2º
Domingo de Páscoa
(Pe. Geraldo Morujão)
1ª Leitura
Actos 2, 42–47
42Os irmãos eram
assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fracção do pão e às
orações. 43Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados
pelos Apóstolos, toda a gente se enchia de temor. 44Todos os que
haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. 45Vendiam
propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as
necessidades de cada um. 46Todos os dias frequentavam o templo, como
se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com
alegria e simplicidade de coração, 47louvando a Deus e gozando da
simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava todos os dias o número dos que
deviam salvar–se.
Esta é a primeira das três
“descrições sumárias” de Actos da primitiva comunidade cristã de Jerusalém.
Temos outras em: Act 4, 32-35; e 5, 12-16. Nestas descrições focam-se três
aspectos da vida dos primeiros cristãos de Jerusalém: a sua vida religiosa, o
cuidado dos pobres e os prodígios realizados pelos Apóstolos, insistindo-se ora
num, ora noutro aspecto; aqui insiste-se na vida religiosa. Os
relatos sumários são breves resumos da vida da Igreja, que não se reduzem a
estes três relatos maiores. Os críticos vêem nalguns deles uma descrição um
tanto idealizada, pois é feito um juízo global a partir de casos concretos,
como quando se diz que ninguém tinha nada seu (4, 42), ou que todos eram
curados (5, 16), etc. A credibilidade do conteúdo destes sumários é no entanto
confirmada pelo facto de que a clara visão
idílica de alguns sumários não leva o autor a deformar a realidade, pois
não esconde acontecimentos que podiam embaciar essa visão tão optimista (por
ex., o caso de Ananias e de Safira, em Act 5, 1-11).
42
“O ensino dos Apóstolos”. Os
Apóstolos não se limitavam a pregar em ordem à conversão inicial e ao Baptismo
(cf. Act 2, 14-41); dedicavam-se também a uma instrução catequética dos que já
tinham a fé.
“A comunhão fraterna”, isto é, havia uma grande
unidade de espíritos e de corações (“um
só coração e urna só alma” Act 4, 32); a tradução latina da Vulgata
interpretou a expressão no sentido da comunhão eucarística (“comunhão da fracção do pão”), uma vez
que, de facto, este Sacramento é o fundamento da união de todos os cristãos
entre si: 1 Cor 10, 17.
“Fracção do pão”: partir do pão era o nome primitivo dado à celebração da Eucaristia,
um nome tirado do gesto de Jesus de partir o pão na Última Ceia. Com
toda a probabilidade, temos aqui uma referência à
celebração eucarística, designada desta maneira em 1 Cor 10, 16-17 e Act 20, 7
44 “Tinham tudo em comum”. Esta atitude extraordinariamente generosa
ficou para sempre como um luminoso exemplo de como “compartilhar com os outros
é uma atitude cristã fundamental… Os primeiros cristãos puseram em prática espontaneamente
o princípio segundo o qual os bens deste mundo são destinados pelo Criador à
satisfação das necessidades de todos sem excepção” (Paulo VI). Esta atitude
cristã nada tem que ver com a colectivizarão de toda a propriedade privada
imposta por um estado totalitário, pois aqui era respeitada a liberdade
individual, podendo não se pôr tudo em comum, por isso em Actos se louva o
gesto de Barnabé (Act 4, 36-37) e se censura a fraude de Ananias (Act 5, 4).
Daqui se conclui que o “todos” do
texto é uma generalização.
46 No princípio, os cristãos de
Jerusalém continuavam a participar nos actos de culto judaico, acrescentando a
essas práticas um novo rito que celebravam nas casas particulares: a
Eucaristia, que, como é óbvio, não podiam celebrar no Templo. O original grego
sugere mesmo que esta se celebrava, ora numa casa, ora noutra. Pode-se
perguntar se a celebrariam diariamente. Não é certo, mas a sua celebração no
“primeiro dia da semana” consta-nos de Act 20, 7.11; 1 Cor 16, 2; cf. Didaquê, 14, 1, dia que já na época
apostólica se começa a chamar “dia do Senhor”, isto é, Domingo (cf. Apoc 1,
10).
“Com alegria”. 5. Lucas sublinha frequentemente esta alegria dos
primeiros cristãos: (Act 5, 41; 8, 8.39; 13, 48-52; 15, 3; 16, 34), bem como o
tom de louvor que havia na sua vida de oração (v. 47; cf. 3, 8.9; 4, 21; 10,
46; 11, 18; 13, 48; 19, 17; 21, 20).
2ª Leitura
1 Pedro 1, 3–9
3Bendito seja Deus,
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, na sua grande misericórdia, nos fez
renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, 4para
uma esperança viva, para uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem
desaparece, reservada nos Céus para vós 5que pelo poder de Deus sois
guardados, mediante a fé, para a salvação que se vai revelar nos últimos tempos.
6Isto vos enche de alegria, embora vos seja preciso ainda, por pouco
tempo, passar por diversas provações, 7para que a prova a que é
submetida a vossa fé – muito mais preciosa que o ouro perecível, que se prova
pelo fogo – seja digna de louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo Se
manifestar. 8Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda,
acreditais n'Ele. E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa, 9porque
conseguis o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.
Em todos os domingos pascais deste
ano A vamos ter como 2^ª leitura um trecho da 1ª Carta de Pedro. Estes vv. têm
um certo aspecto de hino trinitário
de sabor baptismal (v. 3): dão-se graças ao Pai (v. 3-5; cf. Ef 2, 4; Col 1,
12), pela obra salvadora do Filho (v. 6-9); a referência ao Espírito Santo é
deixada for a da leitura de hoje (vv. 10-12).
3-4 “Nos fez renascer pela
Ressurreição”. A Ressurreição de Jesus, facto realmente sucedido “ao
terceiro dia”, tem uma dimensão existencial que nos afecta “hoje, agora”: pela união
a Cristo ressuscitado, também nós ressuscitamos para uma vida nova (cf. Rom 6,
4-11), “renascemos para uma esperança
viva” (cf. Jo 1, 13; 3, 5-7; Gal 6, 15; Tit 3, 5); é assim a esperança
cristã, não uma mera utopia: o seu objecto material é a verdadeira vida, a vida
eterna: “uma herança que não se
corrompe... herança reservada nos Céus para vós” (vv. 3-4).
6
“Isto vos enche de alegria”. A
esperança na “herança” e “salvação” eternas é fonte de alegria no meio das “diversas provações” pelas que “é preciso passar”. Isto não tem nada de
alienante, uma vez que o objecto da esperança, o Céu, tem existência real e
está ao nosso alcance: a certeza da esperança é firmíssima e não nos deixa
confundidos, uma vez que Deus é “omnipotente, infinitamente misericordioso e
fidelíssimo às suas promessas”, havendo apenas a recear de nós próprios, que
podemos vir a ser infiéis a Deus e a seu plano salvador. Esta esperança no Céu
é algo que responsabiliza os cristãos mais fortemente do que os demais
cidadãos, uma vez que eles sabem que não podam chegar ao Céu se não se
preocupam pelo bem dos seus semelhantes, incluindo o que respeita ao bem-estar
material (cf. Mt 25, 34-46).
“Sem O verdes ainda, acreditais
n’Ele”. É
fácil descobrir nestas palavras uma alusão ao que, na Missa de hoje, Jesus diz
a Tomé.
A vida cristã, vida de
ressuscitados com Cristo, é uma vida teologal, vida de fé, esperança e amor, a
qual nos leva a estar “cheios de alegria
inefável”, já agora.
Evangelho
São João 20, 19–31
19Na tarde daquele
dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os
discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou–Se no meio
deles e disse–lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto,
mostrou–lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem
o Senhor. 21Jesus disse–lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim
como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto,
soprou sobre eles e disse–lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles
a quem perdoardes os pecados ser–lhes–ão perdoados; e àqueles a quem os
retiverdes serão retidos». 24Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não
estava com eles quando veio Jesus. 25Disseram–lhe os outros
discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu–lhes: «Se não vir nas suas mãos
o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu
lado, não acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os discípulos
outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou–Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois
disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e
mete–a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé
respondeu–Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse–lhe Jesus: «Porque
Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». 30Muitos
outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão
escritos neste livro. 31Estes, porém, foram escritos para
acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando,
tenhais a vida em seu nome.
19 “A paz esteja convosco!” Não se trata de uma mera saudação, a mais
corrente entre os Judeus, mesmo ainda hoje. Esta insistência joanina nas
palavras do Senhor ressuscitado (vv. 19.21.26) é grandemente expressiva: com a
sua Morte e Ressurreição Jesus acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus,
origem e alicerce de toda a verdadeira paz (cf. Jo 14, 27; Rom 5, 1; Ef 2, 14;
Col 1, 20).
20 “Ficaram cheios de alegria”. Esta observação confere ao relato uma
grande credibilidade; com efeito, naqueles discípulos espavoridos (v. 19),
desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção de alegria, ao verem o
Senhor; ao contrário do que era de esperar, não se verifica aqui o esquema
habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre há uma
reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos Apóstolos procede da
certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de verem como Jesus reatava
com eles a intimidade anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha
da sua deslealdade.
22 “Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo”. Este soprar de Jesus
não é ainda “o vento impetuoso” do dia de Pentecostes; é um sinal visível do
dom invisível do Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa
sopro). Esta efusão do Espírito Santo não é a mesma que se dá 50 dias depois.
Aqui, tem por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só
aos Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que
no dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos
reunidos com Maria no Cenáculo, iluminando-os e fortalecendo-os com carismas
extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que já estavam incumbidos.
23 “A quem perdoardes os pecados…”: não se trata de um mero preceito
da pregação do perdão dos pecados que Deus concede a quem confia nesse perdão
(interpretação protestante); é uma das poucas passagens da Bíblia cujo sentido
foi solenemente definido como dogma de fé: estas palavras “devem entender-se do
poder de perdoar e reter os pecados no Sacramento da Penitência” (DzS 913); o
mesmo Concílio de Trento também se baseia nestas palavras para falar da
necessidade de confessar todos os pecados graves depois do Baptismo, uma
doutrina que tem vindo a ser reafirmada pelo Magistério: “a doutrina do
Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente na
prática”; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave
necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colectiva
de pecados graves ficam com a grave obrigação de os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da Congregação para a
Doutrina da Fé, 16-VI-1972).
“Ser-lhes-ão perdoados”: esta expressão é muito forte, pois
temos aqui o chamado passivum divinum,
isto é, o uso judaico da voz passiva para evitar pronunciar o nome inefável de
Deus; sendo assim, a expressão corresponde a “Deus lhes perdoará”, e “serão
retidos” equivale a “serão retidos
por Deus”, isto é, Deus não perdoará.
24 “Tomé”, nome aramaico Tomá
significa “gémeo”; em grego, dídymos.
29 “Felizes os que acreditam sem terem visto”. Para a generalidade dos
fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais apoio humano verificável do que o
testemunho grandemente crível da pregação apostólica e da Igreja através dos
séculos (cf. Jo 17, 20). Para crer não precisamos de milagres, chega a graça,
que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade de
coração. O facto de as coisas da fé não serem evidentes, nem uma mera
descoberta da razão, só confere mérito à atitude do crente, que crê porque
Deus, que revela, não se engana nem pode enganar-nos. Por isso, Jesus
proclama-nos “felizes”, ao
submetermos o nosso pensamento e a nossa vontade a Deus na entrega que o acto
de fé implica. Tanto Tomé, naquela ocasião, como nós, agora, temos garantias de
credibilidade suficientes para aceitar a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas
para não crer são escusas culpáveis, escusas de mau pagador.
30-31 Temos aqui a primeira
conclusão do Evangelho de S. João que nos deixa ver o objectivo que o
Evangelista se propôs. Este Evangelho foi escrito para crermos que “Jesus é o Messias, o Filho de Deus”.
Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca ou caminhada sem
uma base doutrinal, um conteúdo de ensino
(cf. Rom 6, 17), pois exige que se aceitem “verdades” como esta, a saber, que
Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou
messiânico, mas o “Filho Unigénito que está no seio do Pai” (Jo 1, 18),
verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” (v. 28; cf. Jo 1, 1; Rom 9, 5). Há quem
veja o Evangelho segundo S. João contido dentro de uma grande inclusão, que põe
em evidência a divindade de Cristo: Jo 1, 1 (O
Verbo era Deus) e Jo 20, 28 (meu
Senhor e meu Deus), tendo como centro e clímax a afirmação de Jesus: Eu e o Pai somos Um (10, 30).