pôr à prova” (em hebraico “nassah”). No Antigo Testamento, este verbo apresenta, com frequência, as “nuances” de “examinar”, “experimentar”,
“demonstrar”, “testar”. À partida, define-se logo o que está em jogo: Deus vai
“submeter Abraão a um teste”. A ideia de que Deus
submete o seu Povo ou indivíduos particulares a “provas” é relativamente frequente no Antigo Testamento. Estas “provas” servem,
normalmente, para que Deus possa conhecer o coração do seu Povo e experimentar
a sua fidelidade (cf. Dt 8,2). São
uma forma de Deus confirmar que tal comunidade ou tal pessoa é digna e é capaz
de viver uma relação de especial comunhão e intimidade com Ele. Abraão,
contudo, não sabe que está a ser “testado”.
A “prova” a que Abraão é
submetido é especialmente dramática: Jahwéh pede-lhe
que tome Isaac, o seu único filho, e o ofereça em holocausto sobre um monte (vers. 2). Contudo, Isaac não é, apenas, o filho único e
amado de Abraão, embora só isso já fosse suficiente para tornar esta “prova”
tremendamente dura; mas Isaac é, também, o herdeiro dessa promessa que Deus,
continuamente, renovou a Abraão… Isaac é a garantia de
um futuro, dessa descendência numerosa que irá tomar posse da terra; é a
garantia dessas promessas que deram sentido à peregrinação de Abraão desde que
Deus o mandou deixar a sua terra, a sua família e a casa de seus pais. Abraão
encontra-se diante de um Deus que parece retomar o que havia dado e cuja
palavra de hoje parece desmentir a de ontem. Porquê
essa mudança de planos? Quais são, na realidade, os desígnios de Deus? Pode-se
confiar num Deus que muda de ideias desta forma? A
aposta de Abraão em deixar tudo (cf. Gn 12) para
apostar nos desafios de Deus terá sido uma boa opção? A verdadeira “prova” é
esta… É o absurdo de uma exigência que nega a própria história da salvação; é o
continuar a esperar num Deus que, num instante, parece querer destruir os
sonhos que Ele próprio ajudou a criar; é o continuar a confiar num Deus que se
contradiz e que parece, de repente, esquecer tudo o que tinha prometido; é o
impasse, a obscuridade, o sofrimento
Como é que Abraão vai reagir a
esta tremenda “prova”? Do princípio ao fim, Abraão não abre a boca a não ser
para dizer “aqui estou” (vers. 1. 11) – expressão de
disponibilidade total diante de Deus. De resto, Abraão não discute, não
argumenta, não procura obter respostas para esse drama incompreensível que
parece hipotecar tudo o que Deus lhe havia prometido. Abraão age, apenas.
Levanta-se de madrugada, prepara as coisas para o holocausto, põe-se a caminho.
Já no “monte do sacrifício”, Abraão constrói o altar, amarra a vítima e puxa do
cutelo para matar o filho. O silêncio de Abraão, a imediatez
da resposta e a forma determinada como age mostram a entrega, a confiança
absoluta em Deus, a obediência levada até às últimas consequências.
Percorrido o longo e angustiante
caminho da “prova”, chega finalmente o momento
A nossa história termina com uma
referência à “recompensa” oferecida por Deus. A obediência de Abraão irá gerar
plenitude de vida e de dons divinos (bênção), uma descendência numerosa “como
as estrelas do céu ou como a areia que está na margem do mar” e a posse da
terra (vers. 17). O mais interessante é a indicação
de que a obediência do “justo” Abraão terá um alcance universal e resultará em
bênção para “todas as nações da terra”.
Nesta “catequese”, a intenção
fundamental do autor não é dizer-nos quem é Deus e como é que Ele age (por
isso, não adianta estarmos a “perguntar” ao texto se, na realidade, os métodos
de Deus passam por submeter o homem a provas desumanas a fim de o “testar”). A
história do sacrifício de Isaac destina-se, sobretudo, a propor-nos a atitude
que o crente deve assumir diante de Deus. Abraão é apresentado como o protótipo
do crente ideal, que sabe escutar Deus e acolher os seus projectos
com obediência incondicional, com confiança total… Mesmo que as propostas de
Deus resultem incompreensíveis ou que os desafios de Deus interfiram com os projectos do homem, o crente ideal deve acolher os planos
de Deus e realizá-los com fidelidade. Foi para deixar esta lição aos seus
concidadãos – lição que serve, naturalmente, para os crentes de todos os tempos
– que os teólogos elohistas foram buscar esta velha
lenda.
ACTUALIZAÇÃO
• O comportamento de Abraão face
a esta “crise” revela, antes de mais, o lugar absolutamente central que Deus
ocupa na sua existência. Deus é, para Abraão, o valor máximo, a prioridade
fundamental; por isso, Abraão mostra-se disposto a fazer a Deus um dom total e
irrevogável de si próprio, da sua família, do seu futuro, dos seus sonhos, das
suas aspirações, dos seus projectos, dos seus
interesses. Para Abraão, nada mais conta quando estão em jogo os planos de
Deus… Na vida do homem do nosso tempo, contudo, nem sempre Deus ocupa o lugar
central que lhe é devido. Com frequência, o dinheiro,
o poder, a carreira profissional, o reconhecimento social, o sucesso, ocupam o
lugar de Deus e condicionam as nossas opções, os nossos interesses, os valores
que nos orientam. Abraão, o crente para quem Deus é a
coordenada fundamental à volta da qual toda a vida se constrói
convida-nos, nesta Quaresma, a rever as nossas prioridades e a dar a Deus o
lugar que Ele merece.
• Na sua relação com Deus, o
crente Abraão manifesta uma vasta gama de “qualidades” – a reverência, o
respeito, a humildade, a disponibilidade, a obediência, a confiança, o amor, a
fé – que o definem como o crente “ideal”, o modelo para os crentes de todas as
épocas. Neste tempo de preparação para a Páscoa, são estas “qualidades” que nos
são propostas, também. É preciso que realizemos, um
caminho de conversão que nos torne cada vez mais atentos e disponíveis para
acolher e para viver na fidelidade aos planos de Deus.
• O crente Abraão ensina-nos,
ainda, a confiar em Deus, mesmo quando tudo parece cair à nossa volta e quando
os caminhos de Deus se revelam estranhos e incompreensíveis. Quando os nossos projectos se desmoronam, quando as nuvens negras da guerra,
da violência, da opressão se acastelam no horizonte da nossa existência, quando
o sofrimento nos leva ao desespero, é preciso continuar a caminhar serenamente,
confiando nesse Deus que é a nossa esperança e que tem um projecto
de vida plena para nós e para o mundo.
• A ideia
de que a obediência de Abraão é fonte de vida para ele, para a sua família e
para “todas as nações da terra”, deve ser uma espécie de “selo de garantia” que
atesta a validade deste caminho. Fazer de Deus o centro da própria existência e
renunciar aos próprios critérios e interesses para cumprir os planos de Deus
não é uma escravidão, mas um caminho que nos garante (a nós e aos nossos
irmãos) o acesso à vida plena e verdadeira.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 115
(116)
Refrão 1: Andarei na presença do
Senhor
sobre a
terra dos vivos.
Refrão 2: Caminharei na terra dos
vivos
na
presença do Senhor.
Confiei no Senhor, mesmo quando
disse:
«Sou um homem de todo infeliz».
É preciosa aos olhos do Senhor
a morte
dos seus fiéis.
Senhor, sou
vosso servo, filho da vossa serva:
quebrastes
as minhas cadeias.
Oferecer-Vos-ei um sacrifício de
louvor,
invocando,
Senhor, o vosso nome.
Cumprirei as minhas promessas ao
Senhor
na
presença de todo o povo,
nos
átrios da casa do Senhor,
dentro
dos teus muros, Jerusalém.
LEITURA II – Rom 8,31b-34
Leitura da Epístola do apóstolo
São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Se Deus está por nós, quem estará
contra nós?
Deus, que não poupou o seu
próprio Filho,
mas O
entregou à morte por todos nós,
como não
havia de nos dar, com Ele, todas as coisas?
Quem acusará os eleitos de Deus?
Deus, que os justifica?
E quem os condenará?
Cristo Jesus, que morreu, e mais
ainda, que ressuscitou
e que
está à direita de Deus e intercede por nós?
AMBIENTE
Quando Paulo escreve aos Romanos,
está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para
Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria
levar o Evangelho ao ocidente. Dirigindo-se por carta aos Romanos, Paulo
aproveita para contactar a comunidade cristã de Roma
e para apresentar aos membros da comunidade os principais problemas que o
ocupavam (entre os quais sobressaía a questão da unidade – um problema bem
presente na comunidade cristã de Roma, afectada por
alguns problemas de relacionamento entre judeo-cristãos
e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Na primeira parte da Carta aos
Romanos (cf. Rom 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que
o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de
judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afecta todos os homens (cf. Rom 1,18-3,20), a “justiça de
Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rom 3,1-5,11); e é
Apesar das barreiras que é
necessário vencer, das nuvens ameaçadoras e dos mil
desafios que, dia a dia, se põem ao crente que segue o caminho de Jesus, o
cristão pode e deve confiar no êxito final. Porquê?
Num hino de triunfo, apaixonado e
optimista, que exalta o amor de Deus (cf. Rom
8,31-39), Paulo diz aos cristãos porque é que eles devem ter esperança no
triunfo final.
MENSAGEM
A razão para a esperança dos cristãos
está na certeza que Deus ama todos os seus filhos com um amor imenso e eterno.
O envio ao mundo de Jesus Cristo, o Filho único de Deus, que nos ensinou o
caminho da vida plena e da felicidade sem fim, que lutou até à morte contra
tudo o que oprimia e escravizava o homem, é a “prova provada” do imenso amor de
Deus por nós (vers. 32).
Ora, se Deus nos ama dessa forma
tão intensa e tão total, nada nem ninguém nos pode acusar, condenar, destruir
ou fazer mal. É Deus “quem nos justifica” (vers. 33)
– quer dizer, é Deus que, na sua imensa bondade, pronuncia sobre nós um
veredicto de graça e de perdão, apesar das nossas faltas e infidelidades.
Ninguém nos condena pois o próprio Deus (o único que o
poderia fazer) escolheu salvar-nos, mesmo que o não merecêssemos.
Sendo assim, o cristão deve
enfrentar a vida com serenidade e esperança, confiando totalmente no amor de
Deus.
ACTUALIZAÇÃO
• Para Paulo, há uma constatação
incrível, que não cessa de o espantar: Deus ama-nos
com um amor profundo, total, radical, que nada nem ninguém consegue apagar ou
eliminar. Esse amor veio ao nosso encontro
• Descobrir esse amor dá-nos a
coragem necessária para enfrentar a vida com serenidade, com tranquilidade e com o coração cheio de paz. O crente é
aquele homem ou mulher que não tem medo de nada porque está consciente de que
Deus o ama e que lhe oferece, aconteça o que acontecer, a vida
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO
(escolher um dos 7 refrães)
1. Louvor e glória a Vós, Jesus
Cristo, Senhor.
2. Glória a Vós, Jesus Cristo,
Sabedoria do Pai.
3. Glória a Vós, Jesus Cristo,
Palavra do Pai.
4. Glória a Vós, Senhor, Filho do
Deus vivo.
5. Louvor a Vós, Jesus Cristo,
Rei da eterna glória.
6. Grandes e admiráveis são as
vossas obras, Senhor.
7. A salvação, a glória e o poder
a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
No meio da nuvem luminosa,
ouviu-se a voz do Pai:
«Este é o meu Filho muito amado:
escutai-O».
EVANGELHO – Mc
9,2-10
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago
e João
e subiu
só com eles
para um
lugar retirado num alto monte
e
transfigurou-Se diante deles.
As suas vestes tornaram-se
resplandecentes,
de tal brancura
que nenhum lavadeiro sobre a terra
as
poderia assim branquear.
Apareceram-lhes Moisés e Elias,
conversando com Jesus.
Pedro tomou a palavra e disse a
Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos
aqui!
Façamos três tendas:
uma para
Ti, outra para Moisés, outra para Elias».
Não sabia o que dizia, pois
estavam atemorizados.
Veio então uma nuvem que os
cobriu com a sua sombra
e da
nuvem fez-se ouvir uma voz:
«Este é o meu Filho muito amado:
escutai-O».
De repente, olhando em redor,
não
viram mais ninguém,
a não
ser Jesus, sozinho com eles.
Ao descerem do monte,
Jesus ordenou-lhes que não
contassem a ninguém
o que
tinham visto,
enquanto
o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos.
Eles guardaram a recomendação,
mas
perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.
AMBIENTE
A segunda parte do Evangelho de
Marcos começa com um anúncio da Paixão, posto na boca de Jesus (cf. Mc 8,31-32). Nesta altura, os discípulos já tinham
percebido que Jesus era o Messias libertador que Israel esperava (cf. Mc 8,29); mas ainda acreditavam que a missão messiânica de
Jesus se ia concretizar num triunfo militar sobre os opressores romanos. Marcos
vai explicar aos crentes a quem o Evangelho se destina que o projecto messiânico de Jesus não se vai concretizar em
triunfos humanos, mas sim na cruz – isto é, no amor e no dom da vida.
O relato da transfiguração de
Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mc
8,31-33) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado
a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de
amor e de entrega da vida – cf. Mc 8,34-38). Depois
de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que
Jesus pede aos que O querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados,
pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso;
eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém
– os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se
se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte
na cruz.
É neste contexto que Marcos
coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para
os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de
Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de
Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projecto
que Jesus apresenta é um projecto que vem de Deus; e,
apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes
permite “embarcar” e apostar nesse projecto.
Literariamente, a narração da
transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma
manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro todos
os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus
(e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos
do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes
brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o
encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um
relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de
acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado
de Deus, que traz aos homens um projecto que vem de
Deus.
MENSAGEM
Esta página de catequese,
destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projecto
que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados
do Antigo Testamento. Que elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de
revelação: é sempre num monte que Deus se revela; e, em especial, é no cimo de
um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.
A mudança do rosto e as vestes
brilhantes, muitíssimo brancas, recordam o resplendor de Moisés, ao descer do
Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da
Lei.
A nuvem, por sua vez, indica a
presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando
conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm
9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias representam a Lei
e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso,
são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia
do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23).
O temor e a perturbação dos
discípulos são a reacção lógica de qualquer homem ou
mulher, diante da manifestação da grandeza, da omnipotência
e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa
das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus
habitou em “tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amassada
com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a
simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado
de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias
libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos
Profetas (Elias). Mais ainda: Ele é um novo Moisés – isto é, Aquele através de
quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos
homens uma nova Aliança.
Da acção
libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse
novo Povo, Deus vai fazer uma nova Aliança; e vai percorrer com ele os caminhos
da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à
liberdade.
Esta apresentação tem como
destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque
no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque
o mestre exige dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante).
Aponta para a ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta
em Jesus, pelas “vestes brilhantes, muitíssimo brancas” (que lembram a túnica branca do “jovem” sentado junto do túmulo de Jesus
e que anuncia às mulheres a ressurreição – cf. Mc
16,5) e pela recomendação final de Jesus (“que não contassem a ninguém o que
tinham visto, enquanto o Filho do Homem não ressuscitasse dos mortos” – Mc 9,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois
no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem
Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Uma palavra final para o desejo –
manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se
pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que
os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o
destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o projecto de Deus – esse projecto
de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da escravidão para a liberdade –
tem de passar pelo caminho do dom da vida, da entrega total, do amor até às
últimas consequências.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode fazer-se partindo
das seguintes questões:
• A questão fundamental expressa
no episódio da transfiguração, está na revelação de Jesus como o Filho amado de
Deus, que vai concretizar o projecto salvador e
libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela transfiguração de
Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma
existência feita dom, não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena
e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
• Na verdade, os homens do nosso
tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos
irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências
(até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus
interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não
está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais
débeis, dos mais marginalizados, dos mais infelizes), mas no assegurar para si
próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade, de domínio,
que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida
vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo
complicado de conquista de honras, de glórias, de êxitos. Na verdade, onde é
que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas
humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da
lógica do Evangelho?
• Por vezes somos tentados pelo
desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então,
parece que seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados,
que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a
conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A
transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois
a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva,
à felicidade sem fim.
• Os três discípulos, testemunhas
da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à
terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles
que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem
vontade de intervir para o renovar e transformar. No
entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar
aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom
da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus
problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo
para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um
ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de
amor com o mundo e com os homens.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
2º DOMINGO DA QUARESMA
1. A LITURGIA MEDITADA AO LONGO
DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 2º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa…
2. PALAVRA DE VIDA.
Jesus tem encontro com seu Pai. O
monte é o lugar de encontro com Deus: Moisés e Elias encontram Deus no monte Horeb, Jesus retira-se muitas vezes para o monte para
rezar. Naquele dia, Deus toma a palavra para reconhecer Jesus como seu Filho
bem-amado, e pede para O escutar. Jesus tem encontro
com Moisés e Elias, estes porta-vozes cheios do poder de Deus libertador junto
do seu povo. A sua presença no monte da transfiguração revela que Jesus veio
cumprir tudo o que os profetas tinham anunciado. Enfim, Jesus tem encontro no
monte das Oliveiras com as testemunhas adormecidas da Paixão. E se Jesus se
transfigura a seus olhos, é para lhes fazer ver a glória que Lhe vem de seu
Pai. Mas para conhecer esta glória, é preciso passar pelo sofrimento e pela
morte. Ainda não chegou o momento para nos sentarmos, é preciso retomar o
caminho para “passar” com o Mestre.
3. À ESCUTA DA PALAVRA.
A sua Palavra como uma semente de
vida.
«Mestre, como é bom estarmos
aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias».
Dito de outro modo: instalemo-nos, fiquemos aqui para
sempre, estamos tão bem a contemplar a tua glória! Como seria tão bom se nós
tivéssemos podido guardar Jesus glorioso no meio de nós! Ele manifestaria desde
agora a sua vitória sobre todas as forças do mal e sobre a própria morte. Ele
curaria todas as doenças, Ele estabeleceria a justiça, Ele apaziguaria todas as
tempestades, Ele suprimiria todas as violências. Jesus estaria sempre ao nosso
serviço, à nossa disposição! Seria verdadeiramente o paraíso na terra! Mas
Jesus não se deixou apanhar na armadilha. «Olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles». Foi
necessário retomar o caminho quotidiano. Será preciso que atravessem a noite do
Gólgota, depois os seus próprios sofrimentos e a sua
própria morte. Jesus não veio tirar-nos da nossa condição humana com uma
varinha mágica. Mas Ele vem juntar-se a nós nos nossos caminhos pedregosos,
dando-nos o seu Espírito para que nos tornemos capazes de O
escutar, no mais íntimo de nós mesmos. Então a sua Palavra pode
enraizar-se cada vez mais profundamente em nós, como uma semente de vida. Não a
percebemos sempre… mas ela rebentará na plenitude da luz, na Ressurreição com
Jesus.
4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
A nossa fé na ressurreição…
Concretamente, como fazer, que fazer?
Alguns meios podem ajudar-nos: a
oração, para pedir a Deus a fé (que é graça) e a sua luz; a meditação da
Palavra de Deus; leituras, livros de teologia ou de espiritualidade,
testemunhos de crentes; ou ainda a ajuda de um conselheiro espiritual, que nos
permita debater questões mais actuais
(incompatibilidade entre fé na ressurreição e crença na reencarnação, por
exemplo).
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas
Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
scj.lu@netcabo.pt – www.ecclesia.pt/dehonianos